Acho que o motivo de Fontaine ter mudado meu microfone de lugar é que agora temos uma câmera de vídeo nova. Stephen, talvez você não saiba que estamos sempre gravando em vídeo; aquela luzinha verde indica isso. Da última vez, o microfone estava apontando para cima num ângulo estranho, e parecia que eu tinha um enorme chifre de veado durante toda a gravação.
Agora, alguns de vocês talvez acreditem que eu tenho chifres. Mas naquele dia eu tinha um enorme chifre de veado, então acho que foi por isso que abaixaram o microfone. Estamos pensando no que talvez possamos fazer aqui atrás; ainda não sabemos.
O importante é que o Senhor fale. Mostra-nos Cristo.
Abram novamente em Atos 7:58. O texto fala do martírio de Estêvão:
E, expulsando-o da cidade, o apedrejavam: e as testemunhas depuseram as suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo.
E apedrejavam a Estêvão, que invocava o Senhor e dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.
E, pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu.
E em Atos 8:1-3:
E Saulo consentia na sua morte. E levantou-se naquele dia uma grande perseguição contra a igreja que estava em Jerusalém; e todos foram dispersos pelas regiões da Judeia e de Samaria, exceto os apóstolos.
E homens piedosos sepultaram Estêvão e fizeram grande pranto sobre ele.
Mas Saulo assolava a igreja, entrando em cada casa e, arrastando homens e mulheres, os entregava à prisão.
Agora, gostaria de ler um trecho mais longo. Tenham paciência comigo: é importante. Atos 9 registra o encontro do apóstolo Paulo no caminho de Damasco. Imagino que todos vocês conheçam bem essa passagem, mas ouçam. Ela retoma exatamente o ponto em que acabamos de ler.
Mas Saulo, respirando ainda ameaças e morte contra os discípulos do Senhor, dirigiu-se ao sumo sacerdote,
e pediu-lhe cartas para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse alguns que fossem do Caminho, quer homens, quer mulheres, os levasse presos a Jerusalém.
E, indo no caminho, aconteceu que chegou perto de Damasco: e subitamente o cercou uma luz do céu:
e, caindo em terra, ouviu uma voz que lhe dizia: Saulo, Saulo, por que Me persegues?
E ele disse: Quem és Tu, Senhor? E Ele disse: Eu sou Jesus, a Quem tu persegues:
mas levanta-te e entra na cidade, e ali te será dito o que te convém fazer.
E os homens que iam com ele pararam emudecidos, ouvindo a voz, mas não vendo ninguém.
E Saulo levantou-se da terra; e, abrindo os olhos, nada via; e, guiando-o pela mão, levaram-no a Damasco.
E esteve três dias sem ver, e não comeu nem bebeu.
E havia em Damasco certo discípulo chamado Ananias; e o Senhor lhe disse numa visão: Ananias. E ele disse: Eis-me aqui, Senhor.
E o Senhor lhe disse: Levanta-te e vai à rua chamada Direita, e pergunta em casa de Judas por um homem de Tarso chamado Saulo: pois eis que ele está orando;
e viu um homem chamado Ananias entrar e impor-lhe as mãos, para que recuperasse a vista.
Mas Ananias respondeu: Senhor, de muitos tenho ouvido acerca deste homem, quantos males fez aos Teus santos em Jerusalém:
e aqui tem autoridade dos principais sacerdotes para prender todos os que invocam o Teu nome.
Mas o Senhor lhe disse: Vai: porque este é para Mim um vaso escolhido, para levar o Meu nome perante os gentios, e os reis, e os filhos de Israel:
pois Eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo Meu nome.
E Ananias foi e entrou na casa; e, impondo-lhe as mãos, disse: Irmão Saulo, o Senhor Jesus, Que te apareceu no caminho por onde vinhas, enviou-me, para que recuperes a vista e sejas cheio do Espírito Santo.
E logo lhe caíram dos olhos como que escamas, e recuperou a vista; e, levantando-se, foi batizado;
e, tendo comido, ficou fortalecido.
E esteve alguns dias com os discípulos que estavam em Damasco.
E logo nas sinagogas proclamava Jesus, dizendo que Ele é o Filho de Deus.
E todos os que o ouviam se admiravam e diziam: Não é este o que em Jerusalém destruía os que invocavam este nome? E para isso veio aqui, para os levar presos aos principais sacerdotes.
Quero ler apenas mais alguns versículos. Acho que são importantes. Se vocês querem entender alguma coisa sobre o apóstolo Paulo, precisam conhecer estes versículos.
Filipenses 3. Não faz tanto tempo que tivemos uma conferência sobre estes versículos. Começando em Filipenses 3:10:
Para conhecê-Lo, e o poder da Sua ressurreição, e a comunhão dos Seus sofrimentos, tornando-me conforme à Sua morte;
para ver se, de alguma maneira, posso alcançar a ressurreição dentre os mortos.
Não que já a tenha alcançado, ou que já seja perfeito: mas prossigo, para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus.
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão adiante,
prossigo para o alvo, pelo prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus.
Por isso, todos quantos somos perfeitos, tenhamos este sentimento: e, se em alguma coisa sentis de outra maneira, também isso Deus vos revelará.
E, finalmente, mais um versículo: Atos 26:19. Paulo está falando ao rei Agripa:
Pelo que, ó rei Agripa, não fui desobediente à visão celestial.
