Bom dia, irmãos.
Eu sempre começo com um princípio simples. Acabamos de cantá-lo e de orar a respeito dele, e o coração de todos nós está voltado nessa direção: queremos ver o Senhor.
Então, deixem-me começar com um versículo da Bíblia. Depois vou orar, e examinaremos juntos a Palavra de Deus. O versículo está no livro de Oseias 10:12:
Lavrai o vosso campo em pousio,
Pois é tempo de buscar o Senhor,
Até que Ele venha fazer chover justiça sobre vós.
Não é um versículo maravilhoso? Por muito tempo, eu não entendi a palavra pousio. Olhava para o meu coração e até orava: “Senhor, lavra este campo em pousio”. Mas o que eu tinha em mente era um terreno cheio de espinhos e sarças, com ervas daninhas crescendo onde não deveriam. Eu chamava isso de campo em pousio.
Isso não é um campo em pousio. Um campo em pousio não tem ervas daninhas. Não tem espinhos nem sarças crescendo nele. É um terreno que foi arado, mas que não tem semente. É um terreno sem vida. Isso é um campo em pousio, mas ele está preparado. Já está preparado.
Não há ervas daninhas nele. Foi arado; está todo preparado e aguarda a vida. Por isso, esse versículo é muito precioso:
Lavrai o vosso campo em pousio.
É tempo de buscar o Senhor, até que Ele faça chover justiça.
Se há um campo em pousio — um terreno sem vida —, vamos colocá-lo diante do Senhor. Será pedir demais, irmãos, que Ele faça chover sobre nós nesta manhã e nos dê essa vida, nos dê essa semente, para que esse terreno seja uma boa terra? Vamos orar.
Pai, mais uma vez nos curvamos diante de Ti. Somos tão gratos porque, em momentos como estes, Tu não nos deixaste por nossa própria conta nem nos entregaste aos cuidados de algum mestre humano. Pelo contrário, Tu nos deste o Teu Espírito Santo. Tu nos deste a Tua preciosa Palavra. Tu firmaste uma aliança conosco para fazer Cristo raiar em nosso coração.
Nós realmente desejamos vida. Tu prometeste que aqueles que Te buscam Te encontrarão. Temos a Tua permissão para Te buscar.
Por isso, agora nos achegamos e pedimos que, pela Tua graça, ministres o Senhor ao nosso coração. Leva-nos além das palavras; capacita-nos a Te ver. E nós Te agradecemos, Senhor, porque aquilo que fizeste por Estêvão é o que está em Teu coração para cada um de nós.
Oramos para que possamos entrar nessa visão que Tu lhe deste e provar o fruto que ele experimentou. Entregamos agora o nosso tempo a Ti. Que ele seja precioso para Ti. Ministra ao nosso coração.
Pedimos no precioso nome do Senhor Jesus. Amém.
Antes de começarmos, quero dar umas boas-vindas especiais. É uma grande alegria ver alguns desses jovens conosco hoje e neste fim de semana. Estamos muito felizes.
Sabem, eu penso em 1 Samuel 3, quando o sacerdote já estava velho e gordo e não tinha muita sensibilidade espiritual. Contudo, a voz do Senhor veio, e havia uma criança ali, diante da arca; foi ela quem ouviu a Palavra.
Portanto, estamos felizes por vocês estarem aqui e oramos para que Deus também abra os seus ouvidos, a fim de que todos nós possamos contemplar o Senhor. Somos gratos por isso.
Quero que vocês abram, por favor, em Atos 7. Quero começar novamente lendo o texto daquela maravilhosa visão, em Atos 7:55-60:
Estando cheio do Espírito Santo, ele fitou os olhos no céu e viu a glória de Deus,
E Jesus em pé à direita de Deus;
E disse: “Eis que vejo os céus abertos e o Filho do Homem em pé à direita de Deus”.Eles, porém, gritaram em alta voz, taparam os ouvidos e, de comum acordo, avançaram contra ele.
Depois de o expulsarem da cidade, começaram a apedrejá-lo;
E as testemunhas depuseram suas vestes aos pés de um jovem chamado Saulo.Continuaram a apedrejar Estêvão, enquanto ele invocava o Senhor e dizia: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito!”
Então, caindo de joelhos, clamou em alta voz: “Senhor, não lhes imputes este pecado!”
Tendo dito isso, adormeceu.
Que texto precioso! Que texto precioso!
Como sugeri para este fim de semana, não podemos realmente estudar esse relato sobre Estêvão, servo de Deus, sem enxergar como morrer vitoriosamente. Estamos caminhando nessa direção. Quero compartilhar, a partir desse texto, alguns dos grandes segredos, dos princípios de como morrer vitoriosamente.
Vocês não podem olhar para os fatos dessa visão — cheio do Espírito Santo, de pé sob um céu aberto, contemplando um Salvador glorificado, sendo transformado por essa revelação — sem ter alguma ideia de como viver vitoriosamente.
Ele não apenas morreu vitoriosamente; viveu vitoriosamente. Meu entendimento é que a visão que Deus deu a Estêvão foi o que o capacitou a viver vitoriosamente e a morrer vitoriosamente.
Creio que, se tivermos a visão que ele teve, teremos a vida que ele teve e morreremos como ele morreu. É isso que estamos examinando agora.
Ontem à noite comecei a apresentar o assunto, e nesta manhã faremos mais um pouco do trabalho pesado, só para expor essa visão que Deus deu a Estêvão. Depois, se o Senhor permitir, começaremos a examinar como viver vitoriosamente, conforme ilustrado por essa visão, e então como morrer vitoriosamente.
Há duas partes nessa visão. A parte que examinamos ontem à noite dizia respeito principalmente ao indivíduo. A parte que vamos examinar hoje inclui o indivíduo, mas agora se amplia para o corpo, para o conjunto, ilustrado pelo povo de Deus no Antigo Testamento.
Ontem à noite, procurei responder à pergunta: qual foi a contribuição de Estêvão para a história da redenção? Em outras palavras, por que Deus conta a história dele? Por que Deus a colocou ali?
Creio que Estêvão foi o primeiro, pela graça de Deus, a descobrir quem ele era em Cristo e a descobrir onde sua vida realmente estava: em Cristo, nas regiões celestiais. Foi o primeiro a ter essa visão de união com Cristo, a compreender o que significava olhar para o Senhor.
