Por favor, abram comigo em algumas passagens do Evangelho de Lucas.
Primeiramente, Lucas 4:42-43:
E, sendo já dia, saiu e foi para um lugar deserto; e as multidões O procuravam e foram até Ele, e queriam detê-Lo, para que não Se ausentasse delas.
Ele, porém, lhes disse: É necessário que Eu anuncie também às outras cidades as boas-novas do reino de Deus; porque para isso fui enviado.
Lucas 8:1:
E aconteceu, pouco depois, que Ele andava de cidade em cidade e de aldeia em aldeia, pregando e anunciando as boas-novas do reino de Deus; e os doze iam com Ele.
Não é uma expressão interessante: “pregando e anunciando o evangelho do reino de Deus”?
Depois, Lucas 16:16:
A lei e os profetas duraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem se esforça por entrar nele.
Pai, ao nos voltarmos para Ti nesta manhã, queremos, Senhor, à luz da Tua Palavra e do ministério da Tua Palavra, confessar nossa absoluta necessidade de Ti, tanto para falar quanto para ouvir.
Senhor, não temos outro argumento, nem outro fundamento. Não temos outra justiça senão o Senhor Jesus. NEle nos achegamos a Ti, Pai, nesta manhã, e, pela fé, nos firmamos em todo esse glorioso poder capacitador e nessa graça que Tu nos disponibilizaste por meio da obra consumada de nosso Senhor Jesus.
Abre a Tua Palavra para nós, para que não seja apenas uma palavra de verdade para a mente, mas, Senhor, para que seja aquela palavra de vida depositada em nosso ser. Senhor, nós nos entregamos a Ti quanto a esta questão tão importante do reino de Deus. Pedimos isso em nome de nosso Messias, o Senhor Jesus. Amém.
Creio que todos vocês sabem que o tema deste encontro é: “Venha o Teu reino”. Creio que também sabem que minha responsabilidade dentro desse maravilhoso tema é o evangelho do reino — aquelas boas-novas do reino de Deus que o próprio Jesus pregou e que, em Si mesmo, Jesus trouxe.
Esse é o meu tema, e estou muito consciente da minha incapacidade diante dele. Mas o que quero abordar nesta manhã, pelo Seu poder capacitador, é isto: as boas-novas do reino de Deus são inteiramente fruto da Sua graça.
Do princípio ao fim, tudo é graça de Deus.
Seu fundamento é a graça de Deus. Sua pedra de remate é a graça de Deus. Nossa entrada nesse reino se dá pela graça de Deus. Alcançarmos o objetivo desse reino se dá pela graça de Deus. Cada desenvolvimento dentro dele, cada passo dado pela fé, cada nova descoberta do Senhor Jesus e cada nova experiência do Seu poder e da Sua plenitude se dão pela graça de Deus.
Esse é o evangelho do reino.
Não faço ideia de por que, nos círculos cristãos, parecem ter reduzido essa palavra, evangelho, a algo muito introdutório — algo que quase poderíamos chamar de jardim de infância. Chamam-no de “um evangelho simples”. A Escritura não fala de nada disso.
Ele é descrito repetidas vezes como o evangelho do reino de Deus. Devo dizer que creio ser essa a nota que falta em nossa pregação do evangelho.
Tomamos simplesmente os fatos do evangelho: Jesus nasceu, Jesus morreu, Jesus conquistou a salvação, Jesus oferece perdão — o que, naturalmente, é extraordinário. Mas a igreja primitiva proclamava, antes de tudo, a realeza de Deus. Com base na soberania absoluta de Deus, declaravam a verdade acerca do Filho de Deus e, então, exigiam, ordenavam o arrependimento.
Isso, parece-me, é algo muito, muito maior do que boa parte da pregação do evangelho à qual estamos acostumados hoje.
Sei que, quando digo que esse evangelho tem tudo a ver com a graça de Deus, algumas pessoas quase imediatamente deixam de prestar atenção. Dirão: “Ora, isso não tem a ver com as coisas profundas de Deus. Isso tudo é jardim de infância. Vai ser tudo muito básico, então é melhor eu tirar uma soneca”.
Se quiserem dormir, por favor, sintam-se à vontade.
Mas, no meu entendimento, toda essa questão da graça de Deus é absolutamente fundamental. É fundamental não apenas para nossa entrada no reino de Deus, mas para cada etapa do seu desenvolvimento — para tudo o que diz respeito ao reino de Deus tocando esta terra, entrando em nossa vida, entrando em nossas circunstâncias, chegando, por meio da igreja, às comunidades e localidades, afetando uma nação e afetando nações.
