Vamos abrir o livro de Gênesis, Gênesis 32. Leremos a partir de Gênesis 32:22.
E levantou-se Jacó naquela noite, e tomou suas duas mulheres, e suas duas servas, e seus onze filhos, e passou o vau de Jaboque.
E tomou-os, e fê-los passar o ribeiro; e fez passar tudo o que tinha.
Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem até o romper do dia.
E, vendo Ele que não prevalecia contra Jacó, tocou-lhe a articulação da coxa; e deslocou-se a articulação da coxa de Jacó, enquanto lutava com Ele.
E disse Ele: “Deixa-Me ir, porque já rompe o dia.” Porém ele disse: “Não Te deixarei ir, se não me abençoares.”
E Ele lhe disse: “Qual é o teu nome?” E ele disse: “Jacó.”
E disse Ele: “Não se chamará mais o teu nome Jacó, mas Israel: pois lutaste com Deus e com os homens, e prevaleceste.”
E Jacó Lhe perguntou, dizendo: “Dize-me, peço-Te, o Teu nome.” E Ele disse: “Por que perguntas pelo Meu nome?” E o abençoou ali.
E chamou Jacó o nome daquele lugar Peniel: pois, disse ele, “Vi Deus face a face, e a minha vida foi preservada.”
E nasceu-lhe o sol, quando passou por Penuel; e ele manquejava da coxa.
Por isso os filhos de Israel não comem, até o dia de hoje, o tendão do quadril que está sobre a articulação da coxa, porque Ele tocou a articulação da coxa de Jacó no tendão do quadril.
Vamos inclinar a cabeça e orar juntos?
Pai, queremos simplesmente agradecer-Te por estarmos aqui, na Tua presença, nesta noite. Agradecemos-Te pela comunhão de que já desfrutamos. Nós Te adoramos e recebemos de Ti por meio dos cânticos e do louvor; agora, Senhor, entregamos a Ti a Tua Palavra.
Oramos, Senhor, para que concedas que o ministério da Tua Palavra esteja sob a unção do Teu Espírito Santo. Sob essa unção nos colocamos, Senhor, tanto quem fala quanto quem ouve. Oramos, Senhor, para que o meu falar e o nosso ouvir não dependam de recursos naturais, talento ou capacidade, mas venham pela capacitação divina do Teu Espírito Santo.
Pois então, Senhor, sabemos que cumprirás o Teu propósito neste tempo, glorificarás o Senhor Jesus e farás com que a Sua Palavra habite ricamente em nós. Querido Senhor, entregamo-nos a Ti, para que deste tempo, nesta noite, venham consequências e resultados eternos.
Traz um espírito de quietude, especialmente sobre os pequeninos, Senhor, nós Te pedimos. Concede que, a sós Contigo, possamos ver-Te com os olhos do nosso coração. Isso pedimos em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.
Nas ocasiões em que tenho sido responsável pela ministração, tenho considerado a vida de Jacó. É claro que tenho dito repetidamente que não há personagem ou personalidade bíblica que tenha exercido maior influência sobre tudo o que veio depois do que Jacó.
Lemos em toda a Escritura sobre o Deus de Jacó, o Poderoso de Jacó e a casa de Jacó. Seu próprio nome, Jacó, e o nome que Deus lhe deu quando o transformou — Israel — tornaram-se o nome do povo de Deus desde aquele tempo até hoje, e para sempre.
Deus nos chama de Seu povo redimido: Jacó, a quem Ele formou, e Israel, a quem Ele criou. É algo extraordinário. Não posso retomar nesta noite tudo o que dissemos sobre Jacó, mas fico feliz por ter sido gravado para aqueles que desejam acompanhar os estudos anteriores: o amor de Deus e Jacó, a gloriosa eleição de Deus e o propósito de Deus em Jacó.
Nesta noite, quero falar sobre a face de Deus e Jacó.
O propósito de Deus para Jacó era glorioso e significativo. Tinha cinco aspectos:
Que propósito — um propósito glorioso para esse homem, Jacó, e um propósito significativo. Não era algum pequeno assunto secundário que desviasse a atenção, mas algo que está no próprio centro da história humana e, acima de tudo, da história divina.
O problema na realização e no cumprimento desse propósito de Deus para Jacó era o próprio Jacó.
Não era que Jacó não tivesse entendimento das coisas espirituais. Ele as entendia muito mais do que seu irmão gêmeo, Esaú. Esaú talvez fosse um homem muito bom, mas não tinha tempo, entendimento nem apreço pelas coisas de Deus.
Desde o início, Jacó tinha apreço pelas coisas de Deus. Ele dava à primogenitura um valor que Esaú nunca lhe deu. Dava à bênção um valor que Esaú nunca realmente lhe deu. Dava ao propósito de Deus um valor inteiramente estranho à atitude e ao caráter de Esaú.
O problema não era uma questão de entendimento. Muitos cristãos parecem pensar que o grande problema entre o povo de Deus é a ignorância quanto ao propósito de Deus, às coisas de Deus e aos caminhos de Deus. Ora, isso pode ser verdade até certo ponto, mas, francamente, esse não é o problema.
Tampouco o problema era uma questão de zelo. Se alguém tinha zelo, Jacó tinha. Ele procurava toda oportunidade para tirar a primogenitura das mãos de Esaú e colocá-la nas suas.
