Vocês poderiam abrir comigo no Evangelho de Mateus, capítulo 16? Vou ler apenas dois versículos.
E também Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
Dar-te-ei as chaves do reino dos céus: e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.— Mateus 16:18-19
Na primeira carta do apóstolo Pedro, em 1 Pedro 2:4-5:
Chegando-vos a Ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas eleita e preciosa para Deus,
Vós também, como pedras vivas, sois edificados como casa espiritual, para serdes sacerdócio santo, a fim de oferecerdes sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus por meio de Jesus Cristo.— 1 Pedro 2:4-5
Na segunda carta do apóstolo Paulo aos coríntios, em 2 Coríntios 10:3-5:
Porque, embora andemos na carne, não militamos segundo a carne
(pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas poderosas diante de Deus para a destruição de fortalezas),
Destruindo imaginações e toda altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo.— 2 Coríntios 10:3-5
E, por fim, na antiga aliança, Salmos 110:1-7:
Disse o Senhor ao meu Senhor:
Assenta-Te à Minha direita,
Até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés.O Senhor enviará de Sião o cetro da Tua força:
Domina Tu no meio dos Teus inimigos.O Teu povo se oferece voluntariamente
No dia do Teu poder, em santos ornamentos:
Do ventre da manhã,
Tu tens o orvalho da Tua mocidade.Jurou o Senhor e não Se arrependerá:
Tu és sacerdote para sempre
Segundo a ordem de Melquisedeque.O Senhor, à Tua direita,
Ferirá os reis no dia da Sua ira.
Ele julgará entre as nações,
Encherá os lugares de cadáveres;
Ferirá o cabeça em muitos países.
Beberá do ribeiro no caminho:
Por isso, levantará a cabeça.— Salmos 110:1-7
Vamos fazer mais uma breve oração?
Amado Senhor, somos tão gratos por podermos vir aqui à Tua presença. Nós Te bendizemos e Te louvamos, Senhor, porque Tu estás aqui. Não estamos pedindo que Te juntes a nós; estamos entrando na Tua presença.
E, Senhor, somos tão gratos porque Tu fizeste provisão para nós neste tempo: provisão para a proclamação da Tua Palavra, para a sua tradução e, Senhor, para que possamos ouvi-la. Queremos nos valer plenamente dessa unção.
Sabemos, Senhor, que podemos falar muitas palavras e dizer muitas coisas, e todos podemos ouvir coisas diversas. Mas, Senhor, o que precisamos é ouvir a Tua voz. Nossa oração é: Senhor, como já oramos, faze essa unção repousar tão poderosamente sobre todo este tempo que estejamos vivos para Ti. Que possamos Te ouvir para além da voz humana.
Senhor, pela fé nos firmamos nessa unção, nessa graça e nesse poder para a proclamação desta Palavra, para a sua tradução e para que possamos ouvi-la. Senhor, pedimos isso em nome do nosso Messias, o Senhor Jesus. Amém.
Bem, acho que todos vocês conhecem o tema desta conferência. Já o ouviram tantas vezes — pelo menos três vezes por dia, e imagino que muitas outras nos momentos de comunhão e de oração. Ele se encontra naquela maravilhosa declaração do nosso Senhor Jesus:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do inferno, ou do Hades, não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Minha participação nesta conferência é tratar de uma pergunta que me deram como tema: Por que há conflito em torno da edificação?
Bem, não acho que você precise ser filho de Deus há muito tempo para saber que, se nasceu de Deus, nasceu em meio a uma guerra. Às vezes, ficamos confusos, sem entender por que há tanto conflito. Mas, na verdade, todo filho de Deus sabe que você e eu nascemos em meio a uma guerra — nascemos em meio a um conflito.
Essencialmente, não é um conflito entre Satanás e você. Você é peixe pequeno, e eu também. Não somos nada aos olhos de Satanás. Basta ele soprar sobre nós, e desaparecemos. Quero dizer, basta ele obter permissão para mexer nas nossas circunstâncias e, de algum modo, provocar problemas, e estamos acabados. Vamos encarar os fatos.
Alguns de nós aguentarão um pouco mais — mas não por muito tempo. Jó foi o grande exemplo de alguém que conseguiu resistir por muito tempo antes de finalmente desmoronar.
O fato é que você e eu não somos nada aos olhos de Satanás. O que ele odeia — o que ele odeia com um ódio inacreditável — é o Senhor Jesus.