Todos ao redor dele, naquele tempo, embora tivessem a mesma experiência — Cristo habitava neles —, ainda pensavam que eram judeus. Não sabiam quem eram.
Estavam tão presos ao lugar santo, à cidade de Jerusalém e ao santo templo em Jerusalém — o templo judaico. Eram judeus cheios do Espírito. Tinham todas as tradições e todas as cerimônias. Seguiam as leis rigorosas de Moisés, participavam de todas as reuniões e faziam as peregrinações anuais. Eram judeus muito bons.
Mas Estêvão viu algo mais. Deus abriu seu coração e seus olhos enquanto ele estava de pé sob os céus abertos, contemplando, e ele viu o precioso Senhor Jesus. Viu com os olhos da fé.
Sabem, em Atos 1:11, perguntaram a eles:
Por que estais olhando para o céu?
Eles também estavam olhando para o céu, mas foram repreendidos porque olhavam com estes olhos físicos. Estêvão olhava com os olhos da fé e viu o Senhor glorificado.
Ele também viu onde estava sua vida: no céu, não na terra. Aqui, ele não tinha nada além de uma sepultura. Não havia amigos aqui. O que se revelou no fim era simplesmente uma ilustração do que já era verdade em sua vida.
Ele havia chegado a enxergar: “Este mundo não é o meu lar. Tenho outro lugar”. Deus lhe deu um novo foco, e ele começou a se concentrar no Homem que está nos céus.
Por causa dessa visão, como mostrei ao encerrarmos ontem à noite, esse homem desfrutava de uma plenitude: cheio do Espírito Santo, cheio de sabedoria, cheio de graça, cheio de fé, cheio de poder. Toda essa plenitude era fruto daquela visão.
Em Atos 7, Estêvão lança uma nova luz. É a mesma visão, mas em um desenvolvimento maior. Isso ilustra, aliás, que ele já tinha aquela visão antes de ter a visão. Em outras palavras, ela já estava em seu coração antes de Deus literalmente abrir os céus para ele e de ele contemplar aquela maravilhosa revelação.
Nesta parte, ele começa a enxergar a igreja. Na verdade, vamos examinar o sermão que ele pregou em Atos 7, mas o relato começa em Atos 6. Deixem-me ler o contexto, em Atos 6:8-15:
Estêvão, cheio de graça e poder, realizava grandes prodígios e sinais entre o povo.
Mas alguns homens da chamada sinagoga dos libertos, incluindo cireneus e alexandrinos, e alguns da Cilícia e da Ásia, levantaram-se e discutiam com Estêvão.
Contudo, não podiam resistir à sabedoria e ao Espírito com que ele falava.Então, instigaram secretamente alguns homens a dizer: “Ouvimos este homem proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus”.
Incitaram o povo, os anciãos e os escribas; aproximaram-se dele, arrastaram-no e o levaram diante do Sinédrio.
Apresentaram falsas testemunhas que disseram: “Este homem não cessa de falar contra este lugar santo e contra a lei; pois o ouvimos dizer que esse Nazareno, Jesus, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos transmitiu”.Todos os que estavam assentados no Sinédrio, fitando os olhos nele, viram seu rosto como o rosto de um anjo.
Em Atos 6:8-9, alguns comentaristas dizem que talvez houvesse até cinco sinagogas diferentes reunidas para confrontar Estêvão.
Em Atos 6:9, talvez a sua tradução diga libertinos ou libertos. Hoje, quando usamos a palavra libertino, falamos de alguém que não leva a lei a sério e abusa de sua liberdade em Cristo. Esta não era uma sinagoga de libertinos — embora talvez eles também fossem isso. O texto fala de libertos: pessoas que haviam sido escravas e receberam a liberdade, ou filhos de escravos que haviam sido libertos.
Alguns dizem que aqui havia apenas três sinagogas; outros dizem duas. Não sabemos ao certo. Sabemos que alguns eram da Europa, outros da Ásia e outros da África. Mas todos se uniram contra Estêvão, servo de Deus.
Naquela época, não era incomum reunir-se nas sinagogas para discutir e debater. Eles haviam passado do ensino no templo para os debates na sinagoga. Segundo nos informam, naquele tempo havia cerca de 480 sinagogas só em Jerusalém.
Dependendo do assunto — daquilo sobre o que você gostava de discutir ou debater —, podia escolher sua sinagoga. Era basicamente isso que faziam. Estavam discutindo ali quando se voltaram contra Estêvão.
A Bíblia diz que eles não conseguiam resistir à sabedoria que o Espírito Santo dava ao Seu servo. Então, vocês conhecem a história: de repente, agarraram-no e o arrastaram diante daquele tribunal religioso, o Sinédrio.
Era o mesmo tribunal que condenou nosso Senhor Jesus, o mesmo tribunal diante do qual Pedro e João foram arrastados e, mais tarde, o mesmo tribunal que condenou o apóstolo Paulo. Agora Estêvão está diante deles, sob acusações forjadas.
Ouçam novamente as acusações, por favor. Atos 6:11:
Instigaram secretamente alguns homens a dizer: “Ouvimos este homem proferir palavras blasfemas contra Moisés e contra Deus”.
Ele realmente disse coisas que eles não entenderam, porque não tinham discernimento espiritual; por isso, distorceram suas palavras. Não é que ele não tivesse dito nada e eles simplesmente inventassem tudo. Ele disse algo que soava muito parecido com isso.
Por exemplo, você pode dizer: “Descanse no Senhor; não se envolva em obras”. Então alguém pode se levantar e dizer: “Ele ensina as pessoas a serem preguiçosas. Ensina que as obras não são importantes”. Bem, ele não disse isso de forma alguma, mas podem distorcer suas palavras para dar esse sentido. Ele disse algo que provocou aquela acusação.
Depois, Atos 6:13-14:
Apresentaram falsas testemunhas que disseram: “Este homem não cessa de falar contra este lugar santo e contra a lei; pois o ouvimos dizer que esse Nazareno, Jesus, destruirá este lugar e mudará os costumes que Moisés nos transmitiu”.
Imagino que ele provavelmente tenha dito algo como: “Cristo cumpriu a lei. Essas coisas são figuras e vão passar. Este templo é uma figura maravilhosa, mas vocês não precisam dela; precisam da realidade”.
Mas não foi assim que ouviram. O que ouviram foi: “Ele é contra este lugar. É contra o templo. É contra a lei. É contra Moisés. Matem-no”. Foi assim que tudo aconteceu.
