Abram comigo suas Bíblias no Evangelho de Lucas, em Lucas 16:16.
A lei e os profetas vigoraram até João:
desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus,
e todo homem entra nele à força.
Abram também no Evangelho de Mateus, em Mateus 11:12.
E desde os dias de João Batista até agora, o reino dos céus sofre violência,
e os violentos o tomam à força.
Pai celestial, nós Te agradecemos porque, ao entrarmos em Tua presença nesta noite, depois de termos procurado adorar-Te, quando nos voltamos para a Tua Palavra, Tu colocaste à nossa disposição toda a energia e o poder, toda a graça e a sabedoria do nosso Senhor Jesus na pessoa do Espírito Santo.
E queremos nos valer dessa unção, tanto para o meu falar quanto para o nosso ouvir, para que, Senhor, este tempo não seja desperdiçado nem seja em vão; mas para que, Senhor, possamos nos encontrar Contigo e receber de Ti.
Assim, juntos, Senhor, pela fé, nos firmamos em toda a provisão que Tu fizeste para nós nesta noite. Vivifica este tempo com a Tua presença, com o Teu agir, com o Teu falar, Senhor. E Te daremos todo o louvor e toda a glória, em nome do nosso Messias, o Senhor Jesus. Amém.
Acho que todos vocês sabem que o tema deste encontro é Venha o Teu Reino. Minha responsabilidade dentro desse tema tem sido o evangelho do reino.
Já tivemos duas mensagens sobre esse assunto do evangelho do reino. Procurei introduzir o assunto na primeira mensagem e, na segunda, falamos sobre a graça de Deus como o fundamento desse reino.
Não se trata da nossa linhagem, das nossas qualificações naturais, do nosso conhecimento, do nosso zelo ou da nossa devoção; mas todo o tratamento de Deus conosco nesse reino, desde a nossa entrada até sermos conduzidos ao seu alvo e objetivo, acontece pela graça de Deus.
Agora, nesta noite, quero levar esse assunto um passo adiante. Quero começar com essa declaração tão estranha do Senhor Jesus sobre o reino de Deus sofrer violência e os violentos o tomarem à força.
Para muitas pessoas que pensam em Jesus como alguém gentil, manso e afável, essa deve parecer uma declaração muito estranha. Quase poderiam se perguntar se alguém a citou incorretamente ou a interpretou mal.
Mas aqui a encontramos não apenas no Evangelho de Mateus, mas também em Lucas. A maneira como Lucas a registra é que todo homem entra nele — isto é, no reino de Deus — à força.
Ora, acho isso muito interessante, porque existe uma ideia comum sobre o evangelho, e penso que equivocada, muito difundida nos meios cristãos, tanto evangélicos quanto carismáticos: a de que o evangelho é, na verdade, uma coisa muito simples. É apenas algo relacionado ao perdão de Deus e a uma espécie de conversão.
Mas, na realidade, o evangelho do reino é infinitamente mais. Quando olhamos para os Atos dos Apóstolos, encontramos algo muito interessante. Encontramos esta expressão repetidas vezes: “Paulo pregava o reino de Deus”, sempre pregando e ensinando o reino de Deus.
Descobrimos que essas boas-novas — o evangelho, as boas-novas do reino de Deus, do governo régio de Deus — são muito mais do que simplesmente ser perdoado. Isso é o começo.
Mas o fato é que esse evangelho, a presença desse reino de Deus, a pregação desse reino de Deus — a presença e a pregação do governo régio de Deus — sempre desafiam as pessoas.
Não há como o reino de Deus estar presente ou ser pregado sem desafiar homens e mulheres. Ele nos confronta. Confronta-nos com a realidade. Confronta-nos com a realidade eterna. Obriga-nos a tomar uma decisão.
Ora, esse é o evangelho do reino. Ele não diz respeito apenas à salvação, nem mesmo apenas à aceitação do governo régio de Deus, do governo régio do Senhor Jesus. É também uma questão de nós mesmos reinarmos: de sermos educados, treinados, disciplinados e conduzidos, pelo crescimento espiritual, ao lugar em que possamos executar a vontade de Deus, em que possamos chegar ao trono de Deus.
Essas são as boas-novas do reino de Deus. Portanto, esse assunto do evangelho do reino tem muito a ver com o caráter — um caráter duradouro, eterno, genuíno.
Tem muito a ver com experiência: uma experiência real e genuína de Deus. Tem muito a ver com crescimento — crescimento espiritual até a maturidade. Crescimento genuíno até a maturidade, não apenas crescimento na cabeça, no conhecimento acadêmico, numa espécie de teologia, mas crescimento no nosso próprio ser, tanto em experiência quanto em caráter.
Ora, isso me leva a considerar esse assunto de três maneiras, todas relacionadas entre si.
A primeira coisa que quero destacar nesta noite, nesse assunto das boas-novas do governo régio de Deus, é a violência necessária.
A violência necessária. É necessária violência se você e eu quisermos alcançar o alvo do reino de Deus. Se você e eu quisermos chegar à finalidade da lei, se você e eu quisermos vivenciar o verdadeiro significado do evangelho para nós, então é necessário que você e eu exerçamos violência.
Por favor, olhem para estas passagens das Escrituras. Em Lucas 16:16, o evangelho do reino de Deus é anunciado, e todo homem entra nele à força.
Não acho que isso signifique que o seu novo nascimento seja violento. O que creio que significa é o seguinte: você só pode entrar no governo régio de Deus de maneira vivencial.
Esse caráter próprio de quem reina só pode ser produzido em você e em mim — esse caráter que nos levará ao trono do Cordeiro, ao trono de Deus — se você e eu estivermos dispostos a ser violentos.
Ora, temos de ser violentos, não uns com os outros, como tantas vezes acontece nos meios cristãos, mas conosco mesmos. Essa palavra, violência, é interessante, porque a maioria de nós mima a si mesma. Envolvemo-nos em caxemira e seda. Cuidamos de nós mesmos com todo o esmero.
Aquilo que achamos que os outros deveriam enfrentar, a maneira como deveriam ser disciplinados, é algo bem diferente da maneira como cuidamos de nós mesmos. Mas todo homem só pode alcançar a finalidade do evangelho, o alvo do evangelho, se entrar nesse assunto com violência.
Vejam novamente Mateus 11:12:
O reino dos céus sofre violência,
e os violentos o tomam à força.