Não é à toa que, nos últimos dias, surgirá um anticristo. Será a última tentativa de Satanás de conquistar o mundo inteiro para si.
Ele odeia o Senhor Jesus e tudo o que tem relação com Ele. Odeia-O com um ódio venenoso e obstinado. Qualquer pessoa marcada com o nome do Senhor Jesus, por mais precário que seja o material de que é feita, uma vez marcada com o nome do Senhor Jesus, entra na esfera desse ódio satânico.
Ele fará de tudo para destruir você, simplesmente porque você pertence ao Senhor Jesus. Você é um daqueles a respeito de quem o Senhor Jesus disse:
O Pai os deu a Mim.
Por essa razão, ele nos odeia e odeia a edificação da igreja.
Não estamos falando de algo institucional, tradicional ou qualquer coisa desse tipo. Estamos falando daquilo que é o corpo do nosso Senhor Jesus: aqueles que nasceram do Espírito de Deus, cuja posição, pela graça de Deus, é em Cristo, e nos quais o Senhor Jesus habita.
Estamos falando daquela igreja que, ao longo dos anos, o Espírito de Deus vem edificando. É o Senhor Jesus Quem edifica, e o Espírito Santo é o mestre de obras — o administrador, se preferirem. É Ele Quem realiza todo o trabalho prático de obter o material, conduzir-nos ao entendimento e à visão, e então nos edificar conjuntamente.
Agora, isso é importante para o nosso entendimento. Eu disse ontem à noite que a chave desse conflito contínuo é o testemunho de Jesus. Não vou retomar tudo aquilo, a não ser para dizer isto: o testemunho de Jesus está ligado à Palavra de Deus.
A Palavra de Deus é objetiva. Ela chegou até nós da maneira mais extraordinária. Tem autoridade, é inspirada, inerrante e relevante em todas as suas partes.
O Senhor Jesus é a personificação dessa Palavra. É por isso que o Evangelho de João — que, como sempre digo, é o mais judaico dos quatro Evangelhos — começa dizendo:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.
— João 1:1
Essa palavra, Logos, significa inteligência expressa. Em outras palavras, Jesus é o próprio coração e a própria mente de Deus expressos — o próprio propósito de Deus cumprido, realizado, assegurado, expresso e ilustrado. Esse é o testemunho de Jesus.
O Espírito Santo escolheu uma peça dentre todos os móveis do tabernáculo e do templo: a menorá, o candelabro de sete braços. Se quiserem chamá-lo de castiçal, podem, mas ele não era um castiçal. Não sei por que as versões mais antigas traduziram dessa maneira. Era um suporte para lâmpadas.
O candelabro sustentava sete lâmpadas. Nas sete lâmpadas havia azeite, e o azeite se transformava em luz. Que imagem extraordinária — que imagem extraordinária — do testemunho de Jesus.
É muito interessante que tanto o templo na antiga aliança quanto Israel hoje e a igreja sejam representados por esse candelabro de sete braços. Isso tem relação com um plano divino e eterno de edificação.
A maioria dos cristãos tem pouquíssima noção de que Deus tem um plano de edificação. Infelizmente, as antigas versões da Bíblia usaram uma palavra muito infeliz, que significava algo há quatrocentos ou quinhentos anos, mas hoje não significa muito. Usaram a palavra edificação.
A maioria das pessoas entende edificação como uma espécie de “edificação da cabeça” — um aumento de conhecimento acadêmico. Mas a palavra significa construir, edificar. Que tudo seja feito para edificação. O corpo precisa edificar a si mesmo em amor. Tudo isso tem a ver com construir.
É isso que o inimigo procura destruir. Ele não suporta o testemunho de Jesus e fará de tudo. Usará toda tática, todo artifício, toda armação, toda astúcia, para transformar a igreja numa confusão tão grande que o candelabro seja removido. Uma vez removido o testemunho de Jesus, não há mais edificação.
Portanto, o objetivo do inimigo é muito simples: empregar todos os meios externos — por meio da perseguição e da restrição. Falarei um pouco mais sobre isso amanhã, mas pensem nos países islâmicos. Nós que vivemos em regiões islâmicas conhecemos o poder quase invisível do islã restringindo a igreja, de modo que ela não consegue ser livre, embora seja livre constitucionalmente.
