Gostaria de pedir que vocês abrissem comigo, mais uma vez, em Apocalipse, o último livro da Bíblia, no capítulo 12. Vamos ler Apocalipse 12:17.
E o dragão irou-se contra a mulher,
e foi fazer guerra ao restante da sua descendência,
aos que guardam os mandamentos de Deus
e têm o testemunho de Jesus.
Agora, abram em Apocalipse 19:10. Aqui, quem fala é o apóstolo João:
E lancei-me aos seus pés para adorá-lo.
E ele me disse: Olha, não faças tal:
sou teu conservo
e conservo de teus irmãos
que têm o testemunho de Jesus:
adora a Deus;
porque o espírito da profecia é o testemunho de Jesus.
Agora, abram numa passagem mais familiar, no Evangelho de João. Hoje vamos considerar João 13–17, mas achei que seria bom ler alguns versículos no início, para lhes dar uma ideia daquilo que está pesando em nosso coração.
João 13:34-35:
Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros;
assim como Eu vos amei,
que também vós vos ameis uns aos outros.
Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos,
se tiverdes amor uns pelos outros.
Agora, João 15:5-8:
Eu sou a videira, vós sois os ramos:
aquele que permanece em Mim, e Eu nele,
esse dá muito fruto:
porque sem Mim nada podeis fazer.Se alguém não permanecer em Mim,
será lançado fora como um ramo, e secará;
e os recolhem,
e os lançam no fogo,
e são queimados.Se permanecerdes em Mim,
e as Minhas palavras permanecerem em vós,
pedireis o que quiserdes,
e vos será feito.
Nisto é glorificado Meu Pai:
que deis muito fruto;
e assim sereis Meus discípulos.
Por fim, João 17:20-23:
Não rogo somente por estes,
mas também por aqueles que creem em Mim por meio da palavra deles;
para que todos sejam um;
assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti,
que também eles estejam em Nós:
para que o mundo creia que Tu Me enviaste.E Eu lhes dei a glória que Tu Me deste;
para que sejam um, assim como Nós somos um;
Eu neles, e Tu em Mim,
para que sejam aperfeiçoados em um;
para que o mundo conheça que Tu Me enviaste,
e os amaste, assim como Me amaste.
Pai, nós Te agradecemos pela Tua Palavra. Cremos que as Tuas palavras são espírito e vida. Nós Te agradecemos porque podemos vir novamente nesta manhã, esperar diante de Ti e pedir que sopres sobre esta Palavra que lemos.
Torna-a viva. Torna-a real. Dá-lhe substância para nós nesta manhã, para que, acima de tudo, vejamos Jesus alto e exaltado e ouçamos o que o Espírito diz às igrejas.
Mais uma vez, ao nos achegarmos, oramos para que a fraqueza do vaso não impeça a Palavra que é falada. Oramos para que a fraqueza da nossa carne não impeça a Palavra que é recebida.
Nós Te dizemos novamente, como Pedro disse:
Senhor, Tu tens as palavras da vida eterna. Para quem iremos?
Nós entregamos este dia. Entregamos a Tua Palavra aos cuidados do Teu fiel Espírito Santo, para que Ele Se mova mais uma vez e revele a nós, e em nosso espírito, as realidades vivas de Jesus, de modo que, ao final, se possa dizer de nós que temos o testemunho de Jesus.
Pois pedimos estas coisas juntos, nesse nome poderoso, nesse nome que está acima de todos os nomes. Amém.
Tenho sido trabalhado diante do Senhor, como a maioria de vocês sabe, a respeito desta palavra: testemunho. Espero não precisar dizer muito sobre o caminho que percorremos até aqui, mas, por um momento, deixem-me dizer que aquilo que tem pesado em nosso coração, aquilo em que temos sido exercitados, é muito mais amplo do que o testemunho individual.
O testemunho individual é importante. Nunca podemos menosprezar ou minimizar um testemunho vivo e o conhecimento pessoal do Senhor Jesus. Isso é vital.
