Quero ler nesta noite algumas passagens do Novo Testamento. Primeiro, na carta aos Colossenses, uma carta do apóstolo Paulo aos Colossenses, em Colossenses 2:20.
Se morrestes com Cristo para os rudimentos do mundo, por que, como se vivêsseis no mundo, vos sujeitais a ordenanças: Não manuseies, nem proves, nem toques — coisas que todas hão de perecer pelo uso —, segundo os preceitos e as doutrinas dos homens? Essas coisas têm, de fato, aparência de sabedoria em culto voluntário, humildade e rigor para com o corpo, mas não têm valor algum contra a satisfação da carne.
Se, pois, fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas que são do alto, onde Cristo está, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas que são do alto, não nas que são da terra. Porque morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus. Quando Cristo, Que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória. Mortificai, pois, os vossos membros que estão sobre a terra.
Agora, abram na carta aos Gálatas. Apenas um versículo: Gálatas 2:20.
Fui crucificado com Cristo; e já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim: e a vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé, a fé no Filho de Deus, Que me amou e Se entregou por mim.
E, depois, na carta aos Romanos, a partir de Romanos 6:3.
Ou ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na Sua morte? Fomos, pois, sepultados com Ele pelo batismo na morte: para que, assim como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, também nós andemos em novidade de vida. Porque, se fomos unidos a Ele na semelhança da Sua morte, também o seremos na semelhança da Sua ressurreição; sabendo isto: que o nosso velho homem foi crucificado com Ele, para que o corpo do pecado fosse desfeito, a fim de não mais sermos escravos do pecado; porque aquele que morreu está justificado do pecado. Ora, se morremos com Cristo, cremos que também viveremos com Ele; sabendo que Cristo, tendo sido ressuscitado dentre os mortos, já não morre; a morte já não tem domínio sobre Ele. Pois, quanto à morte que Ele morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas, quanto à vida que Ele vive, vive para Deus. Assim também vós considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal.
Vamos fazer mais uma breve oração?
Querido Senhor, já nos colocamos, pela fé, sob essa unção que é nossa no Senhor Jesus. Tudo o que queremos fazer agora é pedir-Te que faças a Tua palavra tornar-se viva para nós.
Senhor, pedimos que o encargo desta noite possa, de alguma maneira, ser comunicado com clareza pelo Espírito Santo. Oh, concede, Senhor, que esta palavra de Cristo venha habitar ricamente em nós. Faze com que seja assim, nós Te pedimos, em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.
Bem, nestas reuniões à noite, tenho falado sobre a fé viva e sobre muitos aspectos da fé viva: a necessidade, a absoluta necessidade, nestes dias em que vivemos, de uma fé viva, prática, atuante.
Não uma fé que seja apenas uma concordância mental com a doutrina cristã ou com a autoridade e a inspiração da Bíblia, mas o tipo de fé que nos une à Palavra de Deus; que faz com que a palavra de Cristo venha habitar ricamente em nós; que significa recebermos a palavra implantada. Ela começa a criar raízes em nós, a crescer e a dar fruto.
Precisamos desse tipo de fé, que faz com que tudo o que encontramos neste Livro possa tornar-se nossa experiência à medida que prosseguimos com o Senhor. Eu digo: pode tornar-se. Gostaria de dizer que tudo o que está no Livro deveria tornar-se nossa experiência, mas será que alguém, em uma única vida, pode entrar em tudo o que está neste Livro? Certamente será necessária a eternidade para experimentarmos tudo o que é nosso no Senhor Jesus.
Contudo, se ao menos estivéssemos possuindo uma pequena fração do que é nosso no Senhor Jesus, em comparação com o que teremos no futuro! Mas a maioria de nós não está possuindo nem mesmo uma fração do que é nosso. Estamos, por assim dizer, bem na beirada, nas águas rasas, na periferia das coisas — salvos pela graça de Deus, conhecendo o perdão dos pecados e, na verdade, sem ir muito além disso.
É por isso que temos falado sobre essa questão da fé viva: o que ela é, como exercê-la, como possuir o que é nosso no Senhor Jesus.
Ontem à noite, falei sobre o Espírito Santo — a Pessoa e a obra do Espírito Santo. Que coisa extraordinária, extraordinária, Deus nos deu: o Espírito Santo, a plenitude e o poder do Espírito Santo, tanto a Sua habitação em nós quanto a Sua capacitação.
Isso é nosso, não porque você e eu somos dignos, não porque você e eu somos suficientemente zelosos, não porque oramos o bastante, mas por causa da obra consumada do Messias. Por causa dessa obra completa e consumada, toda a obra do Espírito Santo pertence a cada filho de Deus.
Agora, isso não significa que entramos em tudo de uma só vez. Mas, graças a Deus, tudo é nosso. No momento em que enxergamos isso com os olhos do nosso coração, podemos, por assim dizer, firmar os pés, reivindicar o que é nosso Nele e avançar para tomar posse.
Agora, nesta noite, quero falar sobre a fé viva e a obra da cruz.
A obra da cruz também tem dois aspectos. Cristo morreu por nós, e Cristo morreu como nós.
Cristo morreu como meu substituto. Isto é, Ele tomou o meu lugar e fez o que eu não podia fazer. Sendo sem pecado, Ele levou em Seu próprio corpo o meu pecado, e Deus O fez tornar-Se o meu pecado, para que eu me tornasse a justiça de Deus Nele. Não é extraordinário?
Essa é a obra da cruz: quando o Senhor Jesus morreu como minha expiação, quando o Senhor Jesus morreu como meu substituto, quando Ele morreu em meu lugar. Isso eu não podia fazer. Ali eu não posso ir. Somente Ele podia realizar essa obra.
Bem, creio que a maioria de nós, ainda que de maneira pouco clara, entende essa parte da obra da cruz. Sabemos que não podemos ser salvos senão pelo Cordeiro de Deus. Sabemos que somente Ele, Que é o nosso Cordeiro pascal, é o caminho pelo qual podemos chegar a Deus, o caminho pelo qual podemos nascer de Deus, ser redimidos e salvos.
Mas Ele não morreu apenas como meu substituto; morreu como meu representante. Isto é, quando morreu na cruz, Ele representou a mim e representou a você.
Quando Ele foi crucificado, você e eu fomos crucificados. Quando Ele foi sepultado, você e eu fomos sepultados. Quando Deus O ressuscitou dentre os mortos, você e eu fomos ressuscitados dentre os mortos para andar em novidade de vida. Quando Ele foi assentado à direita de Deus Pai, você e eu fomos assentados juntamente com Ele nos lugares celestiais.
Que coisa maravilhosa é essa — tão extraordinária que o apóstolo Paulo diz, pela inspiração do Espírito Santo:
Quando Cristo, Que é a nossa vida, Se manifestar, então também vós vos manifestareis com Ele em glória. Porque morrestes, e a vossa vida está oculta com Cristo em Deus.