Ele lhe dava tanto valor e tinha tanto zelo por essa questão que, quando seu irmão chegou um dia quase morrendo de fome, literalmente desfalecendo aos pés de Jacó, ele não lhe deu sequer uma concha da sopa que havia preparado até vê-lo assinar na linha pontilhada. Jacó conseguiu a primogenitura. Talvez não fosse zelo com entendimento, mas era zelo.
Muitos cristãos me dizem que o problema é a falta de zelo entre as pessoas. As pessoas estão meio mortas; são apáticas e indiferentes. Dizem-me que os americanos têm uma vida boa demais, e os canadenses também. Mas, nesse sentido, nós também temos, do nosso lado do Atlântico.
Dizem-me que, se ao menos o povo de Deus tivesse zelo, se ao menos fosse consumido pela determinação e pela força de vontade quanto às coisas de Deus, tudo mudaria. Quero lhes contar um segredo: vocês podem ter entendimento das coisas de Deus e do propósito de Deus. Podem valorizar o propósito de Deus e as coisas de Deus. Podem ter determinação e força de vontade quanto a essas coisas, mas o problema continua.
O problema não é ignorância. O problema não é reconhecimento. O problema não é força de vontade nem determinação. O problema é Jacó. Esse é o problema.
É claro que esse é um problema de Deus, porque Deus escolheu Jacó. Ele o escolheu. E escolheu um amontoado de dificuldades. Ele sabia de tudo isso quando colocou Seu amor sobre ele, o elegeu e o chamou.
O problema era Jacó, e o problema era a força do próprio homem natural de Jacó. Jacó não era um fraco. Era muito inteligente, muito talentoso, muito dotado, cheio de recursos e um manipulador astuto.
Ele não era o tipo de pessoa que causa horror em você. Acho que Jacó era uma pessoa extremamente atraente. Mas o problema era que Jacó tinha dons demais, era forte demais em sua personalidade e tinha uma inteligência excepcional.
Você pode ter entendimento de tudo o que nosso irmão Manfred tem falado a respeito da igreja e, ainda assim, ser o maior impedimento à sua expressão e realização. É desconfortável ouvir isso. Não gostamos muito de ouvir esse tipo de coisa.
Podemos ser pessoas muito agradáveis, mas continuamos sendo um grande problema. Quanto mais forte for nossa personalidade, maior será a força do caráter natural, do talento, dos dons e da capacidade de frustrar o propósito de Deus.
Ai de qualquer pessoa dotada, com grande força de alma e uma personalidade marcante, que enxergue os princípios da igreja. Deus nos preserve. Pessoas assim fazem a coisa sair do papel em poucas semanas. Põem as mãos nela, reúnem algumas pessoas e dizem: “Vamos fazer isso acontecer. A mesa do Senhor já neste próximo domingo.”
Em poucas semanas, temos presbíteros. Algumas semanas depois, temos diáconos. Temos todo o modelo da igreja. Não é uma questão de ignorância. Não é que desprezemos as coisas de Deus ou não tenhamos apreço por elas. Não é que nos faltem determinação ou força de vontade. Há muito disso.
O problema somos nós. Nós vamos fazer isso.
E assim, em vez de Isaque, produzimos um Ismael — algo meio Deus e meio homem, algo que é produto da carne. Ismael talvez se parecesse mais com Abraão do que Isaque jamais se pareceu. As pessoas confundem isso. Pensam que qualquer um poderia identificar Ismael, mas ele talvez fosse a própria imagem de seu pai Abraão.
E Isaque? Você talvez dissesse: “Quem é aquele rapaz correndo por aí?” Responderiam: “É Isaque.” “Isaque? Ele não se parece nada com o pai.” Não, talvez se pareça com a bisavó do lado materno, mas continua sendo o filho da promessa.
Portanto, meus queridos, o problema de Jacó era a força de seu próprio homem natural — sua vontade própria, poderosa e incontrolável. Era a força espontânea da vida do seu eu que gerava todo o engano, as maquinações e as manobras para tomar o lugar dos outros.
Jacó não se via sob essa luz. Quando roubou a primogenitura de Esaú, não enxergou aquilo como engano ou usurpação. Sentia que era algo que lhe cabia. Não tenho dúvida de que sua mãe, Rebeca, lhe contou sobre a profecia, dada antes de os meninos nascerem, de que o mais velho serviria ao mais novo.
Por isso, pensava: “Bem, aquilo me cabia. De que outra maneira alguma coisa chega até nós? Devemos ser místicos e esperar? Meu irmão gêmeo chegou quase morto. Foi uma oportunidade gloriosa, dada por Deus. Deus a preparou, e eu a aproveitei.”
Quando enganou seu pai Isaque, já idoso e cego, talvez tivesse um pouco mais de consciência de que estava enganando. De fato, disse à mãe: “Será que meu pai não vai descobrir ao ouvir minha voz, ou talvez ao me tocar? Minha pele é lisa. Será que ele não vai pensar que sou um enganador?”
Mas ele não disse: “Será que ele não vai descobrir que sou um enganador?” Disse: “Será que ele não vai pensar que sou um enganador?” Jacó não tinha consciência de si mesmo.
Quando foi passar vinte anos com o tio Labão, Jacó não tinha a menor consciência de que havia grande poder de manipulação em sua própria natureza. Pensava que estava ajudando o Senhor. Havia muito de Jacó naquilo.