Dito isso, se vocês perderem de vista aquilo que está tão claro na Palavra de Deus, do começo ao fim — que o que Ele busca é mais amplo em alcance e mais pleno em medida —, então terão perdido, creio eu, o coração de Deus em toda a Escritura.
Pois o que Ele busca é uma expressão de Si mesmo em plenitude, num povo que expresse corporativamente tudo o que Ele é: Ele enchendo tudo e em todos, como lemos em Efésios 2.
Então, é mais ou menos esse o caminho que temos percorrido. Esse pensamento tem me acompanhado. Hoje li novamente os versículos, ou pelo menos alguns deles, em Apocalipse: aqueles que “têm o testemunho de Jesus”.
Acho que talvez vocês tenham alguma noção — pelo menos espero que tenham — da impressão que isso parece ter causado em meu espírito alguns meses atrás. Já disse isso e vou dizer novamente: no fim, fazendo um jogo de palavras, no fim a questão é: temos o testemunho de Jesus?
É algo muito frágil. É algo em torno do qual, como lemos em Apocalipse 12, há uma grande guerra e um grande conflito espiritual. O inimigo vai atrás dessas pessoas, como lemos em Apocalipse 12:17, e as persegue.
Lemos até que, quando o Senhor Jesus falou de Sua igreja pela primeira vez, Ele disse:
As portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Isso não teria sido dito se as portas do inferno não fossem tentar prevalecer contra ela.
O Senhor Jesus nunca disse coisa alguma em vão. Mas, quando pensou nessa expressão entre o Seu povo, nessa expressão corporativa, Ele disse:
As portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Acho que é algo que devemos ponderar com sobriedade: quão grande é esse ataque.
Já consideramos duas coisas. Consideramos o testemunho revelado e examinamos o Antigo Testamento. Dissemos, desde o início, que Salmos 78:5 declara que Deus:
Estabeleceu um testemunho em Jacó.
Era isso que Israel deveria ser: separado de todos os povos do mundo, na Terra Prometida, expressando algo de Sua plenitude enquanto, juntos, descobriam tudo o que Ele era. Esse, no princípio, foi o primeiro movimento de Deus: o testemunho revelado.
Também falamos sobre o final do Antigo Testamento: o testemunho restaurado. A triste história do Antigo Testamento — e não digo isso apenas para deixá-los abatidos hoje, mas espero animá-los, pelo menos até o final do dia — é que esse povo, que Deus chamou para Si a fim de ser aquele tesouro peculiar e aquele testemunho singular, no fim fracassou.
Não foi o homem, mas foi Deus — foi Deus — Quem entregou o Seu testemunho à Babilônia. Vocês conseguem imaginar como isso deve ter partido o coração Dele?
É quase aquilo que o salmista quis dizer quando afirmou: “Ponderamos coisas grandes demais para nós”. Como isso deve ter partido o coração Dele.
Mas a boa notícia no final do Antigo Testamento é esta: embora o homem seja infiel, Deus permanece fiel. 2 Timóteo 2:13.
Que coisa gloriosa, porque esse é o Seu próprio pensamento e o Seu próprio propósito: Ele é o Deus da restauração. Ele faz soar o chamado à restauração e age soberanamente. Para provar que tudo procede Dele, Ele move o coração dos reis gentios e, então, chama um povo de volta para Si.
Graças a Deus, houve pessoas que responderam: Zorobabel, Neemias, Esdras, Daniel — que oraram, que abriram as janelas para o céu e oraram.
Bem, creio mesmo que Deus está procurando um povo que responda. Parece-me que esse chamado à restauração está soando novamente.
Onde estão aqueles que têm a preocupação de Neemias? A Escritura diz que ficaram surpresos por ter surgido alguém que se preocupava com as coisas de Deus.
Então, esse é o caminho que temos percorrido. Sei que alguns de vocês ficam um pouco frustrados comigo, com minhas introduções. Bem, é difícil ensinar truques novos a um cachorro velho.