Ele morreu como nosso representante. Isto é, Ele morreu como eu.
Talvez vocês ainda não consigam compreender isso plenamente. Sei que, durante anos, eu não tinha ideia desse aspecto da cruz e vaguei num pântano de obras cristãs, fazendo o melhor que podia para ser um bom cristão — para testemunhar, orar, ler minha Bíblia, ser santo, ser tudo o que fosse possível.
Sabem, era muito difícil para mim. Mas eu fazia absolutamente tudo o que podia para ser um cristão, porque ignorava inteiramente essa verdade. Embora lesse a Bíblia, é impressionante como você pode ler certas coisas e elas simplesmente não significarem nada para você.
Eu havia lido a Bíblia, mas, na verdade, não sabia nada sobre o Espírito Santo. Foi um grande choque descobrir que o Espírito Santo estava dentro de mim e podia vir sobre mim. Aquilo foi algo extraordinário.
No entanto, eu havia lido o Evangelho de João repetidas vezes. Havia lido aquelas palavras de Jesus:
Eu vos darei outro Consolador, e Ele estará convosco para sempre.
Mas isso nunca me passou pela cabeça.
Eu havia lido sobre o Espírito da verdade nos guiar a toda a verdade, sobre o Espírito tomar as coisas de Cristo e anunciá-las a nós. Mas era como se não houvesse Espírito Santo, até o dia em que Deus abriu os olhos do meu coração.
De repente, vi que o Espírito Santo havia vindo e estabelecido Sua morada em mim quando bebi daquela água viva. Quando recebi o Senhor Jesus, o Espírito Santo havia entrado em mim. Então compreendi que Ele podia não apenas estar dentro de alguém, mas também sobre essa pessoa.
Oh, então me pareceu que, de alguma forma, um parágrafo sim, outro não, na Palavra de Deus, se relacionava com o Espírito Santo. Em todo lugar que eu lia, encontrava: “O Espírito isto, o Espírito aquilo, o Espírito aquilo outro”. Não é assim quando, de repente, você enxerga?
Quando você ainda não enxergou essa obra da cruz — o que Deus fez com você e comigo —, é impressionante. Podemos ler:
Fui crucificado com Cristo; contudo, vivo; todavia, não eu.
E isso não significa nada para nós. Entra por um ouvido e sai pelo outro. Passa diante dos olhos. Só isso.
Podemos ler coisas como:
O mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo.
E isso não significa nada. Podemos ler que devemos negar a nós mesmos, tomar a nossa cruz e segui-Lo, e isso não tem significado. Lemos, mas não tem significado até que os olhos do nosso coração sejam iluminados, até que nos seja dado o Espírito de sabedoria e de revelação.
Então é como se nossos olhos se abrissem e enxergássemos algo. Enxergamos o que Deus fez conosco.
Agora, uma coisa é termos nossos pecados tratados. Quero dizer, isso é maravilhoso. Será que alguém pode ser salvo sem saber, ainda que de maneira pouco clara, que Jesus levou os nossos pecados?
Uma vez que nossos pecados foram levados e cancelados, somos justificados diante de Deus. Isto é, aos olhos de Deus, é como se nunca tivéssemos pecado. Recebemos como nosso o histórico divino e imaculado do Senhor Jesus.
Deus substitui o meu histórico pelo histórico sem pecado Dele e diz: “De agora em diante, esse é o seu histórico”. É como se você nunca tivesse pecado. Não é maravilhoso? Cancelados, apagados, levados para tão longe quanto o oriente está do ocidente; apagados como uma nuvem espessa, para nunca mais serem lembrados.
Quando Deus trata do pecado, Ele nunca mais volta a levantá-lo. Está feito. Está consumado.
Foi Lutero quem, certa vez, teve um sonho e foi a Deus perguntar sobre determinados pecados. Deus disse: “Que pecado?”. Lutero disse: “Certamente Tu deves lembrar”. E Deus disse: “Não vejo pecado algum” e, no sonho, dirigiu os olhos de Martinho Lutero para uma mesa. Sobre a mesa havia um livro, e nele estava escrito: “Martinho Lutero”.
Quando ele abriu o livro, havia ali justiça perfeita. E, estando Martinho Lutero inteiramente justo, Deus disse: “Não tenho conhecimento de pecado algum”.
Jesus levou todo o nosso pecado. No lugar do nosso histórico pecaminoso, depravado e sombrio, temos o histórico do Filho de Deus, imaculado e sem pecado.
Agora, isso é a coisa mais maravilhosa e extraordinária. Mas, dito isso, chegamos a um problema prático. Você não consegue ser cristão por muito tempo sem descobrir que, mesmo que tenha visto que seus pecados foram tratados, ainda tem um grande problema.
O problema é você mesmo.
Às vezes pensamos que, se fôssemos pessoas nobres, belas e doces, não teríamos problema algum. Ainda teríamos um problema. Por mais nobre e belo que você seja, a maioria de nós é muito egocêntrica. Gostamos que nos notem. Temos direitos.
Mesmo sem pecado, temos direitos. Não queremos que as pessoas pisem nos nossos direitos. Não queremos ser tratados como capacho. Não queremos que alguém manche nossa reputação. Não queremos que alguém nos bata na outra face — vamos revidar. Se levarem nosso casaco, vamos pegá-lo de volta e levar o deles também.
Podemos ser nobres e belos, mas temos direitos, não é? Só porque não tivéssemos pecado, isso não significaria que não tivéssemos direitos. Esse é todo o problema dos seres humanos: eu, pecado — em inglês, S-I-N. O “I”, que significa “eu”, no centro. Pecado. Tão simples, não é?
Deus respondeu a todo esse problema. Ele não tratou apenas dos pecados; tratou do pecado. Não tratou apenas das coisas que fazemos, das nossas obras más, dos nossos erros, fracassos e de tudo o que é abominação aos Seus olhos. Ele trata da vida do eu, que está no centro de todo o problema.
Agora, permitam-me dizer algumas coisas sobre essa questão de sermos crucificados com Cristo. Primeiro, gostaria de ressaltar a impossibilidade de alguém crucificar a si mesmo.
Nos círculos cristãos, quando há alguma compreensão disso, às vezes tudo acaba se resumindo a uma dor de cabeça. Alguém diz: “Minha cruz voltou”. Quer dizer que está com dor de cabeça ou com uma pontada no quadril. Sua cruz voltou; sua aflição voltou. Algumas pessoas encaram isso como a cruz que precisam carregar. Não foi isso, de modo algum, que o Senhor Jesus quis dizer.
Quando as pessoas enxergam um pouco do significado das palavras do nosso Senhor Jesus sobre negar a nós mesmos, tomar a nossa cruz e segui-Lo, começamos a trilhar o caminho de tentar, de algum modo, crucificar a nós mesmos. É uma tarefa impossível.
