[Palavras iniciais indistintas.]
Egocêntricos, tão presos às próprias necessidades que esperam que toda a igreja, o reino de Deus e o próprio Deus girem em torno deles. Não conseguem se libertar dessa escravidão ao próprio eu.
E, quando somos assim, mesmo que tenhamos conhecimento teológico, mesmo que tenhamos muitas ideias grandiosas sobre a Bíblia, sobre Deus e sobre tudo mais, o fato permanece: não somos uma bênção; roubamos bênçãos. Não damos; adquirimos. Estamos o tempo todo tomando, tomando, tomando, tomando, tomando. Não damos.
O propósito de Deus para Jacó era que ele fosse uma bênção. No fim, esse homem que, por natureza, não era uma bênção, que, por natureza, não era alguém que dava — era alguém que adquiria; roubava a bênção — tornou-se uma bênção. No fim, ele abençoou Faraó com algumas das palavras mais belas das Escrituras, abençoou seus filhos com palavras extraordinariamente proféticas e abençoou aqueles dois filhos de José de maneira tão significativa que isso é mencionado no Novo Testamento, no resumo da vida de Jacó.
Uma bênção.
Depois, falamos, em quarto lugar, de outro propósito de Deus para Jacó: que ele tivesse poder com Deus e com os homens; que se tornasse um príncipe com Deus e com os homens. Foi exatamente nisso que Jacó finalmente se tornou, pela graça perseverante de Deus.
Deus nunca deixou de amá-lo, nunca o abandonou, nunca o desamparou, embora às vezes Se ocultasse de Jacó. Por Seu amor, transformou Jacó em Israel: de um homem à mercê da própria natureza, à mercê dos relacionamentos, das circunstâncias e dos problemas, em um homem que tinha poder com Deus e, portanto, com os homens.
E é isso que Deus quer fazer por você e por mim. Em uma palavra, Ele quer nos levar ao trono. Quer nos levar ao lugar em que reinamos com Cristo. Quer nos levar ao lugar em que nos assentamos juntamente com Cristo nas regiões celestiais.
Agora, nesta noite, quero abordar o quinto desses pontos relacionados ao propósito de Deus para Jacó, e ele é realmente muito importante. Diz respeito à casa de Deus.
O propósito de Deus para Jacó, em quinto lugar, era que ele edificasse, ou produzisse, a casa de Deus. Na vida de Jacó, encontramos tudo isso simbolicamente associado ao nome Betel. Betel, em hebraico, significa “casa de Deus”: beth-el, casa de Deus.
É muito interessante que toda a vida de Jacó seja delimitada por Betel. Primeiro, ele chega a Betel, e ali Deus Se encontra com ele de maneira inicial. Depois, Deus o conduz por um longo caminho, durante vinte anos ou mais.
Nesses vinte anos, Jacó se depara consigo mesmo e fica farto de si mesmo. No início, ele não tinha consciência de si. De fato, quando Deus lhe apareceu pela primeira vez nesse lugar que ele chamou de Betel, a casa de Deus, Jacó negociou com o Senhor e disse: “Senhor, Tu disseste que cuidarias muito bem de mim. Então faz isso, faz isso. E, se fizeres isso, se me trouxeres de volta à casa de meu pai em paz, se me alimentares e me vestires, serás o meu Deus”.
Ah, esse velho Jacó! “Serás o meu Deus” — tão magnânimo! Tenho certeza de que o Senhor deve ter pensado: “Ah, Jacó…” E Jacó: “Serás o meu Deus, e eu Te edificarei uma casa. E, de tudo quanto me deres, darei a Ti a décima parte”.
Isso era uma boa visão de negócios: nove décimos para ele, um décimo para o Senhor.
Mais tarde, Deus lhe apareceu. É interessante como Deus Se identificou. Dessa vez, não disse: “Eu sou o Deus de Abraão e de Isaque”. Disse-lhe: “Jacó, Eu sou o Deus de Betel” — o Deus da casa de Deus, onde Me revelei. Você se lembra? E onde você ungiu uma coluna e invocou o Meu nome.
Então, um pouco mais tarde, quando ele estava voltando à terra, já dentro da terra prometida, em Siquém, Deus lhe apareceu e disse: “Vai. Eu sou o Deus que Me revelei a você em Betel”. Ele foi e deu à coluna que levantou em Betel o nome de El-Betel: Deus da casa de Deus.
Agora, não sei se isso significa alguma coisa para vocês. Posso muito bem imaginar que muitos estejam pensando: “O que tudo isso tem a ver conosco? O que significa exatamente? Que importância tem para nós?”
É verdade que Deus chama todo o Seu povo redimido de Jacó. Ele chama todo o Seu povo redimido de Israel. O que isso tem a ver conosco? Tem muitíssimo a ver conosco.
Jacó disse algumas coisas muito interessantes sobre essa casa de Deus. Primeiro, quando o Senhor lhe revelou esse fato e ele recebeu uma revelação a respeito do propósito de Deus, disse:
Quão temível é este lugar!
Em segundo lugar, disse:
Esta não é outra senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.
Eu gostaria que os crentes do Novo Testamento tivessem tanta compreensão do propósito de Deus quanto à casa de Deus como alguns desses patriarcas do Antigo Testamento.
Às vezes, pensamos neles como pastores beduínos ignorantes, nômades e malcheirosos, que mal compreendiam as coisas, inteiramente envolvidos com sombras, tipos e figuras. Acho que, se Abraão pudesse voltar, provavelmente nos daria uma excelente conferência. E tenho uma forte suspeita de que Jacó poderia falar sobre si mesmo muito melhor do que eu.
Esses homens viram alguma coisa. Quem dera nós, com todas as vantagens e os privilégios da nova aliança — com a habitação do Espírito Santo em nós, bem como a capacitação que Ele nos concede sob a nova aliança, e com a lei escrita em nossos corações —, compreendêssemos o que esses patriarcas compreenderam.
Mas parece que o inimigo fez sua obra mais perniciosa ao cegar o povo de Deus para algumas das questões mais fundamentais a respeito do propósito de Deus para os Seus. Se não puder nos impedir de sermos salvos, impedirá que entremos na terra e tomemos posse dela, que nos multipliquemos. Se não puder nos deter aí, certamente nos cegará para aquilo que é o verdadeiro objetivo de tudo isso.
Há muitíssimo na Bíblia sobre a casa de Deus. Se vocês quiserem um tema, um estudo bíblico para desenvolver, tomem as expressões “templo de Deus”, “tabernáculo de Deus” e “casa de Deus” e acompanhem sua ocorrência ao longo das Escrituras. Vocês ficarão admirados.
Vocês descobrirão, ao longo das Escrituras — de Êxodo em diante, embora, na verdade, comece em Gênesis —, até o livro de Apocalipse, um tema que percorre todos os sessenta e seis livros da Bíblia: a casa de Deus, o tabernáculo de Deus, o templo de Deus.
