Queridos irmãos e irmãs, vocês poderiam abrir comigo em algumas passagens das Escrituras? Primeiro, a passagem com a qual temos começado várias destas sessões: o Evangelho de Mateus, capítulo 16.
Vou ler a partir de Mateus 16:13.
Ora, quando Jesus chegou às regiões de Cesareia de Filipe, perguntou aos Seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”
E eles disseram: “Uns dizem João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias, ou um dos profetas”.
Disse-lhes Ele: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?”
E Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”.
E Jesus, respondendo, disse-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas; porque não foi carne e sangue que te revelou isso, mas Meu Pai, Que está nos céus”.
Agora, abram comigo em 1 Coríntios, a primeira carta do apóstolo Paulo aos coríntios, capítulo 1. Vou ler a partir de 1 Coríntios 1:18.
Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.
Porque está escrito: “Destruirei a sabedoria dos sábios, e reduzirei a nada o discernimento dos entendidos”.
Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o questionador deste mundo? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria do mundo?
Porque, visto que, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus por sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da pregação.
Pois os judeus pedem sinais, e os gregos buscam sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.
Gostaria de acrescentar a isso o Evangelho de Marcos, capítulo 8. Vou ler a partir de Marcos 8:27.
E saiu Jesus, com os Seus discípulos, para as aldeias de Cesareia de Filipe; e, pelo caminho, perguntou aos Seus discípulos, dizendo-lhes: “Quem dizem os homens que Eu sou?”
E eles Lhe responderam, dizendo: “João Batista; e outros, Elias; mas outros, um dos profetas”.
E Ele lhes perguntou: “Mas vós, quem dizeis que Eu sou?” Pedro, respondendo, disse-Lhe: “Tu és o Cristo”.
E Ele lhes ordenou que a ninguém falassem a Seu respeito.
E começou a ensinar-lhes que era necessário que o Filho do Homem padecesse muitas coisas, fosse rejeitado pelos anciãos, pelos principais sacerdotes e pelos escribas, fosse morto e, depois de três dias, ressuscitasse.
E dizia isso abertamente. E Pedro, tomando-O à parte, começou a repreendê-Lo.
Mas Ele, voltando-Se e vendo os Seus discípulos, repreendeu Pedro e disse: “Para trás de Mim, Satanás; porque não cogitas das coisas de Deus, mas das coisas dos homens”.
E, chamando a Si a multidão com os Seus discípulos, disse-lhes: “Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida a perderá; mas qualquer que perder a sua vida por Minha causa e por causa do evangelho a salvará”.
Amado Senhor, somos tão gratos porque Tu estás conosco nesta noite e porque estamos nos reunindo em torno de Ti. Nossa oração agora é muito simples: amado Senhor, precisamos de Ti.
Querido Senhor, Tu sabes que, sem essa unção, serão apenas palavras. Será verdade, mas, sem a unção que Tu conquistaste para nós no Calvário e tornaste uma realidade viva na presença do Espírito Santo, essa Palavra não habitará em nós.
Tu abrirás nossos olhos. Tu nos darás entendimento daquilo que é nosso no Senhor Jesus, e o poder e a capacidade de segui-Lo, custe o que custar. Portanto, Senhor, torna este momento, nesta noite, muito especial para cada um de nós. Não deixes, Senhor, que ele passe apenas com palavras.
Pela fé, permanecemos nessa graça e nesse poder da unção, tanto para falar a Tua Palavra quanto para ouvi-la. Senhor, faz algo no coração de cada um de nós. Pedimos isso em nome do nosso Messias, o Senhor Jesus.
Como todos vocês sabem, o tema desta conferência é preparar o caminho para a volta do Senhor. Minha responsabilidade tem sido tratar do caminho de Cristo. Não vou repetir o que disse ontem à noite, a não ser isto: Jesus disse:
Eu sou o caminho, a verdade e a vida.