Mais recentemente, o que tem pesado em nosso coração é essa questão do testemunho de Jesus no Novo Testamento. Compartilhamos que, no Novo Testamento, todos os tipos e sombras desaparecem, e chegamos ao próprio coração de Deus. Esse é o testemunho realizado.
Compartilhamos dois pontos na semana passada, e esses pontos eram simplesmente estes:
O testemunho de Jesus se realiza em uma Pessoa, e essa Pessoa é o Senhor Jesus. Vocês se lembram de que fiz todos sofrerem com aquela aula de gramática e disse que a preposição de é tão cheia de significado, tão profunda em seu sentido. Em primeiro lugar, é o testemunho de Jesus.
Uma irmã colocou isso para mim da seguinte maneira, depois. Peço desculpas se não fui claro o suficiente: o testemunho de Jesus é Jesus.
Agora, como disse uma pessoa bastante famosa, esse é o significado de “o que é, é”. Bem, esse é o pensamento.
Depois, consideramos o segundo ponto: o testemunho de Jesus não é revelado apenas na Pessoa, mas também é revelado em um povo. Essa é uma notícia gloriosa.
Deus, em Sua sabedoria, embora toda a plenitude residisse no Senhor Jesus, revela o mistério de Deus, que é Cristo Jesus, e depois revela o mistério de Cristo, que é a igreja.
De alguma forma, no grande amor e na economia de Deus, Ele escolheu que, num povo — Sua igreja —, fosse depositado esse testemunho de Jesus, e que ele fosse expresso por meio desse vaso.
Não deveria ser expresso apenas em alguma pequena medida, mas, como lemos em Efésios 3:10, aos principados e às potestades; e não em algum pequeno grau, mas segundo a multiforme sabedoria de Deus.
É isso que Ele busca. Quanto a vocês que estão chegando agora, e àqueles que talvez não tenham prestado muita atenção, pelo menos agora estão um pouco mais a par do assunto.
Hoje estamos considerando o terceiro ponto daquela terceira mensagem, se vocês conseguem acompanhar todos esses números. É este: o testemunho deve se realizar na prática.
Sabem, acho mesmo que algumas pessoas simplesmente gostam de teoria. Algumas pessoas simplesmente gostam de teoria. Podem falar sobre o testemunho. Podem descrever as riquezas de Cristo. Podem descrever a missão da igreja. Mas, na hora de colocar isso em prática, de fato não há nenhuma manifestação prática em sua vida, nem entre os outros, nem com os outros, em que isso seja uma realidade concreta.
Vocês entendem? Não deve ser apenas uma teoria. Quero realmente deixar esse ponto bem claro nos poucos aspectos que vamos considerar. Não deve ser apenas algo teórico.
Acho que, muitas vezes, os crentes falam com grande eloquência sobre o corpo de Cristo, sobre todos os membros e sobre como eles são; mas, quando se trata de funcionar juntos na prática e de se mover em harmonia com as partes e os membros, não se vê nenhuma realidade manifesta disso.
E, no fim, irmãos e irmãs — e esse é todo o encargo desta manhã —, o testemunho de Jesus deve se realizar na prática. Esse é o ponto final.
Deixem-me falar da minha própria experiência, se posso entediá-los um pouco mais. Vou falar de uma coisa que descobri. A maioria de vocês sabe, pelo menos a esta altura, que sou engenheiro. Podem sentir pena de mim. Podem sentir ainda mais pena da minha esposa, mas sou o que sou, como disse Paulo.
Eu contrato engenheiros e treino engenheiros, e eles são as pessoas mais teóricas do mundo. Teoria demais.
Nunca vou me esquecer: contratamos jovens engenheiros, e eles acham que sabem tudo. É impressionante. Saem da faculdade com toda essa teoria. Acham que entenderam tudo. Acham que sabem ser engenheiros, e então nós os levamos para o escritório e os treinamos para serem engenheiros.
Agora, acompanhem meu raciocínio aqui, porque, quando você se torna engenheiro — e vou aplicar isso à igreja; não estou recrutando engenheiros, nem um só de vocês —, isso se torna realidade na prática, junto com outros engenheiros, funcionando em conjunto, pegando o que você sabe na teoria e colocando em prática.