Portanto, o que estou tentando dizer é isto: nós — você e eu — somos o problema na realização e no cumprimento do propósito de Deus.
Estou falando nesta noite a muitas pessoas aqui que têm entendimento das coisas de Deus. Vocês dariam glória a Deus por isso. Diriam: “É pela graça de Deus que entendo um pouco do Seu propósito, um pouco das coisas de Deus, um pouco da igreja de Deus e da casa de Deus.”
Mas precisamos encarar o fato de que o problema não são os outros que não enxergam. Muitas vezes dizemos: “Ah, o problema são todos esses outros cristãos: eles não enxergam.” Não, o problema não são as pessoas que não enxergam. O problema são as pessoas que enxergam.
Aqui está a verdade desconfortável: você é o problema. Eu sou o problema. Reconhecemos o propósito de Deus e frustramos o propósito de Deus. Apreciamos as coisas de Deus e, ao mesmo tempo, desfazemos as coisas de Deus. Comprometemos as coisas de Deus. Temos zelo pela casa do Senhor e impedimos sua edificação.
É o Jacó. Não é que você e eu sejamos, por natureza, manipuladores, trapaceiros ou usurpadores, mas temos força natural. Quanto mais dotados somos, e quanto mais marcante é nossa personalidade, maior perigo representamos para as coisas de Deus.
Acho interessante que, quando Jacó mais tarde descreveu esse encontro com Deus, o maior de toda a sua vida, no vau de Jaboque, ele não o chamou de quebrantamento. Poderia ter dito: “Chamarei este lugar de Quebrantamento.” Ou talvez de “Claudicação”, porque daquele dia em diante ele passou a mancar, com o quadril deslocado.
Poderia tê-lo chamado de transformação. Haveria belas palavras hebraicas para essas ideias. Mas Jacó o chamou de Peniel: a face de Deus.
Acho isso maravilhoso. É quase como se Jacó nem entrasse na história. Esse homem voltado para os próprios interesses, esse homem egocêntrico, esse homem inconscientemente egoísta, como resultado dessa experiência, nem sequer coloca a si mesmo em cena. Ele chama o lugar de Peniel, a face de Deus.
Pois ele disse:
Vi Deus face a face, e a minha vida foi preservada.
Em hebraico, essa palavra para face, panim, significa presença ou semblante. Vocês conhecem a bela bênção sacerdotal de Arão:
O Senhor te abençoe e te guarde;
O Senhor faça resplandecer o Seu rosto sobre ti,
E tenha misericórdia de ti;
O Senhor sobre ti levante o Seu rosto,
E te dê a paz.
Quando Moisés disse ao Senhor:
Se a Tua presença não for conosco, não nos faças subir daqui.
Ele usou a palavra panim:
Se a Tua face não for conosco, não nos faças subir daqui.
O Senhor disse:
A Minha presença irá contigo, e Eu te darei descanso.
Poderíamos traduzir assim, embora soasse estranho em inglês:
A Minha face irá contigo, e Eu te darei descanso.
O Meu semblante irá contigo, e Eu te darei descanso.
Que descrição maravilhosa desse encontro com Deus que transforma a vida: a presença de Deus, o semblante de Deus, a face de Deus.
Na última vez em que falei, disse que visão e revelação são relativas. Há ocasiões em que vemos algo que nos emociona, nos entusiasma e nos toca e, em certo sentido, dá direção à nossa vida; mas talvez não chegue à raiz da questão.
Creio que, para todo servo do Senhor — e eu diria, para todo filho de Deus —, mais cedo ou mais tarde, precisa vir o tipo de revelação que nos pulveriza.
Questiono se ela sempre vem em um momento dramático. Quanto a mim, tive uma experiência assim, e conheço outros que tiveram experiências assim. Outros tiveram uma experiência gradual, mas o princípio continua sendo o mesmo.
Deus vem até nós e, pela graça de Deus, nós nos apegamos a Ele. Então Ele Se apodera de nós, e aprendemos as palavras do apóstolo Paulo:
Prossigo para alcançar aquilo para o que também fui alcançado.
Isso é uma necessidade na vida de todo crente.
Quero falar sobre a necessidade do Jaboque. Jaboque, naturalmente, é o nome do vau, do pequeno ribeiro que Jacó precisava atravessar. Vocês observaram Gênesis 32:24?
Jacó, porém, ficou só.
Há nessa experiência necessária um estar a sós determinado por Deus. Nem sua esposa pode estar com você. Nem seu marido pode estar com você. Nem o amigo mais querido pode estar com você. É uma experiência com o Senhor que, por sua própria natureza, precisa acontecer a sós com Ele.
O Jaboque é uma necessidade em qualquer vida. Não há alternativa. As pessoas estão sempre procurando atalhos, meus queridos amigos. Você pode frequentar um seminário teológico por dez anos, mas isso não fará por você o que uma noite no Jaboque fará.
Você pode passar todo o seu tempo estudando diversos sistemas de interpretação profética da Bíblia, ou se dedicando a outras formas de estudo. Não sou contra o estudo; acho que todos vocês sabem disso. Quanto mais estudamos a Palavra, mais material há sobre o qual o Espírito Santo pode trabalhar.