Este é o discurso mais longo do livro de Atos. Vocês podem reunir as três ocasiões em que Paulo discursou e somá-las, e ainda assim não terão um discurso tão longo quanto o de Estêvão. O de Estêvão é o mais longo.
Isso, por si só, é para mim um convite de Deus para estudá-lo. Se Deus dedica tanto espaço inspirado a esse discurso, Ele está dizendo: “Há algo aqui. Vocês devem separar tempo e prestar atenção nisso”.
Esse discurso tem sido chamado de defesa de Estêvão. Tecnicamente, não foi isso. Você pergunta: “Como sabe?” Porque sei quais eram as acusações, sei qual foi seu sermão, e ele nunca se defendeu.
Em todo o texto, ele não respondeu às acusações. Não se defendeu de maneira alguma. Por isso, chamam de defesa de Estêvão, mas não é realmente Estêvão se defendendo.
Em vez disso, é Estêvão compartilhando o encargo, compartilhando a visão que Deus lhe havia dado. Deus lhe dera uma visão, e ele procurava expô-la diante de pessoas que não estavam dispostas a recebê-la.
Quando você expõe aquilo que Deus lhe deu diante de pessoas que não querem receber, pode acabar fora da cidade, debaixo de uma pilha de pedras. Foi o que aconteceu aqui.
Estêvão apresentou aquela grande visão que Deus lhe havia dado. Ele disse: “Aprendi quem sou e aprendi onde vivo. Deus me mostrou a igreja, o povo de Deus”.
Ele começa a pegar a Bíblia deles, o Antigo Testamento deles, e, pouco a pouco, diz: “Deixem-me mostrar o que tenho visto”. Quanto mais mostrava, mais irados eles ficavam.
Desde o primeiro dia, eles haviam resistido àquela mensagem. Esse discurso, esse sermão, nos mostra muito bem aquilo pelo que o legalista está disposto a matar e aquilo pelo que o verdadeiro cristão está disposto a morrer, porque o que está aqui é algo muito, muito precioso.
Como Estêvão foi arrastado da sinagoga para diante do Sinédrio, ele não teve o privilégio que vocês, irmãos, me concederam. Faz bastante tempo que fui convidado a vir compartilhar. Isso significa que tive tempo para estudar.
Tenho uma biblioteca. Tenho comentários bíblicos. Tenho livros. Tive tempo de ver o que outros pensaram sobre esse texto. Tenho um computador — isso não ajuda muito.
Tenho anotações, como vocês podem ver. Elas vieram de caminhão. Tenho muitas anotações. Posso preparar o que vou dizer.
Mas, se simplesmente viessem até mim durante uma discussão, me arrastassem para o outro lado da rua e dissessem: “Fale”, eu provavelmente diria: “Nicht gemacht — não estou preparado. Deem-me uns dois meses. Deixem-me trabalhar nas minhas anotações. Depois volto a falar com o senhor, seu Sinédrio”.
Estêvão não teve essa oportunidade. Algumas pessoas podem ser arrastadas para o outro lado da rua e falar sem anotações.
Estou apenas brincando, por causa da promessa que Jesus fez em Mateus 10:17-20. Ouçam esta promessa:
Acautelai-vos dos homens, porque vos entregarão aos tribunais e vos açoitarão nas suas sinagogas;
E sereis levados até à presença de governadores e reis por Minha causa, como testemunho a eles e aos gentios.Mas, quando vos entregarem, não vos preocupeis com o modo como haveis de falar nem com o que haveis de dizer;
Pois naquela hora vos será dado o que haveis de dizer.
Porque não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é Quem fala em vós.
Eu lhes digo: quando isso acontece, vocês não precisam de anotações. Foi o que aconteceu com Estêvão. Chamo a atenção para isso porque a Bíblia diz que Estêvão estava cheio do Espírito Santo, e Deus falava por meio dele.
Os comentaristas apontam que Estêvão cometeu pelo menos nove erros históricos nesse sermão. Quando você percorre o sermão, diz: “Ora, o Antigo Testamento não ensina isso, e o Antigo Testamento não ensina aquilo”. Nove erros diferentes.
Eu sugiro que, se Estêvão cometeu nove erros históricos, então o Espírito Santo cometeu nove erros históricos, porque foi o Espírito Santo Quem colocou em sua boca aquilo que ele deveria dizer.
Muitos explicam esses supostos erros dizendo que o texto que ele usava era grego, que ele utilizava a versão da Septuaginta, que ela é um pouco diferente, e assim por diante. Vocês acham que, quando Deus falou por meio de Estêvão, Ele Se esqueceu do que havia escrito em Gênesis quatro mil anos antes? Ele não Se esqueceu.
A precisão do panorama da história da igreja apresentado por Estêvão não dependia de sua memória. Não dependia de sua preparação. Atos 7 é o discurso de Estêvão, mas também é o discurso de Deus. É a interpretação de Deus. É um capítulo da nossa Bíblia inspirada.
Eu poderia gastar bastante tempo nisso. Examinei todas essas supostas discrepâncias e poderia, ao menos, apresentar uma resposta possível para elas. Mas esse não é o propósito de estarmos aqui. Não quero fazer isso, e vocês estão dizendo: “Que bom, porque não quero ouvir tudo isso”.
Mas, caso tenham interesse, deixem-me recomendar um livro que faz isso com bastante profundidade. Muitos comentários respondem a essas perguntas, mas boa parte das respostas é apenas superficial. Dão a resposta certa, mas não a desenvolvem.
Este livro, em particular, entra em detalhes maravilhosos e satisfatórios. O problema é que talvez vocês não consigam encontrá-lo, mas vou indicar mesmo assim: Christopher Wordsworth, Commentary on Acts.
Se vocês conseguirem os comentários de Wordsworth, será um bom investimento. Ele tem doze volumes sobre o Antigo Testamento e quatro sobre o Novo Testamento. Tenho apenas quatro volumes da coleção inteira. Não consigo encontrar os outros; já procurei por toda parte.
Então, se vocês os encontrarem e não os quiserem, podem me ligar.
Enfim, o título é The Greek Testament with Introduction, Notes, and Index. É uma obra um tanto acadêmica. Embora boa parte de seu comentário esteja em francês, latim, alemão e grego, o que ele diz em inglês já vale o preço do comentário.
