Abram comigo no Evangelho segundo João, capítulo 21, a partir do versículo 1.
Depois destas coisas, Jesus manifestou-Se novamente aos discípulos junto ao mar de Tiberíades; e manifestou-Se desta maneira.
Estavam juntos Simão Pedro, Tomé, chamado Dídimo, Natanael, de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e dois outros dos Seus discípulos.
Disse-lhes Simão Pedro: Vou pescar.
Disseram-lhe eles: Nós também vamos contigo.
Saíram e entraram no barco; e naquela noite nada apanharam.
Mas, ao romper do dia, Jesus estava na praia; contudo, os discípulos não sabiam que era Jesus.
Disse-lhes, pois, Jesus: Filhos, tendes alguma coisa para comer?
Responderam-Lhe: Não.
E Ele lhes disse: Lançai a rede do lado direito do barco, e achareis.
Lançaram-na, pois, e já não podiam puxá-la, pela quantidade de peixes.
Então aquele discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: É o Senhor.
Quando Simão Pedro ouviu que era o Senhor, cingiu-se com a sua veste, porque estava nu, e lançou-se ao mar.
Os outros discípulos, porém, vieram no pequeno barco, arrastando a rede cheia de peixes; porque não estavam longe da terra, mas a cerca de duzentos côvados.
Quando desembarcaram, viram ali brasas, e um peixe posto sobre elas, e pão.
Disse-lhes Jesus: Trazei dos peixes que agora apanhastes.
Simão Pedro subiu, pois, e puxou a rede para a terra, cheia de cento e cinquenta e três grandes peixes; e, embora fossem tantos, a rede não se rompeu.
Disse-lhes Jesus: Vinde comer.
E nenhum dos discípulos ousava perguntar-Lhe: Quem és Tu? Pois sabiam que era o Senhor.
Jesus veio, tomou o pão e deu-lhes; e fez o mesmo com o peixe.
Esta foi a terceira vez que Jesus Se manifestou aos discípulos, depois de ter ressuscitado dentre os mortos.
Depois de terem comido, Jesus disse a Simão Pedro: Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?
Ele Lhe respondeu: Sim, Senhor; Tu sabes que Te amo.
Disse-lhe Jesus: Apascenta os Meus cordeiros.
Tornou a dizer-lhe, pela segunda vez: Simão, filho de João, amas-Me?
Ele Lhe respondeu: Sim, Senhor; Tu sabes que Te amo.
Disse-lhe Jesus: Pastoreia as Minhas ovelhas.
Disse-lhe pela terceira vez: Simão, filho de João, amas-Me?
Pedro entristeceu-se por Ele lhe ter dito pela terceira vez: Amas-Me?
E respondeu-Lhe: Senhor, Tu sabes todas as coisas; Tu sabes que Te amo.
Disse-lhe Jesus: Apascenta as Minhas ovelhas.
Em verdade, em verdade te digo: Quando eras mais jovem, tu te cingias e andavas por onde querias; mas, quando fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não queres.
Ora, Ele disse isso para indicar com que morte Pedro glorificaria a Deus.
E, tendo dito isso, disse-lhe: Segue-Me.
Pedro, voltando-se, viu que o discípulo a quem Jesus amava os seguia; era aquele que, na ceia, se reclinara sobre o Seu peito e perguntara: Senhor, quem é o que Te trai?
Vendo-o, pois, Pedro disse a Jesus: Senhor, e que será deste?
Disse-lhe Jesus: Se Eu quiser que ele permaneça até que Eu venha, que te importa? Segue-Me tu.
Espalhou-se, então, entre os irmãos a notícia de que aquele discípulo não morreria; Jesus, porém, não lhe dissera que ele não morreria, mas: Se Eu quiser que ele permaneça até que Eu venha, que te importa?
Este é o discípulo que dá testemunho destas coisas e que as escreveu; e sabemos que o seu testemunho é verdadeiro.
Há, porém, ainda muitas outras coisas que Jesus fez; se cada uma delas fosse escrita, suponho que nem o próprio mundo poderia conter os livros que seriam escritos.
Vamos inclinar a cabeça juntos para uma palavra de oração?
Senhor, nós nos inclinamos aqui em Tua presença e somos muito gratos a Ti, porque prometeste que o Espírito da verdade nos conduzirá à verdade. Senhor, queremos pedir-Te que faças cumprir esse ministério do Espírito Santo em nosso meio nesta noite. Vem ao nosso encontro, Senhor, nós Te pedimos.
Pedimos, Senhor, que um espírito de quietude venha sobre esta reunião. Oramos, Senhor, pelas crianças. Dá sabedoria às mães e tranquilidade às crianças, nós Te pedimos, e ajuda-nos, Senhor, a prestar atenção em Ti.
Não queremos que este tempo seja desperdiçado ou, de alguma forma, inútil. Mas oramos, ó Senhor, que nos recolhas contigo, para que possamos ouvir-Te; e que, ao ouvir-Te, algo seja realizado em nosso coração e em nossa vida para a eternidade. Pedimos isso em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.
O encargo que tem estado em meu coração para estes momentos, nestas noites, tem a ver com o amor de Deus. Ele surgiu daquela breve palavra do apóstolo Paulo, registrada em sua carta à igreja de Filipos, em Filipenses 1:9-10:
Oro para que o vosso amor cresça ainda mais e mais em conhecimento e em todo discernimento;
para que aproveis as coisas excelentes;
para que sejais sinceros e irrepreensíveis até o dia de Cristo.
Oro para que o vosso amor cresça ainda mais e mais.
O Senhor Jesus disse, em algumas das palavras mais solenes que proferiu:
Por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.
Nenhum crente deve jamais pensar que escapará dessa condição, a não ser pela graça de Deus. Todos nós podemos ter o coração esfriado. Podemos nos tornar mornos. O amor que tínhamos no princípio pode evaporar e, de algum modo, substituímos aquela devoção e aquele amor pelo Senhor por coisas: pelo trabalho, pela verdade, pelos ensinamentos, até mesmo pelo sacrifício.
Precisamos dar atenção à palavra do Senhor nessa questão: que o nosso amor cresça ainda mais e mais. Em vez de esfriar, que ele cresça ainda mais e mais até o dia de Jesus Cristo.
Ontem à noite, falei sobre o mandamento divino:
Ouve, ó Israel: o Senhor teu Deus, o Senhor é um.
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração,
e de toda a tua alma,
e de todo o teu entendimento,
e de todas as tuas forças.
