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THAT THE WORD OF THE LORD MAY RUN AND BE GLORIFIED
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    Vessels Of Mercy #5 © 2026 Christian Testimony Ministry
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    Vessels Of Mercy #5
    Vessels Of Mercy #5
    Lambert, Lance

    A transformação de Jacó no Jaboque

    Gênesis 32:25-32:

    E, vendo Ele que não prevalecia contra ele, tocou a juntura de sua coxa; e se deslocou a juntura da coxa de Jacó, enquanto lutava com Ele.
    E disse: Deixa-Me ir, porque já a alva sobe.
    Porém ele disse: Não Te deixarei ir, se me não abençoares.
    E disse-lhe: Qual é o teu nome? E ele disse: Jacó.
    Então disse: Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel: pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.
    E Jacó Lhe perguntou, e disse: Dá-me, peço-Te, a saber o Teu nome. E disse: Por que perguntas pelo Meu nome? E abençoou-o ali.
    E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel: porque, dizia, tenho visto a Deus face a face, e a minha vida foi preservada.
    E saiu-lhe o sol, quando passou a Penuel; e manquejava da sua coxa.
    Por isso os filhos de Israel não comem o nervo encolhido, que está sobre a juntura da coxa, até o dia de hoje; porquanto Ele tocara a juntura da coxa de Jacó no nervo encolhido.

    Oração inicial

    Ó Pai, nós Te agradecemos por aqueles que estão aqui, em Tua presença, e Te agradecemos, Senhor, porque fizeste uma provisão maravilhosa e suficiente para esta noite. Em Tua maravilhosa presciência, Tu reservaste, Senhor, por assim dizer, especialmente toda a graça e o poder, a unção de que precisamos para este momento desta noite. E, Senhor, somos muito gratos por isso.

    Chegamos a Ti em nossa fraqueza, Senhor, tanto ao falar quanto ao ouvir. Concede-nos que um espírito de quietude venha sobre nós nesta noite. Concede, Senhor, que toda e qualquer arma que o inimigo queira usar para, de uma forma ou de outra, nos afastar do Teu falar e do Teu agir seja, ela própria, frustrada.

    Senhor, queremos Te agradecer por esse glorioso poder que nos deste na Pessoa do Espírito Santo. E, pela fé, nós nos firmamos nisso agora. Senhor, concede que possamos Te ver nesta noite; que possamos receber de Ti nesta noite. Que cada um de nós se encontre face a face Contigo.

    Senhor, juntos Te pedimos isso, humildemente, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.

    O problema da vida natural de Jacó

    Bem, temos falado sobre a vida de Jacó. Falamos sobre o amor de Deus e Jacó — a eleição de Jacó, Deus colocando Seu amor sobre ele. Falamos sobre o propósito de Deus e Jacó. Dedicamos três encontros a essa questão do propósito de Deus e Jacó: para que permanecesse firme o propósito de Deus segundo a eleição, como diz Romanos 9:11 a respeito de Jacó.

    Vimos esse propósito de Deus para Jacó em seus cinco aspectos. Não vou repassá-lo agora. Está tudo gravado, e já estamos adiantados demais no tempo para rever tudo. Isso levaria tempo demais.

    Mas o que quero dizer nesta noite é isto: o propósito de Deus para Jacó era glorioso e significativo. Mas o problema é Jacó.

    O propósito de Deus para Jacó era glorioso e significativo, assim como o propósito de Deus para você e para mim, como Seu povo redimido, é glorioso e significativo. Não há nada pequeno, mesquinho ou insignificante no propósito de Deus para você e para mim. Quando Deus salvou você e me salvou, Ele nos salvou tendo em mente um propósito tremendo, tendo em vista um destino tremendo. Não há absolutamente nada pequeno ou insignificante nisso.

    Mas o nosso problema, assim como aconteceu com Jacó, não é uma questão de ignorância. Jacó não desconhecia o propósito de Deus. Ele valorizava o direito de primogenitura mais do que qualquer outra pessoa. Valorizava-o muito mais do que Esaú. A Bíblia diz que Esaú desprezou seu direito de primogenitura, mas Jacó o estimava tanto que fazia tudo e qualquer coisa para colocá-lo em suas mãos.

    Ele valorizava a palavra de Deus dada a seu pai e a sua mãe: que o mais velho serviria ao mais novo, e que havia nações no ventre dela, ligadas àqueles meninos. Valorizava isso tanto que não conseguia tirar as próprias mãos do propósito de Deus. Tinha de se apoderar daquele direito de primogenitura, mas não conseguia esperar que Deus o fizesse no tempo e à maneira do próprio Deus. Tinha de fazer isso por si mesmo.

    Ele valorizava tanto aquela bênção, a bênção do primogênito, que aderiu ao plano de engano de sua mãe para enganar seu pobre e velho pai, cego e quase surdo, e, de uma forma ou de outra, obter a bênção destinada a Esaú.

    O problema não era ignorância. Quando Deus apareceu a Jacó, como já dissemos nesta noite, o problema não era que ele fosse ignorante. Quando Jacó viu o Senhor acima daquela escada, com anjos subindo e descendo, disse imediatamente, em Gênesis 28:17:

    Esta é a casa de Deus; esta é a porta dos céus.

    Isso demonstra certa percepção espiritual. Demonstra certa perspicácia espiritual. Demonstra discernimento espiritual. Não sei quantas pessoas aqui entenderiam, se vissem uma escada que se estendesse da terra ao céu, com anjos subindo e descendo por ela. Mas imagino que algumas diriam: “Ah, que maravilha! Uma espécie de elevador espiritual — algo como uma escada rolante. Que maravilhoso! Que empolgante! O que significa tudo isso?”

    Jacó não era um homem ignorante. Era um homem com verdadeira percepção — percepção espiritual. Tinha conhecimento espiritual em abundância. Esse não era o problema.

    Também não era uma questão de zelo. Jacó tinha zelo de sobra. Ele se entregava a essas coisas. Não conseguia evitar. Assim que Deus lhe apareceu, ele fez um acordo.

    “Ó Deus”, disse ele, “Tu disseste que estarás comigo aonde quer que eu vá e que me trarás em segurança de volta a este lugar? Bem, está certo. Se fizeres isso, e acrescentares alimento e roupas para mim, e me abençoares sempre, e me trouxeres de volta em paz à casa de meu pai, então serás o meu Deus. E farei aqui uma casa para Ti. E, de tudo o que me deres, certamente Te darei a décima parte.”

    O problema de Jacó não era ignorância nem apatia. Agora, preciso dizer que o nosso problema, mesmo num grupo como este, muitas vezes é ignorância e muitas vezes é apatia. Alguns de nós ouvimos essas coisas há tantos anos que, de uma forma ou de outra, nem percebemos que nos tornamos apáticos.

    Nada nos comove. Nada nos desafia. Nada nos põe em movimento. Já ouvimos tudo. Sabemos tudo — como naquele hino terrível que costumávamos cantar, embora, na verdade, seja um hino maravilhoso lá do outro lado das Ilhas Britânicas: “Venham se alegrar comigo”. Mas ele termina com um verso terrível: “E agora sei tudo”.

    Isso, pelo menos, resume a apatia de alguns cristãos em relação ao Senhor. Eles sabem tudo.

    A ignorância não era o problema de Jacó. O zelo não era o seu problema. Qual era o problema dele? As circunstâncias? Não. Os relacionamentos? Não. Ele tinha algumas circunstâncias difíceis e alguns relacionamentos difíceis. Qual era o problema? O problema era o próprio Jacó.

    O seu problema e o meu problema não são, essencialmente, a ignorância, nem a falta de zelo. São sempre, essencialmente, você mesmo e eu mesmo. Nós somos o problema.