Pensem por alguns instantes na própria imagem da crucificação. É claro que é impossível. Talvez você pudesse pregar uma das mãos e até conseguisse pregar os pés. Mas o que faria com a outra mão? É impossível crucificar a si mesmo. É óbvio, não é?
No entanto, os cristãos andam por aí tentando dar morte a si mesmos, tentando cair na terra e morrer, tentando mortificar os feitos ou as obras da carne. É uma tarefa impossível. Não é de admirar que os cristãos sejam tão infelizes.
Por que os cristãos que às vezes enxergam isso se tornam, entre todos os cristãos, os mais infelizes, os mais sombrios, os mais obscuros e os mais pesados? Porque, de algum modo, tentamos crucificar a nós mesmos. Tentamos morrer.
É um conceito completamente falso. Você não consegue fazer isso.
O problema é que, toda vez que você empurra para baixo uma parte do eu, ela aparece em outra direção. Sempre penso naquelas antigas almofadas de ar. Se você aperta um lado, ela sobe aqui; então aperta esse lado, e ela sobe ali. O ar está dentro da almofada — precisa aparecer em algum lugar.
Assim, se você o empurra para baixo num lugar, ele sai em outro. Alguns cristãos passam o tempo todo reprimindo uma coisa e, de repente, descobrem outra aparecendo; então reprimem essa, e tudo volta ao ponto de partida. Tentam reprimir as duas, e então aparece em outro lugar. É um negócio impossível.
Não é de admirar que nos sintamos os mais infelizes de todos. Não poderia ser diferente.
Vocês realmente acham que o Senhor pretendia nos dar uma tarefa tão impossível, lutando o tempo todo com isso? Ele disse, sim, que seria difícil viver a vida cristã e que entraríamos no reino de Deus por muitas tribulações. Mas vocês realmente acham que Ele nos deu uma tarefa tão impossível?
É como uma planta que, na Grã-Bretanha, chamamos de dockweed, uma espécie de azeda. Você tenta tirá-la do jardim, e a maioria das pessoas que não são bons jardineiros corre lá fora, vê a planta crescendo e simplesmente a arranca rente ao chão. Fica uma beleza — por dois dias.
Então ela brota de novo. Por isso, pensam: “Muito bem, agora vamos atacar isso para valer”, e cavam, cavam. Mas cada pedacinho que fica na terra se torna outra planta. Cada um.
É exatamente assim com essa nossa velha natureza. Nós a atacamos para valer. Fazemos uma guerra-relâmpago contra ela. Dizemos: “Acabei de ouvir uma mensagem maravilhosa. Estou andando no caminho da cruz. Agora tenho de fazer isso. Tenho de assumir o controle de mim mesmo. Tenho de realizar essa obra”.
Então atacamos tudo e quebramos tudo em pedaços. Dizemos: “Oh, não é maravilhoso? Sinto-me tão bem com isso. Dei um golpe e tanto em mim mesmo. Creio que consegui. Finalmente crucifiquei a mim mesmo” — só para descobrir que, no lugar de uma planta, temos doze.
Então fazemos outro ataque, maior que o anterior, com mais oração e talvez um pouco de jejum. Atacamos tudo, só para descobrir, depois de alguns dias, que temos vinte e quatro ou trinta plantas no lugar. No fim, desistimos e pensamos: “Devo ser a ovelha negra”.
Todas essas pessoas estão cantando sobre vitória, correntes que caem e alegria no Senhor — e aqui estou eu.
Sei que estive num grupo assim durante alguns anos. Costumávamos cantar aqueles hinos maravilhosos: “Minhas correntes caíram; levantei-me, saí e Te segui”. Cantavam E pode ser?, e eu olhava para todos e pensava: “Bem, as minhas não caíram”.
Eu não ousava contar a ninguém, porque todos aqueles rostos radiantes cantavam: “Minhas correntes caíram”. Só descobri, anos depois, que todos estavam cantando aquilo pela fé.
Ou aquele outro hino maravilhoso: “Sê do pecado a dupla cura; purifica-me de sua culpa e de seu poder”. Eu costumava pensar: “Bem, sei que a culpa foi tratada, mas o poder, não”. No entanto, achava que todos os outros deviam ter essa experiência — menos eu.
Por ser orgulhoso, tinha medo de me abrir com alguém a respeito disso, porque pensava que, de algum modo, eu devia ser a ovelha negra daquele grupo. Então fazia o melhor que podia para sorrir como todos os demais e cantar um pouco mais, na esperança de que, de alguma maneira, aquilo acabasse acontecendo. Mas nunca aconteceu. Foi de mal a pior.
É impossível.
Lembro-me de ter ouvido Bob Mumford dizer, anos atrás, sobre essa questão de ser crucificado com Cristo, que achava que finalmente havia morrido com Cristo, só para descobrir, um pouco depois, que apenas havia desmaiado.
Mas essa não é a experiência de todos nós, quando chegamos ao ponto crucial? Quando não enxergamos realmente essa questão, ouvimos uma mensagem maravilhosa, nos agarramos a ela de alguma forma, agitamos tudo o que há dentro de nós e tentamos inflar aquela fé de que falei.
Finalmente, agarramos a verdade e, por um instante, parece: “Estou morto com Cristo. Estou morto com Cristo”. Talvez até consigamos suportar alguém nos insultando, com um sorriso, durante vinte e quatro horas, talvez quarenta e oito, ou mesmo alguns dias. Então, de repente, o esforço é grande demais. Voltamos ao ponto em que estávamos.
É impossível crucificar a si mesmo. No entanto, essa questão é essencial. Ela está no próprio centro do evangelho.
Que coisa triste e trágica tem sido essa diluição do evangelho que pregamos.
Quando abro o Evangelho de Marcos, em Marcos 8:34-35, leio isto:
E, chamando a Si a multidão com os Seus discípulos, disse-lhes: Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me. Porque qualquer que quiser salvar a sua vida a perderá; e qualquer que perder a sua vida por amor de Mim e do evangelho a salvará. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua vida? Ou que daria o homem em troca da sua vida?
Isso me chama a atenção. Primeiro, foi dito a toda a multidão, juntamente com os discípulos. Segundo, tomamos a última parte como uma mensagem puramente evangelística:
Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?
Mas esse versículo evidentemente tem relação com um ensino mais profundo.
O Senhor Jesus colocou toda essa questão bem no centro do evangelho. O apóstolo Paulo, pelo Espírito de Deus, reúne as duas coisas:
Fui crucificado com Cristo; contudo, vivo; todavia, não eu, mas Cristo vive em mim: e a vida que agora vivo, vivo-a na fé, a fé no Filho de Deus, Que me amou e Se entregou por mim.
Aí está o que muitas vezes chamamos de evangelho simples: “Ele me amou e Se entregou por mim”. E o ensino da vida mais profunda é: “Fui crucificado com Cristo”.