Não há absolutamente nenhuma maneira de você e eu prepararmos o caminho para a volta do Senhor sem o Senhor Jesus. Ele é a chave da nossa preparação. Ele é a chave para estarmos prontos. Ele é o meio pelo qual você e eu podemos avançar cada vez mais na plenitude de Deus.
Bem, falei sobre isso ontem à noite e não vou me deter mais nesse assunto, a não ser para dizer o seguinte. Quando o Senhor Jesus perguntou àqueles discípulos:
Quem dizem os homens que Eu sou?
Pedro, quase sem esperar que alguém dissesse uma palavra, respondeu:
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
O Senhor Jesus respondeu imediatamente:
Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque Meu Pai nos céus te revelou isso.
É uma bênção tremenda quando o Espírito Santo abre os olhos do nosso coração — quando começamos a enxergar qual é a esperança da nossa vocação, quais são as gloriosas riquezas da Sua herança nos santos e qual é a suprema grandeza do Seu poder para conosco, os que cremos.
Ontem à noite, falamos sobre a salvação. Falamos sobre a vida eterna. Jesus é essa vida. E falamos sobre a igreja. Essas são as gloriosas riquezas da Sua herança. Nossa herança é a salvação em toda a sua plenitude. Nossa herança é Jesus. Ele é o nosso Noivo. Ele é tudo.
Mas nós, como igreja, somos a herança Dele. Isso é algo tremendo. Como disse, não vou tratar disso novamente, a não ser para enfatizar esse ponto.
O que Pedro realmente viu quando disse:
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
Não sei exatamente quanto ele viu, mas Jesus disse: “Você é bem-aventurado, porque Meu Pai tocou os olhos do seu coração, e você viu algo”.
Não há absolutamente nenhuma dúvida de que, à medida que Pedro prosseguia, ele via cada vez mais o que aquela simples declaração de fé realmente significava:
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
Nessa única afirmação, todos os sessenta e seis livros da Bíblia estão resumidos. É quase como se a Bíblia inteira, de Gênesis 1 a Apocalipse 22, estivesse contida nessa única declaração de fé.
É por isso que o apóstolo Paulo disse que, para nós, que estamos sendo salvos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Tudo de que precisamos em termos de capacidade e poder está Nele; e tudo de que precisamos em termos de sabedoria e entendimento está Nele.
É uma tragédia quando nosso amor esfria, quando nos tornamos mornos, quando já não há em nós o fogo do Seu amor.
O problema do pecado foi plenamente resolvido por Cristo — o poder de Deus. Cristo crucificado: o poder de Deus e a sabedoria de Deus.
Toda vez que penso nisso, fico maravilhado por Deus ter concebido um plano assim. Somente a sabedoria de Deus poderia tê-lo feito: que Cristo crucificado fosse o meio pelo qual nosso pecado, nossa iniquidade, nossa transgressão e nosso afastamento de Deus fossem resolvidos.
Você e eu, por meio da morte do nosso Senhor Jesus — a crucificação do Messias —, fomos reconciliados com Deus. Isso é muito mais do que simplesmente voltar a nos falar. Significa que fomos feitos um com Ele. Há uma união que foi estabelecida e criada por meio da obra consumada do Senhor Jesus no Calvário.
Por meio do Espírito Santo, o Pai nos colocou no Messias, no Senhor Jesus. Ali temos união com Deus: união com o Pai, união com o Espírito Santo, no Messias Jesus. Que sabedoria!
Sabedoria, vocês sabem, não é conhecimento. Sabedoria tem tudo a ver com a maneira de lidar com os fatos. Conhecimento diz respeito aos fatos; sabedoria é saber lidar com eles. Deus não apenas nos disse que éramos pecadores, afastados Dele, separados Dele. Cristo crucificado é a sabedoria de Deus.
É a capacidade de Deus de cancelar nossos pecados, de tornar brancos como a neve os pecados que são como escarlate, de tomar nossos pecados e cancelá-los, apagá-los, afastá-los tanto quanto o Oriente está do Ocidente. É a sabedoria de Deus: Cristo crucificado.
