Abram comigo, primeiramente, em algumas passagens das Escrituras.
Começaremos novamente em Atos 7:2.
Irmãos e pais, ouvi. O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão, estando ele na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã; e disse-lhe: Sai da tua terra e da tua parentela, e vem para a terra que Eu te mostrarei. Então saiu da terra dos caldeus e habitou em Harã; e dali, depois da morte de seu pai, Deus o trouxe para esta terra em que vós agora habitais. E não lhe deu nela herança, nem sequer o espaço para assentar um pé; mas prometeu dar-lha em possessão, e à sua descendência depois dele, não tendo ele ainda filho.
E, novamente, a passagem que temos lido todas as noites, Hebreus 11:8.
Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia. Pela fé, peregrinou na terra da promessa, como em terra alheia, habitando em tendas com Isaque e Jacó, herdeiros com ele da mesma promessa; porque esperava a cidade que tem os fundamentos, cujo arquiteto e construtor é Deus.
Na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, Romanos 4:18:
O qual, em esperança, creu contra a esperança, para que se tornasse pai de muitas nações, segundo o que lhe fora dito: Assim será a tua descendência. E, sem se enfraquecer na fé, considerou o seu próprio corpo já como morto, tendo cerca de cem anos, e a condição morta do ventre de Sara; contudo, diante da promessa de Deus, não vacilou por incredulidade, mas fortaleceu-se pela fé, dando glória a Deus; e estando plenamente convicto de que o que Ele havia prometido, também era poderoso para cumprir.
Agora, em Gênesis 15:1:
Depois destas coisas, veio a palavra do Senhor a Abrão numa visão, dizendo: Não temas, Abrão; Eu sou o teu escudo e o teu grandíssimo galardão. E disse Abrão: Ó Senhor Deus, que me darás, visto que continuo sem filhos, e o herdeiro da minha casa é Eliézer de Damasco? Disse mais Abrão: Eis que não me tens dado descendência; e eis que um nascido em minha casa será o meu herdeiro. E eis que veio a palavra do Senhor a ele, dizendo: Este não será o teu herdeiro; mas aquele que sair das tuas próprias entranhas será o teu herdeiro. E Ele o levou para fora e disse: Olha agora para os céus e conta as estrelas, se as podes contar. E disse-lhe: Assim será a tua descendência. E ele creu no Senhor; e Ele lhe imputou isso por justiça.
E Ele lhe disse: Eu sou o Senhor, que te tirei de Ur dos caldeus, para te dar esta terra por herança. E ele disse: Ó Senhor Deus, como saberei que a hei de herdar? E Ele lhe disse: Toma-Me uma novilha de três anos, uma cabra de três anos, um carneiro de três anos, uma rola e um pombinho. E ele Lhe trouxe todos estes, partiu-os pelo meio e pôs cada metade em frente da outra; mas as aves não partiu. E as aves de rapina desciam sobre os cadáveres; Abrão, porém, as afugentava. E, ao pôr do sol, um profundo sono caiu sobre Abrão; e eis que um pavor de grandes trevas caiu sobre ele.
E Ele disse a Abrão: Sabe, com certeza, que a tua descendência será peregrina numa terra que não é sua, e servirá aos seus habitantes; e estes a afligirão por quatrocentos anos. Mas também Eu julgarei a nação à qual ela servirá; e depois sairá com grandes riquezas. Tu, porém, irás a teus pais em paz; serás sepultado em boa velhice. E na quarta geração tornarão para cá; porque a iniquidade dos amorreus ainda não está completa. E aconteceu que, posto o sol, houve escuridão; e eis um forno fumegante e uma tocha de fogo que passaram entre aquelas partes. Naquele dia, o Senhor fez uma aliança com Abrão, dizendo: À tua descendência tenho dado esta terra.
Mais uma vez no mesmo livro, Gênesis 22:1.
E aconteceu, depois destas coisas, que Deus pôs Abraão à prova e lhe disse: Abraão! E ele disse: Eis-me aqui. E Ele disse: Toma agora teu filho, teu único filho, a quem amas, Isaque, e vai à terra de Moriá; e oferece-o ali em holocausto sobre um dos montes que Eu te indicarei.
Agora, em Gênesis 22:9:
E chegaram ao lugar que Deus lhe indicara; e Abraão edificou ali o altar, pôs em ordem a lenha, amarrou Isaque, seu filho, e o deitou sobre o altar, em cima da lenha. E Abraão estendeu a mão e tomou o cutelo para imolar seu filho. Mas o Anjo do Senhor lhe bradou desde os céus e disse: Abraão, Abraão! E ele disse: Eis-me aqui. E Ele disse: Não estendas a mão sobre o rapaz, nem lhe faças coisa alguma; porque agora sei que temes a Deus, visto que não Me negaste teu filho, teu único filho. E Abraão levantou os olhos e olhou; e eis, atrás dele, um carneiro preso pelos chifres num arbusto. E Abraão foi, tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto, em lugar de seu filho. E Abraão chamou àquele lugar: O Senhor proverá; por isso se diz até o dia de hoje: No monte do Senhor se proverá.
Vamos fazer uma breve oração?
Amado Senhor, foi tão bom ouvir as crianças cantarem. Somos muito encorajados ao ver esses pequeninos e a Palavra de Deus entrando em seus corações. Oramos por eles, Senhor, para que, nos dias que Tu lhes deres, Tu os salves e os tornes homens e mulheres de Deus, qualquer que seja a condição do mundo em que viverão.
E, Senhor, queremos agradecer-Te porque estamos aqui, reunidos em Tua presença. Queremos agradecer-Te pela provisão que sempre fazes para as reuniões do Teu povo. E, Senhor, precisamos de Ti.
Chegamos a esta última sessão de ministração nesta noite. Agradecemos-Te pela maneira como nos tens falado ao longo destes dias, pelo poder capacitador que nos tens dado e pela unção que tem estado sobre todos nós. Queremos agradecer-Te e oferecer-Te toda a adoração do nosso coração.
Mas, Senhor, agora queremos pedir-Te: sê a unção, a graça e o poder nesta noite, tanto na exposição da Tua Palavra como em sua tradução e em sua escuta.
Precisamos, Senhor, encontrar-nos Contigo. Temos ouvido muito sobre a visão celestial, mas, Senhor, precisamos que os olhos do nosso coração sejam abertos. Precisamos que, de alguma maneira, Tu tornes toda esta ministração uma realidade em nossa vida em conjunto, em nossa vida individual, em nossa vida familiar e em nossa vida profissional.
