Por favor, abram no Evangelho segundo Mateus, em Mateus 16:13-20. Vamos ler essa passagem. São palavras muito conhecidas.
E, chegando Jesus às regiões de Cesareia de Filipe, perguntou aos Seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens que Eu, o Filho do Homem, sou?” E eles disseram: “Uns dizem João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas.” Disse-lhes Ele: “E vós, quem dizeis que Eu sou?” E Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” E Jesus, respondendo, disse-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas: porque não foi carne e sangue que te revelou isso, mas Meu Pai, que está nos céus. E Eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu te darei as chaves do reino dos céus: e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.” Então ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem que Ele era o Cristo.
Vamos orar.
Amado Senhor, queremos agradecer-Te porque podemos nos reunir nesta noite em Teu precioso nome. Temos a certeza de que, onde dois ou três estão reunidos em Teu nome, Tu estás no meio deles.
Por isso, Senhor, valorizamos muito a Tua presença conosco. Queremos abrir nosso coração a Ti, Senhor, e pedimos que fales ao nosso coração por meio da Tua Palavra.
Senhor, Tu sabes o quanto precisamos de Ti. Tu és a nossa própria vida, e és Aquele que nos quer inteiramente para Si. Por isso, contamos com o Teu Espírito Santo para operar em nós e entre nós, a fim de que tudo o que tens para esta noite se cumpra para o louvor da Tua glória. Pedimos em Teu precioso nome. Amém.
Bem, é uma verdadeira alegria poder estar com vocês, queridos irmãos e irmãs, depois de tantos anos.
Enquanto eu esperava diante do Senhor, perguntando o que Ele queria que considerássemos diante Dele neste momento, um encargo ficou marcado em meu coração: o aspecto corporativo da vida cristã. Em outras palavras, gostaríamos de considerar juntos essa questão da igreja.
Primeiro, gostaria de fazer uma pergunta. Por que nosso Senhor Jesus veio a este mundo? Com que propósito? Por que Ele veio? Para realizar o quê?
Creio, irmãos e irmãs, que todos sabemos a resposta a essa pergunta simples. É claro: Ele mesmo disse que veio buscar e salvar o perdido. Graças a Deus, estávamos perdidos, mas Ele nos encontrou. Ele nos salvou. Ele nos deu Sua própria vida, e pertencemos a Ele. Graças a Deus, um dia iremos para o céu e estaremos com Ele.
Tudo isso é muito verdadeiro e muito precioso para nós. Mas, à medida que continuamos estudando a Palavra de Deus, descobrimos que Seu propósito ao vir é mais do que apenas nos salvar do inferno e nos levar para o céu.
Sua vinda tem este propósito: aos que chamou, também justificou; e aos que justificou, também glorificou. Em outras palavras, Ele quer nos transformar e nos conformar à Sua própria imagem, para que sejamos semelhantes a Ele — não apenas crendo Nele, mas sendo semelhantes a Ele.
Creio, irmãos e irmãs, que devemos concordar que foi por isso que nosso Senhor Jesus veio a este mundo. Mas, nesta noite, quero ir um pouco além.
Vocês acham que o Senhor Jesus nos salva apenas para encher o céu? Ou acham que o Senhor nos transforma e nos conforma à Sua própria imagem para que sejamos colunas, monumentos para Ele?
Ou vocês acham que Sua vinda tem um aspecto corporativo muito maior do que o aspecto individual e pessoal? Se é assim, então considero essa questão da igreja de grande importância.
Em outras palavras, não devemos buscar o Senhor apenas para nós mesmos, mas devemos buscá-Lo para que Seu propósito final ao nos salvar seja plenamente realizado.
Portanto, se Deus permitir, gostaria de usar este tempo em que estaremos juntos para considerar diante do Senhor justamente essa questão da igreja: o aspecto corporativo de nossa vida cristã.
Sabemos que nosso Senhor Jesus, aos trinta anos, iniciou Seu ministério público. No começo, vemos o povo judeu se aglomerando ao redor Dele porque, depois de quatrocentos anos de silêncio do alto, Deus começou a falar.