É a mesma coisa em qualquer profissão. Podemos aprender sobre as coisas, mas, a menos que elas se manifestem na prática, a menos que haja algum testemunho prático, alguma expressão prática, tudo não passa de teoria.
Acho que quase todo mundo entende, mas não percebemos quanta teoria temos. Somos bons teóricos, se essa é a palavra certa. Foi a palavra certa? Minha esposa está apertando os olhos. Isso geralmente não é um bom sinal. Ela é formada em Letras; eu sou engenheiro. Vocês podem entender nosso dilema.
Mas, no fim das contas, tudo o que sabemos deve ser trazido para uma expressão viva e uma realidade em que aquilo que é falado seja real entre nós.
Agora, isso só pode acontecer no exercício prático. Você não pode ir estudar em algum lugar e aprender isso. Não me entendam mal quando digo isso. Às vezes fico preocupado: as pessoas vão jogar alguma coisa em mim. Não sou contra o estudo de maneira nenhuma.
Mas, no fim, você não pode aprender isso na escola. Precisa aprender entre os santos. Ali, entre os santos, você descobre o que significa ser uma expressão prática e viva do testemunho de Jesus. É disso que se trata, e essa é a realidade.
Já dissemos muitas vezes, e diremos repetidamente: o melhor lugar para aprender — se você quer aprender sobre o Senhor Jesus —, o melhor lugar para ser exercitado, se você quer ser exercitado em sua fé, o melhor lugar para demonstrar se você tem vida ou não, é bem no meio do povo de Deus, junto com seus irmãos na fé.
Ali, à medida que vocês são edificados juntos como uma santa habitação no Senhor Jesus, e à medida que descobrem algo de Sua plenitude ali, descobrem a realidade da expressão prática.
Bem, espero que isso esteja claro. Nesta manhã, vamos considerar três pontos.
Em primeiro lugar, vamos abrir em João 13–17. Acho que talvez vocês já estejam começando a perceber isso naquelas poucas passagens que lemos.
Irmãos e irmãs, quero dizer que não há nada na Bíblia exatamente como esses capítulos. Eles são singulares. Primeiro, vemos essa grandiosa cena do Senhor Jesus na Última Ceia, assumindo esse lugar de absoluta humildade.
Vemos a cena inicial em que o Senhor Jesus Se levanta da ceia, ou da mesa, ou da refeição. Ele pega uma toalha de linho, cinge-Se com ela e começa a lavar os pés dos discípulos.
É uma história impressionante. Como o Altíssimo assumiu um lugar de tamanha humildade? É quase inconcebível.
No entanto, quando chegamos a essas últimas semanas da vida de nosso Senhor na terra, começamos a ver nisso a cena mais grandiosa: o Senhor Jesus assumindo o lugar de uma escrava.
Vamos ler João 13:1:
Ora, antes da festa da Páscoa,
sabendo Jesus que era chegada a Sua hora
de passar deste mundo para o Pai,
tendo amado os Seus que estavam no mundo,
amou-os até o fim.
Que coisa linda.
Irmãos e irmãs, o primeiro ponto que queremos considerar é que o testemunho se expressa na prática por meio do amor divino. Essa é a primeira coisa.
Todo o contexto desse grande capítulo, João 13, no qual vemos nosso Senhor Jesus assumindo esse lugar de humildade, é que Ele amou os Seus até o fim. Se vocês olharem para isso em qualquer outro contexto, perderão, creio eu, o pensamento central dessa passagem.
A primeira coisa que o Senhor Jesus demonstra como vital para uma expressão prática do testemunho de Jesus é o amor divino. Sem ele, é impossível. Sem ele, são apenas palavras.
Mas, no fim, o que é essencial — absolutamente essencial — é que haja entre o povo de Deus e no povo de Deus uma demonstração de amor divino.