Senhor, entregamo-nos a Ti. Pela fé, colocamo-nos sob essa unção. Que ela se manifeste, Senhor, de todas as maneiras, ao longo deste tempo. Pedimos isso em nome do nosso Messias, o Senhor Jesus. Amém.
Minha responsabilidade dentro do tema desta conferência, “Não fui desobediente à visão celestial”, tem sido a vida de Abraão.
E penso que ela se resume nas palavras de Estêvão, pouco antes de seu martírio:
O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão.
Abraão viu todo o panorama da redenção. Quem dera a maioria dos cristãos tivesse o mesmo entendimento.
Ele viu todo esse panorama, começando no ponto em que se encontrava e seguindo até o fim, quando aquela Jerusalém celestial, a esposa do Cordeiro, desce do céu, tendo a glória de Deus.
Ele o viu primeiro na maneira como lhe nasceu uma família, quando ainda não tinha filhos. Ele o viu, em certo sentido, pela fé, nos doze patriarcas que se tornariam os pais de Israel, nascidos de Jacó, seu neto.
Ele o viu pela fé numa nação que seria criada, nascida em meio a sofrimento e escravidão inimagináveis no Egito. Ele o viu na vinda do Messias por meio daquela nação.
Ele o viu no evangelho alcançando não apenas o judeu — primeiro o judeu —, mas depois também o gentio; alcançando as nações, por meio do qual homens e mulheres de todas as épocas, famílias, línguas e raças nasceriam do Espírito de Deus e se tornariam parte da família de Deus, parte da família da fé, parte do corpo do Senhor Jesus, o Messias.
Ele viu a igreja. Viu a igreja como algo tão precioso para Deus, tão incrivelmente precioso.
Ele o viu, finalmente, naquela cidade, a Nova Jerusalém, descendo do céu, tendo a glória de Deus.
Encontramos tudo isso contido ali. Penso que Abraão foi o início dessa visão, em certo sentido. É claro que o Senhor fez algo com Enoque, com Noé e com outros, mas, com Abraão, foi o início da dimensão coletiva — o início do povo.
Quanto a Abraão, não sei até que ponto ele viu isso em detalhes, com precisão. Isso, penso eu, temos de deixar para o apóstolo Paulo. Mas o extraordinário é que Abraão não conheceu a habitação interior do Espírito de Deus.
Isso viria com a obra consumada do Senhor Jesus no Calvário e com o derramamento do Espírito no Pentecostes.
Paulo conhecia a habitação interior do Cristo ressurreto e glorificado pelo Espírito Santo. E, com o apóstolo Paulo, temos uma definição a respeito do corpo de Cristo, da igreja de Deus, dos gentios como coerdeiros, coparticipantes — parceiros, por assim dizer, na família de Deus.
Paulo viu isso com tanta clareza, com uma clareza extraordinária. Quanto a Abraão, até que o encontremos e possamos perguntar-lhe, não tenho certeza de quão preciso era o seu entendimento, mas ele viu.
O que me espanta é que existem milhares e milhares de crentes nascidos de novo que não têm a menor ideia dessa visão celestial. Tudo o que sabem é que precisamos nos converter, ler a Bíblia, fazer nossas orações e participar das reuniões da igreja com certa regularidade. Temos uma rotina.
Abraão seria um estranho a esse tipo de mentalidade. Ele viu algo, e o que viu o tomou de tal maneira que nunca mais pôde ser o mesmo. Mudou toda a sua vida. Mudou a direção de sua vida.
De uma vida vazia — uma vida que Deus descreveria como vaidade —, ele passou a viver uma vida de realização extraordinária.
Abraão tornou-se o pai de todos os que creem, tanto judeus como gentios.
Eu simplesmente penso que — bem, não vou dizer mais nada sobre isso — conhecer os mistérios de Deus é o seu direito de primogenitura.
Você deveria compreender algo do mistério da habitação interior do Senhor Jesus. Deveria compreender algo do mistério da igreja, que é o Seu corpo. Deveria compreender o mistério de Israel.
Essas coisas pertencem a você. São o seu direito de primogenitura. Não são algo insondável, algo impossível de investigar. São o seu direito de primogenitura. Se Abraão compreendeu essas coisas na antiga aliança, quanto mais você deveria compreendê-las na nova aliança?
Digo que isso é tremendo. Quando leio Romanos 9:3, ouço esse assunto ecoar nas palavras do apóstolo Paulo:
Porque eu mesmo poderia desejar ser anátema, separado de Cristo, por amor de meus irmãos, meus parentes segundo a carne; que são israelitas, dos quais é a adoção, e a glória, e as alianças, e a promulgação da lei, e o serviço de Deus, e as promessas; dos quais são os pais, e dos quais é o Cristo segundo a carne, o Qual é sobre todos, Deus bendito para sempre. Amém.
Que lista! Notem que ele não diz: “Dos quais era”, mas: “Dos quais é”.
E vejam estas palavras maravilhosas em Romanos 9:25-26:
Como também diz em Oseias: Chamarei Meu povo ao que não era Meu povo; e amada à que não era amada. E acontecerá que, no lugar em que lhes foi dito: Vós não sois Meu povo, ali serão chamados filhos do Deus vivo.
Acho isso simplesmente tremendo.
Abraão viu isso quando o Deus da glória lhe apareceu. Se ele viu tudo de uma só vez? Tenho quase certeza de que não. O Senhor deve ter revelado isso etapa por etapa, passo a passo. Mas ele viu.
E, é claro, isso está contido em Apocalipse 21:9. Vou ler para vocês:
Vem cá, mostrar-te-ei a noiva, a esposa do Cordeiro. E levou-me em espírito a um monte grande e alto, e mostrou-me a santa cidade, Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, tendo a glória de Deus. O seu brilho era semelhante a uma pedra preciosíssima, como pedra de jaspe, transparente como cristal; tendo uma muralha grande e alta; tendo doze portas, e, nas portas, doze anjos; e nomes escritos sobre elas, que são os nomes das doze tribos dos filhos de Israel; ao oriente, três portas; ao norte, três portas; ao sul, três portas; e ao ocidente, três portas. E a muralha da cidade tinha doze fundamentos, e neles os doze nomes dos doze apóstolos do Cordeiro.
Sabem, eu acho isso… Quero dizer, essa era a cidade que Abraão buscava. Temos os doze patriarcas e temos os doze apóstolos. É algo maravilhoso.
Dentro dessa cidade não há parede de separação. Não há judeu contra gentio e gentio contra judeu, mas um só novo homem.
Essa visão celestial — essa realidade que deixou Paulo atordoado, que o abalou espiritualmente —, Abraão também a viu, ah, de longe. Ele viu todo o conselho de Deus.