Cristo crucificado não é apenas a sabedoria de Deus — a maneira de lidar com essa situação de pecado, iniquidade, transgressão e separação de Deus —; é também o poder de Deus. Cristo crucificado é a capacidade de Deus de tomar uma pessoa perdida no pecado e na perversidade, tão má quanto alguém pode ser, cancelar seu pecado, criar nela uma fé viva e uni-la ao Pai, em Cristo. Esse é o poder de Deus: Cristo crucificado.
Mas, se vocês me acompanharam até aqui, quero confundi-los. Não é apenas o pecado que constitui o problema deste mundo. É o eu. Vocês me ouviram?
Não é apenas o pecado. Você pode ter todos os seus pecados apagados, todos os seus pecados perdoados, lavados, mas ainda tem uma vida do eu. E essa vida do eu é um problema tão grande quanto o pecado.
Essa vida do eu tem uma agenda — sua própria agenda, voltada para seus próprios interesses e sua própria promoção. Essa vida do eu tem uma vontade e, em geral, essa vontade se opõe à vontade de Deus, está em desacordo com a vontade de Deus.
“Ah”, você diz, “que pessoa desagradável você é, falando assim do nosso eu. Nosso eu é belo. Nós somos belos. Deus nos ama”. Ele realmente nos ama. Mas essa vida do eu, confusa, orgulhosa, obstinada e voltada para a própria promoção, é um problema enorme.
Nosso irmão falou nesta manhã sobre Adão e Eva — ou talvez tenha sido ontem; não me lembro. Estou ficando velho e já não me lembro do que aconteceu há apenas uma hora. Mas creio que ele falou sobre Adão e Eva. Falou sobre a árvore do conhecimento do bem e do mal e sobre a árvore da vida.
Ele disse que ambas as árvores foram plantadas por Deus. Agora, ele não disse isto; sou eu quem está dizendo. Deus escolheu aquelas duas árvores para definir uma constituição humana: ou uma constituição centrada em Deus, consciente de Deus e dependente de Deus, representada pela árvore da vida; ou uma vida centrada em si mesma, consciente de si mesma e voltada para seus próprios interesses, representada pela árvore do conhecimento do bem e do mal.
Foi por isso que Satanás pecou. “Deus disse que, se vocês comerem dessa árvore, morrerão? Vocês não morrerão. Mas se tornarão como Deus. Vocês se tornarão semideuses, como Deus, iguais a Deus. Terão o centro em si mesmos.”
Agora, meus queridos, se vocês estão me acompanhando e não estão muito chocados com o que estou dizendo, a história deste mundo é a expressão dessa vida do eu que Adão e Eva escolheram. Ao comerem da árvore do conhecimento do bem e do mal, eles escolheram uma constituição centrada em si mesmos.
Todos nós, não importa quem sejamos, nascemos com uma constituição centrada em nós mesmos. Não conseguimos escapar disso. Quando somos bebês, agarramos as coisas que queremos. Fica bem claro, mesmo quando temos apenas alguns meses de idade, que somos tão voltados para nossos próprios interesses.
Toda a história deste mundo é a expressão dessa constituição que Adão e Eva escolheram. Todos nós nascemos com ela em nós.
O extraordinário é isto: quando o Senhor Jesus morreu, Ele morreu como o último Adão. Ele tomou essa constituição e a crucificou. Ela morreu com Ele na cruz. Ele é o segundo Homem — o Homem que o primeiro Adão e Eva deveriam ter sido, se tivessem escolhido comer da árvore da vida.
Essa constituição que você e eu temos se manifesta por toda a história: nos grandes déspotas da história, nos grandes ditadores da história, nos gênios da história, nos arquitetos de tantos edifícios incríveis. Tudo isso é a expressão da exaltação do eu, de algo que brota da nossa constituição caída.
A Liga das Nações foi a expressão perfeita dos interesses próprios, e a Organização das Nações Unidas é a reunião de diversas nações voltadas para seus próprios interesses e sua própria promoção. Está tudo ali. Toda ideologia que surgiu neste mundo teve essa constituição caída em seu centro, qualquer que tenha sido.
