Bem, espero que vocês estejam firmes em seus assentos nesta manhã — prontos para qualquer coisa.
João 17. Vou ler alguns versículos da grande oração sacerdotal de nosso Senhor Jesus. Começaremos em João 17:12.
Enquanto Eu estava com eles, guardava-os em Teu nome, que Me deste; e os protegi, e nenhum deles se perdeu, senão o filho da perdição; para que se cumprisse a Escritura.
Mas agora vou para Ti; e digo estas coisas no mundo, para que tenham a Minha alegria completa em si mesmos.
Eu lhes dei a Tua palavra; e o mundo os odiou, porque não são do mundo, assim como Eu não sou do mundo.
Não rogo que os tires do mundo, mas que os guardes do maligno.
Eles não são do mundo, assim como Eu não sou do mundo.
Santifica-os na verdade: a Tua palavra é a verdade.
Assim como Tu Me enviaste ao mundo, também Eu os enviei ao mundo.
E por eles Eu Me santifico, para que também eles sejam santificados na verdade.
E não rogo somente por estes, mas também por aqueles que creem em Mim por meio da palavra deles; para que todos sejam um; assim como Tu, Pai, estás em Mim, e Eu em Ti, que também eles estejam em Nós: para que o mundo creia que Tu Me enviaste.
E a glória que Me deste, Eu lhes dei; para que sejam um, assim como Nós somos um; Eu neles, e Tu em Mim, para que sejam aperfeiçoados em um; para que o mundo saiba que Tu Me enviaste e os amaste, assim como Me amaste.
Pai, desejo que também aqueles que Me deste estejam Comigo onde Eu estou, para que contemplem a Minha glória, que Me deste: porque Me amaste antes da fundação do mundo.
Ó Pai justo, o mundo não Te conheceu, mas Eu Te conheci; e estes conheceram que Tu Me enviaste; e Eu lhes dei a conhecer o Teu nome, e o farei conhecer; para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu neles.
Vamos orar?
Senhor, este momento nesta manhã não Te pegou de surpresa, embora talvez seja uma surpresa para nós. Senhor, confiamos a Ti, de modo muito especial, Sua Alteza e sua família, para que lhes concedas as Tuas misericórdias durante a viagem e os tragas em segurança até nós.
E oramos por nós mesmos, Senhor, para que, ao nos voltarmos agora à Tua Palavra, sejas bondoso para conosco. Senhor, concede, nós Te pedimos, que cada um de nós receba algo de Ti. Nós Te agradecemos, Senhor, porque disponibilizaste uma graça especial e um poder especial para este momento nesta manhã, e nos firmamos pela fé nessa provisão. Nós nos apropriamos dela em nome de nosso Senhor Jesus.
E esperamos em Ti, para que tanto quem fala quanto quem ouve conheçam essa unção sobre si, a fim de que, juntos, possamos cumprir a Tua vontade, encontrar-nos Contigo e receber de Ti. Ó Senhor, ouve-nos, nós Te pedimos, enquanto nos entregamos a Ti, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.
Nesta manhã, gostaria de dizer apenas uma última palavra, de minha parte, sobre o amor de Deus. Eu não esperava fazê-lo, mas, quando me pediram isso ontem à noite, já tarde, e comecei a pensar no Senhor, foi somente nas primeiras horas desta manhã que o Senhor me deu mais um pensamento, que, creio, reúne tudo o que tenho dito sobre o amor de Deus.
Dou a ele o título de “O método divino”. Agora, temos certo receio de métodos, mas eu o chamei de método divino — ou caminho divino, se preferirem.
De que maneira maravilhosa o Senhor Jesus encerrou aquela grande oração de intercessão registrada em João 17, a oração que chamamos de oração sacerdotal. Ele a encerrou com estas palavras maravilhosas:
Para que o amor com que Me amaste esteja neles,
E Eu neles.
Para que o amor com que Me amaste — ah, como o Pai ama o Filho! —, para que o amor com que Me amaste lhes seja mostrado? Não. Isso também era verdade, mas esteja neles. E Eu neles.
Vocês se lembrarão de que foi uma frase em uma das cartas do apóstolo Paulo que deu início à nossa reflexão sobre o amor de Deus:
Oro para que o vosso amor transborde ainda mais e mais, em conhecimento e todo discernimento;
Para que aproveis as coisas excelentes;
Para que sejais sinceros e irrepreensíveis até o dia de Jesus Cristo.
Estamos mais perto desse dia do que nunca estivemos nesta era. Não sabemos exatamente quão perto estamos — se ainda temos alguns anos pela frente, uma ou duas décadas, ou se nesta noite o dia de Jesus Cristo poderá raiar.
A grande oração do apóstolo Paulo por aquela amada igreja em Filipos — e, suponho, por todas as igrejas sob seus cuidados e por todas as igrejas além de sua esfera de autoridade — era:
Oro por vós, para que o vosso amor transborde ainda mais e mais.
Nada mais nos manterá na vontade de Deus. Nada mais nos capacitará a triunfar na adversidade. Nada mais nos capacitará a suportar todas as pressões e tensões da fase final dos últimos tempos. Nada mais nos capacitará a vencer, a não ser esse amor de Deus em nós, e o Senhor Jesus em nós.
É disso que vocês e eu precisamos mais do que de qualquer outra coisa. Talvez seja por isso que o Senhor Jesus encerrou Sua grande oração de intercessão com estas palavras:
Para que o amor com que Me amaste esteja neles, e Eu neles.
Se o amor que o Pai tem pelo Filho — esse mesmo amor, essa mesma plenitude de amor, esse mesmo poder do amor — estiver em nós, e o Senhor Jesus estiver em nós, certamente seremos invencíveis. Pela graça de Deus, venceremos e estaremos diante de Sua face. Pela graça de Deus, chegaremos ao trono de Deus.
Pois nada jamais satisfará o Pai, o Filho ou o Espírito, a não ser um coração e uma vida cheios, imersos no amor de Deus.
Agora, eu disse que falaria sobre o método divino. Quero, então, imediatamente, já que não temos tanto tempo, encaminhá-los a João 15 — este maravilhoso Evangelho de João, cujo encerramento, como já lembramos, traz aquelas palavras:
Amas-Me? Apascenta os Meus cordeiros.
Amas-Me? Pastoreia as Minhas ovelhas.
Quero ler primeiro alguns versículos de João 15, a partir de João 15:9.