    De uma forma ou de outra, entregues a nós mesmos, quanto mais conhecimento tivermos e quanto mais zelo tivermos, mais frustraremos o propósito de Deus. Tornamo-nos o próprio meio pelo qual a casa de Deus não pode ser edificada; o próprio meio pelo qual não conseguimos possuir o que é nosso no Senhor; o próprio meio que nos impede de crescer, frutificar e multiplicar — de nos tornarmos um povo.

    Nós mesmos nos impedimos de nos tornar uma bênção para os outros, de poder compartilhar o Senhor com os outros. Fazemos a nós mesmos tropeçar, de modo que não conseguimos chegar ao trono de Deus. Nós somos o problema.

    Não era que Jacó não compreendesse o propósito de Deus ou que não apreciasse as coisas de Deus. Ele compreendia, sim, o propósito de Deus e apreciava, sim, as coisas de Deus. O problema era a força de sua própria vida natural, de sua própria natureza — sua vontade própria, incontrolável e poderosa.

    Agora, não pensem que todo aquele que tem uma vontade própria incontrolável e poderosa é um sujeito de quase dois metros de altura, ombros largos e queixo de granito. Às vezes, irmãzinhas deste tamanhinho, que pesam quase nada, têm uma vontade própria incontrolável. Elas dominam o marido, dominam os filhos, dominam a igreja. Dominariam Deus, se dependesse delas.

    Não pensem que alguém precisa ter um queixo como uma bigorna e uma aparência de tanque de guerra para dizermos: “Ah, vejo de imediato. Essa pessoa tem uma vontade própria incontrolável”. Não, não, não.

    E essas pessoas que se sentam na última fileira — perdoem-me por dizer isto —, sempre com aquele jeito: “Ah, não, não, não, não. Sou muito humilde. Sou muito modesto”. Não estou dizendo que vocês estejam sentados na última fileira por esse motivo nesta noite, mas entendem o que quero dizer.

    “Por favor, você faria isto? Você viria aqui à frente?” “Ah, não, não, não, não, não.” Parecem tão humildes. “Você tocaria piano?” “Não, não, não, não sei tocar piano. Não, não, não me peça. Não me peça.” “Você poderia, por favor, dirigir a reunião?” “Não, não, não, por favor, por favor, por favor. Só quero ficar no meio do povo.”

    Isso é uma bobagem. Essas pessoas muitas vezes têm uma vontade própria tremenda. Controlariam todo o grupo lá da última fileira.

    Portanto, não se esquivem com essa ideia de que são sempre as pessoas que estão à frente, as que estão sempre em evidência, ou as pequeninas, que têm, essencialmente, esse tipo de vontade própria incontrolável. Todos nós a temos, de uma forma ou de outra.

    E a medida em que você e eu precisamos chegar ao nosso Jaboque, onde Deus nos quebranta, corresponde à medida da força de nossa vida natural, numa forma ou noutra. Uma pessoa pode ter uma força emocional tremenda e, portanto, terá de chegar ao quebrantamento nesse ponto.

    Outra pessoa pode ter uma força tremenda em seu poder de raciocínio, em suas faculdades de raciocínio. Não é emotiva, mas é toda intelecto; isso precisa ser quebrantado pelo poder de Deus. Outras pessoas têm uma vontade tremenda — nossa, como são teimosas!

    Nem sempre uma pessoa com grande vontade própria tem uma personalidade marcante. Algumas das pessoas com a vontade própria mais teimosa e obstinada são, na verdade, pessoas bem pequenas. Mas, como um burro, não há quem as faça sair do lugar. Se põem alguma coisa na cabeça, não saem do lugar.

    Era a força espontânea da vida do eu de Jacó — força espontânea. Vocês ouviram isso? A força espontânea da vida do eu de Jacó gerou todo o engano, todas as artimanhas, toda a usurpação de sua vida. Ele não conseguia evitar.

    Quer fosse seu irmão gêmeo Esaú, na questão da primogenitura; quer fosse seu velho pai Isaque — quase cego, quase surdo —, a quem enganou na questão da bênção; quer fosse o tio Labão — quero dizer, não sei o que ele fez com aquelas ovelhas. Até hoje, não sei.

    Conversei com inúmeros pastores de ovelhas em Israel sobre essas ovelhas salpicadas e malhadas, e sobre se descascar varas de álamo e colocá-las onde os animais bebem e comem, de alguma maneira, produz esse resultado. Todos me dizem que não sabem nada a respeito. Conversei com agrônomos, como vocês os chamam deste lado — do meu lado, usamos palavras mais antigas —, mas eles também parecem não saber nada sobre essas varas de álamo descascadas e assim por diante.

    Mas isso não importa. O fato é este: Jacó pensava que, ao fazer aquilo, estava passando a perna no tio. Se foi Deus Quem concedeu a bênção, isso é outra questão. Jacó pensava: “Nossa, essas coisas estão mesmo funcionando!”

    Era uma força espontânea que gerava todas essas artimanhas, todos esses enganos, toda essa usurpação, toda essa manipulação, toda essa tentativa, por assim dizer, de levar a melhor. Ele não conseguia evitar.

    É assim também com todos nós. Somos o maior obstáculo à realização do propósito de Deus, tanto em nossa vida individual quanto em nossa vida coletiva.

    Sabem, eu disse isso nesta manhã e digo novamente. Não quero insistir demais nisso. Não quero tornar o assunto pesado. Mas o fato permanece: conheço pessoas no mundo inteiro que têm tanta verdade sobre a igreja na cabeça que ela está saindo pelos ouvidos. E elas não sabem, mas passaram a vida inteira frustrando a edificação da casa de Deus.

    E, aonde quer que eu vá, dizem: “Ah, irmão, estamos vivendo dias terríveis, numa geração perversa e corrupta, uma geração com coceira nos ouvidos. Eles não querem ouvir essa questão da igreja”. Isso é uma bobagem. Há milhares e milhares de jovens, se não em outro lugar, pelo menos no grande movimento carismático, que anseiam por ouvir sobre a casa de Deus — anseiam por fazer parte desse corpo do Senhor, anseiam por saber o que é funcionar como a igreja de Deus.

    Mas essas pessoas que têm tudo aqui em cima são as que impedem que isso chegue à prática e à realização, e não sabem disso. São Jacós que nunca chegaram ao seu Jaboque.

    Sempre manipulando, sempre organizando conversas, sempre colocando discretamente livrinhos e folhetos no caminho das pessoas, sempre dando um jeito de articular as coisas pelo telefone, sempre tentando, de alguma forma, manipular as coisas. Ah, parece ser Deus, mas não é. É tudo Jacó trabalhando com as coisas de Deus — tentando obter a primogenitura, tentando obter a bênção, tentando obter a prosperidade e a plenitude. Trabalhando, trabalhando, trabalhando, trabalhando, trabalhando.

    Eles viram a casa de Deus. Viram algo do propósito de Deus. Bem, é claro que nunca dizem isso. Falam sobre a cruz. Essa é a coisa extraordinária. Muitos deles falam sobre a cruz porque ela é um tema em sua cabeça. Dizem: “Precisamos morrer. Precisamos morrer”.

    E, quando você fala sobre o Espírito Santo, imediatamente se fecham — morrendo de medo. Eu também acho que têm motivo, porque somente quando o Espírito Santo vem é que você pode conhecer a cruz. Não há maneira, não há maneira de conhecer o Calvário à parte da Pessoa e do ministério do Espírito Santo.

