Abram comigo no Evangelho de Mateus, capítulo 13.
A partir de Mateus 13:18:
Ouvi, pois, vós a parábola do semeador.
Quando alguém ouve a palavra do reino e não a entende, vem o maligno e arrebata o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho.
E o que foi semeado em lugares pedregosos, este é o que ouve a palavra e logo a recebe com alegria;
contudo, não tem raiz em si mesmo, mas dura pouco tempo. E, sobrevindo tribulação ou perseguição por causa da palavra, logo tropeça.
E o que foi semeado entre os espinhos, este é o que ouve a palavra; e o cuidado do mundo e o engano das riquezas sufocam a palavra, e ele se torna infrutífero.
E o que foi semeado em boa terra, este é o que ouve a palavra e a entende; o qual verdadeiramente dá fruto e produz: um, cem; outro, sessenta; outro, trinta.
Outra parábola lhes propôs Ele, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um homem que semeou boa semente em seu campo;
mas, enquanto os homens dormiam, veio o seu inimigo, semeou também joio no meio do trigo e retirou-se.
Quando, porém, a planta cresceu e produziu fruto, apareceu também o joio.
E os servos do dono da casa vieram e lhe disseram: Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? De onde, pois, lhe vem o joio?
E ele lhes disse: Um inimigo fez isso. E os servos lhe disseram: Queres, então, que vamos arrancá-lo?
Mas ele disse: Não; para que, ao arrancardes o joio, não arranqueis também com ele o trigo.
Deixai crescer ambos juntos até a ceifa; e, no tempo da ceifa, direi aos ceifeiros: Ajuntai primeiro o joio e atai-o em feixes para o queimar; mas recolhei o trigo no meu celeiro.
Outra parábola lhes propôs Ele, dizendo: O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e semeou em seu campo;
o qual é, de fato, menor que todas as sementes; mas, quando cresce, é maior que as hortaliças e se torna uma árvore, de modo que as aves do céu vêm e se abrigam em seus ramos.
Outra parábola lhes disse Ele: O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher tomou e escondeu em três medidas de farinha, até que tudo ficou levedado.
Todas estas coisas disse Jesus às multidões por parábolas; e sem parábolas nada lhes dizia:
para que se cumprisse o que fora dito por intermédio do profeta:
Abrirei a Minha boca em parábolas;
Proferirei coisas ocultas desde a fundação do mundo.
Então Ele deixou as multidões e entrou em casa; e Seus discípulos aproximaram-se Dele, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo.
E Ele, respondendo, disse: O que semeia a boa semente é o Filho do Homem;
e o campo é o mundo; e a boa semente, estes são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno;
e o inimigo que o semeou é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos.
Assim como o joio é ajuntado e queimado no fogo, assim será no fim do mundo.
O Filho do Homem enviará os Seus anjos, e eles ajuntarão do Seu reino todas as coisas que causam tropeço e os que praticam a iniquidade;
e os lançarão na fornalha de fogo: ali haverá o choro e o ranger de dentes.
Então os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça.
O reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido no campo, que um homem encontrou e escondeu; e, em sua alegria, vai, vende tudo quanto tem e compra aquele campo.
Também o reino dos céus é semelhante a um homem negociante que busca boas pérolas;
e, tendo encontrado uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha e a comprou.
Também o reino dos céus é semelhante a uma rede lançada ao mar, que recolheu peixes de toda espécie;
e, quando ficou cheia, puxaram-na para a praia; e, assentando-se, recolheram os bons em recipientes, mas lançaram fora os ruins.
Assim será no fim do mundo: os anjos sairão e separarão os maus dentre os justos;
e os lançarão na fornalha de fogo: ali haverá o choro e o ranger de dentes.
Entendestes todas estas coisas? Disseram-Lhe: Sim.
E Ele lhes disse: Portanto, todo escriba que se tornou discípulo do reino dos céus é semelhante a um homem, dono de casa, que tira de seu tesouro coisas novas e velhas.
Pai celestial, queremos, de maneira muito simples, entregar a Ti este tempo de ministração da Tua Palavra. Senhor, dependemos inteiramente de Ti para receber o poder e a graça de que todos precisamos — eu, ao falar, e todos nós, ao ouvir — para que o Teu propósito para este tempo se cumpra.
Concede-nos, então, querido Senhor, essa unção. Pela fé, colocamo-nos debaixo dela. E, Senhor, daremos a Ti todo o louvor e toda a glória, em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.
Bem, tenho certeza de que todos vocês sabem que o tema desta conferência é O Rei Está Vindo, e recebi a responsabilidade de tratar das parábolas de Mateus 13.
Há sete parábolas aqui — alguns dizem oito, incluindo esta última, do dono da casa que tirava de seu tesouro coisas velhas e novas. Mas penso que são, de fato, sete. Temos uma parábola introdutória, que serve de fundamento para o conjunto, e depois temos dois grupos de três.
Esses grupos são bastante interessantes, porque o primeiro se divide em um mais dois. Depois há uma interpretação da primeira parábola; e o segundo grupo se divide em dois mais um, com uma interpretação da terceira — a última. Não consigo deixar de pensar que a interpretação que nosso Senhor deu a esses dois grupos é a chave para compreendê-los.
Agora, nesta manhã, no tempo que temos, quero considerar a pequena expressão que aparece na explicação do Senhor sobre a parábola do joio: “os filhos do reino”.
Antes de examinarmos essa expressão específica em Mateus 13:38, quero que vocês observem algo extraordinário. Pelo menos, eu considero extraordinário.