E o segundo é semelhante a este:
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes dois dependem toda a lei e os profetas.
Nesta noite, quero falar sobre o desafio divino:
Amas-Me?
A história contida em João 21 é uma história maravilhosa. É quase um epílogo. Se vocês olharem o final de João 20, parece que João havia terminado o seu Evangelho. Ele o encerrou assim:
Jesus, pois, fez na presença dos discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro;
estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Messias, o Filho de Deus;
e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome.
Então, parece que ele sentiu que ainda não havia terminado, e o Espírito do Senhor o levou de volta a escrever este epílogo. Ele escreve o epílogo que, de fato, se tornou uma parte vital de todo este Evangelho.
Eu disse ontem à noite que devemos sempre prestar atenção quando Deus repete alguma coisa. Na Bíblia, temos certas coisas que são repetições. Por exemplo, ontem à noite nos detivemos em Deuteronômio, o quinto livro do Antigo Testamento. Ele é, na verdade, uma repetição da lei: uma nova apresentação da lei.
A gente se pergunta por que o Senhor teria dedicado tanto tempo e tantos capítulos deste precioso Livro que chamamos de Bíblia a repassar o que já nos havia dado. Pensamos em tantas coisas sobre as quais gostaríamos de receber revelação e iluminação, tantas coisas sobre as quais gostaríamos de obter informações, tantas perguntas que gostaríamos de ver respondidas. Mas, em vez disso, é como se Deus voltasse bem ao começo, a Gênesis, e percorresse toda a história novamente.
Há, porém, um acréscimo significativo. Pela primeira vez — com apenas uma ocorrência anterior naqueles quatro livros — Ele fala do Seu amor por eles como aquilo que está por trás de tudo e, por isso, de só ficar satisfeito se eles O amarem de todo o coração, de toda a alma, de todo o entendimento e de todas as forças.
João também é, de certa maneira, uma repetição assim. Agora, precisamos ter cuidado, porque temos três Evangelhos — Mateus, Marcos e Lucas — que chamamos de Evangelhos Sinóticos. São os Evangelhos que apresentam relatos históricos. Eles nos dão os fatos.
Eles nos dão a história do nascimento do Senhor Jesus, da vida do Senhor Jesus, da unção do Senhor Jesus, do ministério do Senhor Jesus, da morte do Senhor Jesus, da ressurreição do Senhor Jesus e da ascensão do Senhor Jesus. Apresentam os fatos de diferentes ângulos. Um fala dEle como Rei; outro fala dEle como Servo; o outro fala dEle como Homem.
Mas, quando chegamos a João, ele fala dEle como Deus. Não é da mesma maneira que os outros Evangelhos. Ele percorre toda a história novamente, mas seu Evangelho é uma interpretação, como se João estivesse dizendo: “Agora, há algo que vocês precisam entender, algo que está por trás de tudo nesses outros Evangelhos”.
Talvez vocês não compreendam plenamente Quem é Jesus e qual é o significado do Senhor Jesus, a menos que entendam o que vou comunicar a vocês. Por isso, o Evangelho de João ocupa realmente um lugar muito especial. É como se, no Evangelho de João, vocês entrassem novamente no Santo dos Santos. Acho que a maioria de nós sente isso ao ler este Evangelho.
Não é sem significado que este Evangelho termine com a história do Senhor Jesus e de Seu principal discípulo e apóstolo, Pedro. Lemos a história, e não preciso repassá-la. Mas há uma ou duas coisas que precisamos dizer sobre as perguntas do Senhor, para que possamos compreender.
Quando Pedro disse: “Vou pescar”, ele estava agindo de acordo com o tipo de homem que era. Cometemos uma grande injustiça com Pedro quando pensamos nele como alguém impetuoso, impulsivo e de cabeça vazia. Às vezes, vocês ouvem Pedro ser descrito como se ele fosse só ardor e nenhuma substância: só emoção e sentimento, pronto para se precipitar onde nem os tolos se aventurariam, alguém que seguia em frente sem pensar.
Não acho que isso seja verdade a respeito de Pedro. Acho que Pedro era um homem forte, rústico. Era um homem de fibra. Era um homem que tinha cabeça. Não havia frequentado nenhuma academia; era pescador. Mas tinha inteligência. Tinha uma personalidade vigorosa. Era duro como poucos.
Ele não era impetuoso simplesmente por não pensar. Era o tipo de homem que assumia o leme porque era natural para ele assumir o leme. Era o tipo de homem que tomava a palavra porque era natural para ele tomar a palavra. Fazia o que lhe vinha naturalmente. Era um homem forte.
Quando Jesus o encontrou nessa história maravilhosa, preparou uma refeição para ele e os outros discípulos e tomou o café da manhã com eles, de repente perguntou:
Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?
Ora, o antigo Pedro teria dito: “Senhor, é claro que sim — muito mais do que todos eles”. Mas aqui está algo que talvez não consigamos expressar bem em inglês, porque, no original, são usadas duas palavras.
Jesus perguntou: “Você Me ama completamente, absolutamente, de maneira plena, com todo o seu ser?” Pedro respondeu: “Senhor, Tu sabes que tenho um afeto fraternal por Ti”.
Ele usou outra palavra, phileo. É uma palavra usada de maneira bela no Novo Testamento, e com verdadeira força. Devemos amar os irmãos fervorosamente, diz uma passagem. Em outras passagens também se usa essa palavra, mas ela não tem exatamente a mesma plenitude ou abrangência da palavra que Jesus usou.
Então, o Senhor Jesus lhe disse: “Cuide dos Meus cordeiros”. Depois perguntou pela segunda vez: “Simão, você Me ama com todo o seu ser — completamente?” E Simão respondeu: “Senhor, Tu sabes que tenho um amor fraternal por Ti”. Jesus disse: “Pastoreie as Minhas ovelhas”.
Então, pela terceira vez, Jesus lhe disse: “Simão, filho de João” — e aqui está a coisa maravilhosa —, “você tem um afeto fraternal por Mim?” Pedro respondeu: “Senhor, Tu sabes tudo. Tu sabes que tenho um afeto fraternal por Ti”. Jesus disse: “Cuide das Minhas ovelhas”.
O desafio divino.
Este Evangelho se eleva aos céus desde o princípio. Ele começa exatamente como o livro de Gênesis e como começa a antiga aliança:
No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus.
Então diz:
E o Verbo Se fez carne,
e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade.