    É uma teoria que torna a pessoa sombria, pesada e aflita. Você anda por aí com aquela expressão triste e com aquele ar de: “O caminho do Senhor — o Seu sacrifício”. Deus não é Aquele que alegra o rosto deles.

    É uma teoria que os faz vestir cores escuras, deixa os cantos da boca permanentemente caídos, os olhos abatidos e os ombros curvados. “O caminho é tão escuro. Mas precisamos seguir este caminho da cruz.”

    Quando o Espírito Santo vem, é pelo Espírito que fazemos morrer as obras do corpo. Não há outro caminho. Fora disso, é afligir a carne. Torna-se uma força da alma. O próprio ensino da cruz e da santidade torna-se uma questão da alma, uma questão psíquica, pelas mãos das mesmas pessoas que dizem que deve haver uma diferença entre alma e espírito.

    E assim impomos a nós mesmos uma estrutura e uma escravidão que mantêm um grupo de pessoas em suas garras, de modo que elas não conseguem ver a realização do propósito de Deus durante sua vida. E a chave de tudo é esta: os Jacós não chegaram ao seu Jaboque.

    Quando um Jacó chega ao seu Jaboque, então Deus intervém, e a força daquele homem, a força daquela mulher, é tocada em seu âmago. Nunca mais são os mesmos.

    Peniel: a face e a presença de Deus

    Quando Jacó mais tarde descreveu essa experiência, a maior de sua vida, a maior crise de sua vida, no vau do Jaboque, não a chamou de quebrantamento, como poderia ter feito. Poderia ter descrito aquele lugar e dito: “Chamarei este lugar de Quebrantamento”.

    Não o chamou de Claudicação. Eu lhes digo: na versão inglesa de vocês, isso não transmite exatamente o que transmite em hebraico, porque, quando o Senhor tocou sua coxa, Ele deslocou seu quadril. E, pelo resto da vida, Jacó andou com o quadril deslocado. Por isso mancou daquele dia até o fim.

    E a última imagem que temos de Jacó no Novo Testamento é a de um homem apoiado na extremidade de seu bordão. Bem, um quadril deslocado, para quem sabe alguma coisa sobre esse tipo de problema, é algo bastante doloroso.

    Ele não o chamou de Claudicação. “Foi ali que Deus me tocou. Foi ali que Deus deslocou meu quadril. Vou chamá-lo de Claudicação.” Nem sequer o chamou de Transformação. Poderia ter dito: “Sei como vou chamar este lugar. Este é o lugar onde o Senhor me transformou. Vou chamá-lo de Transformação”.

    Sabem como ele o chamou? Chamou-o de face de Deus.

    Em hebraico, Peniel. E esta palavra em hebraico, panim, significa literalmente “face”, mas também significa “presença”. Vocês se lembram de quando Moisés disse, em Êxodo 33:15:

    Se a Tua presença não for conosco, não nos faças subir daqui.

    E o Senhor disse, em Êxodo 33:14:

    A Minha presença irá contigo, e Eu te darei descanso.

    Em hebraico, Moisés disse: “Se a Tua face não for conosco, não nos faças subir”. E o Senhor disse: “A Minha face irá contigo, e Eu te darei descanso”, porque, em hebraico, presença, semblante e face são a mesma coisa. A face de uma pessoa é a sua presença. O semblante de uma pessoa é a sua presença.

    E aqui está algo tão maravilhoso, tão extraordinário: essa crise à qual Jacó chegou no vau do Jaboque foi um confronto com a presença do Senhor.

    Agora, ouçam, quero dizer um pouquinho sobre isso, porque me parece que, muitas vezes, você e eu temos medo de qualquer experiência que possa ser custosa e dolorosa. Que maravilhoso que Jacó pudesse chamá-la de presença do Senhor.

    Há muitos níveis diferentes de experiência da presença do Senhor. Jacó encontrou o Senhor primeiro em Betel. Vocês pensariam que aquilo teria sido uma revelação da igreja. Não era aquilo a face de Deus? Não era aquilo a presença do Senhor? Não era aquilo a manifestação resplandecente de Deus? Não era o Senhor agindo? Ele não encontrou o Senhor? Sim.

    Isto era mais profundo. Isto era o fim de Jacó. O primeiro encontro com Deus e a primeira revelação de Deus deixaram Jacó intacto. Ele ainda podia negociar. Ainda era o velho Jacó, só que agora tinha revelação.

    Ah, como é perigoso ter um Jacó com revelação. A igreja está cheia de Jacós com revelação. Bem, não vou dizer cheia, mas há um bom número de nós. Somos Jacós, mas temos revelação. Temos experiência do Senhor, mas não conseguimos evitar: começamos a manipular, começamos a trabalhar para fazer a coisa acontecer, começamos a tentar, de um jeito ou de outro, realizá-la por algum meio.

    A necessidade do Jaboque

    Agora, gostaria de dizer basicamente três coisas sobre esse assunto nesta noite. E confio realmente no Senhor para que Ele faça esta mensagem, mais do que qualquer outra, chegar ao seu coração.

    Em primeiro lugar, a necessidade do Jaboque. Vocês entendem o que quero dizer quando falo da necessidade do Jaboque. O Jaboque era o rio ao qual Jacó chegou, onde teve aquela experiência.

    Observem uma pequena coisa, por favor. Gênesis 32:24 diz:

    Jacó, porém, ficou só.

    O Jaboque é uma necessidade absoluta em qualquer vida que queira prosseguir com Deus. Você quer prosseguir com o Senhor? Quer seguir o Cordeiro até o fim? Quer realmente que Deus faça em você uma obra que o leve ao Seu trono? Quer realmente chegar àquela cidade e fazer parte daquela noiva, daquela esposa do Cordeiro? Então, escute-me.

    Por que Deus chamou Seu povo de Jacó e Israel? Porque, no coração da casa de Deus, no coração da igreja de Deus, no coração do povo eleito de Deus, deve haver uma transformação de Jacó em Israel. Não estou falando de conversão. Estou falando do que vem depois da conversão.

    Esse homem era um filho de Deus na aliança muito antes de chegar ao seu Jaboque. Seu problema era que ele era convertido, mas sua força natural, de fato, não havia sido tocada.

    Há milhares e milhares de cristãos que são verdadeiramente convertidos, verdadeiramente nascidos de Deus, mas sua força natural, seus recursos naturais, sua energia natural — aquilo que são em si mesmos — permanecem totalmente intocados. E esse é o problema.

    O Jaboque é uma necessidade em qualquer vida que vá prosseguir, ter poder com Deus, ser um príncipe com Deus, chegar ao trono de Deus e edificar a casa de Deus. Não há alternativa. Vocês ouviram isso? Não há alternativa. Resolvam isso agora em seu coração. Não há alternativa a esse tipo de experiência.

    Em princípio, não nos detalhes. Em princípio, todo crente precisa ter sua experiência do Jaboque. E, mais cedo ou mais tarde, ela virá a todos os que prosseguem com o Senhor.

    Não há outro caminho para Jacó se tornar Israel, para o homem das artimanhas se tornar o príncipe com Deus.

    O momento escolhido por Deus para um Jaboque é sempre perfeito. Espero que vocês ouçam cada palavra que digo nesta noite sobre esse assunto. Tenho muito a dizer, e tudo isso, a meu ver, é muito importante. O momento escolhido por Deus para um Jaboque é absolutamente perfeito. Nunca é cedo demais, e nunca é tarde demais.

    Ele o planeja com o cuidado mais minucioso: organizando circunstâncias, organizando problemas familiares, organizando relacionamentos, organizando a chegada de pessoas difíceis à sua vida — todo tipo de coisa. Cada detalhe é levado em conta pela soberania de Deus. Ele organiza tudo.