Fico impressionado ao ver quantos cristãos leem essas parábolas — estão tão acostumados com essas palavras do Senhor Jesus — que, às vezes, as leem sem jamais perceber como é extraordinária a linguagem que o Senhor Jesus usou.
Vocês poderiam observar atentamente a maneira extraordinária como Jesus fala da semente que é semeada? Ele fala dela de duas maneiras: como a palavra do reino, a palavra que é semeada; e, quase no mesmo fôlego, diz: “O que foi semeado”.
É como se a palavra semeada se identificasse de tal maneira com a pessoa que, na mente do Senhor, a Palavra de Deus e o ser humano devessem tornar-se um. Digo que esse é um uso extraordinário da linguagem.
Normalmente, palavras são palavras, e pessoas são pessoas. Quero dizer: normalmente, vocês não consideram palavras como pessoas, propriamente ditas.
Vejam Mateus 13:19:
Quando alguém ouve a palavra do reino e não a entende, vem o maligno e arrebata o que foi semeado em seu coração. Este é o que foi semeado à beira do caminho.
Depois, Mateus 13:20:
E o que foi semeado em lugares pedregosos, este é o que ouve a palavra.
Mateus 13:22:
E o que foi semeado entre os espinhos, este é o que ouve a palavra.
E Mateus 13:23:
E o que foi semeado em boa terra, este é o que ouve a palavra e a entende; o qual verdadeiramente dá fruto.
O que isso significa?
Evidentemente, em Mateus 13:23, temos aquilo que o Senhor deseja que aconteça. A palavra do reino chega até nós pelo poder do Espírito Santo. Nós a ouvimos. Nós a compreendemos por revelação. Então algo acontece dentro de nós, pelo qual essa Palavra do Senhor e nós mesmos somos unidos.
Ela cria raízes em nosso ser e começa a crescer. Dá fruto — um, cem; outro, sessenta; outro, trinta.
Certamente, nosso Senhor está tentando nos dizer isto: embora a Palavra de Deus tenha uma definição independente de nós — ela é o cânon das Escrituras, é a Palavra de Deus —, não deve permanecer apenas como algo objetivo. Ela precisa realizar algo dentro de nós.
Se a Bíblia é apenas um livro e não exerce nenhum efeito sobre nossa vida, se não entra em nós e nos transforma, se não nos une a Deus em Cristo, se não nos introduz em toda a verdade que proclama, então ela não significa nada.
O simples fato de você crer que a Bíblia é a Palavra de Deus, na verdade, não significa nada. Preciso lhe dizer uma coisa: Satanás também crê nisso. Satanás não acredita na teologia liberal, porque já se deparou com a Palavra. Ele sabe que ela é viva.
Você pode crer na Palavra de Deus como a Palavra de Deus, mas, se ela não realiza nada em você, o que isso significa? Qual é o valor disso? A Palavra de Deus precisa realizar algo dentro de nós. Essa é a característica singular da Palavra de Deus: ela é ativa, é viva e é mais cortante do que qualquer espada de dois gumes. Ela penetra em nosso interior e faz a divisão entre alma e espírito.
Em outras palavras, a Palavra de Deus, se vocês entendem o que estou tentando dizer, precisa tornar-se carne e sangue. De algum modo, precisa encontrar um lugar dentro de nós onde possa crescer.
Agora, estou dizendo algo extremo, algo radical, ou isso é confirmado pela Palavra de Deus? Peguem a Bíblia. Vamos examinar algumas passagens, está bem?
Primeiro, abram em Colossenses 3:16. Ouçam o apóstolo Paulo, pela inspiração do Espírito Santo:
Habite ricamente em vós a palavra de Cristo.
Ora, ele não diz: “Que a palavra de Cristo visite vocês. Que a palavra de Cristo instrua vocês. Que a palavra de Cristo abençoe vocês. Que a palavra de Cristo molde vocês” — e tudo isso seria correto.
Ele diz: “Habite em vós a palavra de Cristo”. Habitar dentro de vocês é um pouco mais do que abençoar vocês. Habitar dentro de vocês é um pouco mais do que instruir vocês. Habitar em vocês é um pouco mais do que moldar e formar vocês.
Habitar em vocês significa que a Palavra de Deus faz Sua morada dentro de vocês. Ela vem viver em vocês. E ele usa a palavra ricamente — não de maneira escassa, mas ricamente. Será que ele não tinha este pensamento em mente: cem, sessenta, trinta? Habite ricamente em vós a palavra de Cristo.
Agora, será que essa é apenas uma pequena frase do apóstolo Paulo, sobre a qual não deveríamos construir muita coisa? Vejamos Tiago. As pessoas sempre me dizem que Tiago era o legalista, mas ouçam isto, em Tiago 1:21-22:
Portanto, despojando-vos de toda impureza e do transbordamento de maldade, recebei com mansidão a palavra implantada, a qual é poderosa para salvar as vossas almas.
Mas sede cumpridores da palavra, e não somente ouvintes, enganando-vos a vós mesmos.
Que expressão extraordinária: “a palavra implantada”. “Palavra inata”, diz a nota à margem, como alternativa. Não é apenas uma palavra que chega e faz cócegas em sua mente, que, de um modo ou de outro, fascina seu cérebro. É algo que entra em seu ser. É implantado. Torna-se parte de sua própria natureza.
Então, depois de receber essa Palavra, ela começa a crescer e a realizar algo dentro de você. Vejam 2 Coríntios 3:3:
Sendo manifesto que sois uma carta de Cristo, ministrada por nós, escrita não com tinta, mas com o Espírito do Deus vivo; não em tábuas de pedra, mas em tábuas que são corações de carne.