Muitos esperavam que Jesus fosse o Messias. Mas, aos poucos, descobriram que aquilo que interessava ao nosso Senhor Jesus não era o que lhes interessava. Na concepção deles, o Messias seria alguém que viria derrubar o domínio romano e fazer de Israel a primeira entre as nações. Esse era o Messias que esperavam.
Mas descobriram que nosso Senhor Jesus não estava interessado nisso. Então ficaram decepcionados. Começaram a rejeitá-Lo, e a Bíblia nos diz que Ele Se retirou para os limites da região de Cesareia de Filipe. Cesareia de Filipe era uma cidade gentia, de modo que nosso Senhor Se retirou para os seus limites.
Ali, nosso Senhor Jesus começou a fazer uma pergunta aos Seus discípulos:
Quem dizem os homens que Eu, o Filho do Homem, sou?
É claro, irmãos e irmãs, que Seus discípulos ouviam muitas coisas a respeito do nosso Senhor Jesus. Mas não contariam a Ele todas as coisas ruins que as pessoas estavam dizendo a Seu respeito; por isso, procuraram transmitir os comentários favoráveis.
Disseram: “Alguns dizem que Tu és Elias, porque a Bíblia profetizou que Elias virá restaurar a nação. Outros dizem que Tu és Jeremias, porque choraste. Outros ainda entendem que Tu és João Batista que voltou à vida. Alguns dizem que Tu és um dos profetas, ou o Profeta, como encontramos em Deuteronômio 18”.
Agora, se alguém chegasse até você e dissesse algo assim — “Você é como George Washington. Você é como Abraham Lincoln” —, como você se sentiria? Provavelmente seria muito humilde e diria: “Não, eu não estou à altura”.
Mas, curiosamente, nosso Senhor Jesus não Se limitou a humilhar-Se e dizer: “Não estou à altura”. Ele não ficou satisfeito. Considerou aqueles comentários muito aquém de Quem Ele realmente era.
Então Se voltou aos Seus discípulos, àqueles que haviam estado com Ele por mais de três anos, dia e noite, que O ouviam, O observavam e conviviam com Ele. O Senhor disse: “E vocês, quem dizem que Eu, o Filho do Homem, sou?”
Como de costume, Pedro, o porta-voz, disse:
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Tu és o Messias. Tu és o Ungido. Tu és Aquele que Deus enviou para uma missão. Esse é o Teu ofício. E Tu és o Filho de Deus. Essa é a Tua pessoa.
Nosso Senhor Jesus disse: “Simão Barjonas, deixe-Me dizer-lhe: isso não é algo que carne e sangue podem lhe dizer. É Meu Pai celestial que revela Seu Filho a você”.
Em outras palavras, saber que nosso Senhor Jesus é o Cristo, que Ele é o Filho de Deus, é uma revelação. Sem revelação, o máximo que você pode pensar a respeito Dele é que talvez seja Elias, Jeremias, João Batista ou o Profeta. Só isso.
É necessária uma revelação celestial para saber Quem Jesus realmente é. Queridos irmãos e irmãs, graças a Deus, estamos entre os bem-aventurados.
Mas isso não foi o fim. Nosso Senhor Jesus continuou a falar. Assim como o Pai revela o Filho, agora o Filho vai revelar algo que Ele realmente busca.
Somente então Ele realmente nos disse por que veio a este mundo e com que propósito. Ele disse: “Você é Pedro. Você é uma pequena pedra, uma pedra solta. Sobre esta rocha, esta rocha maciça, edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela”.
Irmãos e irmãs, essa é uma revelação tremenda. É tão importante quanto a revelação do Filho pelo Pai, e está fundamentada nessa revelação. O Filho pode revelar algo que Lhe é extremamente precioso e importante.
Portanto, Ele está nos dizendo por que veio ao mundo. Veio ao mundo para edificar algo. Ele quer edificar Sua igreja — Sua igreja como Seu próprio corpo, Sua igreja como Sua própria noiva. Foi por isso que Ele veio a este mundo.
Mas, infelizmente, hoje vemos entre o povo de Deus que estamos mais interessados em nós mesmos. “O que acontecerá comigo se eu crer no Senhor Jesus? Irei para o céu? Todos os meus pecados serão perdoados? Serei salvo?”
Ou, indo um pouco além, perguntamos se seremos transformados e conformados à imagem do nosso Senhor Jesus. Em outras palavras, estamos mais interessados em nós mesmos do que naquilo que interessa ao nosso Senhor Jesus.