Mas nunca pensemos que o estudo, em si mesmo, seja algo espiritual. A coleção de conhecimentos, a aquisição de conhecimentos, a memorização da Palavra e o reconhecimento de princípios espirituais não são, em si mesmos, transformadores.
O Jaboque é uma necessidade. Em princípio, todo crente precisa conhecê-lo. Não há outro caminho para Jacó se tornar Israel.
Se você quer ter poder com Deus, se quer ser um vencedor, se quer ser um príncipe com Deus e com os homens, se quer ser alguém que viu o Senhor e cuja vida carrega uma marca permanente, não há outro caminho senão o Jaboque.
O maquinador, o manipulador, aquele que não consegue controlar a força espontânea de sua própria vontade e de seu caráter, não pode se tornar o príncipe com Deus — Israel — a menos que chegue ao Jaboque.
O momento que Deus escolhe para o seu Jaboque pessoal, assim como para o de Jacó, é sempre perfeito. Portanto, não fique todo agitado com essa questão, dizendo: “Ai, meu Deus, como posso chegar ao Jaboque?” Querido amigo, não esquente essa sua cabecinha. Tudo isso faz parte da eleição.
Não estou dizendo que você pode ser preguiçoso. Mas, se prosseguir com Deus — com todas as suas fraquezas, falhas, força de vontade e tudo o mais —, haverá um Jaboque na sua vida, tão certamente quanto estou aqui diante de vocês.
A princípio, você não reconhecerá que é Deus. Pensará que tudo tem a ver com o tio Labão atrás de você e o irmão Esaú à sua frente. Pensará que é simplesmente uma questão de todos os seus enganos finalmente cobrarem seu preço.
Mas o momento que Deus escolhe para o Jaboque na vida de cada crente é perfeito. Embora raramente reconheçamos que Ele está por trás disso e que é Ele Quem o ordena, mais tarde descobrimos que é o Senhor.
Nunca é cedo demais nem tarde demais. É por isso que você não pode programá-lo. Se pudesse, estaria em um Jaboque esta noite e estragaria tudo.
Deus trabalha incessantemente, silenciosamente, de maneira oculta nos bastidores, conduzindo circunstâncias, situações, dificuldades, problemas e relacionamentos. No momento exato em que você chega ao verdadeiro conhecimento de si mesmo e perde toda esperança em si mesmo, Deus faz chegar o Seu Jaboque.
O Jaboque, o vau, chega a todos os que prosseguem com Deus. Jacó não podia atravessar aquele rio em qualquer lugar. Era um dos rios que corriam por ravinas e desfiladeiros íngremes na margem oriental do Jordão. Havia apenas um ou dois pontos de travessia, e aquele era um dos vaus do rio Jaboque.
Ele não podia ir a outro lugar. Precisava chegar ali e precisava atravessá-lo. Atrás dele estava Labão; à sua frente, Esaú.
Jacó estava aterrorizado. Ali estava aquele manipulador de negócios, forte, inteligente e astuto, e, na hora decisiva, estava aterrorizado. Jacó estava encurralado.
Nem mesmo duas companhias de anjos o tranquilizaram. Gênesis 32:1 diz:
E Jacó seguiu o seu caminho, e os anjos de Deus o encontraram.
Jacó viu os seres angelicais e disse:
Este é o exército de Deus.
Chamou o lugar de Maanaim — dois grupos, duas companhias, duas tribos.
Mas Jacó havia enganado seu irmão gêmeo, Esaú, e a história finalmente o alcançava. Talvez tenha pensado: “Esses anjos de Deus estão aqui para assistir à retribuição? Estão aqui para garantir que eu colha o que semeei?”
Jacó dividiu todo o grupo que estava com ele em duas companhias. Talvez tenha pensado que, se perdesse a vida, ao menos os pequeninos e suas famílias poderiam ser preservados. Estava preso numa armadilha.
Então recebeu a notícia de que Esaú estava vindo. Deus poderia ter providenciado que Esaú enviasse uma mensagem dizendo: “Irmão Jacó, está tudo perdoado. Estou a caminho para encontrar você. Mal posso esperar para vê-lo face a face.” Mas Esaú não disse nada. A mensagem era simplesmente: “Estou a caminho.”
Aquilo poderia significar qualquer coisa. Encheu de terror o coração de Jacó. “Como ele está vindo?” “Quatrocentos homens estão com ele.” Quatrocentos homens! Então só podia significar o pior. Ele vai se vingar de mim e da minha família.
Jacó estava encurralado — não, como pensava, pelas circunstâncias ou pela história, mas por Deus.
Todos nós ansiamos por nos tornar Israel. Não creio que haja um cristão aqui que não deseje que Deus o transforme, faça de você uma bênção, torne você frutífero, multiplique você, capacite você a possuir a terra em toda a sua plenitude e faça de você um edificador da casa de Deus.
Mas nem sempre reconhecemos a maneira como Deus faz isso. Pensamos em alguma maravilhosa experiência de êxtase, em que somos arrebatados ao terceiro céu e vemos cores e cenas maravilhosas, cheios de visões maravilhosas e açucaradas. Deus não transforma as pessoas dessa maneira.
Certamente é a face de Deus, certamente é a Pessoa de Seu Filho, Quem luta conosco. Mas são as circunstâncias e os relacionamentos tão humanos que Deus usa, por fim, para nos encurralar, de modo que não possamos voltar nem avançar. Estamos encurralados e, quando finalmente chega o momento, ficamos sós.