Esse assunto é tão extraordinário que, no Antigo Testamento… Agora vou entediá-los por alguns minutos; vocês podem dormir. Sempre digo, a respeito do povo do Senhor, especialmente dos queridos evangélicos, que conseguiram desenvolver algum método maravilhoso pelo qual podem dormir de olhos abertos.
Bem, não faz mal. Se vocês sentirem vontade de tirar uma soneca, não se preocupem. Mesmo que fechem os olhos, isso não vai me deter. Vou simplesmente continuar até o fim, ainda que só os anjos estejam ouvindo.
Quando examinamos esse assunto na Bíblia, encontramos algo tremendamente interessante. Permitam-me dar uma pequena aula bíblica por um momento. Quando avançamos até certo ponto na Bíblia, chegamos ao livro de Deuteronômio.
O interessante é que Deuteronômio retoma os quatro livros anteriores, como se Deus estivesse dizendo: “Agora, esperem um pouco. Antes de prosseguirmos, precisamos voltar. Vamos resumir tudo, e aqui está o cerne da questão”.
Deus colocou Seu amor sobre vocês. Isso era algo novo. Não encontramos isso com tanta frequência em Gênesis, Êxodo, Levítico ou Números, mas isso explica tudo. Por que Deus não desistiu deles? Por que Deus não os abandonou? Por que Deus não os desamparou? Deus não fez isso porque os amava.
Por que Ele ama você? Ele colocou Seu amor sobre você e o escolheu porque o ama.
Então, o segundo ponto:
Amarás o Senhor, teu Deus, com toda a tua força, com todo o teu entendimento, com toda a tua alma.
Aqui encontramos algo: Deus está buscando um relacionamento de amor. Está buscando algo que existe entre marido e mulher, entre noivo e noiva — algo tão íntimo, tão direto, uma abertura de dois seres humanos um ao outro, sem barreiras, sem nada reservado.
Agora começamos a compreender Deus como se estivesse dizendo: “Voltem, voltem, voltem a Gênesis. Por que Eu os criei? Por que criei um universo? Por que criei a humanidade? Por que perseverei com vocês quando caíram? Por que tomei Noé e outros sete com ele quando destruí o mundo inteiro? Por que escolhi Sem? Por que, mais tarde, tirei Abraão dentre todos os habitantes da terra, e depois Isaque, e depois Jacó? Por quê?”
Porque Eu os amo. É por isso. E porque vocês devem Me amar. Queremos esse relacionamento maravilhoso uns com os outros, esse maravilhoso relacionamento de amor. Esse é o primeiro ponto.
Mas o segundo ponto sobre Deuteronômio é que surge algo mais, que quase não havia sido mencionado antes:
Não oferecereis os vossos sacrifícios nem as vossas ofertas em qualquer monte ou lugar que escolherdes.
Mas os oferecereis no lugar onde farei habitar o Meu nome.
Isso aparece repetidas vezes no livro de Deuteronômio, como se o Senhor estivesse dizendo: “Não pensem que podem ir a qualquer lugar, que simplesmente não importa aonde vocês vão. Haverá um lugar que Eu escolherei, e nesse lugar haverá uma cidade, e nessa cidade haverá um templo, e ali vocês deverão vir”.
Agora voltem mais uma vez. Percorremos Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, Deuteronômio, Josué, Juízes, Rute — e então o que acontece? Chegamos àquilo que, em hebraico, são quatro livros. São chamados de os quatro livros do reino: 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis.
Esses quatro livros acompanham toda a história do povo de Deus. Voltam ao início e dizem: “Aqui está a razão pela qual Deus salvou o povo, por que o levou ao Egito, por que fez dele uma nação no Egito, por que o tirou do Egito”. Vocês sabem qual é o propósito? Que o Seu trono esteja entre eles. Que o Seu reino esteja entre eles.
Temos o reino de Davi, a casa de Davi. É algo maravilhoso. Até o Messias é o Filho do grande Davi, maior que o próprio Davi.
O profeta Isaías diz, em Isaías 9:7:
Do aumento do Seu governo e da paz não haverá fim,
sobre o trono de Davi e sobre o Seu reino,
para o estabelecer e o sustentar com juízo e com justiça,
desde agora e para sempre.
O zelo do Senhor dos Exércitos fará isso.
Essa questão do reino se torna um dos grandes temas centrais da Bíblia. Essa questão do Rei, do Homem segundo o coração de Deus, se torna um dos grandes temas da Bíblia. Isso, como dizemos nos círculos judaicos, o Rei Messias, se torna o grande tema das Escrituras.
É como se Deus dissesse: “Agora voltamos outra vez ao início”. Percorremos todo o caminho desde Deuteronômio, passando por Josué, Juízes e Rute, até essa questão do reino. O que encontramos? Primeiro, Rute é o pequeno limiar. Ela é a bisavó do rei Davi.
Então, quando chegamos a Samuel, a primeira coisa que encontramos é Samuel, aquele que estabelece reis. Primeiro temos o rei errado — o homem que os homens escolheriam —, e depois temos o rei de Deus, Davi. Em seguida, percorremos toda a história, até a queda, a deportação para a Babilônia e o retorno.
Maravilhoso, não é? Então, de repente, como se tudo estivesse claro, todos pensamos: “Entendemos. Graças a Deus, entendemos”.
Primeiro, Deus nos ama. Segundo, devemos amar o Senhor. Terceiro, haverá uma cidade de Deus, que será chamada de cidade de Davi. Haverá o trono de Deus — o trono de Davi, do Messias.
Agora chegamos a 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis. Entendemos claramente. Toda a questão diz respeito a reinar; toda a questão diz respeito a chegar ao trono. Deus quer que tenhamos domínio. Não havíamos entendido isso? Deus não disse, logo no princípio:
Frutificai e multiplicai-vos; tende domínio.
Ele não disse?
Sim, agora entendemos a Bíblia. Agora entendemos o propósito de Deus. Entendemos, entendemos.
Então ficamos tão confusos, porque, ao chegar ao fim de 2 Reis, chegamos a 1 Crônicas. Para algumas pessoas, Crônicas é um problema crônico. Não conseguem superar isso. “Ah”, dizem, “Crônicas!”
Quando leem os primeiros capítulos do primeiro livro de Crônicas, ficam completamente submersas em grandes listas de nomes que remontam até Adão. Especialmente quando estamos lendo a Bíblia capítulo por capítulo, avançamos penosamente durante uns nove dias: um capítulo depois do outro, nomes, nomes impronunciáveis, linhagens, genealogias.
“O que é isso, Senhor? Eu realmente creio que o livro é inspirado. Sei que tem autoridade, mas era mesmo necessário? Não poderíamos ter um ou dois capítulos sobre o que faremos no reino vindouro — se vamos reconhecer uns aos outros, se vamos comer, se vamos tomar chá ou café?”