É bem verdade que, a menos que primeiro recebamos a revelação que o Pai dá de Seu Filho, Seu Filho jamais poderá nos revelar por que veio a este mundo.
O Senhor Jesus disse: “Você é Pedro”. Antes, você era Simão; agora, é Pedro. Algo aconteceu. Antes, você era feito de pó, mas agora é uma pequena pedra. Um novo caráter, uma nova vida entrou em você. Você é uma pessoa transformada.
Agora, por ser uma pequena pedra, você tem utilidade para Mim. A razão pela qual faço de você uma pequena pedra é um propósito maior. Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja.
É claro que nenhum de nós aqui pensaria que Pedro é a rocha, o fundamento da igreja. Se Pedro fosse o fundamento da igreja, mais adiante vocês veriam como esse fundamento tremeu.
Nosso Senhor Jesus mesmo é a rocha, a rocha maciça. Ele é o fundamento. É a confissão de Pedro — “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” — que constitui o fundamento.
Agora, fundamento de quê? Você não lança um fundamento e para por aí. Vocês se lembram de que nosso Senhor Jesus certa vez usou uma parábola: se você lançar um fundamento e não terminar a construção, será motivo de zombaria. Seria melhor nem ter começado.
Portanto, irmãos e irmãs, aqui vemos que nosso Senhor Jesus veio a este mundo para ser a pedra fundamental. Mas aquilo que será edificado sobre esse fundamento precisa ter o mesmo caráter, a mesma natureza do fundamento.
Você não pode construir sobre uma rocha usando barro, como os homens estão sempre fazendo. Os materiais da construção precisam corresponder ao fundamento.
Assim, queridos irmãos e irmãs, quando nosso Senhor Jesus veio a este mundo para buscar e salvar o perdido, parece, ao lermos os quatro Evangelhos, que em todo lugar aonde Ele ia encontrava cegos, surdos, aleijados, leprosos, enfermos e mortos. Era só isso que encontrava.
O pecado nos reduziu a tal estado que Ele não podia nos usar como materiais para Sua edificação. É por isso que Ele precisa nos transformar. Precisa nos dar uma nova vida. Precisa nos dar Sua própria vida.
Somente com materiais da mesma natureza que Ele pode edificar Sua igreja. Assim, durante toda a Sua vida na terra, vemos que Ele ia de um lugar a outro, por toda parte, preparando materiais adequados para serem edificados sobre Ele mesmo. Era isso que estava fazendo.
Na verdade, a edificação propriamente dita só começou no Pentecostes. Depois de ressuscitar dentre os mortos, depois de aparecer aos Seus discípulos durante quarenta dias, depois de subir ao céu, ali Ele foi ungido por Seu Pai como o Cristo, o Senhor.
De Sua cabeça, o óleo da unção desceu sobre o corpo, e isso é o Pentecostes. Esse é o começo da igreja, o corpo de Cristo na terra.
O que é a igreja? Pergunto-me se algum de vocês já fez essa pergunta.
Fui criado em uma igreja metodista. Meu pai era pastor. Graças a Deus, venho de uma família muito piedosa. Meu pai amava o Senhor; ele conhecia o Senhor. Tínhamos culto doméstico todas as noites. Ele reunia os sete filhos na sala, lia uma Bíblia grande, pedia que todos nos ajoelhássemos e nos conduzia em oração.
Desde o jardim de infância, estudei em escolas missionárias. Eu frequentava a igreja. Naquela época, éramos obrigados — forçados — a ir à igreja. No domingo de manhã, todos os alunos marchavam para dentro da igreja para ouvir o sermão.
Ocupávamos um terço do prédio. Mas o que fazíamos? Ah, o filho do pastor e meus colegas, escondidos atrás do grande hinário, ficávamos lendo romances.
Éramos cegos. Estávamos mortos. Mas, graças a Deus, por Sua graça, Ele me salvou.
No entanto, essa questão da igreja nunca me passou pela cabeça. Eu achava que estava na igreja. Não apenas na igreja, mas que era ativo nela.
