Vamos abrir nesta manhã o livro de Atos. Começaremos com alguns versículos ali antes de prosseguirmos.
Atos 9 trata da conversão de Paulo.
Atos 9:1-5:
Ora, Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote,
e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse alguns que pertencessem ao Caminho, tanto homens como mulheres, os levasse presos a Jerusalém.
E aconteceu que, enquanto viajava e se aproximava de Damasco, de repente uma luz do céu brilhou ao seu redor.
Ele caiu por terra e ouviu uma voz que lhe dizia: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?”
E ele disse: “Quem és Tu, Senhor?”
E Ele disse: “Eu sou Jesus, a Quem tu persegues. Mas levanta-te, entra na cidade, e ali te será dito o que deves fazer.”
Depois, em Atos 26, encontramos o testemunho de Paulo diante do rei Agripa, após ter sido preso.
No final de Atos 26, no versículo 19, Paulo já compartilhou novamente seu testemunho. Ele contou ao rei Agripa o que aconteceu no caminho de Damasco e o que havia visto. Em Atos 26:19, Paulo testemunha:
Por isso, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial.
Por fim, abram em 2 Timóteo 4:6-8. Sabemos que 2 Timóteo foi a última carta de Paulo, escrita pouco antes de seu martírio. Ao abrir o coração, ele reflete sobre sua vida:
Pois eu já estou sendo derramado como libação, e chegou o tempo da minha partida.
Combati o bom combate, terminei a carreira, guardei a fé;
daqui em diante, está reservada para mim a coroa da justiça, que o Senhor, o justo Juiz, me dará naquele dia; e não somente a mim, mas também a todos os que amaram a Sua vinda.
Senhor, somos tão abençoados por podermos nos reunir neste dia. Somos gratos, Senhor, porque Tu preparaste uma mesa diante de nós. À medida que nossos corações se aproximam dessa mesa, tocamos, a cada vez, algo de sua imensidão e vemos um pouco mais de Ti, um pouco mais da Tua grandeza.
Senhor, acontece da mesma forma quando nos achegamos à Tua Palavra. Quer sejamos novos na Tua Palavra, quer estejamos nela há muitos anos, sempre que nos achegamos à Tua Palavra de uma nova maneira, há um frescor. Vemos outro aspecto da Tua vida.
Senhor, hoje queremos nos achegar como aqueles que têm fome e sede de Ti. Somos gratos porque Tu nos concedeste o Espírito Santo, e oramos para que o Teu Espírito tenha grande liberdade na vida de todos nós hoje.
Não estamos aqui, como costumamos dizer, para adquirir conhecimento. Estamos aqui para ter um encontro Contigo. Queremos ver a Palavra viva. Queremos que a vida de Cristo impacte nossos corações e nossas vidas.
Por isso, nós nos oferecemos a Ti nesta manhã, para que tenhas plena liberdade em cada um de nós. Senhor, em Teu maravilhoso nome, amém.
Em outubro passado, fui convidado a compartilhar uma mensagem em Harvey Cedars sobre remir o tempo, conforme vemos na vida de Paulo. Naquela ocasião, enquanto examinava o assunto, vi três aspectos que impactaram Paulo. Quanto mais eu considerava isso, mais percebia que ia muito além desse tema específico de remir o tempo. Havia lições que governavam a vida de Paulo.
O que desejo fazer, pela graça de Deus, é pegar aquela única mensagem e ampliá-la em três. Agora, às vezes eu consigo apavorar as pessoas. Mas, pela Sua graça, queremos olhar para isso de uma maneira um pouco diferente desta vez, considerando três pontos.
Ao lermos esses versículos, especialmente em Atos 9, vemos que Paulo teve aquela experiência dramática. Precisamos fazer uma pergunta, porque conhecemos a vida de Paulo antes de ele ser salvo. Agora, não vou ficar alternando entre chamá-lo de Saulo e de Paulo. Nesta manhã, ele será sempre Paulo, está bem? Vou me confundir se tentar fazer isso.
Antes de ser salvo, sabemos que ele era um grande perseguidor da igreja. Tinha muito zelo. Ele amava o Senhor, mas seu zelo estava mal direcionado. Contudo, naquele dia, no caminho de Damasco, Paulo teve um encontro, e isso revolucionou sua vida. Ele foi conquistado pelo Senhor. Depois disso, tornou-se um homem completamente transformado.
Ao olharmos para Paulo naquele capítulo, vemos como ele era intenso na perseguição ao Caminho, aos seguidores de Jesus. Enquanto seguia por aquela estrada, de repente foi derrubado de seu cavalo de orgulho. Ele teve esse encontro, olhou para cima e disse:
“Quem és Tu, Senhor?”
De maneira extraordinária, ao voltarmos a Atos 9, vemos que Paulo recebeu a resposta que revolucionou completamente sua vida. Quando ele disse: “Quem és Tu?”, o Senhor não disse apenas: “Eu sou Jesus”. Ele continuou e disse:
“Eu sou Jesus, a Quem tu persegues.”
Paulo ficou perplexo naquele momento. Ele disse: “Nossa, Tu és Jesus. Mas não estou perseguindo a Ti. Estou perseguindo aqueles que Te seguem”.
Pela graça de Deus, Paulo viu naquele momento que, quando tocava nos seguidores de Cristo, estava, na verdade, tocando no próprio Cristo. Ele viu que havia algo mais: Cristo e Seus seguidores eram um.
Quando Paulo fala dessa visão celestial em Atos 26, precisamos ter muita clareza sobre o que ela é. Paulo não encontrou um ensinamento. Paulo não encontrou uma verdade. Quando Paulo fala de uma visão celestial, não está falando de algo ou de uma coisa. Está falando de uma Pessoa.
Paulo viu Cristo. Foi isso que Paulo viu. Às vezes, temos a tendência de tornar essa visão celestial tão complicada. Desculpem, mas é simples. Ele viu Cristo. Isso revoluciona a vida, e é tudo de que precisamos. Eu poderia me sentar agora, porque tudo de que precisamos é ter um encontro com Cristo.