Muito mais terríveis são as suas táticas internas. Golda Meir disse certa vez, falando de Israel: “Com os amigos que temos, não precisamos de inimigos”. Às vezes, sinto que o Senhor diz isso: “Realmente não precisamos de inimigos quando se tem o Meu povo. Deixe por conta deles. São um cavalo de Troia”.
Eles abrirão a porta ao inimigo por dentro, e toda a obra será dividida, paralisada, fragmentada em facções e conduzida ao erro, à imoralidade, à fraude ou a qualquer outra coisa.
Então, quero examinar um pouco mais de perto estas palavras do Evangelho de Mateus. Minha contribuição tem a ver com o conflito:
As portas do inferno não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Que afirmação maravilhosa. Que declaração maravilhosa. Que promessa profética o Senhor Jesus nos deu:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Essa é a palavra do nosso Senhor Jesus. Neste exato momento, Ele está à direita do Pai, com toda a autoridade e todo o poder, não apenas no céu, mas também na terra. Ele é Aquele que pode assegurar que as portas do inferno não prevaleçam contra a Sua obra de edificação.
Mencionei ontem à noite que não gosto dessa tradução moderna, “portas do Hades”. É tecnicamente correta, mas, na prática, estúpida. O que significa? Hades — o lugar dos espíritos dos que morreram. O que, afinal, significa “as portas dos mortos que partiram”? Há pouquíssimo sentido nisso. Era uma figura que o nosso Senhor estava usando.
“Portas do inferno” é melhor, porque o inferno nos faz pensar em Satanás, nos poderes das trevas, nos principados e potestades, nos dominadores mundiais destas trevas, nas hostes de espíritos malignos nas regiões celestiais e nas fortalezas de Satanás.
Imaginação. Altivez que se levanta contra o conhecimento de Deus. Pensamentos. Tudo começa com pensamentos.
Satanás colocou um pensamento num judeu que se tornou luterano. Seu nome era Karl Marx. Satanás colocou um pensamento em Mao Tsé-Tung. Um pequeno pensamento, desenvolvido e ampliado, tornou-se uma prisão para milhões de pessoas.
Pensamentos. Nunca desprezem os pensamentos. Às vezes, como diz a Escritura, desprezamos o dia das pequenas coisas — “são só pensamentos”, pensamos nós. Mas um pensamento pode se desenvolver numa filosofia, numa ideologia, e tornar-se uma escravidão para milhões.
Acho isso interessante: as portas do inferno. Na Escritura, as portas são sempre símbolo de governo, de arbitragem, de formulação de diretrizes e da execução dessas diretrizes.
Antigamente, em Israel e em outras partes do mundo antigo, os anciãos da cidade sempre se sentavam às portas. Parece que ficavam jogando mahjong ou xadrez, ou fumando narguilé, enquanto suas pobres esposas trabalhavam até morrer. Mas, na verdade, eles se sentavam à porta porque era ali que ficava a autoridade municipal.
Estavam ali para tomar decisões. Estavam ali para executar diretrizes. Estavam ali para governar.
Portanto, quando o Senhor Jesus fala das portas do inferno, está falando da autoridade dos poderes das trevas. Está falando de uma autoridade governante dos poderes das trevas, das diretrizes de Satanás e da execução dessas diretrizes.
Quando se trata do Seu plano de edificação, ali estão as portas do inferno. Há um adversário, e esse adversário não é outro senão o próprio Satanás.
Nunca atribuam a Satanás mais do que deveriam. Às vezes, as pessoas pensam que Deus está aqui e Satanás está ali — Deus é onipotente, onisciente, sabe tudo; Satanás está em toda parte ao mesmo tempo, é onipresente, onisciente, sabe tudo. Bobagem.
Satanás tem inteligência limitada, graças a Deus. Ele não é um ser incriado; é um ser criado. Vocês podem ter algumas dificuldades para entender por que Deus o criou, mas isso é outra questão.
O fato é muito simples: depois da Divindade, Satanás possui a mais elevada inteligência, mas é uma inteligência limitada. Além disso, Satanás não pode estar em toda parte ao mesmo tempo. Dou graças a Deus quando ouço dizer que Satanás está visitando você, porque ele não pode estar me visitando.
Ele não pode estar em toda parte ao mesmo tempo, mas tem toda uma rede — uma rede espiritual. Ela estuda os seres humanos, suas condições e suas fraquezas. Por que rimos disso como se fosse um conto de fadas? Vocês realmente acham que Satanás é tão estúpido, uma criatura com chifres e sem inteligência?