Tudo tem a ver com a graça de Deus: a graça soberana de Deus.
O irmão Stephen já mencionou que Nicodemos, um dos grandes rabinos de sua época, teve um encontro com o Senhor Jesus à noite. Vocês se lembram daquelas palavras maravilhosas em João 3:3-7:
Jesus respondeu e disse-lhe: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus.
Disse-Lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?
Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus.
O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.
Não te maravilhes de Eu te ter dito: Necessário vos é nascer de novo.
Esse segundo nascimento é algo que está além da capacidade do homem caído em si mesmo. O maior cientista não pode produzir um segundo nascimento. Os maiores doutores em medicina não podem produzir um segundo nascimento. Os maiores doutores em teologia — e temos muitos deles — não podem produzir um segundo nascimento.
Somente a graça de Deus pode levar um homem ou uma mulher a um segundo nascimento.
Somente a abundante graça de Deus pode levar um homem ou uma mulher — seja quem for, qualquer que seja sua origem, qualquer que seja seu contexto cultural, qualquer que seja sua linhagem ou a falta dela — ao reino de Deus.
Quando começamos a enxergar isso, começamos a entender por que, nessa mesma conversa com Nicodemos, Jesus prosseguiu dizendo:
E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado;
Para que todo aquele que crê tenha nEle a vida eterna.
Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o Seu Filho unigênito, para que todo aquele que nEle crê não pereça, mas tenha a vida eterna.
As boas-novas do reino são que somente Deus realizou o impossível. Essas são as boas-novas do reino.
Deixem-me tentar explicar o que quero dizer. Isso realmente é uma boa notícia. O que é impossível ao homem caído — o que é impossível ao melhor dos homens caídos, aos mais instruídos e aos mais religiosos dentre eles; o que é impossível ao homem caído, seja ele mau ou bom, ignóbil ou nobre — Deus tornou possível por meio da Sua graça.
O homem caído, o homem nascido de Adão, por mais inteligente, por mais engenhoso, por mais instruído, por mais talentoso, por mais religioso que seja, está impedido de entrar no reino de Deus.
Vocês se lembram de quando o homem caiu, bem no início do relato da história do mundo? Deus colocou querubins junto à árvore da vida, com uma espada flamejante, para que o homem não entrasse no reino de Deus e recebesse a vida eterna de Deus em seu estado caído. É uma imagem de algo tremendo.
Em outras palavras, Deus impôs um veto ao homem caído. Vocês podem ter sua Liga das Nações e suas Nações Unidas. Elas podem falar de milênios dourados e utopias. Podem buscar, com esta ideologia ou aquele ideal, esta filosofia ou aquela filosofia, este sistema político ou aquele sistema político, trazer paz à terra, unidade, prosperidade, amor.
Cada uma dessas grandes tentativas termina em corrupção, perversidade, escravidão e maldade.
Deus impôs um veto a Adão e a todos os que estão em Adão. Estamos impedidos de entrar nesse reino. As portas desse reino estão fechadas.
Algumas das passagens das Escrituras sobre esse assunto quase nos fazem estremecer. Abram em 1 Coríntios 15:50:
E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção.
Vocês ouviram isso? Normalmente ouvimos essa passagem em todo culto fúnebre, e ela entra por um ouvido e sai pelo outro. Ouçam novamente:
A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção.
É preciso nascer do Espírito. Somente aquilo que é nascido do Espírito pode herdar o reino de Deus. Somente aquilo que é declarado justo pelo próprio Deus, com base na obra consumada do Senhor Jesus, pode entrar no reino de Deus.
Ora, essa é uma expressão muito abrangente. Paulo não está dizendo, como algumas pessoas influenciadas por ideias helenísticas tendem a pensar: “A carne é sempre má. A carne é ruim. Se ao menos pudéssemos nos livrar da carne, se ao menos pudéssemos nos despedir do corpo, se de alguma forma pudéssemos deixar de lado o que é físico, então seríamos puros”.
O próprio Satanás não tem carne. Ninguém pensa nisso.
Como se, ao nos livrarmos do corpo e do que é físico, nos tornássemos puros. Essa é uma ideia helenística. É uma daquelas coisas inacreditáveis que se infiltraram em toda a teologia da igreja e influenciaram a todos, de modo que, de uma forma ou de outra, ficamos com essa ideia de que a carne é má.