E vimos a Sua glória, glória como do Unigênito do Pai.
É uma revelação maravilhosa da Pessoa do Senhor Jesus: não apenas o Filho do Homem ou o Filho de Deus, mas Deus Filho, a própria mente de Deus revelada.
O que significa uma palavra? Vocês sabem o que é uma palavra? Uma palavra é um pensamento expresso de forma concreta. O que estou tentando fazer, pela graça de Deus, é comunicar pensamentos por meio de palavras.
Não sei se vocês estão entendendo alguma coisa, mas a ideia é que estes pensamentos aqui na minha cabeça são invisíveis e intangíveis. Para vocês, não é possível vê-los, ouvi-los ou saber o que estou pensando. Estas palavras tomam esses pensamentos e expressam esses pensamentos invisíveis de maneira concreta, para que vocês possam entender. É uma comunicação.
Jesus é a mente de Deus revelada. Jesus é o coração de Deus revelado. Jesus é os pensamentos de Deus em forma concreta. Jesus é a manifestação de Deus, de modo que, quando O vemos, vemos Deus; quando O ouvimos, ouvimos Deus; quando O tocamos, tocamos Deus. Ele é o Verbo.
Jamais seríamos capazes de entender Deus, compreender Deus ou experimentar Deus, se vocês entendem o que quero dizer, à parte da Pessoa do Senhor Jesus. É assim que começa este extraordinário Evangelho.
Então, pelo Espírito de Deus, João começa a nos conduzir por toda sorte de coisas incríveis. Primeiro, chegamos àquela grande declaração do Senhor Jesus:
Eu sou o pão da vida.
O pão é absolutamente necessário para viver. Precisamos comer pão para viver. Jesus não disse: “Eu lhes dou pão”. Ele realmente lhes deu pão. Partiu o pão e alimentou cinco mil em um lugar; em outro, partiu o pão e alimentou quatro mil, contando apenas os homens. As mulheres devem ter sido, se tomarmos como base uma congregação comum, pelo menos dois terços a mais.
Eu sou o pão da vida.
Não “Eu dou o pão da vida”; não “Eu parto o pão da vida”; mas “Eu sou o pão da vida”. Ele é Aquele que é, por assim dizer, a própria natureza de Deus, da qual vocês e eu podemos nos tornar participantes. Não quero ser subjetivo demais, nem transformar Jesus em uma coisa; mas, por Ele, por meio de Sua obra salvadora, tornamo-nos participantes da natureza divina.
Eu sou o pão da vida.
Que coisa extraordinária. Neste Evangelho, temos a história da alimentação dos cinco mil e esta grande declaração de Jesus: “Eu sou o pão da vida”.
Então, um pouco mais adiante, temos a próxima grande declaração:
Eu sou a luz do mundo;
quem Me segue não andará em trevas,
mas terá a luz da vida.
Jesus é a luz do mundo. Ele não apenas manifesta a luz do mundo; Ele disse: “Eu sou a luz do mundo”. Se O seguirmos, teremos não a luz do conhecimento, mas a luz da vida.
Ele, em nós, torna-Se uma compreensão interior de Deus, uma compreensão interior de nós mesmos, uma compreensão interior uns dos outros e uma compreensão interior do propósito e do objetivo de Deus. Então lemos sobre um cego que recebe a visão.
Avançamos um pouco mais, e o que encontramos? Uma declaração maravilhosa para qualquer pessoa que tenha sangue judeu:
Antes que Abraão existisse, Eu sou.
Eles ficaram atônitos com isso. Como poderia Ele existir antes de Abraão nascer? Contudo, Ele disse: “Antes que Abraão existisse, Eu sou”.
Era como se Ele estivesse dizendo: “Eu sou a explicação da história do povo de Deus. Eu sou o significado de todo o agir de Deus para com o Seu povo. Antes que Abraão existisse, Eu sou”.
Deus havia Se revelado a Moisés naquela sarça ardente como “Eu sou”. Quando Moisés perguntou: “Qual é o Teu nome?”, Ele respondeu:
Eu sou o que sou.
Jesus tomou esse nome impronunciável de Deus e disse: “Eu sou o pão da vida. Eu sou a luz do mundo. Antes que Abraão existisse, Eu sou”.
Alguns capítulos adiante, chegamos a João 10, e Jesus disse:
Eu sou a porta; se alguém entrar por Mim, será salvo;
entrará e sairá, e achará pastagem.
“Eu sou a porta.” Não “Eu aponto para a porta”; não “Eu conduzo vocês pela porta”; mas “Eu sou a porta”. Eu sou a entrada para o reino de Deus. Eu sou a entrada para a presença de Deus. Eu sou a porta pela qual vocês podem entrar, sair e encontrar pastagem.
Então Ele continuou:
Eu sou o bom pastor;
o bom pastor dá a Sua vida pelas ovelhas.
Este Evangelho de João é singular. Vocês não encontram nada disso nos outros três Evangelhos. É como se João voltasse bem ao começo e dissesse: “Agora vocês têm todos os fatos. Vocês O viram como Rei; vocês O viram como Servo; vocês O viram como Homem. Mas quero revelar algo sobre o Senhor Jesus que está por trás de tudo”.
Deus não lhes deu coisas; deu-lhes uma Pessoa. Deus não lhes deu um “isso”; deu-lhes um “Ele”. Seu dom inefável é Seu Filho. Ele deu a Si mesmo na Pessoa do Senhor Jesus.
Então avançamos para João 11 e aquela história impressionante de quando Lázaro morreu e Jesus chorou. Vocês se lembram das palavras que Ele disse:
Eu sou a ressurreição e a vida;
quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá;
e quem vive e crê em Mim jamais morrerá.
Ele não disse: “Eu sou Aquele que ressuscitará os mortos e lhes dará vida”. Disse: “Eu sou a ressurreição e a vida”. A morte é apenas uma experiência passageira. É como uma espécie de crisálida, da qual saímos para outra dimensão da vida. Isso não é maravilhoso?
Às vezes sentimos medo quando achamos que Jesus está longe e nós estamos aqui. Mas, quando chegar o dia da nossa morte, se o Senhor não vier nos buscar antes, que consolo será saber que Ele é a ressurreição e a vida, mesmo na hora da nossa morte.
Então, em João 14, Filipe disse: “Senhor, não sabemos o caminho para o Pai. Mostra-nos o caminho”. Ele respondeu: “Estou há tanto tempo com vocês, e vocês ainda não entendem?”