Não poderíamos ter esse tipo de perguntinhas em vez de todos esses capítulos de listas intermináveis de nomes, que voltam ao que Tu já revisaste uma ou duas vezes — uma vez em Deuteronômio e outra em 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis?
Vocês sabem o que aconteceu? Percorremos toda a história do povo de Deus desde o princípio, de ponta a ponta, e depois cobrimos exatamente o mesmo terreno de 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis.
É claro que a maioria de nós foi criada para reverenciar a Palavra de Deus. Não seríamos tão irreverentes a ponto de dizer: “Nossa, o Senhor é prolixo. Por que precisamos ter tudo isso de novo?”
Sempre que Deus diz algo pela segunda vez, devemos prestar muita atenção. É sempre de enorme importância quando Deus diz alguma coisa novamente.
Por que Ele retoma tudo isso? Dessa vez, acompanha toda a história do povo de Deus como se estivesse dizendo: “Agora escutem, escutem. Vocês só entenderam metade da verdade. Só viram um lado do quadro. Agora precisam ver o outro”.
O propósito de Deus não é simplesmente que vocês entrem em um reino, que cheguem ao trono, que reinem com Deus. Isso é apenas parte da história. A outra metade é esta: no coração da história humana está o anseio do coração divino por uma habitação, por um lar, por um lugar onde morar.
Foi por isso que Ele criou a humanidade. Foi por isso que perseverou quando os seres humanos caíram. Foi por isso que escolheu Sem. Foi por isso que escolheu Abraão. Foi por isso que levou Jacó e aquelas setenta almas ao Egito, e ali fez deles uma nação, e os tirou da casa da servidão, apesar de Faraó.
Foi por isso que perseverou com eles no deserto, embora, por incredulidade e desobediência, uma geração inteira, com exceção de dois — Josué e Calebe —, tenha morrido no deserto. Foi por isso que os levou à terra. É por isso que existe um reino. É por isso que existe um trono. A casa de Deus é o cerne de toda a questão.
Em 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras e Neemias, temos toda a história do povo de Deus até a vinda do Messias — até o limiar do Messias. É uma história inteira de tremendo conflito. Em torno de quê? Da casa de Deus: de seu serviço, de sua adoração, de sua edificação e reconstrução, e de sua restauração quando perdida.
Esse é um dos grandes temas das Escrituras. É por isso que, quando chegamos ao Novo Testamento, o encontramos em toda parte, sob diferentes figuras.
Encontramos esse tema na casa de Deus. Encontramos no templo de Deus. Encontramos na noiva de Cristo, na esposa do Cordeiro. Encontramos na família de Deus. Encontramos no corpo e na Cabeça. Encontramos na videira de Deus. Jesus disse:
Eu sou a videira; vós sois os ramos.
Está em toda parte, em toda parte. É a cidade de Deus, a Nova Jerusalém, a Sião de Deus, à qual nós, os que cremos, chegamos pela graça. É aquela Jerusalém que é de cima, que é a mãe de todos nós, se somos nascidos de Deus.
Aqui está o cerne de toda a questão. Agora, se você ainda não começou a enxergar esse assunto, seria pedir demais que buscasse o Senhor? Peça que Deus venha até você no Espírito de graça e de revelação, no conhecimento Dele, para que, iluminados os olhos do seu coração, você saiba qual é a esperança do Seu chamamento.
Você sabe por que Deus o chamou? Sabe qual é a esperança do seu chamamento? Vai alcançá-la? Vai permitir que Deus faça uma obra tão profunda em sua vida que, como Jacó, no fim você esteja na cidade?
Ou vai jogar tudo fora por uma ignorância indiferente? “Ah, não quero ouvir sobre tudo isso. É pesado demais para mim.” Ou, às vezes, é incredulidade. Simplesmente não conseguimos crer. Às vezes, é pecado. Há algum pecado em sua vida, alguma concessão em algum ponto, e você não consegue avançar com Deus.
Agora, voltando a Jacó. Nesta maravilhosa história que temos em Gênesis 28, mal podemos acreditar, mas aqui temos toda a questão nesse sonho, nessa revelação que veio a Jacó.
Não desprezem esse sonho. É dito, a respeito da nova aliança, que sonharemos sonhos e alguns terão visões. Não sei por quê, mas parece comum entre o povo de Deus desprezar sonhos e visões, como se tudo fosse da alma e de natureza psíquica.
Existe um tipo de sonho e de visão que é da alma e de natureza psíquica, mas existe aquilo que caracteriza a era em que vivemos. Portanto, não desprezem os sonhos. Às vezes, Deus fala muito claramente por meio de sonhos, e aqui estava um sonho por meio do qual Deus falou de maneira extraordinária a Jacó.
Esse é o primeiro lugar em toda a Bíblia em que a expressão “casa de Deus” é de fato mencionada. Sempre que uma expressão é usada pela primeira vez na Bíblia, isso é muito importante para nossa compreensão de toda a questão. É a fonte. Gênesis é um livro de começos. Tudo começa ali.
Aqui, portanto, temos o início de toda essa questão da casa de Deus. Até então, Deus não havia revelado nada a esse respeito. A partir desse ponto, isso será revelado cada vez mais claramente. Primeiro, temos essa realidade no tabernáculo; mais tarde, na construção do templo. Depois, vemos em Crônicas como toda a história do povo de Deus é compreendida, do ponto de vista de Deus, à luz de como o povo reagiu ao Seu templo.
Então temos Esdras e Neemias, e a reconstrução daquela casa do Senhor, depois que havia caído, depois que havia sido destruída.
Poderíamos examinar por alguns momentos essa questão como a encontramos aqui em Gênesis 28? Posso tratá-los como uma classe de escola dominical e lhes contar exatamente o que Jacó viu?
Ele teve um sonho. Havia passado por uma experiência traumática. Não apenas enganara seu irmão para lhe tirar o direito de primogenitura; também lhe roubara a bênção por meio de engano. Jacó realmente amava seu pai, e, em muitos aspectos, não conseguia se conter. Era aquela sua natureza, aquela sua vontade própria. Não conseguia se conter.
Ele havia passado por uma experiência traumática quando Esaú ameaçou matá-lo, e sua mãe disse: “Você precisa sair desta casa e deste país o mais rápido possível. Deve ir para a casa de meu irmão, seu tio Labão, na Síria”.
E assim Jacó foi. Caminhou por um dia e caiu em um desespero profundamente melancólico. Deve ter se sentido tão sozinho, tão abandonado. Pegou uma pedra, uma das muitas pedras daquela região — deve ter encontrado uma que fosse ao menos um pouco mais adequada —, e a usou como travesseiro. Então dormiu: o sono de alguém que passou por uma tristeza terrível.