Mas, meu querido amigo, essa carne e esse sangue podem ser tão bons, tão nobres, tão religiosos, tão dedicados, tão zelosos. Podem conhecer a Bíblia de Gênesis a Apocalipse, mas não podem herdar o reino de Deus.
Isso só é possível quando nascemos do Espírito. Significa que, quando nascemos do Espírito, perdemos nossa carne? É claro que não. Talvez ela precise ser crucificada; talvez Deus precise fazer isso. Mas, no fim, todo o nosso espírito, alma e corpo serão preservados íntegros até a vinda do Senhor Jesus.
Isso não se refere apenas à carne e ao sangue de um Hitler, de um Stalin, de um Mao Tsé-tung, ou a tudo o que é sombrio, ignóbil e vil. Isso inclui Shakespeare. Inclui Goethe. Inclui Schiller. Inclui todos os grandes poetas, pintores e compositores, com todas as suas magníficas contribuições à humanidade.
Essa é a carne e o sangue que não podem herdar o reino de Deus — não porque Deus não goste da criatividade que há em nós, nem porque Ele não goste da genialidade que colocou dentro de nós, mas porque há um veneno no homem caído que nunca permite que se confie nele, nem agora, nem na era vindoura.
Há um veto divino a esse tipo de homem, porque ele nunca é confiável.
Naturalmente, a maioria das pessoas entende passagens como 1 Coríntios 6:9-10:
Não sabeis que os injustos não hão de herdar o reino de Deus? Não vos enganeis: nem os fornicadores, nem os idólatras, nem os adúlteros, nem os efeminados, nem os que se deitam com homens,
Nem os ladrões, nem os avarentos, nem os bêbados, nem os maldizentes, nem os roubadores herdarão o reino de Deus.
Estamos mais familiarizados com esse tipo de carne e sangue. Qualquer pessoa sensata entende imediatamente que esse tipo de carne e sangue não pode herdar o reino de Deus.
Mas então abrimos em Gálatas 5:19-21 e levamos um choque ainda maior:
Ora, as obras da carne são manifestas, as quais são: fornicação, impureza, lascívia,
Idolatria, feitiçaria, inimizades, contendas, ciúmes, iras, facções, divisões, partidos,
Invejas, bebedices, orgias e coisas semelhantes a estas; acerca das quais vos advirto, como já antes vos adverti, que os que praticam tais coisas não herdarão o reino de Deus.
Ciúmes — ah, ciúmes. Facções, divisões, partidos, invejas.
Quando examinamos bem esse tipo de coisa, se formos honestos conosco e encararmos os fatos, estamos impedidos de entrar no reino de Deus. Mesmo que sentíssemos que não há ciúme em nós, nem espírito partidário, nem parcialidade, nem impureza na mente, no pensamento ou no coração, ainda assim somos carne e sangue — carne e sangue centrados em si mesmos, egocêntricos, desde o momento em que entramos nesta vida.
Sobre nós há um veto divino.
Deixem-me colocar isso de outra maneira. Somente aqueles que são tão justos — ouçam com atenção, por favor, vocês que estão acordados —, somente aqueles que são tão justos, tão puros, tão santos, tão perfeitos quanto o Senhor Jesus podem entrar no reino de Deus e herdá-lo.
Isso desqualifica todos nós, não é? Desqualifica todos nós. Estamos desqualificados.
Posso viver como um eremita. Posso fazer como alguns daqueles queridos homens que subiam no alto de colunas e passavam a vida inteira sentados ali, tentando tornar-se santos. Posso me enclausurar numa caverna, a pouca distância de casa, como muitos fizeram em tempos passados, tentando tornar-me aceitável para o reino de Deus.
Mas, de acordo com este Livro, a menos que eu me torne tão justo, tão puro, tão santo e tão perfeito quanto o Senhor Jesus, há um veto contra mim. Estou impedido de entrar. Estou desqualificado.
No entanto, Deus nos chamou para o Seu reino e glória. Considerem 1 Tessalonicenses 2:12:
Para que andásseis de modo digno de Deus, Que vos chama para o Seu reino e glória.
E 1 Tessalonicenses 5:24:
Fiel é Aquele Que vos chama, o Qual também o fará.
Depois, Pedro diz em 2 Pedro 1:10-11:
Portanto, irmãos, procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição; porque, fazendo isto, nunca tropeçareis.
Porque assim vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
Como podemos receber essa ampla provisão de entrada no reino da glória eterna de Deus? Como você e eu podemos realmente chegar ao reino — não apenas entrar no reino, mas chegar ao trono de Deus dentro desse reino? Como você e eu podemos ser instruídos e, finalmente, qualificados para participar da realeza de Deus?