Querido povo de Deus, uma das coisas mais terríveis que entraram nos círculos cristãos nos últimos cem anos é esse barateamento do evangelho.
Agora, não quero, nem por um instante, dizer nada contra pessoas como D. L. Moody ou R. A. Torrey, que creio terem sido servos ungidos de Deus, nem contra Billy Graham, que igualmente creio ser um servo ungido de Deus. Mas, quando adotamos tanta imitação barata da pregação deles, o que temos?
Temos um tipo de pregação centrada na decisão. Na verdade, é como uma eleição presidencial americana: “Em quem você vai votar — no presidente Jesus ou no presidente Satanás? Para quem vai dar seu voto?”. Então vem o apelo para decidir.
Não é de admirar que as pessoas nada saibam sobre o senhorio de Jesus Cristo. Não é de admirar que nada saibam sobre se render ao Senhor Jesus. Não é de admirar que tenham tanta luta para obedecer a Deus.
Se eu escolho alguém, de certa forma me coloco como seu igual. É uma questão psicológica. Ninguém que prega assim tem essa intenção, mas o que estou dizendo é que se trata de um evangelho desvalorizado. Com a simples pregação da decisão, colocamos a nós mesmos, seres humanos, numa posição em que somos alguma coisa — em que estamos votando em alguém, decidindo a favor de alguém. Essa pessoa deveria ficar muito contente; vamos escolhê-la.
Não encontro isso no Novo Testamento. O que encontro no Novo Testamento é uma ordem para obedecer ao evangelho. Quando há uma ordem para obedecer, toda a atmosfera psicológica muda imediatamente. Isso significa que, para obedecer, toda a questão da autoridade entrou em cena.
Um jovem veio falar comigo há poucas semanas, uma semana antes de eu vir para cá, num retiro numa casa que eu estava dirigindo. Eu não fazia ideia de que ele não conhecia o Senhor Jesus, de que não era salvo.
Eu havia notado ele, sua querida esposa e seus quatro lindos filhos. Fiquei interessado naquela família porque nunca tinha visto uma família com dois pares de gêmeos. Foi isso que primeiro chamou minha atenção — como era incomum ver dois pares de gêmeos numa só família.
Então, um dia, ele se aproximou de mim e disse: “Oh, tenho um problema tão grande”. Eu disse: “Bem, qual é o seu problema?”, esperando que ele fosse desabafar sobre algum problema relacionado à vida de um crente.
Ele disse: “Simplesmente não sei. Não sei o que fazer. Creio no Deus vivo, mas simplesmente não consigo crer em Jesus. Não consigo crer no Senhor Jesus, como você O chama”. E disse: “O que devo fazer? Sinto que não há esperança”.
Eu disse: “Não acho, de modo algum, que seja uma situação sem esperança. Você crê no Deus vivo?”. Ele disse: “Sim, creio”. Então eu disse: “Muito bem. Agora, isso não é exatamente bíblico, mas foi assim que o Senhor me conduziu naquele momento. Você crê no Deus vivo?”. “Sim, creio.” “Então você precisa obedecer a Ele.”
“Oh”, disse ele, “e o que Ele quer?”. Eu disse: “Você precisa obedecer a Ele. Precisa se arrepender e precisa crer no Senhor Jesus”.
Ele pensou por um instante e disse: “Como faço isso?”. Eu disse: “De maneira muito simples”. Ele começou a chorar e, em pouco tempo, passou da morte para a vida.
Era uma questão de obediência. Ele não conseguia fazer a escolha porque tinha um problema. Mas, quando compreendeu, pelo Espírito — disso não tenho dúvida —, que precisava obedecer a Deus e dar o salto da fé, Deus o salvou.
Quando o deixei, ele não tinha dúvida alguma sobre a Pessoa do Senhor Jesus. Depois de alguns dias, estava se deleitando no Senhor Jesus, adorando-O.
Oh, o que fizemos com esse evangelho que nos foi dado! Em todo o livro de Atos, os apóstolos ordenavam às pessoas que cressem no Senhor Jesus. Ordenavam arrependimento e fé. Isso traz à tona toda a questão da autoridade de Deus e do Seu Cristo.
Tornar-nos discípulos, tornar-nos crentes — a nossa própria salvação — traz em si uma rendição à autoridade de Deus. Temos de obedecer.
Chama minha atenção que o Senhor Jesus tenha colocado a questão dessa maneira. Ele não disse: “Agora, todos vocês terão de fazer uma escolha, entre Mim e o príncipe deste mundo, entre as trevas e a luz. Depois que fizerem essa escolha, talvez alguns anos mais tarde, terão de negar a si mesmos, tomar a sua cruz e seguir-Me”.
Não. O Senhor Jesus, sem nenhum preâmbulo, disse:
Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me.
Aqui temos o próprio centro do discipulado. Aqui temos o próprio centro do que significa ser um filho de Deus. Devemos abrir mão, como diz uma versão moderna, de todo direito sobre nós mesmos; tomar a nossa cruz; e segui-Lo.
Agora, um homem — embora não crucificassem mulheres antigamente —, se estava tomando a sua cruz, já não tinha direitos. Talvez tivesse de meia hora a uma hora de vida, todo o tempo entre o momento em que era sentenciado e o momento em que seria executado.
Ele não tinha mais direitos. Não havia questão de conveniência, nem de concessões, porque não havia mais direitos. Havia aberto mão de todos os direitos. Sua vida havia terminado. Estava acabado.
Quando Jesus disse isso, foi contundente: “Se alguém quiser vir após Mim, abra mão de todo direito sobre si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”.
Aquele que salvar a sua vida — isto é, aquele que procura preservar a sua vida — a perderá. Aquele que perder a sua vida por amor de Mim e do evangelho a encontrará.
Agora, pessoalmente, não creio que isso esteja todo no futuro. Não tenho dúvida de que há muito no futuro. Aqueles que perdem a vida agora certamente encontrarão uma plenitude de vida, uma recompensa, uma posição no reino, muito maior do que qualquer perda que tenham sofrido.
Mas me parece, pelo que tenho observado em minha pequena vida e em meu ministério, que, onde quer que eu tenha encontrado pessoas cheias de alegria, às vezes cheias de riso, cheias de vida, transbordantes, com aqueles rios fluindo, revestidas de poder do alto, encontrei pessoas que perderam a sua vida.
Ao perderem a vida, já encontraram a vida eterna. Não receberam apenas o direito à vida eterna, como se ela fosse somente algo futuro; estão desfrutando da vida eterna.
O problema é este: não são apenas os pecados que impedem você de entrar na plenitude da vida e do poder. É o pecado. Isto é, o problema é o seu eu não crucificado. Mesmo que seja nobre, belo, aristocrático e tudo o mais, ainda assim impedirá efetivamente você de entrar na plenitude da vida e do poder. Ele precisa ser removido.
Como removê-lo?