Sempre que havia alguma atividade de evangelização, nós, os jovens, estávamos na linha de frente. Ficávamos nas ruas, trazendo as pessoas para dentro do prédio da igreja para ouvir o evangelho. Organizávamos equipes evangelísticas, íamos às aldeias pregar o evangelho e orar pelos enfermos.
Lembro-me de que, certa vez, um homem teve meningite. Ele morreu, mas todos nós entramos em seu quarto, colocamos as mãos por todo o seu corpo e oramos por ele. Infelizmente, ele não ressuscitou.
Estávamos na igreja, éramos ativos na igreja. Mas, irmãos e irmãs, o que é essa igreja da qual nosso Senhor Jesus disse:
Edificarei a Minha igreja.
A igreja é aquele prédio na esquina da praça? Como costumamos dizer: “Vou à igreja”. O que você quer dizer com isso? Que vai a certo prédio chamado igreja?
Dizemos: “Deixei meu guarda-chuva na igreja”. Como você fez isso? Infelizmente, pensamos na igreja como um prédio, algo físico; ou pensamos nela como uma organização, uma organização religiosa.
Mas, ao ler a Palavra de Deus, você descobrirá que nosso Senhor Jesus não tinha em mente edificar esse tipo de igreja. Ele disse:
Edificarei a Minha igreja.
O que Ele quer dizer?
Sabemos que a própria palavra church, em inglês, não é a tradução exata da palavra grega. Na verdade, é uma tradução que nos transmitiu a ideia de uma organização.
No original grego, a palavra é ekklesia: aqueles que foram chamados para fora e reunidos. É isso que a palavra significa.
Aqueles que foram chamados para fora do mundo — não apenas chamados para serem indivíduos, mas chamados para fora e reunidos. Agora, como eles se reúnem?
Em Mateus 18:20, Ele disse:
Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.
Essa é a explicação mais simples do que é a igreja. Dois ou três é o mínimo. Uma pessoa não é a igreja. Um membro não pode ser o corpo. São necessários pelo menos dois ou três.
Onde dois ou três estão reunidos — se não se reúnem, estão dispersos. Esses dois ou três não constituem o corpo simplesmente por existirem. Precisam se reunir.
Quando se reúnem, precisam se reunir em nome do nosso Senhor Jesus. Caso contrário, será apenas algum tipo de associação. Vocês precisam se reunir em nome do Senhor Jesus.
É quase como um casamento. Quando uma mulher se casa, ela assume o nome do marido. Assim, aqui vemos dois ou três reunidos em nome do Senhor Jesus. Em outras palavras, eles assumem o nome do Senhor Jesus.
Não se reúnem em seu próprio nome. Não se reúnem em um nome qualquer. Reúnem-se em nome do Senhor Jesus; isto é, colocam-se sob o governo de Cristo como Cabeça. Deixam que Cristo seja sua Cabeça.
E o que acontece? O Senhor disse:
Aí estou Eu no meio deles.
Em outras palavras, haverá a presença do Senhor. Ele, em Seu Espírito, estará nessa assembleia. Essa é a realidade de ela ser Seu corpo.
É uma pena que eu só tenha percebido isso alguns anos depois de ter sido salvo. Então o Senhor começou a me desafiar quanto a essa questão da igreja: o que realmente é a igreja? De que ela é constituída?
“Você é Pedro. Você é uma pequena pedra.” Pedro entendeu isso muito bem. O mundo pode entender mal, mas Pedro sabia, porque escreveu em 1 Pedro que nosso Senhor Jesus é a pedra viva e que, ao nos achegarmos ao Senhor, nos tornamos pedras vivas.
Em outras palavras, tornamo-nos parte Dele, um fragmento Dele — da mesma qualidade, da mesma vida. E somos edificados juntos.
Portanto, irmãos e irmãs, o que é a igreja que nosso Senhor vai edificar? Que material Ele usará? Nada além Dele mesmo.
Ele edificará Sua igreja com Sua vida. Primeiro, deu Sua vida a nós. Depois, usará essa vida para edificar Sua igreja. Por isso, a igreja é chamada de igreja do Deus vivo.
Lembro-me de que, muitos anos atrás, quando estava na Inglaterra, visitei a Abadia de Westminster. Se vocês já estiveram na Abadia de Westminster, que impressão tiveram?