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida;
ninguém vem ao Pai senão por Mim.
Ele não disse: “Eu aponto o caminho, prego a verdade ou dou a verdade, e produzo a vida”. Disse: “Eu sou o caminho. Eu sou a verdade. Eu sou a vida. Ninguém vem ao Pai senão por Mim”.
Então, talvez a declaração mais notável e misteriosa de todas, em João 15:1:
Eu sou a videira verdadeira, e Meu Pai é o lavrador.
Qualquer judeu observante que ouvisse o Senhor Jesus naquele tempo sabia do que Ele estava falando, porque nas moedas da época do nosso Senhor Jesus havia uma folha de videira estampada. Todos sabiam que, no templo de Herodes, uma das coisas mais impressionantes de se ver, segundo Josefo, era a grande videira de ouro em filigrana no pórtico do templo.
Todo filho de Israel podia vê-la quando trazia os seus sacrifícios. Olhava para além da cabeça do sacerdote, em direção ao pórtico do templo, e podia ver aquela videira de ouro. Se vocês perguntassem a qualquer judeu observante daqueles dias: “O que a videira simboliza?”, ele responderia: “Nós. Nós somos a videira: o povo da aliança de Deus, o povo escolhido de Deus. Nós somos a videira, e Deus é o lavrador”.
De todas as coisas que Jesus disse, essa deve ter deixado a mente daqueles apóstolos atônita. Ele disse: “Eu sou a videira verdadeira”, como se estivesse dizendo: “Eu sou a nação. Eu sou o povo de Deus. Eu sou a noiva de Deus. Eu sou a nação de Deus. Eu sou a aliança”.
Como poderia Ele ser isso? Se tivesse dito: “Eu sou o Messias do povo”, poderíamos entender. Se tivesse dito: “Eu sou o sumo sacerdote”, entenderíamos. Se tivesse dito: “Eu sou o Rei messiânico”, teríamos entendido. Mas como poderia dizer: “Eu sou a videira verdadeira”?
Eu sou a videira; vós sois os ramos.
Ele nunca disse: “Eu sou o tronco; vocês são os ramos”. É assim que todos nós entendemos mentalmente: Ele é o pequeno tronco, e nós somos os grandes ramos.
Se vocês já viram videiras cultivadas à maneira antiga — não à maneira italiana, mas à maneira antiga, como ainda acontece em muitas partes de Israel hoje, na Judeia e em Samaria —, verão que elas têm um tronco muito pequeno e grandes ramos.
Muitas pessoas dizem: “Ah, nós entendemos Jesus. Ele disse: ‘Eu sou o tronco; vocês são os ramos. Permaneçam em Mim e darão muito fruto’”. Ele não disse isso. Disse: “Eu sou a videira; vocês são os ramos”, como se estivesse dizendo: “Eu sou a videira inteira. Eu sou a totalidade da videira”.
“Eu sou a raiz, o tronco, os ramos, as folhas, as gavinhas, as flores e o fruto — e vocês estão em Mim. Vocês não são tão grandes quanto Eu, mas estão em Mim. Permaneçam em Mim, e Eu em vocês, e vocês darão muito fruto.”
Ah, que revelação. Que revelação.
Não percebemos como essas coisas são extraordinárias. Temos aqui este Livro, e muitos de nós nunca entenderam: “Eu sou a videira; Meu Pai é o lavrador”. Isso simplesmente passa por nós sem nos atingir.
Maravilhoso. Ele é o pão da vida. Maravilhoso. Ele é a ressurreição. Ah, maravilhoso. Ele é a luz do mundo. Magnífico. “Eu sou a videira.” Ah, que pensamento lindo: união. União. Lindo. É lindo.
Este Evangelho de João é insondável. É um oceano inexplorado de significado e experiência espiritual. Tudo isso foi o que Jesus disse.
Depois de João 15, entramos no relato final de Sua paixão, Sua angústia, Sua morte e Sua ressurreição. É como se João chegasse ao fim e dissesse: “Ah, escrevi estas coisas, e há muitos outros sinais de que poderia ter falado a vocês, para que vocês creiam e, crendo, tenham vida em Seu nome”.
Então, suponho que, como alguns de nós que escrevemos, ele tenha pensado: “Bem, é isso”. Mas depois, suponho — não sei como aconteceu —, ele deve ter ficado incomodado. Voltou, examinou o que havia escrito e disse: “Está faltando alguma coisa”.
Suponho que o Senhor Jesus lhe tenha dito: “Sim, há outro episódio. Você se lembra de quando encontrei todos vocês, depois que foram pescar com Pedro. João, não deixe esse Evangelho no ponto em que você o terminou. Ele não está concluído. Você ainda não chegou ao cerne da questão”.
O cerne da questão não é que você tenha conhecimento de todos os mistérios, nem que compreenda Minha Pessoa e a plenitude que o Pai Se agradou em concentrar em Mim para você.
A chave é esta: você Me ama?
Você Me ama de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças?
Qual é a maior necessidade entre o povo de Deus hoje? Alguns diriam: “Ah, se eles tivessem mais conhecimento das coisas de Deus”. Acho que todos nós diríamos: “Sim, há uma escassez de entendimento entre o querido povo de Deus”.
Mas você pode ter um grande entendimento e ainda assim errar o alvo. Poderia até compreender o Evangelho de João e, de alguma forma, perder todo o seu sentido, se não fosse João 21, que não é um acréscimo de última hora, mas nos leva diretamente ao próprio cerne da questão:
Amas-Me?
Você Me ama plenamente, completamente, com todo o seu ser?
Observem por um momento: não se trata de coisas. Não se trata de verdade. Não se trata de ensino. Ele não disse: “Você ama a verdade que Eu lhe dei?”
É bom amar a verdade. O salmista disse: “Ó Senhor, amo a Tua verdade”. É uma coisa boa. É bom ter sã doutrina numa época em que há tão pouca. É bom ter doutrina pura numa época em que há tão pouca doutrina pura.
Mas isso é apenas parte da questão. A questão essencial, o coração de tudo, é: você Me ama com todo o seu ser? E, se ama:
Apascenta os Meus cordeiros.
Pastoreia as Minhas ovelhas.
Apascenta as Minhas ovelhas.
Estamos de volta ao mesmo ponto. Vocês perceberão, ao longo destas poucas noites, que estou realmente dizendo a mesma coisa repetidas vezes. Espero não estar entediando vocês até não poder mais.