Vocês estão me acompanhando? Espero estar sendo claro.
Vejam, quando Deus criou o homem, fez dele um ser tripartido. Theodore Austin-Sparks sempre dizia: “Se você não compreender a natureza tripartida do ser humano, estará fadado a se desviar”.
Mas, quando Adão e Eva — ouçam-me com atenção — escolheram a árvore do conhecimento do bem e do mal, o espírito deles morreu. A alma deles se tornou a parte suprema do seu ser. A alma assumiu o lugar dominante.
Sempre explico que, quando nosso espírito está morto, ele é como uma lâmpada desligada da eletricidade. Está ali, mas está morta; está inanimada; não pode iluminar. Somente quando a lâmpada é encaixada no soquete a energia passa por ela; então ela ilumina.
Assim é com o espírito humano. Somente quando ele é vivificado para Deus, quando você nasce de Deus, é que, pela primeira vez, a luz divina brilha em seu espírito — trazendo toda a capacidade de começar a compreender as coisas de Deus, de compreender o coração e a mente de Deus, de ler, por assim dizer, o Senhor Jesus como o alfabeto de Deus.
Caso contrário, você fica apenas com sua alma. Toda a música, seja a bela música clássica ou a música da selva; a arquitetura, magnífica; a literatura, magnífica. Tudo isso vem da alma — a engenhosidade do homem caído, a criatividade do homem caído. Está tudo ali.
Creio que já falei o suficiente sobre esse problema. Cristo crucificado é tanto o poder de Deus quanto a sabedoria de Deus para responder a esse problema da vida do eu.
Quando o Senhor Jesus morreu, Ele fez algo. Tomou essa constituição, sua e minha, e a pregou na Sua cruz. Cristo crucificado — não apenas Cristo, mas Cristo crucificado — é o poder de Deus para que essa sua vida do eu seja entregue: a capacidade concedida por Deus de abrir mão da sua vida do eu.
Da palavra grega psuchē vêm palavras como “psicologia”, “psiquiatria” e tudo o que diz respeito ao psicológico. Essa é a palavra grega para alma. É muito mais fácil entendê-la simplesmente como nossa vida do eu: nossas emoções, nossa vontade, nosso raciocínio.
Quando não estamos vivos para Deus em nosso espírito, não há possibilidade de Deus governar nossa alma, governar nossas emoções, nossa vontade e nossa razão. Espero realmente estar fazendo sentido.
Cristo crucificado é a resposta de Deus não apenas ao pecado que é apagado. Você e eu fomos declarados justos, justificados diante de Deus Pai por meio da obra do Senhor Jesus na cruz. Mas ainda temos uma vida do eu.
Em alguns cristãos, essa vida do eu está desenfreada. Está muito viva, muito dominante. Ela é o problema. Deixem-me explicar: é “eu, eu e eu”. Simples — apenas “eu”. “Eu penso. Eu sinto. Eu sei. Eu quero.”
E há outra pessoa dizendo: “Eu penso, eu sinto”, e não é o que você sente ou pensa. “Eu, eu, eu.” Sabem, em inglês — perdoem-me por um momento, queridos irmãos da China, da Índia e de outros lugares —, a palavra “pecado” tem três letras: S-I-N. Entenderam? S-I — o “I”, que significa “eu”, no centro.
Eu estou no lugar dominante. O “eu” como o começo e o fim. Agora, é perfeitamente possível fazer nossa vida cristã literalmente começar com “eu” e terminar com “eu”.
Sua vida cristã será uma confusão completa se a sua vida do eu estiver no comando. Ela será governada por suas emoções, por sua vontade e por sua razão, sem levar o Senhor em conta. Ah, você cantará hinos sobre Ele. Cantará cânticos de adoração sobre Ele. Estudará a Sua Bíblia e as Suas palavras. Até orará em Seu nome quando estiver em dificuldades.