Como você lidaria com alguém se odiasse essa pessoa e a considerasse um rival? Não montaria toda uma rede para observar, registrar e descobrir as fraquezas dela? A sua fraqueza não é a minha. A minha fraqueza não é a sua. O que derrubaria você não é o que me derrubaria, e o que me derrubaria não é o que derrubaria você.
O inimigo tem toda uma rede. Ele sabe como impedir a obra de edificação do nosso Senhor Jesus simplesmente reunindo um dossiê de informações sobre cada pessoa que foi libertada da autoridade e do poder das trevas e transferida para o reino do Filho amado de Deus.
As portas do inferno representam a vontade e o propósito de Satanás — o poder das trevas. Essa pequena palavra, prevalecer, na expressão “não prevalecerão contra ela”, poderia ser traduzida com a mesma facilidade como “não a subjugarão” ou “não a vencerão”.
Mas essa pequena palavra revela a ferocidade do conflito. O Senhor Jesus pode ter autoridade suprema, mas, aparentemente, essa obra de edificação não será um mar de rosas. Não será simplesmente algo realizado em conferências maravilhosas. Ela se realiza em meio a enormes batalhas e conflitos.
Mas será realizada.
Essa é a primeira coisa que quero destacar nesta noite. A segunda, penso eu, é muito maravilhosa. Naturalmente, são palavras do Senhor:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja.
— Mateus 16:18
A maioria de vocês já ouviu dois ou três de nossos irmãos falarem sobre as duas palavras usadas aqui: “Tu és Pedro” — petros, em grego — “e sobre esta rocha” — petra — “edificarei a Minha igreja”.
Petros é uma pedra pequena. Petra é a rocha fundamental, a rocha maciça. O Senhor Jesus disse, em essência: “Você é uma pedra, mas sobre esta rocha fundamental edificarei a Minha igreja” — a rocha fundamental da salvação de Deus e da vida eterna de Deus.
Anos depois, Pedro escreveu um comentário sobre isso, se posso dizer assim, pelo Espírito de Deus:
Chegando-vos a Ele, pedra viva, rejeitada, na verdade, pelos homens, mas eleita e preciosa para Deus,
Vós também, como pedras vivas, sois edificados como casa espiritual.— 1 Pedro 2:4-5
Foi assim que Pedro entendeu. Longe do papado, do Vaticano ou de mil e uma outras interpretações, o próprio Pedro entendeu: Ele é uma pedra viva, e nós somos pedras vivas — não apenas Pedro. Somos pedras vivas extraídas dessa rocha fundamental.
Na minha parte do mundo, quando alguém construía uma casa antigamente, escolhia uma área onde houvesse rocha. Aqueles de vocês que já visitaram Israel sabem muito bem que não é preciso ir longe para encontrar rocha — ela está por toda parte. As pessoas costumavam perguntar: “De onde ele tirou as pedras?” Nenhum problema. Elas estão por toda parte.
Mas, antigamente, você comprava um imóvel com rocha maciça e extraía a rocha da sua própria propriedade. Então, construía a casa com essa rocha, sobre a rocha fundamental.
O Senhor Jesus disse:
Tu és Pedro, uma pedra. Sobre esta rocha fundamental edificarei a Minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Como isso é extraordinário quando pensamos a respeito: a declaração simples, categórica e dogmática do Senhor Jesus. Você é uma pequena pedra; sobre esta rocha fundamental, a rocha maciça, edificarei a Minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão — não a subjugarão. Maravilhoso.
Não quero depreciar Pedro. Fico admirado de que John tenha tido tanta coragem para falar de Paulo daquela maneira. Não vou falar de Pedro exatamente do mesmo modo, mas deixem-me dizer isto: essa igreja é edificada com Pedros — sempre fazendo grandes planos e nunca conseguindo sustentá-los na prática.
Se o Senhor Jesus tivesse dito: “Você é João, e você é a pedra”, acho que talvez tivéssemos um pouco mais de dificuldade. Mas isto é extraordinário para mim: o Senhor Jesus escolhendo Pedro, que negaria seu Senhor três vezes, com juramentos.
Com esse tipo de material — sempre se precipitando onde os anjos temem pisar —, esse material salvo pela graça de Deus, ao qual foi concedida revelação não uma, mas várias vezes, o Senhor edifica a Sua igreja.