Ora, não há como fugir disso. Não é como se, de alguma maneira, essa palavra, violência, tivesse infelizmente entrado no relato e, na verdade, não devesse estar ali. Somos informados com toda a clareza: o reino dos céus sofre violência. Esse governo régio de Deus sofre violência, e os violentos o tomam à força.
Nenhuma quantidade de acrobacias teológicas nos permitirá escapar desse assunto. Aqui há uma violência necessária. Somente aqueles filhos de Deus, nascidos do Espírito de Deus, que estejam dispostos a ser homens e mulheres de violência podem tomar esse governo régio de Deus.
Ao que parece, ele precisa ser tomado à força. Por favor, escutem com atenção: ao que parece, não basta crer no reino.
Todo filho de Deus que conheço e que teve uma experiência real com o Senhor Jesus crê no reino. Mas são muito poucos os filhos de Deus que conheço que têm em seu caráter aquilo que os capacita a reinar.
Ora, por quê? Não é simplesmente uma questão de ficar sentado ali, apático, quase indiferente, sem se envolver, dizendo: “Eu creio nisso. Creio no reino vindouro. Venha o Teu reino. Ah, vai ser maravilhoso quando o Senhor vier, quando o Messias vier e o Seu reinado se estender até os confins da terra. Como será maravilhoso, como será esplêndido”.
Não é apenas uma questão de crer em algum reino. É uma questão de tomar algum tipo de atitude.
Parece-me, se sou honesto comigo mesmo — e tenho certeza de que acontece o mesmo com vocês —, que há uma profunda resistência ao governo régio de Deus. Embora sejamos salvos, embora tenhamos nascido do Espírito de Deus, embora creiamos na Palavra de Deus, ainda existe dentro de nós uma profunda resistência.
A menos que você e eu estejamos dispostos, espiritualmente, a usar de violência conosco mesmos, não há como avançar. Não há como você e eu entrarmos no governo régio de Deus. Não há como você e eu chegarmos ao trono de Deus. Não há como nos submetermos à disciplina de Deus, à educação de Deus, às tribulações e aflições que surgirão em nosso caminho na escola de Deus que nos prepara para reinar.
Temos de ser violentos conosco mesmos. O alvo do evangelho, o propósito de Deus para o Seu reino, jamais será alcançado sem essa violência da nossa parte.
Agora quero levá-los a algumas outras passagens das Escrituras, para que ninguém tenha desculpa nesse assunto. Quero levá-los a uma das cartas do apóstolo Paulo, a carta aos Filipenses, a um versículo razoavelmente conhecido: Filipenses 3:12.
Não que já tenha alcançado, ou que já seja perfeito:
mas prossigo, para ver se alcanço aquilo para o que fui também alcançado por Cristo Jesus.
Ora, acho essa expressão, “alcançar”, muito interessante. Imagino que a maioria de nós não pense nela da maneira como deveria pensar.
Na verdade, em grego, é uma palavra usada para o policial que prende um criminoso. É assim que ela é empregada. A antiga versão King James usava a palavra apprehend, “apreender”.
Quando você apreende alguém, isso não significa simplesmente conhecê-lo, como algumas pessoas imaginam. Apreendê-lo é quando uma mão é colocada no seu ombro e você é preso por um agente da lei. Você foi apreendido.
Ora, esse é um uso antigo do inglês. Infelizmente, é claro, aqui nos Estados Unidos, quando vocês se separaram da Inglaterra, também se separaram da língua inglesa.
Sempre me lembro de quando vim pela primeira vez aos Estados Unidos, muitos anos atrás, e vi uma pequena legenda no New York Times: “O inglês é a língua que separa os Estados Unidos do Reino Unido”.
Bem, aqui está: “Para que eu possa apreender aquilo para o que também fui apreendido por Cristo Jesus”. Vamos dizer de outra maneira: para que eu possa prender aquilo para o que também fui preso por Cristo Jesus. Vamos dizer de outra maneira: para que eu possa me apoderar daquilo para o que também Cristo Jesus Se apoderou de mim.
Agradeço a Deus porque, na minha pequena vida, o Senhor Jesus Se apoderou de mim com violência. Ele Se apoderou de mim quando eu não tinha ideia alguma a respeito Dele, do que Ele era, de Quem Ele era, de coisa alguma. Aos doze anos, eu nunca havia sequer lido as Escrituras. Nunca havia ido a uma sinagoga, a uma capela ou a uma igreja. Mas lembro-me daquele dia em que o Senhor Jesus Se apoderou de mim.
Quando Ele Se apoderou de mim pela primeira vez e eu vi o Senhor, não fazia ideia do que tudo aquilo significava. De alguma maneira, eu sabia que Ele estava vivo, que Ele era real, que Ele era o Messias e que Ele era o Salvador. Era tudo o que eu sabia.
Não fazia ideia de que, quando Ele Se apoderou de mim, foi com um propósito. Só anos depois comecei a descobrir que não era simplesmente para sermos cristãozinhos apagados, anêmicos, sem cor, sentados em fileiras nas reuniões, olhando uns para os outros, esperando até ficarmos desdentados e cegos, e nos perguntando se seríamos transportados para algum reino celestial onde faríamos parte de um coro eterno, para todo o sempre.
Esse tipo de evangelho que tem sido pregado, e que trouxe descrédito a todo esse assunto, é tão triste. É tão limitador. É tão destrutivo.
É absolutamente verdade: não há nada mais maravilhoso do que ser perdoado. Não há nada mais maravilhoso do que saber que os seus pecados foram cancelados, dissipados como uma nuvem espessa. Não há nada mais maravilhoso do que ser salvo, ser liberto do poder das trevas e transferido para o reino do Filho amado de Deus.
Mas, meu querido amigo, isso não é o fim da questão. Deus tem um propósito.
Será que, para alguns de nós, haverá arrependimento — tempo desperdiçado, oportunidades perdidas? Nunca nos apoderamos, com violência, daquilo para o que também fomos tomados. Fomos salvos, mas não havíamos alcançado o propósito final do Senhor.
Ora, meus queridos amigos, penso que esse é um assunto extraordinário. Quando leio o apóstolo Paulo, acho isso tão inacreditável. Esse que foi o maior de todos os nossos rabinos, esse homem que falou de si mesmo com tanta clareza nesse testemunho — o testemunho mais notável, penso eu, da Bíblia.