Senhor, queremos simplesmente entregar a Tua Palavra de volta a Ti e fazer a oração que estava naquele cântico: mostra-nos Cristo. Se não Te virmos, não haverá nada de valor neste tempo que passamos juntos. Se não Te ouvirmos, não haverá nada de valor neste tempo que passamos juntos.
Por isso, dizemos a Ti novamente: só Tu tens as palavras da vida eterna. Fala, Senhor. Queremos Te ouvir. As Tuas palavras são espírito e vida. Para quem iremos?
Entregamos este dia, esta palavra compartilhada, a nossa resposta a ela e o nosso ouvir, pedindo que nos dês ouvidos atentos enquanto esperamos em Ti, em nome do Senhor Jesus. Amém.
Bem, acho que todos vocês conhecem um pouco do encargo que tem estado no meu coração nestas quatro ocasiões: o homem que Deus escolhe e usa para o Seu propósito.
Agora, não quero fazer uma longa revisão, mas quero que pensemos em algumas coisas. Deus é um Deus de propósito. Tenham isso em mente. Ele faz tudo de acordo com esse propósito, do qual nunca Se desvia.
Outra coisa: o propósito de Deus diz respeito ao Seu Filho. Talvez vocês pensem que isso é apenas uma maneira técnica de expressá-lo, mas, para Deus, isso resume tudo. Seu propósito diz respeito ao Seu Filho.
Gosto da maneira como T. Austin-Sparks coloca isso. Ele está falando de um círculo e diz que Cristo é o centro e também a circunferência. Para todos vocês que têm dificuldade com matemática, como o Jim, a circunferência é aquela linha que delimita o círculo.
Agora, nosso problema é que geralmente estamos fora do centro. O centro de Deus é o Seu Filho; ou então estamos fora do círculo, seguindo alguma tangente. Você pode ter uma tangente ao círculo, mas não está dentro do círculo.
Todo o foco de Deus está no Seu Filho. Penso em Colossenses 1:18:
Para que em todas as coisas Ele tenha a preeminência.
Cremos que isso é vital. Se queremos alguma coisa — se queremos que vocês se lembrem de alguma coisa quando vêm se reunir conosco —, é da centralidade e da supremacia do Filho de Deus. Foi por isso que emolduramos aquele versículo anos atrás.
Ele é a essência do propósito de Deus. No entanto, ao mesmo tempo, este é o segundo ponto: Seu propósito inclui o homem. Isso não é glorioso? Não precisava incluí-lo. Gênesis nem precisava ter existido.
Mas Deus, em Sua grande misericórdia — e tenham muito cuidado, porque aqui vocês podem se enganar: nunca pensem que Deus agiu por alguma carência, porque não havia carência alguma —, em Seu grande propósito, em Sua grande misericórdia e em Seu amor, decidiu ter comunhão: trazer outros, trazer o homem, para a comunhão do Filho de Deus.
Isso não é incrível? Já seria suficiente se Ele compartilhasse conosco a salvação. Já seria suficiente se nos desse bênçãos. Já seria suficiente se nos desse dons, cura ou alguma outra coisa. Mas Ele nos dá o melhor.
Segundo 1 Coríntios 1:9, Ele nos introduz na comunhão de Seu Filho, Jesus Cristo, nosso Senhor. Isso é infinitamente incrível. Desculpe, Jim, vou deixar de lado esse jeito matemático de falar. Mas é infinitamente incrível que Ele nos introduza na comunhão do Seu Filho.
Portanto, Seu propósito inclui o homem. Acho que a Bíblia inteira trata desse propósito, e tudo nela tem a ver com esse propósito. Ela é um desvendamento progressivo do Senhor Jesus Cristo, desde Gênesis — quando Ele fez o homem à Sua própria imagem e conforme a Sua semelhança — até o fim, quando temos o livro do Apocalipse.
Esta é uma pequena implicância minha. Vocês talvez descubram que tenho muitas e talvez nem se importem, mas muita gente chama o último livro da Bíblia simplesmente de Revelação. Por favor, não façam isso.
É a Revelação, com artigo definido, porque é a síntese, a conclusão, a reunião de todas as coisas sob uma só Cabeça, no Senhor Jesus: a Revelação. Se vocês lerem a primeira linha do apóstolo João, verão que ele não deixou dúvida alguma:
Revelação de Jesus Cristo.
É disso que a Bíblia trata: revelação progressiva.
Há um versículo que sempre me chamou a atenção. É quando Pilatos trouxe o Senhor Jesus para fora, açoitado, usando uma coroa de espinhos. Vocês se lembram dessa cena? Nunca aconteceu nada semelhante na história, nem antes nem depois, e nunca acontecerá.
Naquele momento, Pilatos fez uma declaração:
Eis o Homem!
Isso sempre me chamou a atenção. Essa era a ideia de Deus. Ali Ele encontrou o Homem perfeito, o Homem de Sua escolha, como lemos no hino de Lutero — o Homem que Ele usaria, o Senhor Jesus.
Eis o Homem. Havia mais naquela declaração do que aquele governante romano corrupto jamais soube. Ela tem valor infinito: no singular, o Homem. Contudo, o propósito de Deus não se limita a um só. Ele quer incluir o homem: todos os que responderem a Ele, todos os que O invocarem, todos aqueles a quem Ele chamar.
São esses que Ele escolhe e usa para o Seu propósito. Esse, portanto, é o encargo.