Assim como o Pai Me amou, também Eu vos amei: permanecei no Meu amor.
Se guardardes os Meus mandamentos, permanecereis no Meu amor; assim como Eu tenho guardado os mandamentos de Meu Pai e permaneço no Seu amor.
Estas coisas vos tenho dito, para que a Minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa.
Este é o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei.
Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a sua vida pelos seus amigos.
Vós sois Meus amigos, se fizerdes o que Eu vos ordeno.
Já não vos chamo servos; porque o servo não sabe o que faz o seu senhor: mas tenho-vos chamado amigos; porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vos dei a conhecer.
Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça: a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em Meu nome, Ele vo-lo conceda.
Estas coisas vos ordeno, para que vos ameis uns aos outros.
O método divino. Qual é o método divino? Observem primeiro aqui que o propósito do Senhor para nós, em certo sentido, é que demos muito fruto e que o nosso fruto permaneça — não um fruto passageiro, não um fruto que apodrece, mas um fruto eterno.
Não fostes vós que Me escolhestes, mas Eu vos escolhi e vos designei para que vades, e deis muito fruto, e o vosso fruto permaneça.
Fruto.
Vocês se lembrarão de que o povo judeu foi julgado e disperso até os confins da terra porque não havia fruto. Deus está sempre à procura de fruto. Receber salvação, receber revelação, receber vida — vida eterna — é, sob um determinado aspecto, uma responsabilidade muito séria, porque o resultado deve ser sempre fruto.
Se somos estéreis, se não damos fruto, algo está errado. Agora, há muitos, muitos crentes que são estéreis. Na verdade, creio que precisamos dizer com sinceridade diante de Deus que a grande maioria de nós, crentes, não dá fruto.
Somos estéreis, e, se chegamos a produzir fruto — se há flores e o início de um fruto —, ele cai antes de amadurecer. Alguma coisa dá errado. É como se a árvore não conseguisse sustentar o fruto. Ela apresenta aquela promessa inicial de fruto.
Há muitas pessoas que têm experiências reais com o Senhor, experiências reais com o Espírito Santo. Vocês conseguem ver todas as flores e o início dos frutos se formando. Então voltam um pouco mais tarde, e tudo caiu. Só há folhas. Não há fruto. São apenas folhas.
É assim com muitas congregações do povo de Deus, muitos grupos de filhos de Deus. Vocês vão até lá e veem um verdadeiro mover de Deus. Deus fala com eles. Deus lhes dá revelação. Deus os desafia. Há uma influência real, por assim dizer, que vem do trono e atua sobre eles, e parece que, por algum tempo, eles vão dar fruto.
Há flores; há o início de frutos. Vocês conseguem ver os pequenos frutos se formando na árvore e depois voltam, às vezes meses mais tarde, talvez um ou dois anos depois, e tudo desapareceu. As folhas estão lá. A vida está lá. Mas não há fruto.
Mas o Senhor Jesus disse:
Eu vos escolhi e vos designei para que vades.
A qualquer lugar para o qual Ele os designar: no deserto, em qualquer lugar, mesmo no lugar mais desfavorável da terra. Em qualquer lugar, se Ele os designou e enviou, vocês devem dar fruto, e o seu fruto deve permanecer.
Qual é, então, a chave, se não essa questão do amor divino? Talvez, em algum ponto, em meio a toda a revelação e a todo o zelo, o amor de Deus esteja, de alguma forma, ausente.
Agora, quero ser muito cuidadoso nessa questão, porque ela vai muito além disso. Vejam, o Senhor Jesus apontou com precisão infalível para essa questão. Ele disse:
Ninguém tem maior amor do que este:
De dar alguém a sua vida pelos seus amigos.
Em outras palavras, era como se o Senhor Jesus estivesse dizendo: “Agora, prestem atenção, prestem atenção. Não adianta apenas falar sobre o amor, cantar sobre o amor, orar sobre o amor. O amor se expressa em ação. O amor se expressa em um modo de viver. O amor se expressa em vidas entregues”.
Por que não vemos pessoas sendo salvas no escritório ou em nossos locais de trabalho? Por que, às vezes, não vemos pessoas sendo salvas em nossas famílias? Por que, às vezes, não vemos pessoas sendo salvas em nosso círculo de amigos? Porque damos a impressão de que sabemos tudo, de que continuamos os mesmos, de que somos alguma coisa, de que temos tudo e de que elas deveriam nos ouvir porque estão indo para o inferno.
Elas não veem uma vida entregue. Não veem todas aquelas pequenas tarefas feitas por elas por amor. Não veem um interesse profundo e verdadeiro. Veem apenas que são tratadas como mais uma pessoa a ser contabilizada, como um troféu a ser conquistado, como mais um nome a ser acrescentado à popularidade e à glória de alguém como evangelista, mestre, servo do Senhor ou testemunha de Jesus Cristo. As pessoas não são amadas.
A maioria de nós cometeu esses erros em nossas famílias. Quando fomos salvos, voltamos para casa como uma locomotiva a vapor, como um trem expresso, como o Concorde — uma produção britânica —, chegando a toda velocidade e com muito barulho. Dissemos: “Agora, escute aqui: eu fui salvo!”
Porque estamos cheios disso. Estamos cheios disso. Não é que estejamos necessariamente fazendo algo errado, mas deixamos de perceber que aquilo que conquista uma família ou conquista amigos é o caráter.
Deixamos de perceber que, ao nos esquivarmos das responsabilidades familiares porque fomos salvos, prejudicamos a reputação do Senhor. De uma forma ou de outra, ao nunca sermos, no escritório ou no local de trabalho, aquele que carrega o fardo, cuida das pessoas e ama as pessoas, fugimos de nossa responsabilidade. Prejudicamos a reputação e o nome do Senhor.
Aqui está o método divino: vocês não podem entregar a própria vida se não estiverem cheios de amor. Tentem. Tentem. Sem isso, tudo não passa de um ensino morto que os coloca em uma escravidão de ferro.
Conheço muitas pessoas que falam da cruz o dia inteiro e quase a noite inteira. Isso fica girando, girando e girando na cabeça delas, como um pião. E qual é o resultado? Têm uma aparência sombria; são sombrias; são pesadas; são apagadas; não têm vida. Têm uma espécie de quebrantamento imposto a si mesmas. Isso não é o Senhor.