Esse homem disse que ser judeu tinha valor em todos os sentidos, mas, aqui nesse testemunho, ele disse:
Considero tudo como perda pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor.
Aqui está um homem que não está apenas pregando uma verdade; está manifestando essa verdade. Aqui está alguém que verdadeiramente exerceu violência consigo mesmo. Ele está se apoderando daquilo para o que também Cristo Jesus Se apoderou dele.
Meu querido amigo, penso que isso merece muita reflexão e meditação.
Não é apenas nessa passagem. Posso levá-los à primeira carta do apóstolo Paulo a seu filho Timóteo, em 1 Timóteo 6:12. Aqui lemos estas palavras:
Combate o bom combate da fé,
toma posse da vida eterna, para a qual foste chamado.
Ora, observem. Não se trata apenas de seguir sem esforço. Não se trata apenas de ser levado adiante. Não se trata apenas de ficar à deriva numa espécie de relaxamento espiritual, numa corrente passiva do Espírito de Deus, sendo simplesmente carregado, passivamente, pelo poder de Deus.
Aqui está a palavra do apóstolo, no final de uma de suas últimas cartas a seu amado filho na fé, Timóteo:
Combate o bom combate da fé.
Toma posse da vida eterna, para a qual foste chamado.
Em outras palavras, o que o apóstolo está dizendo é isto: “Você, meu filho Timóteo, corre o risco de perder tudo, exceto a sua salvação, se não combater o bom combate da fé, se não tomar posse dessa vida eterna para a qual foi chamado”.
Às vezes me pergunto se muitos de nós não experimentamos a vida de ressurreição, a vida eterna, a vida de Deus no Senhor Jesus, porque não tomamos posse dela.
Parece que pensamos que recebemos a vida eterna e que isso é tudo o que importa. Mas temos de tomar posse dela. Temos de nos firmar nela pela fé. Temos de combater o bom combate da fé.
Muitos cristãos, como já mencionamos, estão travando outro tipo de combate. Muitas vezes é um combate uns com os outros. Por onde passo, na obra cristã e nas comunidades, encontro pessoas brigando umas com as outras. Ah, isso não é um bom combate; é combater o mau combate.
Este é um combate de fé. Combata o bom combate.
Não se trata de algo que aparece uma única vez. Se vocês olharem no mesmo capítulo, em 1 Timóteo 6:19, encontramos exatamente a mesma coisa de novo:
Entesourando para si mesmos um bom fundamento para o futuro,
para que possam tomar posse da vida que verdadeiramente é vida.
Tomar posse da vida que verdadeiramente é vida.
Voltem agora a outra referência, na primeira carta de Paulo aos Coríntios, em 1 Coríntios 9:26-27.
Pois eu assim corro, não como sem rumo;
assim combato, não como batendo no ar:
antes, esmurro o meu corpo e o reduzo à servidão:
para que, depois de ter pregado a outros,
eu mesmo não venha a ser rejeitado.
Ele, é claro, não está falando da salvação. Está falando de uma herança. Está falando de reinar. Está falando do trono.
Ele está dizendo aqui, nessa pequena e extraordinária janela para o seu coração: “Não corro sem rumo. Tenho plena clareza quanto ao alvo. Não luto boxe” — essa é a palavra em grego — “não golpeio o ar. Faço isso de tal maneira que estou ferindo o meu corpo. Estou realmente disciplinando o meu corpo”.
É a mesma coisa, não é? Todo esse assunto da violência.
Se vocês forem aos Evangelhos, tudo isso está condensado numa pequena declaração que sempre me intrigou. Lembram-se de quando Jesus disse que era impossível um rico entrar no reino de Deus? Então Ele usou uma ilustração extraordinária.
Ele disse que empurrar um camelo pelo fundo de uma agulha é tão impossível quanto um rico entrar no reino de Deus.
Sempre acho os camelos criaturas extraordinárias. Tenho um carinho especial pelos camelos. Sempre me lembro de um irmão que me disse: “Um camelo é um cavalo montado por uma comissão”. Não concordo. Acho o camelo uma das criaturas mais notáveis do mundo. Quando as pessoas me dizem que essa criatura evoluiu, simplesmente não consigo acreditar. Só consigo acreditar que Alguém com um imenso senso de humor criou o camelo.
Aqui está o Senhor Jesus falando de um camelo — não o camelo bactriano da China e da Ásia Central, com duas corcovas, mas aquele grande dromedário, o camelo de uma só corcova. Conseguem imaginar tentar empurrar esse camelo pelo fundo de uma agulha?
Algumas pessoas dizem que esse fundo de agulha era uma pequena porta numa das entradas de Jerusalém, usada para fazer os camelos entrarem quando chegavam tarde, mas que precisavam tirar toda a carga do camelo para que ele pudesse passar. Podem descartar isso. Nenhum comerciante judeu deixaria suas mercadorias do lado de fora da muralha da cidade. Podem esquecer isso completamente. É um absurdo total.
Como se ele fosse levar o camelo para dentro e deixar as mercadorias do lado de fora! Que tolice a sua. Depois de transportá-las por centenas de quilômetros, agora ele as deixaria do lado de fora, onde estão os salteadores e ladrões.
O fato é que você pega uma pequena agulha, olha para o fundo da agulha e olha para um camelo com aquele rosto maravilhoso. Não conseguiria fazer passar nem o focinho de um camelo pelo fundo de uma agulha.
Conseguem imaginar todo o humor do Senhor? Conseguem imaginar as pessoas pegando um camelo, empurrando, empurrando e empurrando, tentando de alguma maneira fazê-lo passar pelo fundo daquela agulha? É impossível.
Então o Senhor fez a conclusão atingir em cheio: um rico não pode entrar no reino de Deus, ou no governo régio de Deus, assim como um camelo não pode passar pelo fundo de uma agulha.
Ora, imediatamente pensamos: “Ah, sabemos do que o Senhor está falando. Está falando de riquezas”, porque isso vem logo depois da história do jovem rico. Jesus disse:
Uma só coisa te falta: vai, vende tudo o que tens e vem, segue-Me.
E ele se retirou entristecido.
Mas Pedro e os outros apóstolos compreenderam algo muito além da questão de um homem literalmente rico, porque Pedro disse — e, ao que parece, os outros concordaram com ele —: “Então, Senhor, quem pode ser salvo?”