Vocês percebem que continuo colocando esse adjetivo: amor divino. Não pode haver testemunho de Jesus sem o amor de Deus. Talvez vocês digam: “Irmão, isso é básico demais. Esperávamos mais”.
Mas creio que isso é profundo. No fim, quando havia chegado a hora — quando pensaríamos que o que pesava sobre o Senhor era Sua morte às mãos de Sua própria criação —, Sua atenção estava, em vez disso, em demonstrar amor divino ao Seu próprio povo.
Foi isso que Ele fez. Isso me impressiona. Ele pegou aquela toalha de linho, colocou-a em volta de Si, ajoelhou-Se aos pés daqueles discípulos e começou a lavar os pés deles.
Não é de admirar que Pedro tenha ficado perplexo. Vocês talvez pensem que poderiam fazer melhor do que Pedro, mas não fariam, acreditem em mim. Pedro sabia Quem estava diante dele. Sabia que era o Senhor da glória. Sabia que era o Filho de Deus. O que Ele estava fazendo, assumindo esse lugar de uma escrava e lavando os pés dos discípulos?
Vocês podem imaginar o que se passava pela cabeça de Pedro. Ele deve ter pensado: “Senhor, o que estás pensando?”
Mas era isto que Ele estava pensando: a demonstração do amor divino é essencial ao testemunho de Jesus.
Quando Se levantou, Ele lhes disse — vejam a última parte de João 13:12:
Sabeis o que vos fiz?
Que pergunta.
Vós Me chamais Mestre e Senhor:
e dizeis bem; porque Eu o sou.
Se Eu, pois, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés,
também vós deveis lavar os pés uns aos outros.
Porque Eu vos dei o exemplo,
para que também vós façais como Eu vos fiz.
Irmãos e irmãs, esta é a lição de João 13: o amor divino é absolutamente essencial; sem ele, não há manifestação prática do testemunho de Jesus.
Ele prossegue. Vejam João 13:34-35. Esse é o ensino que vem em seguida, na mesma linha, e reforça o ponto central que o Senhor Jesus procurava deixar com os Seus quando estava prestes a deixá-los.
Um novo mandamento vos dou:
que vos ameis uns aos outros;
assim como Eu vos amei,
que também vós vos ameis uns aos outros.
Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos,
se tiverdes amor uns pelos outros.
Por isso — nisso — há testemunho. Nisso está a expressão prática pela qual as pessoas saberão que há algo diferente em nós: se vocês tiverem amor uns pelos outros.
Esse novo mandamento pode parecer nos levar, como crentes, por um caminho que o Senhor nunca pretendeu, porque começa a despertar em nosso pensamento a ideia de que somos obrigados e ordenados — e de fato somos ordenados — a amar uns aos outros.
Mas acho que ele é, ao mesmo tempo, o mais elevado mandamento e a tarefa mais impossível. Observem essa pequena frase: “Assim como Eu vos amei”.
Vocês já perceberam isso? Coisas assim me inquietam. Gostaria de ser menos atento aos detalhes e simplesmente passar por cima disso, pensando que meu amor humano, meu consolo humano e minha afeição humana pelos santos fossem suficientes.
Mas o Senhor Jesus acrescentou essa pequena frase, como costumava fazer: “Assim como Eu vos amei”. Vocês conseguem imaginar a medida disso? A profundidade desse amor?
Esse não é um mandamento que possamos cumprir com afeição natural. É preciso que o amor divino nos capacite. A própria palavra é ágape. Não quero dar uma aula de grego, mas ágape é o amor de Deus.
Esse amor, que será um testemunho manifesto de que somos discípulos Dele, não tem sua origem em nós, não tem sua fonte em nós e não recebe sua energia de nós. É inteiramente divino em sua origem, natureza e energia. Vocês precisam se lembrar disso.
Não acho que haja algo que ilustre isso melhor do que o final do Evangelho de João. Vocês podem discordar de mim a respeito de Pedro e João. Talvez vocês se identifiquem mais com João; talvez eu me identifique mais com Pedro.
