Gostaria de ler algumas passagens da Bíblia nesta manhã. Primeiro, Gênesis 35:9-15.
E apareceu Deus outra vez a Jacó, quando veio de Padã-Arã, e o abençoou.
E disse-lhe Deus: O teu nome é Jacó; não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel será o teu nome; e chamou o seu nome Israel.
Disse-lhe mais Deus: Eu sou o Deus Todo-Poderoso; frutifica e multiplica-te; uma nação e uma multidão de nações sairão de ti, e reis procederão dos teus lombos;
E a terra que dei a Abraão e a Isaque, a ti a darei, e à tua descendência depois de ti darei a terra.
E Deus subiu de junto dele, do lugar onde falara com ele.
E Jacó levantou uma coluna no lugar onde Deus falara com ele, uma coluna de pedra; e derramou sobre ela uma libação e deitou sobre ela azeite.
E chamou Jacó o nome daquele lugar, onde Deus falara com ele, Betel.
Agora, vamos ler Deuteronômio 28:1-14.
E será que, se ouvires diligentemente a voz do Senhor, teu Deus, tendo cuidado de guardar todos os Seus mandamentos que hoje te ordeno, o Senhor, teu Deus, te exaltará sobre todas as nações da terra;
E todas estas bênçãos virão sobre ti e te alcançarão, se ouvires a voz do Senhor, teu Deus.
Bendito serás na cidade, e bendito serás no campo.
Bendito será o fruto do teu ventre, e o fruto da tua terra, e o fruto dos teus animais, as crias das tuas vacas e das tuas ovelhas.
Bendito será o teu cesto e a tua amassadeira.
Bendito serás ao entrares, e bendito serás ao saíres.
O Senhor fará que os teus inimigos, que se levantarem contra ti, sejam feridos diante de ti; por um caminho sairão contra ti, mas por sete caminhos fugirão diante de ti.
O Senhor ordenará que a bênção esteja contigo nos teus celeiros e em tudo aquilo em que puseres a tua mão; e te abençoará na terra que o Senhor, teu Deus, te dá.
O Senhor te estabelecerá para Si como povo santo, como te jurou, se guardares os mandamentos do Senhor, teu Deus, e andares nos Seus caminhos.
E todos os povos da terra verão que és chamado pelo nome do Senhor, e terão temor de ti.
E o Senhor te fará abundar em bens, no fruto do teu ventre, no fruto dos teus animais e no fruto da tua terra, na terra que o Senhor jurou a teus pais que te daria.
O Senhor te abrirá o Seu bom tesouro, os céus, para dar chuva à tua terra no seu tempo e para abençoar toda a obra das tuas mãos; e emprestarás a muitas nações, mas não tomarás emprestado.
E o Senhor te porá por cabeça, e não por cauda; e estarás somente por cima, e não por baixo, se ouvires os mandamentos do Senhor, teu Deus, que hoje te ordeno, para os guardar e cumprir;
E não te desviares de nenhuma das palavras que hoje te ordeno, nem para a direita nem para a esquerda, para seguires outros deuses e os servires.
Agora, no Novo Testamento, Hebreus 11:21:
Pela fé, Jacó, quando estava para morrer, abençoou cada um dos filhos de José e adorou, apoiado sobre a extremidade do seu bordão.
E uma última frase em Isaías 33:23:
As tuas cordas estão frouxas; não puderam firmar a base do seu mastro, nem estender a vela; então se repartiu a presa de abundantes despojos; os coxos tomaram a presa.
Vamos orar? Senhor, estamos aqui na Tua presença. Temos adorado a Ti e aberto nossos corações a Ti em louvor e amor, e Te agradecemos pela Tua presença em nosso meio.
E agora, Senhor, ao nos achegarmos a Ti, pedimos, quanto à Tua Palavra, que a tornes viva para nós nesta última reunião da conferência. Querido Senhor, não nos apoiamos em nada do que fizeste ou disseste nos dias anteriores. Achegamo-nos a Ti de novo, ó Senhor.
Agradecemos porque tens uma nova unção para este momento, para o ministério da Tua Palavra. Pela fé, nos colocamos debaixo dessa unção, Senhor, não apenas para falar, mas também para ouvir; para que faças a Tua Palavra chegar a nós de maneira tão direta, com tanta vitalidade, com uma qualidade tão viva, que saibamos, Senhor, que és Tu mesmo.
Pedimos, ó Senhor, que, ao nos reunirmos assim pela última vez nesta conferência deste ano, faças chegar aos nossos corações aquela Palavra que é viva, eficaz e mais cortante do que uma espada de dois gumes; aquela Palavra, Senhor, que realiza o Teu propósito a nosso respeito; aquela Palavra, Senhor, que cria em nós a capacidade de realmente Te servir e de ser o que devemos ser em nosso Senhor Jesus.
Agora, Pai, entregamo-nos a Ti, porque somos todos tão fracos, tanto no falar como no ouvir. Sabemos, ó Senhor, que não podemos confiar em nossos dons ou recursos naturais. Achegamo-nos a Ti, ó Senhor, e esperamos de Ti que o poder do Espírito Santo se manifeste neste último momento juntos. Pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.
Nesta manhã, quero falar a vocês mais uma vez sobre Jacó. Falamos sobre o amor de Deus e Jacó. Falamos sobre o propósito de Deus e Jacó. Falamos sobre a face de Deus e Jacó. Nesta manhã, quero falar sobre Jacó, o vencedor.
A pequena frase que quero destacar hoje encontra-se em Isaías 33:23:
Os coxos tomaram a presa.
Que frase extraordinária!
Percebo que, em algumas versões modernas, por ela parecer tão incomum e estranha, tentaram traduzi-la de outras maneiras, para torná-la um pouco mais compreensível, um pouco mais racional, um pouco mais lógica. Mas, na verdade, ela significa exatamente o que diz: os coxos tomarão a presa.