Até agora, examinamos três homens. Todos eram homens do Antigo Testamento, a propósito. Vimos Abraão, o homem de fé; Moisés, o homem de Deus; e, na semana passada, vimos Davi, o homem segundo o coração de Deus.
Davi tem um lugar especial no meu coração. Vimos apenas algumas coisas sobre ele. Vimos que tinha uma paixão pelo próprio Senhor. Esse era o seu segredo.
Precisamos de uma paixão pelo próprio Senhor: não pelas coisas de Deus, não pelas coisas do cristianismo, não pelo que Ele nos dá, não pelo que nos concede. Precisamos de uma paixão pelo próprio Deus, e era isso que Davi tinha.
Em Salmos 27:4, Davi disse:
Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei:
Que possa morar na casa do Senhor todos os dias da minha vida,
Para contemplar a formosura do Senhor,
E inquirir no Seu templo.
E em Salmos 142:5:
Tu és o meu refúgio,
A minha porção na terra dos viventes.
Davi tinha uma paixão especial, de coração, pelo próprio Deus. Também tinha uma paixão pela casa de Deus. Em Salmos 84:1-2, ele disse:
Quão amáveis são os Teus tabernáculos, ó Senhor dos Exércitos!
A minha alma anela, e até desfalece, pelos átrios do Senhor.
E Salmos 84:10 diz:
Porque vale mais um dia nos Teus átrios do que mil.
Preferiria estar à porta da casa do meu Deus,
A habitar nas tendas da perversidade.
Que paixão! Ele concluiu aquele salmo que é um marco: Salmos 23. Se há uma obra literária que permanecerá para sempre, por toda a eternidade, é essa. Mais do que qualquer outro grande escrito que vocês possam imaginar, Salmos 23 tem sido o preferido dos simples e dos profundos. Continua sendo o preferido.
Ao concluir esse salmo, ele disse em Salmos 23:6:
Certamente que a bondade e a misericórdia me seguirão todos os dias da minha vida;
E habitarei na casa do Senhor para sempre.
Que paixão! Precisamos dessa paixão se vamos ser aqueles que Deus escolhe e usa.
Por fim, falamos da paixão de Davi pelo propósito de Deus. Atos 13:36, na versão New American Standard, diz:
Porque Davi, depois de ter servido ao propósito de Deus em sua própria geração, adormeceu, foi colocado junto a seus pais e sofreu decomposição.
Esse era Davi. O que ele fez com aquela breve vida — e o que devemos fazer com esta breve vida que nos é dada — foi servir ao propósito de Deus em sua geração. Cada dia é um presente.
Agora, isso não exclui família, carreira, vida e todas as outras coisas pelas quais passamos. Mas deve ser a nossa ênfase deliberada. Como Davi, devemos servir ao propósito de Deus em nossa geração.
Já disse isso antes. Talvez vocês se cansem de me ouvir dizer, mas vou repetir: se isso puder ser dito de você, se esse puder ser o seu elogio fúnebre, se alguém pronunciar essas palavras a seu respeito, então essa será uma vida bem vivida.
Essa é a minha esperança.
Hoje vamos considerar o apóstolo Paulo. Paulo, antes de tudo, era um homem de visão. É isso que se destaca quando olhamos para o apóstolo Paulo. Do começo ao fim, ele foi um homem de visão.
Eu não conseguiria imaginar um candidato mais improvável para Deus escolher e usar do que o apóstolo Paulo. Talvez vocês digam: “Querido irmão, do que você está falando?”
Bem, ele era o inimigo declarado do cristianismo. Vejam aquelas palavras fortes que lemos em Atos 7, Atos 8 e Atos 9. Ele assolava a igreja. Por zelo por Deus, pediu cartas ao sumo sacerdote para ir até Damasco, encontrar aqueles homens e mulheres e trazê-los de volta para a prisão.
Não me parece haver candidato mais improvável para Deus escolher e usar. Sua apresentação é dura, contundente e brutal.
Pensem na maneira como ele é apresentado nas Escrituras. Não começa assim: “Havia um homem que morava em Tarso, que cresceu, foi instruído aos pés de Gamaliel e se tornou fariseu dos fariseus”. Não começa dessa maneira.
Começa com o querido Estêvão, o primeiro mártir do cristianismo. Estêvão é apedrejado até a morte, e eles depositam suas roupas aos pés de Saulo. Essa é a apresentação de Paulo. Vocês conseguem imaginar um candidato mais improvável?
Acreditem, Deus não me pede conselhos. Graças a Deus! Mas eu sugeriria que talvez houvesse um candidato melhor. Aqui está o Teu inimigo declarado. Aqui está o homem que quer eliminar o cristianismo da face da terra.
Para Saulo, o cristianismo era um caminho corrompido, uma perversão do judaísmo. Não era o que Deus pretendia. Em seu zelo equivocado por Deus, ele se empenhou em destruí-lo. Leiam essas palavras: assolava não é uma palavra simples, sem carga emocional. Ele assolava a assembleia.
Foi assim que o conhecemos. Ele não parece um candidato muito bom.
Bem, isso deve nos encorajar. Às vezes, acho que nós também não somos candidatos muito bons. Desculpem se estou pisando no calo de alguém. Mas acredito que a maioria de nós não seja o melhor candidato.
De alguma maneira, Deus, em Sua misericórdia, nos escolhe e nos usa para o Seu propósito. Essa é a glória. Esse é o encorajamento.
Mas Paulo estava um grau acima. Em seu próprio testemunho, ele disse em Atos 22:4:
Persegui este Caminho até à morte.