Uma carta de Cristo. Ah, diz o apóstolo Paulo, é isso que devemos ser. Devemos ser uma carta de Cristo. Devemos ser, por assim dizer, a Palavra de Cristo, de tal maneira que homens e mulheres vejam o Senhor Jesus em nosso caráter, em nosso viver, em nossa vida, em nossa conduta e em nosso comportamento.
Ela é escrita não em tábuas de pedra, mas no coração — escrita interiormente pelo Espírito de Deus.
Quando fui salvo e comecei a ler o Novo Testamento, certas expressões do livro de Atos me deixavam intrigado. Não sei se algum de vocês já ficou intrigado com elas, mas tudo isso faz parte do assunto de que estamos tratando nesta manhã.
Vejam Atos 6:7:
E crescia a palavra de Deus; e o número dos discípulos se multiplicava grandemente em Jerusalém.
Ora, considero essa expressão muito interessante. Se você é um bom fundamentalista evangélico, como eu, como a Palavra de Deus pode crescer? Boa pergunta. Como a Palavra de Deus pode crescer? A Palavra de Deus é a Palavra de Deus. Você não acrescenta nada a ela. É a Palavra de Deus.
No entanto, o texto diz: “Crescia a palavra de Deus”, como se, de alguma maneira, este Livro entrasse nas pessoas e realizasse algo. Como? O que aconteceu? Os discípulos se multiplicaram.
Aparentemente, algo aconteceu em certos discípulos. Havia muitos e muitos discípulos, mas, em determinadas vidas, a Palavra de Deus cresceu. Criou raízes. Começou a dar fruto.
Depois, vejam Atos 12:24:
Mas a palavra de Deus crescia e se multiplicava.
Como a Palavra de Deus pode crescer, e como pode multiplicar-se, a menos que entre nas vidas e cresça dentro delas — na compreensão, na transformação dessas pessoas, no fato de serem conformadas à imagem do Filho de Deus, na incorporação de toda a verdade de Deus ao seu ser e em sua união com Deus em Cristo?
Então elas se tornam cartas de Cristo, escritas pelo Espírito de Deus. Vocês conseguem imaginar o que aconteceria com a sociedade americana ou norte-americana se cada pessoa aqui fosse uma carta de Cristo?
Se cada vida aqui fosse uma carta de Cristo, escrita pelo Espírito do Deus vivo, as pessoas não teriam apenas a Bíblia; teriam também o testemunho de seu poder e de sua autoridade demonstrados em vidas.
Ela crescia e se multiplicava. Há ainda outra passagem: Atos 19:20.
Assim, a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.
Sugiro que Lucas, que escreveu este livro de Atos, devia ter uma compreensão da Palavra de Deus que muitos cristãos modernos não têm. Pela maneira como trata disso, é como se ele entendesse que a Palavra de Deus precisa entrar na vida humana.
Assim, a palavra do Senhor crescia poderosamente e prevalecia.
Abram agora em Colossenses 1:5-6:
Por causa da esperança que vos está reservada nos céus, da qual antes ouvistes na palavra da verdade do evangelho;
que chegou até vós, assim como também está em todo o mundo, dando fruto e crescendo, como também entre vós, desde o dia em que ouvistes e conhecestes a graça de Deus em verdade.
Portanto, essa palavra do reino está viva. É poderosa. Deve habitar dentro de nós. Deve ser plantada dentro de nós. Deve crescer dentro de nós. Deve dar fruto em nossa vida.
Ficamos pensando por que o Senhor Jesus usou essas parábolas de sementes, se não tinham alguma relação com isso. Por que Ele falou de um semeador que saiu levando sementes, a menos que compreendesse que, dentro daquela pequena semente seca, havia vida e poder que a fariam germinar, criar raízes, crescer e dar fruto?
Meus queridos amigos, para muitos cristãos, a Palavra de Deus é a Palavra de Deus; mas, se posso dizer isso sem ser irreverente — ou quase blasfemo —, penso que, para muitos cristãos, a Palavra de Deus é uma semente ressequida. É apenas isso: uma pequena semente envolta em uma casca dura.
Eles creem que ela é a Palavra de Deus. Creem que tem autoridade. Creem que é inspirada. Creem que é exata. Creem até que é relevante. Mas a semente nunca foi destinada a permanecer semente.
Ela precisa cair no solo fértil do nosso ser, da nossa personalidade, da nossa vida. Ali, na umidade, por assim dizer, do solo do nosso ser, ela germina. Dela brotam raízes. Ela começa a aprofundar suas raízes e começa — por menor que pareça no início — a crescer, crescer e crescer, alcançando mais luz, mais luz e mais luz, até dar fruto.
Meu querido filho de Deus, podemos estar cheios do que ouvimos sobre a vinda do Senhor e os sinais dos tempos. Mas permanece o fato de que, a menos que essa Palavra de Deus entre em nós e crie raízes em nossa vida, nenhuma compreensão profética jamais nos preparará para a vinda do Rei.
A única coisa que pode preparar um ser humano para a vinda do Senhor Jesus é a Palavra de Deus entrar nele e criar raízes. Ela habita nele, é uma Palavra implantada, aumenta dentro dele e cresce dentro dele.
O Espírito do Senhor é o Espírito da verdade. Ele nunca trabalha fora da Palavra de Deus. Ele sempre toma a Palavra de Deus — mesmo quando não a conhecemos — e está sempre tornando essa Palavra de Deus uma realidade na vida humana.