Normalmente, não imaginamos alguém com uma deficiência física vencendo uma corrida. Não imaginamos alguém com o quadril deslocado finalmente conquistando o prêmio. Pensamos que qualquer pessoa que seja coxa, tenha uma deficiência física, um quadril deslocado ou alguma outra lesão no corpo é realmente incapaz de correr uma corrida, quanto mais de vencê-la. Não pensamos que ela vai conquistar o troféu, que vai conquistar o prêmio.
Mas, com Deus, as coisas são completamente diferentes. O maravilhoso a respeito de Jacó está nestas palavras:
Amei a Jacó.
E também nestas outras:
Para que o propósito de Deus, segundo a eleição, permanecesse firme.
Jacó era um vaso de misericórdia, de antemão preparado por Deus para a glória. Era um vaso no qual e por meio do qual Deus queria tornar conhecidas as riquezas da Sua glória. E, por isso, Deus faz coisas extraordinárias com esse homem.
Por fim, Ele o deixa coxo. Torna impossível que aquele homem volte a ser exatamente o mesmo. Sua força natural e espontânea, as tremendas forças de sua personalidade e de sua alma, as grandes e insondáveis profundezas de sua vontade própria — tudo isso foi atingido.
Daquele dia em diante, aquele homem ficou coxo. Desde o Jaboque, Jacó mancou até o dia em que morreu. A última imagem que temos de Jacó é a de um homem idoso que, ao morrer, inclina a cabeça e adora a Deus, apoiado sobre a extremidade do seu bordão.
Na verdade, o hebraico, em Gênesis, diz que ele se ergueu na cama. A ideia é que ele se agarrou à coluna da cama, ergueu-se, inclinou a cabeça e adorou a Deus. Seu quadril ainda estava deslocado.
Mas, quer tenha se apoiado em seu bordão, quer tenha se erguido na cama segurando sua coluna, permanece o fato de que a última imagem que temos dele na Bíblia é a de um homem a quem Deus havia deixado coxo, mas que era um vencedor.
Que maneira extraordinária de resumir a vida desse homem extraordinário! Não sei como vocês resumiriam sua vida ao ler toda a história de Jacó. Talvez dissessem: “Pela fé, Jacó tornou-se Israel”. Talvez dissessem: “Pela fé, Jacó foi um grande homem de Deus”. Pela fé, Jacó tornou-se um homem que tinha poder com Deus e com os homens.
Mas a maneira como a Bíblia resume sua vida, como o Espírito Santo a expressa em palavras humanas, é esta:
Pela fé, Jacó, quando estava para morrer…
É, por assim dizer, a última palavra sobre Jacó:
Quando estava para morrer, abençoou os dois filhos de José e adorou, apoiado sobre o seu bordão.
Deus havia feito algo tão profundo, tão radical, tão completo, tão marcado pela graça, tão revelador da fidelidade de Deus, que esse homem, que roubava a bênção dos outros, abençoou outras pessoas e se tornou uma bênção para elas.
Esse homem era um negociador, alguém que nunca conseguia olhar para uma situação sem imediatamente perceber o que poderia obter dela; um homem que não conseguia olhar para um relacionamento sem calcular como poderia prosperar por meio dele, como aquele relacionamento serviria aos seus interesses, como melhor o favoreceria e promoveria sua ambição. Esse homem era um negociador do princípio ao fim.
Esse homem tinha uma percepção tão aguçada para os negócios, tamanha inteligência, que não conseguia se conter. Queria manipular até mesmo Deus, quanto mais seu irmão gêmeo, seu pai idoso, seu tio Labão, suas esposas e todos os demais.
Assim que Deus lhe apareceu, ele disse: “Agora, escuta”. Quase no mesmo fôlego em que dizia:
Quão terrível é este lugar! Este não é outro lugar senão a casa de Deus; e esta é a porta dos céus.
Ele também dizia: “Agora, Senhor, escuta. Se me alimentares e me vestires, me guardares em segurança e me trouxeres de volta a este lugar e à casa de meu pai em paz, então serás o meu Deus”.
“E farei desta coluna, que ungi, a Tua casa; e, de tudo o que me deres, darei a Ti a décima parte.” Ele não conseguia se conter. Era um negociador.
A última imagem que temos desse homem é a de um adorador. Agora, ouçam-me com atenção. Todos vocês que não conseguem abrir a boca e realmente adorar ao Senhor, ou mesmo adorar ao Senhor no silêncio do próprio coração: a razão pela qual não conseguem adorar ao Senhor é que não conseguem se esquecer de si mesmos.
Ninguém que esteja tão consciente de si mesmo pode se tornar um adorador. Enquanto você estiver no centro de tudo, enquanto ocupar todo o seu campo de visão, não poderá adorar. Você está cheio demais de suas dores, seus sofrimentos, seus problemas, suas circunstâncias, seu marido, sua esposa, seus filhos, seus pais, seu chefe, seus funcionários, os negócios, sua carreira. É tudo você, você, você.
Talvez sejam os irmãos e as irmãs. “Ah, não consigo adorar. Eles são um grupo tão fraco. Já estou com eles há uns dois anos. Quando cheguei, achei que eram maravilhosos. Agora, realmente sinto que aquilo que Lance disse sobre a transformação de Jacó em Israel é tão necessário para todas essas pessoas.”
Assim, não conseguimos adorar porque tudo o que enxergamos é o Jacó uns nos outros. Não nos propomos a conhecer Jesus Cristo uns nos outros, e Ele crucificado. Vemos apenas os defeitos, as falhas, aquilo que precisa ser feito; às vezes, ficamos horrorizados com isso e não conseguimos adorar.
Um adorador é alguém em quem Deus realizou uma obra tão profunda que essa pessoa se perde em Deus, sai de si mesma para entrar em Deus. Está livre de si mesma, livre daquilo que é, embora conheça a si mesma. É capaz de sair de si em adoração.