Quando Deus intervém com a obra da cruz, o resultado é ressurreição. A ressurreição absorve o quebrantamento e a morte, de modo que, em vocês, é morte, mas, nos outros, é vida. Eles entram em contato com o Senhor. Entram em contato com o poder de Deus. Entram em contato com a glória de Deus. Vocês experimentam o quebrantamento pessoalmente. Experimentam a morte, o quebrantamento, a aflição.
O Senhor Jesus não exige de nós nada que Ele mesmo não tenha feito. Foi por isso que falei sobre a demonstração divina — se vocês conseguiram captar alguma coisa naquela noite no escuro.
Querido e amado povo de Deus, se vocês e eu não formos batizados no amor de Deus, se não estivermos imersos no amor de Deus, se o amor de Deus não tiver sido derramado em nosso coração pelo Espírito Santo, se o amor de Deus não for a força que move nosso viver, nosso serviço, nossa vida de igreja e nossa adoração, então me parece que chegamos apenas a um formalismo.
Não podemos chegar a outra coisa senão a um formalismo. Somos estéreis; não damos fruto. Por mais bonitas que sejam as folhas, por mais brilhantes que sejam ou por mais forte que seja o tronco, Deus não está satisfeito, porque Ele procura fruto.
Conheço tantos grupos — perdoem-me, não quero soar condenatório nem acusador —, mas, em meu pequeno ministério, viajando por uma parte do mundo, geralmente visito grupos que conhecem alguma coisa sobre a verdade a respeito da igreja.
Preciso lhes dizer, com um coração profundamente entristecido por muito do que vejo, que constatamos repetidas vezes que as pessoas têm a verdade sobre a igreja, mas não têm a igreja.
Têm uma certa medida de doutrina, uma certa medida de visão, uma certa medida de entendimento; e, apesar de dizermos repetidas vezes que a igreja é orgânica, elas tentam montá-la. Ela não pode se formar sem amor, porque a igreja é uma comunidade de amor.
É algo produzido a partir da paixão de seu Senhor. Quando Seu lado foi perfurado e dele saíram sangue e água, daquele lado foi formada a noiva. Daquela grande demonstração — daquela suprema demonstração do amor de Deus no Calvário — surgiu a igreja.
Se a igreja contradiz o princípio sobre o qual nasceu, o amor de Deus, ela não é nada. É por isso que o diabo trabalhará, trabalhará e trabalhará para nos colocar em completo desacordo, para espalhar insinuações e dúvidas entre todos, até que todos suspeitem uns dos outros, todos estejam desiludidos uns com os outros, todos entrem em choque uns com os outros, todos estejam, por assim dizer, uns contra os outros.
Até que, no fim, não consigamos vencer. É uma farsa. Participamos da mesa do Senhor — é uma farsa. Adoramos — é uma farsa. Não queremos que seja uma farsa, mas tornou-se uma farsa porque deixamos de compreender aquele primeiro e maior mandamento:
Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração,
E de toda a tua alma,
E de todo o teu entendimento,
E de toda a tua força.
E o segundo maior mandamento:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
A verdade sobre a igreja é apenas o começo da questão. Graças a Deus quando Ele revela a verdade a algum irmão ou irmã. Há tanta ignorância e tanto erro no mundo que é algo maravilhoso quando Deus revela alguma coisa a qualquer filho de Deus, a qualquer servo de Deus ou a qualquer grupo de filhos do Senhor.
Mas, queridos, lembrem-se disto: compreender a verdade sobre a igreja não produz automaticamente a vida da igreja. A única coisa que produz a vida da igreja é quando alguns irmãos e irmãs caem na terra e morrem — quando todos entregam a própria vida uns pelos outros.
Quando vocês têm um casamento em que o marido é só “eu”, a esposa é só “eu” e os filhos são só “eu”, terão um lar muito, muito infeliz. Em algum momento, a esposa precisa entregar a própria vida, não apenas por seus filhos, mas também por seu marido.
Em algum momento, o marido precisa entregar a própria vida por sua esposa e por seus filhos. Em algum momento, os pais precisam entregar a própria vida por seus filhos, e às vezes chega a hora em que os filhos precisam entregar a própria vida por seus pais.
Mas, quando isso acontece, vocês têm uma atmosfera de amor. Têm uma atmosfera em que há verdadeira autoridade, verdadeira ordem, uma vida familiar real e algo que representa o que Deus planejou.
Assim deve ser também com a família divina. Não é possível fazer seres humanos viverem juntos se não estivermos dispostos a entregar a própria vida uns pelos outros — e se não a entregarmos de fato uns pelos outros.
É disso que vem o fruto. Entreguem a própria vida, e o resultado será fruto. Entreguem a própria vida mais profundamente, e haverá mais fruto. Entreguem a própria vida ainda mais profundamente, e haverá ainda mais fruto. É uma lei infalível de Deus.
Portanto, se não há fruto em sua vida, preciso lhe dizer: seja qual for sua desculpa, seja o que for que você diga, não precisa vir discutir isso comigo. Em algum ponto, o amor de Deus está ausente. Em algum ponto de sua vida, o amor de Deus está ausente. Ele está sendo contradito, ignorado, deixado de lado.
Pois, quando o amor divino toma conta de um crente nascido de novo, tão certo como a noite segue o dia e o dia segue a noite, esse crente será conduzido à cruz. E ali, em seu caminho, austero, ensanguentado e inevitável, está o Calvário.
Pela primeira vez, você se depara com a decisão de cair na terra e morrer ou não. Não é tudo glória e êxtase, como às vezes pensamos. É maravilhoso quando você vê que foi crucificado com Cristo, mas, dentro de poucas horas, alguém estará cravando os pregos em suas mãos.
Você não pode fazer isso sozinho. Deus ordenará as coisas de tal maneira que as pessoas mais próximas e mais queridas farão isso por você. Dentro de poucas horas — seus colegas, seus companheiros de trabalho, os outros membros do corpo de Cristo, as circunstâncias, os parentes e amigos não salvos, seu marido, sua esposa, seus filhos —, eles serão os agentes que Deus usa para fazer com que você saiba o que é ser crucificado com Cristo.
Você não precisa quebrar a cabeça pensando em como ser crucificado. O Senhor cuidará disso. Não tema. Ele já fez isso há dois mil anos. Trata-se da aplicação disso em sua vida, e Ele usará as pessoas mais próximas e mais queridas, suas circunstâncias, todas as pessoas que entrarem em sua vida, para realizar exatamente isso em você. Não precisa se preocupar com isso.