Quais são os dois grandes mandamentos?
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração.
Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
“Você Me ama?” “Senhor, Tu sabes que tenho um verdadeiro afeto por Ti.” “Alimente os Meus cordeiros.”
Tudo o que tem valor eterno nasce do nosso relacionamento com o Senhor Jesus, do nosso amor por Ele. Você pode ter todo o conhecimento, todo o entendimento, todo o zelo, toda a energia, e estar mergulhado no trabalho para Ele; mas, se faltar esse relacionamento de amor com Ele, isso de nada lhe aproveita.
Nada disso entra na cidade de Deus. Não há ouro, nem pedra preciosa, nem pérola.
É por isso que este, o maior dos quatro Evangelhos, termina com um desafio: “Você Me ama? Diga-Me. Você Me ama?”
Ou você está pregando por obrigação, pregando mecanicamente, trabalhando para a própria satisfação, de uma forma ou de outra apenas cumprindo uma rotina? Você Me ama?
Que revelação da graça de Deus neste último capítulo. Ele compreendia aquele apóstolo.
O Senhor Jesus poderia ter perguntado pela terceira vez: “Você Me ama com todo o seu ser?” Ele saberia que o pobre Pedro quase sucumbiria. Alguma coisa havia acontecido com Pedro. Chegaremos a isso em um momento.
Ele não conseguia dizer o que teria dito alguns meses ou semanas antes. Disse: “Senhor, Tu sabes tudo”. Mas, na terceira vez, Jesus não perguntou: “Você Me ama completamente, plenamente, com todo o seu ser?” Ele perguntou: “Pedro, Simão, você tem esse afeto fraternal por Mim?”
Pedro respondeu: “Senhor, Tu sabes. Tu sabes tudo. Tu sabes que tenho esse afeto por Ti”. Então Ele disse: “Alimente as Minhas ovelhas”.
O Senhor Jesus vem a você nesta noite. Não sei o quanto você foi tocado nesta manhã, nem se Deus conseguiu fazer alguma coisa penetrar em você nestes últimos dois dias. Mas sei disto: não é o seu extraordinário entendimento da verdade, nem mesmo da verdade acerca da igreja, nem mesmo do propósito de Deus, que finalmente conta na eternidade.
O que conta é se, nesta noite, você pode responder a esta pergunta do seu Senhor, do seu Senhor ressuscitado e glorificado: “Você Me ama?” É um desafio do qual não se pode escapar.
A consequência desse amor, como já destaquei, não é que fiquemos a sós com Ele e esqueçamos o mundo ao nosso redor, ou esqueçamos todas as outras pessoas, e, de alguma forma, vivamos numa atmosfera maravilhosa de meditação e reflexão.
O Senhor diz:
Apascenta os Meus cordeiros.
Pastoreia as Minhas ovelhas.
Apascenta as Minhas ovelhas.
Esse tipo de amor por Ele, esse relacionamento com Ele — e não com coisas — deve resultar em serviço: um serviço sacrificial e amoroso para com o rebanho de Deus.
As ovelhas não são criaturas fáceis. Antes de conhecer um pouco mais sobre elas, fazendo várias perguntas a criadores de ovelhas, eu costumava pensar que criar ovelhas era uma maneira agradável e fácil de garantir o sustento. Talvez não de fazer fortuna, mas de ter algumas ovelhas e deixá-las se virar.
No Oriente Médio, é claro, temos ovelhas voltando à capital duas vezes por ano. Uma das cenas mais curiosas de Jerusalém é ver, na primavera e no outono, rebanhos inteiros atravessando as ruas principais, indo do sul para o norte e, meio ano depois, fazendo o caminho de volta para a região de Belém.
Aquelas velhas ovelhas magricelas — do tipo oriental, do tipo que também existe na China, não do tipo ocidental —, com aquelas grandes caudas gordas na parte de trás e aqueles rostos redondos. As ovelhas são estranhas.
Eu costumava pensar que eram as mais tolas de todas as criaturas. A gente achava que podia fazer qualquer coisa com algumas ovelhas. Sentava-se debaixo de uma árvore durante o dia, deixava as ovelhas se virar e, de alguma forma, elas lhe davam o sustento. Não precisava esquentar a cabeça com elas; podia ficar ali tocando flauta.
Essa é a imagem sentimental de um pastor sentado numa pedra, tocando flauta enquanto as ovelhas vagueiam por toda a encosta. Desde então, descobri que as ovelhas não são tão fáceis assim.
Um criador de ovelhas me disse que, para realmente ter ovelhas saudáveis, é preciso examiná-las pessoalmente todos os dias, uma por uma. Elas têm tanta propensão à podridão dos cascos e a feridas debaixo da lã que precisam ser examinadas diariamente.
Isso explica o relacionamento do pastor com as ovelhas. Ele precisa examiná-las todos os dias e passa a conhecê-las. Para mim, posso lhes dizer, as ovelhas são todas iguais. Mas o pastor passa a conhecer as pequenas particularidades de cada uma. Ele consegue distinguir uma da outra.
Sempre achei esse relacionamento entre pastor e ovelhas muito notável. Lembro-me de um dia em que estava descendo do lugar onde me hospedava, perto do monte das Oliveiras, em direção à cidade antiga, e vi uma porção de rebanhos. Eu sabia que havia quatro grandes rebanhos, cada um com cerca de cento e cinquenta ou cento e sessenta ovelhas, e estavam todos misturados.
Então vi uma cena extraordinária. Vi um pastor baixinho, um senhor idoso de cabelos brancos, com uma ovelha enorme nos braços. Ele acabara de pegá-la no meio de toda aquela massa agitada de ovelhas, atravessara com ela e a colocara em outro rebanho.
Vocês podem achar que sou meio lento — e sou mesmo, quando se trata de ovelhas —, porque pensei comigo: “Como ele sabia?” Não havia nenhuma marca de tinta nela, como se faz hoje. Como ele sabia que aquela ovelha não era dele? Ainda assim, ele a separou.
Para mim, todas pareciam iguais. Todas pareciam magricelas. Todas pareciam bobas; todas pareciam tolas. Todas tinham o mesmo padrão de cores e os mesmos rostos esquisitos. Mas ele se enfiou no meio de umas quinze ovelhas, tirou uma delas e a levou para o outro lado.