Ah, queridos irmãos e irmãs, se isso fosse verdade a nosso respeito, pessoalmente! Se fosse verdade a respeito de cada família cristã representada neste lugar, que a Palavra de Deus estivesse dentro de nós como famílias — crescendo e criando raízes! Se cada assim chamada igreja e comunidade representada aqui fosse uma carta viva do Senhor Jesus, escrita pelo Espírito de Deus, em vez de apenas um amontoado de ossos — ossos ressequidos nos quais o sopro de Deus ainda não foi soprado!
Como podemos estar preparados para a vinda do Rei se a Palavra do Senhor não está habitando em nós? Se a Palavra do Senhor não está realizando algo dentro de nós? Se a Palavra do Senhor não é, por assim dizer, o veículo e o instrumento que o Espírito do Senhor usa para trazer para dentro de nós a natureza e o caráter do Senhor Jesus — para nos educar, nos treinar e nos fazer conformes à imagem de Seu Filho?
Se precisássemos de mais alguma prova do que estou dizendo nesta manhã, nós a teríamos na interpretação do Senhor sobre a parábola do joio. Ele diz: “A boa semente são os filhos do reino”.
Agora Ele deu um passo adiante em relação à primeira parábola, que é fundamental: a palavra do reino, ouvir a Palavra, compreender a Palavra. Agora Ele fala dessa Palavra como “os filhos do reino”.
Ele nos diz que o Semeador é o Filho do Homem. Sua explicação é bastante clara. Não creio que precisemos gastar tempo explicando-a, porque é a explicação de nosso Senhor sobre a parábola que Ele mesmo contou. Nesse sentido, ela é perfeitamente clara.
Vou dizer mais uma vez: na parábola do joio, o Senhor Jesus falou dessa boa semente como os filhos do reino.
Por favor, ouçam com muita atenção. Há uma grande diferença entre um bebê e um filho maduro.
Ora, um bebê pode ser um filho. Mas, na maneira como a Palavra de Deus emprega esses termos — não em todos os casos, mas em muitos e muitos casos no Novo Testamento —, ela usa duas palavras gregas: uma para crianças e outra para filhos.
O Senhor Jesus poderia facilmente ter usado a outra palavra e dito: “A boa semente são as crianças do reino”. Todos nós teríamos nos alegrado. Teríamos dito: “Que maravilha — crianças do reino. Isso significa que nascemos de Deus. Significa que, pela graça de Deus, estamos dentro de Sua família. Significa que fomos introduzidos no círculo da aliança, na família da fé. Somos filhos de Deus”.
Louvado seja Deus por sermos Seus filhos. Mas Ele não usou aquela palavra. Poderia tê-la usado, mas não a usou. Ele disse: “A boa semente são os filhos do reino”.
Por que Ele fala dos filhos do reino? Porque bebês não podem reinar nem governar. Podem ser as criaturas mais doces do mundo — puras, imaculadas, belas, amáveis e encantadoras — e todas as outras coisas maravilhosas que poderíamos dizer de um bebê. Mas há uma coisa que um bebê não pode fazer: não pode sentar-se no trono e governar.
Não pode administrar um governo. Não pode arbitrar disputas. Não pode executar uma política nacional, nem mesmo uma política familiar. Um bebê é um bebê.
O bebê pode carregar dentro de si uma história genética que vem de seus pais. Certamente todos nós já sofremos com aquelas tias-avós e aqueles tios-avôs que diziam: “Ah, ele não se parece com a Jemima?”, ou: “Ele não se parece com o tio Hubert?” Como é que aquele bebezinho se parecia com a tia Jemima? Como aquele bebezinho se parecia com o tio-avô Hubert?
Por causa da história genética, é por isso. Aquele bebê — você ou eu — nasceu com uma história genética. Temos dentro de nós todos os genes de nossos pais, nossos avós, nossos bisavós, nossos antepassados e ancestrais. Está tudo dentro de nós. É impressionante.
A Bíblia fala tanto de genealogia e linhagem, em parte, por causa disso. A história genética está inteiramente ligada a esse tipo de coisa. Embora isso seja verdade fisicamente, espiritualmente é maravilhoso.
Você percebe que tem dentro de si a natureza do Senhor Jesus por nascimento? Percebe que tem dentro de si a história genética do Senhor Jesus pelo seu nascimento espiritual, se nasceu de Deus?
Teria sido absolutamente maravilhoso se Ele tivesse dito: “A boa semente são as crianças do reino”. Mas o Senhor Jesus não disse isso. Ele disse: “A boa semente são os filhos do reino”, porque queria que aqueles bebês se tornassem crianças, e que aquelas crianças se tornassem filhos maduros. É por isso.
Você pode ser um bebê. Pode ter o nome da família e, em certo sentido, pode também ter a herança da família. Mas não pode administrar os negócios da família. Precisa crescer.
Normalmente, há algo como dezesseis ou dezessete anos de crescimento, treinamento e educação pela frente, antes que você, como bebê ou criança de Deus, possa tornar-se aquilo que já era, de maneira inerente, em seu nascimento: um filho maduro.
Não é que você não fosse filho quando era bebê. Tudo já estava ali, mas você precisa ser treinado. Precisa crescer. Suponha que um bebê continue sendo bebê aos vinte anos de idade — como poderá administrar um negócio? Seu desenvolvimento foi comprometido. Algo terrível aconteceu. Algo anormal aconteceu. Ele não se tornou o filho que estava destinado a ser desde o nascimento.
Portanto, querido povo de Deus, aqui o Senhor Jesus está falando, nesta parábola, à luz de Sua vinda, sobre os filhos do reino. É como se estivesse dizendo: “Esta Minha vida, esta Minha salvação, que chega até vocês pela Palavra de Deus e pela obra do Espírito Santo, por meio da obra consumada do Senhor Jesus — esta Minha maravilhosa salvação —, vocês não devem apenas ser salvos, apenas se converter, nem mesmo apenas nascer de Deus”.