Mas Pedro, de certa forma, demonstra o que há de melhor na devoção natural. Ele foi o único que disse ao Senhor Jesus, antes da cruz: “Ainda que os outros Te neguem, eu não Te negarei. Morrerei por Ti”. Vocês se lembram daquela declaração que ficou tão conhecida.
Mas, quando chegamos ao final de João, começamos a aprender uma lição que considero vital. A lição é que Pedro, em sua profunda devoção, em seu verdadeiro amor humano pelo Senhor Jesus, no fim fracassou completamente. Completamente.
Então vemos aquela grandiosa cena de João 21, quando o Senhor Jesus está na praia, chamando-os para Si, e começa a insistir:
Simão, filho de Jonas, amas-Me?
Essa era a única questão. Pedro, você realmente tem esse tipo de amor? Você realmente tem essa capacidade?
E ele não conseguia responder. Disse: “Senhor, tenho afeição por Ti”. Uma palavra diferente: phileo. “Tenho afeição por Ti. Isso é o melhor que tenho. É uma emoção humana. É um sentimento. É um vínculo que procede de nós mesmos.”
O Senhor Jesus, para deixar claro o Seu ponto, disse:
Simão, filho de Jonas, amas-Me?
O Senhor disse ágape; Pedro disse phileo. “Senhor, tenho afeição por Ti. É o melhor que tenho. É o melhor que posso fazer.”
Então o Senhor disse: “Pedro, Simão, filho de Jonas, tens afeição por Mim?”
Pedro se entristeceu em seu espírito e disse: “Senhor, Tu sabes todas as coisas. Sabes que isso é o melhor que tenho. Tenho afeição por Ti”.
O Senhor deixou claro o Seu ponto. Irmãos e irmãs, quanto ao último mandamento que Ele deu, vocês acham que temos a capacidade ou a energia para cumpri-lo? Acham mesmo?
A menos que, no fim, o amor divino entre em nós, seja desenvolvido em nós e se expresse por meio de nós, não haverá nenhum testemunho duradouro expresso na prática.
Deixem-me ler uma citação que explica a diferença aqui. Vine, em seu Dicionário de Palavras do Novo Testamento, diz:
O amor cristão, seja exercido para com os irmãos, seja para com as pessoas em geral, não é um impulso dos sentimentos.
Lembro-me de que, quando eu era jovem, havia uma música — não consigo tirá-la da cabeça. Vocês percebem quanto lixo entra na nossa cabeça e não conseguimos tirar? Aquela música: “Sentimentos, nada mais que sentimentos”. Vocês não querem que eu cante, querem?
Pensamos que o amor cristão tem a ver com sentimentos humanos. Mas ouçam o que Vine diz:
Ele nem sempre acompanha as inclinações naturais, nem se dedica apenas àqueles com quem se descobre uma afinidade.
Vou confessar uma coisa: há certas pessoas de quem gosto. Há certas pessoas com quem eu preferiria não passar a tarde. Estou falando de maneira branda.
Mas o amor cristão, o amor ágape, o amor divino, que é absolutamente essencial para que o testemunho de Jesus se manifeste, nunca se baseia na afinidade que temos com alguém.
A segunda coisa sobre o amor divino é o seu foco. Vocês perceberão que o foco são os outros. Perceberão que a instrução do Senhor Jesus era amar uns aos outros. Perceberão que o Senhor Jesus lavou os pés dos discípulos.
Ele disse:
Sabeis o que vos fiz?
Vocês perceberão, quando Ele começa a falar desse último e grande mandamento, que é para que vocês amem:
Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos,
se tiverdes amor uns pelos outros.
Irmãos e irmãs, não consigo pensar em algo mais importante a ser dito sobre o amor divino, porque o amor divino não está voltado para si mesmo. Está sempre voltado para os outros.
Creio que, em nossa geração, um grande erro se infiltrou neste mundo. Não me importo de dizer isso, porque é a minha geração. Não vou pegar no pé de vocês, que são mais velhos, mais sábios e mais respeitáveis, mas vou pegar no meu próprio pé.