Para você, o Senhor é uma espécie de faxineira glorificada, que limpa toda a bagunça depois que você a faz, sempre disponível para limpar você e tornar sua vida um pouco mais confortável.
Não há outra resposta para a sua vida do eu além de Cristo crucificado — o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Deixe-me dizer: ela vai arruinar você. Se você não estiver disposto a realmente seguir o Senhor de todo o coração nessa questão, ela vai arruinar você.
Ela vai arruinar sua vida familiar, porque sua esposa dirá “eu”, você dirá “eu”, os filhos dirão “eu”, e todos vocês dirão “eu”. Que confusão.
Seus negócios serão arruinados. Você pode ser muito rico; pode até chegar ao topo. Havia um hino maravilhoso: “Guia-me, ó Tu, grande Senhor, peregrino por esta terra árida”. Um maravilhoso e antigo hino galês.
Quando Sankey publicou a primeira edição do seu hinário, descobriram um erro terrível naquele hino famoso. No original, está escrito: “Land me safe on Canaan’s side” — “Leva-me em segurança à margem de Canaã”. Mas uma única letra estava errada. Ficou: “Land my safe on Canaan’s side” — “Leva meu cofre à margem de Canaã”.
Há muitas pessoas que foram tão bem-sucedidas nos negócios e em suas carreiras e que adorariam levar seu cofre à margem de Canaã. Mas não há possibilidade alguma. Você entrou nu; sairá nu. Deixará suas joias, seu dinheiro, os títulos antes do seu nome, as siglas depois do seu nome — deixará tudo. Até suas roupas. Você deixará tudo.
Preciso dizer alguma coisa sobre a vida da igreja? Essa vida do eu é a destruidora da vida da igreja. Ela a arruína. Se você reunir um grupo inteiro de pessoas dizendo “eu, eu, eu, eu e eu”, o que vai fazer?
Haverá divisão, facções, ciúme, rivalidade, fofoca, maledicência. Tudo vem dessa origem simples.
Lembro-me de quando estive no Egito. Fui a um posto missionário onde trabalhavam três missionárias. Elas não falavam umas com as outras havia três anos. Moravam na mesma casa pequena. Tinham empregados muçulmanos, e todos sabiam que as três missionárias nunca falavam umas com as outras, nunca oravam juntas.
Era o “eu”. Vocês podem multiplicar isso mil vezes. Essa vida do eu arruína a obra do Senhor quando permanece como essa vida do eu caída.
Eu disse que todo ser humano nascido com essa velha constituição tem uma agenda. Agora, sempre pensamos que boa parte dessa agenda não é errada: querer se casar, querer ter filhos, querer progredir, querer um bom emprego, querer uma carreira. Mas temos uma agenda.
Muitas vezes, nosso entendimento do Senhor é que Ele está por trás da nossa agenda. Ele apoia nossa agenda. Ele nos ajuda a levá-la adiante. Isso não é o evangelho.
Deixem-me dizer de outra maneira: enquanto sua vontade não for totalmente entregue ao Senhor Jesus, você sempre estará em perigo.
Preguei há algum tempo — creio que já deve fazer dois anos — no Melbourne Hall, em Leicester, na Inglaterra. Foi fundado pelo Dr. F. B. Meyer. O lugar estava cheio, e falei sobre o tema que me haviam dado.
Depois que terminei, o pastor, que estava ali havia trinta e quatro anos, me disse: “Você percebeu que ficou exatamente no lugar do púlpito onde C. T. Studd falou na última vez em que pregou na Inglaterra?”
Ele estava a caminho da China com os Sete de Cambridge. Mais tarde, foi da China para a Índia, e da Índia para a África, para o Congo. Nunca voltou à Inglaterra.
Então o pastor me disse: “Sabe, quando ele estava na sala anexa à capela, o Dr. F. B. Meyer ficou tão tocado pelo que ele havia dito que lhe perguntou: ‘Diga-me, qual é o segredo da sua vida e do seu ministério?’”