Fico tão cansado quando viajo. É claro que estou envelhecendo, então fico cansado de qualquer maneira, mas fico tão cansado desses crentes implicantes, de mente estreita e coração mesquinho.
Em alguns lugares, dizem-me: “Gostaríamos que você viesse falar. Não mencione Israel”. Em outros lugares, convidam-me para falar e dizem: “Por favor, não fale sobre o Espírito Santo”. Em outros, dizem-me: “Por favor, não fale sobre ser crucificado com Cristo”.
E assim por diante. Rostos cobertos por um véu. Não o conselho completo de Deus — tudo velado. Veem apenas em parte. Recusam-se a ver todo o conselho de Deus.
Mas parece-me que Abraão, chamado pai de todos os que creem, pai da fé, dos fiéis, viu algo de todo o conselho de Deus. Ele viu todo o panorama da redenção, desde os seus dias até o fim.
Bem, chega de introdução. Como posso eu — como podemos nós — participar de maneira prática dessa visão celestial?
Parece-me que há cinco coisas sobre as quais quero falar nesta noite. Talvez eu não consiga chegar a todas, mas veremos como vamos. E, quando eu vir todos vocês dormindo, vou parar.
A primeira coisa é óbvia: uma fé viva e operante.
Sem fé é impossível agradar a Deus.
Posso dizer isso novamente?
Sem fé é impossível agradar a Deus.
Você pode ter conhecimento — conhecimento de sobra. Pode recitar as Escrituras. Pode participar da mesa do Senhor. Pode ter sido batizado. Mas, se não tiver uma fé viva e operante, é impossível agradar a Deus.
Uma fé viva, em contraste com uma fé acadêmica, é essencial. É essencial para você crescer no Senhor. É essencial para você compreender o Senhor. É essencial para você experimentar o Senhor. É essencial no serviço de Deus. É essencial na vida da igreja.
A fé viva e operante é um dom de Deus. Não é algo natural em nós. É algo que Deus nos dá, e vem por meio da visão. Quando você vê o Senhor, espontaneamente a fé entra em ação.
Sempre foi assim. Abraão foi um testemunho desse tipo de fé. Ele tinha uma fé viva e operante.
Era o tipo de fé que o unia à visão. Ele viu o Deus da glória. Aquela fé viva fez dele um seguidor do Senhor. Ele andou com o Senhor. Tornou-se amigo de Deus.
Era uma fé viva que o unia à visão. Não era uma fé acadêmica, apenas intelectual, mas uma fé que operava — uma fé relevante, prática. Ela se expressava.
Por exemplo, o Senhor lhe disse que lhe daria uma terra. No entanto, ele nunca tomou posse daquela terra.
Como eu disse na noite anterior, ele até precisou comprar um campo nela para um lugar de sepultamento. Aquele foi o único pedacinho minúsculo, do tamanho de um selo postal, da terra prometida que ele realmente possuía quando morreu.
E, ainda assim, tinha uma fé tão viva que creu em Deus.
Deus lhe disse:
Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra.
E, quando lemos aquela passagem em Romanos 4:18, é impressionante para mim como ele esperou contra a esperança.
Vocês notaram aquelas palavras extraordinárias? Algumas pessoas pensam que, quando têm fé, não devem olhar para a realidade. Você precisa se isolar da realidade para poder ter fé. Não deve encarar os fatos.
Mas o maravilhoso em Romanos 4:19 são estas palavras:
E, sem se enfraquecer na fé, considerou o seu próprio corpo já como morto.
Não é uma maneira belíssima de dizer isso? Já como morto, tendo ele cem anos, e a esterilidade do ventre de Sara. Ela era uma senhora idosa.
Quero dizer, penso que a maioria de nós diria: “Não faça isso, não, não! Se fizer isso, terá um coração mau de incredulidade”. Mas esse tipo de fé viva podia encarar os fatos, encarar a realidade e, ainda assim, crer que Deus podia fazê-lo.
E é exatamente isso que o texto diz:
Não vacilou por incredulidade, mas fortaleceu-se pela fé, dando glória a Deus; e estando plenamente convicto de que o que Deus havia prometido, Ele também era poderoso para cumprir. Pelo que também isso lhe foi imputado por justiça.
Esse tipo de fé viva nos une à visão.
Vejam, meus amigos, se vimos algo do propósito de Deus, se vimos algo do significado do nosso Senhor Jesus, se vimos algo da igreja, que é o Seu corpo, se compreendemos algo a respeito dessa esposa do Cordeiro, dessa cidade de Deus no final da Bíblia, somente uma fé viva nos unirá a isso.
Assim, não vacilaremos por incredulidade e, no fim, não seremos desobedientes à visão celestial.
Considerem as falhas na fé. Abraão é chamado pai de todos os que creem e é, para nós, um símbolo extraordinário de uma fé viva e operante. Mas Abraão teve algumas falhas de fé impressionantes.
Quase imediatamente depois que o Deus da glória lhe apareceu, houve fome na terra, e ele desceu ao Egito.
Ele saiu dos limites da terra que Deus lhe havia prometido e na qual lhe havia ordenado habitar. Assim que saiu, assim que desceu, meteu-se numa confusão.
Ele estava com medo de que Sara, tão bela, se tornasse o motivo de seu assassinato. Então lhe disse: “Você se importa? Apenas diga a eles que é minha irmã. Eu direi que você é minha irmã; você diga que sou seu irmão”.
Era uma meia-verdade. Bem, nós, judeus, somos muito bons nisso. Era uma meia-verdade. Em certo sentido, era verdade, mas o que Abraão estava dizendo era uma concessão indevida.
Ele nunca teria se metido nessa confusão se tivesse permanecido na terra.
Vocês conhecem a história. O impressionante é que Abraão, pelo que podemos perceber, não estava nem um pouco com a consciência pesada.
Todos pensamos em Jacó como o trapaceiro, mas, na verdade, aqui está Abraão mostrando um pouco dessa mesma astúcia tortuosa. Alguma coisa nos genes chegou até Jacó.
Isso me chama a atenção, porque ele não demonstra qualquer peso na consciência por esse assunto; só houve uma reação quando uma praga atingiu a casa de Faraó — especialmente Faraó e sua primeira esposa.
Quando provavelmente pediram aos encantadores e aos sábios que explicassem o que estava acontecendo, eles devem ter dito: “Há alguém aqui que mentiu para vocês”.
Foi então que Faraó procurou Abraão. Agora, ouçam isto. Ele disse: “O que você fez comigo e com a minha casa, dizendo que Sara era sua irmã? Eu nunca toquei nela”.