A última imagem que temos desse homem é a de um adorador. Esse homem não era naturalmente um adorador; isso não fazia parte de seu caráter nem de sua personalidade. Mas a última imagem que temos de Jacó é que Deus realizou uma obra tão profunda que Jacó já não está consciente de Jacó. Está consciente apenas de Deus. Está consciente apenas dos outros.
A última palavra da Bíblia sobre esse homem diz respeito inteiramente aos outros — os filhos de José — e a Deus. Isso, sim, é um vencedor.
Vencer não é ocupar alguma grande posição aqui na terra, ser apóstolo, profeta, presbítero, diácono ou exercer algum outro grande ministério. Dizemos: “Ah, olhe para fulano. Deve ser isso que significa vencer”.
Anos atrás, quando estávamos de férias na Escócia, perguntei certa vez ao senhor Sparks — de alguma maneira, o assunto de vencer havia surgido: “O que é vencer?”. Ele olhou para mim por um momento e depois disse, de um jeito que não consigo imitar e que só o senhor Sparks poderia ter: “Vencer? Vencer é você ainda estar na corrida quando chegar o fim”.
Nunca me esqueci disso. Vejam, há muitos que começam a corrida, mas não a terminam. Há muitos que iniciam o percurso, mas não permanecem nele.
Vencer é descobrir de tal maneira a graça de Deus e o poder de Deus colocados à nossa disposição que permanecemos no caminho apesar de nossas falhas, nossas fraquezas e até mesmo nossos pecados, e finalmente chegamos ao ponto em que já não somos Jacó, mas Israel. Isso é vencer.
Essa questão de vencer é tremendamente importante para o Senhor. Sabem, o Senhor está procurando candidatos para o governo eterno.
Vocês não devem pensar que, só porque compreendem o que é a igreja, isso significa que são vencedores; nem que, só porque pertencem a um grupo no qual toda a verdade acerca dos vencedores é compreendida, isso significa que são vencedores. Não existe vitória de segunda mão.
Você não pode vencer simplesmente por estar ligado a outras pessoas e se esconder à sombra delas. Você mesmo precisa seguir o Senhor.
O Senhor ordenará de tal maneira os relacionamentos, as circunstâncias e as situações da sua vida que você mesmo terá de descobrir o Deus da eleição. Terá de descobrir o Deus da fidelidade. Terá de descobrir o Deus da provisão.
Você terá de descobrir por si mesmo a graça que Deus colocou à sua disposição pessoalmente e o poder que Deus colocou à sua disposição pessoalmente. Terá de chegar ao seu próprio Jaboque, onde, por meio da obra da cruz, Deus, com Seu dedo, deslocará seu quadril espiritual e o paralisará no próprio centro de sua força.
Então você conhecerá o Espírito Santo sobre você e em você, começando a realizar a obra para a qual Deus o chamou.
Jacó, o vencedor. Que coisa maravilhosa é termos sido chamados para reinar com Deus!
Não são muitos os que chegam ao trono. Há um “se” nessa questão:
Se sofrermos com Ele, também com Ele reinaremos.
Por que há um “se” aí? Porque essa questão de reinar não é apenas uma questão de ser convertido, não é apenas uma questão de ser perdoado, nem sequer apenas uma questão de ser justificado. Essas coisas são fundamentais.
Mas essa questão de reinar envolve uma história e uma experiência espirituais profundas, interiores e pessoais. Deus não levará ao Seu trono ninguém que não tenha uma profunda história oculta com Ele e uma profunda experiência espiritual interior do próprio Deus.
Até mesmo nosso Senhor Jesus aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu. Foi aperfeiçoado — isto é, tornado completo — por meio dos sofrimentos, mesmo Ele, que não conheceu pecado.
Ele chegou à maturidade. Chegou à experiência. Chegou ao trono, qualificado para o trono pelas coisas pelas quais Ele mesmo passou como homem.
E, se alguém deseja chegar ao trono, devemos nos lembrar das palavras do Cabeça ressurreto da Igreja, em Apocalipse 3:21:
Ao que vencer, conceder-lhe-ei que se assente comigo no Meu trono; assim como Eu venci e Me assentei com Meu Pai no Seu trono.
Temos de seguir os passos do Mestre. O propósito de Deus para Jacó era que ele não estivesse por baixo, mas por cima; que não fosse a cauda, mas a cabeça.
O propósito de Deus para Jacó e sua descendência — o povo que sairia dele — era que não ficassem à mercê das nações pagãs, à mercê dos poderes das trevas ou à mercê das circunstâncias do mundo. Eles deveriam determinar o rumo dessas circunstâncias. Deveriam estar acima delas. Deveriam reinar com Deus. Deveriam estar no trono com Deus.
Deveriam conhecer a vontade de Deus e ser instrumentos para a realização da vontade de Deus. Esse era o propósito de Deus para Jacó.
Bem poderíamos perguntar: por que, então, Deus escolheu Jacó? Um homem tão diferente, tão distante disso, tão contrário a tudo isso. Deus escolheu Jacó porque o amava e porque faria nele uma obra tão profunda que esse homem, que estava longe de ser alguém que reinava com Deus, longe de ser alguém que conhecia os caminhos de Deus e andava neles, chegaria, pela obra do Espírito Santo e da cruz, ao ponto de reinar com Deus.
Ele se tornaria um príncipe com Deus, um homem com poder com Deus e com os homens.
O querido Jacó certamente não era a cabeça. Era a cauda. Era escravo de suas próprias paixões, escravo das circunstâncias, escravo dos outros, se vocês entendem o que estou tentando dizer.
Por causa disso, tinha de manipulá-los. Não conseguia confiar em Deus. Não conseguia esperar por Deus. Não conseguia dizer: “Bem, Senhor, Tu deste a Tua Palavra:
O mais velho servirá ao mais novo.