Ele diz bastante coisa em inglês, mas fica citando: “Nada melhor foi dito do que o que se disse aqui”. Então apresenta o latim — uma página inteira. Vocês vão perder muita coisa. Mas, se conseguirem essa seção em inglês, ele examina cada argumento: “Isto é o que dizem; aqui está como isso se harmoniza com o texto do Antigo Testamento”. É realmente excelente.
Lillian me disse: “Por que você não tira uma cópia dessa seção e a entrega aos irmãos?” Eu ia fazer isso, mas escrevo tantas anotações pelo caminho que quase apaguei a página. Vocês não teriam gostado, porque desenho carinhas de desgosto e todo tipo de coisa nela.
Não era uma cópia limpa, e foi por isso que não fiz. Contudo, se não conseguirem encontrar e quiserem essa seção, é só me mandar um e-mail. Eu tiro uma cópia, se vocês quiserem toda aquela bagunça junto. Enfim, dito isso, vamos entrar no texto.
É tão fácil ler essas coisas e passar adiante: lá, lá, lá. Quero apresentar mais um elemento de contexto antes de começarmos a examinar esse maravilhoso texto de Estêvão.
O que foi que ele disse que levou esses homens, esses anciãos, esses judeus, a cometer um assassinato a sangue-frio? Vejam Atos 7:54:
Ao ouvirem isso, ficaram profundamente enfurecidos e começaram a ranger os dentes contra ele.
Por que estavam tão furiosos? Por que tão violentos? Por que tão irados? O que ele disse que os deixou tão perturbados? Se estavam dispostos a arrastá-lo para fora e apedrejá-lo até a morte, o que foi que ele disse?
Se quisermos entrar na poderosa revelação que Deus deu ao Seu servo Estêvão, será útil compreender a perspectiva daqueles judeus. Então, deixem-me apresentar esse breve contexto, e depois examinaremos a própria mensagem.
Mais uma vez, as acusações: Atos 6:11 diz que ele blasfemou contra Moisés e contra Deus. Atos 6:11 e Atos 6:13 dizem que ele não cessava de falar contra esse lugar santo e contra a lei.
Precisamos compreender o amor deles pelo lugar santo, Jerusalém. Era ali que Deus estava — em Jerusalém. Precisamos compreender o amor deles pelo templo. Era o centro de sua adoração. Era tudo para eles.
Eles toleravam muitas coisas estranhas. Você podia crer no que quisesse — A, B, C e D —, mas não mexa com Moisés. Não mexa com Jerusalém. Não mexa com o templo. Essas coisas eram intocáveis.
Você podia ter ideias estranhas — e eles tinham. Os saduceus e outros tinham algumas ideias bem extravagantes, e eram tolerados. Só não mexa com o templo. Não mexa com Jerusalém. Não mexa com o lugar santo, e não mexa com Moisés. Não mexa com a lei.
Se você evitasse isso, eles não o apedrejariam. Mas, se começasse a mexer nessas coisas, estaria entrando no território deles.
Tomem o templo como exemplo. Vocês precisam compreender isso por dentro. Durante toda a vida, eles haviam ido ao templo. Por mil anos, seus antepassados haviam adorado no templo.
Na maneira de pensar deles, isso era uma ordem de Deus; não haviam inventado aquilo. Viera do céu. Deus lhes havia mandado fazer isso. Reis, sacerdotes, profetas e israelitas santos adoravam na cidade santa, no santo templo.
Viviam de acordo com o sacerdócio. Ofereciam sacrifícios segundo as leis que Deus havia estabelecido desde o céu. Guardavam o sábado. Faziam as peregrinações anuais. Isso vinha do céu. Isso vinha de Deus.
Não estavam muito preparados para ouvir: “Tudo isso é temporário. Vai passar. É apenas uma sombra. É apenas uma figura”.
“Não venha me dizer que isso é apenas uma figura. Deus deu isso desde o céu.” Eles não estavam preparados para alguém chegar e dizer: “Deixem tudo isso e simplesmente abracem Jesus”. Não estavam preparados para isso.
Espero, queridos irmãos, que o Senhor nos dê um coração verdadeiramente sensível e compassivo para com aqueles que estão profundamente arraigados na tradição.
É impressionante. É necessário um poderoso milagre de Deus para desfazer a tradição. Aquilo que você aprendeu desde o colo de sua mãe, aquilo com que foi criado — de repente alguém diz: “Deixe isso. Você está errado. Isto é o certo”. É difícil.
Essas pessoas eram tão leais àquela tradição. Sentiriam culpa se abandonassem o sacerdócio, os sacrifícios, as ordenanças, as observâncias da lei e as cerimônias — especialmente porque acreditavam que Deus havia transmitido tudo aquilo desde o céu.
“Recebemos isso de Deus.” Se algo não vem de Deus, é fácil perceber e abandonar. Mas, quando você pensa que vem de Deus e alguém diz: “Livre-se disso”, é muito difícil fazê-lo. É necessário um milagre de Deus.
O templo era tudo para eles. Milhares de trabalhadores haviam trabalhado durante anos naquele templo em particular. Nos dias de Jesus, Herodes fez da ampliação e do embelezamento do então templo de Zorobabel um projeto especial — o templo reconstruído depois do templo de Salomão e ampliado por Herodes.
Os historiadores nos dizem que mil homens especializados e dez mil trabalhadores trabalharam durante oito anos apenas nos pátios do templo.
Vocês se lembram de João 2:19-20, quando nosso Senhor Jesus purificou o templo e disse:
Destruí este templo, e em três dias Eu o levantarei.
Eles responderam:
Foram necessários quarenta e seis anos para construir este templo.
Já estavam trabalhando no templo havia quarenta e seis anos.
Pelo que consta nos registros, só o concluíram em 64 d.C., apenas seis anos antes de Deus varrer tudo aquilo em 70 d.C., por meio de Tito e dos exércitos romanos.
Quando Jesus entrou para purificar o templo, Seus olhos ficaram deslumbrados com o que haviam feito. Do ponto de vista humano, o templo de Herodes era magnífico. Não pouparam despesas em sua reconstrução.
Por todo o lado oriental, havia placas de ouro muito bem polidas para refletir o sol nascente. Grande parte do templo era de mármore branco. Muitas paredes eram revestidas de ouro puro.
O templo ampliado por Herodes tinha câmaras, nove portões, salas junto aos portões, pórticos, galerias para as mulheres, pátios dos sacerdotes, pátios dos gentios, colunas, altares, entalhes elaborados, uma videira de ouro e uvas do tamanho de seres humanos. Era algo impressionante.