Paulo teve esse encontro. Ele estava seguindo na direção oposta. Na verdade, estava trabalhando contra o Senhor. Mas, quando viu o Deus vivo e seu coração foi conquistado, sua vida foi completamente transformada.
Paulo viu que não se tratava apenas de Cristo isoladamente. Ele viu que havia esse corpo, esses crentes, esses seguidores. O que Paulo viu foi que havia uma unidade ali.
Uma das tragédias e armadilhas em que caímos é separar Cristo da igreja. Podemos separar Cristo da visão celestial. Cristo é a igreja.
Como referência, vejam 1 Coríntios 12. A maioria dos versículos que leremos hoje são conhecidos. Em 1 Coríntios 12:12, Paulo está falando sobre o corpo de Cristo e o funcionamento da igreja:
Pois, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora sejam muitos, constituem um só corpo; assim também é Cristo.
Normalmente, poderíamos pensar que esse versículo diria “a igreja” ou “o corpo”, mas ele diz “Cristo”, porque Cristo é a igreja. Estamos em Cristo, Cristo está em nós, e há uma unidade ali.
Quando essas realidades são separadas, entramos no terreno das seitas. Se você olha para a igreja sem Cristo nela, tem apenas uma seita; tem um engano. Se você não vê Cristo com Sua plenitude e todo o Seu corpo — se não vê que somos todos um Nele —, então tem apenas um indivíduo vagando pelo deserto.
Mas, quando Paulo viu naquele dia, ele viu uma única vida. Viu a vida de Cristo, e isso o revolucionou. Ao longo de sua vida, aquilo que viu ali foi Cristo e Seu corpo, Cristo e a igreja.
Hesito até em usar a palavra igreja hoje, porque podemos automaticamente separá-la de Cristo. Quando dizemos “igreja”, estamos falando dessa plenitude de Cristo: Cristo como a Cabeça e Sua vida no corpo. Foi isso que Paulo viu.
Ao longo de sua vida, quanto mais Paulo experimentava Cristo, mais plena se tornava a revelação de Cristo. Ela adquiria altura, profundidade, comprimento e largura. Ele chegou a momentos em que não conseguia descrever a plenitude de Cristo, porque havia tamanha riqueza ali.
Foi isso que revolucionou a vida de Paulo. Essa foi a visão celestial que ele teve: não um conceito, não um ensinamento, não uma doutrina, mas uma Pessoa.
Nestes últimos dias, precisamos voltar a essa Pessoa. É por isso que o Senhor zela. Ele zela para que a vida de Seu Filho seja expressa e vista entre as próprias pessoas que Ele amou, as próprias pessoas que Ele comprou, conforme nos lembramos Dele hoje nesta mesa.
Ele está nos chamando a voltar àquela simplicidade e pureza de devoção a Ele. Como tornamos tudo tão complicado!
Vivemos uma única vida: a vida de Cristo. Muitas vezes, falamos de ter uma vida de igreja, uma vida coletiva, uma vida individual, uma vida profissional e uma vida social. De certa forma, há um aspecto verdadeiro nisso, mas, na realidade, essa divisão é falsa. Há uma única vida que vivemos.
Quer estejamos no trabalho, em casa ou na escola, continuamos sendo parte do corpo de Cristo. Continuamos sendo parte da igreja. Quando nos reunimos, há uma expressão dessa vida — a unidade que temos Nele —, mas somos sempre parte de Seu corpo, sempre parte da igreja.
Podemos distinguir diversos aspectos de nossa vida, mas não caiamos na armadilha de pensar: “Tenho uma vida individual e, depois, uma vida coletiva. Tenho uma vida individual e uma vida de igreja”. É uma única vida.
Ele nos chamou para essa vida. Foi isso que Paulo viveu. Paulo viveu uma única vida, e ela se manifestou de muitas maneiras e expressões diferentes. Ansiamos para que essa única vida Dele seja vivida por meio de nós.
Depois desse acontecimento, Paulo era um homem conquistado. Já não vivia para si mesmo, mas para Aquele que o amou, morreu por ele e ressuscitou. Paulo foi conquistado por isso.
É por isso que Paulo poderia cantar: “Jesus, Senhor, fui conquistado por Tua beleza”. Paulo teve aquele encontro no caminho de Damasco. Foi conquistado pela beleza do Senhor. Durante toda a sua vida, testemunhou de Quem o Senhor é e da grandeza de Quem Ele é.
Ele viu que o desejo do coração de Cristo era ser tudo em todos. Viu que havia esse desejo no Senhor: que cada um de nós fosse conformado à imagem de Cristo.
Não se trata de ser conformado a uma maneira de funcionar na igreja. Não se trata de ser conformado a isto ou àquilo. Trata-se de ser conformado à imagem de Cristo — Sua vida expressa por meio de cada um de nós, na singularidade e diversidade da maneira tão maravilhosa como Ele nos criou.
Essa é uma das coisas de que gosto quando um tempo de adoração é tão pleno: há singularidade, amplitude e muitas maneiras maravilhosas pelas quais Deus expressa Sua vida por meio de nós.
Falamos muito sobre estarmos nestes últimos dias, e é essencial que, nestes últimos dias, essa realidade seja recuperada. Ela precisa ir muito além da verdade ou da doutrina da igreja, muito além de simplesmente falarmos sobre a igreja ou a vida da igreja. É preciso haver a realidade de Sua vida sendo expressa.
É vital conhecer Sua vida e o zelo que Ele tem para que Sua vida seja expressa entre o povo de Deus. Também é vital saber como essa vida, expressa por meio da igreja, é preciosa para Ele.
Paulo viu algo de como essa vida era preciosa. Viu algo do preço que o Senhor pagou para que pudéssemos ser introduzidos nessa vida gloriosa. Viu algo de como era preciosa essa expressão coletiva de Sua única vida.
Vejam Efésios 5. Paulo expressa aqui algo do coração de Deus, algo de como o Senhor zela por isso e de como isso é precioso. Em Efésios 5:25, como sou marido, vou deixar de fora a primeira parte e começar no meio do versículo. Essa é minha prerrogativa.
Cristo também amou a igreja e entregou-Se por ela,
para que a santificasse, tendo-a purificado pela lavagem de água com a palavra,
para que a apresentasse a Si mesmo como igreja gloriosa, sem mancha, nem ruga, nem qualquer coisa semelhante;
mas para que fosse santa e irrepreensível.