Posso confiar em Ti para realizar isso. Vou me colocar à Tua disposição. Vou andar Contigo. Vou permitir que faças em mim o que desejas fazer”.
Ele tinha de manipular aquilo. Tinha de produzir o resultado. Tinha de fazer a coisa sair do papel. Tinha de organizá-la. Essa era a natureza de Jacó.
O caminho de Jacó não foi só glória. Mesmo depois de se tornar Israel, como mencionei ontem à noite, ele sepultou sua amada Raquel, a grande luz de sua vida.
Seus filhos foram uma fonte constante de preocupação durante todo o percurso. Todas as rivalidades, os ciúmes e o lado sombrio de tudo aquilo — a depravação que se manifestou neles. Ah, o caminho de Jacó não foi um mar de rosas.
Às vezes pensamos: “Ah, se eu pudesse ter uma experiência real com o Senhor, se pudesse ter o meu Peniel, se pudesse ver a face de Deus e Ele me transformasse, então tudo seria maravilhoso. Eu seguiria flutuando: poder, poder! Simplesmente estremeceria com o poder de Deus. As pessoas veriam o poder de Deus em mim”.
Não. Talvez você sepulte uma Raquel. Talvez encontre um Rúben que o comprometa nos relacionamentos mais íntimos de sua vida. Talvez encontre um Simeão e um Levi que destruam sua reputação. Talvez tenha uma Diná — e que moça era aquela! Ela manifestou uma boa porção do caráter de seu pai, Jacó. Talvez seu José seja arrancado de você e vendido como escravo.
Não, esse homem tornou-se Israel, mas seus sofrimentos não terminaram. Em certo sentido, começaram.
Antes, na força de sua própria vida, ele teria endurecido a si mesmo contra tudo aquilo, de alguma maneira teria manipulado tudo e tentado tirar algum proveito. Agora, porém, porque andava com Deus, era infinitamente mais sensível. A menor coisa trazia dor ao seu coração.
Creio que Jacó aprendeu algo sobre as dores de parto naqueles anos seguintes. Aprendeu o que era enxergar a si mesmo nos outros e saber que somente Deus poderia tocá-los.
Não podia participar dos pecados deles nem se associar a eles nessas coisas. Também sabia o que ele próprio havia sido e, em certo sentido, não podia simplesmente condená-los de imediato. Sabia que eles também precisavam chegar ao seu Jaboque.
Essa questão de reinar com Deus não é nada fácil. Jacó pode ter sofrido depois de sua experiência em Peniel, mas era um homem diferente.
Em algum lugar, no próprio centro do seu ser, a cruz havia tocado sua alma. Isso não significa que ele não tivesse alma, mas significa que sua vida própria estava deslocada. Daí em diante, ela mancaria para sempre.
Muitas, muitas pessoas de Deus — e digo isso a mim mesmo — têm almas tão fortes que seus espíritos mancam.
Somente a cruz pode realizar uma obra tão profunda em nossa alma que ela continue sendo nossa alma, mas manque, enquanto nosso espírito reina. Então, pela primeira vez, Deus começa a ter liberdade para fazer a Sua vontade.
Ah, que palavra maravilhosa encontramos em Efésios 2:5-6, aqueles versículos que conhecemos tão bem:
Estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo — pela graça sois salvos;
E nos ressuscitou juntamente com Ele, e nos fez assentar com Ele nos lugares celestiais, em Cristo Jesus.
Que palavra maravilhosa! Sabemos que fomos vivificados, se realmente nascemos de novo. Sabemos que fomos vivificados. Penso que podemos dar um passo além: muitos de nós dizem que sabem que foram ressuscitados com Ele. Louvado seja Deus por isso.
Sabemos o que é ser ressuscitados com Ele, fazer parte de uma nova criação, de um novo homem, fazer parte da casa de Deus. Mas, ah, se pudéssemos conhecer o que é ser levados a nos assentar com Ele nos lugares celestiais — isso é reinar.
Creio que já lhes contei isso: anos atrás, havia um servo do Senhor muito conhecido que mantinha um lema em seu escritório. Estava entalhado em madeira, acima da lareira: “Olhe para baixo”.
Aquilo sempre provocava a mesma reação em todo cristão que tivesse um pouco de conhecimento e entrasse em seu escritório. Olhavam para o lema e diziam: “Olhe para baixo? Não deveria ser ‘Olhe para cima’?”. E ele respondia: “Depende da sua posição”.
Se você está embaixo, olhe para cima. Mas, se está assentado com Cristo nos lugares celestiais, olhe para baixo. Olhe para baixo. Veja tudo a partir da posição de quem está assentado com Cristo, de quem está junto com Cristo, de quem reina com Cristo.
Jacó era um homem diferente. A face de Deus havia brilhado sobre ele e deixado sua marca. A marca era uma alma que mancava.
Isso não significa que nunca mais houvesse poesia na alma de Jacó, nem música, nem apreciação da beleza, nem calor em sua personalidade. Vamos deixar isso claro, para que não haja mal-entendido.
Há um tipo de ensino que deprecia tanto o lugar da alma na vida do crente que nos tornamos máquinas espirituais. Não temos alma. Não podemos chorar. Não podemos ser calorosos. Não podemos ser espontâneos, porque supostamente não deveríamos ser.
Meu querido amigo, não é isso que significa ser um homem espiritual. Ser um homem espiritual significa simplesmente isto: seu espírito, em união com Cristo, está sendo governado pelo Espírito de Deus, de modo que sua alma fica sob o governo do Espírito de Deus em seu espírito.
Isso é um homem espiritual. Portanto, seja tão caloroso quanto quiser, tão poético quanto quiser, e tenha tanta apreciação da beleza quanto quiser. Mas que tudo esteja sob o governo do Senhor. Deixe que Ele o contenha.