Você vê todas aquelas pedras muito antigas. Todos aqueles homens e mulheres famosos foram sepultados ali, e todas aquelas placas dizem quem foi cada um deles. Então, depois de visitar a Abadia de Westminster, saí com a sensação de que era a igreja dos mortos.
Não é assim hoje? Muitas vezes, aquilo que hoje chamamos de igreja nos dá a impressão de estar morto.
Vida — que tipo de vida? A vida Dele. Esse é o material para a edificação da igreja. Nada estranho a essa vida.
A igreja é o organismo mais abrangente, porque inclui todo o povo de Deus: todos os que nasceram de novo, todos os que pertencem ao Senhor, todos os que têm Sua vida. Eles nascem na igreja.
Se você quer ingressar em uma organização, precisa passar por certos procedimentos. Mas ninguém pode ingressar na igreja — só se pode nascer nela.
Não podemos obter a condição de membros da igreja dessa maneira. Lembro-me de que, na igreja metodista, quando tínhamos dezesseis anos, éramos recebidos como membros da Igreja Metodista. Mas você não pode ser recebido na igreja de Deus, a igreja viva, mediante qualquer outra qualificação.
Há apenas uma qualificação: você precisa nascer nela. Se nasceu do alto, está nela. Não é uma questão de ter um doutorado, um título de doutor em Divindade ou qualquer outro título. Você precisa ter a vida do alto, porque a igreja é edificada com o próprio Cristo.
Gostaria de contar essa história. Na década de 1960, tive o privilégio de participar, ano após ano, de uma conferência com o irmão T. Austin-Sparks e o irmão DeVern Fromke. Tínhamos uma conferência em Wabana.
Um dia, conversamos sobre a igreja, e eu ia explicar o assunto. Se algum de vocês conheceu o senhor Sparks, sabe que ele tinha a mente tão voltada às coisas celestiais que nunca tocava a terra. Ele achava que tudo o que tocasse a terra seria estragado.
Ele tinha uma visão tão clara dos princípios celestiais da igreja que não gostava de ver nenhuma fórmula aplicada a ela. Mas, naquela noite, eu queria usar uma fórmula; por isso, primeiro pedi desculpas a ele. Disse: “Nesta noite, quero usar uma fórmula. A razão é que desejo tornar isso muito claro”.
Então, aqui está minha fórmula. O que é a igreja? Suponhamos que houvesse apenas três verdadeiros crentes no mundo, e que esses três fossem os melhores que vocês pudessem imaginar. Quem seriam? Pedro, João e Tiago.
Suponhamos que houvesse apenas três crentes: Pedro, João e Tiago — aqueles três discípulos de Cristo aos quais nosso Senhor Jesus frequentemente concedia um privilégio especial, porque eram muito próximos Dele.
Então eu disse: aqui está a fórmula. Pedro mais João mais Tiago é igual à igreja. Sim ou não?
Não. O Cristo em Pedro mais o Cristo em João mais o Cristo em Tiago é igual à igreja. Certo ou errado?
Errado. E esse é o nosso problema. Por quê? Se for Cristo, você não terá problema algum na igreja. Mas, embora Cristo esteja ali, Pedro também está, João também está e Tiago também está — e eles criarão problemas.
E criaram, porque Pedro queria ser o primeiro, e João e Tiago se uniram para se sentarem à direita e à esquerda de Cristo. Problemas — grandes problemas. Isso não é a igreja.
Agora, o que é a igreja? O Cristo em Pedro menos Pedro, mais o Cristo em João menos João, mais o Cristo em Tiago menos Tiago, é igual à igreja. Louvado seja o Senhor!
A Bíblia diz isso. Onde encontramos? Em 1 Coríntios 12:12:
Porque o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, sendo muitos, são um só corpo; assim também é o Cristo.
É isso que a Bíblia de vocês diz? Será que citei errado? À primeira vista, vocês sempre diriam que está errado. O corpo é um, mas tem muitos membros; muitos membros, mas um só corpo. Bem, isso é a igreja, certo? Assim também é a igreja.
Agora, quem está certo: o raciocínio de vocês ou o Espírito Santo? O Espírito Santo diz:
O corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, sendo muitos, são um só corpo; assim também é o Cristo.
