Bem, somos gratos por podermos nos reunir novamente este ano, gratos porque as águas não nos impediram de chegar aqui e gratos por aqueles que vieram antes e abriram o caminho para nós.
Gostaria que abríssemos esta noite nos versículos que são o tema da nossa conferência, em 2 Coríntios 3:17-18. Vou ler na versão New American Standard.
Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.
Mas todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como em um espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito.
Lendo novamente:
Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.
Mas todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como em um espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito.
Vamos orar.
Senhor, nós nos alegramos por estarmos juntos em Tua presença esta noite. Somos gratos pela maneira como tens preparado o caminho. Senhor, Tu és, de fato, Aquele que foi adiante e abriu o caminho para estarmos aqui.
Senhor, somos gratos porque, pela fé, podemos entrar na plenitude da provisão que tens para nós — ao falar, traduzir e ouvir. Senhor, estamos aqui esta noite, e, na verdade, não se trata de nós; trata-se de Ti.
Desejamos que Tua glória seja manifestada entre nós esta noite. Senhor, ao abordarmos Tua glória neste fim de semana, queremos realmente vê-la de uma maneira nova. Queremos que os ouvidos e os olhos do nosso coração sejam abertos para Te contemplarmos de tal maneira que saiamos daqui verdadeiramente permitindo que nos transformes ainda mais, de glória em glória.
Senhor, somos gratos porque há um propósito nisso. Tu tens um objetivo em vista, e queremos ser aqueles que seguem os Teus passos e realmente permitem que nos conduzas aonde desejas que vamos.
Como dissemos, não se trata de nós. Não se trata de aonde queremos ir. Senhor, trata-se de Ti. Queremos ser aqueles que Te seguem, que Te conhecem cada vez mais e que são o testemunho que nos chamaste a ser.
Somos gratos porque nos reunimos esta noite com o testemunho de que Jesus Cristo é o Senhor. Senhor, esse testemunho diz muito. Somos gratos porque temos o Espírito Santo. O Espírito do Senhor está entre nós esta noite; que esse Espírito tenha plena liberdade para trabalhar em cada coração e em cada vida.
Em Teu nome oramos. Amém.
Como vocês sabem, o tema desta conferência é Cristo, Nossa Glória. Ele dá continuidade ao que temos considerado nestes últimos anos. No ano passado, o tema foi Cristo, Nossa Vida. No ano anterior, foi Quem Sou Eu em Cristo? Antes disso, foi Vê-Lo, Conhecê-Lo, Segui-Lo.
Tenho muito apreço pelos irmãos responsáveis por esta conferência, porque eles têm reconhecido a hora e os dias em que estamos vivendo. Estão nos trazendo de volta à única coisa necessária: nosso Senhor Jesus Cristo.
Há muitas coisas nas quais podemos concentrar nossa atenção. Mas precisamos enxergar, cada vez mais, nesta hora em que vivemos, que há uma única coisa necessária — ou, na verdade, uma única Pessoa necessária. É o nosso Senhor Jesus Cristo tendo Seu lugar de direito, de maneira plena, na vida de cada um de nós.
Não apenas individualmente, mas em nossas famílias, em nossos lares e em nossas casas, que haja essa luz brilhando em nossas habitações para a glória de Deus. Também em nossas assembleias, que Ele tenha esse lugar de direito, para que, quando os Seus entrarem — quer sejamos uma assembleia de cinco ou dez pessoas, quer sejamos centenas —, a presença do Senhor esteja ali de tal maneira que as pessoas testemunhem: “O Senhor está aqui”.
Quando os irmãos enviaram um e-mail sobre esta conferência, resumiram o encargo que tinham no coração, e vou simplesmente lê-lo para vocês:
O encargo continua centrado na vida de Cristo expressa por meio de nós. Reconhecemos em nossa reunião que somente o Espírito Santo pode revelar aquilo que nos parece abstrato. Mas oramos para que a transformação que ocorre ao contemplarmos a Ele preencha a todos para Sua glória.
Enquanto estamos aqui, assim como acabamos de cantar naquele cântico, aquela última estrofe dizia que Sua vida na glória seria vivida em nós. É por isso que estamos aqui neste fim de semana.
Há uma expressão linda nesse versículo: ele fala de contemplá-Lo. Quanto mais O contemplamos, menos nos distraímos. Quanto mais O contemplamos, mais essa grande obra de transformação é realizada. Quanto mais O contemplamos, mais nos apaixonamos por Ele, de maneira mais plena e profunda.
É por isso que estamos aqui, porque nosso Senhor é zeloso. Ele anseia por voltar e zela para que a vida de Seu Filho seja expressa por meio de cada um daqueles por quem deu Sua vida.
Ele deu Sua vida por nós com um propósito, e esse propósito é que a vida de Seu Filho seja expressa por meio de nós. Não se trata apenas de saber a respeito Dele ou de falar a respeito Dele. A comunhão que podemos ter é maravilhosa. Mas, além de conversar, além até mesmo de conhecer e estudar Sua Palavra, há um contato com a vida.
Há uma batalha pela vida nestes dias, e ela diz respeito à vida de Seu Filho sendo expressa em Seu povo. Foi do agrado do Pai revelar Cristo em nós. É preciso sempre ter cuidado ao dizer isso, mas, de certa forma, também é do agrado do Pai quando a vida de Seu Filho é revelada por meio de nós.
Quando a vida de Cristo é vista em Seu povo, há uma glória que alcança o coração do Pai. Há um tesouro ali.
Sabe, quando vi pela primeira vez este tema, Cristo, Nossa Glória, meu primeiro pensamento foi: “Como alguém poderia falar o suficiente sobre Cristo?” Depois pensei: “O que é glória?” É fácil vocês se sentarem numa reunião de planejamento e proporem esses temas bonitinhos: Cristo, Nossa Glória. Certo, mas o que é glória? O que isso realmente significa? O que é a glória de Cristo?
De repente, encontramos uma dessas palavras nas Escrituras que não conseguimos definir. Ela está além de uma definição, mas podemos vê-la descrita.
Lembro-me de uma ocasião em que estávamos levando dois irmãos de volta a Richmond, depois da conferência de Harvey Cedars. O outono tinha chegado um pouco mais cedo naquele ano. Estávamos voltando de carro, e esse irmão mais jovem disse: “Ah, as cores das árvores são gloriosas”.
O irmão mais velho apenas olhou para ele e disse: “Sim, as árvores são bonitas. Somente o Senhor é glorioso”. Houve uma pausa — uma espécie de silêncio no carro por alguns minutos —, mas entendemos a lição.
Na verdade, nós rebaixamos o significado dessa palavra. Dizemos: “Isso é glorioso. Aquilo é glorioso”. Mas há uma glória que pertence somente ao nosso Senhor, porque é a manifestação de Sua vida.
Alguns a descrevem como a presença do Senhor manifestada. Quando a presença do Senhor é manifestada de maneira real, há uma glória ali. Você não sabe definir o que é, mas a reconhece.