Pedro não era rico. Já estive em Cafarnaum, junto ao lago da Galileia, ao lado da pequena casa de Pedro. Eles a descobriram alguns anos atrás. Aquela casinha era, literalmente, do tamanho daqui até aqueles degraus. Foi a primeira igreja doméstica da Galileia. Foi ali que Jesus Se hospedou, num quartinho minúsculo. Pedro não era rico.
É possível que Mateus, Levi, fosse rico, porque era cobrador de impostos. A maioria deles tinha bastante dinheiro, porque recebiam subornos por fora e enriqueciam muito. João vinha de uma família muito boa, mas Pedro e André eram muito pobres.
Aqui está Pedro dizendo: “E quem pode ser salvo?” Ele havia compreendido alguma coisa. Não era apenas uma questão de riqueza. Ao que parece, tratava-se de autossuficiência: qualquer confiança em si mesmo, seja no seu intelecto, na sua engenhosidade, nos seus recursos, na sua personalidade, na sua origem, na sua linhagem, nos seus bens ou na sua posição profissional.
Não importa o que seja. Se você confia nessas coisas, é impossível entrar no reino de Deus.
Agora vocês entendem o que isso significa? O reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam à força. Há algo dentro de nós que resiste a esse tipo de coisa.
“Por que eu deveria abrir mão do meu intelecto? Por que deveria abrir mão da minha engenhosidade? Por que deveria abrir mão dos meus recursos naturais? Por que deveria abrir mão da minha linhagem? Por que deveria abrir mão da minha posição profissional? Por que deveria abrir mão do meu dinheiro, se é nisso que confio?”
Isso exige violência.
Ora, isso me leva à segunda coisa que quero dizer. Quero falar, já que esse assunto diz respeito ao evangelho do reino, sobre o custo inevitável.
Isso complementa tudo o que disse ontem de manhã sobre a graça de Deus. O Senhor Jesus fez tudo o que era necessário para você entrar no reino de Deus, e esse fundamento da Sua obra consumada e da Sua graça permanece para sempre.
Não há como entrar no reino de Deus, não há como progredir no reino de Deus, não há como chegar ao trono de Deus, a não ser pela graça do Senhor Jesus.
Mas, meus queridos amigos, seria inteiramente desonesto da minha parte deixar vocês com a ideia de que o evangelho não tem um custo. Essa é a nota que falta na pregação moderna do evangelho.
Sempre que o Senhor Jesus pregava esse evangelho, onde quer que o pregasse, embora curasse os enfermos, ressuscitasse os mortos e purificasse o leproso, Ele confrontava homens e mulheres com o custo inevitável do reino de Deus.
Você pode ser salvo, mas, meu querido amigo, escute-me: você pode ser salvo, pode nascer do Espírito de Deus, mas não dará nem um ou dois passos nesse reino se não estiver preparado para o custo.
O Senhor Jesus falou sobre segui-Lo. De alguma maneira, nesse tipo moderno de pregação do evangelho, parece que tudo se resume a um mundo melhor. Você vem ao Senhor Jesus e será levado rapidamente, quase catapultado por alguma grande força. Não terá de fazer nada. Não terá de pagar nada. Simplesmente será levado diretamente até o trono de Deus.
Meus queridos amigos, isso não é verdade, pois o Senhor Jesus disse:
Se alguém quiser vir após Mim,
negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz
e siga-Me.
Isso não era alguma experiência de luxo, reservada a uma elite com uma fé especial. Esse era o Seu evangelho. Tudo isso dizia respeito à graça de Deus, a única que pode nos salvar, a única que pode cancelar os nossos pecados, a única que pode nos conduzir à condição de justificados aos olhos de Deus.
Mas, se você e eu quisermos chegar ao alvo desse evangelho, ao propósito final do Senhor no reino de Deus, então você e eu temos um preço a pagar.
Qual é esse custo? Sugiro que seja você. É a sua vida do eu, a minha vida do eu.
Se essa sua vida do eu, essa minha vida do eu, permanecer intocada, não quebrantada, não disciplinada, não crucificada, ela será a nossa ruína. Nunca poderemos chegar ao trono de Deus a menos que essa vida do eu seja tratada.
Vejamos algumas passagens das Escrituras. Olhem para Marcos 8:34-35.
E, chamando a Si a multidão com os Seus discípulos, disse-lhes:
Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Pois qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
e qualquer que perder a sua vida por amor de Mim e do evangelho salvá-la-á.
Ora, o Senhor Jesus usou essa palavra: vida do eu, vida da alma, se preferirem — como quiserem expressar. A psique, essa vida. Se eu me apegar a ela, eu a perco. Se eu a perder, eu a encontro.
Esse é o custo inevitável envolvido no evangelho do reino.
Vejam novamente Mateus 16:24-25.
Então disse Jesus aos Seus discípulos:
Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Pois qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á:
e qualquer que perder a sua vida por amor de Mim achá-la-á.
Vejam Mateus 10:38-39.
E quem não toma a sua cruz e não segue após Mim não é digno de Mim.
Quem achar a sua vida perdê-la-á;
e quem perder a sua vida por amor de Mim achá-la-á.
Vejam também, se ainda não estão convencidos, João 12:24-26.
Em verdade, em verdade vos digo:
se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só;
mas, se morrer, dá muito fruto.
Quem ama a sua vida perde-a;
e quem odeia a sua vida neste mundo guardá-la-á para a vida eterna.
Se alguém Me serve, siga-Me;
e onde Eu estou, ali estará também o Meu servo:
se alguém Me servir, o Pai o honrará.
Aqui encontramos, no evangelho do reino que o Senhor Jesus pregava — observem que Marcos nos diz que não se tratava apenas de um círculo íntimo de discípulos muito especiais, de elite, superiores, mas que Ele reuniu toda a multidão —, algo como se o Senhor Jesus estivesse dizendo: “Este é o evangelho do reino”.
Se você e eu quisermos não apenas entrar no reino, ver o reino, mas chegar ao trono de Deus, então você e eu teremos de enfrentar a cruz.
Não é muito popular, nestes dias em que toda a nossa geração fala de direitos, compreender que o custo inevitável de seguir o Senhor Jesus significa o sacrifício voluntário dos seus direitos.
Negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz
e siga-Me.
Vocês precisam compreender que temos a vantagem de olhar para trás. Sabemos que Jesus morreu na cruz, então olhamos para essas palavras Dele à luz do que aconteceu na cruz. Mas conseguem imaginar aqueles discípulos?