Há somente um caminho.
Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus;
Não vem das obras, para que ninguém se glorie.
Vocês ouviram essa palavra tão simples do evangelho?
Pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.
Ele nos salva por meio da Sua graça. Mas Ele não apenas nos salva. Ouçam com atenção: estas são as boas-novas do reino. Ele nos gera. Ele realmente nos leva a um novo nascimento, a um segundo nascimento.
Seria maravilhoso se fôssemos salvos apenas para ser súditos no reino de Deus. Mas Ele faz muito mais do que simplesmente nos salvar. Ele nos gera de novo. Em outras palavras, Ele Se torna nosso Pai. Ele nos leva a um segundo nascimento, pelo qual você e eu nascemos do Espírito e nos tornamos qualificados para herdar o reino de Deus.
Ouçam 1 Pedro 1:3-5:
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, Que, segundo a Sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos,
Para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar, guardada nos céus para vós,
Que, mediante a fé, sois guardados pelo poder de Deus para a salvação, preparada para se revelar no último tempo.
Essa é uma palavra tão maravilhosa, mas simplesmente escorre por nós como água pelas penas de um pato, não acham? Ficamos tão acostumados com essas palavras maravilhosas: gerados de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar.
Meus queridos amigos, as boas-novas do reino de Deus estão começando a ficar claras para vocês? Pela graça de Deus, vocês não foram apenas salvos, se colocaram sua fé na obra e na pessoa do Senhor Jesus. Não foram apenas libertos do poder das trevas e transportados para o reino do Filho amado de Deus. Vocês nasceram de novo pelo Seu Espírito para uma herança incorruptível e incontaminável.
Essa herança não pode cair. Não pode ser estragada. Não pode ser comprometida. Não pode ser corrompida. Ela não perde sua glória inicial, como acontece com a maioria das coisas neste mundo. É uma herança incorruptível, incontaminável e que não se pode murchar — guardada nos céus para vocês.
E vocês, pelo poder de Deus, são guardados para essa salvação. Meus queridos amigos, isso não é maravilhoso? Somos salvos, fomos salvos, estamos sendo salvos e, finalmente, seremos salvos.
Todas as consequências da nossa salvação estão reservadas. Pensem nisso por um momento: um novo corpo semelhante ao dEle, uma semelhança com o Senhor Jesus. Pensem em todas as consequências dessa salvação. Essa herança está reservada para nós e, pelo poder de Deus, somos guardados para uma salvação preparada para se revelar no último tempo.
Estão prontos para algo mais? Não tenho dúvida quanto ao motivo pelo qual o Senhor Jesus chamou isso de boas-novas. É uma tragédia que a maioria dos cristãos praticamente desconheça isso. Tudo fica relegado a uma reunião evangelística, e o resultado é que multidões de cristãos, verdadeiramente nascidos de Deus, não compreendem sua salvação.
Não compreendem que a graça está no seu fundamento. Não compreendem que cada avanço se dá pela graça de Deus, cada descoberta de Deus se dá pela graça de Deus e cada nova experiência do Espírito Santo se dá pela graça de Deus.
Psiquiatras cristãos me dizem que é um fato muito triste que um número muito grande de pacientes psiquiátricos seja de evangélicos e carismáticos. Não é interessante? Vou lhes dizer por quê.
Quando uma pessoa se torna cristã, de repente passa a adotar um padrão muito, muito mais elevado do que qualquer padrão que tinha quando não era salva. Sendo salva pela graça, ela conhece o amor de Deus; mas sente que Deus está sempre fazendo descobertas a seu respeito.
Ela sente que, de repente, o Senhor diz: “Ah, Eu não fazia ideia de que fulano era tão podre”. Então diz: “Não posso entrar na Sua presença. Não posso falar com Ele, porque Ele descobriu algo a meu respeito”.
Na verdade, Ele não descobriu nada a seu respeito. Você descobriu algo a respeito de si mesmo. É só isso — como se o Senhor não soubesse o quanto você era podre.
Vocês sabem que cada um de nós, submetido a determinadas circunstâncias e a determinadas tentações, sem dúvida cairia? Nenhum de nós permaneceria de pé, a não ser pela graça e pelo poder de Deus. Essa é a única maneira pela qual você e eu podemos permanecer de pé: pela graça de Deus.
Abram em Romanos 8:15-17:
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para outra vez estardes em temor, mas recebestes o Espírito de adoção, pelo Qual clamamos: Aba, Pai.