Paulo viu algo daquilo que o Senhor buscava. Viu que ia muito além de simplesmente ser algo a respeito de Paulo. Viu que Deus desejava que a plenitude de Sua vida fosse expressa.
Paulo encontrou a vida, e isso transformou sua vida. Vou dizer novamente: Paulo não encontrou um ensinamento ou uma doutrina. Ele encontrou a vida. Encontrou uma Pessoa, e isso mudou sua vida.
Se olharmos para os diversos testemunhos sobre o que mudou nossas vidas, veremos que foi a vida de Cristo que nos tocou de uma maneira muito específica, em um momento específico, e nunca mais fomos os mesmos. Ele pode ter usado um livro, outras pessoas ou a Palavra. Há diversas maneiras pelas quais Ele trabalha, mas aquilo a que esses meios nos conduziram foi um encontro com Cristo.
Foi então que fomos transformados, e foi então que fomos conquistados. Foi isso que conquistou Paulo, e é por isso que Deus tanto zela. Ele está sempre buscando simplesmente que Sua vida seja expressa por meio dos irmãos e irmãs.
Ao olharmos para Apocalipse 2 e 3, para aquelas sete igrejas, o que Ele está buscando? Está buscando a vida. Ele não as julga pela precisão com que conseguem discernir doutrinas, nem pela maneira como fazem isto ou aquilo. Ele está simplesmente buscando a vida de Seu Filho expressa por meio daqueles queridos crentes.
É isso que Ele está buscando entre nós nos dias em que vivemos.
Para nos encorajar nessa direção, gostaria que considerássemos não tanto o ensino de Paulo, mas sua vida. Na verdade, quando olhamos para ele, sua vida é seu ensino. Há um testemunho ali, porque o ensino de Paulo procedia da vida.
Quando Paulo disse: “Serei louco por Cristo”, foi porque havia experimentado ser louco por Cristo. Aquilo que compartilhava vinha de sua experiência com o Senhor. Sua vida refletia seu ensino, e seu ensino refletia sua vida. Eram sinônimos; eram a mesma coisa. Sua vida confirmava aquilo que ele compartilhava.
Não havia separação nem contraste. Havia uma unidade ali.
Paulo era um homem conquistado. Naquela estrada para Damasco, ele foi conquistado. Em Filipenses 3, Paulo compartilha um testemunho maravilhoso de como isso impactou sua vida.
Em Filipenses 3:4, Paulo testemunha do grande encontro que teve com o Senhor e de como isso o transformou completamente:
Embora eu mesmo pudesse confiar também na carne. Se alguém pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais.
Essas palavras continuam verdadeiras hoje. Paulo tinha muito mais a seu favor do que a maioria de nós. De muitas maneiras, Paulo tinha o mundo inteiro diante de si.
Mas, depois que viu o Senhor, tudo o que tinha — tudo o que lhe era precioso, tudo o que era de grande valor segundo os padrões do mundo, prestígio e posição — mudou completamente.
Continuando em Filipenses 3:5-8, Paulo compartilha algo de sua herança judaica:
Circuncidado ao oitavo dia, da nação de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus;
quanto à Lei, fariseu;
quanto ao zelo, perseguidor da igreja;
quanto à justiça que há na Lei, considerado irrepreensível.
Mas as coisas que para mim eram lucro, essas considerei perda por causa de Cristo.
Mais do que isso, considero todas as coisas como perda, diante do valor supremo do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor, por Quem sofri a perda de todas as coisas e as considero como lixo, para que possa ganhar a Cristo.
Paulo foi conquistado. Antes, desejava e buscava todas as coisas do mundo — não apenas do mundo secular, mas também do mundo religioso. Ele tinha muito mais qualidades e sucesso do que muitos de seus contemporâneos.
Havia três grandes influências no mundo no tempo de Paulo: a sociedade grega, o Império Romano e a religião judaica. Paulo tinha as três.
Quanto à cultura grega, Paulo nasceu em Tarso. Foi criado com educação e cultura gregas. Muitas culturas vêm e vão, mas ainda hoje podemos ver a influência da cultura grega sobre a educação e a sociedade. Não estou falando das ruínas de Atenas. Estou falando da influência que ela ainda exerce sobre a sociedade hoje. Esse é o poder daquela cultura — aquilo que hoje chamamos de humanismo — e a maneira como ela tem permanecido.
Paulo também nasceu cidadão romano. Sabemos como era valioso ser cidadão romano; alguns até pagavam por isso. Mas Paulo nasceu com essa condição. Isso lhe dava privilégios legais e posição na sociedade. Ele estava num patamar acima de muitos outros naquele império, porque nasceu romano.
Às vezes, vemos Paulo exercendo seus direitos de cidadão romano; em outras ocasiões, não. Mas, conforme era guiado pelo Espírito, ele usava esses direitos. Tinha esse privilégio à sua disposição.
Quanto à sua herança religiosa como judeu, Paulo tinha uma das mais elevadas possíveis. Sua família era profundamente comprometida com a prática judaica. Ele foi circuncidado ao oitavo dia. Era hebreu de hebreus. Não era helenista; Paulo era um puro-sangue.
Ele havia preservado sua identidade. Muitos já a tinham perdido naquela época, mas Paulo sabia que era da tribo de Benjamim. Sua família era tão comprometida com a tradição judaica que lhe deram o nome da pessoa mais famosa daquela tribo: Saul. Nossa, que herança ele tinha!
Ele estudou com Gamaliel. Teve a melhor educação judaica disponível. Era fariseu e, quanto ao zelo, perseguidor. Paulo tinha tudo isso a seu favor. Era um homem de seu tempo, um homem de sua época.
Muitos historiadores dizem que, se Paulo não tivesse sido conquistado pelo Senhor, estaríamos lendo sobre ele nos livros de história. Ele era influente naquele tempo. Mas, quando encontrou o Senhor, houve uma grande transformação, e ele foi completamente mudado.