Era uma cena muito comum em Jerusalém ver os condenados à morte pelas autoridades romanas carregando a trave da cruz, com a sentença pendurada no pescoço. Ou, se fossem um pouco mais ricos, um servo ia à frente deles carregando-a.
Mas qualquer pessoa que carregasse uma trave de cruz já estava condenada à morte. Tinha em si a sentença de morte. Não tinha mais direitos. Estava a caminho da execução.
Jesus toma esse quadro e diz: “Resolva isso no seu coração. Se você vai compreender o evangelho do reino, as boas-novas do governo régio de Deus, se você mesmo vai chegar a reinar, se vai chegar à glória como um dos Seus filhos, se vai chegar ao Seu trono e sentar-se com Ele em Seu trono, então precisa resolver essa questão dos direitos”.
É isso que significa negar a si mesmo. Não significa toda aquela piedade religiosa pesada, que se resume a vestir roupas escuras e parecer mórbido e infeliz, cantar hinos lentos como uma marcha fúnebre e manter a cabeça permanentemente abaixada, com os olhos no chão.
Isso é religião. Isso é religião. Isso não é a cruz do nosso Senhor Jesus.
A cruz do nosso Senhor Jesus é o caminho pelo qual Ele nos conduz à vida — vida, e mais vida, e ainda mais vida. O Senhor Jesus nunca falou da Sua crucificação sem, no mesmo fôlego, falar da Sua ressurreição. Nunca falou de perder a sua vida sem falar de encontrar a sua vida. Nunca falou de descer sem dizer que Deus o levantaria no fim.
Meu querido amigo, aqui está o custo inevitável do evangelho do reino.
Quero sugerir a vocês que o nosso problema é muito simples: não conseguimos confiar. Vejam, quando o Senhor me diz: “Ora, você tem uma vida do eu muito vibrante. Tem uma vida do eu que ama. Tenho observado, desde o dia em que você nasceu, que a ama muito”.
“Você cuidou dela. Você a cultivou. Tornou-a tão instruída e sofisticada quanto pôde. Você a ama. Ela é a sua queridinha.”
“Agora quero lhe dizer que, se você se apegar a essa sua vida do eu, que tanto ama, vai perdê-la. Mas, se a perder por amor de Mim e do evangelho, vai encontrá-la.”
Então digo a mim mesmo: “Por quanto tempo, Senhor?” Vejam, se eu pudesse colocá-la no altar e simplesmente pegá-la de volta — colocá-la e tirá-la rapidamente, retomá-la num instante —, estaria tudo bem, Senhor. Terminaria num instante, como uma dessas novas consultas odontológicas, sabem — tão rápidas.
Mas, meu querido amigo, depois que você abrir mão dessa sua vida, não há como saber por quanto tempo o Senhor a deixará lá embaixo. Entende?
Então vem o pensamento: talvez, se eu abrir mão da minha vida por amor Dele e do evangelho, Ele Se esqueça de mim. Esqueça-Se completamente de mim. Vá cuidar das grandes pessoas, como Watchman Nee e as pessoas realmente grandes que deixaram sua marca. Ele pensará nelas, mas de mim — talvez Se esqueça em meio aos assuntos do reino.
Então penso: é melhor eu me apegar a ela. Melhor, como dizemos num antigo ditado inglês, “o diabo que você conhece do que aquele que não conhece”.
Apego-me a essa minha vida porque ela está segura comigo. Eu estou no controle dela. Sei exatamente — conheço todos os seus defeitos e falhas —, mas, se me apegar a ela, tudo ficará bem.
Meus queridos amigos, se vocês se apegarem à sua vida, vão perdê-la. Ela se transforma em cinzas nas suas mãos. Aquela vida que você pensava que seria tão interessante, tão vibrante, deteriora-se, corrompe-se e, no fim, leva você quase ao ponto de pensar em suicídio. Mesmo sendo crente, você está tão desesperado com a sua própria vida do eu.
Não é de admirar que você e eu precisemos exercer violência. Não há outro caminho.
Mas não é só isso. Você não pode exercer violência se não tiver fé. Precisa realmente confiar no Senhor: confiar que Ele quer o melhor para você e que fará o melhor por você.
Já destaquei isso a alguns de vocês antes, mas é preciso destacar novamente que essas palavras do nosso Senhor Jesus em Marcos 8 e Mateus 16 foram precedidas por um acontecimento notável.
Nos dois casos, Jesus começou a lhes dizer que subiria a Jerusalém, seria rejeitado pelos principais sacerdotes, seria crucificado e, ao terceiro dia, ressuscitaria.
E Pedro, querido Pedro — Pedro leva toda a culpa por ser impulsivo e impetuoso, mas, na verdade, as Escrituras nos dizem que todos os outros disseram a mesma coisa. Mas ninguém pensa nisso. O pobre Pedro era uma daquelas pessoas que sempre abriam a boca e falavam pelos demais; então os demais ficavam quietos e podiam todos desaparecer. Pedro ficava ali, sempre em apuros.
Pedro diz: “Senhor, nunca! Não estamos esperando um Messias que será crucificado, executado num patíbulo romano. Nunca! Não permitiremos isso. Eu mesmo ficarei ali, Senhor. Não permitirei que ninguém ponha a mão em Ti”.
São sentimentos muito ternos, sentimentos fiéis, sentimentos leais, e provocaram uma resposta aparentemente descabida do Senhor Jesus:
Vai para trás de Mim, Satanás:
tu és para Mim pedra de tropeço:
porque não cogitas das coisas de Deus,
mas das coisas dos homens.
Ora, meu querido filho de Deus, se você viesse a mim com um problema assim a respeito da sua vida do eu e dissesse: “Não, não vou fazer isso. Nunca seguirei esse caminho. Isso não é o evangelho. Esse não é o evangelho para mim. Meu evangelho é só alegria e paz, plenitude e satisfação. Não gosto disso de que você está falando”, e eu lhe dissesse: “Vai para trás de mim, Satanás”, você procuraria os presbíteros e diria: “Acho que essa foi a coisa mais terrível que qualquer pregador visitante em Richmond já disse”.