Na verdade, foi o Senhor Quem impediu Faraó de tocar em Sara. E aqui está o mais impressionante de tudo: acreditem ou não, está no Livro.
Abraão saiu com ouro, prata, jumentos, ovelhas e cabras. Bem, talvez alguns de vocês não queiram particularmente algumas dessas coisas, mas o fato é que ele saiu com muito mais do que tinha quando entrou.
Deus é tão extraordinário. Deus é tão cheio de graça. Tão absolutamente fiel àqueles que realmente desejam segui-Lo.
A segunda vez que Abraão se meteu nessa confusão foi dentro da terra, e dessa vez foi com Abimeleque.
Vocês imaginariam que ele tivesse aprendido. Mas não. Dessa vez, disse a Sara: “Apenas diga a ele que você é minha irmã. Eu sou seu irmão”. E a mesma coisa aconteceu com Abimeleque.
E Abimeleque veio a Abraão e disse: “Por que você fez isso comigo? Toda a casa está estéril. Você é o responsável”.
Mais uma vez, leiam a história: Abraão sai com ouro, prata, camelos, cabras e ovelhas. É uma história impressionante.
As falhas de fé de Abraão.
A maior falha, a mais grave, foi no caso de Ismael.
Sabem, a querida Sara era uma mulher tão, tão notável. E, um dia, disse a Abraão: “Acho que você pode ter se enganado a respeito desse filho da promessa”.
“Você sabe, está perto dos cem anos, e eu estou chegando à mesma idade. Olhe, sabemos que Deus pode fazer qualquer coisa, mas Deus obedece às leis naturais. Você precisa usar o bom senso.”
Sabem, sempre ouço isso nos círculos da igreja: “Precisamos usar o bom senso”. Ouço isso em comissões, entre presbíteros, entre diáconos. Não sei o que mais todos eles dizem. “Precisamos usar o bom senso. Deus nos deu bom senso.”
A maior parte desse bom senso de que falam é incredulidade. Não é bom senso de maneira nenhuma.
Para mim, o bom senso é muito simples. Se você está unido ao Deus vivo, nada é impossível. E, se Ele disse que fará isto, isto e isto, o bom senso é segui-Lo e crer Nele. Não é? Vocês não concordam comigo? Isso é bom senso. Nunca consegui entender de outra maneira.
Toda essa coisa de nos reunirmos e dizermos: “O que faremos com os jovens neste próximo verão?”. Então fazem uma breve oração: “Senhor, abençoa-nos, nós Te pedimos. Agora, dá-nos o Teu pensamento”.
Depois, todos nós conversamos sobre isto, aquilo e aquilo outro. Teremos isto; faremos um churrasco; faremos isto, faremos aquilo, faremos mais alguma coisa. Então inclinamos a cabeça e dizemos: “Querido Senhor, abençoa esse Teu pensamento que nos deste nesta conversa que tivemos juntos”.
Depois nos perguntamos por que nada acontece durante o verão inteiro. Ninguém é salvo. Ninguém tem um encontro com Deus. Não ocorre mudança alguma nos jovens. Bem, qual é o problema? O bom senso.
Se realmente crêssemos em Deus, ficaríamos de joelhos e diríamos: “Senhor, ajuda-nos. O que podemos fazer para que os jovens entre nós sejam naturais, espontâneos, sem nenhum peso colocado sobre eles por nós, mas, ao mesmo tempo, de alguma maneira, sejam ajudados a entrar numa experiência real e viva com o Senhor?”.
A querida Sara disse: “Precisamos usar o bom senso. Olhe, tenho uma moça muito boa que me ajuda. Acho que é isso que o Senhor quer que você faça”.
E Abraão pensou por algum tempo e decidiu que aquela era a coisa óbvia a fazer. Tinham esperado tanto pelo cumprimento daquela palavra do Senhor que ele decidiu: “Realmente, está certo. Precisamos obedecer à lei natural”.
E Ismael nasceu. Vocês sabem que, depois do nascimento de Ismael, o Senhor não voltou a falar com Abraão por cerca de dezesseis anos?
Foi o maior erro que Abraão cometeu. E o mais impressionante é que o Senhor abençoou Ismael — tanto Agar como Ismael. Ele fez uma aliança com Ismael e sua descendência, que tem durado até hoje.
Afinal, a maior parte do petróleo do mundo está nas mãos deles. É muito interessante.
Mas os problemas que enfrentamos no Oriente Médio e os problemas que todo o mundo ocidental está enfrentando têm sua origem no nascimento de Ismael.
Bem, então digo: ouçam esta coisa extraordinária — você e eu precisamos de uma fé viva e operante.
No fim, Abraão aprendeu. O que estou tentando dizer é isto: só porque você tem uma fé viva e operante, isso não significa que não terá falhas na fé. Só porque tem uma fé viva e operante, isso não significa que, às vezes, não cometerá erros.
Mas a graça de Deus para com Abraão é notável.
Essa é a primeira coisa que quero dizer nesta noite. Como você e eu podemos participar? Como podemos participar dessa visão celestial? Por meio de uma fé viva e operante, que nos une ao Senhor, que faz de nós seguidores do Senhor, pessoas que O ouvem.
Isso me leva à segunda coisa: obediência total ao Senhor.
Gênesis 12:4 diz assim:
Assim, partiu Abrão, como o Senhor lhe havia dito.
Não é belo? Uma frase tão simples:
Assim, partiu Abrão, como o Senhor lhe havia dito.
Essa foi provavelmente a ocasião em que o Deus da glória lhe apareceu. Sabemos que foi antes de chegarem a Harã, quando ele ainda estava em Ur dos caldeus. Mas, fosse o que fosse que o Senhor lhe tivesse dito, Abraão seguiu com o Senhor.
Isso é obediência. Quando vocês me perguntam: “O que é obediência?”, é seguir com o Senhor. Não é apenas ouvir o Senhor; é obedecer-Lhe — seguir com Ele.
É isso que o autor da carta aos Hebreus diz em Hebreus 11:8:
Pela fé, Abraão, sendo chamado, obedeceu, saindo para um lugar que havia de receber por herança; e saiu, sem saber para onde ia.
Pensem nisso: Abraão nem sequer sabia para onde estava indo. Conseguem imaginar seus amigos e parentes que ficaram em Ur dos caldeus? Conseguem imaginar seus colegas de negócios?
“O que Abraão está fazendo? Ele foi embora. Para onde está indo?”
“Ele não sabe.”
“Você quer dizer que ele deixou sua propriedade, sua casa, seus negócios e tudo o mais? E não sabe para onde está indo?”
“Bem, é isso que ele diz. Diz que vai receber as orientações pelo caminho.”