C. T. Studd pensou por um momento e então disse: “Entreguei minha vontade inteiramente ao Senhor Jesus”.
Agora, C. T. pode ter tido muitos defeitos, mas havia uma coisa a seu respeito. Quando estava morrendo, disse a Norman Grubb, seu genro, que escreveu sua biografia: “Cometi muitos erros, causei muitos problemas a outros cristãos, mas uma coisa posso dizer: tudo o que o Senhor me disse para fazer, eu fiz”.
Esse foi o segredo de uma vida que produziu a maior comunidade de servos missionários do Senhor no mundo. Ele entregou sua vontade a Deus.
Meu entendimento — e sei disso pela minha própria vida, pela minha própria experiência — é que entregar a vontade é a coisa mais difícil do mundo. Porque sua agenda tem tudo a ver com sua vontade. Você tem uma vontade. Sente-se mais seguro no comando da sua vida, determinando o rumo da sua vida, do que se entregando a Alguém Que vai conduzi-lo.
Deixem-me ir além. No que estou tentando dizer, vejam, nessa preparação do caminho do Senhor, não há como preparar o caminho para a volta do Senhor se a sua vida do eu e a minha vida do eu permanecerem sem ser quebrantadas.
Você pode falar até não poder mais. Pode pregar, pregar e pregar, trabalhar até se acabar. Mas, se não estiver disposto a permitir que essa sua vida do eu seja tratada… Seus pecados já foram tratados, mas é a sua vida do eu que constitui o problema.
Deixem-me colocar assim: o evangelho não diz respeito apenas ao perdão dos pecados. Isso é tremendo — tremendo —, mas não é o evangelho inteiro.
O evangelho pleno é quando você permite que Cristo crucificado trate sua vida do eu, quando faz Dele o Senhor da sua vida, quando faz da vontade Dele e da agenda Dele a sua agenda. Então, e somente então, você está de posse de um evangelho pleno.
Nosso querido irmão Stephen falou, creio que nesta manhã, sobre a passagem que li — embora eu ache que a dele fosse de Mateus, mas não tenho certeza. Sei que ele falou sobre o Senhor dizer a Pedro:
Para trás de Mim, Satanás.
Acho muito interessante que o Senhor Jesus tenha olhado para os outros discípulos. Havia espanto no rosto deles? Havia um pouco de ciúme? Havia um pouco daquela atitude: “Lá está Pedro outra vez, se precipitando onde até os anjos temem pisar”?
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
Foi naquele momento que, pela primeira vez naqueles anos de Seu ministério, Jesus começou a revelar aos discípulos que iria morrer e, ao terceiro dia, ressuscitar, e que os líderes da nação seriam os responsáveis por isso.
Então Pedro, depois de fazer essa declaração e muito empolgado porque Jesus havia dito: “Meu Pai nos céus te revelou isso”, disse: “Nunca! Eu preferiria morrer a ver o Senhor passar por isso. Isso é absurdo”.
Então Jesus olhou nos olhos dele e disse:
Para trás de Mim, Satanás.
Agora, Stephen colocou isso de maneira muito mais gentil do que eu, porque disse que Jesus estava falando com Satanás. Ele estava falando com Satanás, mas estava falando com Satanás em Pedro.
Ah, alguns de vocês, cristãos, dizem: “Nunca. É impossível Satanás estar em mim. Nunca”. Mas, se você tem uma vida do eu não crucificada, se sua vontade nunca, jamais, foi entregue à vontade Dele, e sua agenda nunca foi transformada na agenda Dele, Satanás — o veneno de Satanás — está na sua vida do eu.
Ela vai arruinar sua vida cristã. Vai arruinar seu serviço a Deus. Vai arruinar a vida da igreja. Vai arruinar sua vida familiar. Vai arruinar, arruinar e arruinar. Não pode fazer outra coisa.
É por isso que Jesus usou essa expressão extraordinária:
Para trás de Mim, Satanás.