Que haja em você, por meio da cruz, um conhecimento interior: “Não posso ir mais longe nisso. Não posso ultrapassar este ponto nessa questão. Há um limite”. Seu quadril está deslocado.
Essa cirurgia, essa cirurgia espiritual, somente o Espírito de Deus pode realizá-la, e Ele a realiza por meio da Palavra de Deus. Hebreus 4:12 diz:
Porque a palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes; e penetra até à divisão da alma e do espírito, das juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e as intenções do coração.
O que isso significa? Significa que, quando Deus, por meio da cruz e pelo Seu Espírito, começa a realizar em nós uma obra tão profunda que somos espiritualmente deslocados, há uma divisão entre o espírito e a alma. Sabemos o que somos em nós mesmos e sabemos o que o Senhor é em nós.
Chegar a esse ponto é algo tremendo. Não tenho dúvida alguma de que esse é o início da vitória.
Você não pode vencer se não souber o que é, se não souber o que tem em si mesmo, porque sempre haverá uma área de engano. Sempre poderá haver mistura. Sempre você poderá ser enganado.
Mas, quando o Senhor começa a realizar essa obra, você sabe o que é e sabe o que o Senhor é em você. Sabe o que significa santificar o Senhor, seu Deus, em seu coração.
Israel: reinando com Deus. Vencer não é fácil. Não podemos chegar ao trono de Deus senão por meio do nosso próprio Calvário e Pentecostes.
Algumas pessoas chegaram ao Calvário, mas não chegaram ao Pentecostes. Algumas tentaram chegar ao Pentecostes, contornando o Calvário. Você não pode ser um vencedor a menos que chegue, pessoalmente, à sua própria experiência tanto do Calvário como do Pentecostes.
Não é maravilhosa esta frase?
Os coxos tomam a presa.
Não consigo pensar em nada mais maravilhoso.
Eu teria imaginado que, se o Senhor deslocasse meu quadril, diria: “Bem, acabou”. Muitos crentes são assim. Dizem algo como: “Ah, eu vi a mim mesmo. Eu vi a mim mesmo. Não, não posso fazer nada”. Depois dizem: “Não eu, mas Cristo. Não eu, mas Cristo. Não eu, mas Cristo”.
É claro que isso é verdade. Mas o apóstolo Paulo disse:
Estou crucificado com Cristo; todavia, vivo.
Mas já não eu — o que ele diz? “Estou crucificado com Cristo.” Muito bem, isso significa que não há mais Paulo. “Todavia, vivo.” Ah, Paulo voltou!
“Mas eu vivo.” Ah, ele voltou:
Pela fé no Filho de Deus, o Qual me amou e Se entregou a Si mesmo por mim.
Quando alguém diz: “Ah, eu vi a mim mesmo. Realmente vi o Senhor e vi a mim mesmo. Não pode mais ser eu. Não mais eu”, então vamos como que desaparecendo. Sentamos na última fileira. Ficamos na sombra, de lado.
Se alguém nos pede para tocar: “Não, não, não, não, não, não, não. Não eu, não eu”. Como se Cristo pudesse vir aqui e tocar o violão! Será que Cristo, por Si mesmo, foi até o piano e tocou?
Meu querido amigo, você precisa desenvolver a sua própria salvação com temor e tremor, pois é Deus Quem opera em você tanto o querer como o realizar, segundo a Sua boa vontade. É claro que não é você; é Cristo, e, no entanto, é você. Sim, mas é Cristo em você.
Então você chega ao ponto de dizer: “Não posso fazer nada. Não presto. Fui crucificado com Cristo”. Não fique simplesmente sentado num estado mórbido, passivo e quieto, dizendo: “Ah, como Jacó, cheguei ao meu Jaboque. Não presto”.
“Até agora, tenho sido o poder e a energia da minha vida cristã. Tenho sido a fonte de tudo na comunhão da qual faço parte. Ah, meu Deus, não mais eu, não mais eu.” Daqui a alguns anos, ainda será apenas você.
Sim, porque esse “não mais eu” é outra expressão de você mesmo.
O que queremos são pessoas que digam, como em Gálatas 2:20:
Todavia, vivo; já não eu, mas Cristo vive em mim;
E a vida que agora vivo, vivo pela fé no Filho de Deus, o Qual me amou e Se entregou a Si mesmo por mim.
Assim, quando lhe pedirem para tocar violão, você virá. Sabe muito bem que não quer que seja o seu eu a vir, mas o Senhor tomará aquelas mãos e as usará. Ele toca o piano por meio de suas mãos. Usará seus lábios para falar.
Alguns de nós podem falar, e somos apenas nós. Também podemos falar, e é o Senhor. Como ouvirão sem um pregador? A fé vem pelo ouvir, e o ouvir, pela palavra de Cristo. E a palavra de Cristo chega por meio daqueles que são enviados.
Como ouvirão sem um pregador? Será que diremos: “Não eu, não eu. Houve demais de mim no ministério da Palavra. Não falarei de novo. Vou me retirar completamente. Não farei mais nada. Tem de ser o Senhor. Tem de ser o Senhor. Jacó acabou”?
Não, você precisa avançar pela fé. Chegou àquele Jaboque pela fé. Agora precisa andar com Deus pela fé.
Agora você tem de fazer todas as coisas que fazia antes, só que sabe muito bem que de nada adiantam se o Senhor não for o centro, a fonte e a energia de tudo.
Porque é Deus Quem opera. Se você não desenvolver a sua salvação, Deus não operará em você. Mas, quando você, pela fé, desenvolver a sua salvação, Deus operará em você tanto o querer como o realizar.
Ah, isso não deixa muita coisa para nós, em certo sentido, deixa? Se Ele está em nós tanto para o querer como para o realizar, segundo a Sua boa vontade, que paradoxo é esse: alguém que manca vencendo! Os coxos tomam a presa.