Outra pessoa a descreveu como aquilo que acontece quando Deus está satisfeito. Quando Ele vê a vida de Seu Filho manifestada, Deus fica satisfeito, e isso aquece Seu coração.
Quando pensamos na glória do Senhor expressa ao longo das Escrituras, lembro-me do tabernáculo e do templo. Quando foram concluídos, a glória do Senhor desceu e os encheu. Por que isso aconteceu?
De maneira muito simples, a glória do Senhor desceu porque o povo fez exatamente o que Ele lhes havia mandado fazer. Ele lhes deu um modelo, e eles o seguiram. Então a glória desceu.
Não é essa a vida cristã? Ele nos diz o que fazer. Ele diz:
Segue-Me.
Quando simplesmente O seguimos, quando vamos após Ele, ouvindo, obedecendo e confiando Nele, então Sua glória se manifesta. Não se trata de nós. Trata-se de o coração do Pai ficar satisfeito.
Sempre que pensamos na glória do Senhor, vamos ao monte da transfiguração. As Escrituras falam de quando nosso Senhor foi transfigurado: eles contemplaram Sua glória. O que era aquilo? O que estavam contemplando? Estavam apenas contemplando uma luz intensa? Estavam contemplando algo brilhante diante deles?
Estavam contemplando uma vida manifestada diante deles — algo que nunca haviam experimentado antes. Uma vida se manifestou e se expressou, e havia tamanha plenitude dentro deles.
Lembro-me de como João testemunha a respeito de nosso Senhor em João 1:14:
O Verbo Se fez carne e habitou entre nós, e contemplamos Sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Era uma glória que demonstrava que Ele era o Unigênito.
Estas conferências têm o objetivo de nos trazer de volta a Cristo. Há muitas coisas nesta hora e nos dias em que vivemos que tentam nos distrair da simplicidade e da pureza de segui-Lo.
A glória do Senhor não é uma glória complexa. Há uma simplicidade nela: é a vida de Cristo manifestada. Quando ela se manifesta, vemos que não é algo abstrato. É uma vida. É a manifestação de Sua vida.
Quando pensamos em glória, às vezes pensamos na glória futura. Há uma glória futura, e não vou tratar disso esta noite. Mas, quando vocês pensam nessa glória futura, o que tanto me abençoa é ver o cumprimento — a expressão coletiva, essa glória coletiva, esse testemunho: a noiva se preparou.
Vocês não estão vendo indivíduos; estão vendo uma expressão coletiva de Sua vida, porque esse é Seu coração e Seu propósito.
Mas o que Paulo está compartilhando aqui nesta carta é essa glória presente: Sua vida sendo manifestada em nós hoje, na própria vida que estamos vivendo. Independentemente das circunstâncias, Ele zela para que essa vida seja manifestada.
Somos gratos, como temos considerado nestas conferências anteriores, porque, quando somos salvos, temos Cristo em nós. Temos a própria vida de Cristo em nós. Irmãos e irmãs, não vamos receber mais dessa vida. Temos Sua vida em nós. Temos Cristo habitando em nós.
Mas, à medida que prosseguimos e O experimentamos, experimentamos cada vez mais dessa vida que já estava ali. A vida já estava ali, mas, à medida que Ele nos conduz, que respondemos à Sua graça e que respondemos ao Seu chamado, vemos cada vez mais.
De muitas maneiras, pensamos que estamos crescendo em Cristo, mas, na verdade, estamos experimentando mais de Sua vida, e mais de Sua vida está se tornando realidade para nós.
Este é o desafio diante de nós neste fim de semana. Precisamos ir diante do Senhor, em nossos momentos a sós com Ele, com um coração sincero, dizendo: “Senhor, a plenitude dessa vida que está dentro de mim está sendo expressa em mim? De que maneira estou impedindo isso? Ou estou entrando, diariamente, em tudo o que Tu tens para mim?”
Nossa, isso é tão vital nestes dias, porque, à medida que os dias se tornam mais difíceis, há cada vez mais pressões — o estresse da vida. Hoje em dia, nem é preciso falar disso, porque todos entendem. Todos conhecem as pressões e o estresse da vida e as muitas maneiras pelas quais eles nos atingem.
Você supera uma situação, e outra coisa vem contra você. É uma batalha sem fim. Louvado seja Deus, de muitas maneiras precisamos nos alegrar no Senhor quando essas pressões vêm sobre nós, porque isso significa que estamos no caminho certo.
Você entra no caminho errado, onde não há pressão, e o inimigo diz: “Pronto, eu o peguei. Estou tirando-o do caminho. É só deixá-lo seguir tranquilamente”. Mas, louvado seja Deus, quando estamos no caminho certo, há conflitos por dentro, temores por fora e todo tipo de coisa. Vemos o que Paulo enfrentou.
Essa é a vida cristã normal nestes últimos dias. Há essa grande batalha pela vida. Precisamos ter esse relacionamento pessoal com Ele — esse relacionamento pessoal, diário, de conhecê-Lo. É isso que nos sustenta.
Não podemos nos esconder em um ambiente coletivo. Somos gratos pelo ambiente coletivo; somos gratos por nossas assembleias. Mas não podemos nos esconder ali. O que é essencial para atravessarmos estes dias é nosso próprio relacionamento pessoal com Ele, dia após dia, momento após momento, como cantamos — conhecendo-O na plenitude de tudo o que Ele tem para nós.
Caso contrário, seremos daqueles que desfalecem. O Senhor fala de como, nestes dias, à medida que as pressões e diversas coisas vêm sobre as pessoas, elas desfalecerão. Vemos isso acontecer diante de nossos olhos, até mesmo com os chamados crentes de destaque.
Vemos um líder de louvor de uma equipe de louvor muito popular, de repente, questionando e negando sua fé. Vemos um pastor de uma megaigreja, como em Baltimore, que havia sido usado pelo Senhor de maneira poderosa, de repente, questionando e negando a fé.
Temos o caso de um pastor de jovens, um querido irmão, que ministrava àqueles que lutavam contra a depressão, mas que acabou tirando a própria vida. Há uma verdadeira batalha pela vida lá fora.
Se não tivermos esse relacionamento com Ele, também podemos desfalecer. Quando vemos pessoas caindo ao nosso redor, isso deveria nos despertar, porque precisamos ter certeza de que nossa confiança não está em um homem.
Até mesmo o Senhor disse que, se Ele não abreviassse o tempo, até os eleitos desfaleceriam. Mas, louvado seja Deus, temos dentro de nós essa vida que pode nos fazer atravessar tudo isso.
É por isso que aprecio este versículo. Fazemos a pergunta: “Como posso não desfalecer? Como posso prosseguir? Como posso enfrentar estes dias?” Para mim, este versículo mostra a simplicidade de como podemos prosseguir: a simplicidade de contemplá-Lo e permitir que Ele faça essa obra dentro de nós.