Algo aconteceu nos anos sessenta e setenta, e todo o foco mudou para nós mesmos. Tudo passou a ser eu, eu e o que é meu.
Até a psicologia mudou de rumo. Tudo passou a ser autoestima. Isso se tornou a coisa mais importante, a coisa mais importante do mundo. Você pode ferir a autoestima de alguém. Tudo gira em torno de nós mesmos.
Mas, irmãos e irmãs, quando se trata do amor divino, quando vocês olham para o Senhor Jesus como exemplo e quando olham para o mandamento, começam a perceber que o amor está voltado para os outros. Está sempre voltado para os outros.
Quando o amor divino entra em nós e toma conta de nós, em certo sentido ficamos seguros do amor de Deus, esquecemos de nós mesmos e começamos a ser motivados a amar uns aos outros. Esse é o segredo do amor divino.
Alguns de vocês talvez discordem de mim aqui, mas vou dizer. Conheço a passagem sobre o próximo. Temos algumas opiniões diferentes entre nós a respeito de Mateus 22.
Vocês se lembram de quando o fariseu veio ao Senhor Jesus e perguntou: “Qual é o maior mandamento de Deus?” Primeiro, Ele disse que é amar a Deus, o primeiro e maior mandamento. Depois disse que o segundo, semelhante a ele, é:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
De alguma forma, na filosofia cristã, adotamos esse ensino do mundo. Começamos a absorvê-lo. Vou dizer de maneira ainda mais forte: bebemos o suco envenenado. Vocês entendem?
Talvez algumas pessoas não saibam o que isso significa. Pegamos a filosofia do mundo e a trouxemos para dentro da igreja, e a expressão como a ti mesmo se tornou a parte mais importante desse versículo.
Pensamos que, a menos que amemos a nós mesmos, a menos que valorizemos a nós mesmos, a menos que nos concentremos em nós mesmos, não podemos amar a Deus nem amar uns aos outros.
Agora, alguns aqui talvez discordem de mim nisso, mas creio que a Bíblia não ensina o amor a si mesmo. Ela pressupõe o amor a si mesmo. Vocês entendem a diferença?
O Senhor disse:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Você já ama a si mesmo. Vou ainda mais longe, e alguns de vocês talvez se ofendam e saiam: nós amamos tanto a nós mesmos que somos infelizes na maior parte do tempo.
Eu diria ainda — e já passei por depressão — que as pessoas deprimidas amam a si mesmas. A libertação de Deus, o amor divino, nos tira de nós mesmos.
Agora, isso não significa que não tenhamos compaixão. Mas deixem-me dizer: o amor a si mesmo é pressuposto, não ensinado.
Eu tinha um livro. Diria que o emprestaria a vocês, mas tenho medo de nunca mais recebê-lo de volta. Paul Brownback, presidente do Citadel Bible College, escreveu esse livro em 1982, e o título é O Perigo do Amor a Si Mesmo.
Bem, se vocês falarem comigo com bastante carinho, ou algo assim, talvez eu empreste o livro. Na verdade, Linda entrou na Amazon e descobriu que o livro está esgotado. Descobrimos que poderíamos conseguir seis exemplares por trinta dólares, então estamos considerando essa possibilidade.
Ainda assim, quando o li em 1982, foi uma experiência profunda, que abriu meus olhos. Assim como alguns de nossos irmãos disseram nesta manhã, na abertura e à mesa, o foco não sou eu. Isso não é uma boa notícia?
No amor divino, o foco é sempre Cristo e sempre os outros.
Então, irmãos e irmãs, espero que isso esteja claro. É vital para o testemunho de Jesus que haja amor divino demonstrado em nosso meio. Isso é vital. É o mandamento do Senhor, mas é, de fato, amor divino.
No fim, o que deveríamos orar todos os dias é: “Senhor, que o Teu amor esteja em mim e se manifeste por meio de mim. Que ele esteja em nós numa expressão corporativa e se manifeste por meio de nós”.
Nisso está a realização prática do testemunho de Jesus. Creio que esse é um princípio vital.