Não culpe ninguém naquele momento em que você se sente totalmente só. Isso acontece por determinação divina.
A segunda coisa é esta: o Jaboque não apenas é, em princípio, uma necessidade na vida de todo crente; não podemos escapar dele se quisermos prosseguir com Deus.
Se estivermos dispostos a nos contentar com algo menor e ficar com o tio Labão pelo resto da vida, não teremos um Jaboque. Mas, se estamos a caminho de volta à terra, se queremos estar envolvidos de maneira essencial e substancial com o propósito de Deus e sua realização, então o Jaboque é uma necessidade. Precisamos enfrentá-lo sozinhos.
Mas precisamos ter um verdadeiro conhecimento de nós mesmos. Em Gênesis 32:27, o anjo lhe disse:
Qual é o teu nome?
E ele disse:
Jacó.
Uma das coisas que encontro na obra do Senhor é que o verdadeiro conhecimento de si mesmo é muito raro. Fico espantado com o que as pessoas me dizem a respeito de si mesmas.
Lembro-me de um homem que me escreveu, queixando-se amargamente de outro irmão. No final da carta, escreveu: “Você sabe que sou um dos homens mais humildes deste mundo.” Esse irmão era dotado, nascido de novo e destacado na obra cristã. Mas havia uma coisa que todos nós sabíamos a respeito dele: não era humilde.
Lembro-me de ter repreendido outro irmão por ser convencido. Ele disse: “Neste ano sou dez vezes menos convencido do que no ano passado.” É incrível como não conhecemos a nós mesmos.
Havia uma irmã numa igreja batista da qual fui membro. Ela costumava dizer: “Agora me diga, você sabe de uma coisa que eu sei fazer: sei guardar um segredo.” Todos nós sabíamos que, se alguém quisesse que toda a região de Richmond soubesse de alguma coisa, bastava contar à tia Mac — e acrescentar: “Isso é confidencial.”
É incrível. As pessoas dizem: “Meu ponto forte é a paciência”, e todos nós sabemos que são muito impacientes. Algumas dizem: “Não tenho o problema de falar demais”, e são as pessoas mais prolixas que existem. Bem, pelo menos posso lhes dizer que eu falo demais.
Não conhecemos a nós mesmos. Nem mesmo os servos do Senhor conhecem a si mesmos. E, porque não conhecemos a nós mesmos, não podemos servir ao Senhor com pureza.
Não chegamos a conhecer a nós mesmos olhando para dentro. Jacó não passou horas em introspecção, estudando a si mesmo com um microscópio espiritual, uma lupa e tudo o mais. Não, isso não veio dessa maneira.
Como ele chegou a conhecer a si mesmo? Por meio dos outros. Esse é o caminho determinado por Deus pelo qual realmente chegamos a conhecer a nós mesmos.
Quando o anjo do Senhor agarrou Jacó, e eles começaram a lutar, Jacó não O soltava. O anjo disse:
Qual é o teu nome?
A essa altura, Jacó já havia percorrido um longo caminho. Estava farto de si mesmo, farto de sua força natural e farto daquilo a que ela o havia levado.
Poderia ter dito: “Eu? Sou filho de Isaque.” Isaque era um homem idoso tão piedoso. Ou poderia ter dito: “Eu? Sou neto de Abraão.” Mas ele admitiu. Disse: “Jacó. Yaakov. O suplantador. O manipulador. O enganador.”
Somente Deus pode dar o verdadeiro conhecimento de si mesmo. Não me entendam mal e saiam correndo para passar um período em introspecção, que só fará o trabalho do inimigo. A única maneira pela qual você chegará a conhecer a si mesmo é por meio de Deus.
Quando Deus faz isso, é uma verdade que liberta você. Quando começa a enxergar a si mesmo, você descobre que está livre. De repente, começa a entender o que o motiva, qual é a verdadeira força da alma em sua personalidade, por que reage como reage e por que tenta manipular as coisas.
Deus faz isso por meio dos relacionamentos. Não tenho dúvida de que Deus usou todos os relacionamentos na vida de Jacó para levá-lo ao ponto em que enxergou a si mesmo.
Primeiro, havia o tio Labão. Labão foi muito generoso no início. Jacó havia se apaixonado por Raquel, sua filha mais nova. Labão disse: “Não vou deixar você morar na minha casa e trabalhar com os meus rebanhos de graça. Acho justo que receba um salário.”
Jacó disse: “Trabalharei para o senhor sete anos sem salário, se puder me casar com Raquel.” “Fechado”, disse o tio Labão. “Isso é excelente.” Imagino que tenha pensado: “É mais fácil do que deixar o dinheiro sair. Mantemos o rapaz na família. Um rapaz dotado, inteligente, parece ter boa cabeça.”
Agora, vocês não devem pensar que Labão era apenas um trapaceiro. Nos costumes orientais, especialmente no Oriente Médio, não se podia casar a filha mais nova antes da mais velha. Se isso fosse feito, a filha mais velha ficaria para titia.
Então Labão elaborou seu plano. Casaria Lia com Jacó. Não era apenas Labão que estava envolvido no engano; Lia também deve ter participado. “Aprenda a andar como sua querida irmã mais nova, Raquel”, ele talvez tenha dito. “Vamos cobrir você com um véu tão espesso que ele não perceberá a diferença.”