A igreja é edificada com Pedros, todos com os mesmos problemas: grandes afirmações, mas nem sempre muita realidade; verdadeira revelação, mas nem sempre algo que a sustente na prática. É assim que o Senhor edifica a Sua igreja.
É uma coisa muito estranha. Todos estão procurando a igreja perfeita. Deus nos ajude. D. L. Moody disse: “Quando você a encontrar, ela não será perfeita” — porque você estará nela.
Que problema temos quando descobrimos que Pedro é Pedro. Dizemos: “Impossível. A igreja nunca será edificada com esse tipo de pessoa. O que ele fez? Três vezes negou o Senhor. Bem, eu não neguei o Senhor. Quer dizer que Tu vais edificar a igreja com esse tipo de pessoa?”
É exatamente esse o material que Deus usa. Naturalmente, não é o velho homem, se vocês entendem o que quero dizer. É Pedro em Cristo. Agora o Senhor vai colocar nele qualidades de rocha. Vai extraí-lo da própria graça salvadora de Deus, da vida eterna de Deus, moldá-lo e edificá-lo com outras pedras vivas, até que uma casa esteja construída.
Acho que já contei isso aqui, neste lugar, há muitos anos. Lembro-me de quando minha casa em Jerusalém foi reformada. Todo o andar superior havia sido destruído por uma explosão, porque meus vizinhos tinham guardado armamentos lá em cima, em 1946 ou 1947. Um projétil ou uma bala perdida entrou de algum modo no sótão e fez tudo explodir.
Quando cheguei, toda a parte superior da casa havia desaparecido. Lembro-me de quando chegaram as primeiras pedras. Um grande caminhão veio e despejou todas lá no alto, porque os caminhões não tinham permissão para entrar na pequena comunidade chamada Yemin Moshe. Burros as traziam por aqueles caminhos.
Eu sentia tanta pena daqueles burros, subindo e descendo os degraus carregados de pedras. Um dos trabalhadores despejava as pedras no chão, e então veio um senhor idoso que, pelo que me disseram, era um grande canteiro, um mestre no trabalho com pedras.
Ele se sentava ali e pegava todas aquelas pedras. Até hoje, não sei exatamente o que estava fazendo. Pegava uma pedra, olhava para ela, segurava-a de um jeito, depois de outro, e a colocava de lado. Então pegava outra e a colocava aqui, ali ou mais adiante — ou a descartava.
Aos poucos, aquela pilha de pedras foi sendo separada. Fui olhar as pedras que ele estava descartando e pensei: “Que trapaceiro. Esse homem é um trapaceiro. É preciso um judeu para reconhecer outro”. Eu achava que o homem era um trapaceiro.
Fui até lá e olhei as pedras. Eram lindas. A cor daquelas pedras e os veios nelas eram tão bonitos. Eu não parava de importunar o homem, mas ele só falava árabe, e eu não conseguia entender muito bem o árabe dele.
Por fim, veio o empreiteiro responsável. Eu disse: “Veja o que esse homem está fazendo. Ele vai levar embora estas pedras. Separou aqui algumas das pedras mais bonitas de toda a carga”.
“Não, não, não”, ele disse. “Ele sabe que há defeitos nessas pedras.”
“Como”, perguntei, “ele sabe? Ele não me parece alguém que tenha frequentado uma universidade.” Perguntei: “Como ele sabe que há defeitos nelas?” Havia alguma coisa que ele escutava e que, de algum modo, revelava isso àquele velho.
Mais tarde, por meio de um intérprete, ele me disse: “Por que eu passaria dias moldando essa pedra para, no último momento, ela se desfazer em pedaços?”
Pedras vivas. Você é uma pedra viva. Não sei se é uma pedra viva rachada — espero que não. Não deveria ser. Mas essas pedras são edificadas conjuntamente, como casa espiritual, para serem um sacerdócio santo e oferecerem sacrifícios espirituais.
Que imagem extraordinária temos aqui. Se isso que estou dizendo é verdade, e o Senhor Jesus pode tomar material como você e eu, de algum modo nos levar a uma nova posição com Ele, extrair algo em você e em mim da graça salvadora de Deus, extrair algo de você e de mim da Sua vida eterna em Cristo, e então nos moldar e nos ajustar uns aos outros — o que dá errado?