    E chega um momento em que Jacó fica só — absolutamente só.

    O Jaboque vem a todos os que desejam prosseguir com Deus. Era um vau. Agora, vou lhes dar uma pequena aula de geografia por um momento. O Jaboque é um rio do outro lado do Jordão, na margem oriental do Jordão, e esse vau é o único lugar por onde se pode atravessá-lo por vários quilômetros.

    Portanto, em certo sentido, Jacó precisava chegar àquele vau específico. Atrás dele estava o tio Labão, furioso. À sua frente estava seu irmão gêmeo Esaú com um ódio assassino e vingativo, pelo que Jacó sabia.

    Deus sabe exatamente como encurralar Seus santos. Você acha que vai escapar, não é? Espere. Espere só. Um dia destes, em sua própria vida e à sua própria maneira, você terá atrás de si um tio Labão furioso e, à sua frente, seu irmão gêmeo Esaú, que você pensa estar cheio de ódio vingativo. Você não pode voltar. Não pode seguir adiante. Está encurralado.

    É muito interessante que, pouco antes disso, o querido Jacó, a caminho do Jaboque, viu dois grupos de anjos. Ele realmente fala disso no início de Gênesis 32:1-2, e chama o lugar de Maanaim — que ainda existe até hoje —, que significa “dois grupos”, dois acampamentos em hebraico.

    Eu pensaria que isso o teria consolado, especialmente depois do que eu disse sobre os anjos. Às vezes me pergunto sobre esses dois grupos — se um estava saindo e o outro descendo. Não sei. Mas, de qualquer modo, havia dois grupos de anjos. Ele viu dois grupos de anjos.

    Mas agora ele está sozinho e, pelo que podemos perceber, não havia grupo algum de anjos ao seu redor. Estava sozinho. Estava preso — não, ao que parece, pelas circunstâncias ou pelas pessoas, mas por Deus.

    Quando Deus o levar ao seu Jaboque, parecerá que são circunstâncias, problemas, dificuldades insuperáveis, relacionamentos, situações; e muito, muito raramente você perceberá que é Deus.

    Você pensará que é você mesmo — sua própria insensatez, sua própria estupidez, sua própria força de vontade. Por fim, chega a perceber que é seu próprio pior inimigo e que, no fim, colhe aquilo que semeou.

    É assim que Deus nos leva a esse lugar. Seria maravilhoso poder dizer: “Ah, se as pessoas pudessem chegar ao seu Jaboque levadas nas asas dos anjos, flutuando até lá, deslizando para dentro dele pelo poder de Deus”. Aquela bela ideia sentimental: “Aqui estou, Senhor, quebranta-me”.

    Já ouvi pessoas pedirem ao Senhor que as quebrantasse, e realmente senti como que um choque elétrico no coração. Pensei: “Será que sabem o que estão pedindo?” Pensam que algum anjo virá, pegará sua doce mãozinha e a beijará, e então a pregará na cruz; depois pegará a outra mão, a beijará e a pregará do outro lado da cruz. Sabem, uma bela experiência de êxtase, de ser crucificado com Cristo.

    Não acontece assim. As pessoas mais próximas e mais queridas farão isso por você. É assim que acontece.

    O chefe. Os funcionários. Seus amados irmãos e irmãs no grupo. Sua esposa, seu marido, seus filhos, seus pais. São eles que Deus usa para pegar essas suas mãos, relutantes, ressentidas, rebeldes, e forçá-las contra a cruz, cravando os pregos nelas.

    Você disse: “Senhor, quero ser quebrantado. Quero ser quebrantado”. O Senhor disse: “Muito bem”. E então Ele organiza circunstâncias, relacionamentos, e as coisas começam a dar errado. A vida em casa fica difícil. A vida profissional fica difícil.

    “Ó Senhor, o que está acontecendo? Eu não queria prosseguir Contigo? Não disse que queria que Tu me quebrantasses, para que eu pudesse me tornar um grande pregador, para que pudesse me tornar um grande servo do Senhor, para que pudesse contribuir para a casa de Deus? Tudo está dando errado, Senhor.”

    Deus conhece seu velho Jacó muito bem. Seu Jacó pode ter no rosto um sorriso muito doce, beatífico e piedoso, mas Deus não Se deixa enganar. Deus sabe exatamente o que está por trás de você e dentro de você.

    Seu Jacó pode recitar as Escrituras sem parar, pode saber tudo sobre a casa de Deus. Deus não é enganado. Ele conhece o Jacó em você. E, quando você disse: “Ah, vou até o fim”, então Deus disse: “Muito bem. Vou levar sua palavra a sério. Você chegará ao seu Jaboque”.

    Portanto, aqui está a primeira coisa: essa experiência do Jaboque é uma necessidade absoluta em princípio. Sublinho isso, porque ela nem sempre é igual nos detalhes para todos. Mas todos precisam chegar a um lugar em que não saibam mais o que fazer, em que não possam seguir adiante nem voltar, e estejam sozinhos.

    Não podem chamar o irmão fulano, ou o irmão sicrano, ou a irmã fulana. Pela primeira vez, Deus pode até ter tensionado os relacionamentos com aqueles que estão mais próximos de você, de modo que esteja totalmente sozinho. Puro Jacó.

    O verdadeiro autoconhecimento

    Aqui está a segunda coisa que quero dizer nesta noite sobre essa experiência do Jaboque: você não pode se tornar Israel até ter um verdadeiro autoconhecimento. Agora, quero ter muito cuidado com o que digo aqui.

    Você não pode se tornar um príncipe com Deus e com os homens. Não pode se tornar alguém que Deus possa usar para cumprir Seu propósito até ter um verdadeiro autoconhecimento. Não estamos prontos para o nosso Jaboque até conhecermos e enxergarmos a nós mesmos como realmente somos.

    Isso não acontece por alguém dizer de repente: “Ah, preciso me afastar, sentar e examinar a mim mesmo. Agora vou me investigar exaustivamente”. Isso, novamente, é apenas religião. Não é dessa experiência que estou falando. É a face de Deus, não a minha face.

    Mas, vejam, Deus, da maneira mais maravilhosa, nos coloca face a face conosco mesmos antes que possamos ver Deus face a face.

    A autopreservação é um fator forte demais em todos nós para permitir que cheguemos ao autoconhecimento. A maioria de nós tem um instinto de autopreservação tão forte que tem medo de realmente enxergar a si mesma. É por isso que algumas pessoas têm medo do Espírito Santo.

    É um conhecimento intuitivo de que, se o Espírito Santo realmente vier, isso vai me custar, de fato — não como uma ideia sentimental, mas de fato —, muita coisa. E algo recua.

    Fico bastante admirado com as pessoas que não conhecem a si mesmas. Imagino que todos vocês tenham exemplos disso.

    Conheço um irmão que me escreveu há alguns anos. Numa longa carta, reclamando amargamente de certos outros irmãos, disse no final: “Agora, Lance, você sabe que sou um dos homens mais humildes do mundo”.

    Esse irmão era muito generoso, mas havia uma coisa que ele não era: humilde. Porém, pensava que era um dos homens mais humildes do mundo. Falava com toda a sinceridade. Amava o Senhor. Era muito zeloso, muito dedicado. Tinha verdadeira compreensão da verdade sobre a igreja e, ainda assim, pensava que era um homem humilde. Pensava que Deus havia tratado com ele, mas Ele não havia tratado. Seu orgulho era seu grande problema.

    Lembro-me de outra pessoa que sempre me dizia como era generosa. Bem, perguntem a qualquer um sobre essa pessoa em particular: era o crente mais mesquinho que eu havia conhecido em décadas. Contava cada centavo.