Esperem até ouvir o que Estêvão diz sobre o templo. Vocês precisam compreender como eles estavam presos a isso: “Não mexam com o nosso templo e não mexam com este lugar santo”.
Convidar os judeus a deixar as figuras e abraçar a realidade era chocante ao extremo. Eles simplesmente não conseguiam acreditar no que ouviam.
Deixar o templo para fazer o quê? Reunir-se numa sala no andar de cima? Ir para uma caverna? Isso não fazia sentido para eles. Não haveria prédios de igrejas por mais duzentos anos.
Precisamos compreender a perspectiva deles. Em sua concepção de Deus, Ele era adorado em Jerusalém, naquele santo templo. Estêvão sugeriu que tudo aquilo talvez tivesse um caráter temporário.
Por obra de Deus, Estêvão havia descoberto quem era em Cristo. Havia descoberto onde estava sua vida, e agora começa a expor seu encargo.
Deixem-me apresentar isso como um princípio, e depois vamos acompanhá-lo na história. O primeiro encargo que Estêvão está prestes a compartilhar é este: nós falamos sobre a igreja invisível. Estêvão foi o primeiro a enxergá-la.
Foi o primeiro a enxergar a igreja invisível — que ela não está limitada a uma localidade, nem presa a um lugar ou a um prédio. Você não pode limitar Deus. Não pode colocar Deus numa caixa. Não pode dizer: “É aqui que Deus está, e Ele não está em nenhum outro lugar”.
Deixem-me apresentar um esboço geral desse maravilhoso discurso e depois examiná-lo em partes.
Ele começa a percorrer a história deles, pega a Bíblia deles e a abre. Em Atos 7:2-16, começa lá atrás, antes da lei e do templo. Seus exemplos são Abraão e José.
Depois, em Atos 7:17-43, examina o período da lei, e seu exemplo é Moisés.
Então, em Atos 7:44-46, descreve a história deles antes do templo — em outras palavras, entre Moisés e Davi — e se concentra no tabernáculo.
Por fim, em Atos 7:47-50, percorre a história do templo, e seu exemplo é Salomão.
Ele os choca com aquilo que enfatiza. Eles pensavam que conheciam Abraão, José, Moisés, Davi e Salomão. Ele não estava escolhendo santos menos conhecidos do Antigo Testamento, daqueles que vocês encontram em algum lugar de Crônicas. Estava falando dos grandes nomes.
Estava falando de Abraão, José, Moisés, Davi e Salomão. Não tentava introduzir discretamente alguma verdade escondida em algum lugar de 2 Crônicas. Estava usando a Bíblia deles.
Aliás, como ele estava percorrendo a história deles, se houvesse nove erros, eles teriam dito alguma coisa a respeito. Aquela era a história deles, e nunca mencionaram nada disso.
Ao percorrer a história deles, Estêvão estava prestes a mostrar que Deus não pode ficar preso a um único lugar ou a um único prédio.
Vamos começar com Atos 7:2 — o pai Abraão:
Ouvi-me, irmãos e pais! O Deus da glória apareceu a nosso pai Abraão quando ele estava na Mesopotâmia, antes de habitar em Harã.
Onde estava Abraão quando Deus lhe apareceu pela primeira vez? Na Palestina? Na Judeia? Em Jerusalém? Na Terra Santa? Não. Estava numa terra pagã, na Mesopotâmia, no norte da Síria.
Os críticos argumentam: “Como é que Gênesis nunca menciona isso? O texto diz que Deus o chamou para sair de Ur dos caldeus”. Bem, aquilo também era território gentio. Ele recebeu dois chamados. É simples: recebeu dois chamados.
Deus o chamou para sair de sua terra e de sua parentela, e depois da casa de seu pai, em Harã. Mas Estêvão está mostrando que, antes de existir uma lei, antes de existir um sacrifício, antes de existir um sacerdócio, antes de existir um templo e antes de existir uma Terra Santa, Deus apareceu a nosso pai Abraão.
E quanto à descendência de Abraão? Atos 7:6:
Deus falou assim: seus descendentes seriam estrangeiros em terra alheia, e seriam escravizados e maltratados por quatrocentos anos.
Uma terra alheia — não a Palestina.
Então ele chega a José. São grandes nomes. Quando Deus esteve com José? Quando ele estava em Jerusalém? Não. Atos 7:9:
Os patriarcas, movidos de inveja de José, venderam-no para o Egito; contudo, Deus estava com ele.
No Egito? Deus estava com ele no Egito. Livrou-o de todas as suas aflições e lhe concedeu favor e sabedoria diante de Faraó, rei do Egito, que o tornou governador sobre o Egito e sobre toda a sua casa.
Então Estêvão pergunta: onde foram sepultados os seus grandes patriarcas? Atos 7:15-16:
Jacó desceu ao Egito, e ali morreram ele e nossos pais.
De lá, foram trasladados para Siquém e postos no sepulcro que Abraão havia comprado por certa quantia dos filhos de Hamor, em Siquém.
Siquém. Onde fica Siquém? Em Samaria. Vocês sabem como eles amavam os samaritanos. Os patriarcas não morreram em Canaã; morreram no Egito. Depois foram levados para Samaria e sepultados em Samaria. Como vocês acham que isso soou aos ouvidos daqueles judeus?
Abraão estava na Mesopotâmia quando Deus falou com ele e o chamou para sair de Ur. Seus descendentes peregrinavam pela terra como estrangeiros. Quanto à posse da terra, Abraão não tinha sequer um palmo dela. Era um peregrino. Não recebeu nem um pedacinho.
Vocês percebem o que Estêvão está fazendo? Está mostrando, a partir da história deles, como Deus constantemente Se encontrava com Seu povo fora da Judeia, fora de Jerusalém e independentemente do santo templo.
Uma das acusações contra ele era: “Ele é contra Moisés”. Então ele diz: “Muito bem, vamos falar de Moisés. Vocês acham que sou contra Moisés?”
Onde Moisés nasceu? Atos 7:20: no Egito, não em Jerusalém. Onde Moisés foi instruído? Atos 7:22: no Egito, não em Jerusalém.
Quando Deus finalmente apareceu a Moisés, onde ele estava? Atos 7:30:
Passados quarenta anos, apareceu-lhe um anjo no deserto do monte Sinai, na chama de uma sarça ardente.