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo; se é certo que com Ele padecemos, para que também com Ele sejamos glorificados.
Que salvação! Não apenas salvos para ser súditos ou servos no reino de Deus; não apenas nascidos de novo pelo Seu Espírito e introduzidos numa família, a família de Deus; mas o Espírito do Senhor derramado em nosso coração, estabelecendo uma experiência prática, pertinente, viva, cotidiana com o Deus eterno, o Altíssimo.
O Espírito é derramado em nosso coração, clamando: “Aba, Pai”.
Muitos cristãos sofrem porque não conhecem esse relacionamento na prática. Para eles, Deus ainda é um mestre distante. Ele é um grande disciplinador. É uma espécie de — se me permitem descrevê-Lo de maneira tão irreverente, embora seja assim que muitos cristãos O veem — capitalista divino, Que possui uma enorme fábrica na qual faz todos trabalharem até morrer.
Como são poucos os cristãos que conhecem a paternidade de Deus. Como são poucos os cristãos que valorizam a paternidade de Deus. Como são poucos os cristãos que realmente a conhecem — e não estou falando de tratar Deus com familiaridade excessiva. Já ouvi pessoas chamarem Deus de “Papai”. Acho isso terrível.
O Espírito Santo pode ser derramado em nosso coração nesse relacionamento maravilhoso, mas Deus continua sendo Deus. Ainda assim, temos um relacionamento com Ele. Ele é Pai. Ele é Aba para nós.
Isso, para mim, certamente é uma boa notícia.
Somente aqueles a quem Deus justifica são súditos do Seu reino e membros da Sua família. Vocês ouviram isso? Somente aqueles a quem Deus justifica são súditos do Seu reino e membros da Sua família.
Poderíamos muito bem perguntar: como Deus poderia romper o domínio com que o poder das trevas nos mantém presos? Como Ele poderia cortar o vínculo entre nós e uma humanidade caída e satanizada?
Pergunto-me se a maioria dos cristãos alguma vez realmente começou a compreender o Calvário.
Às vezes, os pregadores se detêm nos sofrimentos físicos do Senhor Jesus no Calvário, e nós não os subestimamos nem os desvalorizamos. Mas o fato é que Jesus sofreu fisicamente durante seis horas.
É um fato notável que os Evangelhos não se detenham no Seu sofrimento físico. Ouvimos Seus clamores, ouvimos a conversa, ouvimos as zombarias das multidões. Os fatos nos são apresentados de maneira quase jornalística.
É quase como se os escritores dos Evangelhos estivessem tão conscientes de um mistério insondável que não ousassem falar apenas do aspecto físico. É preciso ir ao Antigo Testamento para compreender algo da agonia dAquele Que estava na cruz. No Salmo 22, temos o relato mais inacreditável do Calvário, visto pelos olhos dAquele Que estava na cruz.
É a história não contada, a história impossível de contar, que constitui o verdadeiro sofrimento do Senhor Jesus. Sempre tomo algumas passagens das Escrituras e faço uma jornada por elas com aqueles que estão comigo. É a única maneira que conheço de comunicar algo daquela obra que o Senhor Jesus realizou na cruz.
Considerem Isaías 53:6:
Todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo seu caminho;
Mas o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de nós todos.
No hebraico, a palavra significa que Ele fez com que a iniquidade de todos nós se reunisse sobre Ele. Não se trata apenas de pecado, mas da palavra que expressa o aspecto mais depravado do pecado — a palavra que mais fala da abominável depravação do pecado.
Desde Adão, passando por todas as grandes figuras da história, cada pessoa que já existiu — Adolf Hitler, Stalin, Mao Tsé-tung —, a iniquidade de todos eles veio sobre o Senhor Jesus. Num único corpo humano foi comprimida a iniquidade do mundo inteiro, do seu princípio ao seu fim.
Mais uma vez, ouçam João 1:29:
Eis o Cordeiro de Deus, Que tira o pecado do mundo!
Não há nada mais belo do que um cordeiro, nada mais inocente, nada mais doce do que um cordeiro recém-nascido. Para as pessoas de todo o mundo e de todas as culturas, ele é sempre um símbolo de inocência, pureza e justiça.
Mas então temos esta coisa tão surpreendente:
E, como Moisés levantou a serpente no deserto, assim importa que o Filho do Homem seja levantado.