Paulo estava, literalmente, numa posição em que poderia ganhar o mundo inteiro. A maioria de nós não está nessa situação. Talvez ganhemos um pouquinho aqui e um pouquinho ali, mas esses pouquinhos se tornam tão poderosos para nós.
Mas, quando Paulo viu Cristo, quando viu a Pessoa de Cristo, tudo aquilo se tornou como nada para ele. Paulo era um exemplar notável da humanidade, mas, quando encontrou o Senhor, considerou tudo como lixo.
Paulo não estava considerando como lixo apenas as coisas chamadas ruins. Não estava dizendo: “Não vou mais falar palavrões, fumar ou mascar tabaco”. Não. Ele estava falando das coisas boas. Muitas dessas coisas não eram más; faziam parte de quem ele era. Mas, quando viu Cristo, tudo foi deixado de lado.
Às vezes, em nossa vida, o bom se torna inimigo do melhor. Olhamos para o mundo e dizemos: “Ah, isso é bom. Não faz mal”. Mas há algo melhor: há Cristo. Foi isso que conquistou Paulo.
A pergunta que precisamos fazer a nós mesmos é esta: tivemos esse encontro com o Senhor? Chegamos realmente ao ponto de ter esse encontro pessoal com Ele, de modo que, ao olharmos para as coisas que valorizamos, tenhamos considerado todas elas como lixo?
Eu amo Filipenses 3:8, porque creio que Paulo, pelo Espírito Santo, acrescenta algumas palavras para não deixar nenhuma brecha para nós. Ele diz:
“Mais do que isso, considero todas as coisas como perda.”
Não a maioria das coisas, não algumas coisas.
Ele considera todas as coisas como perda, diante do valor supremo de conhecer Cristo, de ter esse relacionamento íntimo e pessoal com o Senhor. Ele diz:
“Por Quem sofri a perda de todas as coisas.”
Paulo admitiu que sofreu perda. Não estava tentando pintar um quadro cor-de-rosa. Ele disse: “Isso me custou algo. Essas coisas tinham valor para mim, mas, quando vi Cristo, dispus-me a sofrer a perda delas”.
Às vezes, pensamos que, quando você vê o Senhor, tudo simplesmente desaparece. Não, há um processo dentro de nós. Pode haver sofrimento, porque aquela coisa significava algo para você. Mas, de repente, você vê algo melhor e está saindo daquilo para se voltar ao Senhor.
Paulo diz que considera todas essas coisas como lixo para que possa ganhar a Cristo. Há uma perspectiva aí. As coisas que estavam no alto agora estão embaixo. Ele fez uma limpeza na casa. Fez uma faxina geral. Passou a ter uma perspectiva inteiramente nova da vida.
As coisas que valorizamos no mundo — nossa carreira, educação, prestígio no trabalho, esportes, entretenimento e assim por diante —, como estamos lidando com elas hoje? Temos considerado essas coisas como lixo? Ou ainda dizemos: “Senhor, eu Te amo, mas isso ainda é bom”?
Stella e eu lemos as Escrituras inteiras todos os anos, e tínhamos começado novamente em Gênesis. Estávamos lendo a história de Abraão e Ló, e uma pequena expressão a respeito de Ló realmente me chamou a atenção. Ela me mostrou como meu coração é às vezes.
Quando Abraão e Ló estavam se preparando para dividir a terra, Abraão disse: “Vá em frente, Ló. Você escolhe”. Ló olhou e disse: “Ah, isto parece o jardim de Deus. Isto parece o Egito”. Ele viu os dois. Viu Deus, mas havia uma mistura ali.
Ló sabia o suficiente para reconhecer: “Estas são as coisas de Deus”, mas também viu as coisas do Egito e quis as duas. Ele fez essa escolha.
Abraão escolheu o Senhor, e o Senhor lhe deu uma rica herança. Ló disse: “Ah, isto é bom. Senhor, estou escolhendo isto para Ti, e vou ficar com o Egito também”.
Muitas vezes escolhemos o Senhor, mas dizemos: “Ah, também gosto disto no mundo, e gosto daquilo”. Tentamos fazer as duas coisas coexistirem. Não há coexistência pacífica entre esses dois reinos. Isso nos destruirá.
Paulo viu isso e abriu mão de tudo. Deixou tudo para trás. Temos considerado tudo como lixo?
Quando Paulo teve esse encontro com o Senhor, ficou algum tempo com os irmãos e depois foi para o deserto da Arábia, simplesmente para estar a sós com o Senhor e ter aquele tempo de quietude com Ele.
Durante aquele tempo, enquanto estava a sós e separado para o Senhor, o Espírito de Deus começou a abrir-lhe todas as Escrituras. Paulo conhecia todo o Antigo Testamento por causa de sua formação, mas, de repente, ao percorrer Gênesis, começou a ver Cristo. Viu o coração de Deus.
Ao olhar para o tabernáculo, viu que ele falava da plenitude daquilo que Cristo deseja: uma casa, uma habitação. Ao percorrer os profetas, disse: “Ah, é Dele que Isaías profetizou. É Dele que Jeremias profetizou”. Tudo era Cristo.
Ele viu o Cristo vivo em todas as Escrituras. Paulo passou por uma grande transformação enquanto estava na Palavra; o Senhor abriu seus olhos.
Foi semelhante ao que aconteceu com os discípulos no caminho de Emaús. Depois que nosso Senhor foi crucificado e ressuscitou, alguns discípulos caminhavam por aquela estrada, e o Senhor Se aproximou deles. Naquele momento, não sabiam que era o Senhor.
Mas, enquanto compartilhavam e conversavam com Ele, Ele começou a abrir seus olhos para todas as coisas nas Escrituras. Por meio de Moisés e dos profetas, mostrou-lhes as coisas a respeito de Si mesmo.
Mais uma vez, Ele não estava lhes apresentando um novo ensinamento. Apresentou-lhes a Si mesmo, e foi isso que os transformou.
Foi isso que Jó experimentou:
“Eu Te conhecia só de ouvir; mas agora os meus olhos Te veem.”
Temos experimentado isso? Nós O conhecemos ou apenas sabemos a respeito Dele?