Onde estava aquela sarça? Em Jerusalém? Na Judeia? Não. Estava na Arábia, no deserto da Arábia.
O que Deus disse quando apareceu a Moisés na Arábia? Atos 7:33:
Tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa.
Terra santa — na Arábia? Jerusalém é terra santa. O templo é terra santa. No entanto, Estêvão os deixava sem resposta ao pegar a própria Bíblia deles e dizer: “Abraão estava na Mesopotâmia. Abraão nunca chegou a possuir a terra; apenas caminhou por ela. Seus descendentes estavam no Egito, presos e escravizados numa terra estrangeira. José estava no Egito”.
Onde estava Israel quando Deus continuava a aparecer a eles? Atos 7:36:
Este homem os conduziu para fora, realizando prodígios e sinais na terra do Egito, no mar Vermelho e no deserto, durante quarenta anos.
E quanto àquela preciosa lei? “Vocês dizem que sou contra a lei. Onde Deus deu a Sua lei?” Atos 7:38:
Este é aquele que esteve na congregação no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai e com nossos pais; e recebeu oráculos vivos para vo-los transmitir.
Onde Deus entregou, por mediação de anjos, aqueles santos oráculos — a lei? Foi em Jerusalém? Foi no lugar santo? Não. Foi na Arábia.
Então Estêvão começa a falar sobre o tabernáculo. Atos 7:44:
Nossos pais tinham o tabernáculo do testemunho no deserto, assim como Aquele que falou a Moisés lhe ordenou que o fizesse segundo o modelo que havia visto.
Segundo o modelo de Deus, Deus não estava restrito a uma localidade. Não estava em um só lugar. Não estava em um só templo. Ele acompanhava o povo, conforme o modelo. Estava em toda parte. Estava no deserto.
Atos 7:44 diz que Deus deu o tabernáculo desde o céu como um modelo. “Sigam isto. Não alterem isto. Não mudem isto. Esta é a Minha vontade.”
Em essência, o que era o tabernáculo? Era uma casa feita de peles que Deus queria encher com a Sua glória.
Deus sempre desejou uma casa feita de pele que pudesse encher com a Sua glória. Estêvão enxergou isso.
Estêvão viu que você não pode dizer: “Deus está aqui em Jerusalém, e Deus está aqui neste templo”. Deus apareceu na Mesopotâmia. Deus apareceu no Egito. Deus apareceu em Midiã. Deus apareceu na Arábia. Deus apareceu no deserto. Onde quer que Deus aparecesse, ali era terra santa.
Então Estêvão apertou o botão que fez tudo explodir. Apresentou uma ideia tão radical, tão controversa, que os comentaristas até têm receio de chamar a atenção para ela.
Isso interrompeu seu sermão no meio. Acho que ele tinha mais a dizer, mas não pôde continuar depois de dizer isso. Estava conduzindo o argumento até esse ponto.
Não se esqueçam: o templo era a menina dos olhos deles. Já haviam sido advertidos até no Antigo Testamento. Jeremias 7:4 diz:
Não confieis em palavras enganosas, dizendo: “Templo do Senhor, templo do Senhor, templo do Senhor”.
Olhem, por favor, para Atos 7:46-50. Estêvão conta como Davi desejou construir um templo para Deus — em outras palavras, dar-Lhe um lugar, restringi-Lo a uma localidade, fixá-Lo ali.
Deus não permitiu isso, porque o tabernáculo era a figura dada por Deus. Deus não estava preso a um lugar. Onde quer que Deus Se manifestasse em Seu tabernáculo, ali Ele estava.
Vocês se lembram da história? Davi desejou construir um templo para Deus. Procurou o profeta Natã e disse: “Esta é a vontade de Deus?” Natã ficou todo animado: “Faça isso. Sim, essa é a vontade de Deus. É exatamente isso. Você deve fazer”.
Então o Senhor veio a Natã e disse: “Você está errado. É melhor voltar e corrigir isso. Vá dizer a ele que essa não é a Minha vontade para ele”.
O que Davi disse quando Natã voltou e falou: “Cometi um erro. Não é a vontade de Deus”? A Bíblia diz que Davi foi à presença do Senhor. Em 2 Samuel 7:27-28, ele orou:
Pois Tu, Senhor dos Exércitos, Deus de Israel, fizeste uma revelação ao Teu servo, dizendo: “Eu te edificarei uma casa”.
Por isso, o Teu servo encontrou coragem para fazer esta oração a Ti.
Agora, ó Senhor Deus, Tu és Deus, e as Tuas palavras são verdade, e prometeste este bem ao Teu servo.
Vocês entenderam o que aconteceu ali? Davi disse: “Senhor, quero construir uma casa para Ti”. Deus disse: “Não, Eu edificarei você como uma casa”. Não uma casa para você — não foi isso que Ele disse. Ele disse: “Eu edificarei você como uma casa”.
Você é a casa. Você é o templo. “Vou edificar você como uma casa.” Davi disse: “Porque Tu disseste isso, Senhor, encontrei a graça para orar a Ti”.
Vocês sabem que ter um rei em Israel não era a intenção original de Deus, mas eles insistiram, e então Deus lhes deu um rei. Parece que Estêvão está construindo um argumento semelhante.
Atos 7:47-50 diz:
Foi Salomão quem Lhe edificou uma casa.
Contudo, o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas; como diz o profeta:O céu é o Meu trono,
E a terra é o estrado dos Meus pés;
Que casa Me edificareis? diz o Senhor,
Ou qual é o lugar do Meu repouso?
Não foi a Minha mão que fez todas estas coisas?
Vejam, não foi Davi, o homem segundo o coração de Deus, quem construiu o templo. Foi Salomão, que se afastou do Senhor e se voltou para os ídolos, quem construiu o templo.
Estêvão estava dizendo que o templo de Deus é o universo, e que o templo de Deus é o Seu povo. Deus disse: “Eu edificarei vocês como um templo”, não importa onde estejam.
Quando Estêvão sugeriu que, desde o princípio, não era a vontade de Deus ter um templo, eles não suportaram. Estavam tão presos ao templo, e de repente ele disse: “Deus apenas permitiu isso. Nunca foi a vontade de Deus ter um único lugar”.
Quando Estêvão disse isso, foi a gota d’água. É um ponto poderoso: Deus é universal. Deus não pode ser limitado a um lugar.