“Ah, ele deve estar… Ele está com um parafuso a menos. Alguma coisa aconteceu com ele. Era um homem tão inteligente, tão capaz, tão sofisticado, e não sabe! O que está fazendo?”
“Bem, ele tem ovelhas e cabras. Ovelhas e cabras.”
“Como assim? Virou açougueiro? O que está fazendo com ovelhas e cabras?”
“Bem, ele é um criador de rebanhos.”
“Um criador de rebanhos? Abraão? Um criador de rebanhos?”
É de admirar que o Senhor lhe acrescentasse, mesmo quando cometia erros, mais ovelhas, mais cabras, mais camelos, e também ouro e prata?
Quando alguém obedece ao Senhor com obediência total, às vezes comete erros sérios, mas o Senhor os transforma em bem.
O melhor exemplo disso foi Davi, o rei Davi, quando pecou de maneira terrível contra um de seus servos mais fiéis, Urias, o heteu.
Ele providenciou para que Urias ficasse na frente da batalha e para que o batalhão recuasse, deixando-o ali para ser morto. Depois tomou Bate-Seba, e ela deu à luz um filho.
Somente quando aquela criança morreu Davi se arrependeu. O impressionante é isto: Bate-Seba tornou-se mãe tanto de Salomão como de Natã, e ambos estão na genealogia messiânica.
Não é extraordinário? Assim são os caminhos do Senhor… É claro que não estou incentivando vocês a pecar. Mas o que estou dizendo é isto: quando há entrega total ao Senhor, obediência total, mesmo quando você comete erros, mesmo quando peca e se arrepende, o Senhor transforma isso em bem.
A desobediência em relação à terra é algo bastante extraordinário. Já falamos das falhas na fé quando ele desceu ao Egito, mas é impressionante. O nascimento de Isaque também é bastante extraordinário.
As concessões que fez, quando não obedeceu ao Senhor, foram levar consigo seu pai, Terá, e Ló.
Bem, o relato não deixa muito claro exatamente o que aconteceu com Terá, seu pai, porque, pela maneira como está escrito, parece que Terá tomou a iniciativa e disse: “Vamos para Harã”.
Mas o que está claro é que somente quando Terá morreu em Harã o Senhor fez Abraão prosseguir para a terra prometida.
Mas Abraão levou Ló e, como eu disse, nas palavras do senhor Sparks, “Ló deu um lote de problemas”. E ainda temos a descendência de Ló conosco hoje. Ele se tornou o pai dos moabitas e dos amonitas, de modo que isso permanece conosco até o dia de hoje.
Deus havia dito a Abraão: “Sai da casa de teu pai, de Ur dos caldeus. Deixa tudo para trás”.
Abraão obedeceu, mas, aparentemente, levou Terá e Ló. Levou bastante tempo para o Senhor libertá-lo primeiro de seu pai e, depois — por ainda mais tempo —, de Ló.
Mas aqui, penso eu, há algo que todos podemos aprender: a desobediência tem suas consequências e, às vezes, precisamos conviver com as consequências de nossa desobediência.
A obediência total é um segundo elemento vital para não sermos desobedientes à visão celestial. Precisamos obedecer.
O que é essa visão celestial? O que ela diz? O que significa? Até que ponto é prática? Como devemos obedecer? Somente Deus pode falar conosco.
Eu, pessoalmente, não poderia fazer parte de uma denominação. Eu não me sentiria livre para fazer parte de algum tipo de obra fortemente estruturada como tal.
Conheço outros que não sentem o mesmo que eu, mas é assim que me sinto. Não posso obedecer ao Senhor, obedecer à visão celestial e fazer concessões em algumas dessas coisas.
Não tenho nenhum problema em transitar entre o povo do Senhor, onde quer que ele se encontre. Se podemos edificá-los, se podemos ajudá-los a prosseguir com o Senhor, somos um só povo. Somos uma só família. Precisamos uns dos outros.
Mas há questões desse tipo que se resumem à obediência, e o Senhor nos prova muito nessas coisas, até o último detalhe.
Agora, aqui está a terceira coisa: o caráter essencial do Calvário.
É muito interessante que Abraão tenha edificado quatro altares: o primeiro, em Siquém; o segundo, em Betel; o terceiro, em Hebrom; o quarto, em Moriá.
Em toda a Bíblia, o altar é sempre o símbolo do Calvário. É o lugar do sacrifício. É onde você pode invocar o nome do Senhor.
De que outra maneira os pecadores podem realmente chegar a Deus? Como podem ter comunhão com Deus? Como podem entrar na presença de Deus? Somente por meio do sacrifício do nosso Senhor Jesus no Calvário, por meio de Sua obra consumada no Calvário, por meio da obra justificadora pela qual Ele foi feito pecado por nós, para que Nele nos tornássemos justiça de Deus.
Isso quase ultrapassa nossa compreensão, mas é maravilhoso. Esses altares — quatro deles — são quase, sabem, como a terra inteira, o universo inteiro: os quatro cantos, os quatro ventos, as quatro estações. Isso significa universalidade.
Aqui está algo tão impressionante: o Calvário está na raiz de todas as jornadas de Abraão, de sua peregrinação. Tudo começou em Siquém.
Mas é mais do que isso. Deixem-me dizer, antes de falar um pouco sobre Siquém, que é mais do que apenas a obra consumada do Senhor Jesus, embora eu não queira diminuir nem desvalorizar essa obra.
Naquela obra consumada, nós também fomos levados ao fim. Morremos com Cristo.
Aqueles quatro altares não falam apenas do fato de que Jesus morreu em meu lugar, por mim. Também falam do fato de que Jesus morreu como sendo eu.
Abraão estava dizendo: “Saí de Ur dos caldeus. Saí da Mesopotâmia. Saí da casa de meu pai”. Pouco depois, também estava livre de Ló.
Aquele altar — Siquém, em hebraico, significa ombro, ombro ou costas.
Bem, quando você tem problemas nas costas, como eu tenho, entende como é difícil viver sem elas funcionando bem.
Por que a Escritura fala do governo sobre o ombro?
Porque um Menino nos nasceu, um Filho se nos deu; e o governo estará sobre o Seu ombro; e o Seu nome será: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz.
Aquele altar significa uma coisa. Ele prefigurava, simbolizava o simples fato de que Abraão estava dizendo: “Tu és Senhor. Ao Teu governo, obedecerei”.
Tudo começou com o senhorio de Jesus. Você não pode participar da visão celestial se não estiver sob o senhorio de Jesus.