Mas todos sabemos que devemos entregar a própria vida — até chegar a hora de fazê-lo. Tudo parece bem se for uma sensação agradável de que, ao entregarmos a própria vida, imediatamente o Senhor estará ali para nos encher de poder, vida, alegria e revelação.
Mas o Senhor muitas vezes Se mantém à distância e permite que passe um período em que tudo é impossível. Tudo dentro de nós grita: “Não siga por esse caminho! Não siga por esse caminho! Eles vão pisar em você. Vão passar por cima de você. Vão destruir você. Vão fazer isso e aquilo com você. Você nunca mais será o mesmo”.
Graças a Deus. Você não havia pedido ao Senhor que o mudasse?
O método divino. Há apenas um método. Deus não tem outro método. Ele tem apenas um método: você precisa entregar a própria vida. É o caminho da cruz.
Agora, imediatamente alguém diz: “Bem, e o Espírito Santo?” Muito bem. E o Espírito Santo? O Espírito Santo só virá sobre você em plenitude e poder de maneira permanente — não de maneira passageira.
Agora, entendam bem o que estou dizendo. Há experiências com o Espírito Santo que são passageiras. Há toques do céu; há toques de glória. Eles vêm e vão. Mas há uma vinda do Espírito Santo sobre um ser humano que é para sempre — não apenas uma habitação interior, mas um compromisso.
Quando Jesus chegou às águas do Jordão, Ele não precisava ser batizado. Ele já era justo. Não tinha pecado. Quando João Batista O viu, disse:
Eu é que deveria ser batizado por Ti, e Tu vens a mim?
Mas Jesus disse:
Deixa por agora:
Porque assim nos convém cumprir toda a justiça.
O que Jesus quis dizer? Ele quis dizer algo muito, muito mais profundo do que talvez a maioria tenha percebido naquela ocasião. Quis dizer isto: “Se Eu vou fazer a vontade de Deus, preciso tomar hoje uma decisão com plena lucidez. Essa decisão é comprometer-Me com a morte da cruz três anos antes de chegar a ela”.
Não creio que alguém tenha ajudado o Senhor Jesus — nem o Pai, nem o Espírito, nem qualquer outra pessoa. Era uma decisão que Ele precisava tomar com Sua própria vontade como Filho do Homem. Ele escolheu entrar naquelas águas do Jordão e ser batizado.
Na verdade, Ele estava dizendo: “Pai, Eu Te amo, amo este mundo e amo aqueles que Me deste dentre este mundo. Comprometo-Me com a morte da cruz, para que Eu possa conquistá-los”.
Naquele momento, os céus se abriram, e o Espírito Santo veio em forma corpórea, como uma pomba, e repousou sobre Ele — permaneceu sobre Ele. João disse: “Foi-me dito que Aquele sobre Quem eu visse o Espírito Santo descer e permanecer era o Messias”.
Ele não apenas O tocou. Não apenas O encheu e foi embora. Não apenas abriu o céu para uma revelação e depois o fechou novamente. Os céus se abriram, e o Espírito Santo veio sobre o Senhor Jesus e permaneceu sobre Ele.
Muitos de nós temos entendido a pomba como um símbolo de mansidão, um símbolo de grandeza e um símbolo de doçura. Pode ser assim. Mas, a meu ver, esse não é o significado de o Espírito Santo descer como uma pomba.
Vejam, João Batista compreendeu imediatamente. Ele vinha de uma família muito pobre e também sabia que José e Maria eram pessoas pobres. O sacrifício deles no templo não foi um novilho — não tinham condições de comprá-lo —, nem foi um cordeiro. Não tinham condições. Foram duas rolas.
No momento em que João Batista viu o Espírito Santo descer naquele símbolo de sacrifício, disse:
Eis o Cordeiro de Deus,
Que tira o pecado do mundo.
Ele compreendeu imediatamente: o Espírito Santo havia vindo sobre Ele para capacitá-Lo a entregar Sua vida, a fim de que a questão do pecado fosse resolvida para sempre.
Não é diferente conosco — com você ou comigo. Somente quando você estiver disposto, com plena lucidez, a fazer a vontade de Deus e a se comprometer com a morte da cruz, mesmo que não a compreenda plenamente, somente então estará em condições de receber o Espírito Santo sobre si, para capacitá-lo a fazer aquilo que não consegue fazer sozinho.
Você não pode fazer isso sozinho. Não há como fazer isso sozinho. Tente. Tente morrer por outras pessoas. Tente cair na terra e morrer. Tente ser humilde. Tente ser quebrantado. Tente entregar a própria vida pela igreja e pelo mundo. Você não consegue.
Talvez consiga fazê-lo por um dia, mas, acredite em mim, ficará exausto. Ao fim de um mês tentando, de algum modo, entregar a própria vida, você quase estará em um hospital psiquiátrico, com um colapso nervoso. É impossível. Isso não é natural à natureza caída. Não é natural ao nosso egocentrismo, ao nosso instinto de autopreservação.
Somente o Espírito Santo, habitando em nós e vindo sobre nós, pode nos capacitar a realmente entregar a própria vida, de modo que toda aquela ambição sórdida, todo aquele desejo de nos impor, todo aquele desejo de, de alguma forma, ser alguma coisa, ou de lutar por nossos direitos, ou qualquer outra coisa, seja finalmente tratado.
Isso não é tratado em um único momento; leva uma vida inteira. Mas o Espírito Santo está ali para nos capacitar a fazê-lo. Se Jesus, que não tinha pecado, precisou do Espírito Santo para morrer diariamente durante três anos e meio de ministério público, quanto mais vocês e eu?
Não é de uma experiência com o Espírito Santo que vocês precisam em primeiro lugar. É de amor.
Somente quando o amor de Deus toca inicialmente seu coração, talvez pela primeira vez, voltando você para o Pai, para o Senhor Jesus e para a vontade Dele, é que, pela primeira vez, você se depara com a possibilidade: “Entregarei a minha vida ou não?”
Há outras coisas maravilhosas em João 15. Gostaria de abordar mais dois assuntos, se tivermos tempo. Em João 15:11, ouçam isto. Ah, considero estas palavras belas:
Estas coisas vos tenho dito,
Para que a Minha alegria esteja em vós,
E a vossa alegria seja completa.