Da mesma forma, tenho observado cristãos que, à medida que envelhecem, tornam-se cada vez mais sombrios, cada vez mais estreitos, menores, mais mesquinhos, mais avarentos. Já não há vida neles. Você precisa, pela fé, encontrar Cristo crucificado neles.
Descobri que são pessoas que se agarraram à própria vida. Não perderam a vida por amor Dele e do evangelho. Quando procuramos preservar nossa vida, descobrimos que a perdemos.
Tão certo quanto estou aqui diante de vocês, se você está travando essa batalha de autopreservação, está resistindo à possibilidade de que o Senhor queira que permaneça solteiro. Está resistindo à possibilidade de que o Senhor queira que se case. Talvez tenha medo de que o Senhor queira que vá para algum lugar terrível do outro lado do mundo.
Você está resistindo à possibilidade de que o Senhor esteja exigindo que se comprometa com um grupo de crentes, e tem medo da disciplina. Tem medo do que isso vai custar. Portanto, tudo é autopreservação.
É claro que você reveste tudo isso de belos termos espirituais. Diz: “Não creio que Deus queira que eu seja infeliz assim. Não creio que Deus me daria isso. Não, não, não, não. Não estou gostando muito desta conferência, particularmente de algumas destas reuniões à noite. Não creio que Deus seja assim”.
Revestimos tudo de palavras espirituais. É autopreservação. É isso que é: a luta espontânea, automática, da sua vida do eu para se preservar intacta, preservar sua identidade, preservar o seu controle sobre o próprio destino. Você não quer abrir mão dela.
Mas não pode haver vida cristã, serviço cristão nem vida da igreja enquanto você não abrir mão da sua vida por amor Dele e do evangelho.
Você pode estar no meio de um grupo que conhece algo sobre o Corpo de Cristo, e outros podem até estar funcionando, mas você será um espectador. Por quê? Porque está travando essa batalha de autopreservação.
Conheço tantas pessoas que têm a verdade aqui na cabeça, mas estão sempre na periferia. Nunca se comprometem. São os críticos, sempre do lado de fora, olhando para dentro e dizendo: “Bem, não gosto disso, e acho que aquilo foi bom. Não acho que aquilo outro tenha sido tão bom”. Mas nunca se comprometem.
É a batalha pela preservação de você mesmo.
Agora, o que estou dizendo é isto: não se trata apenas de algo relacionado à vida mais profunda. Isso está no centro do evangelho.
O Senhor Jesus não queria salvar pessoas para que fossem contradições vivas pelo resto da vida. Ele salvou você, e você deveria ter a paz que excede todo entendimento, mas está inquieto e neurótico.
Deus salvou você e, em vez de ter alegria indizível e cheia de glória no tempo da aflição, você é uma tristeza só. Deus salvou você para que vencesse; em vez disso, está totalmente derrotado. Deus salvou você para que fosse um filho da luz, e você está vivendo nas trevas, receoso e amedrontado.
Deus salvou você para que conhecesse o amor perfeito, e tudo o que conhece é a escravidão do medo, que traz tormento. O Senhor Jesus quer salvar pessoas para que se tornem contradições vivas a Ele mesmo, à Sua salvação e ao Seu evangelho?
Não. Ele disse:
Quando o Espírito Santo vier sobre vós, sereis Minhas testemunhas.
Ele quer pessoas livres, que tenham a paz que excede todo entendimento mesmo em meio ao inexplicável, que tenham alegria indizível e cheia de glória, que saibam o que é viver uma vida de plenitude.
É por isso que Ele disse: “Se alguém quiser vir após Mim, abra mão de todo direito sobre si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”.
Querido filho de Deus, você foi muito longe em segui-Lo se ainda não encontrou a cruz no seu caminho? Que tipo de vida cristã tem vivido? De que tipo de vida da igreja você participa, se ela passa ao largo da cruz?
Samuel Rutherford disse certa vez: “Os homens querem Cristo barato. Querem-No sem a cruz. Mas o preço não vai baixar”.
Você quer Cristo sem a cruz? Isto é, quer a salvação, a alegria, a paz, a plenitude, o poder — mas não quer a cruz.
Agora vou lhes dizer uma coisa. Você conhecerá essa alegria, paz, plenitude e poder por apenas algumas semanas da sua vida cristã, e só. Assim que aquele princípio egocêntrico assumir o controle novamente, tudo será: “Dê-me, dê-me, dê-me. Eu quero, eu quero, eu quero. O que estou ganhando?”.
Então você descobrirá, em pouco tempo, que se tornou, entre todas as pessoas, a mais infeliz, a mais vazia, a mais sombria, a mais descontente e a mais inquieta, porque é uma contradição viva ao evangelho.
O evangelho não tem terreno neutro.
Frances Ridley Havergal escreveu certa vez um de seus grandes hinos e o terminou assim:
Os que Nele confiam inteiramente O encontram inteiramente fiel.
Oh, a alegria, a paz, a plenitude e o poder que foram providenciados para nós na terra! Mas não há como entrar nessa terra senão através do Jordão, e o Jordão é uma figura da cruz. É uma figura de ser crucificado com Cristo.
Vocês se lembram? Pegaram doze pedras e as colocaram no meio do leito do rio; depois retiraram outras doze pedras e as colocaram na margem da terra prometida. Quando as águas voltaram, as doze pedras no rio ficaram cobertas para sempre. Era uma figura da cruz: crucificados com Cristo, sepultados com Cristo, ressuscitados para andar em novidade de vida com Cristo.
Não há outro caminho para entrar nessa terra prometida. Você achou que receberia sua herança mantendo intacta a sua vida do eu? Achou, talvez, que só precisavam ser tratadas as qualidades más e desprezíveis em você, enquanto havia muitas qualidades boas, nobres e doces que só precisavam ser aperfeiçoadas?
Deus diz: “Não. Boas e más, encerrei a questão com você. Quero recriá-lo em Meu Filho”.
Oh, que palavra maravilhosa encontramos em 2 Coríntios 5:17!
Portanto, se alguém está em Cristo, há uma nova criação: as coisas velhas passaram; eis que se tornaram novas. Mas todas as coisas são de Deus.
Não é um versículo maravilhoso? Mas sempre penso que essa questão de “nova criatura” pode nos levar a uma ideia errada, porque estamos sempre olhando para dentro, procurando a nova criatura. Entendem o que quero dizer? Estamos sempre dizendo: “Bem, onde está ela? Essa nova criatura? As coisas velhas passaram, todas as coisas se tornaram novas, e todas as coisas são de Deus. Onde está esse novo homem?”.
Gosto daquela tradução que expressa assim, e que é perfeitamente fiel ao grego:
Portanto, se alguém está em Cristo, em Cristo há uma nova criação.
Oh, graças a Deus, há uma nova criação. A nova criação não está no meu velho homem. A nova criação está em Cristo.