Se o Senhor Jesus disse que as portas do inferno não prevalecerão contra ela, como é que as portas do inferno parecem prevalecer contra ela e subjugá-la? Não uma vez, mas repetidas vezes. Vocês entendem o que estou tentando dizer?
Alguns teólogos dizem: “Esse é o problema de alguns desses cristãos realistas. Isso é místico. Toda essa questão da igreja é mística. Está no que não se vê; está no invisível. É ali que tudo está acontecendo. Não importa que ela esteja dividida, fragmentada em facções e que haja todo tipo de coisa errada aqui na terra. Esqueçam isso. Tudo está acontecendo lá em cima”.
Não consigo aceitar isso. Parece-me uma escapatória. Como me relaciono lá em cima? Quero dizer, como nos relacionamos uns com os outros?
É muito fácil eu dizer: “Ah, meus amados irmãos e irmãs na Índia”. Claro — estão a milhares de quilômetros de distância. “Ah, sinto-me unido aos meus irmãos e irmãs na China.” Claro — estão a milhares de quilômetros de distância. Posso até dizer que me sinto um com meus irmãos e irmãs em Nova York — ainda a centenas de quilômetros de distância.
Mas o Senhor não está interessado nesse palavreado vazio. Ele diz: “E os irmãos e irmãs onde você mora?” Ah! Nada de divórcio? Ah, não cremos em divórcio — só quando se trata de comunhão. Aí cremos em divórcio. “Não consigo mais concordar com você. Achei que você fosse mais do que realmente é. O Senhor está me chamando para outro lugar.”
Eu costumava dizer que a casa de Deus é um edifício sem saída de emergência. É como uma panela de pressão. Depois que a tampa é colocada, o trabalho acontece lá dentro. Como uma panela de cozimento lento — acho que é assim que vocês chamam por aqui, não é? Não sei. Nunca consegui entender bem esses termos americanos.
Prefiro ouvir falar do vento e da chuva. Mas, enfim, não vamos discutir sobre o inglês e quem foi responsável por ele.
O fato é que temos algo extraordinário aqui. Se o Senhor disse:
As portas do inferno não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Por que parece que as portas do inferno prevalecem contra ela?
Por exemplo, pensem por um momento. Todo mover do Espírito Santo desde que a igreja nasceu em Shavuot, no Pentecostes, há quase dois mil anos — cada mover do Espírito Santo para recuperar e restaurar — não durou mais do que duas gerações.
É quase como se pudéssemos dizer: “O Senhor disse que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela, mas as portas do inferno prevaleceram contra ela repetidas vezes”.
Se vocês sentem que algumas coisas se perderam na Reforma, no grande avivamento anabatista e menonita, no grande avivamento quaker, no grande avivamento puritano e dos covenanters, no primeiro despertar evangélico dos Wesley e de Whitefield, no segundo grande despertar evangélico, entre os Irmãos e, mais tarde, entre os pentecostais, talvez perguntem: “Mas e a igreja primitiva?”
Aquela igreja primitiva realmente representava a mente do Senhor. Como é que o Senhor permitiu que as portas do inferno a subjugassem, de modo que, num período de cento e cinquenta anos, sua própria estrutura mudou? Ela se tornou uma organização em vez de um organismo. Tornou-se um sistema em vez de um relacionamento com o Senhor e uns com os outros.
De algum modo, tornou-se uma tradição. Aliás, não há nada de errado com a tradição, se for uma tradição viva. Você toma café da manhã todos os dias — é uma tradição. Outras pessoas fazem uma refeição antes de dormir — tradição. Nem toda tradição é terrível.
Mas ela se tornou uma tradição em vez de uma experiência viva do Senhor ressurreto pelo Espírito Santo. Queridos amigos, por que o Senhor permite isso?
Preciso tomar cuidado para não ficar preso a esse assunto, mas, em todo mover do Espírito Santo, certas características reaparecem. Vou enumerar algumas delas.
Primeiro: Cristo como salvação, Cristo como o único Cabeça e Cristo como vida. Isso reapareceu em todos eles. Não importa se foram os quakers, os Irmãos, o primeiro despertar evangélico, os puritanos, a Reforma ou grupos anteriores à Reforma dos quais a maioria de vocês provavelmente nunca ouviu falar — os albigenses, valdenses, priscilianistas, bogomilos, paulicianos, donatistas e montanistas.