Penso em outras passagens maravilhosas das Escrituras, provavelmente bem conhecidas de alguns de vocês. Vou apenas citá-las em relação a isso. Em 2 Coríntios 4:7-10:
Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus, e não de nós;
Em tudo somos atribulados, mas não angustiados; perplexos, mas não desesperados;
Perseguidos, mas não desamparados; abatidos, mas não destruídos;
Levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo.
Aqui está o paradoxo: um vaso de barro, um vaso de barro — a excelência do poder; um tesouro em um vaso de barro. Bem, normalmente não se coloca um tesouro num vaso de barro, não é?
Aqui vocês têm os coxos tomando a presa. Deus coloca o tesouro num vaso de barro para que se veja que a excelência do Seu poder vem de Deus, e não de nós mesmos.
O querido Jacó, desde Peniel, manifestava a excelência do poder de Deus, expressa como algo que já não vinha de Jacó, mas de Deus.
E quanto a este lado da questão? Atribulados de todos os lados, perplexos, perseguidos, abatidos. Não parece a descrição de um vencedor, parece?
Pensamos: “Ah, se realmente estamos avançando com o Senhor, especialmente se fomos ungidos pelo Espírito Santo, não somos pessoas perplexas. Sabemos tudo. O Senhor fala conosco. Ele nos ilumina. Não ficamos perplexos”. Mas o apóstolo Paulo diz: “Somos atribulados de todos os lados, perplexos, perseguidos, abatidos”.
Mas aqui está o outro lado: não angustiados, não desesperados, não desamparados, não destruídos.
Aqui está um lado: levando sempre no corpo o morrer de Jesus. Esse é o quadril deslocado. Aqui está o outro lado: para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo. Isso é Israel.
Como é maravilhoso, então, quando começamos a compreender essas coisas! Em 2 Coríntios 12:9, Deus me disse:
A Minha graça te basta; porque o Meu poder se aperfeiçoa na fraqueza.
Não pensamos no poder e na fraqueza como coisas necessárias uma à outra. No entanto, Deus diz que Seu poder não pode ser aperfeiçoado senão na fraqueza. É o quadril deslocado.
Somente quando Jacó conhece a face de Deus e o dedo de Deus que o desloca, quando sua força natural é quebrada, é que o poder de Deus passa a habitar sobre ele.
Por isso, o apóstolo Paulo diz:
De boa vontade, pois, me gloriarei antes nas minhas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.
Que palavra tão bela! O poder de Cristo não me visitando, o poder de Cristo não apenas me usando, mas fazendo de mim Sua habitação — a tenda de Deus sendo armada em minha vida, o poder de Deus habitando sobre mim, repousando sobre mim. Ah, que experiência!
Vocês começam a perceber algo desse deslocamento? Encontram isso de outra maneira se voltarem a João 12:24-26:
Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo não cair na terra e não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto.
Quem ama a sua vida a perde; e quem odeia a sua vida neste mundo a conservará para a vida eterna.
Se alguém Me serve, siga-Me; e, onde Eu estou, ali estará também o Meu servo; se alguém Me servir, o Pai o honrará.
Essa honra não é apenas respeito. Significa que Ele o honrará com uma posição no governo.
Como, então, alguém chega a ser honrado por Deus, a ocupar uma posição no trono de Deus? Caindo na terra e morrendo.
Jacó era um grão inteiro. Havia qualidades em Jacó que eram muito belas, muito atraentes. Havia qualidades em Jacó que eram muito feias, muito desagradáveis.
Mas somente quando aquele grão inteiro que era Jacó caiu na terra, e o aperto tenaz de sua vontade soltou sua vida própria, e ela caiu na terra e morreu, é que ele produziu muito fruto.
É interessante que, ao continuar, Ele diz:
Quem ama a sua vida…
E a palavra no grego é, na verdade, alma:
Quem ama a sua alma a perderá.
E quem perde a sua alma, ou odeia a sua alma neste mundo, a conservará para a vida eterna.
Há um ensino — com o qual eu, pessoalmente, não concordo — que começou com um irmão chamado Philip Mauro, em Nova York, muitos anos atrás, no fim do século passado: que nossa alma deveria ser totalmente destruída; que, sendo nossa alma aniquilada, por assim dizer, pela cruz, receberíamos essa alma de volta na vida futura.
Não estou de modo algum convencido de que isso esteja certo. O que tenho observado é o seguinte: quando pessoas que têm no mais profundo do seu ser o instinto de se preservar, de se proteger, de se realizar chegam à cruz e, de repente, se deparam com uma alternativa radical — ou você permanece intacto, ou você se entrega —, tenho observado que, para aqueles que entregaram sua alma, ela volta.
Mas volta de uma maneira diferente. São pessoas tão calorosas, tão amorosas, tão espontâneas. São pessoas tão originais.
As mãos pegajosas de sua vontade própria e de seu interesse próprio soltaram o controle, e Deus trouxe sua alma para a vida eterna. É assim que vejo isso.
Em outras palavras, é um quadril deslocado. É uma alma deslocada, mas a vida eterna continua brilhando através dela. O espírito ocupa o lugar de governo.
Agora, precisamos… Eu poderia dizer muito sobre isso, mas, evidentemente, nosso tempo já acabou. Essa questão de os coxos tomarem a presa: ah, se pudéssemos conversar um pouco sobre as armas da nossa guerra!
Precisamos tomar a presa, vocês sabem disso, não sabem? Tenho certeza de que sabem. Não importa onde nos reunimos, em qualquer lugar, devemos ser um povo que toma a presa para Deus.
Há cativos. Às vezes, são situações que estão cativas a Satanás, aos poderes das trevas. Às vezes, há vidas escravizadas pelos poderes das trevas. Às vezes, há situações dentro de nossas famílias, em nossos lares, em nossa vida juntos como igreja de Deus, que estão presas por Satanás. Precisamos resgatá-las como presa.