Naquele sono profundo, Deus veio a ele. Mais tarde, Deus falou disso como uma revelação de Si mesmo. Portanto, não desprezem aquele sonho. Deus disse: “Lembra-se? Eu Me revelei a você”.
Naquele sonho, foi isto que ele viu. Primeiro, viu uma grande escada posta na terra, cujo topo alcançava o céu. Depois, viu anjos subindo e descendo. Prestem atenção nisso. Muitas pessoas pensam, inconscientemente, que eles estavam descendo e subindo. Observem, por favor, que estavam subindo e descendo. Isso é muito importante.
Então, entenderam? Primeiro, uma escada posta na terra, cujo topo alcançava o céu; anjos de Deus subindo e descendo; e, então, o Senhor estava de pé.
Agora temos um problema com o hebraico. Poderia significar “diante dele”, e seria perfeitamente correto traduzir assim; ou “acima dela”, isto é, da escada; “sobre ela”; “em direção a ela”. A palavra hebraica pode significar “em direção a” ou “sobre”. É muito difícil saber.
Mas vamos deixar isso bem claro: primeiro, a escada posta na terra, cujo topo alcançava o céu; anjos de Deus subindo e descendo; e o Senhor intimamente envolvido tanto com a escada quanto com Jacó. Se quiserem, podem traduzir: “O Senhor de pé acima de Jacó, voltado para Jacó”; ou podem dizer: “voltado para a escada”.
Agora, o que tudo isso significa? Bem, aqui está o próximo ponto. Espero que seja suficientemente simples. Isso deve ter alguma coisa a ver com Deus. Deve ter alguma coisa a ver com o trono de Deus, não deve? Deve ter alguma coisa a ver com a vontade de Deus sendo feita, não deve?
Anjos de Deus — a palavra em hebraico, mais uma vez, é a palavra para mensageiro. Eles estão levando mensagens. Muito simples.
Portanto, isso tem alguma coisa a ver com a mente de Deus, com a vontade de Deus, com o trono de Deus, com a autoridade de Deus, com a obra de Deus.
Existe uma ligação entre a terra e o céu, uma ligação rompida pelo pecado. Até os querubins guardavam o caminho para a árvore da vida. Não havia passagem; havia um abismo entre Deus e o homem.
Aqui, nesse sonho, Jacó vê o céu e a terra unidos. Vê que, em ligação com o Senhor, anjos de Deus estão subindo e descendo, trazendo os homens à união com o céu e o céu à união com o homem. Alguma coisa está acontecendo.
O querido Jacó compreendeu isso, mesmo que os cristãos não compreendam. Assim que acordou, disse:
Oh, quão temível é este lugar!
Esta é a casa de Deus.
Esta é a porta dos céus.
Vocês precisam compreender que, nas Escrituras, as portas sempre falam de conselho, julgamento, arbitragem e resolução de uma questão. Os anciãos sempre se assentam às portas, vocês se lembram, ao longo de todo o Antigo Testamento. Assentam-se às portas para julgar.
Quem tem uma disputa vai aos anciãos assentados às portas. Quem quer que alguma coisa seja esclarecida e definida vai aos anciãos às portas. Se precisar de orientação ou conselho, vai aos anciãos às portas.
Agora, portanto, Jacó tem algo muito maravilhoso. Ele diz: “Este é o lar de Deus”. Entenderam? O lar de Deus.
Infelizmente, nos círculos cristãos, ficamos tão acostumados com a expressão “casa de Deus” que pensamos nela como uma estrutura em que congregações se reúnem para cantar hinos e fazer orações. Mas pensem por um momento. Se eu lhes dissesse: “Tenho uma casa em Richmond, na Inglaterra”, vocês pensariam: “Ah, Lance tem uma estrutura em que cantam hinos e fazem orações”? Não, vocês não pensariam isso.
O que pensariam se eu dissesse: “Tenho uma casa em Richmond”? Pensariam: “Ele tem um lar”. Isso não é normal? Pensariam que ele tem um lar.
Se vocês me disserem: “Minha casa fica em Pasadena, em Santa Bárbara ou em São Francisco”… Aliás, sempre gostei mais de São Francisco. Se vocês, americanos, dizem que o clima de lá é horrível, eu acho maravilhoso. Comparem com o clima britânico; acho que o clima de São Francisco é a melhor coisa que se poderia desejar.
De qualquer maneira, se vocês me disserem: “Minha casa fica em São Francisco”, não vou pensar que vocês têm ali uma estrutura onde as pessoas se sentam em fileiras cerradas, cantam hinos, fazem algumas orações e alguém discursa para elas por algum tempo.
O que entendo quando vocês dizem que sua casa fica em São Francisco? Sei exatamente o que querem dizer. Vocês têm ali sua morada. É o seu lar. É onde descansam. É onde ficam à vontade. É onde tiram os sapatos e andam como querem. É o lar.
Jacó disse: “Isto” — isto o quê? Esta escada posta na terra, cujo topo alcança o céu, anjos de Deus subindo e descendo, e o Senhor de pé sobre ela, voltado para ela e voltado para mim — “isto é o lar de Deus. Isto é a morada de Deus. Isto é o lugar de descanso de Deus. É aqui que Deus está em casa. É aqui que Deus Se sente em absoluto descanso”.
Esta é a porta dos céus. É aqui que a vontade de Deus é conhecida. É aqui que as coisas são definidas. É aqui que o conselho de Deus é expresso. É aqui que as coisas são esclarecidas.
Jesus disse isso de maneira tão simples:
Sobre esta pedra edificarei a Minha igreja;
e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
A ti dei as chaves do reino dos céus;
e tudo o que ligares na terra terá sido ligado nos céus,
e tudo o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.
Primeiro, a igreja. Sobre esta pedra Ele edificará essa casa, Seu lar, a habitação de Deus no Espírito. As portas do inferno não prevalecerão contra ela. Isso foi predestinado por Deus. Tudo está relacionado à eleição de Deus.
No fim das contas, Satanás não pode fazer outra coisa senão contribuir para a obra.
Então Ele diz: “Vocês têm as chaves do reino”. O que vocês fazem com chaves? Trancam as coisas. O que fazem com chaves? Destrancam.
Não há momentos em que o inferno quer sufocar a obra de edificação do Senhor Jesus, paralisá-la, impedi-la, frustrá-la? É claro que há. Então você e eu precisamos saber o que significa estar a favor da casa de Deus, ser a porta dos céus.
Precisamos conhecer o conselho de Deus nessa questão. Precisamos saber quando é o momento de agir com autoridade, em nome do Senhor Jesus, e trancar a porta. Não podemos trancar aquilo que não é da vontade do céu que se tranque. Mas, quando a vontade do céu é prender alguma coisa, podemos dizer: “Está feito”, e o céu diz: “Feito”.