Uma coisa é eu dizer: “Acho que você está tendo pensamentos negativos”, ou: “Acho que esse modo de pensar está errado”. Isso é bastante agradável. Ou mesmo se eu dissesse: “Agora, tenha cuidado. Acho que Satanás está manipulando a sua mente”, até isso seria mais ameno.
Mas olhar diretamente nos seus olhos e dizer: “Vai para trás de mim, Satanás” — isso é a coisa mais terrível. Aqui estava um filho de Deus. Esse filho de Deus, apenas alguns momentos antes, havia dito:
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
E Jesus lhe havia dito:
Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas:
porque não foi carne e sangue que to revelou,
mas Meu Pai, Que está nos céus.
Ele havia recebido revelação. Era dedicado ao Senhor Jesus. Havia seguido o Senhor Jesus. Havia abandonado tudo para estar com o Senhor Jesus. E agora Jesus lhe disse, olhando nos seus olhos: “Vai para trás de Mim, Satanás”.
Querido filho de Deus, se você e eu tivermos uma vida do eu não crucificada, ela será o parque de diversões de Satanás. Não importa quão nobre seja, não importa quão culta seja, não importa quão bela seja, não importa quão instruída seja: ela é o parque de diversões de Satanás.
Não há como você e eu chegarmos ao trono de Deus com essa vida do eu não quebrantada. Satanás cuidará disso. Ele nos deixará avançar até certo ponto e então explorará nossas circunstâncias, explorará nossas emoções, explorará nossos sentimentos, até nos destruir.
É por isso que Jesus disse:
Não cogitas das coisas de Deus, mas das coisas dos homens.
Na versão de Mateus, está expresso assim:
Tu és para Mim pedra de tropeço.
Ah, meus queridos amigos, quantos servos de Deus conheço — oro a Deus para não estar entre eles — que são pedras de tropeço para o próprio ministério, pedras de tropeço para a realização do próprio ministério e da obra que Deus lhes deu para fazer.
Conheço-os em todo o mundo: pessoas que têm desejado ardentemente ver algo acontecer, pessoas que anseiam por ver Deus agir e que são, elas mesmas, quase sem perceber, a pedra de tropeço para tudo o que Deus quer fazer.
A causa é a vida do eu não quebrantada.
Vocês me permitem continuar um pouco mais nesse assunto? Lembro-me de quando o Senhor Se encontrou com Moisés e ia enviá-lo a Faraó. Ele disse a Moisés: “Que é isso na tua mão?” E Moisés disse: “Uma vara”.
Ora, o que era aquela vara? Aqueles de vocês que conhecem a Bíblia se lembrarão daquele maravilhoso salmo escrito na juventude do rei Davi, quando ele era apenas um rapaz:
A Tua vara e o Teu cajado,
eles me consolam.
Moisés havia sido pastor durante quarenta anos. Muitas vezes, perto de onde moro, vemos o pastor com a sua vara.
Era como se o Senhor dissesse: “O que é isso?” E Moisés dissesse: “É o emblema do meu trabalho, Senhor. É a minha vara. Eu não poderia fazer nada sem esta vara”.
Na verdade, Deus usaria essa vara durante toda a vida de Moisés. Foi a vara que ele levantou sobre o mar Vermelho quando este se abriu. Foi a vara que ele apontou para a rocha quando dela saiu água. Essa vara — Deus a usou.
Era um emblema, e então Deus disse: “Jogue-a no chão. Deponha-a. Abra mão dela”.
Moisés a jogou no chão e, num instante, aquele pedaço inanimado de madeira se tornou uma víbora — uma víbora do Sinai, em hebraico. Essa é a mais venenosa das serpentes da areia.
Moisés, que havia vivido quarenta anos no deserto, sem contar os quarenta anos anteriores no Egito, fugiu dela no momento em que a viu. Você não joga uma serpente no chão sem que ela fique um pouco irritada, especialmente uma víbora da areia ou uma víbora de chifres.
Lá está Moisés, correndo. O Senhor diz: “Moisés, volte”.
Moisés se virou. “Agora, Moisés, pegue-a pela cauda.”
Compartilho do horror de vocês por serpentes. Mas uma coisa que você nunca faz é pegar uma serpente venenosa pela cauda. Qualquer pessoa que tenha vivido no deserto durante quarenta anos sabe disso. Simplesmente não se faz isso. Se fizer, ela se voltará e o picará.
Que coisa extraordinária o Senhor disse a Moisés. Jogue essa vara no chão. Ela se tornou uma serpente. Posso imaginar Moisés dizendo: “Meu Deus, tive essa coisa ao lado da minha cama durante os últimos quarenta anos. Já a coloquei dentro da minha roupa, às vezes quando fazia frio. Fiz todo tipo de coisa com ela. Não fazia ideia de que era uma serpente venenosa”.
E agora o Senhor disse: “Pegue-a pela cauda”. Posso imaginar Moisés dizendo: “Senhor, Tu estás falando sério?” E o Senhor disse: “Pegue-a pela cauda”.
Moisés era um homem, e um homem de fibra. Sei que era o mais manso de todos os homens da terra, mas as pessoas imaginam que isso significa que ele era fraco. Ele, porém, foi um herói da campanha da Líbia, um herói da campanha da Etiópia, condecorado por Faraó. Era um homem de fibra.
Posso imaginar que, por dentro, se entendo alguma coisa disso, ele tremia. Mas, por fora, avançou e pegou a cauda. Instantaneamente, ela se tornou uma vara outra vez.
Essa foi a vara pela qual todas as pragas do Egito vieram e o mar Vermelho se abriu.
Agora, meu querido amigo, você começa a compreender alguma coisa? Aquele que perde a sua vida do eu a encontrará, e aquele que se apega a ela, ou procura preservá-la, a perderá. Esse veneno matará você se você se apegar a ela.
A única maneira de você e eu chegarmos ao trono de Deus é depor a vida do eu. Esse é o custo inevitável.
Não sei por quê, mas tantas vezes, nos meios cristãos, especialmente nos últimos anos, tem havido quase uma dicotomia entre a obra da cruz e a obra do Espírito Santo, como se essas duas obras estivessem em oposição.
Como se uma experiência do Espírito Santo fosse só poder, só plenitude, só dons, só alegria, só êxtase; e a cruz fosse só aflição, só peso, só quebrantamento e só escuridão. Mas, meu querido amigo, não é assim.