O problema é que as armas da nossa guerra muitas vezes são armas da carne. Está escrito em 2 Coríntios 10:3-4:
As armas da nossa guerra não são carnais, mas poderosas diante de Deus para a destruição de fortalezas.
Essa questão de vencer não é apenas algo para a eternidade; é algo que precisamos aprender agora. Precisamos aprender, não apenas individualmente, mas juntos, a usar aquelas armas que são poderosas por meio de Deus para a destruição de fortalezas.
Precisamos aprender a vestir toda a armadura de Deus para que, nessa luta contra principados, contra potestades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as hostes de espíritos malignos nos lugares celestiais, possamos permanecer firmes por Deus e com Deus até que a presa seja libertada da mão do poderoso.
Querido povo de Deus, Manfred nos falou sobre a casa de Deus, a igreja de Deus, e sobre aquelas palavras maravilhosas:
Edificarei a Minha igreja.
Nosso irmão Stephen nos falou sobre o reino, sobre o Rei, os filhos e o caráter.
O que precisamos ouvir são estas palavras, em Mateus 16:19:
Eu te darei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra terá sido ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.
Desculpem-me, estou citando incorretamente. As chaves do reino. Tivemos uma pequena experiência com chaves nesta manhã. Chaves são coisas tão importantes. Podem desorganizar tudo.
A vida do povo de Deus fica totalmente desorganizada quando se perdem as chaves. Ficamos do lado de fora de coisas nas quais deveríamos estar, e não conseguimos sair de certas situações nas quais estamos trancados. Precisamos de chaves.
As chaves são essenciais porque representam a autoridade do Senhor. Mas somente aqueles que conhecem algo sobre vencer podem usar essas chaves. Não se trata de você ser perfeito. Trata-se de a graça de Deus estar com você, de o poder de Deus estar sobre você e de você estar aprendendo a fazer a vontade de Deus.
Você está aprendendo a discernir qual é o pensamento de Deus em determinada situação e, então, a cooperar com Deus no lugar secreto, para que aquela vontade de Deus seja feita.
Há cativos do inimigo, presas que os poderes das trevas não têm o direito de reter e que precisam ser libertadas. Penso naquelas palavras maravilhosas de Isaías 49:24-25:
Tirar-se-ia a presa ao poderoso? Ou seriam libertados os que legitimamente estão cativos?
Mas assim diz o Senhor: Até os cativos do poderoso serão tirados, e a presa do terrível será libertada; porque Eu contenderei com o que contende contigo, e salvarei os teus filhos.
Os que legitimamente estão cativos — isto é, cativos que, por causa do pecado, da desobediência, da transgressão e da abominação, estão legitimamente sob o domínio dos poderes das trevas. Mas assim diz o Senhor: até os cativos do poderoso serão tirados, e a presa do terrível será libertada.
Ah, se pudéssemos enxergar algo disso! Há pessoas que estão cativas aos poderes das trevas. Essa presa precisa ser tomada. Mas são os coxos que tomam a presa.
Ah, que haja homens e mulheres que a cruz tenha feito mancar, fortalecidos e equipados pelo Espírito Santo, para que o propósito de Deus se cumpra!
Podemos falar e falar sobre todos esses aspectos maravilhosos da verdade, mas, enquanto não houver homens e mulheres sendo transformados de Jacó em Israel, não haverá possibilidade de a presa ser tomada. Precisamos de muitas pessoas que manquem.
Essa, creio eu, é a grande necessidade desta hora. Portanto, preciso encerrar.
Jacó tornou-se um adorador. Essa tomada da presa pelos coxos tem muito a ver com a adoração.
Esse combate contra os poderes das trevas — essa luta contra principados, contra potestades, contra os dominadores do mundo de trevas, contra as hostes de espíritos malignos nos lugares celestiais; essa destruição de fortalezas, de raciocínios e de toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus; esse levar cativo todo pensamento à obediência de Cristo — tem muito a ver com a adoração.
Não se trata apenas de algo pesado, como disparar salvas de artilharia. Tem muito a ver com a adoração. Jacó tornou-se um adorador, tão diferente do velho Jacó.
Não consigo deixar de sentir que esse é o problema de muitos de nós. Talvez não nos coloquemos inteiramente na categoria de Jacó, mas somos negociadores.
Dizemos: “Senhor, faz isto e aquilo, e eu farei isto e aquilo. Senhor, se ao menos me fizeres passar naquele exame, farei isto, aquilo e mais aquilo por Ti”.
Ou dizemos: “Senhor, agora faz isto, aquilo e mais aquilo, e eu serei isto, aquilo e mais aquilo”. Não conseguimos nos conter, e o Senhor sorri, assim como os pais às vezes sorriem diante das pequenas artimanhas dos filhos, que eles acham que ninguém consegue perceber, mas que a mãe e o pai enxergam perfeitamente.
O Pai celestial é exatamente assim. Não é que Ele aprove isso. Ele sabe que aquilo será transformado, mas sorri. Sim, Ele diz: “Jacó fará o acordo”. O que Jacó não sabe é que terá de passar por um Jaboque antes de voltar para lá.
Ele não fazia ideia. “Ah, agora tenho o Senhor do meu lado. Comida, roupas, segurança e uma volta em paz para ver meu pai idoso. Ah, que maravilha! E, é claro, preciso me lembrar de que vou construir uma casa para o Senhor. Essa é a minha parte, entende? E a décima parte de tudo.”
Na verdade, há algo interessante: depois disso, nunca mais lemos a respeito dessa décima parte. O que ele fez com ela? Talvez achasse que já estava fazendo tanto bem o tempo todo, sempre que surgia a questão de dar a décima parte. Não sei, mas é muito interessante que ele tenha dito que daria a décima parte e que nunca mais ouçamos falar dela.