Uma serpente é exatamente o oposto. É um símbolo de tudo o que é sombrio, astuto e enganoso. É um símbolo do mundo das trevas, um símbolo e um nome de Satanás. Representa tudo o que é venenoso, tudo o que é aterrorizante.
Agora, de repente, descobrimos que esse Cordeiro de Deus, na cruz, tornou-Se a serpente levantada — como se tivesse tomado em Si o próprio veneno de Satanás, como se tivesse tomado em Si aquele veneno que contaminou toda a humanidade e nos impediu de entrar no reino de Deus.
Agora abram em Marcos 14:27:
E disse-lhes Jesus: Todos vós vos escandalizareis; porque está escrito: Ferirei o pastor, e as ovelhas serão dispersas.
Ele está citando o profeta Zacarias, mas o profeta Zacarias não disse: “Ferirei”. O profeta disse: “Fere o pastor, e as ovelhas serão dispersas”. Se vocês examinarem o hebraico, não está escrito: “Ferirei o pastor”, nem na Septuaginta, a versão grega do Antigo Testamento que a igreja primitiva usava.
Por que o Senhor Jesus mudou essa palavra, a não ser porque procurava nos fazer compreender que não foi Satanás quem O feriu? Nem sequer foi a humanidade quem O feriu, judeu ou gentio. Foi o próprio Deus Quem feriu Seu próprio Filho.
Quando o Cordeiro Se tornou a serpente levantada e toda a iniquidade foi colocada sobre Ele, Deus O feriu. Das trevas, do Seu coração atormentado, vieram as palavras:
Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?
Não sabemos o que aconteceu naquelas horas, exceto que Jesus provou a morte por cada homem. Não apenas de maneira geral — isso está além da nossa mente, além de qualquer cálculo —, mas Ele provou a morte como se fosse a sua morte, e provou a minha morte como se fosse a minha morte. Ele provou a morte por cada homem.
Naquele momento, Jesus morreu com estas palavras:
Está consumado.
Em Marcos 15:38, lemos:
E o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo.
Preciso terminar, mas o que quero dizer é simplesmente isto: nunca compreenderemos o que aconteceu com o Senhor Jesus, nem agora, nem na eternidade. Não importa quanto tempo dure a eternidade — ela não tem fim. Nenhum de nós, com nossa mente finita, nem mesmo todos nós juntos, jamais compreenderá o que o Senhor Jesus passou.
Mas isto sabemos: Ele conquistou nossa salvação. Ele voltou com uma obra consumada, com a salvação de Deus, que rompe o vínculo entre nós e a humanidade satanizada e nos leva à condição em que podemos ser libertos do poder das trevas e transportados para o reino do Filho amado de Deus.
Isso é, de fato, uma boa notícia. Poderia haver algo mais maravilhoso?
Penso em todo o meu pecado, como diz o antigo hino:
Meu pecado — oh, a felicidade deste glorioso pensamento! —
Meu pecado, não em parte, mas por inteiro,
Está pregado em Sua cruz, e não o carrego mais;
Louva ao Senhor, louva ao Senhor, ó minha alma!
O profeta Isaías diz:
Desfiz, como uma nuvem espessa, as tuas transgressões.
E, em outro lugar, o Senhor diz:
Não Me lembrarei mais dos seus pecados.
Como isso poderia acontecer? De que maneira?
Paulo descreve isso em 2 Coríntios 5:21:
Àquele Que não conheceu pecado, Ele O fez pecado por nós; para que nEle fôssemos feitos justiça de Deus.
Vocês ouviram isso? Àquele Que não conheceu pecado — isto é, o Senhor Jesus —, Deus O fez ser o nosso pecado: o seu pecado, o meu pecado, para que você e eu nos tornássemos justiça de Deus nEle.
Como isso é possível para mim? Em mim mesmo, eu estava desqualificado para o reino de Deus. Como é possível eu me tornar justiça de Deus? Somente quando Deus me justifica com base na obra do Senhor Jesus.
Meu pecado não foi apenas cancelado. Não foi apenas apagado. Não é apenas algo de que Deus já não Se lembra. Ele foi transferido. Sobre Jesus, em Sua humanidade perfeita, todo o meu pecado foi colocado; e Sua justiça foi transferida para mim, de modo que Deus diz: “Lance é justo”.
Vocês conseguem acreditar nisso? Vocês me conhecem bem o suficiente para saber que isso não seria possível se Deus não dissesse: “Eu o declaro justo. Eu o declaro justo com base na obra consumada do Meu Filho. Meu Filho tornou-Se o pecado de Lance, para que Lance se tornasse a justiça do Meu Filho”.