Certa vez, eu estava no sul do Sinai e me afastei dos outros. Eles estavam observando os corais e mergulhando para ver o mundo submarino. Eu fui caminhando até um lugar onde havia uma aldeia beduína, bem ao lado do mar Vermelho.
Havia uma mulher com um rebanho enorme, e ela estava dando água às ovelhas. Então, de repente, vi que ela se virou e olhou para aquela massa agitada de pelo menos cem animais. Abaixou-se, pegou uma pedra, lançou-a com uma pontaria certeira, acertou uma ovelha nas costas, e ela saltou, saiu correndo do rebanho e foi para outro.
Eu não falava a língua dela, por isso não pude perguntar: “Como você sabia?” Para mim, todas pareciam iguais. Todas disputavam o acesso à água. Mas ela identificou, entre aquelas cem, uma ovelha que não era do seu rebanho e lançou uma pedra com precisão certeira, acertando-a nas costas; e lá foi ela para o seu próprio rebanho.
As ovelhas são criaturas incríveis. Não só têm uma tendência a adoecer e precisam ser cuidadas e tratadas, mas o pastor também precisa procurar pastagem. Não é como aqui, onde vocês têm bastante capim ou bastante feno.
No Oriente Médio, o pastor precisa ter previsão. Precisa pensar em onde levará aquelas ovelhas na semana seguinte, porque sabe que a pastagem só lhes permitirá viver por mais alguns dias. Precisa pensar em outra pastagem.
Quando Jesus perguntou a Pedro, que era pescador: “Você Me ama?”, e ele respondeu: “Senhor, Tu sabes que tenho afeto por Ti”, Ele disse: “Alimente os Meus cordeiros”. “Simão, você Me ama?” “Senhor, Tu sabes que tenho afeto por Ti.” “Pastoreie as Minhas ovelhas.” “Simão, você tem afeto por Mim?” “Senhor, Tu sabes tudo. Tu sabes que tenho esse afeto por Ti.” “Alimente as Minhas ovelhas.”
As ovelhas têm uma enorme tendência a se meter em encrencas. Já trabalho entre o povo do Senhor há alguns anos, e entendo muito bem por que o Senhor nos chama de ovelhas. Temos uma terrível tendência a adoecer. Temos uma terrível tendência a nos meter em encrencas e, às vezes, levamos uns aos outros para essas encrencas.
Lembro-me de, anos atrás, quando era jovem e estava na Inglaterra, ouvir Alan Redpath contar uma história. Ele estava de férias na Escócia e disse que, quando a balsa chegou a um lugar chamado Rothesay, nas Terras Altas Ocidentais, todas aquelas ovelhas desembarcavam e iam para o cais.
Os homens que trabalhavam no cais haviam deixado ali alguns grandes caixotes. Quando a primeira ovelha chegou ao caixote, não deu a volta. Hesitou por um momento, depois recuou e saltou por cima. Então a seguinte hesitou e também saltou. Para meu espanto, aquelas centenas de ovelhas não deram a volta; todas saltaram por cima.
Então um dos homens no cais ficou com pena das ovelhas. Foi até lá e tirou o caixote do caminho. O que vocês acham que aconteceu? Todas saltaram por cima de um caixote invisível.
O povo do Senhor é um povo surpreendente. Seguimos uns aos outros e fazemos coisas. Às vezes, cem anos depois, estamos seguindo um método que está ultrapassado há muito tempo. Fazemos trabalho evangelístico como se estivéssemos vivendo cento e cinquenta anos atrás.
Vestimo-nos assim, falamos assim, fazemos todo tipo de coisa como se estivéssemos vivendo numa época de grande avivamento de duzentos, trezentos ou quatrocentos anos atrás. Estamos saltando por cima do caixote invisível.
Ovelhas.
Agora, sei que vocês são ovelhas, mas às vezes é difícil reconhecer que eu sou uma ovelha. Entendem o que quero dizer? Todos nós dizemos: “Ah, fulano é bem assim. Bem assim. Precisa de tanto cuidado, de tanta atenção”. Mas, é claro, eu — bem, eu não sou assim.
Mas todos nós somos. Todos somos ovelhas. Cada um de nós se desviou pelo seu próprio caminho, mas o Senhor fez cair sobre Ele a iniquidade de todos nós. Ovelhas.
O trabalho, o serviço, até mesmo as ovelhas, nunca devem ocupar o lugar do Senhor. Não é interessante? O Senhor Jesus não perguntou: “Simão, filho de João, você ama os Meus cordeiros? Simão, filho de João, você ama as Minhas ovelhas com todo o seu ser?”
Ele nem sequer perguntou: “Simão, você tem um afeto fraternal pelas ovelhas? Você tem algum sentimento por elas?” Não. Ele perguntou: “Você Me ama com todo o seu ser?” “Senhor, Tu sabes que tenho afeto por Ti.” “Alimente os Meus cordeiros.”
Essa é a ordem correta, mas estamos sempre invertendo as coisas. Estamos sempre nos envolvendo com o trabalho, com o serviço, com as pessoas, com os santos. A primeira coisa é o nosso relacionamento com o Senhor Jesus.
Não foi por acaso que o apóstolo Paulo disse:
Retendo a Cabeça, da Qual todo o corpo…
Em outras palavras, quando nos apegamos à Cabeça, encontramos o corpo. Quando tentamos nos apegar ao corpo, perdemos a Cabeça.
Movimentos inteiros saíram dos trilhos porque se apegaram uns aos outros, em vez de se apegarem à Cabeça. Nossa grande proteção e segurança é o nosso relacionamento com a Cabeça: não apenas nos apegarmos à Cabeça, mas termos um amor real, verdadeiro e total por Ele.
Agora preciso encerrar este tempo, mas há algo mais que quero dizer. Falei sobre o desafio do Senhor: “Você Me ama com todo o seu ser?” Falei sobre a consequência desse amor: “Alimente os Meus cordeiros. Cuide das Minhas ovelhas. Alimente as Minhas ovelhas”.
Quero falar sobre a experiência necessária.
Não devemos ignorar a experiência de Pedro que está por trás de tudo isso, ou perderemos todo o sentido. Vocês perceberam o que o Senhor Jesus lhe perguntou da primeira vez?
Simão, filho de João, amas-Me mais do que estes?
O Senhor sabia exatamente o que estava dizendo e o que estava fazendo, porque o antigo Pedro teria respondido: “Tu sabes, Senhor, que Te amo muito mais do que todos eles. Estou pronto para ir contigo para a prisão. Estou pronto para morrer por Ti — pelo menos contigo”.