Isso é coisa séria.
Mas ouçam-me com muita atenção: esse maior perseguidor tornou-se o maior defensor.
Esse inimigo declarado tornou-se o principal embaixador, um emissário de Deus. Aquele que queria subjugar o cristianismo tornou-se o vaso escolhido de Cristo.
Isso é amor. Isso é um amor extraordinário. Ele se tornou um vaso eleito.
Temos falado da relevância de cada um desses quatro personagens. Tenho procurado dedicar uma mensagem a cada personagem porque queremos apenas um breve retrato, não uma exposição completa. Queremos ver algumas características daqueles que Deus escolheu e usou.
Se olharmos para eles dessa maneira, em vez de apenas de uma perspectiva histórica, poderemos começar a compreender o homem que Deus escolhe e o homem que Deus usa.
Pensem na relevância do apóstolo Paulo. Quase metade dos livros do Novo Testamento se deve ao apóstolo Paulo. Há vinte e sete livros no Novo Testamento, e o apóstolo Paulo escreveu treze.
Que relevância! Por causa do apóstolo Paulo, temos uma compreensão plena do que é a vida cristã. Sem o apóstolo Paulo, não teríamos uma compreensão plena da salvação e da vida cristã. Pensem em Romanos e Gálatas.
Não teríamos essa compreensão da vida da igreja. Ninguém nas Escrituras nos explicou a vida da igreja como o apóstolo Paulo. Ele fez do corpo de Cristo e da casa de Deus a sua missão. Por causa de sua contribuição, entendemos o que são.
Não compreenderíamos o que significa ser o corpo de Cristo sem o apóstolo Paulo. Pensem em 1 Coríntios 12 — como esse capítulo é extraordinário — ou no capítulo 14, em que entramos naqueles belos detalhes de como funcionar juntos na casa de Deus.
Não teríamos uma compreensão profunda da ordem na igreja se não fosse por 1 Timóteo, 2 Timóteo e Tito. Não compreenderíamos a centralidade e a supremacia do Filho de Deus se não fosse por Colossenses.
Não entenderíamos esta expressão que usamos tanto aqui, o propósito eterno de Deus, se não fosse por aquela elevada carta, Efésios. Essa é a contribuição desse homem. Essa é a relevância desse homem. Não acho que possamos ignorá-la.
Como introdução, acho que precisamos considerar a característica predominante do apóstolo Paulo. Tem de ser a visão. Não se pode dizer outra coisa. Sua vida começa e termina com visão. Ele era o homem de visão.
Quando se referiu a si mesmo em 2 Coríntios 12:1 — no que tem sido chamado de sua autobiografia —, ele disse:
É necessário gloriar-me, embora não convenha; mas passarei às visões e revelações do Senhor.
Foi assim que ele se descreveu. Então fala de uma pessoa:
Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos — se no corpo, não sei; se fora do corpo, não sei; Deus o sabe —, foi arrebatado até ao terceiro céu.
E conheço tal homem — se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe —,
que foi arrebatado ao Paraíso e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar.
Ele está falando de si mesmo na terceira pessoa. Está falando desse homem de visão. De alguém assim ele se gloriaria, mas de si mesmo não se gloriaria, a não ser em suas fraquezas.
Então diz que, por causa da extraordinária grandeza das revelações, lhe foi dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás. Esse homem de visão viu tanto, e, daquele dia em diante, passou a se gloriar em sua fraqueza.
A característica predominante do apóstolo Paulo é aquilo que ele viu. Porque viu com tanta clareza, foi usado de maneira tão grandiosa. Essa é a chave quando se trata do apóstolo Paulo.
Provérbios 29:18 diz:
Onde não há visão, o povo perece.
Como a visão é importante! A visão é essencial.
Vamos considerar três coisas, apenas três. Primeiro, Paulo tinha uma visão orientadora. Creio, irmãos e irmãs, que aquilo de que precisamos, e que muitas vezes nos falta na vida cristã, é uma visão orientadora.
Sem ela, não temos foco individualmente no Senhor, nem temos foco coletivamente no Senhor. Portanto, em primeiro lugar: a visão orientadora de Paulo.
A vida de Paulo, quando foi escolhido por Deus naquele caminho de Damasco, começou ao receber um desvendamento que se tornou sua visão orientadora e o conduziu por toda a vida.
William M. Ramsay, em São Paulo, o viajante e o cidadão romano, disse que essa visão foi uma visão ofuscante do Cristo ressurreto. Essa era a visão orientadora de Paulo. Era isso.
É disso que precisamos. Em certo sentido, não é tão complicado. Precisamos que o Senhor abra nossos olhos e que, assim como aconteceu com o apóstolo Paulo, a luz do sol do meio-dia venha sobre nós e nos dê uma visão orientadora do Senhor Jesus.
Essa era a sua chave. Saulo jamais poderia duvidar daquela visão. Foi o acontecimento mais real de sua vida. Mudou toda a sua carreira.
Irmãos e irmãs, precisamos de algo que nos tome por inteiro. Paulo disse:
Cristo Jesus me alcançou.
Isso muda toda a sua carreira.
Agora, isso não significa que você deixará de ser dona de casa, carpinteiro, engenheiro ou médico. Mas você passa a ter um novo foco. Tudo isso se torna uma ocupação secundária, e você tem uma nova carreira: servir ao propósito de Deus em sua geração.