Paulo tinha conhecimento de Deus e conhecimento do Senhor, mas não O conhecia realmente. Então passou a conhecer o Deus vivo. Teve essa experiência que lhe abriu os olhos e encontrou o próprio Deus vivo.
Naquele lugar de quietude, naquele lugar de separação para o Senhor, Paulo aprendeu sua primeira lição. Viu a necessidade absoluta de ter um relacionamento íntimo e pessoal com o Senhor.
É isso que gostaríamos de considerar hoje: Paulo viu a necessidade absoluta de ter esse relacionamento íntimo e pessoal com Ele.
Se o Senhor permitir, nas próximas duas semanas veremos as outras duas lições. Hoje estamos considerando o relacionamento íntimo. Na próxima semana, consideraremos o desejo insaciável de Paulo pelo Senhor. Na terceira ocasião, consideraremos como Paulo viu que em Cristo havia uma vida infalível.
Mas Paulo primeiro viu que havia uma necessidade absoluta desse relacionamento íntimo, diário e pessoal com o Senhor. Não era apenas o ponto de partida de um relacionamento; isso governou toda a sua vida, todo o seu ser e todo o tempo em que esteve na terra.
Ele estava se aproximando cada vez mais do Senhor e conhecendo-O de uma maneira mais plena. Na semana passada, quando nossos irmãos estiveram aqui para o encontro dos jovens, referiram-se a isso como uma vida secreta, uma vida oculta. Usamos muitas maneiras de descrevê-la.
O desafio de compartilhar sobre isso é que, quando falo sobre ter um relacionamento íntimo com o Senhor, todos dizem: “Amém”. Todos concordamos. Mas, quando somos honestos, nós o temos? Por que não?
É por isso que estamos olhando para Paulo: para ver se ele pode nos encorajar e nos ajudar a ter essa vida constante com o Senhor, de modo que Sua vida seja expressa.
Ao longo da vida de Paulo, vemos como ele teve encontros com o Senhor. Em cada encontro, passou a conhecer o Senhor em Sua própria grandeza e bondade.
A próxima vez que vemos Paulo em Atos é no contexto da igreja em Antioquia, em Atos 11. Barnabé tinha ido até lá e percebido o que o Senhor estava fazendo. Barnabé disse: “Preciso de ajuda”. Em espírito de comunhão, lembrou-se de Paulo, foi procurá-lo e o levou para lá.
O que fizeram ali? Estavam ensinando, sim, mas estavam permitindo que a vida de Cristo fosse expressa. O maravilhoso testemunho daquilo que Paulo e Barnabé transmitiram foi que os crentes foram chamados cristãos pela primeira vez em Antioquia.
Quem os chamou de cristãos? Foi o mundo. O mundo olhou para aquelas pessoas e não disse: “Vejam os pequenos paulinos”, ou: “Vejam os pequenos barnabitas”, seja lá como se diga isso. O que viram foi a vida de Cristo expressa. Disseram: “Vejam todos esses pequenos Cristos”.
Foi isso que o mundo viu: uma vida expressa. É isso que Deus busca. Paulo e Barnabé não estavam transmitindo apenas ensinamentos e doutrinas, mas a vida sendo expressa em plenitude.
Ao continuar olhando para a igreja em Antioquia, Atos 13:2 diz que eles estavam ministrando ao Senhor. Essa é a vida de comunhão. Essa é a vida de um relacionamento íntimo: ministrar ao Senhor.
Quando o Senhor falou, eles O ouviram. Estavam em condições de ouvir a voz do Senhor. Não estavam tão distraídos nem ocupados com outras coisas. Enquanto ministravam a Ele, não o faziam simplesmente na expectativa de ouvir algo; eles O amavam e ministravam a Ele. Então Deus falou e disse:
“Separai-Me Barnabé e Saulo para a obra.”
Eles O conheciam. Conheciam Sua voz. É fundamental, nestes últimos dias, que conheçamos Sua voz, Seus caminhos e aquilo que Ele busca.
Se não conhecermos Sua voz e Seus caminhos, deixaremos de reconhecê-Lo. Podemos ser desviados por falsos profetas e falsos mestres, ou podemos deixar de reconhecê-Lo porque Ele age de uma maneira que não se encaixa em nosso conceito de como Deus trabalha.
Jesus sabia disso. No final dos Evangelhos, Ele os encorajava de muitas maneiras a permanecerem vigilantes, a conhecê-Lo, a conhecerem Sua voz, Seus caminhos e Seu coração.
Em meio às dificuldades e provações de sua vida, Paulo conseguiu permanecer fiel ao Senhor porque O conhecia. O Senhor nos diz que muitos virão em Seu nome. Haverá muitas falsificações: “Cristo está aqui. Cristo está ali”. Em meio a todas as vozes e à confusão, saberemos reconhecer Sua voz?
Há uma querida irmã da região da baía de São Francisco, na Califórnia, que conhecemos há muitos anos. Isso aconteceu há muito tempo, mas continua vivo em meu coração. Certo dia, ela estava nos mostrando São Francisco e disse: “Vocês estão ouvindo aquele pássaro?”
Dissemos: “O pássaro? Não”. Acontece que, na universidade, ela havia estudado aves. Quer dizer, quem estuda aves? Mas algumas pessoas estudam todo tipo de coisa. Algumas até estudam contabilidade ou algo assim. Ela estudou aves.
Ela disse: “Vocês estão ouvindo aquele pássaro?” Dissemos: “Não, só ouvimos música, barulho, carros, buzinas e ônibus”. Ela disse: “Agora parem e escutem. Escutem nesta direção”.
Aguçamos os ouvidos, e ela disse: “Estão ouvindo?” Pediu que nos concentrássemos um pouco mais. De repente, começamos a ouvir aquele canto.
Os ouvidos dela estavam treinados para ouvir o canto dos pássaros. Aonde quer que fosse, conseguia ouvi-los. Isso trouxe uma lição espiritual ao meu coração: ouço a voz de Deus ou fico tão envolvido por todo o barulho do mundo, até mesmo pelos ensinamentos falsificados que dizem: “Isto é Cristo, isto é Cristo”?
Conheço realmente Sua voz? Consigo ouvir Sua voz? Ela se treinou porque amava os pássaros.