Vocês conhecem a história. Depois das celebrações do casamento, Jacó entrou para estar com Lia. Somente quando o véu foi retirado descobriu — não sua amada Raquel —, mas Lia.
Posso imaginar Jacó dizendo: “Dá para acreditar? Alguém seria capaz de fazer uma coisa dessas? Meu próprio parente, meu tio, irmão da minha mãe! Ele me enganou. Trabalhei como escravo durante sete anos; não recebi um centavo.”
No entanto, nunca pensou que havia enganado Esaú para lhe tirar a primogenitura, ou enganado seu pai, cego e idoso, para obter a bênção. Isso nunca lhe passou pela cabeça. Primeiro, ele ficou face a face consigo mesmo, como num espelho, no tio Labão.
Então olhou para Lia. Lia também estava envolvida na fraude. Talvez tenha ficado zangado no início, mas depois viu Jacó em Lia.
E havia Raquel. Jacó nunca pensou que sua amada Raquel enganaria alguém, mas ela também o fez. Quando fugiram de Labão, Raquel roubou os deuses domésticos. Naqueles dias, os deuses domésticos eram como títulos de propriedade.
Labão revistou todas as tendas e cada peça da bagagem. Raquel sentou-se sobre a sela do camelo, debaixo da qual os deuses domésticos estavam escondidos. Disse: “Não estou me sentindo muito bem, papai. Não quero me levantar.” E Labão a deixou ali.
Jacó havia dito a Labão: “Se os deuses domésticos forem encontrados com alguém do meu grupo, que essa pessoa morra.” Foram palavras terríveis — palavras proféticas —, pois Raquel morreu alguns meses depois, ao dar à luz Benjamim.
Jacó viu a si mesmo primeiro em Labão, depois em Lia e, então, em Raquel.
E você? Como chega ao verdadeiro conhecimento de si mesmo? Por meio daqueles que Deus conduz para ficar ao seu lado. Às vezes é seu marido, às vezes sua esposa, às vezes seus pais, às vezes seus filhos. Certamente pode ser seu empregador ou seus colegas de trabalho.
Aquelas pessoas que você considera tão irritantes, aquelas que deixam você tão exaltado — “Não consigo passar mais um instante com fulano” —, na verdade, são um espelho. Você está enxergando a si mesmo.
Deus as colocou ali para que você perca toda esperança em si mesmo, para que chegue ao lugar em que conhece a si mesmo. Você não chega a conhecer a si mesmo no alto de alguma montanha maravilhosa, isolado de todos, com belos pores do sol, amanheceres e passarinhos cantando.
Isso não acontece por meio de alguma meditação transcendental, espiritual e cristã, na qual você de repente enxerga a si mesmo como realmente é. Nunca acontece dessa maneira. É um engano.
Mas quando, em suas circunstâncias, alguém é colocado ao seu lado e o irrita o tempo todo, faz vir à tona o que há de pior em você, alguém com quem você não consegue trabalhar, adorar ou caminhar, talvez você diga: “Se ao menos Deus tirasse essa pessoa do meu círculo, eu conseguiria ser cristão.”
Você não entende que ela está ali por determinação divina. Foi predestinada a estar ali porque Deus escolheu você, e Deus está levando você ao seu Jaboque.
Portanto, não tente fugir. Se fizer isso, estará fugindo de Deus. Não tente escapar, porque, se fizer isso, estará escapando do tratamento de Deus.
Permita que Deus faça em sua vida o que está fazendo — seja no trabalho, no lar, nas amizades, nas circunstâncias ou na vida da igreja. É nessas coisas que Deus realmente trata conosco.
Não pensem que o processo de descobrir a si mesmo terminou com a experiência de Jacó no Jaboque. Ele continuou. Jacó sofreu por causa de seus filhos e de sua filha, mesmo depois de se tornar Israel. Ainda havia muito de Jacó neles.
Nunca pensem que, por se tornarem um Israel, não terão mais revelações a respeito de si mesmos. Será diferente, mas vocês terão muitas. E todas elas acontecerão nos relacionamentos com aqueles que estão mais perto de vocês.
Quando o anjo do Senhor finalmente agarrou Jacó, Jacó disse:
Não Te deixarei ir, se não me abençoares.
O anjo perguntou:
Qual é o teu nome?
O anjo sabia quem era Jacó? É claro que sabia. Aquilo não havia sido predestinado e marcado por Deus? É claro que sim.
Por que, então, Deus disse: “Qual é o teu nome?” Porque queria estabelecer, de uma vez por todas, que Jacó conhecia a si mesmo.
Jacó não fez uma longa dissertação. Não ficou dando voltas, falando de Abraão, Isaque e de como Deus havia aparecido a eles. Disse apenas uma palavra: “Jacó.”
Talvez naquele momento Jacó tenha pensado: “É o fim. Não haverá bênção.” Mas então o anjo do Senhor disse:
Não te chamarás mais Jacó — suplantador, manipulador, enganador.
Serás chamado Israel.
Deus persiste. E tu tiveste poder com Deus.
Isso me leva à última coisa que quero dizer nesta noite: o desespero da verdadeira fé.