Isso livrará você de todo tipo de acusação e condenação. Onde está essa nova criatura? Onde as coisas velhas passaram, tudo se tornou novo e todas as coisas passaram a ser de Deus? Em Cristo.
Na terra, doze novas pedras, representando cada uma das doze tribos, foram erigidas ali, na margem do rio Jordão, do lado da terra prometida.
Agora, vocês começam a enxergar o nosso problema? Você me diz: “Bem, está certo. Então precisamos tomar a nossa cruz. Precisamos abrir mão de todo direito sobre nós mesmos. Como fazemos isso?”.
Uma coisa é dizer: “Aquele que perder a sua vida”. Como você perde a sua vida? O instinto mais profundo em qualquer homem ou mulher é a autopreservação. Não é verdade?
Não precisamos provar isso. Basta jogar você, se não sabe nadar, em alguma piscina aqui por perto, e você lutará desesperadamente. Mesmo que alguém venha salvá-lo, você lutará e quase afogará essa pessoa também.
Esse instinto de autopreservação é o mais forte num ser humano. Como, então, alguém pode perder a própria vida por amor Dele? Sabemos que deveríamos fazê-lo. Talvez até tenhamos chegado ao ponto de saber que precisamos fazê-lo. Mas como fazer isso — não é esse o problema?
Então começamos aquele trabalho cansativo de tentar crucificar a nós mesmos, tentar mortificar os feitos do corpo. Que tarefa impossível isso realmente é.
Tomar a sua própria cruz. Não foi belo Jesus não ter dito: “Se alguém quiser vir após Mim, negue-se a si mesmo e tome a Minha cruz”? Muito interessante. Era a cruz Dele, mas Ele disse: “Tome a sua cruz”, como se a cruz do Senhor tivesse de ser a sua cruz.
Esse princípio da cruz é uma das coisas mais extraordinárias de toda a Bíblia. Qual é esse princípio?
Não pode haver vida sem morte. Não pode haver exaltação sem humilhação. Não pode haver integridade sem quebrantamento. Não pode haver verão sem inverno. Não pode haver colheita sem que a semente caia na terra e morra. Não pode haver fruto sem poda.
Esse é o princípio da cruz. Você não pode conhecer a ressurreição sem a crucificação.
Portanto, se quer conhecer a plenitude dessa vida e o poder da Sua ressurreição, isso será na medida direta do que você conhece de ser crucificado juntamente com Ele.
Não sei se isso significa muito para alguns de vocês. Oro para que Deus o revele a todos, não como algo pesado e sombrio, mas como o caminho para o poder, o caminho para a vida e o caminho para a plenitude.
Sempre me chamou a atenção que, quando o Espírito Santo veio sobre o Senhor Jesus, no dia em que Ele desceu às águas do Jordão, o Espírito Santo desceu sobre Ele como uma pomba.
As pessoas têm interpretado esse acontecimento importante de várias maneiras. Foi a unção do Senhor Jesus. Alguns dizem: “Bem, a pomba é um símbolo de inocência, pureza e mansidão”. Mas isso não me satisfaz. Nunca satisfez.
Embora saibamos que o Senhor Jesus era inocente, separado dos pecadores, imaculado, de alguma maneira não sinto que esse fosse o simbolismo do Espírito Santo vir sobre Ele como uma pomba.
Para mim, a explicação é esta. Se você fosse um judeu rico, compraria um novilho ou uma novilha para o sacrifício pelo pecado. Se fosse de classe média, compraria um carneiro ou um cordeiro. Mas, se pertencesse à vasta multidão dos pobres, compraria duas rolas.
Quando João Batista viu o Espírito Santo vindo sobre o Senhor Jesus como uma pomba, imediatamente compreendeu o significado e disse:
Eis o Cordeiro de Deus, Que tira o pecado do mundo!
Em outras palavras, ele viu que o Espírito Santo havia vindo sobre Aquele para capacitá-Lo a morrer.
O Senhor Jesus estava Se comprometendo com a cruz nas águas do rio Jordão, três anos antes de morrer. Entendem? Ele não precisava ser batizado. Não tinha pecado para confessar. Não tinha pecado do qual Se arrepender.
Ele desceu àquelas águas porque eram uma figura da morte. Foi batizado nessa morte três anos antes de chegar ao Calvário. Em certo sentido, morreu diariamente ao longo de todos os três anos e meio do Seu ministério.
Foi o Espírito Santo, Que veio sobre Ele, Quem O capacitou a fazer exatamente isso e, por fim, a oferecer-Se a Deus, sem mancha nem defeito, na cruz.
Essa questão da cruz: o que Deus fez com você e comigo?
Deus, em Sua infinita misericórdia e sabedoria, não apenas deu o Senhor Jesus como Aquele Que morreu em nosso lugar, mas deu o Senhor Jesus como Aquele Que morreu como nós.
Quando Ele morreu na cruz, foi como se Deus visse cada um de nós em Cristo. Quando Cristo foi crucificado, nós fomos crucificados.
Vocês notaram que Paulo não disse, como na Versão Autorizada inglesa, “Estou crucificado com Cristo”? Ele disse: “Fui crucificado com Cristo”. Nosso velho homem foi crucificado com Cristo. Isso aconteceu quando Cristo morreu, na extraordinária sabedoria de Deus.
Quando começamos a enxergar dessa maneira, creio que isso muda toda a nossa compreensão. Sei que, no dia em que enxerguei, veio como uma bomba, como se eu tivesse levado um golpe bem entre os olhos.
Primeiro, enxerguei toda essa questão do Espírito Santo. Preciso lhes dizer desde já: pelo menos quanto a mim, não creio que seja possível conhecer a obra da cruz à parte do Espírito Santo.
Se tentamos chegar à obra da cruz à parte do Espírito Santo, isso é uma obra da carne. É religião. É culto voluntário, rigor para com o corpo, uma falsa humildade, uma humildade artificial. Não é a coisa verdadeira.
Podemos afligir nosso corpo. Podemos fazer todo tipo de coisa. Podemos tentar parecer apagados e tristonhos. Podemos tentar ser crucificados. Podemos fazer tudo isso. Mas em que resulta? Em nada.
Vocês acham que Deus está interessado em pulverizar vocês? Foi para isso que Deus os salvou — para esmagá-los contra o chão, eliminá-los, reduzi-los a pedacinhos?
As pessoas têm essa ideia estranha sobre Deus. Não é de admirar que tenham medo Dele. Não é de admirar que tenham um tipo errado de temor do Senhor — não aquele maravilhoso respeito amoroso pelo Senhor, mas um medo terrível de Deus, como se Ele fosse um professor terrível, um tirano terrível, que quer esmagá-las contra o chão.
Esse não é o significado da cruz. Toda a ideia da cruz é que, ao levar ao fim, na cruz, essa sua vida do eu, que contém o veneno da serpente, você seja liberto para andar em novidade de vida e conhecer o que é assentar-se com Cristo nos lugares celestiais.