Por quê? Porque é o Cristo — nada além de Cristo. Na igreja, não há homem nem mulher. Na igreja, não há gregos nem judeus. Na igreja, não há escravos nem livres. Todas essas distinções humanas desaparecem.
Na igreja, há somente Cristo. É isso que a igreja é.
Por causa disso, vemos que há muito a ser feito na vida de cada um de nós. O problema da igreja hoje é que há gente demais e Cristo de menos. Cristo nunca causa problema algum. Somos nós que causamos o problema.
Ouvi falar de alguém que estava tentando encontrar uma igreja perfeita. Outra pessoa disse: “Bem, se você encontrar uma igreja perfeita e entrar nela, vai estragá-la”.
Então vocês veem como a igreja é pura, celestial e espiritual. Nosso conceito de igreja é terreno. Em nosso conceito, a igreja é constituída pelo homem — sem falar que, na chamada igreja, há tantos incrédulos.
Mesmo que sejam crentes, qual é a condição espiritual deles? Será que trazem a si mesmos para dentro da igreja — suas próprias ideias, seus próprios pensamentos, seus próprios caminhos? Se fazem isso, sim, estragam o testemunho da igreja.
Assim, vemos que a igreja é algo tão glorioso. Irmãos e irmãs, precisamos de uma revelação do alto sobre o que a igreja realmente é.
Caso contrário, deixamos de cooperar com nosso Senhor Jesus, porque Ele disse: “Essa é a igreja que estou edificando”. E disse:
As portas do Hades não prevalecerão contra ela.
Por que nosso Senhor Jesus quer edificar Sua igreja? Creio que podemos encontrar pelo menos duas razões principais.
Uma razão é que a igreja é o corpo de Cristo. Efésios 1:22-23 diz que Deus constituiu Cristo como Cabeça sobre todas as coisas para a igreja:
Que é o Seu corpo, a plenitude Daquele que cumpre tudo em todos.
Também, em 1 Pedro 2:9, somos um sacerdócio real, uma nação santa, um povo de propriedade exclusiva de Deus. Com que propósito?
Para que anuncieis as virtudes Daquele que vos chamou das trevas para a luz.
Portanto, irmãos e irmãs, o que é a igreja e para que ela existe? A igreja é o corpo de Cristo. É a plenitude Daquele que cumpre tudo em todos.
Em outras palavras, assim como nosso corpo é a plenitude da cabeça, a igreja é a plenitude de Cristo. É por meio do nosso corpo que expressamos as virtudes da nossa cabeça.
Assim, a igreja está aqui na terra para ser plenamente cheia de Cristo e expressar Cristo em Suas virtudes ao mundo. Ou podemos dizer de outra maneira: o testemunho de Jesus foi confiado à igreja. É por isso que a igreja existe.
Nos tempos do Antigo Testamento, Deus confiou Seu testemunho à nação de Israel. Eles deveriam anunciar o nome do Senhor, para que o mundo inteiro pudesse conhecê-Lo — conhecer Sua santidade e Sua justiça. Mas falharam.
Agora, nos tempos do Novo Testamento, nosso Senhor Jesus confia a Si mesmo, tal como foi revelado por Deus, à Sua igreja. Ele quer que Sua igreja seja Seu testemunho no mundo. Como o mundo conhecerá Jesus, a não ser por meio da igreja?
Este é o nosso ministério: ser luz em meio às trevas que nos cercam. Que pena quando, em vez disso, as trevas do mundo invadem a igreja, e a luz do candeeiro está se apagando.
Essa é uma razão. Outra razão pela qual nosso Senhor Jesus quer Sua igreja é que há uma batalha espiritual em andamento.
Desde que Deus criou o homem, essa batalha vem sendo travada. Coloquemos a questão desta maneira: por que Deus criou o homem?
Se vocês examinarem as Escrituras, descobrirão que Deus criou o homem segundo Sua própria imagem. Por quê? Entre todas as Suas criaturas, Ele nunca criou nada segundo Sua imagem — nem mesmo os anjos. Por que criou o homem segundo Sua imagem?
Deve haver uma razão por trás disso. Ele quer usar o homem para derrotar Seu inimigo.