Perder toda esperança em si mesmo por conhecer a si mesmo não é suficiente. Isso o levará à mudança — à fé, que é dom de Deus e que capacita você a não soltar o Senhor até que Ele faça a obra.
Quando Deus agarrar você firmemente, não O solte.
Ouçam Jacó:
Jacó, porém, ficou só; e lutou com ele um homem até o romper do dia.
Quando o anjo viu que não prevalecia contra ele, tocou a articulação da coxa de Jacó. No hebraico, fica bem claro que se tratou de um deslocamento do quadril.
O anjo disse:
Deixa-Me ir, porque já rompe o dia.
Jacó disse:
Não Te deixarei ir, se não me abençoares.
Esse é o desespero da verdadeira fé.
Não é um desespero passivo que diz: “Ah, eu não presto. Deus nunca fará nada em mim. Agora começo a enxergar a mim mesmo. Não há esperança.” Não. Aqui está o dom da verdadeira fé:
Não Te deixarei ir, se não me abençoares.
Somente Deus pode dar esse tipo de fé a um homem ou a uma mulher. A força natural de Jacó foi quebrada.
Charles Wesley escreveu um de seus hinos mais magníficos. Infelizmente, hoje não é comum encontrá-lo com todas as estrofes, porque são dez. Charles Wesley teve uma experiência como a de Jacó. Havia chegado absolutamente ao fim de si mesmo.
Entrou em seu quarto, fechou a porta e disse: “Nesta noite ficarei aqui com Deus até que Ele me toque.” Escreveu um poema durante a noite e, quando Deus o tocou e o transformou, ele o completou.
Vem, ó Tu, Viajante desconhecido,
A Quem ainda seguro, mas não posso ver;
Meus companheiros já seguiram adiante,
E fiquei a sós Contigo.
Contigo pretendo ficar a noite inteira,
E lutar até o romper do dia.Não preciso dizer-Te quem sou,
Nem declarar meu pecado e minha miséria;
Tu mesmo me chamaste pelo nome,
Olha para as Tuas mãos e lê-o ali.
Mas Quem, pergunto-Te, Quem és Tu?
Dize-me o Teu nome, e dize-mo agora.Em vão lutas para Te libertar,
Jamais afrouxarei o meu abraço;
És Tu o Homem que morreu por mim?
Revela o segredo do Teu amor.
Lutando, não Te deixarei ir
Até conhecer Teu nome e Tua natureza.Pois sou fraco, mas confiante
Ao perder toda esperança em mim mesmo;
Fala ao meu coração, fala em bênção;
Deixa-Te vencer por minha oração insistente.
Fala, ou jamais sairás daqui,
E dize-me se o Teu nome é Amor.É Amor! É Amor! Tu morreste por mim;
Ouço Teu sussurro em meu coração;
Rompe a manhã, fogem as sombras,
Tu és o puro Amor universal.
A mim, a todos, se estendem Tuas misericórdias;
Tua natureza e Teu nome são Amor.Mesmo manco, tomo a presa;
Inferno, terra e pecado venço com facilidade;
Salto de alegria, prossigo em meu caminho,
E, como um cervo que salta, corro,
Por toda a eternidade, para comprovar
Que Tua natureza e Teu nome são Amor.
Acho que isso expressa um tipo de experiência que é raro demais hoje. Não foi alguma experiência mística; foi um encontro com Deus.
Margaret Barber exerceu uma influência tremenda na vida de Watchman Nee. Ela também teve uma experiência assim. Acusada falsamente pela comunidade missionária, precisou deixar a China. Perdeu sua reputação e sua comunhão com a missão.
Sob a orientação de um bispo piedoso, foi-lhe perguntado: “Você crê que Deus a chamou para a China?” “Sim”, respondeu. “Então volte por conta própria e confie Nele — com missão ou sem missão.” E foi o que ela fez.
Foi assim que escreveu sobre sua experiência:
Inteiramente naufragada no peito de Jesus,
Só almas naufragadas podem cantar assim;
Pequenos barcos que se mantêm junto à costa,
Temendo o que a tempestade possa trazer,
Nunca encontram no peito de Jesus
Tudo o que as almas naufragadas chamam de descanso.Inteiramente naufragados! Assim lamentamos;
Mas, quando as tempestades fazem o pior que podem,
Então a alma, sobrevivendo a tudo,
É acalentada nos braços eternos;
Ali descobre que nada pode abalar
Quem é acolhido em tamanho amor.Inteiramente naufragados! Já não possuímos
Sequer uma embarcação para navegar no mar;
Ainda viajantes, porém agora
Ancorados no infinito;
Nada resta fazer senão lançar
A preocupação de lado e simplesmente nos apegar.Inteiramente naufragados! Foi o mais puro ganho;
Doravante outras embarcações podem ver
Que a tempestade pode ser uma bênção,
Que, por mais revolta que seja a cena,
O próprio Deus permanece vigilante,
Pois o naufrágio está em Sua mão.
Isso pode parecer muito estranho a algumas pessoas cujo evangelho é um evangelho da prosperidade. Mas, mesmo que não houvesse nenhuma outra frase naquele maravilhoso poema de Margaret Barber, esta bastaria: “Ainda viajantes, porém agora ancorados no infinito.”