Enquanto sua mente, seus pensamentos e seus conceitos estiverem, de fato, fora do governo de Deus — se não forem governados pela Palavra de Deus, se você tiver sua própria maneira de ver as coisas, sua própria maneira de abordá-las —, você não poderá participar da visão celestial.
Temos um só Cabeça, e esse Cabeça é o Senhor Jesus. Não podemos ter mil cabeças. Temos um só Cabeça.
Abraão edificou aquele altar, ofereceu sacrifício sobre ele e invocou o nome do Senhor. Era o reconhecimento de que o governo está sobre o ombro do Senhor Jesus.
O segundo altar é muito interessante: Betel e Ai. Betel significa casa de Deus, e Ai significa um monte de ruínas.
Ele armou sua tenda com Ai, o monte de ruínas, atrás de si, e Betel, a casa de Deus, à sua frente. Curiosamente, o leste estava atrás e o oeste à frente. Em outras palavras, onde o sol nasce estava o monte de ruínas, e ele seguia em direção à casa de Deus.
Você está caminhando em direção à casa de Deus? Não há como participar da visão celestial se você não compreendeu a casa de Deus.
É algo impressionante. Por toda parte na Palavra de Deus, encontramos isso:
Uma coisa pedi ao Senhor, e a buscarei: que eu possa habitar na casa do Senhor todos os dias da minha vida.
Não é extraordinário? Pensem nisso. O que é essa morada do Senhor? É o Senhor Jesus. Mas o que é essa morada do Senhor? É o Senhor Jesus, você e eu — todos os que Ele salvou.
Somos as pedras vivas com as quais essa casa do Senhor, essa morada de Deus, será edificada.
Sempre aprecio o simples fato de que, segundo nossa tradição judaica, Davi escreveu o Salmo 23 quando era menino, nem sequer no fim da adolescência — estava no meio dela.
E nele diz — vocês conhecem, não é?
O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz deitar em pastos verdejantes; Ele me guia junto às águas tranquilas. Ele restaura a minha alma; Ele me guia pelas veredas da justiça, por amor do Seu nome.
Depois, ele diz:
E habitarei na casa do Senhor para sempre.
Mas não havia casa do Senhor quando ele era menino. Não havia casa do Senhor.
Também, segundo uma de nossas tradições, a mãe de Davi era uma das tecelãs do véu do tabernáculo. Será que, às vezes, ela lhe dizia: “Você sabe, não temos uma casa permanente para o Senhor”? Não sei.
Mas tudo o que sei é isto: algo tomou o coração de Davi e permaneceu com ele por toda a sua vida. Ele viveu para a casa do Senhor.
Ele disse:
Não descansarei. Não darei sono aos meus olhos; até que encontre um lugar para o Senhor, uma morada para o Poderoso de Jacó.
Se isso nos consumisse, não seria algo extraordinário?
Você deu as costas à ruína? Vocês, mais jovens, provavelmente não sentem que são uma ruína. Nós, mais velhos, sabemos que somos.
Ah, quem dera vocês dessem as costas à ruína. Vocês dão tanta importância à sua vida jovem — às suas esperanças, às suas ambições, à sua carreira, ao seu casamento, à família que terão.
Tudo isso é ruína se não estiver ligado e relacionado à casa do Senhor.
Somente quando você tiver o ponto central do propósito de Deus, o coração do propósito de Deus, saberá o que é estar no eterno.
Bem, queridos amigos, eu poderia continuar e continuar, mas vocês não acham isso tremendo? Ele armou sua tenda com Betel à frente e Ai atrás.
Há muito mais que poderíamos dizer sobre isso, porque Ai era o lugar do juízo. É exatamente disso que a cruz fala: aquela velha ruína, aquele velho homem, aquela velha natureza — julgados, eliminados em Cristo.
Pelo que, se alguém está em Cristo, é nova criatura; as coisas velhas já passaram; eis que se fizeram novas.
A casa do Senhor.
Agora pensem em Hebrom. Aqui temos algo um pouco difícil porque, em hebraico, originalmente Hebrom provavelmente significava um vau.
Bem, não há rios naquela região. Conheço-a muito bem, por isso posso dizer que não há rios. Mas existem uádis sazonais que escavam grandes ravinas no deserto. No inverno, quando vêm aquelas chuvas torrenciais, só se pode atravessá-los em determinados pontos.
Originalmente, Hebrom era chamado de vau. Depois veio a ideia de associação, de comunhão, como penso que o querido velho Fausset explicou em sua enciclopédia.
Em outras palavras, agora você avançou mais uma etapa. Aqui está o terceiro altar: ele diz respeito à comunhão. Diz respeito à associação daqueles que pertencem ao Senhor.
Sabem, o que é comunhão? A palavra grega significa simplesmente compartilhar. É ter algo em comum.
O que você e eu temos em comum? Posso dizer o que tenho em comum com você. Sou judeu. Tenho uma origem judaica, embora não tenha sido criado de maneira ortodoxa.
Eu nem sequer sabia muito sobre minha origem, exceto que toda a comunidade judaica de nossa região, inclusive o rabino, procurava nos ajudar, estar conosco e nos proteger nos primeiros anos de nossa vida.
Mas posso dizer isto: se você não é judeu, e eu sou judeu, em Cristo temos uma coisa em comum: o Senhor Jesus.
O Senhor Jesus é o meu Salvador. Ele é o seu Salvador. Ele é o meu Cabeça. Ele é o seu Cabeça. Ele é o meu alvo. Ele é o seu alvo. Minha plenitude se encontra Nele. Sua plenitude se encontra Nele.
Não é extraordinário estarmos todos no único Cristo? Sejamos chineses, coreanos, alemães, escandinavos ou britânicos. É claro que os britânicos gostam de pensar que são os únicos que estão dentro!
Mas não importa quem seja, quem você seja. Se você está em Cristo, há um só Cristo. Não existe um Cristo chinês, um Cristo judeu, um Cristo sueco, um Cristo alemão, um Cristo italiano, um Cristo árabe ou um Cristo indiano.
Há um só Cristo, e todos estamos Nele. Esse único Cristo está em todos nós.
Agora, Ele Se manifesta. Ele usa nossa origem. Usa nossa formação cultural, de modo que, de alguma maneira, há algo muito precioso que não é apagado.
Alguns de vocês continuam chineses. Eu continuo judeu. Contudo, não há parede de separação. Você continua inglês. Outra pessoa continua dinamarquesa. Mas não há parede de separação.
O terceiro altar — o Calvário — é a base da comunhão. Nossa comunhão nasce da obra consumada do Senhor Jesus no Calvário e daquilo que Ele fez conosco ali.