Para Deus, derrotar Satanás é fácil, porque Satanás era um anjo criado. Quando Satanás se rebelou contra Deus, seria fácil para Deus aniquilá-lo — nenhum problema —, mas não haveria honra nisso.
Um homem grande que luta contra um menino pequeno e vence não recebe honra nem glória. Por isso, Ele criou o homem um pouco abaixo dos anjos e permitiu que essa criatura, inferior aos anjos, derrotasse Satanás. Isso, sim, é glória.
Essa é a missão que Deus deu ao homem. Mas o homem falhou. É por isso que Ele enviou nosso Senhor Jesus a este mundo para ser homem — como o Filho do Homem.
Creio que todos conhecemos Filipenses 2. Ele, que tinha a forma de Deus — isto é, todas as qualidades e o caráter de Deus —, era igual a Deus, o Filho de Deus, a imagem de Deus. Mas esvaziou-Se e veio a este mundo para assumir a forma de servo.
Em outras palavras, no íntimo do Seu ser, nosso Senhor Jesus, enquanto exteriormente era homem, era servo de Deus. É isso que o homem deveria ser. Ele negou a Si mesmo. Obedeceu ao Seu Pai até a morte, e morte de cruz.
Ali, como homem, Ele derrotou Satanás. E agora deu Sua vitória à Sua igreja e pediu que Sua igreja concluísse a tarefa.
Portanto, irmãos e irmãs, há uma tremenda batalha espiritual ao nosso redor. É uma batalha feroz.
Todas as portas do Hades estão abertas, tentando engolir a igreja, porque Satanás sabe que, se a igreja for vitoriosa e cumprir sua missão, será o fim dele.
Hoje, no que diz respeito à chamada igreja, ele está tirando uma soneca. Ela já não o incomoda; já está em suas mãos.
Mas, sempre que há uma manifestação real daquilo que uma igreja deveria ser, todo o inferno se levanta, porque ele sabe o que acontecerá.
Irmãos e irmãs, em Apocalipse 12, há uma visão: uma mulher em trabalho de parto e um dragão vermelho diante dela.
Ele não está ali para engolir a mulher, porque aquela mulher não poderia lhe causar dano algum. Mas há um filho varão dentro daquela mulher. Ele sabia que, quando esse filho varão nascesse, seria o seu fim.
E, de fato, quando o filho varão nasceu, foi arrebatado para o trono. Miguel e seus anjos lutaram contra o dragão e seus anjos e o expulsaram dos ares, para preparar os ares para a volta de Cristo.
Na terra haverá a grande tribulação e, finalmente, o fim dele. Portanto, irmãos e irmãs, há algo de tremenda importância a respeito da igreja.
Se a igreja falha em sua missão — e tem falhado —, graças a Deus, há um chamado para vencer. Aqueles que respondem a Cristo serão o filho varão.
Assim, queridos irmãos e irmãs, a razão pela qual sinto esse encargo de compartilhar com vocês a questão do aspecto corporativo de nossa vida cristã é que não somos apenas cristãos individuais.
Nossa atenção não deve estar voltada somente para nós mesmos, porque essa não é a intenção final de Deus. Ele quer uma igreja, um corpo, que O expresse, que seja fiel ao Seu testemunho e que seja Seu instrumento em Suas mãos para destruir todas as obras do inimigo e trazer todas as coisas aos pés do nosso Senhor Jesus.
Tremendo! Temos uma responsabilidade tremenda — um grande privilégio, mas também uma grande responsabilidade.
Por isso, quero apenas colocar isso diante de vocês, queridos irmãos e irmãs. Considerem. Meditem. Examinem as Escrituras a esse respeito.
Pela graça de Deus, quando tudo parece estar desmoronando, graças a Deus, Ele nunca falha. Ele terá Seus vencedores para completar Sua obra. Portanto, que o Senhor nos ajude.
Amado Senhor, queremos agradecer-Te por nos chamares com um chamado tão elevado. Reconhecemos que somos indignos, mas tudo está em Tuas mãos.
Tu és capaz de nos suprir com tudo de que precisamos para cumprir nossa missão. Por isso, nós nos rendemos e nos entregamos completamente a Ti. Tem, de fato, plena liberdade para agir em nós e usa-nos para o Teu propósito final.
A Ti seja a glória, Senhor, em Teu precioso nome.