Não vou entrar nas profundezas deste versículo, porque os outros irmãos que vão compartilhar me crucificariam, e já vou ser acusado de roubar alguma coisa. Vou apenas passar pelas bordas deste versículo e examiná-lo de maneira superficial esta noite, deixando um pouco de sua profundidade para os outros irmãos que vão compartilhar.
Uma das coisas que me encorajaram neste versículo é a primeira parte de 2 Coríntios 3:18. Para quem é este versículo? É para todos nós — ou, como diríamos lá no sul dos Estados Unidos, é para vocês todos, sem exceção.
Ele começa dizendo:
Mas todos nós.
Todos vocês. Isso não é para algum grupo seleto de pessoas ou para alguns servos especiais. Quando Deus chama alguém, o chamado de Deus se estende a todos. Não se limita a apenas alguns.
Pensem em quando o Senhor diz, em Lucas 9:23:
Se alguém quer vir após Mim.
Ele faz esse chamado. Em Romanos 12:1, quando fala de consagração, diz:
Rogo-vos, pois, irmãos.
Cada um de vocês, todos os irmãos.
O chamado do Senhor ao Seu povo se estende a cada um de nós. Gostamos de limitar as coisas de uma maneira ou de outra, mas há um privilégio que cada um de nós tem individualmente: permitir que Ele faça essa obra de nos conformar à Sua imagem.
Ele quer conformar cada um de nós à Sua imagem, mesmo que pensemos que somos indignos. Dizemos: “Senhor, sou tão indigno de ser conformado à Tua imagem. Sou tão despreparado. Sou tão ruim”. Bem, supere isso. Ele já sabe.
O problema é quando você acha que é digno. Somos indignos. Aceite isso. Encare isso. Somos os indignos. Somos a escória da terra. Não pense que somos algum grande santo que Deus escolheu.
Mas, quando contemplamos Sua glória, nossa resposta é: “Somos indignos”. Certo, vamos superar isso. Somos os indignos. Isso não nos desqualifica. Ele sabia disso antes de nos salvar. Foi por isso que foi ao Calvário.
Ele diz: “A cada um de vocês: são vocês que Eu quero”. Você vai aceitar isso? Precisamos encarar essa realidade.
Desculpem-me por ser tão direto, porque, sabe, nestes dias de pessoas tão melindrosas, não se deve ser direto. Mas sou grato porque podemos deixar todo o politicamente correto lá fora. Precisamos encarar o fato de que não somos dignos, mas Ele é o Digno. Nós nos entregamos a Ele e prosseguimos, permitindo que Ele faça essa grande obra que deseja fazer.
Gosto muito de como Paulo fala aqui de nossa condição. Ele fala de termos o rosto desvendado. É simplesmente aquele testemunho maravilhoso de João 9:25:
Eu era cego e agora vejo.
Louvado seja Deus, quando nascemos de novo, nós, que antes éramos cegos, agora vemos. Não temos desculpa. Ele tirou aquilo que nos impedia de enxergar. Podemos vê-Lo. Podemos contemplá-Lo.
Ele abriu o caminho para entrarmos em Sua presença. Nós, que antes precisávamos ficar longe, nós, que não ousávamos entrar em Sua presença, por causa de Seu grande amor — Seu amor constante, que nunca cessa —, podemos entrar em Sua presença e permitir que Ele faça essa grande obra de transformação, com o rosto desvendado.
Não sei quantos de vocês já leram este versículo-tema antes, mas, quando começam a lê-lo, descobrem que ele é traduzido de muitas maneiras diferentes. Há muitas interpretações diferentes sobre o significado do versículo.
Há uma palavra grega neste versículo, relacionada a contemplar ou olhar, que aparece somente aqui em todo o Novo Testamento. Algumas traduções dizem contemplando; outras, olhando; outras, considerando; outras, vendo. Às vezes se usa a palavra espelho; às vezes, vidro; às vezes, nenhuma das duas.
Mas não vamos nos distrair com as palavras. Vamos olhar para o espírito do que está sendo dito. Talvez um dos outros irmãos entre em mais detalhes sobre as palavras, mas o espírito e a essência do que está sendo dito é que Ele nos chama a contemplar a glória do Senhor.
Essa é a questão central, e é para isso que estamos aqui neste fim de semana: para contemplá-Lo e contemplar Sua glória. A essência é contemplá-Lo e permitir que o Espírito Santo faça essa grande obra que deseja fazer dentro de cada um de nós.
Também li 2 Coríntios 3:17 porque penso que esses dois versículos estão muito relacionados. Ambos falam da obra do Espírito do Senhor.
Ora, o Senhor é o Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.
Duas vezes ali se faz referência ao Espírito do Senhor. Ao longo dos anos, tenho percebido que esse versículo, na verdade, é mal compreendido e aplicado de maneira errada quando se trata dessa questão da liberdade.
Podemos usar mal esse versículo porque vemos “o Espírito do Senhor” e pensamos: “Somos livres”. Então, de repente, por sermos pessoas tão centradas em nós mesmas, pensamos que somos livres para fazer tudo o que queremos. Somos livres para servir onde queremos servir, adorar onde queremos adorar, ir a qualquer reunião que desejamos frequentar e fazer tudo o que queremos fazer.
Mas, irmãos e irmãs, a liberdade que temos em Cristo não diz respeito a nós. Diz respeito a sermos livres para servi-Lo.
Se vocês examinarem as palavras relacionadas à liberdade no Novo Testamento grego, os versículos são muito coerentes. Sempre há algo de que vocês foram libertos e algo que foram libertos para fazer.
Romanos 6:18 diz:
E, libertados do pecado, vos tornastes servos da justiça.
Louvado seja Deus, estamos livres do pecado. Mas também fomos feitos servos da justiça — para servi-Lo e nos ocuparmos com Seu propósito.
Gálatas 5:13 diz:
Vós fostes chamados à liberdade, irmãos; somente não useis a liberdade como oportunidade para a carne, mas servi-vos uns aos outros pelo amor.
Não fomos libertos para servir à nossa própria carne, mas para, pelo amor, servirmos uns aos outros.
1 Pedro 2:16 fala de agirmos como homens livres:
Não useis a liberdade como cobertura para o mal, mas usai-a como servos de Deus.
Vocês começam a perceber o padrão aqui. Não vamos ler todos os versículos, mas considerem mais um, 1 Coríntios 8:9, porque ele mostra nosso relacionamento dentro do corpo de Cristo. Quando realmente amamos uns aos outros, a liberdade que temos significa que, de fato, negamos a nós mesmos por amor aos outros.
Mas vede que essa vossa liberdade não venha, de algum modo, a ser um tropeço para os fracos.
Louvado seja Deus, em nossa vida individual o Senhor pode nos dar liberdade para fazer isto ou aquilo. Mas, se isso se torna uma pedra de tropeço, a questão é outra. Era isso que estava acontecendo em Corinto. Eles estavam comendo alimentos sacrificados a ídolos, e alguns que eram fracos não compreendiam isso.