A história da igreja é uma história incrível. De um ponto de vista, é a história do institucionalismo, do tradicionalismo, do denominacionalismo e do organizacionalismo. Mas, por outro lado, há a verdadeira história da igreja. Lembrem-se: o livro de Atos nunca foi concluído.
Um dia, ouviremos toda a história da verdadeira igreja contada do ponto de vista do céu. As pessoas dizem que acham que o céu será entediante. Não será entediante, podem acreditar. Conheci alguns santos de Deus, e, se eles estiverem lá, como sei que estarão, não poderá ser entediante. Que personalidades, que pioneiros! Poderíamos passar uma eternidade inteira ouvindo testemunhos.
Aqui está outra característica: a Palavra de Deus como autoridade — sua inspiração e relevância. Em cada um desses movimentos, ela estava no centro.
Aqui está outra: o Espírito Santo honrado, tanto em Sua Pessoa quanto em Sua obra — não apenas por habitar em nós, mas também por nos capacitar com poder. Em cada um desses movimentos, o Espírito Santo foi honrado.
Não sei o que faz alguns cristãos terem tanto medo do Espírito Santo. Assim que você começa a falar do Espírito Santo, as pessoas pensam que vão começar a cair por toda parte. O que precisamos é de fogo.
Metade dos nossos problemas seria consumida no fogo de Deus. Nós, cristãos, nos tornamos tão respeitáveis. Fogo? Fruto, aceitamos. Raiz, aceitamos. Fogo? “Ah, não fale de fogo. Você está falando do Exército de Salvação?”
Bem, no começo havia fogo. Talvez vocês saibam, talvez não, que, na história britânica, os últimos mártires foram oito membros do Exército de Salvação assassinados por causa da sua fé nas ruas de uma cidade britânica. Fogo! Não há nada que perturbe mais Satanás do que o fogo de Deus.
Depois, há a unidade dos crentes e a sua comunhão. Não é interessante que, em cada grande mover do Espírito Santo, as pessoas não tenham adotado um nome denominacional?
Martinho Lutero alguma vez os chamou de luteranos? Claro que não. Teria preferido morrer mil vezes a chamá-los de luteranos. Wesley os chamou de wesleyanos? Teria morrido só de pensar nisso.
George Fox nem sequer os chamou de quakers. Foi um juiz ímpio que perguntou: “Como devemos chamar vocês?” Eles disseram: “Somos apenas crentes”. Alguém disse: “Senhor, eles tremem quando esperam em Deus”. Ele disse: “Muito bem. Vamos chamá-los de quakers, de tremedores”.
Assim sempre aconteceu na história da igreja. Eles nunca adotaram o nome; outros o deram a eles.
No começo, era a coisa menos respeitável do mundo estar associado a Martinho Lutero — aquele monge rechonchudo que gostava de beber. “Justificação pela fé? Quem já ouviu falar de justificação por essa doutrina nova?” Mas, dentro de cem anos, eram chamados de luteranos, e era muito respeitável ser luterano.
Era a coisa menos respeitável do mundo ter qualquer relação com John Wesley ou George Whitefield. Chamavam-nos de entusiastas. Eram expulsos. Preguei em vários púlpitos dos quais Wesley foi expulso, na segunda visita, pelos responsáveis das igrejas em Bristol. Ele não apenas saiu, mas dois terços da congregação foram com ele, e assim começou o metodismo. Não se chamava metodismo naquela época. Eram apenas crentes.
Essa unidade dos crentes e essa comunhão dos crentes voltaram a se afirmar repetidas vezes.
Uma última característica, antes de chegar a um ponto final que quero enfatizar muito: o impacto sobre a sociedade humana.
Cada um desses movimentos do Espírito de Deus virou a sociedade ao seu redor de cabeça para baixo e do avesso. Quer fossem os reformadores, os puritanos e os covenanters, os quakers, os morávios, os metodistas — para onde quer que vocês olhem, é a mesma coisa.
Agora, isso é um enigma. A resposta à minha pergunta — por que o Senhor permite isso? — é muito simples. É algo tão pequeno quanto isto.
Uma chave.
Tu és Pedro, uma pedra. Sobre esta rocha fundamental edificarei a Minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
A ti dou as chaves do reino dos céus.— Mateus 16:18-19
Ouçam o tempo verbal no grego:
Tudo o que ligares na terra terá sido ligado nos céus;
E tudo o que desligares na terra terá sido desligado nos céus.— Mateus 16:19
Chaves. Tão simples. Chaves representam autoridade. Quem tem as chaves tem autoridade: as chaves do cofre, as chaves da escola, as chaves do armário de medicamentos no hospital, as chaves da casa, as chaves do carro. É só quando você perde as chaves que surgem os problemas.