“Vocês precisam crescer. Seu caráter precisa ser treinado, amadurecido e desenvolvido. Vocês precisam ser disciplinados.”
Antigamente, especialmente no mundo europeu, se você nascesse em uma família que não tivesse uma grande vocação ou destino, sua educação não seria tão importante. Mas, se nascesse em uma família nobre, sua educação seria muito importante — especialmente se fosse o filho primogênito.
Desde o momento em que você nascia, como costumávamos dizer, colocavam uma colher de prata em sua boca. É uma expressão antiga e estranha, mas significa apenas que você é diferente. Desde o momento em que chegava àquela família como filho primogênito, seu treinamento começava.
É muito difícil para vocês, que vivem em uma república, compreender a natureza de um reino. Mas, em uma família real, o príncipe herdeiro recebe uma educação muito especial — uma disciplina inacreditável desde o momento em que começa a ter consciência das coisas. Certamente, a partir do momento em que deixa a infância, passa pelas disciplinas mais rigorosas, que não são impostas a mais ninguém, porque ele será rei.
Isso explica tantas coisas na Palavra de Deus. Acho muito interessante quando chegamos ao último livro da Bíblia, Apocalipse 21.
Eu costumava pensar que essa declaração do Senhor era estranhamente sem brilho, se vocês entendem o que quero dizer. Pensava: “Este não é o clímax. Depois de todos os sessenta e seis livros da Bíblia, seria de esperar que o Senhor Jesus dissesse algo mais maravilhoso do que isso”. E foi isto que Ele disse em Apocalipse 21:7:
Aquele que vencer herdará estas coisas; e Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho.
Eu pensava comigo mesmo: “Bem, isso é um tanto anticlimático, não é?” Aquele que vencer herdará todas estas coisas — maravilhoso. Então Ele diz: “Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho”.
Até que compreendi isto: Ele não disse: “Eu serei seu Deus, e ele será Meu súdito”. Não disse: “Eu serei seu Deus, e ele será Meu bebê”. Ele disse: “Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho”.
Em seu nascimento espiritual está a condição de filho. Mas essa condição de filho precisa ser educada. Precisa ser treinada. Você precisa crescer. Seu caráter precisa ser desenvolvido. Você conhecerá disciplinas especiais se for reinar com Cristo, se for chegar ao trono de Deus, se for alguém que governa com Ele nas eras vindouras.
Penso no versículo que Ernie citou ontem, em Hebreus 2:10:
Porque convinha Àquele, para Quem são todas as coisas e por meio de Quem são todas as coisas, ao trazer muitos filhos à glória, aperfeiçoar por meio de sofrimentos o Autor da salvação deles.
Isso não é interessante? Ele poderia ter dito: “Trazendo muitas crianças à glória”, ou: “Trazendo muitos santos à glória”. Mas o texto diz: “Trazendo muitos filhos à glória”.
O Senhor Jesus quer que nos tornemos filhos maduros para que possamos participar da herança, para que possamos administrar a vontade de Deus nas eras vindouras e para que possamos reinar com Cristo.
Nos países que não são reinos, a ideia de reinar é diferente daquela dos países que são reinos. Em uma república, a ideia de reinar é de ostentação: uma enorme coroa na cabeça, que fica balançando, vestes magníficas, uma cauda que exige cinco ou seis pessoas para sustentá-la, e Sua Majestade segue andando, meio vacilante.
Pensamos: “Ah, é maravilhoso — uma glória antiga, tudo ligado ao passado. Como ela está bonita! Pensem nas joias em sua cabeça, nas joias em sua mão, nas joias em suas vestes. Vejam o cetro. Vejam o orbe. Isso é reinar”.
Entre os cristãos, temos a ideia de que reinar é sentar-se em um trono enquanto o mundo inteiro diz: “Ah, maravilhoso”. Ora, é perfeitamente verdade que o Senhor Jesus será admirado em todos os que são salvos; não há dúvida disso. Mas não é nisso que consiste reinar.
Reinar é servir.
Aquela senhora debaixo daquela coroa, segurando o orbe e o cetro, provavelmente preferiria muito mais não ter aquilo na cabeça nem nas mãos. Talvez estivesse muito mais feliz de volta ao Palácio de Buckingham, com os pés para cima em algum lugar, lendo uma revista em quadrinhos. Mas, em vez disso, ela tem um serviço a prestar. Foi treinada desde a infância para servir.
Reinar é servir. Não se trata de as pessoas exaltarem você, adorarem você e lhe prestarem adulação. Pelo contrário, todo o sentido de chegar ao trono é que você possa empregar todas as suas energias, todos os seus talentos, todo o seu tempo e toda a sua vida em favor dos outros.
É por isso que o Senhor está treinando filhos. É por isso que Ele está trazendo muitos filhos à glória.
Agora, vejamos Hebreus 12, outro capítulo que Ernie examinou ontem à noite. Leremos a partir de Hebreus 12:5:
E vos esquecestes da exortação que vos fala como a filhos:
Filho meu, não desprezes a disciplina do Senhor,
Nem desanimes quando por Ele fores repreendido;
Porque o Senhor disciplina a quem ama,
E açoita a todo filho a quem recebe.
A maioria de nós pensa que isso significa que, em vez de falar conosco como pecadores, ou como pessoas libertas do poder das trevas, Ele fala conosco como crianças. Mas não: em vez de falar com vocês como bebês, Ele fala com vocês como filhos.