O que isso mostra é que estamos no corpo de Cristo e precisamos ter consideração pelos outros. Precisamos estar conscientes de que aquilo que fazemos afeta os outros. Temos essa consciência? Posso fazer isso com a consciência limpa, sabendo que não vou exercer uma influência negativa sobre os outros?
Há uma consciência que vai além de nós mesmos. O Senhor nos libertou do pecado, do mundo e do próprio inimigo. Mas Ele nos libertou para sermos servos de Deus, servos da justiça, servos uns dos outros — capazes de, em amor, servir e cuidar uns dos outros.
Não somos livres para fazer a nossa vontade. Somos livres para fazer a vontade Dele. Somos livres para fazer a vontade de Deus. Essa é a maior liberdade que temos: somos livres para contemplar Sua glória e somos livres para ser transformados à Sua imagem.
Louvado seja Deus, irmãos e irmãs, essa gloriosa liberdade dos filhos de Deus é uma liberdade maravilhosa que temos. Mas não queremos abusar dela em benefício de nossos próprios interesses. Somos libertos por causa Dele e para Sua glória.
Um irmão disse a respeito desses versículos: “Esses versículos ressaltam a glória da nova aliança e o verdadeiro caráter da liberdade cristã”. Vemos a glória da nova aliança, que é Sua vida, e o verdadeiro caráter da liberdade cristã: uma vida entregue.
Tragicamente, hoje tantos entendem isso de maneira errada. Infelizmente, em grande parte do ensino contemporâneo, a ideia equivocada de que fomos libertos para fazer nossa própria vontade continua sendo repetida. Mas é uma liberdade para contemplar. É liberdade para Ele trabalhar em nossa vida.
Essa liberdade nos permite entrar na presença do Senhor e contemplar a glória do Senhor.
Gosto muito do fato de que o texto não diz “contemplaremos” nem “contemplamos”, mas contemplando. Está no presente, e é contínuo. Estamos ali, contemplando-O — não com uma rápida olhadinha, mas concentrando nossa atenção Nele e considerando-O de maneira maravilhosa.
O inimigo está sempre tentando nos distrair, fazer nossos olhos se desviarem um pouquinho para cá e um pouquinho para lá.
Meu filho e eu viemos de carro até aqui, basicamente pela rodovia interestadual 95 e por outras estradas. O aplicativo de navegação do Google foi traçando rotas alternativas para nós. Às vezes você passa por lugares onde nunca esteve e não faz ideia de onde está, mas ele o leva até o destino.
É interessante como vocês aqui do nordeste dos Estados Unidos estão acostumados a dirigir neste trânsito. Nós, que viemos do sul, achamos que vocês não são motoristas muito educados por aqui. Vocês não deixam as pessoas entrarem. Simplesmente fecham os outros.
Quando dirigimos por aqui, percebemos que precisamos manter a atenção o tempo todo. Precisamos estar olhando e observando o tempo todo. Certa vez, olhei para uma paisagem bonita ao lado da interestadual 95 — o que é raro —, e, de repente, alguém entrou bem na minha frente naquele momento.
Ou então aquele pequeno aviso sonoro toca no seu celular, e você sabe muito bem que não deve olhar. Mas tem tanta confiança na própria capacidade que acha que pode tirar os olhos da estrada por apenas um segundo para conferir se os Yankees ainda estão ganhando.
Temos tanta autoconfiança, e desviamos o olhar. Essas coisas podem se tornar catástrofes diante de nossos olhos.
Às vezes nem estamos sendo distraídos por coisas ruins. Pensem no monte da transfiguração. Pedro, Tiago e João estavam ali, e o Senhor Se manifestou naquele monte. Quando Ele foi transfigurado, Pedro se distraiu com Moisés e Elias.
O Pai precisou dizer: “Não, trata-se do Meu Filho”. Não há nada de errado em admirar Moisés, admirar Elias ou admirar grandes homens de Deus. Mas mantenham o principal como principal, como o irmão Fromke costumava dizer.
Tudo diz respeito a Ele. É para isso que fomos trazidos.
Eu estava pensando bastante naquele monte da transfiguração. Eles subiram ao monte sem fazer ideia do que iria acontecer. Não tinham visto uma prévia. Então chegaram lá, e, de repente, Ele foi transfigurado daquela maneira gloriosa.
As Escrituras descrevem aquilo como uma luz muito intensa. Eu estava pensando na intensidade da luz que, na verdade, estamos perdendo nestes dias. Hoje, quando você acende uma dessas lâmpadas modernas que economizam energia, ela começa meio fraca e depois vai ficando cada vez mais forte.
Mas vocês se lembram dos velhos tempos? Você tinha uma daquelas boas lâmpadas ineficientes. Ela consumia toda a energia, mas, nossa, você ligava a luz — bum! A luz acendia, e você ficava ofuscado.
Era isso que estava acontecendo no monte da transfiguração. Quando aqueles homens estavam ali com nosso Senhor, não foi uma pequena luz aparecendo, depois um pouco mais de luz. Não, bum! Ele irrompeu em glória.
Eles não conseguiam descrever aquilo. Um dos Evangelhos diz que era mais branco do que qualquer lavadeiro conseguiria deixar as roupas. Era mais branco do que qualquer roupa que pudessem produzir. Houve uma manifestação súbita de vida, e eles ficaram atônitos.
Essa é a glória de Deus. É isso que Ele quer que vejamos. Talvez não tenhamos exatamente aquela experiência, mas há uma manifestação de Sua vida.
As palavras transfigurar e transformar correspondem à mesma palavra grega. A questão é que eles O estavam contemplando, e então essa manifestação de vida irrompeu de maneira gloriosa. Ficaram atônitos. Ficaram aterrorizados.
Mas aquilo impactou a vida deles. Vemos João escrevendo sobre isso mais tarde. Vemos Pedro falando sobre isso mais tarde, em suas epístolas. Aquilo ardia dentro do espírito deles e os havia conquistado.
Quando vemos a glória do Senhor, quando essa vida é manifestada, a marca é indelével. Não sou especialista em língua inglesa, mas você fica marcado para o resto da vida. Aquilo permanece, e você nunca se esquece.
Cantamos tantas músicas sobre glória de maneira casual. Irmãos e irmãs, estamos aqui neste fim de semana. Que o Senhor fale ao nosso coração sobre isso de uma maneira nova, para que verdadeiramente conheçamos Cristo como nossa glória.
Eu estava pensando no livro de Atos. Havia um querido jovem chamado Estêvão. Ele estava diante do Sinédrio porque havia proclamado o evangelho e realizado grandes e maravilhosas obras. Foi preso e levado diante do Sinédrio.
Quando os membros do Sinédrio olharam para ele, qual foi o testemunho a respeito de Estêvão no final de Atos 6:15?
E todos os que estavam assentados no conselho, fitando os olhos nele, viram seu rosto como o rosto de um anjo.
Havia ali o rosto de alguém que pertencia a outro reino. Eles nunca tinham visto aquilo antes.