Esse era o antigo Pedro de uma semana antes. Alguma coisa havia acontecido com Pedro.
Pedro tinha uma vida cristã fabricada por ele mesmo. Tinha uma espécie de serviço fabricado por ele mesmo. Havia passado três anos com o Senhor Jesus. Não consigo imaginar nenhum seminário teológico como esse: três anos, não sob a orientação de algum grande mestre piedoso, mas sob a instrução e o treinamento do próprio Senhor Jesus — três anos inteiros com o Mestre.
Ele havia vivido com Ele. Havia dormido no mesmo cômodo que Ele. Havia comido com Ele. Havia participado de milagres, sinais e maravilhas. Havia ouvido pessoalmente o Sermão do Monte. Havia ouvido esses grandes discursos. Havia ouvido Jesus dizer: “Eu sou o pão da vida. Eu sou a luz do mundo”.
Ele estivera com o Senhor Jesus em todas essas coisas. Fora um dos que estavam no monte da Transfiguração, com outros dois, quando, de repente, o Senhor Jesus foi transfigurado em glória. Fora um dos quatro que entraram e viram a filha de Jairo ser ressuscitada dentre os mortos. Era um dos integrantes do círculo mais íntimo dos doze. Havia participado de tudo.
Ele não apenas estivera com o Senhor, não apenas conhecera o Senhor pessoalmente, não apenas ouvira o Senhor, não apenas experimentara a autoridade e o poder do Senhor: ele fora o primeiro a receber revelação.
Foi ele quem, quando Jesus perguntou: “Quem vocês dizem que Eu sou?”, respondeu:
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
Jesus lhe disse:
Simão, filho de João, não foi carne e sangue que te revelaram isso, mas Meu Pai, que está nos céus.
Ele foi o primeiro a receber revelação. Foi a esse Pedro que Jesus disse:
A ti darei as chaves do reino dos céus.
Esse Pedro havia participado de campanhas evangelísticas das quais, quando voltaram, Jesus lhes disse:
Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago.
Eles voltaram e disseram: “Mestre, os mortos foram ressuscitados, os leprosos foram purificados, os enfermos foram curados, os endemoninhados foram restaurados”.
Eu teria pensado que, se vocês tivessem vivido três anos assim, talvez sentissem que tinham o direito de falar por Deus. Talvez sentissem que tinham o direito de ser líderes entre o povo de Deus. Talvez sentissem que tinham o direito de lhes comunicar a verdade. Talvez sentissem que tinham o direito, de alguma forma, de organizar campanhas ou o que fosse.
Mas havia uma fraqueza fatal em Pedro, e essa fraqueza fatal está em cada filho de Deus.
Encontramos a melhor descrição disso em Lucas 22:31-32, nas palavras de Jesus:
Simão, eis que Satanás pediu para vos ter,
a fim de vos peneirar como trigo;
mas Eu roguei por ti,
para que a tua fé não desfaleça;
e tu, quando te converteres novamente, fortalece os teus irmãos.
Pedro Lhe respondeu:
Senhor, contigo estou pronto a ir tanto para a prisão como para a morte.
E Ele disse:
Digo-te, Pedro, que o galo não cantará hoje antes que três vezes negues que Me conheces.
Simão, Satanás obteve permissão para te ter. A New American Standard Bible coloca isso de maneira simples: “Satanás exigiu permissão para ter vocês”. Que palavra maravilhosa.
Satanás nunca pode pôr as mãos em um crente sem permissão. Ninguém que tenha sido dado pelo Pai ao Filho pode sofrer a ação de Satanás, a não ser com permissão.
Qual era o objetivo? Satanás havia exigido permissão para ter vocês, a fim de peneirá-los como trigo.
Acho que Deus sempre usa Satanás para nos peneirar, de muitas e muitas maneiras. Satanás é o agente; Deus fica com o grão, e Satanás fica com a palha. Satanás é tão centrado em si mesmo que continua, continua e continua. Parece não perceber que Deus o usa para realizar algo em um crente.
“Satanás obteve permissão para te ter, a fim de te peneirar como trigo.” Ora, eu teria pensado que, se considerássemos a história da negação e do colapso de Pedro, não havia grão nenhum: era tudo palha. Tudo era palha.
Ele disse, com juramentos e maldições: “Não conheço este Homem”. E não foi diante do sumo sacerdote. Se o sumo sacerdote tivesse aparecido com todas as suas vestes cerimoniais, confrontado Pedro e dito: “Ora, você esteve com esse impostor, Jesus”, e Pedro tivesse tremido e respondido: “Ah, não, eu não O conheço”, talvez eu tivesse entendido.
Mas foi uma jovem serva, uma menina franzina. Ela se aproximou e disse: “Você estava com Jesus”. E aquele homem grande e forte tremeu. Disse: “Não O conheço”. Três vezes.
Obtido mediante um pedido. Aqui está o amor divino em ação. Ouçam:
Eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça.
Vocês sabem por que estou aqui nesta noite? Porque Jesus orou por mim muitas vezes. Sabem por que estão aqui nesta noite? Porque Ele vive sempre para interceder por nós.
Ah, quantas vezes, sem que soubéssemos, Jesus disse ao Pai: “Pai, não deixes que a fé dela desfaleça. Não deixes que aquilo que vem de Mim nele seja destruído. Faze-o atravessar isso conservando o que tem valor eterno. O resto, Satanás pode levar”.
“Para que a tua fé não desfaleça.” Como vocês teriam descrito esse capítulo da vida de Pedro? Não o teriam chamado de colapso da sua fé? Se alguém tivesse dito: “Não conheço esse Homem”, com juramentos e maldições, vocês teriam pensado: “Ah, isso é o colapso da sua fé”.
Mas não o Senhor Jesus. Ele disse: “Orei por você, Simão, para que a sua fé não desfaleça”. Portanto, tudo o que ruiu foi aquilo que era superficial, fabricado por ele mesmo. Era o que estava na superfície.
A fé verdadeira, que era o dom de Deus no mais profundo do seu coração, estava ali. Ela nunca desfaleceu. Jesus só precisou lançar-lhe um olhar e, naquele momento, sua fé, dada por Deus, irrompeu em soluços e lágrimas amargas.
Assim acontece com todo verdadeiro filho de Deus. Basta Jesus olhar. Às vezes, Ele nem precisa dizer nada. Quando passamos por esse tipo de experiência, Ele olha e, naquele momento, estamos de volta com Ele.