Há ainda um quarto altar, e esse quarto altar é Moriá. Direi um pouco mais sobre ele daqui a pouco, mas, por enquanto, direi apenas que temos um problema com essa palavra, Moriah em inglês, Moriyyah em hebraico.
Temos um pequeno problema porque algumas de nossas autoridades nos dizem que significa: “O Senhor vê”.
Outras dizem que é mais do que isso, porque significa que, quando o Senhor vê, Ele provê. Portanto, o Senhor provê. Temos essa expressão: “O Senhor proverá”.
Outros acreditam — e são verdadeiras autoridades em hebraico — que significa “escolhido por Deus”.
De alguma maneira, quando chegamos a Moriá, ali está aquele altar: o Senhor proverá. Que experiência extraordinária Abraão teve. Ele passou do senhorio de Jesus à casa de Deus, à comunhão genuína e ao conhecimento do Senhor como sua provisão.
Para mim, se você e eu queremos participar da visão celestial e não ser desobedientes a ela, não há caminho à parte do Calvário.
Se eu puder abordar mais uma coisa — preciso cuidar do tempo —, é a aliança que Deus fez com Abraão.
Que quadro extraordinário temos em Gênesis 15:1, quando o Senhor disse:
Eu sou o teu escudo e o teu grandíssimo galardão.
O querido Abraão tinha um problema. Ele disse: “Senhor, é muito maravilhoso da Tua parte dizer isso a mim. Tu és a minha cobertura. Tu és Aquele que me guarda e me protege. Sou tão grato”.
“E Tu serás o meu grandíssimo galardão. Tu tens dito repetidamente, Senhor, que todas as famílias da terra serão abençoadas por meu intermédio. Sou muito grato. Disseste que eu seria uma bênção. Disseste: ‘Sê uma bênção’. Mas, Senhor, não tenho filhos.”
“Tu disseste: ‘Na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra’. Eu não tenho descendência de que falar.”
E o Senhor o levou para fora, mostrou-lhe os céus e disse: “Você vê aquelas estrelas? Consegue contá-las? É assim que será numerosa a sua descendência no fim”.
Então o Senhor lhe disse: “Tome uma novilha, uma cabra, um carneiro, uma rola e um pombinho. Divida a novilha, a cabra e o carneiro. Deixe as duas aves inteiras. Coloque as partes de cada lado, umas em frente às outras”.
O que significa tudo isso? Em primeiro lugar, é claro, todas essas criaturas estão relacionadas ao holocausto. Mas aquilo não era um holocausto, porque as aves de rapina desciam para tentar comê-las; elas não haviam sido consumidas pelo fogo.
Então, o que temos? É claro que era a maneira antiga de fazer uma aliança. Fazia-se uma aliança tomando um animal, dividindo-o em dois e, depois, a pessoa que fazia a aliança passava entre as partes.
O que tudo isso significa? O Senhor disse a Abraão: “Tome essas coisas e faça isso”. Então um pavor de grandes trevas caiu sobre Abraão.
E o Senhor lhe disse: “Saiba com certeza que, quando você se tornar uma nação, em outra terra estrangeira vocês serão escravizados e sofrerão muito por quatro gerações. Depois Eu os trarei para a terra”.
Então nos é contado o que aconteceu. Quando o sol se pôs, e aquele grande pavor, aquele horror de trevas caiu sobre Abraão, um forno fumegante e uma tocha de fogo passaram entre as partes.
Bem, a maioria das autoridades, dos comentários e de outros intérpretes nos diz que isso dizia respeito aos filhos de Israel no Egito. Esse forno fumegante era o sofrimento do povo de Israel no Egito, e a tocha de fogo era o testemunho que nunca se apagou.
Bem, não duvido de que haja uma enorme verdade nisso, porque as palavras do Senhor imediatamente o explicam dessa maneira. Mas sinto que há algo muito mais profundo.
Para mim, na aliança que o próprio Deus fez com Abraão, os animais foram divididos, as aves foram deixadas inteiras e, depois, um forno fumegante e uma tocha de fogo passaram de um lado para o outro entre os animais sacrificados.
Penso que o Calvário está novamente em vista.
Aquele forno fumegante — certamente os filhos de Israel estiveram nele —, mas o Senhor Jesus conheceu algo disso no Calvário. Ele soube o que era estar na fornalha da aflição quando clamou:
Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?
O Pentecostes foi a tocha de fogo. Foram línguas de fogo que vieram sobre cento e vinte pessoas e, em poucas horas, mais três mil foram salvas.
Não tenho dúvida de que aqui estava a mais extraordinária aliança que Deus fez com Abraão. Ele lhe deu algum entendimento de que viria um dia em que o Messias morreria e o fogo de Deus cairia sobre os redimidos.
Queridos amigos, se posso dizer isto antes de passar ao meu último ponto: a grande necessidade para o cumprimento de uma visão celestial é um núcleo de pessoas que sejam sacrifícios vivos.
Sempre que há uma assembleia na qual existe ao menos um núcleo de pessoas que caíram na terra e morreram, há a promessa de uma colheita. Há a promessa da morada de Deus. Há a promessa da casa de Deus. Há a promessa daquela cidade que tem os fundamentos.
Você precisa não apenas do forno fumegante; precisa da tocha de fogo. Não pode ficar com um sem o outro. Os dois pertencem um ao outro.
É um holocausto que constitui o sacrifício vivo. Acho impressionante que o apóstolo Paulo, depois de nos dar a maior exposição do evangelho na Bíblia, na carta aos Romanos, a conclua com estas palavras:
Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis os vossos corpos como sacrifício vivo, santo, agradável a Deus, que é o vosso serviço espiritual.
Disso surge o corpo do Senhor Jesus. Vocês leem isso em Romanos 12:5:
Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente membros uns dos outros.
Isso nasce de um sacrifício vivo. Quando as pessoas simplesmente se consideram importantes, querem dominar sobre os outros, querem ser líderes, querem estar na liderança, querem o tempo todo a glória que vem desse tipo de coisa, vocês não têm a casa de Deus.
Vocês não têm o corpo do Senhor Jesus edificando a si mesmo em amor. Mas, onde há pessoas que se tornam sacrifícios vivos, disso surge a tocha de fogo.
É fogo. Não me refiro a fogo estranho. Refiro-me ao fogo de Deus.
Gostaria de conseguir expressar isso com mais clareza e simplicidade.
Finalmente, quero dizer um pouco mais sobre aquele último altar, Moriá. Para mim, é o acontecimento mais notável da vida de Abraão.
Quando o Senhor lhe disse:
Toma teu filho, a quem amas, teu único filho.
Não é interessante? Três vezes aparece a expressão “teu único filho”, deixando de lado o pobre Ismael.