Sabemos como Estêvão, de sua maneira maravilhosa, compartilhou aquela história extraordinária da obra e do propósito de Deus. Isso os enfureceu tanto, porque atingiu suas tradições, que o apedrejaram até a morte.
No final, enquanto Estêvão estava sendo apedrejado até a morte, seu testemunho foi este, em Atos 7:55:
Mas ele, cheio do Espírito Santo, fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus, e Jesus em pé à direita de Deus.
Isso aconteceu em meio ao apedrejamento. Ele fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus e Jesus em pé à direita de Deus.
O que o sustentou? Não foi a própria capacidade de Estêvão de suportar o martírio. A glória de Deus o sustentou. A vida de Cristo o sustentou durante aquilo.
Enquanto era apedrejado, vemos o mesmo coração e a mesma atitude — a vida de Cristo — se manifestando em Estêvão quando ele orou, em Atos 7:60:
Não lhes imputes este pecado.
Assim como nosso Senhor, quando estava na cruz, disse em Lucas 23:34:
Pai, perdoa-lhes.
Vemos o Espírito de Cristo se manifestando em Estêvão. Aqui está alguém que contemplava o Senhor e permitia que a vida do Senhor operasse nele e por meio dele. Esse é o desejo de Deus para cada um de nós.
Irmãos e irmãs, ao passarmos por esta vida, há tantas coisas que podem nos ocupar — pessoas, acontecimentos, carreiras e coisas religiosas que são importantes para nós. Mas há Alguém que deseja Se tornar mais precioso para nós.
Nosso Senhor Jesus Cristo quer que tenhamos um novo sistema de valores — todo o nosso sistema mudado, toda a nossa perspectiva mudada, nossos desejos e objetivos mudados.
Como eu disse, Ele esteve ali o tempo todo. Sua vida esteve ali o tempo todo. Mas Ele quer que, de uma maneira nova, nós O vejamos e O experimentemos como nunca antes.
Um dos meus versículos favoritos nos Salmos é Salmos 34:8:
Provai e vede que o Senhor é bom.
Gosto muito dessa parte: “Provai e vede”. Eu gosto de provar as coisas.
Esta é uma ilustração simples e não se compara, de maneira alguma, à glória da qual estamos falando, mas, à medida que vocês provam e veem o Senhor, começam a experimentá-Lo de maneiras que nunca experimentaram antes.
No Brasil, eles têm uma comida maravilhosa chamada pão de queijo. Se você vai ao Brasil pela primeira vez, ninguém lhe fala sobre isso. Você olha para aquelas coisas, e são apenas bolinhas de massa assada. Não parecem grande coisa.
Alguns alimentos chamam logo sua atenção quando você entra numa loja. Você diz: “Preciso experimentar aquele”. Mas esses são apenas bolinhas de massa assada. Se você não sabe nada a respeito, não os come.
Mas então alguém o encoraja a provar e ver. Compartilha com você as boas-novas do pão de queijo. Fala desse pão com queijo, e você experimenta. É maravilhoso.
De repente, toda a sua perspectiva muda. Você passa a ter uma perspectiva completamente diferente sobre o pão de queijo e não consegue parar de comer.
Quando voamos para o Brasil, depois que desembarcamos em São Paulo e passamos pela alfândega e pela imigração, qual é a primeira coisa que fazemos? Vamos à pequena cafeteria e pedimos um café e dois pães de queijo. É assim que fazemos. Nunca parece suficiente.
É assim que o Espírito Santo trabalha dentro de nós quando simplesmente O contemplamos. Ele diz: “Prove e veja que Ele é bom”. Você experimenta um aspecto Dele e vê que Ele é bom. Então nunca parece suficiente. Você quer mais e mais.
Isso começa a nos mudar e transformar. Muda nossa perspectiva. Quanto mais vemos Dele, mais isso começa a mudar as coisas em nossa vida que eram tão importantes para nós.
De repente, tínhamos este plano de carreira — este glorioso plano de carreira diante de nós. Mas então vimos um aspecto de Cristo e percebemos que Ele nos chama. Aquele plano de carreira, que era tão maravilhoso, começa a perder um pouco de seu brilho.
Talvez eu não precise dedicar todas aquelas oitenta horas por semana a isso. Começamos a ter uma perspectiva diferente.
Talvez seja em nossa formação acadêmica. Estamos decididos a ter uma excelente formação, o que é maravilhoso. Mas, ao vermos o Senhor, talvez percebamos que não precisamos seguir tão longe naquele caminho, ou por este caminho, ou por aquele.
Começamos a olhar para as coisas — os esportes, o entretenimento e as maneiras de ocupar nosso tempo — que eram tão importantes para nós. Elas começam a perder seu brilho.
Vocês conhecem aquele pequeno hino que diz: “As coisas da terra perderão seu brilho à luz de Sua glória e graça”? É isso que está acontecendo. Quanto mais vemos Dele e contemplamos Sua glória, mais essas outras coisas começam a perder seu brilho.
As coisas que nos impulsionavam no passado já não exercem aquela atração. Nós nos vemos passando mais tempo com Ele.
Também percebemos que há em nosso coração um desejo de estar mais com os irmãos e irmãs. Começamos a pensar: “Nossa, preciso ir à reunião de oração”. Temos esse desejo de ir à reunião de oração, ao estudo bíblico, à mesa do Senhor e a tudo mais que esteja acontecendo. Queremos ajudar os irmãos e irmãs necessitados.
Nossa perspectiva muda porque fomos conquistados por Ele. Essa glória é Sua obra de nos transformar de glória em glória, conformando-nos à imagem que Ele está formando dentro de nós.
Quando Paulo usa essa expressão, “de glória em glória”, ela fala da natureza progressiva da vida cristã — realmente passando de um grau de conhecimento do Senhor a outro, vendo cada vez mais Dele.
Ao passarmos por diferentes experiências com nosso Senhor, Sua vida sempre esteve ali. Mas às vezes passamos por uma experiência — talvez uma enfermidade, um trauma ou a morte de alguém da família. Você pode perder seu emprego. A lista é interminável.
Quando passamos por isso e o Senhor nos faz atravessar a situação, temos uma perspectiva totalmente diferente Dele. Depois de passar por algo assim, às vezes perguntamos a nós mesmos: “Será que eu realmente O conhecia antes? Será que eu era salvo antes?”
Sim, você era salvo antes. Mas a luz agora é tão mais intensa que aquilo que tínhamos antes cresceu. Há uma nova experiência. Estamos vendo cada vez mais da imensidão, da altura, da profundidade, do comprimento e da largura de Seu amor, que nos conquistou.
É isso que Ele busca. Enquanto contemplamos Sua glória, Ele realiza essa transformação maravilhosa. Sua imagem, Seu próprio caráter e Sua vida estão agora sendo expressos em nós. Ele está crescendo, e nós estamos diminuindo.
Ao examinarmos este versículo em 2 Coríntios, é bom lembrar que 2 Coríntios fala da vida espiritual, enquanto 1 Coríntios, de modo geral, fala da vida carnal. Paulo está se dirigindo àqueles que estão nesse caminho da vida espiritual.