É preciso dizer que há pouquíssimos cristãos que têm alegria. Pouquíssimos. Não é assim?
Agora, não estamos falando daquela coisa borbulhante, efervescente, embora, de vez em quando, até isso seja um alívio. Não estamos falando daquele tipo de alegria borbulhante e efervescente que o mundo conhece quando fica eufórico e depois comete suicídio na mesma noite.
Não, não estou dizendo algo engraçado. É verdade. É uma das tragédias do mundo, porque é uma fachada. É uma fachada. Não é alegria.
Muitos cristãos caíram na mesma coisa. Podem entrar em uma reunião em que há uma atmosfera emocional artificialmente estimulada, em que aparentemente tudo é alegria, mas não é. Você sai dali e cai de cara no chão. Afastado daquilo, morre espiritualmente.
O que o Senhor Jesus quis dizer quando disse:
Estas coisas vos tenho dito, para que a Minha alegria esteja em vós.
Ah, então este é o começo: a alegria Dele — não a minha alegria, mas a alegria Dele. Quando a alegria Dele está em mim, a minha alegria se torna completa.
Há apenas um caminho para que a alegria Dele esteja em nós: é quando seguimos o caminho que Ele seguiu. Quando seguimos o caminho que Ele seguiu, a alegria Dele está em nós, e a nossa alegria se torna completa.
Não pensem nem por um instante que, quando vocês seguem o caminho da cruz, tudo é sombrio, tudo é mórbido, tudo é terrível. Não, não, não. Há uma alegria que se torna completa.
Deus tem prazer em fazer coisas pelas pessoas que abriram mão de tudo. Ele prepara para elas as surpresas mais incríveis. Às vezes, Ele deixará você passar anos e anos por um caminho solitário de dificuldades e problemas, e então, no fim, virá com pequenas surpresas que somente o amor poderia conceber.
Há uma palavra maravilhosa no Antigo Testamento. Está em Salmos 37:4:
Deleita-te também no Senhor;
E Ele te concederá os desejos do teu coração.
Creio que essa é uma das promessas mais extraordinárias da Palavra de Deus:
Deleita-te também no Senhor; e Ele te concederá os desejos do teu coração.
Tão poucas pessoas têm os desejos de seu coração realizados.
Mas, se você se deleitar no Senhor — e isso é mais do que apenas obedecer, mais do que apenas segui-Lo por dever, mais do que apenas compreender ou conhecer a vontade de Deus; é uma vida de adoração, de deleite no Senhor, de enlevo no Senhor —, Ele lhe concederá os desejos do seu coração.
Outra coisa maravilhosa neste capítulo é João 15:15:
Já não vos chamo servos; porque o servo não sabe o que faz o seu senhor: mas tenho-vos chamado amigos; porque tudo quanto ouvi de Meu Pai vos dei a conhecer.
Creio que essa é uma palavra maravilhosa. Aos amigos, Ele revela Seu coração. O segredo do Senhor nos é dado. O Senhor não dá Seus segredos a todos, e não revela Seu coração a todos. Mas, se estivermos dispostos a entregar a própria vida, então haverá uma espécie de revelação, uma manifestação do amor de Deus a nós.
Depois, João 15:12:
Este é o Meu mandamento:
Que vos ameis uns aos outros,
Assim como Eu vos amei.
Não há outro caminho para o corpo ser edificado, há? Como é interessante, conforme vimos em uma destas noites, que 1 Coríntios 13 apareça no meio de uma passagem inteiramente relacionada à vida da igreja — aos dons da igreja, às funções do corpo, às desordens que podem surgir à mesa do Senhor e a todas essas coisas.
Bem no meio disso, de repente o apóstolo diz:
Agora vos mostrarei um caminho sobremodo excelente.
É como se o Espírito de Deus tivesse dito ao apóstolo: “Não deixe que pensem que se trata apenas de funções e dons, de exercer essas coisas e de manifestar o Espírito. Há mais do que isso”.
Então vem 1 Coríntios 13:
Se eu não tiver amor, se falar as línguas dos homens e dos anjos e não tiver amor, sou um gongo ruidoso e um címbalo que retine.
E assim por diante. Depois, ele encerra a questão com:
Buscai o amor. Segui o amor.
Ou, como Phillips traduz:
Façam do amor o seu objetivo.
Em Efésios 4:16, ele fala da edificação do corpo do Senhor e diz que:
Efetua o crescimento do corpo para a edificação de si mesmo em amor.
O método divino.
Este é o Meu mandamento: que vos ameis uns aos outros, assim como Eu vos amei.
Como o Senhor amou você? Ele o amou quando você era um pecador feio, impossível, egocêntrico, interesseiro, vazio e merecedor do inferno.
Quando você estava nesse estado — cego, morto em pecados, com a mente obscurecida, separado de Deus —, Ele o amou. É assim que devemos amar uns aos outros. Mas, ah, não amamos.
Basta nosso irmão ou irmã apresentar um único defeito, e logo ficamos completamente perturbados. É curioso o que o Senhor Jesus disse sobre tirar a trave do nosso próprio olho antes de tirar o argueiro do olho do nosso irmão.
Muitas vezes, o argueiro no olho do nosso irmão é a trave no nosso, só que não conseguimos enxergá-la. É somente quando Deus nos dá entendimento sobre nós mesmos, e tiramos aquilo, que de repente percebemos: “Eu não tinha o direito de falar assim de fulano. Eu tinha aquilo dez vezes mais”.
Amai-vos, assim como Eu vos amei.
Alguém pode desistir de outro crente? Se você está desiludido com outro crente, se está decepcionado com outro crente, se tudo o que consegue enxergar nele são as falhas e os defeitos, as fraquezas e a fragilidade, Deus ainda não fez muita coisa em você.
Como você deve amar seu irmão? Não porque ele seja perfeito. Não porque tenha apenas um por cento de defeitos. Não porque tenha apenas dez por cento de defeitos. Você deve amá-lo mesmo que ele esteja cem por cento errado. Foi assim que o Senhor amou você.
É impressionante: às vezes, o Senhor leva cinco anos para nos levar a enfrentar uma questão, mas ficamos desiludidos com outro irmão ou irmã porque não a superou em uma semana. Dizemos: “Ele foi àquela conferência em Richmond e não resolveu isso”.