O Senhor está nos chamando a responder ao Seu amor, para que os ouvidos de nossos corações estejam abertos e treinados. Em meio ao caos, aos desastres e a tudo o que acontece nestes dias em que vivemos, conheceríamos aquela voz e seríamos capazes de segui-la.
Se não O conhecermos, e Deus agir de uma maneira que não esperamos, podemos deixar de reconhecê-Lo. No ano passado, quando compartilhei sobre o livro de Habacuque, vimos que o Senhor disse a Habacuque: “Vou fazer algo em que você não vai acreditar”. Deus trabalhou de uma maneira muito estranha. Parecia que Ele estava usando o inimigo, mas Deus estava usando aquilo.
Se não conhecermos a voz de Deus e não formos capazes de responder, podemos ter conceitos tão fixos de como Ele agirá que deixaremos de reconhecê-Lo.
Lembrem-se de Pedro na casa de Simão, em Atos 10. Ele estava no terraço, e Pedro era um judeu muito justo. Teve aquela visão de um lençol descendo, e tudo o que havia nele era impuro.
O Senhor baixou o lençol, e Pedro disse: “Ó Senhor, sou tão justo. Sou tão santo. Nunca comi nada disso”. Ele passou por aquilo três vezes.
Mas o maravilhoso dessa história é que, quando bateram à porta, Pedro respondeu. Ele foi até os gentios. Pedro aprendeu a lição. Tinha um conceito de como Deus trabalhava, e Deus o despedaçou.
O Senhor usou Pedro para abrir a porta aos gentios na casa de Cornélio. Louvado seja Deus, Pedro se deixou ensinar e corrigir naquele momento.
Uma das realidades tão mal representadas hoje é o Espírito Santo. Há tantos pensamentos, teorias, opiniões e tantas outras coisas a respeito do Espírito Santo. Nossas definições podem acabar restringindo e limitando o Espírito.
Sempre penso em Elias na caverna. Quando o Senhor estava falando com ele, veio o vento, depois o fogo, depois o terremoto, e o Senhor disse: “Não estou em nada disso”. Então veio a voz mansa e suave.
Há ocasiões em que o Senhor Se manifesta como uma voz mansa e suave. Mas não creio que precisemos pegar essa história e aplicá-la universalmente. Há ocasiões em que há um grande vento, como no dia de Pentecostes, e aquilo era o Espírito Santo.
Há ocasiões em que o Senhor é como um vento poderoso. Há ocasiões em que Ele é como um fogo poderoso. Há ocasiões em que Ele é como um terremoto poderoso, e Ele está no terremoto. Aquele terremoto libertou Paulo da prisão em Filipos. O carcereiro foi salvo, e a igreja ali nasceu de um terremoto.
Às vezes, dependendo de nossas preferências em relação ao Espírito Santo, dizemos: “Ah, o Espírito é uma voz mansa e suave. Vocês estão fazendo barulho demais”. Ou outro grupo diz: “Ah, o Espírito é vento, fogo e terremotos. Vocês estão quietos demais aqui”.
Não é uma questão de uma coisa ou outra. Abrange ambas. O Espírito trabalha como Ele escolhe. Lemos em João 3 sobre o movimento do vento. Deus dirige o Espírito como Ele escolhe. Às vezes, Ele é um vento poderoso; às vezes, é uma voz mansa e suave.
A pergunta para nós é esta: temos tal relacionamento com o Senhor que, quando Ele age desta ou daquela maneira, sabemos que é o Senhor? Ou temos ideias e conceitos tão preconcebidos que O limitamos e, então, deixamos de reconhecê-Lo quando Deus prossegue em Seu agir?
Continuando em Atos, vejam Atos 13. Paulo está anunciando o evangelho glorioso, falando da morte e ressurreição de nosso Senhor. Contudo, muitos dos judeus tinham um conceito tão fixo do Senhor que não estavam abertos e rejeitaram a própria Palavra de Deus.
Atos 13:27 diz:
Pois os que habitam em Jerusalém e seus governantes, não reconhecendo a Ele nem as palavras dos profetas que são lidas todos os sábados, cumpriram essas palavras ao condená-Lo.
A Palavra de Deus lhes era apresentada toda semana. Os profetas falavam a eles. Cristo estava no meio deles, mas não O viram porque tinham um conceito tão religioso: “É assim que Deus trabalha”.
Podemos desenvolver esses conceitos inconscientemente e deixar completamente de reconhecer o Senhor. Paulo tinha um relacionamento tão íntimo e pessoal com o Senhor que conhecia Sua voz. Quando o Senhor dizia: “Vá aqui”, Paulo ia. Quando o Senhor dizia: “Não, Paulo, não quero que você pregue agora”, Paulo obedecia.
Isso parece estranho. Poderíamos pensar que o Senhor desejaria que Paulo pregasse o tempo todo. Mas houve ocasiões em que o Espírito Santo lhe disse: “Não pregue aqui. Não pregue ali”. Paulo conhecia o Senhor de tal maneira que obedecia e continuava seguindo.
Conhecemos o Senhor dessa maneira? Ele nos conquistou como conquistou Paulo?
As Escrituras têm sido compartilhadas conosco abundantemente: a cada dia do Senhor, a cada conferência, em muitos retiros, repetidas vezes. A Palavra de Deus tem sido derramada profusamente em nosso meio ao longo dos anos.
Mas conhecemos a Palavra viva de Deus? Conhecemos essa Pessoa? Podemos ouvir isso todos os dias e em todas as conferências, mas é vital, nestes últimos dias, que O conheçamos.
Haverá falsos profetas e falsos sinais. Contudo, Paulo tinha um relacionamento tão íntimo com o Senhor que conseguia distinguir e discernir.
Quando outro evangelho entrou na Galácia, Paulo imediatamente disse: “Esse é outro evangelho. Por que vocês estão ouvindo isso? Vocês perderam a sensibilidade”. Quando a heresia entrou em Colossos, Paulo conseguiu discernir. Ele conhecia a verdade e conhecia a realidade.
Ao escrever aos coríntios, Paulo disse: “Vocês precisam crescer e ser capazes de distinguir entre a carne e o Espírito. Isto é carnal; isto é o Espírito”. Quem conhece o Senhor e está crescendo no relacionamento com Ele consegue distinguir.