É por isso que Deus quer que você venha por esse caminho. Deus sabe que a única maneira de você entrar na vida eterna, na plenitude dessa vida agora, é perder a sua vida por amor Dele e do evangelho.
Na verdade, não conheço maneira melhor de descrever isso do que a maneira como a senhorita F. B. Meyer me explicou, anos atrás. A ilustração não é minha.
Ela disse: “Isso é você, e isto é Cristo”. Então pegou um pedaço de papel e o colocou dentro de uma Bíblia. “Você consegue ver o papel?” “Não”, eu disse. “O que você vê?” “Vejo apenas a Bíblia.” “Assim é com você. Deus colocou você em Cristo.”
“Então, tudo o que acontece com isto acontece com o papel. Se eu colocar a Bíblia ali, o que aconteceu com o pedaço de papel? Ele está aqui no púlpito. Se eu pegar a Bíblia e a colocar na minha mão, o que aconteceu com o papel? Ele está aqui em cima, na minha mão.”
“Você não consegue vê-lo, mas ele está ali porque está dentro da Bíblia. Se eu colocar a Bíblia aqui nesta estante de leitura, o que aconteceu com o pequeno papel? Ele está ali na estante porque está dentro da Bíblia. A história da Bíblia tornou-se a história do papel.”
Entenderam?
Agora, Deus, porque vive no eterno presente, tomou você, que viveu milhares de anos depois daquele acontecimento, e o colocou em Seu Filho. Quando Ele crucificou Seu Filho, crucificou você. Quando Seu Filho foi sepultado, você foi sepultado, fora de vista. Quando Ele ressuscitou Seu Filho, você foi ressuscitado para andar em novidade de vida.
Quando Seu Filho Se assentou, você se assentou juntamente com Ele nos lugares celestiais em Cristo Jesus.
Sei que vocês podem ouvir tudo isso e que pode apenas despertar algum interesse na mente, mas, quando ilumina o coração — ah, dá vontade de explodir de alegria.
Sei que, quando enxerguei isso pela primeira vez com os olhos do meu coração, foi como se o evangelho estivesse sendo pregado para mim pela primeira vez. Eu não conseguia acreditar.
Lá estava eu. Havia passado quatro ou cinco anos batendo em Lance Lambert, empurrando Lance Lambert, vestindo-o com roupas cristãs, forçando expressões cristãs para dentro da sua boca, obrigando-o a se ajoelhar para orar, chutando-o e batendo nele para torná-lo um cristão bom e zeloso.
Eu o fazia testemunhar todos os dias a alguém sobre a salvação da sua alma, até que as pessoas morriam de medo de mim. O que eu era depois de cinco anos? A pessoa mais infeliz que vocês poderiam imaginar encontrar.
Agora, alguns talvez achem que ainda sou infeliz. Não sei. Tudo o que sei é que fui liberto disso no dia em que vi que Deus havia me crucificado com Cristo.
Fiquei tão entusiasmado porque toda aquela artificialidade, toda aquela fachada, toda aquela projeção de espiritualidade que não era real, que não procedia da vida verdadeira, que parecia alguma coisa teatral e falsa — tudo aquilo podia ir embora.
Deus, afinal, não estava preocupado com aquele velho homem. Não estava tentando enfeitar o velho homem, cristianizar o velho homem, tornar o velho homem doce e tudo o mais. Ele crucificou o velho homem.
Quando enxerguei isso, disse: “Oh, meu querido Senhor, eu estava fazendo tudo ao contrário. Tenho tentado fazer o melhor que posso para cristianizar esse velho homem. O que Tu fizeste com ele? Tu o crucificaste. Eu tenho tentado ressuscitá-lo, e Tu encerraste a questão com ele”.
Eu estava tentando separar as coisas boas dele, que julgava serem bastantes. Tentava extrair as coisas boas e colocá-las de um lado, enquanto pisava nas coisas más.
O problema era que as coisas más cresciam a cada dia, e eu me agarrava às coisas boas. Então Deus disse: “Crucifiquei tudo”. Foi um choque terrível.
Mas, para mim, foi como um grande fardo rolando das minhas costas, como se um peso terrivelmente pesado sobre meus ombros simplesmente tivesse ido embora.
Você precisa enxergar isso com os olhos da fé. Vejam, agora voltamos à questão: o que é essa fé viva?
Ninguém consegue sequer chegar, em sua mente, ao ponto de estar disposto a perder a própria vida, a menos que tenha fé viva. É melhor se agarrar à velha vida do eu que você já tem do que abrir mão dela em direção ao desconhecido. Não é verdade?
Vocês que estão lutando com a questão do casamento prefeririam controlar tudo pessoalmente a deixar Deus fazer isso, porque talvez Deus não o fizesse. Enquanto estão no controle, talvez consigam cuidar melhor dos próprios interesses.
Qual é o problema? Desconfiança. Esse é o problema. Você fala em confiar no Senhor; não está confiando no Senhor de maneira alguma. Está desconfiando do Senhor. Está confiando em si mesmo. Está se apoiando no seu próprio entendimento.
Você acredita que poderia cuidar de si mesmo muito melhor do que Deus jamais poderia. Se se entregar às mãos de Deus, Ele pode fazer de você uma freira. Pode fazer de você um monge. Ou, por outro lado, pode conduzi-lo ao casamento. Para alguns, isso é pior.
É diferente para cada pessoa. Mas entendem o que estou tentando dizer? Estou dizendo que vocês confiam em si mesmos. Enquanto estão no comando, enquanto têm a vida nas próprias mãos e podem controlá-la, sentem-se seguros.
Ao menos vocês conhecem a si mesmos. Sabem que querem o melhor para si mesmos. Oh, como estão enganados. Como estão enganados. A tirania do eu — não há nada como ser senhor de si mesmo.
É aí que você precisa de fé viva. Você não consegue perder a sua vida. Não consegue cair na terra e morrer por si mesmo. Não consegue conhecer o que é ser crucificado com Cristo por si mesmo. Não consegue fazer isso sozinho.
Mas, pelo menos, pode chegar, em sua mente, ao ponto de estar disposto a se tornar disposto a perder a sua vida; disposto a ser crucificado; disposto a viver uma vida crucificada; disposto a tomar a sua cruz e morrer.
Mas digo que nenhum homem ou mulher pode chegar a esse ponto sem ter uma fé viva, dinâmica. Você precisa ter aquele pequeno grão de fé, do tamanho de uma semente de mostarda, e precisa exercê-lo.
Você não precisa de muita fé. Tudo o que precisa fazer é tomar aquele pequeno grão de fé, do tamanho de uma semente de mostarda, exercê-lo e dizer: “Vou confiar no Senhor, ainda que Ele me mate. Creio que Deus me ama. Ele me ama tanto que deu Seu Filho pela minha vida”.