E podemos destrancar. Não há muitos cativos presos em todo esse domínio das trevas, sob os poderes das trevas, aprisionados na cegueira e no pecado, que anseiam por sair? O povo eleito de Deus — precisamos destrancar as portas e deixá-los sair.
Não basta nos assentarmos em nossos pequenos grupos, nossos pequenos grupos de “abençoa-me”, cantando pequenos hinos, estudando a Bíblia aqui e ali e mantendo conversas gerais de natureza espiritual, quando, ao nosso redor, há uma nação morrendo.
Quando, ao nosso redor, há um mundo morrendo, às vezes não damos a mínima. Damos a impressão de que, por nós, eles podem ir para o inferno. Temos vizinhos em nossas ruas e pessoas com quem trabalhamos; nunca choramos por elas, nunca tivemos o coração quebrantado por elas, nunca sentimos dor no coração por elas. Não passamos meia hora em oração por elas.
Não sabemos usar essas chaves do reino dos céus. Se houvesse em nós algo que se quebrantasse em angústia diante do que acontece ao nosso redor, buscaríamos o Senhor por autoridade divina. Buscaríamos o Senhor por autoridade espiritual.
Diríamos: “Ó Deus, o que é isso a respeito da Tua casa? O que devemos ser? Devemos ser uma congregação de indivíduos, um pequeno círculo de estudo bíblico, apenas um pequeno grupo de indivíduos com pouquíssimo relacionamento uns com os outros, além do fato de serem salvos? Ou somos pedras vivas, para sermos edificados como casa espiritual, para sermos um sacerdócio santo, para oferecermos sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo?”
Casa de Deus. Porta dos céus. Quão temível é este lugar!
Quando penso nisso, parece-me tão grandioso, tão extraordinário. O que significa anjos de Deus subindo e descendo? Certamente significa que nós, na terra, em nosso relacionamento com o Senhor, recebemos encargos. Ao recebermos esses encargos, de alguma maneira algo começa a acontecer.
Algo começa a acontecer, e os anjos de Deus começam a se mover.
Eu gostaria que os crentes compreendessem ao menos o que os crentes judeus compreendiam sob a antiga aliança: que, quando pelo menos dez pessoas estão reunidas para adorar a Deus, os anjos de Deus começam a agir. Vocês dizem: “Ah, acho que isso é uma história da carochinha”. Não, esperem só.
Muitos dos hinos que cantamos conclamam os anjos a nos ajudar. Algum de vocês já pensou nisso? Cantamos hinos maravilhosos sobre os anjos: “Ajudai-nos a adorá-Lo; vós O contemplais face a face”, e muitos outros hinos que vocês conhecem.
Em que tudo isso se baseia? Baseia-se nesse pensamento maravilhoso de que esses anjos são enviados para servir àqueles que são herdeiros da salvação. Como são nossos servos? Como nos servem? Eles nos ajudam a adorar. Ajudam-nos a servir, nos bastidores.
Não chamam a atenção para si mesmos, mas, nos bastidores, estão o tempo todo nos ajudando, nos capacitando, canalizando graça para nós, nos livrando, nos impedindo de fazer isto ou aquilo. Não sabemos nem a metade das coisas das quais os anjos nos preservam.
Quando nos reunimos assim, há atividade angelical por toda parte; apenas não podemos vê-la. Se nossos olhos fossem abertos como os do servo de Eliseu, veríamos o monte inteiro cheio dos anjos de Deus.
“Ah, não, não, não, não, não, não — isso é mitologia do Antigo Testamento.” Muitos crentes acreditam que é mitologia do Antigo Testamento. Creem na inspiração da Palavra, mas ainda pensam: “Não, não, não. Coisas assim — anjos de Deus”.
Porque os imaginamos todos com asas enormes e pratos de sopa dourados sobre a cabeça, e todo esse tipo de coisa. Enquanto isso, às vezes os anjos se parecem tanto com seres humanos que, muitas vezes, poderiam ser confundidos com uma pessoa. Só quando desaparecem é que alguém percebe que um anjo havia vindo.
Sempre acho isso tão bonito, irmãs, onde está escrito:
Não vos esqueçais da hospitalidade, porque, por ela, alguns hospedaram anjos sem o saber.
Isso deveria incentivá-las à hospitalidade. Talvez um dia vocês recebam um anjo sem saber. Nunca se sabe, querida. Um dia desses, isso pode acontecer de novo, e um anjo pode estar ali sem que vocês sequer saibam.
Bem, isso é uma digressão. Vamos deixar isso de lado. Voltemos à questão da atividade angelical.
Quando o povo de Deus toma o fundamento do Senhor Jesus Cristo e começa a permitir que o Espírito Santo o edifique, como pedras vivas unidas umas às outras, nessa casa do Senhor — para ser um sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais —, então toda a atividade angelical começa. Anjos sobem e descem.
Ah, quem dera houvesse essa atividade angelical nos grupos que representamos. Receio que, em muitos, não exista nada disso. Não há escada nem anjos de Deus subindo ou descendo. Tudo está estático. Estamos vivendo em uma época em que muitos brincam de igreja.
Lembro-me de vinte e cinco anos atrás, quando comecei a ministrar e Deus começou a me mostrar alguma coisa sobre a casa de Deus. Aonde quer que eu fosse, falava sobre a casa de Deus e o corpo de Cristo. As pessoas ficavam de boca aberta. Depois, vinham falar comigo e diziam: “Por que nunca ouvimos isso antes?”
Tratavam você como se tivesse de haver alguma coisa errada ou herética naquilo, porque não havia livros escritos sobre o assunto, ninguém jamais falava sobre ele e não havia hinos escritos sobre o assunto. Portanto, devia haver alguma coisa estranha nisso. Mas, quando examinavam o Livro, havia tanto a esse respeito.
Agora todo o ambiente mudou. Por causa daquele grande mover do Espírito Santo, com todos os seus excessos, desequilíbrios e muitas outras coisas, algo aconteceu por toda a face da terra.
Milhares e milhares e milhares dentre o povo de Deus falam sobre o corpo de Cristo, a igreja de Deus, a casa de Deus, sobre sermos pedras vivas, sobre o ministério do corpo e sobre os dons do Espírito sendo exercidos para a edificação do corpo.
Sei que ainda há muita cegueira e muito poder a ser manifestado, mas que mudança! Hoje não sofremos por causa da ignorância sobre esse assunto, mas por causa de pessoas que usam os termos sem compreendê-los.
As pessoas vêm até mim e dizem: “Temos um corpo em Chicago”. Não consigo entender. Depois dizem: “Ah, temos um corpo em Atlanta”. Não consigo entender. Enviam um grupo inteiro de pessoas para lá e dizem: “A igreja agora está em Atlanta”, porque mandaram um monte de pessoas para Atlanta. Você importa a coisa. Não entendo isso.
Concordo plenamente que, se há crentes chegando, isso é uma coisa. Mas fazer artificialmente todo esse tipo de coisa — será isso a casa de Deus? Pelo que vejo, não é a casa de Deus.