Toma teu filho, a quem amas, teu único filho, e oferece-o em holocausto no monte que Eu te mostrarei.
Era o monte Moriá.
Lembre-se, querido filho de Deus, de como Isaque era essencial para o propósito de Deus, para todo o curso da história divina.
A sobrevivência de Isaque, seu crescimento e seu bem-estar eram prioridade, sob determinado ponto de vista.
Abraão, que havia esperado uma vida inteira — até quase os cem anos — para ver aquele menino, aquele filho da promessa, nascer, agora via naquele filho todo o propósito de Deus concentrado e focalizado.
Então o Senhor veio e disse: “Tome este filho, seu único filho, a quem você ama, e ofereça-o em holocausto”.
Vocês já me ouviram por tempo suficiente; então, posso dizer algo que espero que penetre no coração de muitos no mundo cristão.
Existem muitos Ismaéis — coisas nascidas da carne, coisas produzidas pela carne. Têm os conceitos da carne: os caminhos do mundo, as técnicas do mundo, as metodologias do mundo.
Ismael talvez se parecesse mais com Abraão do que Isaque. Se vocês vissem aquele menino correndo por ali, diriam: “Ah, é obviamente o filho de Abraão”. Mas Ismael não era o filho da promessa.
Você pode ter um modelo bíblico. Pode ter um modelo bíblico perfeito. Pode ter toda uma rotina de igreja. Mas, se for um Ismael, nunca poderá herdar.
Isaque talvez nem sequer se parecesse com Abraão. Talvez se parecesse com alguém da família de sua mãe. Mas ele era o filho da promessa. Nasceu, se posso dizer assim, do Espírito.
Por que o Senhor disse a Abraão: “Sacrifique seu único filho”? Minha voz está chegando até vocês? Todos aí atrás conseguem me ouvir, ou estou falando baixo demais?
Por que Ele disse: “Sacrifique seu único filho”?
A lição mais profunda que podemos aprender no serviço de Deus é abrir mão daquilo que vimos nascer de Deus.
Bem, não quero dizer isso de maneira errada. Devemos ser sentinelas. Devemos ser pastores. Devemos ser supervisores.
Mas chega um ponto em que nossa vida carnal se apodera da visão e, então, quando isso acontece, a sombra da morte cai sobre tudo.
Lembro-me de anos atrás, quando eu tinha vinte e poucos anos e a obra em Halford havia começado. Tínhamos realmente orado todas as noites, durante quatro meses, e daquela oração nasceu a obra.
Fiquei muito esgotado e fui procurar o irmão Sparks. Abri meu coração a ele. Disse: “Sabe, sou chamado à oração, e tenho sentido dores de parto em oração. Sinceramente, apesar de ser tão jovem, creio que tenho sentido dores de parto em oração”.
“Mas agora estou sentindo quase uma espécie de repulsa.”
O senhor Sparks ouviu em silêncio. Embora pudesse ser um homem muito severo e muito rigoroso, na verdade era um homem muito amoroso.
Ele olhou para mim e disse: “Meu querido, a sua alma se envolveu nisso”.
“O quê?”, perguntei. “Você quer dizer que não é de Deus?”
“Não”, respondeu. “É de Deus. Esta obra nasceu de Deus. Mas agora a sua alma se envolveu nisso. Abra mão dela”, disse ele.
Deixem-me dar outro pequeno exemplo da minha própria experiência. Quando estava no Egito, fiquei muito, muito doente com hepatite — daquele tipo muito grave.
Durante várias semanas, fiquei restrito ao leito no hospital. Não me permitiam ir ao banheiro, nem tocar o chão com os pés. Eu tinha uma dieta especial.
Todos os dias, uma querida missionária idosa vinha sentar-se comigo à tarde. Eu estava tão deprimido. Ficava ali sem dizer nada, e ela ficava ali sem dizer nada.
Sou muito grato por isso. Não suporto aquele tipo de missionário que precisa dar uma lição em você. Ela apenas ficava sentada ali, em silêncio.
Então, um dia, ela me disse: “Você está muito deprimido hoje, mais do que de costume. Pode me contar o que é?”.
“Sim”, respondi, sem forças. “Não consigo entender o Senhor.”
“Você não consegue entender o Senhor”, disse ela. “Então somos dois.”
Eu disse: “Bem…”.
Ela perguntou: “O que está incomodando você?”.
Eu disse: “Olhe, no acampamento, no acampamento da Força Aérea, vários daqueles rapazes estão prestes a receber Cristo. Eles começaram a vir aos cultos. Estão fazendo perguntas. Até pediram Bíblias”.
“E”, continuei, “quando tudo está acontecendo, o Senhor permite que eu seja afastado.”
Ela ouviu.
E disse: “Bem, bem. Se é a obra de Lance, ela vai desaparecer, e nós diremos: ‘Aleluia’”.
“E, se é a obra do Espírito de Deus, continuará, esteja você lá ou não.”
Sabem, aquilo entrou no meu coração. De repente, eu vi: tinha colocado as mãos sobre aquilo, como se fosse meu.
Abri mão daquilo e, pela primeira vez em semanas, sorri.
Ela disse: “Não tenha medo. Se esta é uma obra do Espírito de Deus, ela continuará”. E foi embora com seu passinho ligeiro. Voltou de bicicleta, sob o sol do meio-dia, para a instituição onde trabalhava.
Quando voltei àquele acampamento, descobri que aqueles rapazes — vários deles — haviam encontrado o Senhor. Não tinham ninguém para orientá-los. Não tinham livros. Simplesmente haviam encontrado o Senhor.
Isso me ensinou uma das maiores lições, que eu teria de aprender novamente quando surgiu a obra em Halford House, em Richmond, na Inglaterra.
E a lição era esta: você pode se apoderar da visão. Quando isso acontece, torna-se tão protetor que, por assim dizer, sufoca a visão.
Deus disse a Abraão: “Tome seu filho, a quem você ama, seu único filho, e sacrifique-o”.
É isso que significa cair na terra e morrer.
Disso nasce nova vida, novo poder, nova visão, novo entendimento — não para você. Você já compreende. Já vê. Mas para os outros.
A sua morte permitiu que o Espírito Santo viesse sobre muitas outras pessoas.
Que o Senhor tome estas pequenas e simples lições e as grave com fogo em nosso coração.
Disse o apóstolo Paulo:
Não fui desobediente à visão celestial.
Abraão não usou essas palavras, mas poderia tê-las dito ao fim de sua vida: “Não fui desobediente à visão celestial”.
Que você participe dessa visão celestial que nos é dada em nosso Senhor Jesus.
Obrigado.