Leio as palavras em Mateus 3 e as acho muito interessantes. João Batista descreveu o coração do ministério do Senhor Jesus como batizar no Espírito Santo, assim como descreveu o coração do seu próprio ministério como o batismo em água para arrependimento.
Eu, na verdade, vos batizo em água para arrependimento:
mas Aquele Que vem após mim é mais poderoso do que eu,
Cujas sandálias não sou digno de levar:
Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo.
Pergunto-me por que isso é tão frequentemente esquecido:
Ele vos batizará no Espírito Santo e em fogo.
Agora, vamos entender claramente o que ele quer dizer:
A Sua pá está em Sua mão,
e Ele limpará completamente a Sua eira;
e recolherá o Seu trigo no celeiro,
mas queimará a palha com fogo inextinguível.
Conseguem entender isso claramente? Esse grão tem uma casca e um miolo. É o mesmo grão. Tem uma casca e um miolo. O miolo é o que tem valor. A palha é o refugo.
Quando o Espírito Santo faz a Sua obra em nós, Deus fica com o grão e Satanás fica com a palha. Ele a queima.
Por que não compreendemos isso na obra do Espírito Santo, como se a cruz pudesse operar à parte do Espírito Santo? Posso colocar assim? A obra da cruz é uma obra. O Espírito Santo é uma Pessoa.
É o Espírito Santo Quem toma a obra da cruz como fogo e queima tudo o que não é de Deus — a palha — e reúne tudo o que é do Senhor para ser preservado e guardado para sempre.
Agora, querido filho de Deus, se você começar a compreender isso, compreenderá o custo inevitável.
Creio firmemente na experiência do Espírito Santo. Há aqueles que experimentam o Espírito Santo já no novo nascimento, e agradeço a Deus por isso. Eu mesmo estou convencido de que a expressão batismo no Espírito abrange toda a obra do Espírito Santo: tanto a Sua habitação quanto a Sua unção, a Sua habitação e a Sua capacitação, se preferirem.
Mas o fato é que, nestes dias de superficialidade, nestes dias de decisões sem profundidade, nestes dias em que se prega um evangelho que soa mais como uma campanha eleitoral para a presidência do que como um chamado ao arrependimento, são muito poucas as pessoas que compreendem alguma coisa sobre o Espírito Santo quando são salvas.
Assim como não compreendíamos a cruz quando fomos salvos, precisamos, pelo bendito ministério do Espírito Santo, chegar a essa compreensão passo a passo.
Lembro-me muito bem de quando compreendi pela primeira vez que, quando Cristo foi crucificado, eu havia sido crucificado. Que revelação foi aquela. E lembro-me da primeira vez em que compreendi que o Espírito Santo estava em mim e sobre mim.
Uma das maiores alegrias da minha pequena vida tem sido conhecer o Espírito Santo como Pessoa.
Estremeço quando ouço as pessoas se referirem a Ele como “isso”, da mesma maneira que acho tão difícil quando se fala de Jesus como uma mercadoria — um “isso”, uma vida, um alimento. É claro que Jesus é vida. É claro que Jesus é alimento. Mas Ele é uma Pessoa: uma Pessoa a conhecer, uma Pessoa a descobrir, uma Pessoa a experimentar, uma Pessoa com Quem caminhar.
Aqui, então, está o custo inevitável do evangelho do reino. Não há como seguir o Senhor Jesus sem a cruz. Não há como conhecer a obra do Espírito Santo e permanecer seguro se não estivermos preparados para o custo.
Por fim, quero falar de algo que tenho muito receio até de abordar. Vou lhes dizer por que tenho receio: porque nosso irmão Watchman Nee certa vez falou sobre isso de uma maneira que não tenho como superar.
Mas parece-me que não se pode falar sobre o evangelho do reino sem abordar aquele acontecimento extraordinário em que aquela querida senhora trouxe a coisa mais preciosa da sua casa, da sua família, quebrou-a e O ungiu.
Na antiguidade, em todo lar judeu, as pessoas pensavam muito sobre a morte. Na tradição judaica, a morte é sempre uma inimiga, nunca uma amiga. Devo dizer que é assim que eu a vejo.
Essa senhora, pelo que consigo perceber, não era rica. Mas tinha algo que era vendido naqueles dias: um vaso de alabastro. Temos alguns deles hoje no Museu de Israel e no Museu Rockefeller, em Jerusalém.
Tinham mais ou menos esta largura e uma tampa de pedra de alabastro, selada com algum tipo de cola. Você comprava isso para guardar até que um parente morresse, ou até que você morresse. Então era quebrado e utilizado.
As pessoas pobres não tinham dinheiro para, de repente, quando alguém morresse, sair e comprar uma libra inteira de nardo líquido. Então o compravam num dia favorável, quando tinham um pouco de dinheiro; ou, às vezes, o marido o trazia para casa como presente. Às vezes, um parente que recebia um dinheiro inesperado o comprava e o dava à irmã ou ao irmão para ser guardado em casa.
Isso era sempre guardado. Até mesmo o vaso de alabastro era muito, muito valioso, especialmente num lar pobre.
Em Mateus 26 e Marcos 14, encontramos o relato de uma história extraordinária. Havia todo tipo de gente entrando e saindo, conversando com o Senhor Jesus, e bastante atividade acontecendo. De repente, essa senhora apareceu com o seu vaso de alabastro.
Não sei como ela o quebrou. Teria sido cuidadosa; não queria que caíssem fragmentos dentro dele. Mas provavelmente o bateu em alguma coisa, talvez no chão de pedra, e então derramou rapidamente o conteúdo numa tigela.
Enquanto Jesus ainda falava, ela começou a ungir Sua cabeça e Seus pés. E os discípulos ficaram horrorizados.
Judas, em particular, foi o mais horrorizado de todos. Ele disse: “Isso é terrível. Terrível, Senhor, impede esta mulher. Tu percebes o que ela fez? Pegou o salário de um ano inteiro e o desperdiçou nesse ato estúpido”.
É claro que disseram: “Poderíamos ter usado isso na evangelização e também em favor dos pobres”.
E Jesus disse:
Os pobres sempre os tendes convosco;
mas a Mim nem sempre Me tendes.
Esta mulher fez uma boa obra para Comigo.
Ela Me ungiu para o Meu sepultamento.
Agora, meu querido amigo, você entendeu? Dentre todos os onze apóstolos, dentre todos aqueles discípulos, essa querida mulher, quase insignificante — segundo Mateus e Marcos, nem sequer sabemos o seu nome —, foi a única que compreendeu que Jesus estava indo para a cruz.