Ao longo dos escritos de Paulo, há dois instrumentos que o Espírito Santo usa para realizar essa obra maravilhosa de transformação, essa obra maravilhosa de nos permitir ver cada vez mais Dele. São duas de nossas palavras favoritas: a cruz e o sofrimento.
Ah, palavras gloriosas. Todos sabiam que elas apareceriam mais cedo ou mais tarde neste fim de semana.
Olhem para o capítulo seguinte, 2 Coríntios 4. Vemos essas duas coisas. Vemos como a cruz está operando. Considerem 2 Coríntios 4:11-12:
Porque nós, que vivemos, somos constantemente entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus seja manifestada em nossa carne mortal.
Assim, a morte opera em nós, mas a vida, em vós.
É isso. Há uma morte que opera em nós, mas, por meio da cruz, há uma vida que se manifesta. Louvado seja Deus por isso.
Depois, mais adiante no capítulo, a partir de 2 Coríntios 4:16 e especialmente em 2 Coríntios 4:17, vemos a questão dos sofrimentos. Admito que, quando você está passando por um sofrimento, não parece ser assim.
Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós um peso eterno de glória, muito além de toda comparação,
enquanto não olhamos para as coisas que se veem, mas para as que não se veem;
porque as coisas que se veem são temporais, mas as que não se veem são eternas.
Irmãos e irmãs, os sofrimentos desta vida pelos quais estamos passando estão produzindo dentro de nós esse peso eterno de glória. Algo grandioso está acontecendo enquanto passamos por essas coisas e permitimos que a cruz opere diariamente dentro de nós. Ele precisa crescer, e nós precisamos diminuir. Mais de Sua vida é formada dentro de nós.
Quando o Senhor usa esses instrumentos da cruz e do sofrimento, um dos ambientes em que isso mais se realiza — embora seja uma obra individual — é o corpo de Cristo, a casa de Deus.
Na casa de Deus, à medida que os irmãos e irmãs são edificados juntos, vemos essa grande obra de transformação, em que as pessoas são mudadas de glória em glória.
Agradeço ao Senhor porque, ao nos reunirmos aqui ao longo de tantos anos, pela fé podemos dizer que a maioria de nós não é a mesma de muitos anos atrás. Talvez não estejamos onde deveríamos estar, mas graças ao Senhor pela obra que Ele fez.
Essa obra é realizada dentro do corpo de Cristo. Aqueles queridos irmãos e irmãs que lhe causam as maiores dores de cabeça — o irmão Spurgeon costumava chamá-los de seu tesouro — estão produzindo a glória de Cristo em nós. Que aprendamos a valorizar nossos irmãos e irmãs. Ele nos colocou nesses lugares.
Cantamos no início aquele hino, Há um Homem na Glória. Não sei se vocês perceberam, mas há uma progressão na última frase de cada refrão.
O primeiro diz: “Há um Homem na glória; Sua vida na glória, minha vida deve ser”. Isso é quando somos conquistados pelo Senhor pela primeira vez. “Minha vida — ela precisa ser assim.” Há esse desejo.
Depois o hino continua. A terceira estrofe diz: “Sua vida na glória, minha vida pode ser”. Há esperança ali. Não apenas deve ser, mas agora, enquanto prossigo, pode ser. Há uma esperança viva.
Louvado seja Deus, o hino conclui: “Sua vida na glória é vivida em mim”. Essa é a realidade. É isso que Ele busca. É por isso que Ele zela nestes dias: Sua vida na glória sendo vivida em mim.
Quero falar um pouco de um querido irmão cuja vida o Senhor pôde conquistar. Vemos muito da vida do Senhor expressa por meio desse irmão. Seu nome era Robert Chapman.
Ele participou dos primeiros tempos do movimento dos Irmãos. Viveu até os noventa e nove anos, quase cem. Vemos a vida do Senhor nele. Foi um servo fiel do Senhor.
Se vocês tiverem a oportunidade de ler um livro sobre Robert Chapman, eu os encorajo a fazê-lo. Robert Chapman era conhecido como o Apóstolo do Amor. Ele foi conquistado de tal maneira pelo amor de Cristo que esse amor governou sua vida.
Há uma história famosa sobre uma pessoa da Austrália que não sabia seu endereço. Isso foi no século XIX, e essa pessoa enviou uma carta endereçada simplesmente assim:
Robert Chapman
Apóstolo do Amor
Reino Unido
Ela enviou a carta pelo correio, e sua reputação era tão marcante que, naqueles tempos, a carta chegou até ele. Quem dera tivéssemos uma reputação assim.
Deixem-me compartilhar algumas citações dele, porque aprecio muito sua própria perspectiva. Um irmão lhe perguntou: “Qual é o seu desejo? Qual é o seu desejo na vida?”
Ele era um pregador famoso, embora alguns lhe dissessem que nunca conseguiria pregar e que não era um pregador muito bom. Alguns chegaram a lhe dizer que desistisse. Nunca foi um dos homens mais eloquentes, mas o que ele tinha era vida, e compartilhava vida.
Havia outros que podiam falar de maneira mais grandiosa do que ele, mas o que ele compartilhava era realidade. Ele tinha Cristo e compartilhava Cristo.
Sua resposta foi:
Há muitos que pregam Cristo. Eu quero viver Cristo.
Muitos podem pregar Cristo. Eu quero viver Cristo. Esse era seu desejo.
Ele também disse:
Não glorificamos a Deus tanto pelo que fazemos quanto pelo que somos.
Não glorificamos a Deus tanto pelo que fazemos quanto pelo que somos.
Às vezes é bom ouvir o que outras pessoas dizem sobre você, talvez até alguém que não concorde com você. Havia outro irmão famoso chamado J. N. Darby.
Tragicamente, no movimento dos Irmãos houve divisões e diferentes grupos. Chapman e Darby acabaram em lados diferentes em várias ocasiões.
Às vezes, seguidores de Darby faziam comentários depreciativos sobre Chapman, e Darby sempre os interrompia. Ele tinha grande respeito por Chapman, embora discordasse dele.
Darby disse:
Nós falamos das regiões celestiais. Robert Chapman vive nelas. Ele vive o que eu prego.
Nós falamos das regiões celestiais; Chapman vivia ali. Ele vivia o que Darby pregava. Esse é um testemunho poderoso.
É disso que estamos falando quando dizemos que não basta conhecer as palavras, o vocabulário e os ensinamentos. É uma vida vivida na prática.
Eu queria compartilhar algumas coisas sobre Chapman. Quando você começa a examinar sua vida e tenta selecionar algumas coisas, acaba deixando de fora muito mais do que menciona.
Chapman foi criado em uma família muito rica na Inglaterra. Recebeu uma boa educação e era um advogado muito bem-sucedido. Vejam, pode haver bons advogados que seguem o Senhor, apesar do que a maioria das pessoas pensa.