A visão de Paulo alterou o curso da história e afetou o mundo inteiro. Isso foi bem colocado. Esse foi o impacto de um único homem. Irmãos e irmãs, esse é o impacto que vocês podem ter. Esse é o encorajamento da Palavra de Deus.
Deus interrompeu a vida e o rumo determinados de Paulo. Ele disse:
Saulo, Saulo, por que Me persegues?
E Saulo disse:
Quem és Tu, Senhor?
O Senhor simplesmente disse:
Eu sou Jesus.
Essa foi a visão orientadora. Daquele dia em diante, a visão de Paulo ficou inteiramente ocupada pela pessoa do Senhor Jesus, e por ninguém mais. Essa é a visão de que precisamos.
Quando vocês olham para sua primeira mensagem, segundo o registro de Lucas em Atos 9, talvez pensem que o primeiro sermão de Paulo teria sido sobre a experiência: o brilho, a luz e a voz. Mas as Escrituras dizem que ele pregava Jesus como o Filho de Deus.
Essa é a sua visão orientadora. Cristo é o centro e o foco. Creio que é aí que tantos de nós perdemos o foco. Colocamos as coisas cristãs em primeiro lugar, acima de tudo.
Agora, precisamos das coisas cristãs. Não me entendam mal. Não sou contra as coisas cristãs. Graças a Deus, Ele Se tornou para nós justiça, sabedoria e santificação. Mas lembrem-se: a ênfase é sempre — e a visão orientadora sempre será — o próprio Senhor Jesus.
Quando comecei minha carreira, comecei como desenhista à mão. Esses profissionais são verdadeiros dinossauros hoje, quero que vocês saibam. Muitas vezes sou chamado de dinossauro no escritório. Meu sócio mais jovem disse: “Kenny, você está ficando tão velho que estamos demolindo os seus edifícios”. Que elogio!
Mas eu era um desses desenhistas que faziam tudo à mão. Desenhava com lápis, grafite e esse tipo de coisa. Costumávamos desenhar edifícios no que se chamava de perspectivas arquitetônicas.
Uma perspectiva arquitetônica é o melhor que se pode fazer com uma folha de papel plana e um lápis para colocar algo numa espécie de representação tridimensional. Caso contrário, é apenas bidimensional. Não é preciso colocar aqueles óculos esquisitos e sentar diante do desenho para obter o efeito tridimensional.
Era muito simples. Você tinha um único ponto de referência. A partir desse único ponto de referência, todas as linhas se projetavam para colocar o edifício em perspectiva.
Você podia ter uma vista de cima, uma vista ao nível do solo ou uma vista intermediária. Mas o ponto extraordinário — o ponto único — era que havia um só ponto de referência.
Essa é a visão orientadora. Esse único ponto de referência é Cristo Jesus. As linhas que se irradiam e colocam tudo em perspectiva partem de Cristo Jesus. Se você começar a compreender isso a partir de qualquer outro foco, não vai entender corretamente. Estará fora do centro ou fora do círculo.
Essa era a visão orientadora de Paulo.
A visão orientadora de Paulo começou a moldar seu entendimento. Em Filipenses 1:21, ele disse:
Porque para mim o viver é Cristo.
Acho esse versículo fenomenal. Temos esse versículo emoldurado no hall de entrada da nossa casa, graças ao Jonathan. Para mim, o viver: aquele único ponto de foco.
Paulo já não entendia o cristianismo como Paulo vivendo para Deus. Já não entendia o cristianismo como tentar viver. Entendia-o como Cristo vivendo. Vocês percebem a diferença? Isso é muito importante.
Sua visão orientadora moldou todo o seu foco. Em Gálatas 2:20, ele disse:
Estou crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim.
Esse é o segredo do cristianismo. Nunca vou me esquecer da primeira vez em que comecei a enxergar isso. Era uma teologia libertadora. Falam de teologia da libertação — não vou entrar nesse assunto —, mas isto é teologia da libertação.
Você não precisa viver. Primeiro, quando vem a Cristo, não precisa morrer. Ele morreu por você. Mas essa visão orientadora significa que você não precisa viver. Ele vive em você. Isso não é maravilhoso?
Foi isso que moldou o apóstolo Paulo. Quando Filipenses 1:21 e Gálatas 2:20 começaram a se tornar reais para mim, foi algo tão real que não consigo descrever.
Lembro-me de quando o irmão Jerry e eu nos conhecemos e começamos a ler o livro de Watchman Nee, A vida cristã normal. Abri a primeira página, e, na parte interna da capa, estava escrito simplesmente:
Já não sou eu quem vive. Cristo vive em mim.
Isso vinha de Gálatas 2:20. Essa era a sua visão orientadora.
Lembro-me de outra história. Quando eu era jovem, tinha a Bíblia Boas notícias para o homem moderno. Essa era a minha Bíblia: um livrinho com um arco-íris, mais ou menos deste tamanho. Isso foi quando eu enxergava bem.
Lembro-me de lê-la repetidas vezes, e me deparei com as palavras do apóstolo João, quando falava de Cristo, o Noivo. Em João 3:30, ele disse:
É necessário que Ele cresça e que eu diminua.
Para mim, essa é a visão orientadora. Isso explica tudo.
A segunda coisa sobre essa visão orientadora é que ela inclui o corpo de Cristo. Não é apenas o Senhor Jesus. Talvez vocês achem que isso contradiz tudo o que me ouviram dizer, mas ela inclui o corpo de Cristo.