Encontro a casa de Deus onde a pregação chega e homens e mulheres são salvos. Agora, se outros se juntam a eles, vindos de outros lugares, isso é outra questão; eles criam raízes. Mas há tanta coisa artificial hoje.
Graças a Deus, pelo menos o ambiente mudou. Agora todo mundo quer ouvir sobre a casa de Deus. “O que é isso a respeito da casa de Deus? O que significa realmente?”
Ah, querido povo de Deus, se ao menos tivéssemos essa revelação que Jacó teve. Temos tantos privilégios, tantas vantagens. Se ao menos tivéssemos um pouco da compreensão que ele teve.
Agora, mais uma vez, acho que preciso terminar. Mas, antes disso, gostaria de levá-los ao Evangelho de João, e encerraremos ali, porque aqui temos algo extraordinário.
Vou ler a partir de João 1:47:
Jesus viu Natanael aproximar-se Dele e disse a seu respeito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo.
Nenhum Jacó. Natanael Lhe disse:
De onde me conheces?
Jesus respondeu e lhe disse:
Antes que Filipe te chamasse, quando estavas debaixo da figueira, Eu te vi.
Natanael Lhe respondeu:
Rabi, Tu és o Filho de Deus; Tu és o Rei de Israel.
Aí vocês têm 1 Samuel, 2 Samuel, 1 Reis e 2 Reis.
Jesus respondeu e lhe disse:
Porque te disse: Eu te vi debaixo da figueira, crês? Verás coisas maiores do que estas.
E lhe disse:
Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto,
e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
Vocês já observaram isso? O Senhor Jesus começou dizendo: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há Jacó”. Depois prosseguiu e disse: “Você diz que Eu sou o Rei de Israel, o Filho de Deus. Eu digo que você verá coisas maiores do que estas”.
Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
A escada é o Filho do Homem.
Jesus é a ligação entre o céu e a terra, entre a terra e o céu. Ele é o meio de comunhão. É o meio de intercâmbio. É o meio de comunicação. É o meio pelo qual conhecemos a vontade de Deus e podemos fazer a vontade de Deus.
Ah, que maravilhoso! Pensem nisso. Às vezes, acho que nossa concepção da igreja é tão pobre, tão mesquinha. Pensamos nela apenas como um modelo, apenas como uma espécie de estrutura, apenas como algo em que temos presbíteros, diáconos, a mesa do Senhor e todas essas coisas. Discutimos de um lado para o outro sobre tudo isso, mas, em essência, isso não é a casa de Deus.
Virá um tempo em que não haverá mais presbíteros nem diáconos, em que não haverá mais a mesa do Senhor. Mas a casa de Deus é para sempre. Portanto, precisamos ir diretamente ao cerne da questão e descobrir: o que é essa casa de Deus?
Escute, querido crente. Talvez, de início, você não compreenda plenamente, mas ela é nada menos que o Senhor Jesus. Então é você e eu Nele. Então é uma comunicação maravilhosa entre a terra e o céu, e entre o céu e a terra.
Ah, como eu gostaria que compreendêssemos isso. Seria tão maravilhoso, não seria?
Leio em Romanos 12:4-5:
Porque, assim como temos muitos membros em um só corpo,
e nem todos os membros têm a mesma função;
assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo,
e individualmente membros uns dos outros.
Isso não é interessante? Não apenas um corpo de Cristo, mas um corpo em Cristo.
Vejam novamente 1 Coríntios 12:12:
Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros,
e todos os membros do corpo, sendo muitos, são um só corpo,
assim também é Cristo.
Não diz: “Assim também é o corpo do qual Cristo é a Cabeça”. Diz: “Assim também é Cristo”. Muitos membros, um só corpo — assim é Cristo.
Agora precisamos ter cuidado com essa verdade. Há aqueles que a levaram tão longe que nosso Senhor, em vez de ser visto e compreendido objetivamente como Aquele que está à direita de Deus Pai, tornou-Se uma coisa — algo que digerimos, algo que respiramos, algo de que nos alimentamos.
Precisamos ter cuidado. Isso é apenas um lado da verdade. O próprio Jesus disse: “Vocês precisam comer a Minha carne e beber o Meu sangue”. É absolutamente verdadeiro, mas precisamos sempre ter o cuidado de reconhecer que, ao compreender o Senhor dessa maneira, Ele é a Pessoa do Filho.
Ele está, como Homem, à direita de Deus Pai, e vai voltar. Não é alguma coisa vasta e impessoal, alguma grande e poderosa vida de ressurreição. Ele é uma Pessoa: Alguém para conhecer, Alguém para descobrir, Alguém com Quem andar, Alguém com Quem ser um, Alguém para Quem estamos sendo preparados como noiva, para sermos a esposa do Cordeiro.
Mas precisamos compreender essa coisa maravilhosa: a igreja é nada menos que o Senhor Jesus e você e eu Nele. Que maravilhoso. Que maravilhoso.
Estão prontos para outra passagem das Escrituras? Tenho certeza de que vocês a conhecem muito bem. Efésios 2:21:
No Qual todo o edifício, bem ajustado,
cresce para templo santo no Senhor.
Não poderia ser mais claro. Em Quem? Em Cristo. Todo o edifício, bem ajustado, cresce para templo santo no Senhor.
No Qual também vós sois juntamente edificados
para habitação de Deus no Espírito.
Não seria maravilhoso se tudo o que é chamado de igreja estivesse sob um céu aberto? Vocês sabem o que isso significa — um céu aberto? Significa que vocês podem se comunicar com o céu, e o céu pode se comunicar com vocês.
Sempre fico muito incomodado com alguns dos nossos grupos, porque tudo é uma via de mão única. Nós vamos, cantamos hinos para Ele, oramos a Ele e pregamos a Sua Palavra. Mas cairíamos mortos se Ele dissesse: “Esperem um pouco. Quero dizer alguma coisa”.
Não é verdade? Nossa ideia de oração é que nós fazemos toda a fala. Cairíamos para trás se Ele dissesse: “Agora, sobre aquilo que vocês acabaram de Me pedir, quero dizer isto”.
É por isso que creio que a verdadeira casa de Deus sempre foi essencialmente carismática. O carismático não consiste apenas em dons — falar em línguas, profecia e outros dons. O carismático é, essencialmente, estar vivo para Deus.
O salário do pecado é a morte, mas o carisma de Deus é a vida eterna em Cristo Jesus, nosso Senhor. Isso aparece repetidas vezes, esse uso de carisma ligado à vida eterna. Você está vivo para Deus. Não é apenas um boneco. Você não apenas fala com Deus; você ouve Deus.
Em muitos grupos, acho que isso é tudo o que os anjos poderiam fazer: levar todas as mensagens para fora. Não conseguem trazer nada de volta, porque o grupo não está ali para ouvir.