Ele deixou tudo isso e se mudou para uma pequena cidade chamada Barnstaple. Um grupo de batistas particulares o convidou para ser seu pastor. Ele concordou em ir, embora não concordasse com todas as doutrinas e todos os ensinamentos dos batistas particulares.
Ele foi com uma condição. Disse: “Concordarei em ir se vocês me concederem liberdade para pregar as Escrituras conforme eu as compreendo”. Eles lhe concederam essa liberdade.
Agora, deixem-me voltar um pouco. Para nós, que estamos aqui em 2019, a ideia de alguém se tornar pastor de uma igreja batista particular pode parecer estranha. Mas não devemos julgar a história com base nas circunstâncias atuais.
Isso aconteceu na década de 1830, antes de grande parte do movimento dos Irmãos e antes de muitas das chamadas assembleias livres, sem denominação, como a nossa. Era o início daquele período. Portanto, não descartem Chapman apenas porque ele se tornou pastor de uma igreja batista particular naquela época.
Quando foi para lá, ele amava a Palavra de Deus. Ficava sentado durante horas, simplesmente lendo a Palavra de Deus. Havia duas coisas que ele amava: a Palavra de Deus e caminhar todos os dias.
Ele caminhava por toda a cidade, compartilhando o Senhor, enquanto amava e estudava a Palavra de Deus.
Ele sabia que havia diferenças dentro da assembleia à qual chegou — várias crenças e práticas. Mas foi profundamente tocado pela passagem de Efésios 4:3:
Procurando diligentemente preservar a unidade do Espírito no vínculo da paz.
Ele viu que havia uma unidade do Espírito ali e queria preservá-la.
Esse grupo mantinha uma crença específica: somente aqueles que eram salvos e batizados podiam participar da ceia e ser membros da igreja. Chapman não concordava com isso.
Mas, enquanto estava entre eles, simplesmente compartilhava Cristo e ensinava as Escrituras. Não chegou dizendo imediatamente: “Vocês precisam mudar isto e precisam mudar aquilo”. Ele era muito paciente.
Ao longo de vários anos, continuou pregando Cristo e a Palavra de Deus. Cada vez mais, o coração deles foi sendo transformado.
Ele precisou suportar a incompreensão de irmãos que não se reuniam com ele. Eles perguntavam: “Por que você está se reunindo com pessoas que não creem nisto ou que creem naquilo?” Ele dizia: “Nossa comunhão está na vida”.
“Tenho luz sobre este assunto, e eles têm crenças diferentes. Mas nossa comunhão não está em nossas crenças; está na vida. É a vida de Cristo que compartilhamos, e estamos preservando essa unidade.”
Enquanto ele continuava compartilhando, louvado seja Deus, cada vez mais pessoas passavam a compreender. Depois de algum tempo, sem pressão, sem coerção e sem outro objetivo além de trazer Cristo, houve unidade e mudança.
As pessoas começaram a aceitar a ideia de que a mesa do Senhor está aberta a todos os crentes. Contudo, ainda havia alguns no grupo que mantinham as antigas crenças dos batistas particulares.
Tragicamente, apesar de todos os esforços de Chapman, um pequeno grupo saiu. Os outros mantiveram sua comunhão, continuaram prosseguindo, e o Senhor os abençoou. Houve grande crescimento e uma verdadeira unidade ali.
Depois de alguns anos, o pequeno grupo que havia saído precisava de outro local de reunião. Lembraram-se de que o lugar onde Chapman e os outros estavam se reunindo havia começado como uma assembleia de batistas particulares.
Eles voltaram e contestaram Chapman, dizendo: “Vocês já não seguem a ordem dos batistas particulares. Violam o acordo deste local de reunião. Portanto, não têm direito de se reunir aqui. Somente aqueles que seguem o acordo dos batistas particulares têm direito de se reunir neste lugar”.
Chapman era advogado, então examinou todos os documentos. Não havia nada neles que sustentasse a alegação daquelas pessoas. Diante dos homens, diante do sistema jurídico e diante do mundo, ele estava certo. Ele e a assembleia tinham o direito de se defender.
Mas ele se lembrou do que o Senhor disse no Sermão do Monte, em Mateus 5:40:
Ao que quiser pleitear contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa.
Assim, embora tivessem o direito legal, aqui na terra, de ficar com aquele prédio, disseram: “Está bem, vocês o querem; podem ficar com ele”. Foram embora. Abriram mão dele.
Foi um testemunho poderoso. O outro grupo entrou e tomou posse do local, e a assembleia de Chapman começou a se reunir em outro lugar.
Pouco depois, cerca de um ano mais tarde, surgiu um terreno à venda. Eles fizeram uma oferta e deram um sinal pela compra.
Então o pároco anglicano foi a Chapman e disse: “Sempre quisemos comprar este terreno. Estávamos planejando fazer isso, mas vocês apresentaram a oferta primeiro”.
Chapman disse: “Espere um pouco. Vamos orar sobre isso”. Ele voltou à assembleia, e eles oraram.
Disseram: “Embora tenhamos o direito legal sobre este terreno, embora tenhamos o contrato, abrimos mão dele. Vamos deixar que vocês fiquem com ele”. Renunciaram a ele.
O versículo que lhes veio ao coração foi Filipenses 4:5:
Seja a vossa moderação conhecida de todos os homens. O Senhor está perto.
Eles valorizavam a unidade do Espírito entre todos os crentes muito mais do que uma disputa entre irmãos por uma propriedade ou um terreno.
É interessante observar que a igreja anglicana que cresceu ali em Barnstaple teve, durante muitos anos, um ministério evangelístico singular — um dos ministérios de pregação do evangelho mais poderosos daquela região.
Muitos pensam que foi porque a semente de Chapman e daqueles irmãos caiu na terra e morreu que o Senhor pôde usar aqueles outros irmãos em favor do evangelho.
Ele não se agarrou aos seus direitos em benefício próprio; abriu mão deles livremente. Às vezes podemos estar certos nesta terra, mas precisamos enxergar além.
Pensem em nosso Senhor — Aquele que foi mais incompreendido, falsamente acusado e injustiçado, Aquele que, de certa maneira, tinha os maiores direitos. Contudo, abriu mão de todos eles. Como lemos em Filipenses 2:6:
Não considerou a igualdade com Deus algo a que Se apegar.
Ele abriu mão disso.
Essa é a glória de Deus. É aí que vemos Cristo em alguém como Chapman.
Há outra história da vida de Chapman. Como eu disse, ele gostava de caminhar pela cidade, compartilhando o evangelho com todos. Tinha um ótimo relacionamento com a maioria dos crentes da cidade. Não havia essas enormes barreiras denominacionais entre eles.
Seu foco estava em Cristo, e Cristo derruba todas essas barreiras quando concentramos nossa atenção Nele. Essa é a unidade que temos.
Muitas pessoas amavam e respeitavam Chapman. Mas não importa quão piedoso você seja; sempre haverá pessoas que o odeiam. A carne sempre se opõe ao Espírito.