Naquele dia, o apóstolo Paulo viu algo sobre o corpo de Cristo que mudou seu entendimento. O Senhor lhe disse:
Saulo, Saulo, por que Me persegues?
Poderíamos pensar que Paulo diria: “Senhor, não estou perseguindo a Ti. Estou perseguindo os Teus seguidores. Há uma diferença, Senhor. Com licença”.
Mas esta é a verdade: a Cabeça da igreja e a igreja, o corpo de Cristo, estão inseparavelmente ligadas. Quando você toca na igreja, no Seu corpo — seja em Damasco, Jerusalém, Antioquia da Pisídia, Richmond ou Califórnia —, você toca no Cristo vivo.
Isso não é tremendo? Que encorajamento! Estamos inseparavelmente ligados.
Quando vocês começam a ler 1 Coríntios 12, começam a entender o que foi revelado ao apóstolo Paulo nessa visão orientadora: há um só corpo, mas muitos membros. Os membros são muitos, mas há um só corpo. Ele viu isso. Isso se tornou a sua visão orientadora.
Algumas pessoas dizem: “Por que Paulo deu tanta importância à igreja em suas cartas?” Porque lhe foram confiadas essa incumbência e essa missão: como sábio arquiteto, edificar a casa de Deus. Daquele dia em diante, ele se dedicou a isso.
Essa era a visão orientadora de Paulo: quando você toca no corpo, toca na Cabeça.
Creio que essa é uma visão de que precisamos. Algumas pessoas dizem: “Somos só eu e o Senhor”. Não acho que seja possível ler os escritos do apóstolo Paulo sem compreender sua ênfase no corpo de Cristo e na casa de Deus.
Se nosso entendimento se limita a nós e ao Senhor, temos uma compreensão superficial do que é a vida cristã. A vida cristã inclui a Cabeça, Que está no alto, e o Seu corpo, que está na terra.
Esse corpo na terra é agora, coletivamente falando, o homem que Ele escolhe e usa para cumprir o Seu propósito. Essa é a visão orientadora de Paulo.
A terceira coisa que Paulo viu nessa visão orientadora foi a importância de cada membro. Havia aquele homem simples, Ananias. A propósito, Ananias não recebe muito destaque na Bíblia.
Ananias só é mencionado em Atos 9, na explicação de Lucas sobre a conversão de Paulo, e depois pelo próprio Paulo, creio que em Atos 22, quando apresenta uma de suas defesas. Há apenas uma breve menção a Ananias.
Mas, irmãos e irmãs, o que Paulo começou a enxergar naquela visão orientadora é que cada membro do corpo de Cristo é vital.
Vocês conseguem imaginar se não houvesse Ananias? Não haveria Paulo. Talvez vocês digam: “Deus teria chamado outra pessoa”. Mas não acho que seja assim. Este é precisamente o ponto: você, como membro do corpo de Cristo, talvez pense que não tem valor algum.
Mas aquele homem simples, aquele homem desconhecido, aquele pequeno discípulo escondido em Damasco provavelmente teria ficado feliz em continuar assim. Contudo, um dia recebeu o chamado para ir à rua chamada Direita, encontrar Saulo e impor-lhe as mãos para que recuperasse a vista.
Vocês conseguem imaginar? Eu teria feito a mesma coisa que o querido Ananias. Ele disse: “Senhor, tenho ouvido quanto mal este homem faz”. Eu teria usado palavras ainda mais fortes: “Senhor, não me envies. Envia qualquer pessoa, menos eu”.
Mas ele viu algo: cada membro era vital. Quando Paulo escreveu 1 Coríntios 12, a grande verdade que enxergou sobre o corpo de Cristo foi que até os membros que têm menos honra recebem maior honra, e os membros mais fracos são igualmente vitais.
Talvez vocês nem me considerem um Ananias. Mas acho que, em certo sentido, a maioria de nós é como Ananias. Cada um de nós, assim como Ananias, é vital. Isso é importante.
Essa era a sua visão orientadora. Era isso que ele via.
Creio que muitas vezes nos desviamos porque não temos uma visão orientadora. Você viu o Senhor Jesus? Você O viu como o centro e a circunferência?
Você viu quanto o Senhor ama a Sua igreja e que escolheu o Seu corpo para ser a expressão do Seu propósito? Você viu isso? Você viu que é tão importante quanto qualquer outro membro do corpo de Cristo?
Talvez você não seja Estêvão. Nunca será. Mas pode ser Ananias: escolhido e grandemente usado por Deus.
Essa é a visão orientadora. Acho que precisamos dela. Acho que ela nos falta. Acho que precisamos orar por ela. Acho que precisamos pedir ao Senhor que nos dê uma visão orientadora capaz de nos levar até o fim.
A segunda visão que se destaca para mim é a visão perseverante de Paulo.
Quando vocês leem o livro de Filipenses, não demora muito para descobrirem que é uma carta especial. É a décima carta de Paulo, entre treze. É a última carta dirigida a uma igreja; as três últimas são dirigidas a indivíduos: 1 Timóteo, Tito e 2 Timóteo.
Mas, nessa última carta a uma igreja, aos filipenses, com quem tinha um relacionamento especial, Paulo compartilhou sua visão secreta: uma visão perseverante que nunca desiste.
Isso não parece tão profundo, não é? Mas, para aquela igreja que ele tanto amava, e para aquela igreja na Macedônia que tanto o amava, esse era o segredo: a visão perseverante.