Há uma irmã em Jerusalém — que esta gravação nunca chegue lá — que me telefona regularmente. Assim que ouço sua voz ao telefone, sei que ela vai ficar ali por pelo menos vinte e cinco minutos.
Embora sempre comece dizendo: “Agora preciso do seu conselho, da sua ajuda e da sua comunhão”, antes que eu possa dizer qualquer coisa, ela dispara a falar. Ao longo dos anos, fui conhecendo-a. Sei que é uma coisa muito feia de confessar, mas o que faço agora é deixar o telefone de lado, silenciosamente, e continuar o que estou fazendo.
Então, depois de alguns minutos, pego o telefone e digo: “Sim, sim, sim”, deixo-o de lado de novo e continuo. Quando está quase chegando aos vinte e cinco minutos, pego o telefone, e ela diz: “Bem, muito obrigada por ouvir tudo isso”, e desliga antes que eu tenha a oportunidade de dizer qualquer coisa.
Que tipo de comunhão é essa? Que tipo de orientação ela quer? Que tipo de conselho ela quer? Mas escutem: a maioria de nós faz isso com o Senhor. Corremos para a Sua presença e despejamos tudo aquilo: “Ó Senhor, isto e isto e isto e isto e isto e isto e isto. Obrigado, Senhor, estou indo trabalhar”.
Em nossas reuniões de oração, dizemos: “Ó Senhor, não entendemos por que isso aconteceu com a senhora Fulana. Senhor, encontra-Te com ela, responde-lhe, faz isto e isto e isto”. Então passamos para o próximo assunto, e para o próximo, e para o próximo. Nunca damos ao Senhor a oportunidade de falar conosco.
Às vezes, o Senhor gostaria que os anjos descessem. A igreja não é apenas anjos subindo; é anjos descendo. Às vezes, o Senhor quer nos transmitir alguma coisa. Quer dizer: “Escutem”. Às vezes, o Senhor sabe que não adianta. Não estou querendo ser indelicado; tenho certeza de que Ele deixa o telefone de lado e vai fazer outra coisa.
Algumas pessoas passariam mal fisicamente se o Senhor realmente respondesse à oração delas. “Quero saber, Senhor, sobre isto e isto.” Se o Senhor dissesse: “Espere um pouco. Você deverá fazer isto e isto e isto”… Mas não damos ao Senhor essa oportunidade.
A igreja não é uma via de mão única; é uma via de mão dupla. A tragédia da vida da igreja é que ela nunca ouve sua Cabeça. Nunca ouve o que o Espírito está dizendo às igrejas.
Ficou tão ocupada, tão cheia de conhecimento, tão envolvida em sua rotina de estudos bíblicos, reuniões de oração, atividades evangelísticas ou qualquer outra coisa — às vezes, até mesmo nas coisas mais profundas — que não O ouve.
Ele precisa bater à porta, do lado de fora, e dizer:
Eis que estou à porta e bato:
se alguém ouvir a Minha voz e abrir a porta,
entrarei.
Essa é a igreja da qual Ele é a Cabeça. Normalmente aplicamos Apocalipse 3:20 às pessoas não salvas, mas, em primeiro lugar, isso foi dado aos crentes — a uma igreja de pessoas nascidas de novo que havia se tornado morna e muito satisfeita consigo mesma. Não havia comunicação de mão dupla. Deus não conseguia chegar até eles. Jesus estava realmente do lado de fora, batendo.
Não sei se o Senhor está do lado de fora da sua vida, batendo. Você tem aquele tipo de síndrome neurótica em que conta tudo a Ele, pergunta tudo a Ele, mas nunca, de maneira alguma, espera que Ele responda? “Eu? Ele não falaria comigo. Talvez falasse com o irmão Lance, mas não falaria comigo.”
Jesus disse:
As Minhas ovelhas ouvem a Minha voz.
Algumas pessoas ficam surdas, sabem, porque não querem ouvir. Lembro-me de que, quando era menino, tive um problema de surdez, e isso preocupava muito minha avó. Minha mãe era perspicaz demais, mas minha avó era uma querida. Avós e netos normalmente têm um relacionamento muito melhor, porque as avós não têm tantas responsabilidades.
Ela pensou: “Vou levá-lo a um especialista”, e fez isso por conta própria. O especialista examinou tudo e, por fim, levou-a a outra sala e disse algumas coisas à minha avó. Eu, é claro, fiquei sem saber de nada.
Era muito interessante, porque, toda vez que me mandavam fazer alguma coisa, eu não ouvia.
Mas, um dia, minha avó ficou à porta e, em um sussurro muito suave, disse: “Lance, você gostaria de um pouco de torta de maçã?” Então eu disse: “Sim”.
O diagnóstico do especialista foi confirmado. Ele disse: “Acho que o menino tem uma vontade muito forte. Não quer ouvir o que não quer ouvir”.
Ele disse: “Sugiro que lhe pergunte, em um sussurro, alguma coisa de que ele goste muito e veja se ele ouve”. Bem, eu ouvi. Portanto, nunca precisei fazer uma operação no ouvido nem nada assim. Era apenas a força da vontade.
Sabem, alguns de nós somos exatamente assim com o Senhor. Temos uma alma tão forte, somos tão obstinados. Temos nossas próprias ideias, nossas próprias concepções, até mesmo nosso próprio conhecimento bíblico. Isso nos impulsiona com uma força tremenda, e somos surdos para Ele.
Temos boas intenções, mas somos surdos.
Que coisa maravilhosa é esta casa de Deus. Eu gostaria que houvesse um céu aberto sobre cada grupo chamado de igreja.
Sobre muitos deles não pode haver um céu aberto. Não estão sobre esse fundamento do Senhor Jesus, mas sobre um fundamento inferior ou diferente.
Mas, onde quer que haja um grupo de pessoas que possa se reunir sobre esse fundamento do Senhor Jesus Cristo, reconhecendo o Seu nome e nenhum outro, como pedras vivas comprometidas com Ele como a principal pedra angular, eleita e preciosa, e depois comprometidas umas com as outras Nele, creio que pode haver um céu aberto.
Pois não há céu aberto sobre mim. O único céu aberto está sobre o Senhor Jesus. Mas, quando estou no Senhor Jesus, encontro um céu aberto. Descubro que o céu está absolutamente aberto.
Todo poder, toda graça, toda sabedoria, toda provisão — cada coisa de que preciso — é minha Nele. Há um céu aberto.
Nós, como povo de Deus, podemos experimentar um conflito tremendo, uma batalha tremenda, um antagonismo tremendo da parte de seres invisíveis, e não de carne e sangue. Mas, se estamos em Cristo, há um céu aberto. Há anjos subindo e descendo.