Havia um comerciante na cidade que desprezava Chapman. Sempre que tinha oportunidade de falar mal dele, o depreciava. Estava sempre falando mal, criando dificuldades e insistindo nisso. Ele era um espinho na carne para Chapman.
Certa vez, um dos parentes de Chapman, que era bastante rico, foi visitá-lo e ficou hospedado com ele. Chapman morava numa parte simples da cidade, e a casa que havia construído estava aberta para receber hóspedes.
Qualquer pessoa podia ir e se hospedar quando quisesse. Não se cobrava nada. Se as pessoas quisessem deixar ofertas, podiam fazer isso em particular. Mas a casa estava aberta, especialmente para servos do Senhor que precisavam ir descansar.
Uma pergunta que ele nunca fazia a ninguém era: “Quando você vai embora?” Quantas pessoas vêm e ficam em nossa casa, e nós dizemos: “É ótimo ter você aqui. Quando você vai embora?” Mas ele nunca perguntava. Você era bem-vindo para ficar quanto tempo quisesse.
Ele nunca tornava conhecidas suas necessidades. Às vezes havia pessoas hospedadas com ele, e ele olhava no armário e via que estava vazio. Não sabia como providenciaria o jantar para elas. Era muito parecido com as histórias de George Müller: eles oravam, e Deus provia.
Esse parente chegou e percebeu que os armários de Chapman estavam vazios. Não havia muitos mantimentos. Ele disse: “Eu gostaria muito de ajudá-lo. Gostaria de comprar alguns alimentos e mantimentos para você. Há alguma loja na cidade que você recomendaria?”
Chapman lhe disse a qual loja deveria ir. Vocês podem imaginar qual era: a do comerciante que odiava Chapman.
O homem rico entrou com uma longa lista. “Quero quarenta e dois deste, e isto, e aquilo.” Os olhos daquele comerciante quase saltaram para fora. Era a venda do ano. Ele pensou: “Não vou precisar trabalhar pelo resto do ano”.
O homem estava comprando todos aqueles alimentos e mantimentos, e o comerciante estava com um enorme sorriso no rosto. Estava muito feliz.
No final, o comerciante perguntou: “Para onde posso mandar tudo isso?” O parente de Chapman lhe deu o endereço. O comerciante olhou e disse: “Ah, não, deve haver um engano. Não pode ser este endereço, porque Robert Chapman mora ali”.
O homem disse: “Não, ele é meu parente e me mandou aqui”. O comerciante perguntou: “Ele mandou você aqui?” O homem respondeu: “Sim, ele me disse especificamente para vir a esta loja, comprar tudo e pedir que fosse entregue na casa dele”.
Quando o comerciante percebeu isso, desabou. A bondade de Deus conduz ao arrependimento. O amor de Cristo o conquistou, e ele permaneceu conquistado pelo resto da vida.
Chapman sempre encorajava as pessoas a abençoar aqueles que as amaldiçoavam e a orar por aqueles que as maltratavam, porque é a bondade de Deus que conduz ao arrependimento.
Irmãos e irmãs, nos dias em que vivemos, não vemos muita bondade. Vemos a bondade de Cristo realmente se manifestando, até mesmo entre os crentes? Esse é o testemunho de Sua vida.
Foi isso que transformou aquela pequena cidade de Barnstaple. Antes, ela quase não tinha uma herança cristã. Depois que Chapman partiu, havia ali um testemunho vibrante, por meio de alguém que permitiu que a vida de Cristo fosse vivida através dele.
Compartilhamos isso neste fim de semana porque temos a oportunidade de considerar Cristo de uma maneira nova. Talvez não façamos todas as obras que Chapman fez, mas a beleza de Cristo o conquistou.
Houve um momento em que Chapman tinha o mundo inteiro diante de si — sua carreira jurídica, sua família rica e tudo aquilo. Mas ele foi conquistado.
Ao contemplar o Senhor, foi transformado de glória em glória. Cada vez mais de Cristo era visto e vivido por meio dele.
Quando você se hospedava na casa de Chapman, um de seus costumes era pedir que deixasse os sapatos do lado de fora da porta. Naqueles dias, as ruas eram enlameadas, e ele limpava os sapatos de todos.
Ele dizia: “Hoje em dia não lavamos os pés das pessoas, então eu limpo os sapatos delas”.
Esse era o testemunho de uma vida entregue. Ele nunca se considerava superior aos outros. Era servo de todos.
Essa é a vida de Cristo. É isso que buscamos, irmãos e irmãs.
Quando falamos de Cristo como nossa glória, não estamos falando de alguma coisa elevada e etérea. Estamos falando da vida de Cristo sendo vivida entre nós, como Seu povo, nos dias em que vivemos — para sermos o testemunho que Ele nos chamou a ser.
É essa vida que satisfaz o coração do Pai. Que essa vida seja vivida em nós.
Enquanto estamos aqui neste fim de semana, que realmente reservemos tempo e demos ao Espírito Santo a oportunidade de nos mostrar as áreas de nossa vida às quais ainda estamos apegados. Talvez não tenhamos permitido que a luz de Sua vida brilhe ali.
Que permitamos isso. Que demos liberdade ao Espírito.
Nos momentos de comunhão que temos, que realmente encorajemos uns aos outros. Nas refeições, nos grupos de comunhão, com os companheiros de quarto e no compartilhar da vida, que a vida se manifeste.
Que, mesmo neste fim de semana, conheçamos um pouco mais desse passar de glória em glória — avançando, sempre progredindo.
Somos gratos pela glória do Senhor que já vimos, mas queremos ver mais. Há um pouco mais que queremos ver. Queremos ser aqueles que continuam passando de glória em glória, permitindo que Ele nos conquiste e nos atraia para Si.
Vamos orar.
Senhor, nós Te agradecemos por Teu grande amor. Somos gratos por esta tão grande salvação que vemos no Calvário. Somos gratos, Senhor, pelo privilégio que temos de poder Te contemplar.
Quando pensamos em Quem estamos contemplando, estamos contemplando o Rei dos reis, o Príncipe da Paz, o Cordeiro de Deus, o Soberano, o Senhor Todo-Poderoso. Podemos continuar mencionando todos os Teus títulos, continuar tentando Te descrever.
Mas, Senhor, queremos ser aqueles que mantêm os olhos na direção certa, contemplando-Te e permitindo que essas outras coisas passem. Senhor, reconhecemos estes dias perigosos.
Consideramo-nos tão privilegiados por podermos estar aqui, ouvir Tua Palavra e permitir que trabalhes em nós. Senhor, oramos pelos outros irmãos que vão compartilhar neste fim de semana. Oramos para que os fortaleças, unjas e capacites a compartilhar palavras de vida.
Que haja palavras de vida entre os jovens e nas classes das crianças. Senhor, ministra vida de tantas maneiras.
Que verdadeiramente haja, neste fim de semana, uma contemplação de Ti, uma contemplação de Tua glória de uma maneira nova.
Em Teu nome oramos. Amém.