Já disse antes, em outros lugares aqui nos Estados Unidos, que, se eu olhasse nos seus olhos e dissesse: “Para trás de mim, Satanás”, acho que você iria correndo até Kenny, Jerry, John ou, sobretudo, até o irmão Stephen, e diria: “Nunca mais o convidem”.
Sabe o que Ele fez? Ele olhou diretamente para aquele homem. Não foi que olhou ao redor ou para além dele. Olhou nos olhos de Pedro e disse:
Para trás de Mim, Satanás.
Mas, quero dizer, isso é algo terrível para se dizer a um cristão, a um crente nascido do Espírito de Deus. Não se pode dizer coisas assim.
Agora, se Ele tivesse dito apenas: “Satanás está perturbando você, Pedro”, eu teria entendido. Teria sido bastante agradável. Que coisa bonita para se dizer, Senhor. Obrigado. Se Ele tivesse dito: “Pedro, você está tendo pensamentos negativos”, estaria tudo bem.
Mas chamá-lo de Satanás — isso é imperdoável. Entretanto, querido filho de Deus, há um veneno na vida do eu, e somente Cristo crucificado, o poder de Deus e a sabedoria de Deus, pode tratar disso.
Continuo dizendo: espero que vocês estejam me acompanhando. É por isso que considero essa passagem extraordinária. Ouçam. Ouçam.
Quando Jesus disse aquilo a respeito de Satanás, olhou para os outros discípulos; viu que estavam todos ali. Portanto, estava lhes ensinando algo. Então, depois de dizer aquilo, viu a multidão e fez sinal para que se aproximassem. A grande multidão se achegou.
Então Jesus disse:
Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a todo direito sobre si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Porque qualquer que perder a sua vida do eu por Minha causa e por causa do evangelho a encontrará.
E qualquer que procurar preservar a sua vida do eu a perderá.
“Vida do eu” — aí está novamente a palavra psuchē.
Em outras palavras, era o evangelho. Era como se Jesus estivesse dizendo: “Morrerei pelo pecado do mundo. Morrerei pela sua justificação. Mas, se você quiser conhecer o poder — Meu poder, o poder de Deus — em sua vida cristã, em sua vida familiar, em seus negócios, na vida da igreja, na obra de Deus, terá de Me deixar tratar disso”.
Ninguém pode seguir o Senhor sem abrir mão do direito sobre si mesmo. Isso está por toda a Bíblia. Não há como fugir. Está em toda parte.
Como posso morrer? Como posso morrer para o eu? Você não pode. Essa é a resposta simples: você não pode. Somente por meio de Cristo crucificado, o poder de Deus e a sabedoria de Deus, você pode morrer para o eu.
Deixem-me colocar isso, creio eu, de outra maneira. Viajo com muita frequência pelo mundo inteiro. Estou bastante velho agora; estou sentindo isso. Mas viajo pelo mundo inteiro e, em todos os lugares aonde fui, ao longo dos anos do meu ministério, os jovens me fizeram, repetidas vezes, uma pergunta: “Como posso viver a vida cristã?”
Parece que os jovens acham impossível viver a vida cristã como ela é apresentada no Novo Testamento. “Como posso fazer isso? Como posso viver?” Então algumas pessoas pensam: “Bem, pelo menos talvez o Espírito Santo venha sobre mim e me dê o poder para viver a vida cristã”.
Mas sempre digo a eles — e venho dizendo isso há uns quarenta, cinquenta, sessenta anos — que essa não é a pergunta a fazer. “Como posso viver?” A pergunta que vocês deveriam fazer é: “Como posso morrer?”
Quando você tiver o segredo de morrer com Cristo, sua vida cristã se desenvolverá por si mesma. É algo espontâneo, orgânico. A vida cristã não consiste em acrescentar alguma coisa, depois ir para uma escola bíblica e acrescentar um pouco mais de conhecimento, e então ir a outro lugar e adquirir um pouco mais de experiência.