O que aconteceu com Pedro precisa acontecer, em alguma medida, com todo verdadeiro servo do Senhor. Todos começamos a servir ao Senhor quando somos salvos, mas muito desse serviço é fabricado por nós mesmos, não é?
Nossa fé, que julgamos tão grande, é realmente superficial. Nossa confissão: dizemos: “Senhor, irei a qualquer lugar por Ti. Senhor, farei qualquer coisa”. Levantamo-nos nas reuniões e nos consagramos ao Senhor, mas o Senhor não Se deixa enganar por nada disso. Ele nos ama tanto que nos acolhe e continua a trabalhar em nós.
É como se Ele acompanhasse o nosso entusiasmo e dissesse: “Está bem, está bem, Eu aceito você”. Mas Ele sabe, assim como sabia a respeito de Pedro. Ele não ficava dizendo a Pedro, toda vez que Pedro falava alguma coisa: “Pedro, você é só conversa. Você é só conversa, Pedro: um gongo vazio e barulhento, um címbalo que retine. É só isso que você é. Você ainda vai perceber”.
Não. O Senhor Jesus o acompanhava de maneira bela. Ele encorajava aquilo que havia do Senhor. Dizia: “Não foi carne e sangue que lhe revelaram isso; Meu Pai lhe revelou isso”. Ele o elogiava. Ele o encorajava. Ele o consolava.
Às vezes, Ele o repreendia:
Para trás de Mim, Satanás.
Não cogitas das coisas de Deus, mas das coisas dos homens.
Mas o Senhor Jesus nunca Se deixou enganar. Ele sabia que todo aquele suposto caráter cristão, trabalho cristão e serviço era uma fachada. Tudo desmoronaria em um instante. Ele havia orado por Pedro para que este não desfalecesse.
Agora, receio que esta mensagem seja apenas para alguns de vocês. Todos vocês, se prosseguirem com o Senhor, terão de chegar a isso em alguma medida. Mas alguns talvez já tenham chegado a esse ponto.
Aparentemente, vocês perderam a fé. Aparentemente, estão devastados. Aparentemente, estão desolados. Tudo o que antes conheciam simplesmente evaporou. Tudo o que antes defendiam com tanto zelo e vigor, de alguma forma, passou a ser questionado.
É como se Deus tivesse feito em pedaços toda a superestrutura da sua vida cristã. Não tenha medo. Jesus orou por você. Você precisa passar por esse caminho.
Porque somente depois de atravessá-lo você ouvirá as belas palavras do seu Senhor: “Você Me ama com todo o seu ser?”
Se Jesus tivesse perguntado isso a Pedro antes, ele teria respondido, como já disse duas ou três vezes: “É claro que sim, Senhor. Eu Te amo com todo o meu ser. Morrerei por Ti”. Jesus saberia que aquilo não significava nada.
Agora Ele perguntou duas vezes, e aquelas palavras de Pedro — “Tu sabes que tenho afeto por Ti, Senhor” — significaram mais para Jesus do que se ele tivesse dito, meses antes: “Eu Te amo de todo o meu coração”. Desta vez, Jesus sabia que era real.
Aquele homem O amava. Aquele homem tinha devoção por Ele, mas tinha medo de ir além e usar as palavras que teria usado algumas semanas antes. Toda a sua superestrutura havia sido lançada pelos ares. Deus o havia levado de volta ao fundamento básico.
“Tu sabes que tenho afeto por Ti.” Jesus não o deixou escapar. “Simão, você Me ama de todo o seu coração?” “Mestre, Tu sabes que tenho um sentimento por Ti. Tenho afeto por Ti.” “Pastoreie as Minhas ovelhas.”
Então, foi como se Jesus dissesse, com gentileza e ternura no olhar: “Simão, você tem afeto por Mim?” Pedro respondeu: “Tu sabes tudo. Tu sabes que tenho afeto por Ti”.
Jesus disse: “Alimente as Minhas ovelhas. Estou com você, Pedro. Agora estamos sobre a base da realidade. Você será o homem que abrirá a porta: primeiro ao judeu e depois ao gentio. Estou com você”.
Querido povo de Deus, não é algo impressionante considerar que esse amor de Deus precisa nos levar, por fim, a dar a vida por Ele e uns pelos outros?
Vocês percebem como as palavras terminam: “Você Me ama? Siga-Me”.
Não foi por acaso que Jesus lhe disse: “Você será levado para onde não quer”, pois falava da morte de Pedro, uma morte que, fisicamente, foi de fato semelhante à do seu Senhor.
Só que, se acreditarmos na tradição da igreja, no último momento Pedro pediu que uma coisa lhe fosse concedida, e ela foi concedida. Ele disse que queria ser crucificado de cabeça para baixo, porque não era digno de ser crucificado da mesma maneira que o seu Senhor.
Segue-Me.
Você pode entregar o seu corpo para ser queimado, e isso de nada lhe aproveitará. Pode distribuir todos os seus bens para alimentar os pobres, e isso nada significa se não houver amor.
“Você Me ama?”, pergunta o Senhor. “Senhor, Tu sabes que Te amo.” Então Ele diz: “Alimente as Minhas ovelhas e siga-Me”.
Isso significa que você terá de dar a sua vida. O amor de Deus nos leva exatamente a isso: a darmos a vida por Ele e uns pelos outros.
Não sei qual é a resposta do seu coração nesta noite às palavras de Jesus. Oro para que você não consiga escapar delas, para que Deus, de alguma forma, mantenha você diante dessa questão.
Não “Você entende?” Não “Você sabe?” Não “Você está pronto, antes de tudo, para o sacrifício?” Nem mesmo “Você está pronto, antes de tudo, para servir?” Mas “Você Me ama?”
Que Deus nos dê graça para amá-Lo de todo o nosso coração, de toda a nossa alma, de todo o nosso entendimento e de todas as nossas forças, e para amar o nosso próximo como a nós mesmos. Vamos orar?
Amado Senhor, oramos para que possamos ouvir a Tua voz na quietude do nosso próprio coração, falando a cada um de nós.
Ajuda-nos, Senhor, nós Te pedimos, a responder a Ti. Não nos deixes escapar, nós Te pedimos, Senhor, deste Teu desafio.
Mas concede, nós Te pedimos, Senhor, que sejamos capacitados a enfrentá-lo e a buscar-Te. Pedimos isso em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.