O segundo ponto que queremos considerar hoje é este: o testemunho de Jesus não é expresso apenas no amor divino; ele é expresso por meio da vida divina.
Nunca foi a intenção que você vivesse a vida cristã. Sei que vocês já me ouviram dizer isso antes, mas nunca foi a intenção que nós vivêssemos a vida cristã.
Se vocês abrirem em João 15, começarão a ter uma ideia do que isso significa. Vejam João 15:5:
Eu sou a videira, vós sois os ramos:
aquele que permanece em Mim, e Eu nele,
esse dá muito fruto:
porque sem Mim nada podeis fazer.
Será que percebemos isso? “Porque sem Mim nada podeis fazer.” É o Senhor Jesus falando aos Seus, antes de partir, nesse compartilhar tão íntimo de Seu coração.
Ele começou a falar sobre a vida que flui de permanecermos Nele. Começou a falar sobre outra vida. Começou a dizer: “Eu sou a videira, e vocês são os ramos”. A vida que sai da videira entra nos ramos.
Quando essa vida flui livremente para os ramos, então muito fruto é produzido a partir da vida divina. Vocês entendem o ponto.
Nunca é a nossa vida. Nunca é uma vida de imitação.
Acontece que gosto de tomar café. É uma das coisas sobre as quais meu médico e eu estamos discutindo. Recuso-me a largar o café. Se isso me levar mais cedo, que me leve. Mas gosto de tomar café.
Coloco nele todos esses produtos de imitação. Não uso creme de leite de verdade. Uso esse substituto em pó — uma coisa enjoativa. Experimentem lamber a colher de vez em quando; vocês vão entender o que quero dizer. E uso um substituto do açúcar. Não é de verdade.
Mas, não sei, acabei me acostumando. Eu me pergunto, queridos, se não nos acostumamos tanto com a imitação que já não reconhecemos o que é real quando o vemos.
No fim, é vida divina. É a vida da videira que flui para os ramos e, por meio dos ramos, se manifesta na prática. Essa é a vida cristã.
Nunca dependeu de mim. Nunca se esperou que eu a vivesse por mim mesmo. Deveria ser inteiramente uma descoberta da vida do Senhor em nós.
Para garantir isso, se vocês lerem o restante de João 15 e 16, verão que o Senhor faz algo extraordinário. Ele diz: “Vou para o Pai, mas, se Eu for para o Pai, não os deixarei sem consolo. Enviarei a vocês o outro Consolador”, falando da Pessoa do Espírito Santo.
“E Ele estará com vocês, e Ele estará em vocês.”
Irmãos e irmãs, não sei o que vocês poderiam imaginar como uma das maiores coisas que Deus poderia fazer, mas pensem nisso: Ele envia Deus, o Espírito Santo, para estabelecer Sua morada permanente em nós.
Em tempo integral, o Espírito Santo de Deus. Não é de admirar que, quando lemos 1 Coríntios 3, encontremos: “Não sabeis que sois o templo do Espírito Santo?” Ou, usando a outra designação tradicional em inglês, Holy Ghost, como preferirem.
O próprio Espírito de Deus nos é dado para que possamos viver essa vida divina em tempo integral.
Na quinta-feira, pouco antes de sair do escritório, fiquei sabendo que uma das maiores empresas com que trabalho contratou meu advogado favorito. Eles reconheceram que precisavam de um conselheiro jurídico em tempo integral.
Algo extraordinário para uma empresa de engenharia ou arquitetura, não acha, Terry? Companheiro de sofrimento nessa caminhada. Não, estou falando com sua esposa — companheira de sofrimento nessa caminhada. Você não percebeu a minha entonação.
Um conselheiro em tempo integral. Tremam diante desse pensamento: Deus, o Espírito Santo, entrando em nós para estabelecer residência permanente. O que mais se poderia acrescentar?
Jesus disse: “Vocês não precisarão de outro mestre. Ele lhes ensinará tudo o que Eu lhes disse. Ele lhes mostrará a Mim mesmo. Ele os guiará em toda a verdade”.