Como é maravilhoso quando o Espírito de Deus, em resposta ao nosso chamado e ao nosso clamor, ao nosso apelo ao céu, manifesta-Se em uma fé que acaba de nascer. Assim, o dom da fé se manifesta em alguém, e isso se torna contagiante.
Alguém na reunião de oração diz: “Graças a Deus, eu sei, eu sei que Tu vais vencer esta batalha”. Imediatamente vem um amém, e outro amém, e outro amém, e tudo sai daquele peso. Anjos subiram com o clamor; um anjo desceu com fé.
Talvez isso pareça coisa de escola dominical, mas vocês entendem do que estou falando. Aqui, novamente, estamos dizendo: “Ó Senhor, não entendemos este problema que veio sobre nós como grupo, ou que estamos enfrentando na obra de Deus. Parece tão complexo. O que é isso, Senhor? O que é?”
Enquanto oramos, uma pessoa querida e simples, muitas vezes uma irmã — ela nem sequer consegue falar o inglês da rainha —, vem depois e diz: “Irmão, irmão, não sei se devo dizer isto. Mas, enquanto estávamos orando, senti… Bem, não sei se devo afirmar categoricamente que foi o Senhor, mas senti que o Senhor me disse isto e isto e isto, e que deveríamos fazer isto e isto”.
Então levo as mãos à cabeça e penso: “Ó Senhor, como posso ser tão lerdo? Aqui está uma irmã idosa do grupo, que nunca frequentou um seminário teológico nem uma escola bíblica, nunca pregou uma mensagem na vida e nem sequer consegue falar o inglês da rainha. Temos orado por uma noite inteira ou duas, e agora ela trouxe a resposta. O que há de errado com todos nós?”
Dá vontade de dar um chute nos outros irmãos. Por que eles não receberam a resposta? Mas, no corpo de Cristo, às vezes Deus escolhe os membros mais fracos para fazer as maiores coisas, para que não haja divisão no corpo.
Nós, que temos responsabilidade, podemos ser muito autoritários e nos achar muito importantes. Às vezes, ficamos receosos diante de algumas dessas pessoas e de suas impressões, mas, às vezes, é a voz de Deus. Um anjo desceu. É uma palavra de sabedoria.
Vocês sabem o que é sabedoria? A aplicação dos fatos — o que fazer com eles. Conhecimento são apenas os fatos; sabedoria é o que fazer com eles.
Ah, não precisamos, às vezes, de conhecimento? Não precisamos, às vezes, saber quais são os fatos? É o inimigo? Às vezes, em um dos nossos grupos, sentimos como se tudo estivesse tão pesado, tão escuro, e todos começamos a culpar uns aos outros.
No fim, estamos todos em completa confusão, brigando uns com os outros. “É o irmão Fulano. É a irmã Fulana. É isto. É aquilo. É aquilo outro.” E não é nada disso.
Se ao menos buscássemos o Senhor e ouvíssemos o Senhor, talvez Ele dissesse: “Permaneçam firmes. Um inimigo entrou e está procurando impedir que esta obra avance mais um passo”.
Bem, isso é uma compreensão. É uma palavra de conhecimento. Agora entendemos onde estamos. Agora podemos fazer alguma coisa. É um inimigo. Cerremos fileiras. Isso não é carne e sangue. É um inimigo em ação. Vamos resistir a ele e louvar o Senhor.
O que acontece? Descobrimos que tudo ganha vida. Isso não é extraordinário? Não sei se vocês já tiveram essa experiência, mas, quando, ao longo dos anos, temos uma experiência após outra, sabemos que há algo nisso. Isso funciona.
Esta não é outra senão a casa de Deus e a porta dos céus. São anjos subindo e descendo sobre o Filho do Homem. O céu está recebendo comunicações e transmitindo comunicações. A vontade de Deus está sendo feita. Ah, louvado seja Deus!
Bem, você é um vaso de misericórdia? Não é algo de grande consolo para você e para mim que tenha sido a Jacó — o trapaceiro, o extorsionário, o enganador, o homem que não conseguia lidar com a própria natureza, com a própria vontade, porque era poderosa demais, forte demais, enérgica demais — que Deus revelou o que era a casa de Deus?
Ele não revelou isso tanto a Abraão, embora Abraão tenha visto a cidade que tem fundamentos. Mas foi a Jacó que Ele revelou o cerne da questão na cidade e mostrou essa casa do Senhor.
Ah, como eu gostaria que vocês vissem isso. Gostaria de enxergar isso mais claramente. Gostaria que estivéssemos vivendo essa experiência.
Ah, quem dera homens e mulheres deste mundo que está morrendo, ao nos tocar, tocassem o céu. Eles diriam: “Quão temível é este lugar!” Viria convicção de pecado. Viria convicção da própria necessidade. Viria convicção da verdade como ela é em Jesus.
Eles nos tocariam como o corpo do Senhor e diriam: “Deus está aqui”, e se prostrariam e adorariam, mesmo sendo homens e mulheres não salvos. Isso acontece.
Onde quer que haja uma verdadeira obra de edificação, onde quer que haja um verdadeiro funcionamento da casa de Deus, onde quer que haja um funcionamento no corpo de Cristo, ali é Deus encontrando os homens e os homens encontrando Deus. É a porta dos céus.
Então todas essas coisas de que falamos se tornam verdadeiras. Tomamos posse de nossas possessões. Multiplicamo-nos. Tornamo-nos uma bênção para os outros. Tornamo-nos príncipes com Deus e com os homens.
Que Deus faça isso por nós. Vamos orar?
Ó Senhor, todos temos de dizer, quando realmente encaramos essa questão da Tua casa, desse céu aberto e desses Teus anjos subindo e descendo sobre nosso Senhor Jesus, temos simplesmente de dizer, Pai, que todos estamos tão aquém disso.
Ó Deus, revela isso aos nossos corações. Tu nos chamaste, em Tua Palavra, de pedras vivas. Tu nos chamaste de igreja que estás edificando, contra a qual as portas do inferno não prevalecerão.
Senhor, leva-nos à realidade. Ó Deus, no fundo, todos somos Jacós. A Jacó Tu revelaste essas coisas; revela-as a nós, ó Deus. Que comecemos a enxergar isso.
Que comecemos a ser capazes de falar do Deus da casa de Deus — não apenas da casa de Deus, mas do Deus da casa de Deus.
Senhor, ajuda-nos, nós Te pedimos. Que recebamos uma nova compreensão da casa de Deus, da igreja de Deus, do corpo de nosso Senhor Jesus. Grava isso a fogo em nós, Senhor, para que entre em nossos corações como um desafio que nos leve a um compromisso Contigo.
E pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.
Agora vamos cantar um hino, creio eu. Não consigo lembrar o número. Duzentos e trinta e oito.
Duzentos e trinta e oito: “O Único Fundamento da Igreja”. Vamos ficar de pé? Tenho certeza de que vocês devem estar enrijecidos de ficar sentados no…