Deus sabia que esse Seu Jacó, a quem amava tanto, voltaria àquele lugar vestido, alimentado, seguro, suprido, mas como um homem transformado.
Jacó não sabia disso. O Senhor sabia.
Sabem, todos nós somos assim como crentes. Ah, somos pessoas que roubam a bênção, não somos?
Quando penso em mim mesmo quando era jovem, em como costumava despejar todos os meus problemas sobre esta ou aquela pessoa, eu simplesmente achava que elas eram os crentes mais ingratos, sem amor e não crucificados que alguém já tinha visto, porque não conseguiam ouvir minhas aflições e meus problemas durante horas a fio.
Podiam estar desfrutando de um momento feliz em família, mas eu chegava e precisava lhes contar meu problema, explicar o que era, toda aquela história, sabem? Se não parassem e demonstrassem grande solidariedade e assim por diante, não valiam nada.
Eu estava sempre roubando a bênção deles. Não podiam ter um aniversário feliz, uma ocasião em família, alguma outra celebração ou qualquer tipo de encontro sem que eu aparecesse trazendo algum grande problema meu.
Agora, não acho que eu seja tão terrível quanto alguns, e provavelmente sou pior do que outros. Mas vocês não acham que todos nós somos assim antes de Deus realmente começar a tratar conosco? Roubamos a bênção.
Por um lado, estamos servindo ao Senhor; por outro, estamos destruindo tudo. Por um lado, estamos contribuindo para a vida da igreja; por outro, estamos destruindo a própria atmosfera em que ela vive.
Roubamos a bênção. Nem sempre fazemos isso matando um bezerro, cobrindo os braços e o pescoço com pele e, de alguma maneira, imitando a voz de Esaú; mas fazemos de outros modos. Continuamos roubando a bênção.
A graça de Deus é tão maravilhosa que esse Jacó, depois que Deus desloca seu quadril, torna-se uma bênção. Já não rouba bênçãos; torna-se uma bênção. Aonde quer que vá, ele abençoa.
Sabem, esse maravilhoso homem idoso, antes de morrer, havia se tornado uma bênção tão grande na terra do Egito que, quando finalmente morreu, milhares de egípcios saíram para lamentar sua morte.
Faraó enviou uma comitiva tão grande de egípcios, com todo o aparato oficial, que os moradores da região de Hebrom passaram a chamar aquele campo de Abel-Mizraim, o campo do Egito, dali em diante.
Antes, esse homem roubava as bênçãos das pessoas, mas agora havia se tornado uma bênção tão grande que, quando morreu, até mesmo os não salvos o reconheceram como alguém sobre quem a mão de Deus havia sido colocada e como alguém que estava no próprio centro da história divina.
Ah, querido povo de Deus, dissemos tanto sobre Jacó e essas outras questões. Todas estão relacionadas: a casa de Deus, o reino de Deus, o reinar com Deus. Mas, no centro de tudo isso, estamos você e eu.
Você é Jacó; eu sou Jacó. Você precisa se tornar Israel. Eu preciso me tornar Israel.
É uma imagem muito bela a que temos no fim do relato bíblico, não é? Vemos um vaso de misericórdia que Deus preparou de antemão para a glória, e, por meio dele, vemos as riquezas da graça e da glória de Deus.
Imagino Jacó, um homem idoso, de cabelos brancos, com 147 anos, pele enrugada, cabelos brancos, mas radiante com a glória de Deus.
Vejo em seus olhos o sofrimento que marcou aquilo que ele chamou de “os anos da minha peregrinação”, que não foram como os de seu pai, mas poucos — querendo dizer, é claro, que não viveu até a idade avançada de seu pai e de seu avô. Ele os chamou de anos de sua tristeza. Isso está em seus olhos.
Mas o engano se foi. A energia de suplantar os outros se foi. O que está ali é a graça de Deus, a beleza de Deus e o amor de Deus. Essa é a última imagem que temos desse homem.
Enquanto está morrendo, ele abençoa aqueles dois filhos de José e adora, apoiado em seu bordão.
Queridos, é a esse ponto que Deus precisa levar você e eu. Se, no fim, somos adoradores; se, no fim, somos uma bênção para os outros; se, no fim, nos tornamos frutíferos; se, no fim, possuímos a terra que Deus nos deu; se nos tornamos príncipes com Deus e com os homens — é por causa do Seu amor. Ele nunca nos deixou nem nos abandonou.
Essa é a chave para compreender Jacó. Quando ouvimos aquelas palavras do salmista:
O Senhor dos Exércitos está conosco.
Compreendemos: Deus tem um propósito a cumprir. Deus tem uma obra a realizar. Deus tem uma vontade que precisa ser feita, um reino que precisa vir, e o Senhor dos exércitos dos céus está conosco.
O Deus de Jacó é o nosso refúgio.
Vamos orar?
Pai, pedimos juntos que tornes a Tua Palavra uma realidade viva em nossas vidas. Não creio, Senhor, que haja alguém aqui que não queira ser um vencedor. Ansiamos, Senhor, por ser aqueles que, somente pela Tua graça, vencerão e herdarão o trono.
Pai, tanto foi dito nesta semana sobre a igreja de Deus, sobre o reino de Deus e sobre Jacó. Senhor, vela sobre a Tua Palavra para a cumprir, nós Te pedimos. Concede, ó Senhor, que esta Palavra se torne carne e sangue.
Concede, Senhor, que nos tornemos verdadeiramente, não apenas no nome, mas no caráter e no poder, o Israel de Deus. Concede, Senhor, nós Te pedimos, que nos tornemos uma bênção; que sejamos príncipes Contigo e com os homens; que nós, Senhor, nos tornemos um povo — que um venha a ser mil, e o menor, uma nação forte.
Concede, ó Senhor, que possuamos tudo o que é nosso. Concede essas coisas, ó Senhor, nós Te pedimos. E as pedimos em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.