    Minha nossa, e pensava que era tão generosa! Dava dez dólares e achava que o lugar inteiro deveria vir lhe prestar homenagem. Tinha sido tão generosa! Soem as trombetas. Estendam o tapete vermelho no céu. “O irmão Fulano foi generoso mais uma vez. Deu dez dólares ao fundo das viúvas.”

    Mas é espantoso como não conhecemos a nós mesmos. Havia outra irmã, lembro-me, na igreja à qual eu pertencia quando fui salvo — uma igreja batista. Ela costumava dizer: “Agora, Lance, você pode me contar qualquer coisa. Sabe, há uma coisa que sei fazer: guardar um segredo”.

    Essa querida irmã — nós a chamávamos de tia Mac — não tinha jeito: se você quisesse que alguma coisa circulasse por toda a região de Richmond em vinte e quatro horas, contasse à tia Mac e dissesse que era confidencial. Aquilo percorreria toda a região.

    Ela achava que era maravilhosa em guardar segredos. Agora, ouçam: sei que todos vocês riem, mas isso não é verdade a respeito de todos nós? Esse não é o problema na comunhão da igreja? Algumas pessoas pensam que são tão breves ao falar — como eu —, mas somos prolixos. As pessoas dizem: “Você fala demais”, mas não acreditamos que falamos demais.

    Todos nós temos nossos problemas. Alguns dizem: “Sabe, meu grande dom é que consigo suportar”. Não conseguem. Essa é sua fraqueza. E, muitas vezes, o que pensamos ser nosso ponto forte é, na realidade, nosso ponto fraco.

    Que obra Satanás fez no engano! Que mentira se inscreveu em nossa própria corrente sanguínea — a corrente sanguínea de nossa natureza caída. E que obra Deus precisa fazer para que a verdade nos liberte.

    Essa questão do verdadeiro autoconhecimento é a verdade nos libertando. Quando uma pessoa começa a realmente enxergar a si mesma, ela fica livre. Jacó nunca enxergou a si mesmo. Vocês não percebem isso? Nunca enxergou a si mesmo.

    Ele não sabia que era um enganador ou um usurpador. Se alguém o tivesse acusado de ser um enganador ou um usurpador, teria ficado indignado. Teria se enchido de uma indignação que julgava justa. “Eu? Eu? Um enganador? Um trapaceiro? Eu?”

    Não é interessante que o anjo tenha dito a Jacó, em Gênesis 32:27:

    Qual é o teu nome?

    Nesse momento, Jacó compreendeu a si mesmo. Poderia ter dito: “Ah, sou neto de Abraão”. Talvez pensasse que isso deveria bastar para conseguir uma bênção do anjo. Ou poderia ter dito: “Sou filho de Isaque”. Talvez isso lhe rendesse uma bênção.

    Mas Jacó finalmente disse apenas: “Jacó” — aquele que usurpa, aquele que agarra o calcanhar do outro, fazendo-o tropeçar, derrubando-o para trás, para poder tomar o primeiro lugar.

    Como Deus o levou a esse ponto? Bem, isso levou muitos anos. Mas, sabem, a maneira como Deus fez isso foi muito simples: colocando-o junto de outras pessoas que eram tão trapaceiras quanto ele.

    E essa é a maneira infalível de Deus levar você e a mim a reconhecer a nós mesmos: Ele nos coloca com pessoas semelhantes a nós. Só que não percebemos.

    Talvez vocês ainda não entendam aonde quero chegar. Mas, vejam, o que Deus fez foi isto: Jacó era o maior trapaceiro do Oriente Médio. Então Deus disse: “Agora, quem é o segundo maior trapaceiro do Oriente Médio? O tio Labão. Certo. Vamos colocar Jacó com o tio Labão por vinte anos, e eles passarão a perna um no outro”.

    E foi exatamente isso que aconteceu.

    Jacó chega a Labão e diz: “Você acha que poderia me contratar? Só quero trabalhar, é claro. Você me pagará um salário”.

    E então o tio Labão disse: “Você é casado?” E Jacó disse: “Não”. “Você gosta das minhas filhas?” E Jacó disse: “Apaixonei-me por Raquel”. “Ora”, disse o tio Labão, “que esplêndido! Muito bem, então, trabalhe para mim por sete anos e terá Raquel.” “Combinado?” “Combinado.”

    E Jacó trabalhou sete anos. Isso não parece muito coisa de um trapaceiro, não é? Deve ter havido muito de bom em Jacó — muita coisa atraente, muita coisa bela, muita coisa nobre. O homem trabalhou até se esgotar durante sete anos.

    E, no fim, na cerimônia de casamento — se vocês conhecem alguma coisa dos costumes judaicos orientais —, é claro que ele não viu a noiva. Ela estava inteiramente coberta por um véu espesso. Foi somente quando todo o ritual terminou, quando a cerimônia se encerrou e os dois estavam casados, que, ao levantar o véu, ele encontrou Lia, para seu horror.

    Vocês conseguem ouvir Jacó? Eu consigo ouvi-lo, furioso, indignado, quase sem palavras. “Como alguém pôde fazer uma coisa dessas? Como alguém pode cometer uma fraude dessas? Como você pôde fazer isso com alguém de seu próprio sangue? Meu tio fez isso comigo — seu sobrinho, o irmão de minha mãe! Já viram uma coisa dessas?”

    “O que vocês acham? Trabalhei sete anos para esse homem, por Raquel, e o que descubro? Estou casado com Lia.” Agora, coloquem-se nessa situação. Vocês não ficariam escandalizados?

    Ele nunca pensou. Nem uma vez pensou: “Passei a perna no meu irmão gêmeo e o enganei. Enganei meu velho pai cego”. Isso nunca lhe passou pela cabeça. Apenas: “Como alguém pôde fazer uma coisa tão terrível com um homem como eu — alguém de seu próprio sangue, seu próprio sobrinho?”

    Tenho certa simpatia pelo querido e velho tio Labão. Vocês talvez não tenham, mas eu tenho. Porque, segundo o costume judaico oriental e, de fato, o costume beduíno até hoje, se a filha mais nova se casa primeiro, ninguém jamais se casará com a mais velha, porque dizem que devia haver alguma coisa errada com ela. Ela foi preterida.

    Portanto, era praticamente condenar Lia a ficar solteira. O querido e velho tio Labão — vejam, os trapaceiros não são apenas pessoas sombrias e maldosas. Ele deve ter pensado: “Ah, meu Deus. Agora, Raquel — bem, isso não é justo com Lia”.

    Então foi conversar com Lia e disse: “Agora, Lia, minha querida, sei que você está muito infeliz com essa história de Raquel. Nunca vamos conseguir casar você se isso prosseguir. Você precisa colaborar com este plano. Agora, querida, ande como sua irmã. Aja como sua irmã, e mantenha essa sua boca bem fechada até a cerimônia acabar”.

    Em outras palavras, não era só o tio Labão que estava envolvido na fraude; Lia também estava.

    Agora vocês entendem o que estou tentando dizer. Ali estava o pobre Jacó, e de repente ele viu a si mesmo pela primeira vez. Viu a si mesmo no tio Labão. E agora olhou para Lia e viu a si mesmo novamente, em Lia.

    Havia uma pessoa que ele considerava a criação de Deus mais doce, mais querida e mais encantadora, e essa era sua amada Raquel. Jamais um pensamento mau passava pela mente da doce Raquel.

    Então ele trabalhou. Embora o acordo tivesse sido quebrado, quando ficou indignado, o tio Labão disse: “Ah, meu filho, meu filho, eu entendo tudo isso. Mas o que poderíamos fazer com a pobre Lia? Ela teria ficado solteira pelo resto da vida. Não podíamos fazer isso, meu filho. Precisávamos casá-la. Perdoe-nos”.