É isso que significa ser justificado: como se você nunca tivesse pecado.
É uma notícia tão boa que a maioria dos cristãos não consegue acreditar nela. É simples assim. A maioria dos cristãos não consegue acreditar. “Ah, não, não, não, isso está indo longe demais. Isso é extremo. Isso é radical. Se continuar assim, todos nós poderemos viver em pecado”.
É claro que vocês não podem viver em pecado. Há muito mais; chegaremos a isso na próxima vez. Mas o fato é este: aqui está um fundamento.
Vocês começaram a compreender alguma coisa? O fundamento do reino de Deus é a graça de Deus. É a obra consumada do Senhor Jesus.
Em Romanos 1:16, está escrito:
Porque não me envergonho do evangelho; pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, primeiro do judeu e também do grego.
Pensem nisso.
Depois, 1 Coríntios 1:17-18, 24 diz:
Porque Cristo enviou-me, não para batizar, mas para pregar o evangelho; não em sabedoria de palavras, para que a cruz de Cristo não se faça vã.
Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas, para nós, que somos salvos, é o poder de Deus.
Mas, para os que são chamados, tanto judeus como gregos, Cristo é o poder de Deus e a sabedoria de Deus.
Aqui, então, começamos a compreender as boas-novas do evangelho. Como você e eu podemos entrar nesse reino de Deus? Somente quando nos humilhamos.
Não há nada desse clima de eleição presidencial tão frequentemente encontrado em muitas reuniões evangelísticas. Vendemos Jesus como se Ele fosse uma mercadoria. Nós O desvalorizamos. Fazemos dEle uma figura doce e sentimental. Nós O tornamos atraente e popular e, de uma forma ou de outra, pedimos às pessoas que votem nEle: “Levante a mão”.
Não estou dizendo que você não possa ser salvo levantando a mão ou ficando de pé. Eu mesmo vim ao Senhor quando fiquei de pé numa reunião. Agradeço a Deus por um chamado assim.
Mas o fato é que esse evangelho não é uma eleição presidencial. Não é um apelo para que você dê seu apoio a Jesus. Não é um apelo para votar nEle. Não é um apelo para fazer-Lhe um favor, para colocar sua energia e seus dons à Sua disposição.
Esse evangelho é que você e eu precisamos nos humilhar diante de Deus e precisamos nos arrepender de todas as nossas obras mortas. Temos de abandonar nosso pecado.
Se houvesse mais conversões à moda antiga, com pessoas chorando por seu pecado, não teríamos a imoralidade que temos na igreja, nem teríamos essa superficialidade na igreja. Não teríamos toda essa aridez na igreja, porque homens e mulheres teriam, no próprio coração de sua experiência, o arrependimento.
Esse é o evangelho. Procurem em qualquer parte de todo o Novo Testamento, e encontrarão cada apóstolo e cada evangelista dizendo: “Arrependam-se e creiam no Senhor Jesus”.
Humildade, arrependimento e fé: esses são os três elementos essenciais para que você e eu sejamos salvos, para que você e eu nasçamos de Deus.
Mas esperem. Ainda não terminei. Vou terminar — não se preocupem — daqui a poucos instantes. Ouçam com atenção, porque isso se aplica diretamente a nós, como cristãos.
O fundamento de todo o trato de Deus conosco, desde o dia em que você e eu somos salvos, desde o dia em que nascemos de Deus, é a mesma graça e a mesma obra consumada do Senhor Jesus.
Aqui estão os três elementos: só podemos prosseguir se nos humilharmos. É por isso que Deus abomina o orgulho. Onde há orgulho de qualquer tipo, ele nos impede de avançar sob o governo de Deus. Ele frustra o propósito de Deus em nossa vida.
Já vi pessoas terem uma experiência com o Espírito Santo que mudou toda a sua vida. Já vi outros cristãos dedicados que não tiveram essa experiência. Então, esses cristãos dedicados vêm a mim e dizem: “Por quê? Fulano é um sujeito qualquer. Não presta para nada. Deve haver alguma coisa errada com toda essa questão do Espírito Santo. Fulano não é absolutamente nada, e agora veja — ele entra numa experiência real com o Espírito Santo. Estou servindo ao Senhor há anos e anos e anos, e eu não tenho essa experiência”.
Então vou lhes dizer por quê: não há humildade. Não apenas falta humildade, mas vocês estão confiando em seu zelo, em sua dedicação e em seu trabalho, como se isso fosse conquistar o favor de Deus e levá-los a uma experiência mais profunda da cruz, a uma experiência mais profunda do Espírito Santo ou a uma descoberta mais profunda do que é a igreja.