Pensem no que eu disse sobre o treinamento na realeza. “Filho meu, não desprezes a disciplina do Senhor.” O texto continua explicando que tudo isso tem uma finalidade em vista: santidade.
Que pena que, para tantos de nós, a santidade tenha uma conotação negativa — como se ser santo fosse ser infeliz, sombrio, introvertido, anêmico e esgotado. Santidade é inteireza.
É por isso que o Senhor quer nos treinar. Sempre me lembro do senhor Sparks. Ele não gostava de usar a palavra castigo e sempre usava a tradução literal do grego para o inglês: educação de uma criança.
Ele costumava dizer: “Filho meu, não desprezes a educação que o Senhor dá aos Seus filhos. Porque o Senhor, a quem ama, educa como a uma criança”.
Se você estiver disposto a prosseguir com o Senhor, e disposto a pagar qualquer preço, quero lhe dizer: quando o Senhor o aceitar como candidato ao serviço e ao governo eternos, ao trono, a partir daquele momento outro conjunto de regras se aplicará a você.
Sua educação será muito mais rigorosa do que a de um filho de Deus comum. A maneira como o Senhor trata com você, as situações às quais Ele o conduz, as circunstâncias que permite que se desenvolvam, as crises às quais o conduz — se você realmente disser: “Vou até o fim com o Senhor”, não demorará a perceber que está vivendo tudo isso.
É exatamente Hebreus 12. E, meu querido amigo, caso alguém diga: “Ah, então prefiro ser apenas um filho de Deus comum, muito obrigado. Prefiro muito mais vir a estas conferências, sentar aqui, cantar, ouvir as coisas e aprender algumas coisas. Mas não quero crises. Não quero emergências. Não quero circunstâncias difíceis”.
Meu querido amigo, estou lhe dizendo: você será um daqueles de quem o Senhor terá de enxugar as lágrimas. Você lamentará muito.
Esta única vida é como uma picada de alfinete em comparação com a eternidade. Esta vida curta e breve, na qual o Senhor fará tanto por nós, resultará em um peso eterno e incomparável de glória. E você vai jogar isso fora? Acorde!
Você percebe que a condição de filho maduro está inerente ao seu nascimento? Que, se permanecer criança, estará contrariando sua própria vocação e seu destino? Você não vê? Não consegue ver como o inimigo nos cega com sua propaganda?
“Não siga por esse caminho. Você não quer ser radical. Não quer ser extremista. Naturalmente, há aqueles que vão a essas conferências de famílias cristãs e são radicais e extremistas. São esquisitos. Deixe-os seguir por esse caminho. Seja um bom filho de Deus, comum.”
Então virá um dia em que você descobrirá que contrariou a própria vocação que lhe foi dada quando Deus o salvou.
O senhor Sparks falou bastante sobre essa questão da condição de filho. Como alguns de vocês sabem, esse foi um dos pontos em torno dos quais se concentrou a controvérsia sobre seu ministério.
Lembro-me dos panfletos e livretos escritos sobre esse assunto, condenando-o e denunciando-o violentamente. Diziam que isso era contrário à graça de Deus, e não sei o que mais.
Mas devo dizer que sou muito grato por ter percebido essa pequena diferença. Lembro-me de uma ocasião em que o senhor Sparks falou sobre a adoção como filhos. Naturalmente, para mim isso era muito interessante — preciso lhes dizer —, portanto tenho um interesse pessoal nessa questão.
Ele disse: “Simplesmente não consigo aceitar que Paulo esteja tomando emprestada uma ilustração gentílica do mundo gentílico, como se não fôssemos realmente filhos, mas tivéssemos sido adotados”.
Era muito comum no mundo gentílico adotar filhos. No mundo judaico, não havia tal coisa, porque, se alguém perdesse os pais, um tio ou os avós assumiam seus cuidados, e essa pessoa se tornava quase como um filho deles. Mas, no mundo gentílico, era muito comum que até escravos fossem adotados como filhos por seus senhores.
Ele disse: “Penso que essa palavra” — e não estou dizendo que toda a controvérsia se concentrou nisso — “pode ser traduzida como ‘colocação na posição de filhos’”. Ele sempre usava essa expressão: a colocação dos filhos em sua posição.
Ele disse: “No mundo judaico, isso era o bar mitzvah. Treze anos depois de nascer, você era colocado na posição de filho. Então toda a família reconhecia que você havia se tornado um filho. Agora podia ocupar seu lugar na casa de Israel”.
Bem, não sei. Quando examino Efésios 1:5, parece-me que temos essa ilustração do bar mitzvah. Mas, quando examino Gálatas 4:5, parece tratar-se da ideia gentílica. Não sei, por isso mantenho a mente aberta.
Mas que diferença isso faz? Permanece o fato de que, quer entendamos isso como adoção no sentido gentílico, quer como confirmação no sentido judaico — o reconhecimento como filho plenamente desenvolvido —, a condição de filho está inerente ao nosso nascimento espiritual.
Se você e eu não estivermos dispostos a receber a disciplina e a educação, então, meus queridos amigos, nunca poderemos exercer nossa condição de filhos. Seremos bebês para sempre. Seremos crianças para sempre.
É absolutamente necessário nascer do Espírito, mas é preciso mais do que isso para que um bebê se torne um filho plenamente desenvolvido. Você pode até ter sangue real por nascimento. Se é filho de Deus, pertence à realeza. Mas isso não basta. Você precisa crescer.
Aqui estão quatro coisas que considero necessárias:
Você pode ter todo o caráter do mundo, mas, se não tiver experiência, como vai administrar os negócios da família?