Esquecemos que talvez tenham sido necessários dez anos até que o Senhor quase nos arrastasse para enfrentar a questão. Finalmente, Ele nos encontrou, e conseguimos vencê-la. Então nos voltamos e dizemos: “Por que isso não está acontecendo? Há algo errado”.
Ah, se pudéssemos compreender como Deus tratou você e como tratou a mim, se compreendêssemos como Deus nos tratou, talvez compreendêssemos muito mais uns aos outros.
O que mais ajudou você? Foi alguém parado ali como um velho professor severo, fazendo caretas para você, olhando-o com a testa carregada? Isso ajudou? Aquelas pessoas ajudaram você, sempre apontando todas as suas falhas e defeitos?
Ou foi aquela pessoa que, você sentia em seu coração, tinha uma percepção perspicaz de quem você realmente era, mas o amava mesmo assim?
Todos conhecemos pessoas assim em nossa história espiritual: pessoas que nos amaram apesar do que éramos, que sabiam e, de alguma forma, permaneceram fiéis. Falavam a verdade em amor, mas nos amavam. Foram essas pessoas que nos edificaram. Foram essas pessoas que finalmente nos levaram ao ponto em que desabamos em lágrimas e nos rendemos diante de Deus. Foram elas que nos ajudaram a prosseguir com Deus.
Ah, o dano que causamos uns aos outros. A edificação da igreja.
Agora, gostaria de encaminhá-los a outra passagem sobre essa questão do método divino. Vocês a encontrarão novamente no Evangelho de João, em João 13. Não podemos ler tudo; lerei apenas alguns versículos de João 13.
Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que era chegada a Sua hora de partir deste mundo para o Pai, tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os até o fim.
E, durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O traísse, Jesus, sabendo que o Pai entregara todas as coisas em Suas mãos, e que viera de Deus e para Deus ia, levantou-Se da ceia e tirou Suas vestes; e, tomando uma toalha, cingiu-Se.
Depois, deitou água na bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.
E então, em João 13:12:
Depois de lhes ter lavado os pés, tomado Suas vestes e voltado à mesa, disse-lhes: Compreendeis o que vos fiz?
Vós Me chamais Mestre e Senhor: e dizeis bem; porque Eu o sou.
Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros.
Porque Eu vos dei o exemplo, para que, assim como Eu vos fiz, façais vós também.
Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu senhor; nem o enviado maior do que Aquele que o enviou.
Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes.
E João 13:34:
Um novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como Eu vos amei, que também vós vos ameis uns aos outros.
Nisto todos conhecerão que sois Meus discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros.
Que expressão bela é aquela no início deste capítulo maravilhoso:
Tendo amado os Seus que estavam no mundo, amou-os ao extremo.
Gosto muito mais disso do que de “até o fim”. Não é que houvesse um fim para o amor do Senhor, ou um momento em que Ele terminasse. Ele os amou ao extremo.
Jesus, o Messias; Jesus, o Filho do Homem; Jesus, em Quem toda a plenitude do Pai habita corporalmente; Jesus, Deus Filho, tomou uma toalha, tirou Suas vestes exteriores, cingiu-Se com a toalha, tomou uma bacia, uma vasilha, encheu-a de água e então Se ajoelhou diante de cada um de Seus discípulos e lavou os pés deles.
É quase demais para a mente. Deus pode Se ajoelhar diante de uma criatura que Ele fez? O Messias pode Se ajoelhar diante de Seus súditos? O Mestre pode Se ajoelhar diante do discípulo, o Professor diante do aluno? Isso é algo que o mundo desconhece completamente. É uma inversão da ordem do mundo.
Jesus disse:
Eu vos dei o exemplo, para que, assim como Eu vos fiz, façais vós também.
Agora, quero que observem uma coisa, para que um ponto se torne incontornável: cada um daqueles doze discípulos estava presente.
Não apenas João, que tinha tamanha compreensão do Senhor Jesus e estava mais próximo de Seu coração do que qualquer um dos outros, mas também Pedro, que O negaria com juramentos naquela mesma noite. E todos os outros — todos O negaram e fugiram. Nós nos esquecemos disso. Muitas vezes pensamos que Pedro foi o único, mas está escrito no Livro que todos fizeram o mesmo.
Todos estavam lá. Talvez o mais surpreendente de tudo fosse que Judas estava lá. Não tenho certeza de que muitos aqui — preciso me incluir —, não tenho certeza de que muitos de nós lavariam os pés de todos os discípulos.
Creio que diríamos: “Agora, fulano está prosseguindo com o Senhor. Vou lavar os pés de fulano. Ah, Deus está fazendo alguma coisa em fulano. Vou lavar seus pés. Não me importo de me ajoelhar por um momento diante dele, porque estou tão contente com seu progresso”.
Mas e aquele outro? “Eu não daria dois tostões por ele. Só conversa, gongo ruidoso, címbalo que retine. Quanto mais cedo alguém vier e lhe der uma pancada na cabeça, melhor. Quanto mais cedo, de um jeito ou de outro, ele chegar ao fim de si mesmo, melhor.”
Jesus lavou os pés de todos eles.
Talvez você diga que há alguém no grupo cujos pés simplesmente não consegue lavar. Não poderia fazer esse tipo de coisa por essa pessoa. Seria mal interpretado. De alguma forma, ela se aproveitaria de você. Não existe essa exceção. Preciso lembrar a você que Judas Iscariotes estava lá, e Ele lavou os pés de Judas.
Se meu Senhor, se nosso Senhor, pode lavar os pés de Judas Iscariotes, existe um único crente, um só dentro da comunidade da igreja, cujos pés eu não possa lavar?
Isso não significa tornar-se participante do pecado daquela pessoa. Jesus sabia exatamente o que havia no coração de Judas. Jesus sabia que cada um deles O negaria e fugiria Dele. Ele sabia de tudo. Sabia o que havia neles. Orou por eles. Sabia exatamente o que aconteceria. E lavou os pés deles.
Antigamente, no Oriente Médio e especialmente em Israel, quando as pessoas andavam de sandálias, seus pés ficavam encardidos, sujos, imundos. A primeira coisa que se fazia quando alguém vinha visitar você, como sinal de respeito, amor e hospitalidade, era mandar um escravo lavar os pés dessa pessoa.
Normalmente, o senhor não fazia isso, nem o dono da casa, mas havia um escravo à disposição para lavar os pés. Tenho certeza de que todos vocês sabem — especialmente porque a maioria de vocês por aqui parece nunca usar sandálias — que, quando seus pés estão quentes, vocês sentem calor; e, quando seus pés estão sujos, vocês se sentem sujos.