Ela queria fazer alguma coisa. Vocês não percebem? Ela queria fazer algo que fosse a expressão máxima de adoração. Queria expressar uma identificação com Ele, uma união com Ele, uma compreensão compartilhada com Ele — se preferirem, queria colocar-se ao lado Dele.
Queria participar, de alguma pequena maneira, da Sua tristeza e estar com Ele.
Os demais estavam sentados à mesa. Estavam satisfeitos. Não faziam ideia de que Jesus estava prestes a morrer. Discutiam pequenos detalhes teológicos. Não tenho dúvida, se conheço alguma coisa sobre os crentes, de que falavam sobre este pequeno ponto e aquele: “O que Ele quis dizer com isso? O que Ele quis dizer? Acho que quis dizer isto”. “Não, não acho.” “O que Moisés disse? O que Jeremias disse? O que Ezequiel disse?”
Assim, a discussão ia e vinha. Eles estavam totalmente alheios à sombra da cruz. Mas essa pequena senhora, pelo Espírito de Deus, compreendeu.
Vocês precisam compreender a nossa cultura. Na cultura judaica, as mulheres têm muita liberdade. Não é como em algumas outras culturas, nas quais as mulheres são restringidas. As mulheres têm uma posição muito notável dentro da família.
Mas não podem se impor e entrar quando os homens estão presentes. Começam a entender? Ela não podia simplesmente entrar e dizer: “Senhor Jesus, gostaria de falar Contigo. Compreendo para onde estás indo. Quero que saibas que estou Contigo”.
Ela não podia fazer isso. E assim surgiu uma ideia em seu coração: “Enquanto todos estiverem conversando, pegarei meu vaso de alabastro, vou trazê-lo e quebrá-lo. Eles não compreenderão, mas Ele compreenderá”.
Esse é o caráter que chega ao trono. Esse é o tipo de pessoa que o Espírito de Deus tratou e tornou sensível.
O Espírito lhes deu uma compreensão que os outros nunca têm. A cabeça deles pode estar cheia de teologia. A cabeça deles pode estar cheia das Escrituras. A cabeça deles pode estar cheia de todas as atividades tão necessárias na vida da igreja e na obra de Deus. Mas essa mulher — ela tinha um coração que compreendia.
Digo que essa é a adoração sacrificial que precisa ser a finalidade do evangelho.
Penso no apóstolo Paulo, naquela palavra maravilhosa:
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus,
que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo,
santo e agradável a Deus,
que é a vossa adoração espiritual.
Aqui estava essa querida irmã, essa querida senhora. Nunca havia frequentado um seminário. Provavelmente nunca havia frequentado uma escola. No entanto, compreendia mais do que os onze apóstolos juntos.
Se nenhum deles se colocou ao lado Dele na hora da Sua necessidade, ela se colocou. Esse é o tipo de pessoa com quem o Senhor quer compartilhar o Seu trono.
Agora, preciso dizer: eu não sou assim. Imagino que muitos de vocês precisem dizer de si mesmos: “Ah, quisera Deus que eu pudesse ser assim — que o Espírito do Senhor pudesse me tratar dessa maneira, me tratar assim na minha vida cotidiana, me educar, me disciplinar, me treinar, me conduzir ao lugar em que eu abra mão dos meus direitos”.
“Para que eu possa expressar comunhão com o Senhor num momento de tremenda necessidade de Cristo.”
Tenho sentido muito receio de abordar isso, porque não acho que alguém pudesse expressá-lo com mais clareza, mais poder e mais beleza do que Watchman Nee quando falou sobre desperdício.
Meu querido amigo, muitos cristãos são, por natureza, burocratas. Há neles uma precisão. Sabem exatamente quanto tempo dar a Deus e quanto tempo não dar.
Podem ser tão precisos. Meu querido amigo, a devoção é sempre extravagante.
Você nunca pode adorar o Senhor de maneira calculada, de maneira burocrática. A verdadeira adoração é o derramamento do coração.
Há nela uma extravagância que ninguém, a não ser o próprio Senhor, pode compreender.
Então aqui está o evangelho do reino. Sabem o que o Senhor Jesus disse a respeito dessa pequena senhora?
Onde quer que este evangelho seja pregado em todo o mundo,
também o que esta mulher fez será contado em memória dela.
É como se o Senhor estivesse dizendo: “Não quero apenas pessoas salvas. Nem sequer quero apenas pessoas espiritualmente instruídas. Quero pessoas que estejam apaixonadas por Mim”.
E, querido filho de Deus, seja você homem ou mulher, isso expõe você e expõe a mim.
Aqui, então, está o evangelho do reino.
Senhor, queremos Te agradecer pela obra salvadora que fizeste em nossas vidas, ao nos conduzir a uma experiência real da Tua graça e do Teu poder.
Mas, Senhor, perdoa-nos porque tantas vezes hesitamos quando se trata do custo. Às vezes não sabemos, Senhor, como tomar posse dessa Tua graça para nos capacitar a seguir até o fim do caminho.
Às vezes não sabemos, Senhor, como tomar posse dessa graça e desse poder que colocaste à nossa disposição, para que, Senhor, possamos abrir mão de todo direito sobre nós mesmos, tomar a cruz e seguir-Te.
Ajuda-nos, Senhor, pelo Teu Espírito Santo, nesta noite. Ministra a cada um dos nossos corações, para que cada um de nós neste lugar, nesta noite, seja capacitado a dizer: “Senhor, eu Te seguirei, não importa o custo, não importa o caminho. Eu Te seguirei. Confio em Ti”.
E, Senhor, quando pensamos nessa senhora e em como ela trouxe aquele vaso de alabastro cheio daquele precioso nardo líquido, Senhor, há muitos de nós que têm vasos de alabastro assim, escondidos em algum lugar de nossas vidas, e nunca estivemos dispostos a quebrá-los.
Quase temos medo, Senhor, da extravagância. Quase temos medo, Senhor, de devoção demais, como se, de alguma maneira, fôssemos nos tornar fanáticos, estranhos ou perder o controle.
Senhor, pelo Teu Espírito, opera em todos os nossos corações e faz de nós pessoas que adorem em espírito e em verdade, que possam apresentar seus corpos como sacrifício vivo, inteiramente agradável a Ti.