    “Mas escute: se trabalhar mais sete anos, poderá ter Raquel. Poderá tê-la ao final desta semana. Mas precisa trabalhar mais sete anos.” Então o querido Jacó disse: “Está bem”, e lá foi ele trabalhar.

    Ele sempre achou que Raquel era a pessoa mais doce do mundo. Agora, o tio Labão e Jacó passaram vinte anos passando a perna um no outro o tempo todo. Jacó nunca percebia que era ele mesmo. Sempre pensava que era o tio Labão. Só lentamente começou a compreender que estava vendo a si mesmo em outra pessoa.

    E então teve todos os problemas com Lia e as rivalidades entre Lia e Raquel, e todos os pequenos estratagemas que elas inventavam. Tudo era engano, manipulação — aquilo tudo era uma trama de artimanhas. Ele via a si mesmo em Lia e sempre tomava o partido de Raquel.

    Chegou um momento em que Jacó estava absolutamente esgotado. Viu a si mesmo, e então Deus disse: “Eu sou o Deus de Betel, a casa de Deus. Volte à terra de seu nascimento”.

    E assim Jacó se levanta e parte. Sai discretamente à noite, enquanto o tio Labão e os outros homens da casa estavam fora, tosquiando as ovelhas. Partiu, levando seus próprios rebanhos e tudo o mais, que era bastante considerável. Lá foi ele com suas esposas, com as servas, com todos os filhos — um grande grupo.

    Tinham percorrido três dias de viagem quando alguém correu até Jacó e disse: “Veja, há uma nuvem de poeira no horizonte — alguns cavaleiros vêm a toda velocidade”. E imagino que Jacó tenha pensado: “Quem será?” Então, para seu horror, vê saindo da poeira, avançando estrondosamente num garanhão árabe, o querido e velho tio Labão. E a expressão no rosto do tio Labão não era de paz.

    Quando finalmente alcança todo o grupo, o tio Labão salta do cavalo. Não consegue esperar. Disse: “Como você pôde fazer uma coisa dessas, saindo às escondidas enquanto todos nós estávamos fora, tosquiando as ovelhas? Nem pude beijar minhas filhas. Não pude beijar meus netos. É assim que se faz? Por que você saiu às escondidas desse jeito?”

    “E, além disso”, disse ele, apontando, imagino, o dedo para Jacó, “você roubou os deuses da família.”

    Ora, havia uma coisa que Jacó não tinha feito: roubar os deuses da família. Ele não acreditava nos deuses da família — em todos aqueles ídolos. Por isso ficou indignado. E disse: “Escute aqui. Você mudou meu salário dez vezes em vinte anos, passou a perna em mim na questão de Lia e Raquel, e eu não tenho nada a ver com seus ídolos”.

    “Revistem todos. E deixe-me dizer uma coisa: aquele com quem vocês encontrarem esses ídolos, em sua posse ou em sua bagagem, morrerá.”

    E os homens de Labão procuraram por toda parte. E o texto em hebraico diz, de maneira muito mais expressiva do que em inglês, que eles apalparam a bagagem.

    E Labão chegou a Raquel. Disse: “Vou revistar seu lugar também”. Ela disse ao pai: “Pode revistar”. E ele procurou por toda parte, apalpando a bagagem. Raquel estava sentada na sela do camelo, que é uma coisa grande.

    E ela disse: “Papai, não estou me sentindo muito bem. O senhor não quer que eu me levante, quer?” “Não, minha querida, é claro que não.” E ele percorreu tudo ao redor, apalpando. O que não sabia era que Raquel estava sentada sobre os deuses da família. Ela havia escondido todos debaixo da sela do camelo.

    Agora, vocês se perguntam por quê. Raquel acreditava em ídolos? Não. Vejam, antigamente os ídolos eram os títulos de propriedade das terras e dos rebanhos. E, por direito, as esposas de Jacó tinham uma boa parte das propriedades de seu pai.

    E Raquel pensou em sua cabecinha cheia de artimanhas: “Vamos embora sem nenhum dos títulos de propriedade de tudo o que deveria ser meu e de minha irmã? De jeito nenhum”. E foi lá e pegou todos os títulos de propriedade, exatamente como você os tiraria de um cofre no banco, e colocou tudo debaixo da sela.

    A tragédia foi esta: o que Jacó havia dito era profético. Dentro de um ano — dentro de meses —, Raquel havia morrido.

    Portanto, meu ponto é este: finalmente, depois de toda essa experiência, Jacó vê a si mesmo primeiro no tio Labão, depois em sua esposa Lia, e então na pessoa mais pura e doce do mundo, em cujo coração e mente nunca surgia um pensamento mau — a querida Raquel. E, de repente, vê a si mesmo em Raquel.

    Aquilo foi o fim. Pela primeira vez, Jacó sentiu aversão — aversão a si mesmo. E Deus planejou o Jaboque exatamente naquele momento. Ele estava sozinho. E então o anjo veio.

    Você já chegou a esse ponto? Talvez aquele irmão ou aquela irmã que você considera tão difícil, que sempre o irrita, seja justamente a pessoa em quem você está vendo a si mesmo, sem sequer perceber. É apenas um espelho. Você está vendo a si mesmo.

    Aquela pessoa com quem você precisa conviver, com quem não consegue se dar bem — na verdade, você está vendo a si mesmo. Algumas das coisas que o deixam tão zangado em seus filhos são você mesmo neles. Algumas das coisas que o deixam tão zangado nos outros são, na verdade, seu próprio eu refletido. Só que você não sabe disso.

    Você chegará a perceber. Chegará a perceber. Essa é uma verdade difícil de engolir, porque todos nós temos coisas uns nos outros que não conseguimos suportar. E é uma verdade muito difícil de engolir que talvez estejamos vendo a nós mesmos neles. Mas é assim que finalmente chegamos a um verdadeiro autoconhecimento.

    Então estamos prontos para o nosso Jaboque.

    O desespero da verdadeira fé

    Agora, por fim, quero falar sobre o desespero da verdadeira fé. Existe uma experiência como essa experiência do Jaboque? Certamente existe.

    Wesley a registrou anos atrás num hino que nunca é cantado hoje. Na verdade, ele tem doze estrofes. Não vou ler todas as doze para vocês. Mas um dia Charles Wesley, tomado de uma completa aversão a si mesmo, decidiu se fechar com Deus durante um dia e uma noite inteiros, e escreveu um hino extraordinário ao longo daquelas horas.

    E foi isto que ele escreveu:

    Vem, ó Tu, Viajante desconhecido,
    A Quem ainda seguro, mas não posso ver;
    Meus companheiros foram adiante,
    E fui deixado a sós Contigo.
    Contigo pretendo ficar toda a noite,
    E lutar até o romper do dia.

    Não preciso Te dizer quem sou;
    Meu pecado e minha miséria o declaram.
    Tu mesmo me chamaste pelo nome;
    Olha para Tuas mãos e lê-o ali.
    Mas Quem, pergunto-Te, Quem és Tu?
    Dize-me Teu nome, e dize-me agora.

    Em vão Te debates para Te libertar;
    Jamais soltarei o que agarrei:
    És Tu o Homem que morreu por mim?
    Revela o segredo do Teu amor.
    Lutando, não Te deixarei ir
    Até conhecer Teu nome, Tua natureza.

    Cede a mim agora, pois sou fraco,
    Mas confiante, sem esperança em mim mesmo;
    Fala ao meu coração, fala em bênçãos;
    Deixa-Te vencer por minha oração insistente.
    Fala, ou jamais sairás daqui,
    E dize-me se Teu nome é Amor.