Paulo conseguia distinguir falsos profetas e falsos messias. É fundamental, nestes últimos dias, que sejamos capazes de distinguir, ou seremos desviados.
É trágico como, ao longo da história e até hoje, falsos profetas e falsos mestres podem soar tão belos, porque sempre há um elemento de verdade misturado. As pessoas são desviadas, e perguntamos: “Como aquele irmão pôde entrar nisso?”
Uma coisa que me espanta é como crentes que estão prosseguindo no Senhor podem voltar ao Antigo Testamento e cair na prática do judaísmo. Dá vontade de dizer: “Vamos lá, vamos acordar”. Mas podemos cair nessa armadilha se buscarmos conhecimento, experiências e isto ou aquilo, enquanto nos afastamos de um relacionamento íntimo, pessoal e diário com Ele.
É isso que Ele busca. É por isso que Ele zela.
Em Filipenses 1:9-10, Paulo encoraja os crentes a terem um coração capaz de discernir:
E isto eu oro: que o vosso amor aumente ainda mais e mais em verdadeiro conhecimento e em todo discernimento,
para que aproveis as coisas excelentes, a fim de serdes sinceros e irrepreensíveis até o dia de Cristo.
Esse é um amor que discerne. É trágico como o amor tem sido tão mal representado hoje. Confundimos amor e sentimentalismo: “Ah, é tão bonitinho”. Esse é outro assunto, então não vamos entrar nele.
Paulo diz que o amor deles deveria aumentar mais e mais em verdadeiro conhecimento — conhecimento Dele pela experiência — e em todo discernimento. Por quê? Para que fossem capazes de aprovar as coisas excelentes.
A New American Standard diz:
“Aproveis as coisas excelentes.”
Outras traduções dizem que podemos distinguir entre as coisas que diferem.
Há uma vida de Cristo dentro de nós. Há um amor de Cristo capaz de distinguir: “Isto é do Senhor. Isto não é”.
Não costumamos associar conhecimento e discernimento ao amor. Pensamos que o amor é cego, e isso às vezes nos traz problemas. Mas Paulo está dizendo que, nestes últimos dias, haverá falsos profetas, falsos ensinamentos e muitas coisas vindo em Seu nome. Precisamos ser capazes de distinguir o que é Dele e o que não é Dele.
A única maneira de fazer isso é conhecendo-O.
Precisamos perguntar a nós mesmos: estamos colocando o conhecimento a respeito Dele no lugar de um relacionamento com Ele? Estamos colocando o simples saber sobre Ele no lugar de um relacionamento pessoal com Ele?
Queremos respostas rápidas. Queremos respostas fáceis. Mas estamos realmente dedicando tempo para conhecê-Lo?
Hoje vivemos com tanta pressa. A vida tem um caráter tão instantâneo. Não temos tempo para ficar quietos ou em silêncio. Há tantas distrações. Tentamos ter nosso tempo a sós com o Senhor, então o celular apita, e dizemos: “Com licença, Senhor, preciso responder a esta mensagem”.
Não conseguimos nem deixar o celular de lado durante nosso tempo a sós com Ele. Há tantas distrações. Mas o Senhor quer nos levar a esse lugar de conhecê-Lo e permanecer quietos diante Dele.
Ao fazermos isso, há uma vida que Ele deseja formar dentro de nós. Muitas vezes, colocamos o conhecimento a respeito Dele no lugar de um relacionamento com Ele.
Ouvimos: “Li isto. O irmão fulano diz isto. Fulano diz isto, ou sicrano diz aquilo”. Quando as pessoas compartilham, às vezes parece que estamos ouvindo uma resenha de livro.
Não estamos aqui para ouvir resenhas de livros. Estamos aqui para ouvir Quem Cristo é e o que Ele está nos falando.
Somos gratos pela grande herança que temos. Há riqueza nessa herança. Mas o que estamos transmitindo? Isso se tornou realidade para nós ou é apenas alimento de segunda mão? “Ah, li isto. Talvez seja bom para você.”
Isso realmente entrou em nossos corações e se tornou real para nós? Nós o mastigamos e depois o transmitimos em vida? É fácil simplesmente transmitir conhecimento.
Daniel diz que uma característica dos últimos dias é que o conhecimento aumentará. Vemos isso acontecendo. Como crentes, podemos colocar esse grande conhecimento no lugar da realidade de conhecer Cristo.
Há uma riqueza maravilhosa nos livros disponíveis para nós. Vou fazer uma propaganda por alguns minutos: peguem qualquer um daqueles excelentes livros ali fora. Os preços estão ótimos, e vocês deveriam comprá-los. Mas a riqueza neles deve nos estimular em direção ao objetivo: achegarmo-nos a Cristo de uma maneira mais plena.
O Senhor enfrentou esse mesmo problema quando esteve na terra. Vejam o Sermão do Monte em Mateus 5. Há duas pequenas expressões ao longo daquele capítulo, e elas formam um grande contraste.
Em Mateus 5:21, Ele diz:
“Ouvistes.”
Depois, fala a respeito do homicídio. Mas Mateus 5:22 começa:
“Eu, porém, vos digo.”
Vocês ouviram, mas Eu lhes digo.
Em Mateus 5:27:
“Ouvistes.”
Em Mateus 5:28:
“Eu, porém, vos digo.”
Em Mateus 5:33, novamente:
“Ouvistes.”
Mas:
“Eu vos digo.”
Em Mateus 5:38:
“Ouvistes.”
Mas:
“Eu vos digo.”
Em Mateus 5:43:
“Ouvistes.”
Mas:
“Eu vos digo.”
Ouvimos muito, mas Deus está nos falando. O que Ele está nos dizendo? É isso que Ele busca nestes últimos dias.
Ele quer que ouçamos Sua voz, conheçamos Sua voz e entremos nesse relacionamento pessoal e íntimo com Ele, para que consigamos chegar ao fim — sem nos distrairmos, sem sermos tirados da corrida e sem dependermos dos outros para nos alimentar.