Havia um relacionamento especial entre a igreja em Filipos e o apóstolo Paulo. Começou com uma visão. Em Atos 16, Paulo queria ir à Ásia, mas o Espírito Santo o impediu. Depois, queria ir à Bitínia, mas o Espírito de Jesus o impediu.
Então houve a visão de um homem macedônio que dizia:
Passa à Macedônia e ajuda-nos.
Paulo e Lucas entenderam que aquela visão vinha de Deus. Com base nela, foram à Macedônia. O primeiro lugar a que chegaram foi Filipos, a colônia romana.
Daquele dia em diante, Paulo teve um relacionamento especial com Filipos. Em Filipenses 4:1, ele disse:
Portanto, meus amados e mui saudosos irmãos, minha alegria e coroa, permanecei assim firmes no Senhor, amados.
Eram eles que cuidavam dele e supriam suas necessidades pessoais. Ele os amava, e o vínculo de comunhão permaneceu intacto. Isso não é pouca coisa.
Lembrem-se das palavras dolorosas do próprio apóstolo:
Todos os que estão na Ásia se apartaram de mim.
Mas aqui esse vínculo permaneceu forte até o fim.
Como esse vínculo era tão forte, ele podia compartilhar com eles sua visão perseverante. Abram novamente em Filipenses 3. Sei que já lemos, mas voltem ao texto.
Filipenses 3 talvez seja uma das exposições mais profundas do apóstolo Paulo. Em Filipenses 3:12, ele diz:
Não que já a tenha alcançado, ou que já seja perfeito: mas prossigo.
Ele nunca desistiu.
Ele continua dizendo:
Para ver se poderei alcançar aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus.
Irmãos, quanto a mim, não julgo que o haja alcançado; mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão adiante,
prossigo.
Essa era a sua visão. Esse era o segredo que queria deixar com aqueles que tanto amava: seus amados, sua alegria, sua coroa.
Este é o segredo para nós, neste tempo: nunca desistam. Não parem de prosseguir.
Paulo até dá uma nova definição de perfeição. Ele diz: “Não sou perfeito, mas prossigo”. Depois diz: “Se algum de vocês é perfeito, tenha essa mesma disposição”.
Perfeição não é o que vocês pensam. Vocês acham que perfeição significa ser perfeito. Isso faz sentido até para mim, por mais lento que eu seja para entender. Mas a perfeição segundo Deus, a perfeição divina, não significa ser perfeito. Significa prosseguir, nunca desistir.
Vocês vão cometer erros ao longo do caminho. Nunca vou me esquecer de um escritor que, quando eu estava preparando estas mensagens alguns meses atrás, disse que não havia um filho perfeitamente obediente em todo o Israel.
Não procurem esse tipo de perfeição. Mas façam esta única coisa. Paulo disse: “Uma coisa faço: prossigo”. Não desistam. Esse era o seu segredo, e precisa ser o nosso segredo: uma visão perseverante.
Paulo nunca parou. Se alguém tivesse o direito de desistir e abandonar tudo, seria o apóstolo Paulo.
Leiam 2 Coríntios 11:22-30. Não temos tempo de ler tudo, mas ali há uma lista das coisas pelas quais ele passou: provações, dificuldades, açoites, naufrágios e jejuns frequentes.
Pensem nisso: tudo aquilo pelo que passou. Certamente, ele tinha um passe livre para desistir.
Mas aqui está o encorajamento: esse homem, que tinha tudo contra si, até um espinho na carne, até um mensageiro de Satanás, já não podia depender de sua própria força. Contudo, na fraqueza, encontrou no Senhor plena suficiência para cada circunstância.
Esse homem nunca parou de prosseguir.
O encorajamento para vocês e para mim não é que vamos passar pelos sofrimentos do apóstolo Paulo. Vocês se lembram de Atos 9: o Senhor disse a Ananias: “Ele é um vaso eleito”, um vaso escolhido, para comparecer diante de reis, nações e dos filhos de Israel. E certamente ele o fez.
Então o Senhor disse:
Eu lhe mostrarei quanto deve padecer pelo Meu nome.
Irmãos e irmãs, se o Senhor tivesse me dito isso em 4 de fevereiro de 1974, quando fui salvo — “Vou lhe mostrar o que você deve sofrer por causa do Meu nome” —, acho que eu teria parado de prosseguir.
Mas aqui está o encorajamento: nesse pior cenário possível, esse homem, que tinha todo direito e toda razão para desistir, e todas as circunstâncias contra si, nunca parou de prosseguir.
Portanto, irmãos e irmãs, há graça para vocês e para mim, independentemente das circunstâncias — por mais profundas, por mais terríveis ou por menores que sejam —, para prosseguirmos em meio a tudo isso. Para mim, essa é a visão perseverante.
Finalmente, chegamos à visão de Paulo para concluir a carreira. Vejam 2 Timóteo 4:7-8.
Não consigo dizer quantas vezes ouvi estes versículos serem lidos:
Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé:
desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia.
Essas são as palavras de sua última carta:
Acabei a carreira. Guardei a fé.
E ele não parou aí:
E não somente a mim, mas também a todos os que amarem a Sua vinda.
Isso não é encorajador? Não somente a mim, mas também a todos os que amam a Sua vinda.
Creio que o apóstolo Paulo teve graça para começar. Ele tinha uma visão orientadora, e acredito que ela o manteve no rumo. É disso que precisamos se vamos ser aqueles que Deus escolhe e usa.