    É Amor! É Amor! Tu morreste por mim;
    Ouço Teu sussurro em meu coração.
    A manhã desponta, as sombras fogem;
    Tu és puro Amor universal.
    A mim, a todos, se estendem Tuas misericórdias;
    Tua natureza e Teu nome são Amor.

    Embora manco, tomo a presa;
    Inferno, terra e pecado venço com facilidade.
    Salto de alegria, prossigo em meu caminho,
    E, como um cervo que salta, corro
    Por toda a eternidade para comprovar:
    Tua natureza e Teu nome são Amor.

    Isso é o monumento à experiência de um homem com Deus. Isso acontece. Se tivéssemos tempo, eu poderia falar de todo tipo de homem na história da igreja, voltando até Agostinho, e até antes dele, homens que precisaram chegar ao seu próprio Jaboque, que chegaram ao conhecimento de si mesmos e tiveram esse desespero da verdadeira fé.

    Que bela expressão naquele hino — em parte, foi por isso que o li: “Confiante, sem esperança em mim mesmo.”

    Ah, a confiança de quem perdeu a esperança em si mesmo. Enquanto você ainda tem confiança em si mesmo, sempre dispõe de uma saída de emergência, de uma escada de incêndio. Mas, quando chega ao fim de si mesmo, não pode voltar; não pode seguir adiante.

    Em seu coração, pelo Espírito de Deus, vem a fé do verdadeiro desespero. Perder a esperança em si mesmo, conhecer a si mesmo — isso não basta. É a verdadeira fé, o dom de Deus, que o capacita a se agarrar ao Senhor e não soltá-Lo.

    Vou lhes dizer uma coisa. Se Deus o levar ao seu Jaboque, lembre-se disto, mesmo que se esqueça de todo o resto: nunca solte o Senhor.

    Agarre-se a Ele pela fé e não O solte.

    Margaret Barber também escreveu um hino extraordinário. Ele está, de fato, no hinário de vocês, e fico feliz por isso. Quero apenas lê-lo para vocês.

    Margaret Barber foi chamada por Deus para ir à China como missionária. Foi à China com uma missão evangélica muito respeitável e trabalhou por muitos anos. Mas tinha um sucesso extraordinário, especialmente entre os rapazes, e despertou grande hostilidade e ciúme na comunidade missionária.

    Por fim, uma pessoa maldosa a acusou de cometer adultério. Muitos na comunidade missionária acreditaram nisso a respeito de Margaret Barber. Ela voltou para casa, depois que a missão lhe pediu que antecipasse sua licença. Voltou para casa em desgraça, com a reputação destruída.

    Como já havia entrado numa experiência com o Espírito e a cruz, ela não quis se defender. Na Grã-Bretanha, de coração partido, espiritualmente falida, cansada de si mesma, foi procurar um bispo piedoso chamado Handley Moule.

    E ele, depois de ouvir toda a sua história, disse: “Acredito que você é inocente. Acredito em você”. Então ela disse: “O que devo fazer?” Ele disse: “Deus a chamou para a China?” “Sim”, respondeu ela. Então ele disse: “Deus encerrou esse chamado?” “Não”, respondeu ela. “Então”, disse ele, “você voltará para a China.”

    “Mas”, disse ela, “não posso voltar com a missão.” “Não”, disse ele, “isso não importa. Volte com Deus.” “O quê, sozinha?”, disse ela. “Sim, sozinha. É melhor cair nas mãos Dele.”

    Assim, Margaret Barber, por segurança, levou outra irmã consigo — uma companheira de oração —, e as duas foram para a China. Voltaram ao lugar onde ela havia vivido e trabalhado, mas, em vez de entrar na cidade, ela foi para um lugar alguns quilômetros fora das muralhas, chamado Pagoda Anchorage.

    E ali passou o resto da vida num ministério de intercessão. Não tinha nada para apresentar como resultado. Ah, tinha alguma coisa. Nas tardes de domingo, costumava dar uma aula bíblica para rapazes — estudantes de dezenove, vinte, vinte e cinco anos. Eles vinham. E era tudo o que tinha para mostrar de sua vida, exteriormente, nada mais.

    Mas muitos daqueles rapazes se tornaram nomes conhecidos entre os cristãos na China depois que ela morreu. E o maior deles, é claro, foi Watchman Nee, que aprendeu mais com Margaret Barber do que com qualquer outra pessoa na terra.

    Ela deu sua vida. Abriu mão dela. E foi isto que escreveu:

    Naufragado por completo no peito de Jesus,
    Só almas naufragadas podem assim cantar;
    Pequenos barcos que se agarram à costa,
    Temendo o que a tempestade pode trazer,
    Nunca encontram no peito de Jesus
    Tudo o que almas naufragadas chamam de descanso.

    Naufragados por completo! Assim lamentamos;
    Mas, quando as tempestades fizeram o pior,
    Então a alma, sobrevivendo a tudo,
    É acolhida nos braços eternos;
    Ali descobre que nada pode abalar
    Quem está abrigado em tamanho amor.

    Naufragado por completo! Já não possuo
    Nem sequer um barco para navegar no mar;
    Ainda viajante, mas agora
    Ancorado no infinito.
    Nada resta a fazer senão lançar
    As preocupações de lado e simplesmente me agarrar.

    Naufragado por completo! Foi puro ganho;
    Daqui em diante, outros barcos podem ver
    Que a tempestade pode ser uma bênção,
    Que, por mais revolto que esteja o mar,
    O próprio Deus permanece vigilante,
    Pois o naufragado está em Sua mão.

    Ora, aquele naufragado na mão de Deus, aquela viajante ancorada no infinito, foi quem Deus usou para formar e instruir um homem que significou mais para a igreja na China do que qualquer outro servo individual do Senhor entre aquele grande povo, e que veio a representar uma riqueza incalculável para milhões de crentes entre as nações.

    Ela nunca soube disso. Morreu na fé. Mas o que teria acontecido se nunca tivesse naufragado? O que teria acontecido se nunca tivesse chegado ao seu Jaboque? O que teria acontecido com Wesley? Que hinos jamais teríamos tido se ele não tivesse chegado ao seu Jaboque?

    Vocês entendem do que estou falando?

    Gênesis 32:26:

    Não Te deixarei ir, se me não abençoares.

    A força natural de Jacó foi quebrantada. O Anjo do Senhor, procurando Se afastar dele, disse:

    Deixa-Me ir, porque já a alva sobe.

    Não Te deixarei ir, se me não abençoares.

    E, em Gênesis 32:27:

    Qual é o teu nome?

    Como se o anjo não soubesse. Como se o Senhor não soubesse — Ele havia planejado tudo. Quase poderíamos pensar que o Senhor estava agindo um pouco como Jacó.

    Qual é o teu nome?

    “Jacó. Yaakov — aquele que usurpa, aquele que trapaceia, aquele que engana.”

    Gênesis 32:28:

    Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel:
    Pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.

    Não será mais Yaakov, Jacó. Israel será o seu nome.

    Nunca pense que Deus vai simplesmente carregá-lo até o trono. A soberania de Deus está por trás de sua chegada ao trono. A eleição de Deus está por trás de você. Todo o grande amor de Deus está por trás de você. Mas você precisa chegar ao seu Jaboque e, em seu Jaboque, precisa se agarrar ao Senhor no desespero da verdadeira fé.

    Você nunca obterá coisa alguma com essa atitude fleumática, supostamente equilibrada, sem emoção, diante das coisas espirituais. Somente quando Deus puder finalmente levá-lo ao lugar do puro desespero, Ele poderá incendiá-lo, para que você se torne como um velho arbusto de espinhos — nada em si mesmo, mas com a chama da presença de Deus para sempre em você.