Essa foi a experiência de Jacó. Ainda peregrino, ainda viajante — mas havia perdido seu próprio navio. Agora não podia fazer nada. Havia naufragado. Seu quadril estava deslocado, e só poderia mancar pelo resto da vida.
Mas era um náufrago na mão de Deus. Daí em diante, Jacó se tornou o príncipe com Deus e com os homens. Tornou-se uma bênção para Faraó, para seus filhos, para seus netos e para o povo de Deus, para sempre.
O enganador havia se tornado um adorador.
Vivemos numa época de coisas baratas. Samuel Brotherhood disse certa vez, enquanto estava preso por sua fé e seu amor ao Senhor Jesus: “Os homens querem Cristo barato. Querem-No sem a cruz. Mas o preço não vai baixar.”
Queridos amigos, vivemos numa época em que os homens querem Cristo barato. Sou inteiramente a favor da experiência carismática, dos dons do Espírito, da plenitude do Espírito e da unção. Mas, junto com isso, precisa vir uma transformação profunda e custosa de Jacó em Israel.
Caso contrário, a igreja não significa nada. A igreja não é apenas um modelo. Não é simplesmente uma questão de posição, função ou dom. Não é meramente uma agência evangelística. É um testemunho da graça e do poder transformadores de Deus: Jacó em Israel.
Se os membros do corpo do nosso Senhor Jesus não estão sendo transformados à imagem do próprio Filho de Deus, que esperança há? Se o mundo vê apenas nosso conhecimento sobre a igreja, nos ouve apenas falando dos princípios da igreja e das coisas de Deus, e não vê mudança em nossa vida pela qual a beleza de Deus seja vista em nós, qual é o verdadeiro significado disso?
Jacó chamou isso de a face de Deus.
O apóstolo Paulo disse:
A luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo brilhou em nossos corações.
Querido povo de Deus, o Espírito Santo nunca opera de maneira substancial sem a cruz. E a obra da cruz não tem sentido sem a Pessoa do Espírito Santo.
Quando conhecemos a obra da cruz sem a Pessoa do Espírito Santo, ela se torna uma coisa. Tornamo-nos pessoas sombrias, pesadas, tristes e aprisionadas, sempre debaixo de alguma nuvem de tempestade escura e pesada.
É o Espírito Santo Quem traduz a obra da cruz em algo que só pode ser descrito como a face de Deus. Já não é meramente quebrantamento, claudicação, paralisia da vida do nosso eu, nem mesmo transformação. É nada menos que a face de Deus.
Jacó em Israel.
Queridos amigos, querido povo de Deus, vocês não acham que isso é metade do problema em muitos dos nossos grupos? Por tempo demais, temos falado de verdade, e não de experiência — do poder.
Por tempo demais, temos honrado as questões da igreja apenas com os lábios, só para ver tudo desaparecer. O problema não é o que enxergamos. Somos nós mesmos.
Somente Deus pode nos levar de Jacó a Israel.
Vou encerrar esta noite com outro poema, desta vez de outra senhora. Ela também teve em sua vida uma experiência que poderia ser chamada de Jaboque. Escreveu este pequeno poema extraordinário, e eu o deixo com vocês.
Você já viu a face de Deus? Já chegou ao seu Jaboque? Está pronto?
Este é o poema de Amy Carmichael:
Não tens cicatriz alguma?
Nenhuma cicatriz oculta no pé, no lado ou na mão?
Ouço teu nome celebrado como poderoso na terra,
Ouço aclamarem tua estrela brilhante em ascensão.
Não tens cicatriz alguma?Não tens ferida alguma?
Contudo, Eu fui ferido pelos arqueiros e, exausto,
Encostei-Me numa árvore para morrer; e, dilacerado
Por feras vorazes que Me cercavam, desfaleci.
Não tens ferida alguma?Nenhuma ferida? Nenhuma cicatriz?
Contudo, como o Mestre, assim será o servo,
E traspassados são os pés que Me seguem;
Mas os teus estão intactos. Terá seguido longe
Quem não tem ferida nem cicatriz?
Vamos orar?
Pai, pedimos-Te que preserves esta Palavra, nesta noite, de interpretações erradas ou distorcidas. Pois Tu nos fazes uma pergunta nesta noite: “Não tens ferida alguma? Nenhuma cicatriz?”
Ó Senhor, oramos para que ajudes cada um de nós a dizer, pela Tua graça: “Senhor, Tu me conheces inteiramente. Tu sabes que sou Jacó. Mas, ó Senhor, eu Te seguirei pela Tua graça.”
Eu Te seguirei em todas as circunstâncias da minha vida: casamento, lar, família, negócios, igreja. Eu Te seguirei, ó Senhor, até chegar ao Jaboque, até que o Teu amor me toque e faça de mim o Israel que desejas que eu seja.
Ó Senhor, não queremos ser sentimentais. Mas oramos: que a marca da Tua obra, que a marca da Tua cruz, venha sobre nós. Que ela seja vista em nós pelo resto da nossa vida.
Que o Espírito Santo nos envolva inteiramente em glória. Que possuamos uma terra em toda a sua plenitude, nos tornemos aquele povo frutífero que devemos ser, sejamos uma bênção para todos, sejamos príncipes Contigo e com os homens, e edifiquemos a Tua casa.
Ó Deus, ouve-nos. Nós Te pedimos em nome do nosso Senhor Jesus.