Acho que ele teve graça para continuar, e essa era a sua visão perseverante. Ela nos mantém na corrida. Nunca desistimos.
Talvez eu tenha feito uma bobagem uns quatro ou cinco anos atrás. Estou com quase sessenta e dois anos. Voltei a correr. Eu corria quando era jovem. Adoro a solidão da corrida. É ótimo, se você gosta disso: só os seus pensamentos e a sua meditação quando está sozinho lá fora.
No meu caso, geralmente é uma agonia. As pessoas não chamam o que faço de corrida. Parece mais o movimento de uma geleira, de tão lento.
Mas comecei a me preocupar um pouco com isso, porque estava ficando mais velho, então comprei uma dessas pulseiras de identificação para corredores. É vermelha. Você coloca nela informações essenciais.
Então, Jessica, se você receber uma ligação, foi lá que me encontraram, está bem? Seu número está lá, o número da Linda também, e dizem para colocar alguma coisa inspiradora na pulseira. Ela não é tão grande.
Pensei nisso e coloquei apenas estas palavras: “Permaneça na corrida.”
Não importa quanto você é rápido, quantos dons tem ou quanto talento possui. O importante é continuar prosseguindo. Permaneça na corrida.
Espero que vocês entendam que isso é um double entendre. Vocês não sabiam que eu era francês, não é? Tem um duplo sentido.
Paulo tinha uma visão para concluir a carreira. Creio que precisamos dessa visão: graça para terminar.
Ele pôde dizer que havia terminado sua corrida.
Não sei se algum de vocês se lembra de 1992. Lembram-se de Derek Redmond nos Jogos Olímpicos de Barcelona, na Espanha? Estou vendo olhares vazios. Entrem no YouTube — não agora; não liguem seus smartphones. Digitem “Derek Redmond Barcelona”. Vocês vão encontrar.
Ele estava na corrida de sua vida. Queria ganhar o ouro. Esse era seu único objetivo: correr a prova e ganhar o ouro.
Quando Derek fez a curva, sofreu uma grave distensão na parte posterior da coxa e caiu na pista. Os suspiros da plateia — sessenta e cinco mil pessoas — eram audíveis.
Ele ficou na pista, apoiado nas mãos e nos joelhos. Logo, os agentes de segurança se aproximaram e tentaram levantá-lo, mas ele disse: “Não”. Levantou-se, começou a saltar em uma perna só e a avançar.
Era uma cena dolorosa. Sei que esse movimento vai ficar bem estranho na gravação. Mas ele saltava, saltava e saltava em uma perna só, porque já não estava determinado a vencer a corrida. Estava determinado a terminar a corrida.
Então, do nada, aquele homem mais velho — seu pai — entrou na pista, segurou-o por baixo do braço e o ergueu.
Seu pai o carregou até a linha de chegada.
Na entrevista final, perguntaram ao pai: “Por que você fez isso?”
Ele disse: “Começamos juntos a sua trajetória nas corridas. Terminamos juntos a sua corrida”.
Isso me lembra Hebreus 12:1-2: o Autor e Consumador da nossa fé. Precisamos correr com perseverança a carreira que nos está proposta.
Não apenas para vencer. O apóstolo Paulo diz que devemos correr como quem vai vencer. Mas corram para terminar. Esse é o segredo.
Essa era a visão do apóstolo Paulo. Era a visão para concluir a carreira.
Vou fazer estas perguntas novamente, porque quero que esses três pontos fiquem gravados de maneira indelével na mente de vocês.
Você tem essa visão orientadora? Peça ao Senhor.
Você tem essa visão perseverante que diz: “Não importa o que aconteça, pela graça de Deus, não vou desistir”? É isso que fazem os que têm a disposição dos perfeitos. Se tiverem outra disposição, Deus os fará lembrar disso.
E você tem uma visão para concluir a carreira? Poderá dizer, como o apóstolo Paulo: “Acabei a carreira”? Ou, como Derek Redmond: “Terminei a corrida”?
Quando Derek terminou aquela corrida, todos esqueceram quem havia vencido. Mas sessenta e cinco mil pessoas irromperam em aplausos por aquele homem que atravessou a linha de chegada saltando em uma perna só, porque seu pai tornou isso possível.
Temos uma visão para concluir a carreira?
Creio que foi por isso que Deus pôde escolher o apóstolo Paulo, tornar essas coisas reais nele e usá-lo da maneira como o usou para o Seu propósito.
Senhor, simplesmente entregamos a Ti estes pensamentos, por mais simples que sejam.
Queremos Te dizer: dá-nos, querido Senhor, essa visão orientadora. Tu nos conheces. Saímos do rumo com tanta facilidade. Precisamos dela. Por favor, Senhor, dá-nos essa visão, e permaneceremos no rumo, tanto individualmente como coletivamente.
Dá-nos, Senhor, uma visão perseverante, para que, como o apóstolo Paulo, que tinha tudo contra si, possamos dizer: “Prossigo”.
Senhor, pedimos que nos dês uma visão para concluir a carreira. Vamos terminar. Somos tão gratos porque Tu nos carregas para além da linha de chegada.
Estaríamos perdidos. Tu és o Autor da nossa fé. Tu és o Consumador da nossa fé. Sem Ti, não podemos chegar ao fim.
Mas, Senhor, pedimos que tenhamos, de maneira real, uma visão para concluir a carreira.
Pedimos todas essas coisas no precioso nome do Senhor Jesus. Amém.