Deus está procurando, entre Seus bebês, aqueles que governarão com Seu Filho no reino. É por isso que Ele fala dos filhos do reino.
Gostaria de dizer algumas palavras sobre o treinamento dos filhos do reino. Precisaremos tratar disso em certa medida, provavelmente até falarmos dos discípulos do reino. Quero apenas mencionar duas ou três coisas, e voltaremos a elas.
No treinamento dos filhos do reino, a Palavra implantada — a Palavra que habita em nós — é de importância fundamental.
Para que essa Palavra se torne carne e sangue em você, são necessárias situações, circunstâncias, crises e experiências. Não é verdade?
Pense por um momento. Mesmo que você seja muito novo no Senhor, pense por um momento: como descobriu o significado de alguma Palavra de Deus que hoje significa tanto para você? Não foi em uma circunstância muito difícil — pressionado além da medida, talvez sem saber mais o que fazer —, quando não sabia o que fazer nem para onde se voltar, e então a Palavra do Senhor veio até você?
Posso lhe dizer uma coisa? Essa Palavra que veio até você nunca lhe será tirada. Essa Palavra tornou-se carne e sangue em você. Ela é sua.
Lembro-me de ter me hospedado com uma senhora aristocrática, de grande caráter espiritual. Notei que, em sua sala de estar e em seu escritório particular, havia uma bela peça de madeira bruta, e nela estavam escritas as palavras:
A Minha paz vos dou.
Na época, aquela palavra não significava muito para mim. Pensei: “Que interessante”. Sempre me interesso pelos lemas das pessoas; eles dizem muito sobre alguém.
Um dia, começamos a conversar, e eu disse: “Notei que a senhora tem, em pelo menos dois lugares, o texto: ‘A Minha paz vos dou’”. “Ah”, ela disse, “essa palavra é minha”. Então me contou esta história.
Ela disse: “Quando meu marido morreu, e eu tinha apenas vinte e três anos, não sabia o que fazer. Ninguém podia me ajudar. Não tinha a quem recorrer. Como eu pertencia a determinada classe social na Grã-Bretanha de antigamente, não podia simplesmente procurar qualquer pessoa”.
“Eu era como uma alma perdida — uma filha de Deus, mas não sabia o que fazer. Chorava, chorava e chorava, e pensava que morreria. Então esta Palavra veio ao meu coração:”
Deixo-vos a paz; a Minha paz vos dou.
Ela pensou: “Bem, Senhor, o que isso significa?” O Senhor lhe revelou que “Deixo-vos a paz” é diferente de “A Minha paz vos dou”.
A paz que Ele nos deixa é a paz dos pecados perdoados. Ele não precisava disso; nunca havia pecado. Não poderia dizer: “Deixo-vos a Minha paz”. Ele disse: “Deixo-vos a paz”. É sua herança, seu direito de nascimento. Se você é crente, ela é sua.
Mas então Ele disse, em um nível completamente diferente, em uma dimensão maior: “A Minha paz vos dou”. Então ela disse: “Eu compreendi. Era a paz que Ele tinha quando veio a este mundo, em Belém, para viver em condições humildes. Era a paz que Ele tinha quando suportou a oposição dos pecadores. Era a paz que Ele tinha no Getsêmani, quando disse: ‘Não a Minha vontade, mas a Tua’. Era a paz que Ele tinha na cruz, ao final, quando disse: ‘Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito’”.
Ela disse: “De repente, percebi que Ele podia me dar a própria paz que havia conquistado naquelas experiências”. Então acrescentou: “Compreendi isto: Ele me deixa a paz dos pecados perdoados como um legado, mas a Sua paz Ele dá”.
Você precisa chegar a determinado ponto em uma crise, a determinado ponto em uma situação, em que, de repente, a paz Dele lhe é dada. Isso transformou minha compreensão anos depois, quando eu estava em uma terrível tempestade e não sabia o que fazer.
De repente, vi-me navegando através daquela tempestade. A tempestade continuava, mas eu estava diferente. A paz Dele havia entrado em meu coração.
Quando Deus revela algo assim a um ser humano comum, nascido do Espírito de Deus, isso se torna seu. Torna-se carne e sangue. Nunca mais pode ser tirado de você. Não importa que mil teólogos esbravejem e protestem contra a interpretação errada. O fato é que aquilo é seu. Você recebeu algo de Deus.
Lembro-me, em minha própria experiência, de uma ocasião em que estava passando por grande aflição, e as circunstâncias de minha aflição não mudavam. Não conseguia ver nenhuma saída. Então vieram ao meu coração estas palavras:
Ó tu, aflita, açoitada pela tempestade e não consolada,
Eis que assentarei as tuas pedras em belas cores.
A tempestade continuou, mas eu estava diferente. Aquilo havia se tornado meu. Até hoje, essa passagem é minha. Cada vez que a leio, algo acontece em meu coração — uma espécie de entusiasmo dentro de mim. Sei que era a Palavra de Deus para mim.
Quando nosso amado irmão John Anastasius estava passando por tamanha aflição e havia perdido tudo, a situação parecia tão sombria e melancólica, como se ele tivesse sido abandonado por Deus. Não consigo lhes dizer quantos irmãos foram procurá-lo. Tantas mãos foram impostas sobre ele, tantas coisas lhe foram ditas, tantas cartas lhe foram escritas.
Estive em reuniões em que as pessoas se aproximavam e diziam: “Irmão, esta é a raiz do seu problema”. Eu sentia muita pena dele. Por fim, fui procurá-lo e disse: “Tenho uma palavra para você”:
Ó tu, aflita, açoitada pela tempestade e não consolada,
Eis que assentarei as tuas pedras em belas cores.