É por isso que o Senhor Jesus disse a Pedro:
Aquele que está banhado não necessita de lavar senão os pés.
É aquilo que adquirimos pelo contato com o mundo na vida cotidiana.
Sabem, aqui está um ministério que a maioria de nós tem deixado de lado e, de alguma forma, não tem encarado. A maioria de nós precisa sair para o mundo e ter contato com o mundo. Muitos de vocês trabalham no mundo. Convivem de perto com o mundo.
Embora estejam purificados pelo sangue do Cordeiro, vocês não conseguem evitar, em seu caminhar diário, adquirir a contaminação e a sujeira do mundo. É tarefa dos crentes, uns em relação aos outros, simplesmente lavar isso, simplesmente renovar o ânimo dos santos. Que ministério maravilhoso.
As mãos são infinitamente mais agradáveis do que os pés. Normalmente, as mãos não cheiram mal. Mesmo quando ficam suadas e sujas, as mãos são refinadas. Agora, sei que os chineses nunca apertavam as mãos uns dos outros, porque não gostavam; não achavam isso limpo. Eles apertavam as próprias mãos.
Mas o restante de nós sempre aperta as mãos uns dos outros. Sabem por que começamos a apertar as mãos? Porque isso mostrava que não havia um punhal na mão direita. Foi por isso que começamos a apertar as mãos. Isso veio dos tempos romanos: quando você estendia a mão, ficava claro que não havia nada nela.
Digo que as mãos são coisas muito refinadas. Mesmo quando estão suadas e sujas, de alguma forma são refinadas. Não me importo de segurar suas mãos e apertá-las. Não me importo. Mas seus pés — agora vocês riem, mas isso nos leva imediatamente ao ponto.
De certa forma, não há nada menos refinado, mais vulgar, mais suado, mais sujo do que os pés. Jesus lavou os pés deles. Isso é incontornável.
É muito fácil desistirmos uns dos outros, não querermos mais saber uns dos outros, descartarmos uns aos outros. Mas foram os pés que Jesus disse que deveríamos lavar — talvez, diríamos, a parte mais grosseira, mais vulgar de nós.
Isso me desmascara, e deve desmascarar vocês, porque todos os nossos problemas de comunhão se resumem aos pés. Aceitamos a cabeça; aceitamos as mãos; mas não conseguimos aceitar os pés.
Jesus disse:
Eu sou vosso Mestre e Senhor, e, no entanto, lavei os vossos pés.
Deixei-vos o exemplo, para que também vós façais o mesmo uns aos outros.
Antes de terminarmos, há ainda outra coisa, também no Evangelho de João, para a qual gostaria de chamar a atenção. Tudo isso é o que tenho chamado de método divino. Uma coisa é entregar a própria vida pelos amigos, uma coisa é entregá-la em princípio; outra coisa é levar isso à máxima expressão — amar ao extremo.
Por fim, em João 12:1, leremos esta pequena história, tão conhecida de vocês.
Jesus, pois, seis dias antes da Páscoa, veio a Betânia, onde estava Lázaro, a quem Jesus ressuscitara dentre os mortos.
Fizeram-Lhe, pois, ali uma ceia: e Marta servia; mas Lázaro era um dos que estavam à mesa com Ele.
Então Maria tomou uma libra de unguento de nardo puro, muito precioso, ungiu os pés de Jesus e enxugou-Lhe os pés com seus cabelos: e a casa se encheu do perfume do unguento.
Mas Judas Iscariotes, um de Seus discípulos, aquele que O havia de trair, disse: Por que não se vendeu este unguento por trezentos xelins, e não se deu aos pobres?
Ora, disse ele isto, não porque cuidasse dos pobres; mas porque era ladrão e, tendo a bolsa, tirava o que nela se colocava.
Jesus, pois, disse: Deixa-a guardá-lo para o dia do Meu sepultamento.
Porque os pobres sempre os tendes convosco; mas a Mim nem sempre Me tendes.
Essa mesma história, naturalmente, é contada novamente em Mateus 26 e Marcos 14. Creio que ela também revela o método divino.
Nenhum daqueles discípulos que tinham estado com Jesus — aqueles doze apóstolos que tinham estado com Jesus por pouco mais de três anos — compreendeu o que Ele estava enfrentando. Nenhum deles. Na verdade, todas as vezes que o Senhor Jesus falava sobre a cruz, eles diziam: “Não nos fale sobre isso. Não é apropriado. Não é certo. É treva em Ti pensar em algo assim. Não fale sobre isso”.
Mas essa querida irmã, com a percepção do amor, de maneira tênue — como, não sei, mas pelo Espírito de Deus —, percebeu, compreendeu de maneira tênue que Jesus iria morrer.
Qual era a extensão de seu conhecimento? Não sei. Mas sua percepção a levou à identificação.
Ela tomou a coisa mais valiosa que tinha em casa. Naqueles dias, não hoje, era comum entre os judeus guardar suas economias, por causa da inflação — nada de novo debaixo do sol —, em algum bem precioso. Muitos as guardavam em nardo ou em outras especiarias preciosas, porque elas realmente valiam seu peso em ouro.
Em outras palavras, eles transformavam seu dinheiro em especiarias, ou algo assim, e o guardavam. Havia uma vantagem adicional em transformar as economias em nardo. O ritual de sepultamento do povo judeu era muito caro e exigia bastante nardo.
Por isso, as pessoas frequentemente guardavam suas economias em nardo, de modo que, se um membro da família morresse, ou se elas próprias morressem, o nardo estivesse disponível para ser usado no sepultamento.
Talvez isso fique mais claro se eu lhes disser que aquele precioso vaso de alabastro, ou frasco de alabastro, com nardo valia, na verdade, o salário de um ano. Talvez isso os ajude a entender. Valia o salário de um ano.
Agora, Lázaro, Marta e Maria não eram ricos. Não eram necessariamente os mais pobres entre os pobres, mas não eram ricos. Aquilo representava algo.
Quando, pelo Espírito de Deus, por causa do amor de Deus em seu coração, da sensibilidade nascida da verdadeira devoção e do amor, Maria percebeu que Jesus iria morrer e sentiu Sua solidão, sentiu que talvez ninguém compreendesse, ninguém estivesse ao lado Dele, ninguém alcançasse Seu coração, talvez tenha orado e refletido: “Há alguma coisa que eu possa fazer para ficar ao lado Dele, para estar com Ele?”