Pelo contrário, o Senhor quer nos alimentar todos os dias, dia após dia. É por isso que é tão essencial nos retirarmos para estar com Ele.
Quando falo de ter esse relacionamento íntimo e pessoal com Ele, estou falando de muito mais do que apenas um tempo de quietude pela manhã. Sim, isso faz parte, mas vai além. É uma vida.
Aquele tempo com Ele nos prepara para o dia, de modo que, ao longo do dia, haja uma consciência Dele, um permanecer Nele, uma percepção e uma atenção ao Espírito. Quer estejamos no trabalho, cuidando dos filhos, na escola ou fazendo o que quer que façamos, há uma consciência Dele, e somos guiados e fortalecidos Nele.
Foi isso que os irmãos compartilharam na semana passada ao falarem de Davi. Ele era um homem segundo o coração de Deus e tinha essa comunhão oculta, secreta.
Os Salmos nos permitem vislumbrar o relacionamento pessoal e íntimo de Davi com o Senhor. Os Salmos são simplesmente um testemunho do relacionamento de Davi com o Senhor e de como ele O conhecia.
Davi disse:
“O Senhor é o meu pastor.”
Havia intimidade e realidade ali — não apenas um conceito ou uma teoria. Ele continuou:
“O Senhor é a minha rocha.”
“O Senhor é a minha força.”
“O Senhor é o meu escudo.”
Depois, disse:
“Uma coisa tenho desejado.”
Ele queria conhecê-Lo cada vez mais. É isso que o Senhor busca e pelo que zela em nós nestes dias.
Como estamos começando um novo ano, talvez possamos fazer uma resolução — da maneira correta. Detesto dizer isso; vocês podem me apedrejar depois. Herb já está atirando as pedras.
Mas que haja um desejo em nossos corações de voltar a esse relacionamento íntimo.
Isso é simples demais para nós? Queremos algo mais? Esse é o desafio de compartilhar isso, porque todos concordamos que deveríamos ter esse relacionamento diário e íntimo, mas nem sempre o temos. De alguma forma, ficamos aquém.
Como Paulo conseguiu manter isso? Uma coisa que vejo na vida de Paulo é que ele não se deixava distrair. Ele realmente, literalmente, considerou todas as coisas como perda.
Às vezes, dizemos: “Bem, tenho uma hora livre aqui. Posso fazer isto”. Penso que, quando Paulo tinha um momento livre, fazia uma escolha: “Ah, tenho uma hora livre. Posso conhecer Jesus um pouco mais”.
Paulo tinha muitos desejos. Se vocês olharem para sua herança, verão que ele era um homem ambicioso e se interessava por muitas coisas. Tinha tido contato com muitas coisas. Não era uma pessoa ingênua, protegida do mundo. Tinha o mundo inteiro aberto diante de si e disse: “Não quero nada disso”.
Tragicamente, hoje muitos de nós dizem: “Bem, não quero a maior parte disso. Ainda quero meus Yankees. Eles precisam ganhar a World Series”. Mas preciso chegar ao ponto de considerar os Yankees como lixo também.
O Senhor está nos chamando, e esse chamado é, de fato, um clamor de amor de Seu coração para nos preparar nestes últimos dias.
Paulo não se deixava distrair e havia sido verdadeiramente conquistado. Usando as palavras do Senhor Jesus, Paulo poderia ter dito:
“Nada posso fazer sem Meu Pai.”
Não creio que Paulo tivesse qualquer confiança em si mesmo. Ele dizia: “Nada posso fazer”.
Quando Paulo escreve em Romanos 12 sobre ser um sacrifício vivo diariamente, aquilo não era apenas um ensinamento. Era sua experiência de vida. Todos os dias, ele se oferecia como uma oferta voluntária ao Senhor: “Senhor, hoje estou me oferecendo a Ti, para ser conformado à Tua imagem”.
Quando Paulo escreve em Coríntios sobre morrer diariamente, mais uma vez, isso não é apenas uma frase bonita ou uma teoria. Paulo literalmente morria todos os dias para suas próprias vontades egoístas, seus próprios desejos e até para as coisas boas da vida.
Ele as colocava de lado. Morria e permitia que a cruz trabalhasse nele, de modo que havia uma única coisa que desejava.
Veremos isso mais adiante em Filipenses e, se o Senhor permitir, abordaremos o assunto na próxima semana. Mas havia uma única coisa pela qual Paulo ansiava: ele prosseguia para conhecer Cristo de uma maneira mais plena e maior.
Por ter sido conquistado, por causa desse relacionamento íntimo, foi criado dentro de Paulo um desejo insaciável por Cristo. É isso que veremos na próxima semana.
Mas realmente desejo que, no tempo diário que temos, ansiemos por conhecê-Lo de uma maneira mais plena e maior e por entrar nesse relacionamento íntimo com Ele. Ele nos chamou para isso.
Vemos que esta mesa é um momento de muita intimidade. Nós a compartilhamos com muitos e vemos para o que Ele está nos chamando: não apenas saber a respeito Dele, mas conhecê-Lo de verdade.
É isso que nos prepara para terminar a corrida, continuar prosseguindo e apressar Sua volta.
Senhor, somos gratos porque, ao percorrermos as Escrituras, vemos essas pessoas que foram conquistadas por Ti.
Vemos Davi dizendo: “Uma coisa”. Vemos Maria sentada aos Teus pés, e Tu dizendo:
“Uma só coisa é necessária.”
Vemos Paulo buscando uma única coisa. Mas essa coisa não é uma coisa; é uma Pessoa.
Paulo foi conquistado por Ti. Teve um encontro pessoal Contigo, e creio que, ao longo de sua vida, continuou tendo esses encontros pessoais Contigo.
Senhor, realmente oramos para que sondes nossos corações. Onde houver coisas em nós que não são de Ti, onde houver coisas que estamos considerando valiosas, Senhor, mostra-nos mais de Ti mesmo.
À luz de Quem Tu és e daquilo para o que nos estás chamando, que cheguemos ao ponto de considerar todas as coisas como lixo, pela excelência de conhecer-Te.
Prepara-nos para sermos o testemunho que Tu nos estás chamando a ser nestes últimos dias. Em nome de Jesus oramos, amém.