Será que realmente creio que Ele vai me destruir? Será que realmente creio que Ele vai fazer de tudo para matar minha alegria, tirar minha paz, tornar minha vida vazia, pequena e limitada?
Vou lhes dizer uma coisa: se deixarem o Senhor conduzi-los, conhecerão muita aflição, muito sofrimento e muito quebrantamento. Passarão muitas vezes pela morte.
Mas também lhes direi isto: sairão do outro lado para uma vida que nunca conheceram antes, um poder que nunca conheceram antes, uma unção que nunca conheceram antes e uma plenitude que nunca conheceram antes.
É uma lei infalível com Deus: se você se humilhar, Ele o exaltará no devido tempo. Se morrer com Cristo, também viverá com Ele. Se sofrer com Ele, também será glorificado com Ele.
Jesus disse — é melhor eu ler, para o caso de citar errado —, em João 12:24:
Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e morrer, permanece ele só; mas, se morrer, produz muito fruto. Aquele que ama a sua vida a perde; e aquele que odeia a sua vida neste mundo a conservará para a vida eterna. Se alguém Me serve, siga-Me; e, onde Eu estou, ali estará também o Meu servo.
Se permanece por si mesmo — se não cai na terra e morre —, permanece só.
Pergunto-me quantas pessoas aqui são crentes há anos e ainda permanecem por si mesmas, sozinhas. Nunca houve uma colheita.
O único grão de trigo nunca se tornou dois, muito menos dez, vinte ou cem, porque nunca caiu na terra e morreu.
Podemos orar por multiplicação até nossos joelhos doerem. Podemos orar para que homens e mulheres sejam salvos à nossa volta até ficarmos exaustos de orar. Mas nada substitui cair na terra e morrer.
Se permanecemos por nós mesmos, sozinhos, é porque não caímos na terra e morremos. O que Jesus quis dizer? Quis dizer isto:
Aquele que salvar a sua vida a perderá.
Não é apenas que ele permanece sozinho. Ele nem sequer conhece a paz, a alegria, a plenitude e o poder que o evangelho proclama.
Cair na terra e morrer.
Há pessoas que vocês poderiam colocar em qualquer lugar da terra e, porque conhecem esse segredo, não demoraria muito para haver uma colheita.
Margaret Barber escreveu certa vez um poema que tenho aqui, depois de ter ocorrido um naufrágio. É um poema estranho para muitos cristãos. Soa alheio aos seus ouvidos. Mas aqui estava uma serva do Senhor que, a partir da sua própria experiência de cair na terra e morrer, de conhecer o que era ser crucificada com Cristo e viver com Ele em novidade de vida, escreveu isto:
Naufragados por completo no peito de Jesus, Só almas naufragadas podem assim cantar; Pequenos barcos que se apegam à costa, Temendo o que a tempestade possa trazer, Nunca encontram no peito de Jesus Tudo o que as almas naufragadas chamam de descanso.
Naufragados por completo — assim lamentamos; Mas, quando as tempestades fazem o seu pior, Então a alma, sobrevivendo a tudo, É acolhida em braços eternos; Ali descobre que nada pode abalar Quem está abrigado em tão grande amor.
Naufragados por completo — já não possuímos Sequer uma embarcação para navegar no mar; Ainda viajantes, mas agora Ancorados na infinitude; Nada resta fazer senão lançar A preocupação de lado e simplesmente nos agarrar.
Naufragados por completo — foi puro ganho; Daqui em diante, outras embarcações podem ver Que a tempestade pode ser uma bênção; Que, por mais revolto que esteja o mar, O próprio Deus permanece vigilante, Pois o naufrágio está em Sua mão.
Agora, sei que isso talvez não signifique muito para alguns. Para outros, talvez signifique muito.
Não há outro caminho para a plenitude de Deus senão seguir o Senhor Jesus. Seguir o Senhor Jesus significa a cruz.
Agora, fico contente por ter falado sobre o Espírito ontem à noite, porque, do contrário, toda essa questão se transforma em religião.
É pelo Espírito Santo que mortificamos os feitos do corpo.
Se realmente enxergamos o que significa ser crucificado com Cristo, então essa fé viva entra em ação. Pela primeira vez, podemos nos considerar verdadeiramente mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Cristo Jesus.
Você não pode se basear em faz de conta. Algumas pessoas acham que, se de algum modo conseguirem se enganar por tempo suficiente, acreditando que estão crucificadas, que morreram com Cristo, isso acontecerá. Não é possível.
Mas, quando você vê que foi em Cristo que foi crucificado, que isso é um fato histórico, e Deus o revela ao seu coração, então, pela primeira vez, pode contar com esse fato.
Você pode impedir que o pecado reine em seu corpo mortal.
Que Deus nos ajude nessa questão.
A fé viva e a cruz. Então, você quer entrar na terra e possuir a sua herança. Quer entrar na terra e encontrar Jerusalém. Quer entrar na terra e conquistar aquela Jericó que está no caminho.
Não pode ir sem primeiro conhecer o que é ser crucificado com Cristo.
Que Deus nos revele isso e nos conduza a um verdadeiro caminho de vida por meio da morte.
Queridos, o problema não é viver. É morrer.
As pessoas estão sempre vindo falar comigo e dizendo: “Oh, tenho um problema tão grande. Como posso viver essa vida cristã?”. Sempre digo: “Esse não é o seu problema. Seu problema é como morrer”.
Se você puder simplesmente aprender a morrer, o Deus vivo cuidará do viver. Se morrer, descobrirá que viverá.
O problema não é viver. É morrer.
Pai celestial, pedimos que o próprio Espírito Santo assuma a realização desta palavra, preservando-a de mal-entendidos ou interpretações equivocadas e revelando-a ao nosso coração.
Senhor, não há um só de nós que não precise compreender mais profundamente o que realmente significa o caminho da cruz. Senhor, pedimos que abras os olhos do nosso coração nesta noite. Concede-nos esse Espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento do nosso Senhor Jesus.
Oh, Pai celestial, opera ao longo de toda a nossa vida e em todos nós, para nos conduzir ao lugar, Senhor, em que, de alguma maneira, possas realizar uma obra verdadeira em nós.
Oh, Senhor, todos queremos ser membros atuantes do Corpo. Querido Senhor, mostra-nos que, enquanto o “eu” não for crucificado, não pode haver um funcionamento verdadeiro.
Queremos, Senhor, ser frutíferos. Mostra-nos que, enquanto não caímos na terra, permanecemos por nós mesmos, sozinhos.
Senhor, queremos conhecer o que é desfrutar da vida eterna. Ensina-nos, Senhor, que não podemos conhecer a vida eterna em sua plenitude e poder até que, Senhor, percamos a nossa vida por amor de Ti e do evangelho.
Abre os nossos olhos, Pai, para enxergarmos o que fizeste conosco no Senhor Jesus. Que isso venha como revelação.
E pedimos tudo isso em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.