    Você se tornou combustível eterno para o fogo eterno. Não há outro caminho. Esta é a cruz. Esta é a cruz. É a isso que o querido e bendito Espírito Santo o conduz. Ele o leva ao seu Calvário. Leva-o a um instrumento romano de execução, nu e terrível, a um patíbulo.

    Você terá de conhecer espiritualmente o deslocamento do quadril — não uma dorzinha, uma pequena dor de artrite em algum lugar. Ah, sei que a artrite é uma coisa terrível; não deveria dizer isso a alguém que sofre dela. Mas não é apenas uma espécie de dorzinha, uma pontada aqui e ali, algo no quadril que o lembre de que está ficando mais velho. Não! Um quadril deslocado.

    Você nunca mais será o mesmo. Nunca. Qualquer homem ou mulher que tenha chegado a esse naufrágio completo nunca mais será o mesmo. Ah, é a mesma personalidade; está tudo ali. Mas nunca mais será o mesmo.

    Daí em diante, é a face de Deus. Gênesis 32:30:

    Tenho visto a Deus face a face, e a minha vida foi preservada.

    Imagino que isso valha a pena: ter sua força natural tratada. Vale a pena receber um toque de Deus assim sobre sua vida, de modo que você, Jacó, se torne Israel. Vale a pena — não para que as pessoas digam: “Que pessoa maravilhosa você é”, mas para que, para sempre depois disso, vejam a face de Deus.

    Vocês não acham isso belo? O Senhor disse no livro de Números, naquilo que chamamos de bênção aarônica — tenho certeza de que todos vocês a conhecem; está em Números 6:24-26:

    O Senhor te abençoe e te guarde;
    O Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre ti,
    E tenha misericórdia de ti;
    O Senhor sobre ti levante o Seu rosto,
    E te dê a paz.

    É tudo a presença do Senhor. “O Senhor faça resplandecer Sua presença sobre ti e tenha misericórdia de ti. O Senhor sobre ti levante Sua presença e te dê a paz.” Sim.

    Você está pronto para isso?

    A transformação de Jacó em Israel

    Agora, por fim, quero apenas dizer isto: o que significa toda essa conversa sobre a casa de Deus? O que significa toda essa conversa sobre a igreja de Deus? O que significa toda essa conversa sobre o propósito eterno de Deus? O que significa toda essa conversa sobre vencedores, se não que Jacós estão se tornando Israel?

    Se for apenas uma questão de modelos de igreja, ordem na igreja, reunir os santos e tudo o mais, então deixemos isso de lado. É importante, mas é o menos importante.

    O essencial na casa de Deus é que Jacó se torne Israel. E é por isso que Deus nos chama de Israel: Jacó transformado em Israel.

    Houve outra senhora, outra irmã de quem muitos de vocês já ouviram falar, e vou encerrar com ela. Isto é verdade. Muitos de vocês já ouviram falar dela — Amy Carmichael. Foi outra notável serva do Senhor.

    Um dia, ela foi a uma cidade próxima para ver um novo imóvel onde iniciariam um trabalho de resgate de meninas na prostituição dos templos. Quando chegaram àquela cidade hindu próxima, o homem que tinha a chave não apareceu. Esperaram uma hora e, finalmente, ele chegou, com mais de uma hora de atraso.

    Mas, durante aquela hora, a poeira tropical havia caído como uma cortina. Ele colocou a chave na velha porta do pátio murado e a abriu, empurrando-a. Então recuou respeitosamente, assim como os demais do grupo, para deixar Amy Carmichael entrar primeiro.

    Ninguém sabia que trabalhadores braçais haviam cavado uma vala no lugar errado, logo depois do portão — com quase três metros de profundidade. Amy Carmichael caiu. Quebrou o tornozelo, fraturou o quadril, quebrou o braço e lesionou as costas.

    Com cuidado, tiraram-na da vala, colocaram-na no jipe e percorreram cerca de quarenta e três quilômetros até o hospital mais próximo, por estradas irregulares e sem pavimentação. Amy Carmichael suportou tudo de maneira maravilhosa. Era uma pessoa extraordinária. Conhecia o Senhor.

    Pensou que ficaria deitada apenas por alguns meses e escreveu seu primeiro livro — além daquele que havia escandalizado todo o mundo missionário, Things as They Are (As coisas como são). Nunca mais falaram com ela na Índia, nem mesmo até o dia de sua morte.

    O primeiro livro que escreveu foi Rose from Brier (Rosa entre espinhos). Não consigo me lembrar de tudo, mas me lembro deste verso. Não consegui encontrá-lo em lugar algum; caso contrário, o teria trazido para vocês:

    De Teu espinheiro há de florescer
    Uma rosa para os outros.
    Vem, então; deixa-me dizer:
    Meu Senhor, meu Amor,
    Tu me bastas.

    No prefácio daquele livrinho, ela disse: “Sinto-me como se fosse uma hipócrita. Estou escrevendo este livro para pessoas que sofrem sem possibilidade de cura. Dentro de seis meses estarei andando novamente, dizem os médicos. Mas senti que havia aprendido estas lições”.

    “Perdoem-me”, disse ela, “aqueles de vocês que lerão estas linhas e que estão deitados ou incapacitados, sem possibilidade de cura ou sem explicação. Mas que Deus os ajude.” Ela não sabia que permaneceria deitada por vinte e sete anos.

    Daquela vida surgiu um ministério que, pelo que tenho encontrado, é o único ministério no mundo inteiro que chega ao sofrimento incurável para lidar com ele e ajudar. Não encontrei nada como as palavras de Amy Carmichael para aqueles que têm esse tipo de sofrimento inexplicável em sua vida.

    Agora quero encerrar com aquele que, a meu ver, é o mais belo de seus poemas:

    Não tens cicatriz?
    Nenhuma cicatriz oculta no pé, no lado ou na mão?
    Ouço-te celebrado como poderoso na terra;
    Ouço aclamarem tua estrela brilhante em ascensão.
    Não tens cicatriz?

    Não tens ferida?
    Contudo, fui ferido pelos arqueiros; exausto,
    Apoiei-Me numa árvore para morrer; dilacerado
    Por feras vorazes que Me cercaram, desfaleço.
    Não tens ferida?

    Nenhuma ferida? Nenhuma cicatriz?
    Contudo, como o Mestre, assim será o servo;
    E traspassados são os pés que Me seguem.
    Mas os teus estão intactos. Poderá ter seguido longe
    Quem não tem ferida nem cicatriz?

    Oração final

    Vamos orar?

    Senhor, todos nós gostamos de ser chamados de Teu Israel, mas poucos de nós entendem o que isso significa. Oramos, ó Senhor, para que, de alguma forma, compreendamos que, no coração deste evangelho, há essa obra transformadora da graça, de Jacó em Israel.

    Ó Deus, Tu conheces cada vida neste lugar. Conheces todos nós que ainda não chegamos ao nosso Jaboque. Senhor, leva-nos até lá. E, quanto aos que já chegaram, renova-nos, para que saibamos, Senhor, o que é servir-Te com um coração puro.

    Senhor, grava com fogo a mensagem desta noite em todos os nossos corações e vidas. Ajuda-nos, Senhor, se somos nós que estamos impedindo que Teu propósito seja cumprido ou realizado. Ajuda-nos a enxergar isso, Senhor, e leva-nos ao fim de nós mesmos, para que, Senhor, possas fazer a obra que desejas fazer.

    Pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.

    Fiquem de pé e cantem o hino número 156.