Por todo o mundo, Estêvão está dizendo, onde quer que pessoas, pelo Espírito Santo, estejam sob um céu aberto, vejam a glória do Senhor e sejam transformadas por essa glória, ali está o Seu templo. Ali é terra santa.
A primeira parte de sua revelação é que a igreja é invisível. Ela está em todo lugar onde Deus aparece e, sempre que alguém está sob o céu aberto, Deus tem ali a Sua igreja. Deus tem ali o Seu lugar.
Gastei bastante tempo nesse primeiro ponto. Deixem-me apresentar algumas outras observações que Estêvão fez.
Deus não apenas não pode ser restrito a determinado lugar ou prédio, mas Estêvão também começou a mostrar que a mensagem é espiritual.
A igreja, o povo de Deus, é uma realidade espiritual, não física. Não tem a ver com coisas exteriores, com o físico ou com a aparência. É sempre a revelação de Cristo e a resposta a essa revelação de Cristo.
É Cristo e a transformação que vem ao contemplar Cristo. Chamamos isso de transformação redentora. A única transformação real é aquela que vem ao contemplar Cristo.
Qualquer mudança que aconteça na minha vida ou na sua vida por outro meio que não seja contemplar o Senhor é irreal. Não é uma transformação real. As únicas transformações reais são redentoras.
Por isso, às vezes hesitamos em escrever cartas ao governador, marchar por esta ou aquela causa, ou nos envolver nessas coisas para retirar algo ou impedir outra coisa. Pode ser uma mudança, mas não é uma transformação redentora. Não é uma transformação que vem de dentro.
Estêvão começa a expor essa maravilhosa história para mostrar que não há outra coisa senão Deus em meu coração, e isso precisa vir do coração.
Ele vai ler a Bíblia deles como nunca a leram. Não sei se vocês já tiveram essa experiência. Às vezes compartilho um princípio da verdade, um pequeno raio de luz que Deus me deu, e alguém diz: “Que Bíblia você está usando? Não vi isso na minha Bíblia”.
Estão apenas brincando, mas vocês entendem a ideia. Foi isso que o Sinédrio disse depois que ele terminou: “Que Bíblia você está usando? Não vejo o que você está vendo”.
Quando Estêvão percorreu a história, tudo o que viu foi Cristo e a resposta do coração a Cristo.
Alguns comentaristas dizem que, quando Estêvão diz: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito”, em Atos 7:59, essa é a única vez em que menciona Jesus em todo o sermão.
Dizem: “Ele não menciona o Senhor. Percorram o sermão — ele não menciona Jesus pelo nome em todo o sermão”. Estou sugerindo que eles não estão enxergando. Não estão lendo corretamente. É tudo o que ele faz: falar do Senhor Jesus.
Por exemplo, quando vê os irmãos de José vendendo José, ele vê Cristo sendo vendido e rejeitado. Deus estava com José; Deus estava com Cristo.
Vocês podem perceber o que está em sua mente enquanto ensina. Deus livrou José da cova. Deus livrou Cristo da cova. Ele não precisa declarar isso. É disso que está falando.
Deus exaltou José para ser o pão da vida para o mundo inteiro. Deus exaltou Cristo para ser o pão da vida para o mundo inteiro. Os irmãos o rejeitavam. Essa é a resposta do coração.
“Vocês estão rejeitando Cristo”, ele diz. Não via José; via Cristo.
O mesmo acontece com Moisés. Pedro, em seu sermão, faz o que Estêvão faz no dele. Cita Deuteronômio 18:15:
O Senhor teu Deus te suscitará um profeta como eu, do meio de ti, dentre teus irmãos; a Ele ouvirás.
Essa é uma profecia sobre Cristo. Ele está falando de Cristo. Quando Estêvão via Moisés, via Cristo.
Moisés foi visitar seu povo depois de quarenta anos. Depois de quarenta dias, Cristo foi apresentado no templo. Moisés veio como libertador; Cristo veio como Libertador.
João 1:11 diz:
Veio para o que era Seu, e os Seus não O receberam.
Isso aconteceu com o Senhor Jesus. Os irmãos não compreenderam a missão de Moisés; não compreenderam a missão de Cristo.
Disseram a Moisés, em Atos 7:27:
Quem te constituiu governante e juiz?
Disseram a respeito de Cristo, em Lucas 19:14:
Não queremos que este Homem reine sobre nós.
Passaram-se quarenta anos, e Moisés saiu do deserto. Passaram-se quarenta dias, e Cristo saiu do deserto, na tentação. Ele está enxergando Cristo.
Os pais de vocês rejeitaram Moisés; vocês crucificaram Cristo. Moisés era poderoso em palavras e obras; Cristo era poderoso em palavras e obras.
Moisés disse, conforme Atos 7:37:
Deus vos suscitará um profeta como eu; a Ele ouvireis.
É de Cristo que ele está falando em todo esse sermão.
Enquanto eles viam história, Abraão, Moisés e José, Estêvão via Cristo revelado e a resposta do coração. Cristo revelado e a resposta do coração.
Quando Estêvão via José, via Cristo. Eles rejeitaram José, e Deus o fez senhor mesmo assim. Deus levantou Moisés; eles o rejeitaram, e Deus o fez senhor mesmo assim.
Da mesma forma, em Atos 7:51-56, Deus designou Jesus, e vocês O rejeitaram:
Homens de dura cerviz e incircuncisos de coração e de ouvidos, vós sempre resistis ao Espírito Santo; assim como fizeram vossos pais, também vós fazeis.
Qual dos profetas vossos pais não perseguiram? Mataram aqueles que antes anunciaram a vinda do Justo, de Quem agora vos tornastes traidores e assassinos;
Vós, que recebestes a lei por ordenação de anjos e não a guardastes.
Eles reivindicavam a honra de descender de Abraão. Amavam a circuncisão. Estêvão disse: “Vocês são incircuncisos de coração”.
Amavam falar dos profetas. Ele disse: “Qual dos profetas os pais de vocês não perseguiram?” Mataram aqueles que anunciaram a vinda do Justo, e agora haviam se tornado Seus traidores e assassinos.
Orgulhavam-se de ter recebido a lei. Ele disse: “Vocês receberam a lei por ordenação de anjos, mas não a guardam”.
Amavam a Bíblia. Eram especialistas na Bíblia — desde que ela não revelasse Cristo e desde que não tocasse o coração deles.