De repente, ela pensou: “O frasco de alabastro”. Foi buscá-lo, quebrou-o e derramou seu conteúdo sobre Ele. Judas e os discípulos ficaram horrorizados. O salário de um ano. Judas disse, com uma piedade pomposa: “Poderíamos ter alimentado os pobres”.
O método divino. Quando há amor, ele levará você a se identificar com seu Senhor. Aonde quer que o Cordeiro vá, você irá. Aonde quer que Ele conduza, você seguirá.
Se for a um vale da sombra da morte, você irá. Se for a um lugar de pastos verdejantes e águas tranquilas, você seguirá. Se for para a batalha, você irá. Seja para onde for, você O seguirá. Na morte, na ressurreição, você O seguirá.
Talvez haja algo muito precioso em sua vida. Normalmente, há alguma coisa que é a mais preciosa de nossa vida e, enquanto não abrimos mão dela, ficamos bloqueados.
Não sei qual é o frasco de alabastro em sua vida. Sei qual era na minha. Mas creio que cada pessoa, intuitivamente, mesmo que nunca tenha colocado isso em palavras, conhece o frasco de alabastro, o nardo precioso que está escondido em algum lugar de seu ser.
É isso que o Senhor pede que você tome. Ele não o empurrará. Não tentará persuadi-lo com agrados. Não o pressionará. Nem sequer dirá alguma coisa. Ele o deixará livre. Você sabe.
Você precisa tomar aquilo. Ele não o quebrará. Você precisa quebrá-lo. Ele não o derramará sobre Si mesmo. Você precisa derramá-lo sobre Ele.
Duas coisas resultaram disso. A fragrância encheu a casa. Se conheço alguma coisa sobre as casas do Oriente Médio, imagino que também tenha enchido as casas vizinhas. A própria rua do lado de fora teria ficado impregnada com a fragrância daquele unguento.
Ah, como eu gostaria que houvesse mais da fragrância do Senhor Jesus em minha vida. Infelizmente, muitas vezes ela está presa em um frasco de alabastro intacto. Gostaria que houvesse mais fragrância em nossas reuniões, em nossas congregações, em nossa comunhão. Infelizmente, ela está em frascos de alabastro intactos. Nós a mantivemos presa lá dentro.
O Senhor nunca trovejará contra nós: “Quebre-o!” Ele nos deixa aos cuidados da obra do amor.
Se houver amor em nós, ele nos identificará de tal maneira com nosso Mestre que, no fim, mesmo que seja apenas em nosso leito de morte, tomaremos aquele frasco de alabastro, finalmente o quebraremos e derramaremos todo o seu conteúdo sobre o Senhor. Mas por que esperar até o leito de morte? Por que não fazer isso agora?
Jesus disse, no outro relato, em Mateus e Marcos:
O que ela fez será contado em memória dela, onde quer que o Evangelho seja pregado.
O que Ele quis dizer? Bem, creio que quis dizer simplesmente isto: onde quer que o Evangelho — o amor salvador de Deus — seja anunciado, também será contada sua manifestação em uma vida como a de Maria.
É muito fácil, com nossa compreensão da verdade sobre a igreja, da doutrina, do propósito de Deus, do fim que Deus tem em vista e de Seu objetivo, às vezes pensarmos que amamos o Senhor. Então, de repente, nos deparamos com uma pessoa de uma comunidade que muitos de nós descartariam e encontramos um frasco de alabastro que foi quebrado e derramado.
Assim é, a meu ver — e espero não causar confusão ao dizer isso —, Madre Teresa de Calcutá. Muitas pessoas jamais acreditariam que uma abadessa em um convento católico romano pudesse amar o Senhor Jesus. Mas esse tipo de pessoa repreende, mais do que qualquer outra, aqueles de nós que compreenderam o propósito de Deus e a verdade sobre a igreja.
Não creio que seja apenas religião. Só gostaria de ter a mesma devoção e o mesmo sacrifício, de poder, pela graça de Deus, tomar qualquer frasco de alabastro em minha vida, quebrá-lo e derramar todo o seu conteúdo sobre Ele.
Em última análise, é o nosso amor por Ele que determinará nosso amor por todos os outros. Que Deus nos ajude. Que estejamos entre aqueles, entre aquele grupo, que são uma manifestação do amor de Deus.
Onde quer que o Evangelho seja pregado, que ali, em nossa vida, nos grupos dos quais fazemos parte, o amor de Deus seja demonstrado em ação.
O método divino. Falamos sobre o mandamento divino, o diagnóstico divino e a demonstração divina. Nesta manhã, tivemos esta última questão: o método divino.
Deus não tem outro caminho nem outro método. O Espírito Santo não tocará nenhum outro caminho nem outro método. Se quisermos ver a casa de Deus edificada e concluída, se quisermos ver a noiva se preparando para o Noivo, se quisermos chegar ao trono de Deus, se, pela graça de Deus, quisermos vencer, será pelo amor de Deus.
Que o amor com que o Pai ama o Filho esteja em você e em mim. E que Jesus esteja em você e em mim. Vamos orar?
Ó Senhor, somente Tu sabes onde há um frasco de alabastro intacto, cheio de unguento precioso. Ajuda-nos, Senhor, nós Te pedimos, pela Tua graça, à medida que nosso amor por Ti é aceso, a tomar essa coisa preciosa, seja ela qual for, e quebrá-la aos Teus pés.
Ó Senhor, ajuda-nos nessa questão, nós Te pedimos. Não é fácil para nós seguir esse caminho, mas, Senhor, cremos que, se reacenderes nosso amor, fizeres esse amor ser derramado em nosso coração e o fizeres transbordar ainda mais e mais até o dia de Jesus Cristo, então, Senhor, de alguma forma seremos capacitados a cair na terra e morrer. Assim virá uma colheita para Ti.
Assim, Senhor, seremos capacitados a lavar os pés uns dos outros, mesmo daqueles que mais estão falhando entre nós. Seremos capacitados, querido Senhor, pela Tua graça, a tomar aquilo que nos é mais precioso, que representa, por assim dizer, o trabalho de nossa vida, e quebrá-lo por Ti.
Ajuda-nos, Senhor, nós Te pedimos, para que esse amor esteja em nós, e Tu em nós. Pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.