Meus queridos amigos, é tão simples. Eu acho isso terrivelmente difícil. Não sei quanto a vocês.
Vejam, o fundamento do reino de Deus é a graça. Então chego eu e penso: “Bem, sou judeu. Acho que tenho mais chance do que vocês. Afinal, essas pessoas são meus parentes”. É isso que sinto. Sinto como o apóstolo Paulo sentia. Penso: “Tenho um direito diante de Ti, Senhor. Esses outros aqui são gente boa; foram salvos, mas são apenas gentios. Eu sou judeu”.
E sabem de uma coisa? O Senhor não faz nada.
Então vejo alguém que é gentio — e não apenas um gentio comum. Ele vem de uma família de presidiários. Não tem em seu passado nada além de maldade e delinquência ao longo de toda a vida. No entanto, vejo-o entrando na plenitude, e ele começa a enxergar. Penso: “O que está errado? Aqui estou eu. Minha mãe veio da tribo de Benjamim. Meu pai veio da tribo de Judá. Abarbanel, o grande comentarista judeu, é um dos meus parentes. E ele, meu Senhor? O que está errado?”.
A base de todo o trato de Deus no reino de Deus é a Sua graça — não a sua linhagem, não a sua origem, não o seu conhecimento, não o seu zelo, não as suas boas obras. É a graça de Deus do princípio ao fim.
Se vou conhecer o que é ser crucificado com Cristo, somente Deus pode me revelar isso, e somente pela Sua graça Ele me revelará — por nenhuma outra razão.
Se vou conhecer o Espírito Santo em toda a Sua habitação interior e o fruto do Espírito, somente pela graça de Deus conhecerei a obra do Espírito Santo. Se vou conhecer a unção do Espírito Santo com todos os Seus dons e todo o Seu poder, somente pela graça de Deus conhecerei tal unção.
Se vou enxergar o que é a igreja e, na prática, participar de sua edificação, relacionando-me com outros irmãos e irmãs, então isso só será possível pela graça de Deus.
Meus queridos amigos, quando vocês se sentam e pensam nisso, essa é uma boa notícia. Se realmente fosse uma questão de linhagem, origem, estudos ou zelo, onde estaríamos?
Não, meus queridos amigos. Aqui temos algo tão maravilhoso que digo: estas são as boas-novas do reino de Deus.
Há muitos, muitos anos, Deus deu uma visão a certo profeta hebreu chamado Zacarias. Tudo tinha a ver com o testemunho — o testemunho de Jesus. Tinha a ver com a obra de edificação.
Zacarias estava tão sobrecarregado. Tudo parecia estar dando errado. Então Deus lhe mostrou esse candelabro de sete braços e as duas oliveiras, e então veio a palavra:
Não por força, nem por poder, mas pelo Meu Espírito, diz o Senhor dos Exércitos.
Quem és tu, ó grande monte? Diante de Zorobabel, tornar-te-ás uma planície;
E ele trará a pedra de remate com aclamações: Graça, graça a ela!
A obra começou na graça de Deus. Desenvolveu-se pela graça de Deus. Terminaria pela graça de Deus.
Aqui, então, estão as boas-novas do reino de Deus: qualquer homem ou mulher que finalmente chegue ao trono do Cordeiro, que finalmente vença e se assente com o Senhor Jesus em Seu trono, que faça parte daquela Noiva, daquela cidade que reinará com Ele para sempre — tudo será pela graça.
Que o Senhor abençoe cada um de nós, e que esta pregação do evangelho, nesta manhã, alcance nosso coração.
Pai, queremos simplesmente responder a Ti. Tomamos esta questão da Tua graça e do evangelho — tão básica, como jardim de infância, e, no entanto, Senhor, tão poucos de nós a compreendem.
Quando Tu começas a tratar conosco, quando começas, por assim dizer, a nos perturbar e a nos virar de cabeça para baixo e do avesso, então, Senhor, ficamos neuróticos, nervosos, cheios de acusações e de cobranças do inimigo.
Ó Senhor, faze com que este evangelho do reino entre em nosso coração neste dia. Que saibamos que, se Deus justifica, quem pode acusar?
Senhor Jesus, opera em nosso coração da maneira mais maravilhosa. Abre os olhos do nosso coração para compreendermos, de maneira nova e mais plena do que nunca, esta questão do evangelho do reino. Pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.