Assim que Estêvão disse: “Isso diz respeito a Cristo e diz respeito ao coração de vocês”, eles disseram: “Você tem de morrer”. Não conseguiam aceitar Cristo. Não conseguiam aceitar a transformação redentora. Não estavam abertos para isso.
Ficaram profundamente enfurecidos e se levantaram com violência.
Estêvão estava procurando dizer que a igreja é invisível. Onde quer que Deus apareça, onde quer que haja alguém disposto a permanecer sob um céu aberto, ali está a igreja. Vocês são o templo. É um povo. “Eu edificarei vocês como uma casa.” Essa é a verdadeira casa.
Depois, há a transformação redentora. Não são as figuras. Ele disse: “Vocês estão se agarrando às figuras”.
Irmãos, se estivessem com fome, o que prefeririam: um banquete ou uma imagem de um banquete? Eu preferiria um banquete.
Se estivessem com frio, prefeririam uma imagem de uma fogueira ou uma fogueira de verdade?
Se estivessem sozinhos, prefeririam uma fotografia de um irmão e de uma irmã em Cristo ou um amigo de verdade?
Se fossem pobres, prefeririam uma imagem de dinheiro ou algum dinheiro na mão?
Se precisassem ir do ponto A ao ponto B, prefeririam uma imagem de um automóvel ou um automóvel de verdade — algum meio de transporte?
Se quisessem sair de férias, prefeririam uma imagem de férias ou poder realmente sair de férias?
Vou lhes dizer: tenho uma fotografia da minha família. Eu a amo, mas prefiro ter minha família. Não quero uma fotografia da minha família.
Se estou cansado, não me deem uma imagem de uma cama. Quero uma cama. Quero a realidade. Quero a coisa de verdade.
Se estou doente, não quero uma fotografia de um médico. Quero um médico de verdade.
Quando eu morrer, não vou ter uma imagem de estar na presença do Senhor. Vou estar na presença do Senhor. Quero a realidade.
Estêvão está dizendo que se trata de Cristo e da resposta do seu coração. Trata-se da realidade. Mas vocês estão envolvidos em todas as coisas exteriores, especialmente na lei de Moisés.
Meus netos gostam de brincar de “O mestre mandou”. “Faça isto. Faça isto.” Eles estavam brincando de “Moisés mandou”: “Faça isto, faça isto, faça aquilo”, e assim por diante.
Essa era uma das acusações: “Você vai destruir os costumes que Moisés transmitiu”.
Estêvão diz: “Vejam, a igreja é invisível. Está em todo lugar onde Deus aparece. Vocês são o templo”.
A igreja, a verdadeira igreja de Deus, não está apenas em todo lugar onde Deus aparece; ela também é espiritual. É interior. É transformação redentora. É a revelação de Cristo e a resposta do seu coração a essa revelação. Vocês rejeitaram isso.
Mais uma coisa, e vamos encerrar. Esta é uma verdade que vocês, irmãos, conhecem muito bem. Estêvão não a desenvolve, mas ele mesmo é sua ilustração. O apóstolo Paulo a retomou e, pela graça de Deus, a desenvolveu.
É o sacerdócio universal de todos os crentes: todos estamos no mesmo nível, todo cristão é igual, e todos estamos diante de Deus.
Estêvão ilustra isso porque era o grande desconhecido. Foi escolhido para servir às mesas. Era apenas alguém sem importância aos olhos dos outros.
Ele apagou a linha que separava apóstolo e diácono, servo do Senhor, porque eram exigidas as mesmas qualificações. Tinha de estar cheio do Espírito Santo. Não havia diferença.
Agora está diante desse grupo imponente, desse Sinédrio, desses figurões espirituais. Esse judeu helenista está diante deles, apenas um cristão comum, apenas alguém sem importância aos olhos deles.
Os escribas e fariseus tinham esta ideia: “Você tem de prestar contas a nós, porque nós somos importantes. Estamos aqui em cima, e você está lá embaixo. Estudamos no seminário. Temos nossos títulos”.
Eles tinham seus títulos: Rab, que era como um diploma de curso superior de curta duração; Rabi, que era como um bacharelado; e Raban, que era como um doutorado. Esses eram os títulos.
“Temos tudo isso, e quem é você? Você é apenas um desconhecido.” Ele disse: “Sim, sou apenas um desconhecido que esteve sob os céus abertos e viu um Salvador exaltado”.
Ele começa a explicar que todos os cristãos, como nosso irmão compartilhou nesta manhã na reunião de oração, são um só corpo. Todos somos um.
Deus não pode ficar preso a um lugar ou a um prédio. Nós somos o templo. Ele está nos edificando como uma casa.
Estêvão enxergou tudo isso. É espiritual, não físico. Não tem a ver com coisas exteriores, com o cumprimento de regras e coisas desse tipo. É transformação redentora que vem de dentro.
Ele viu que todo crente está no mesmo nível. Todos somos iguais. Todo lugar onde o povo de Deus se coloca sob um céu aberto, pelo poder do Espírito Santo, é terra santa.
Essa visão, irmãos: finalmente sei quem sou e sei onde vivo.
Sei que todo lugar nesta terra onde Deus aparece é terra santa, e ali está a Sua igreja.
Sei que isso tem a ver com o coração, com a resposta à revelação de Cristo e com a transformação redentora. Sei que todos somos iguais.
Estêvão se torna a grande ilustração, e essa é a visão que Deus lhe deu.
Por causa dessa visão — com a ajuda do Senhor, examinaremos isso hoje à noite —, ele pôde ter essa vida extraordinária, tão plena, e pôde morrer dessa maneira extraordinária.
Vamos encerrar aqui. Peçam ao Senhor que torne isso real.
Pai, muito obrigado por abrir tão amplamente os olhos de Estêvão e, depois, preparar o Teu servo Paulo para enxergar essa mesma visão, para ter essa visão celestial.
Pela Tua graça, Paulo a expôs em epístola após epístola, para que pudéssemos saber o que ela significa — quem somos em Cristo e onde vivemos em Cristo.
Muito obrigado, Senhor, por essa visão. Agora, torna-a real em nosso coração e prepara-nos para esta noite e para amanhã de manhã, enquanto examinamos juntos e estudamos estes preciosos princípios.
Que verdadeiramente saibamos como viver vitoriosamente e como morrer vitoriosamente. Pedimos em nome de Jesus. Amém.
Obrigado.