Eu lhe disse: “Isso é Deus agindo em sua vida. Você terá de percorrer um longo caminho com isso, mas, em um instante, Deus o tirará dessa situação”. E Deus o fez.
Há apenas alguns meses, ele me disse: “Sabe aquela palavra que você me deu? Foi a única coisa à qual consegui me agarrar”. Vejam, ela havia se tornado minha, e eu podia transmiti-la. Vocês entendem? Era minha. Eu não estava apenas lhe dando um pequeno versículo como frase pronta. Aquilo havia se tornado meu.
Ele estava na mesma situação, e eu pude lhe dar algo que Deus havia me dado: a Palavra implantada, a Palavra que habita em nós.
Gostaria de poder falar de tantas outras coisas. Quero falar sobre a Palavra que faz a divisão entre alma e espírito. Ah, irmãos e irmãs, que problema temos com essa divisão entre alma e espírito! Como há pouco disso! Quanta coisa da alma está misturada com as coisas de Deus!
Naturalmente, a alma tem seu lugar legítimo. Mas, de algum modo, a alma toma o lugar do espírito, e temos tantos problemas. No entanto, essa Palavra de Deus é a única coisa que pode fazer a divisão entre alma e espírito. Talvez eu fale um pouco mais sobre isso quando tratarmos dos discípulos do reino.
Quero falar sobre a formação do tesouro e da pérola. Como isso acontece? Esse tesouro — creio que foi o Senhor Jesus Quem o encontrou. Ele o escondeu no campo. Comprou o campo inteiro para obter o tesouro.
No entanto, a meu ver, esse tesouro também é Ele em mim. Vocês entendem? Esse tesouro não sou eu em minha condição carnal. Esse tesouro sou eu em Cristo, e Cristo em mim.
Penso naquela pérola. Ele vendeu tudo o que tinha para obter aquela única pérola de grande valor; no entanto, de outra maneira, essa pérola somos você e eu. É o Senhor Jesus em nós.
Como o tesouro entra em nós, e como a pérola entra em nós, a não ser pela Palavra de Deus, pela obra do Espírito do Senhor em nossa vida — circunstâncias e situações realizando algo, levando-nos ao fim de nós mesmos —, até que, de repente, algo acontece dentro de nós?
Meus queridos amigos, Jesus contou uma parábola relacionada a isso. Ele disse: “O reino de Deus é semelhante a uma rede”, que recolhe todo tipo de coisa: águas-vivas, garrafas velhas, lixo, peixes mortos, peixes ruins e peixes bons.
Agora, meu querido amigo, você quer ser apenas um peixe bom, ou quer ser tesouro e pérola? Pense nisso. Pense nisso.
Para que servem os peixes bons? Não quero ser irreverente, mas para que servem os peixes bons? Esses peixes que eram apanhados na rede não eram colocados em aquários para serem admirados. Eram para comer.
Peixes não servem para nada se você não os comer. São tão perecíveis; estragam em muito pouco tempo. Naquela época, não havia refrigeração.
Você quer ser apenas um peixe bom? Há muitos deles na igreja — apenas peixes bons. Ah, há tantos peixes bons por toda parte! O Senhor os pescou e os colocou em recipientes. Você quer ser apenas um peixe bom?
Aquela noiva, aquela cidade, não é feita de peixes. É feita de tesouro e pérola. É feita de tesouro e pérola.
Ah, quantos filhos de Deus estão satisfeitos em ser apenas peixes bons, apanhados pela rede da boa graça de Deus e do evangelho. Mas há outra dimensão: tesouro, pérola, filhos do reino. Os filhos do reino são tesouro e pérola.
Você não quer fazer parte disso?
Outra área que examinaremos um pouco é a do fermento e das aves do céu, porque me parece que os filhos de Deus são treinados, em grande medida, por meio da remoção do velho fermento e da eliminação das aves.
Naturalmente, é muito mais fácil livrar uma árvore das aves do que livrar uma massa do fermento. Mas é assim que Deus treina os filhos em sua atitude para com aquilo que não está certo — na verdade, aquilo que está errado.
Essa é uma das maiores áreas da educação de Deus: como nos relacionamos com o mal e como lidamos com ele.
Ah, que o Senhor nos inclua entre esses filhos! Não há uma pessoa neste lugar, nascida do Espírito de Deus, que não tenha dentro de si a condição de filho. O Espírito de filiação, de adoção, foi derramado em nosso coração, clamando: “Aba, Pai”. Está ali, se você nasceu de Deus.
Mas, ah, queremos prosseguir e nos tornar filhos do reino.
Vamos orar juntos?
Querido Senhor, queremos pedir juntos que Tu, em Tua graça e misericórdia, tornes plena, em todos nós, essa condição de filho que está presente em nosso nascimento espiritual.
Senhor, abre nossos olhos para vermos que temos uma vocação, temos um destino. Então, Senhor, desafia-nos no profundo do nosso coração a responder a Ti.
Senhor, Tu nunca nos pressionas nem nos manipulas. Essa questão da condição de filho fica a nosso cargo — apropriar-nos da Tua graça e do Teu poder, e seguir até o fim Contigo.
Querido Senhor, escreverás esta lição dos filhos do reino em todos os nossos corações? Não sabemos quanto tempo temos, Senhor, antes que Tu venhas; mas, ó Senhor, acelera o processo em todos nós.
De fato, Senhor, faz de nós filhos maduros, nós Te pedimos. Senhor, faz-nos perceber nossas oportunidades e nossas potencialidades, e a Tua graça e o Teu poder, plenamente suficientes.
E pedimos isso em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.