A vida cristã é algo espontâneo. É a vida de Cristo em você. Mas aquilo que impede essa vida de Cristo em você é você mesmo — seu eu não crucificado, não quebrantado, sua vontade, suas agendas. Esse é o problema. Você pode começar no Espírito e terminar na carne.
O que, então, você pode fazer? A vida cristã florescerá, crescerá, dará fruto e alcançará sua plenitude quando você aprender a morrer.
Elizabeth Fishbacher me disse, anos atrás, quando perguntei como ela havia entrado naquela experiência com o Senhor: “Bem, na verdade”, disse ela, “foi por meio de Watchman Nee”. Ela disse que havia algo que ele falou e que ela nunca esqueceu: “Se você puder cair na terra e morrer, haverá fruto”.
Querido filho de Deus, essa questão é muito simples quando seus olhos foram abertos. Não é simples quando ainda não foram abertos. Quando os olhos do seu coração foram iluminados, quando a luz de Deus brilhou sobre os olhos do seu coração, é tão simples.
Quando Cristo morreu, você morreu com Ele. Quando Cristo ressuscitou dentre os mortos, você ressuscitou com Ele.
Deixem-me dizer de maneira ainda mais simples. Para mim, o jeito mais fácil é pegar minha Bíblia. Isso era algo que me inquietava quando eu estava em Londres. Eu disse a alguns deles: “Vejam, esta Bíblia é Cristo. Isto aqui é você. Deus colocou você em Cristo”.
Aonde quer que essa Bíblia vá, você vai. O pequeno marcador está dentro da Bíblia. Agora, a história do marcador é a história da Bíblia. Aonde quer que a Bíblia vá, o marcador vai com ela. Deus coloca você em Cristo. Quando Ele foi crucificado, você foi crucificado.
É por isso que o apóstolo Paulo pôde dizer em Gálatas 2:20:
Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim;
e a vida que agora vivo na carne, vivo na fé, a fé no Filho de Deus,
Que me amou e a Si mesmo Se entregou por mim.
Agora, vocês perceberam isso? Não se trata de uma santidade mórbida — sabem, aquele tipo de ensino em que você se veste de preto, fica com uma expressão infeliz, anda sempre curvado e tudo o mais: um peso. Não, ouçam:
Fui crucificado com Cristo; todavia, vivo; não mais eu, mas Cristo vive em mim.
E a vida que agora vivo, vivo pela fé do Filho de Deus, Que me amou.
Vivo, vivo, vida, vivo — tudo é vida. Cristo vive em mim.
Aquilo que bloqueava a vida cristã era o “eu”. Quando vemos que a velha vida do eu foi crucificada com Cristo, o caminho está aberto. Querido, querido filho de Deus, isso não é extraordinário?
Cristo crucificado: o poder de Deus e a sabedoria de Deus. Quem, senão Deus, poderia ter pensado numa maneira de tratar nossa vida do eu? Quem, senão Deus, poderia ter pensado no meio pelo qual recebemos a capacidade de morrer diariamente, de receber em nós mesmos a sentença de morte, para que não confiemos em nós mesmos, mas em Deus, Que ressuscita os mortos?
Querido filho de Deus, não há como nos prepararmos para a volta do Senhor a menos que permitamos que Ele cumpra plenamente Sua vontade em nossa vida.
Você responderá a Ele em seu coração? Vamos orar?
Senhor, todos nós temos um problema com essa vida do eu. Ela torna a levantar a cabeça, vez após vez. Mas Te agradecemos por Cristo crucificado — Teu poder, Tua sabedoria.
Da mesma maneira que Tu trataste nosso pecado, nossa iniquidade, nossa transgressão e nosso afastamento de Ti, trata agora esse problema da nossa vontade e das agendas que temos para nossa vida.
Senhor, toca-nos nesta noite. Que nunca mais sejamos os mesmos. Abre nossos olhos para vermos que, em Cristo, fomos crucificados e, Nele, nascemos do Espírito e fomos ressuscitados para a plenitude da vida.
Ouve nossa oração. Pedimos isso em nome do nosso Senhor Jesus.