Ah, como é simples ter uma chave. Viajo o tempo todo, como vocês sabem. Isso é um problema para mim, embora, quando era mais jovem, não me incomodasse tanto. Agora, por dentro, todos os aeroportos me parecem iguais, e a maioria dos aviões também. Alguns são um pouco melhores, o serviço é um pouco melhor e mais agradável, mas a maioria é terrível — absolutamente terrível. O Extremo Oriente tem os melhores, mas isso é outra questão.
Às vezes, depois de uma reunião, vou com algumas pessoas até um carro. Elas continuam conversando sobre alguma coisa, pegam a chave, colocam na fechadura sem nem olhar, abrem a porta, entram e colocam a chave na ignição. Tão simples.
Mas, quando perderam a chave, que problema.
Certa vez, eu estava com um irmão no Sinai, e fomos nadar. Estávamos passando um tempo maravilhoso. Ficávamos num hotel a trezentos e vinte quilômetros dali e costumávamos sair de carro bem cedo para passar o dia inteiro lá. Naqueles dias, não havia mais nada ali. Era um paraíso no deserto.
Lembro-me de uma ocasião em que, na hora de ir embora, não conseguimos encontrar a chave do carro. Procuramos por toda parte e não a encontramos. Pensei: “Uma coisinha tão insignificante. Não conseguimos entrar no carro”.
Era um carro alugado, então não queríamos danificá-lo. Mas havia um pequeno moshav por perto, um pequeno povoado, e vieram nos ajudar. Um sujeito veio com uma serra e, num instante, entrou pela janela. Pensei: “Minha nossa. Isso mostra uma coisa ou outra”.
Então ele pegou a serra e começou a serrar a trava do freio. Eu disse: “Calma, calma, calma”, porque já estava nos vendo ter de pagar centenas e centenas e centenas de dólares pelos danos que ele estava causando. “Ah”, ele disse, “espere”. E foi embora.
Mais tarde, veio todo um destacamento das Forças de Defesa de Israel. Eles adoraram, porque todos colocaram óculos de mergulho e ficaram nadando de um lado para outro à procura daquela chave. Nunca a encontramos.
Passei a noite ali, e meu companheiro voltou de ônibus até Eilat para tentar conseguir uma chave reserva. Vejam: quando você perde as chaves, aquilo que é tão simples se torna um enorme problema — um obstáculo quase intransponível.
O problema é que a igreja perdeu as chaves.
Então enfrentamos as portas do inferno e não sabemos o que fazer. Portas podem ser trancadas. Portas podem ser destrancadas. Assim, ficamos diante dessas ameaças do inimigo, dessas obras das trevas, dessas coisas terríveis que destroem congregação após congregação e toda a obra de edificação do Senhor Jesus, e não sabemos o que fazer.
Chaves representam autoridade. Espero conseguir ser o mais simples possível neste assunto: dependemos inteiramente do Senhor para saber como usar essas chaves. A autoridade nos foi dada.
Agora, deixem-me fazer uma pergunta. Vocês creem que, quando o Senhor disse a Pedro: “A ti dou as chaves”, elas foram dadas a ele, e somente a ele? É verdade que ele abriu a porta aos samaritanos e abriu a porta aos gentios. Isso é perfeitamente verdadeiro.
Mas vocês realmente creem no papado e no Vaticano? Sei que há muitos crentes católicos; não tenho problema com isso — pessoas nascidas de Deus. Mas acho inteiramente errado fundamentar o papado nessa passagem da Escritura. Certamente Pedro representa você e eu, não é?
Não está o Senhor dizendo a crentes simples, salvos pela graça e autorizados por Ele: “Estou dando estas chaves”?
Como podemos usar as chaves? Dependemos inteiramente do Senhor nesse assunto.
Deixem-me dizer algo que já disse antes, mas não me importo de repetir muitas vezes. Às vezes, fico com medo e penso: “Você está ficando velho? Está ficando repetitivo?” Mas essas coisas são tão importantes.
Quando fui salvo, nunca tinha lido a Bíblia. Tudo na Bíblia era novo para mim. Era impressionante. Li o Evangelho de João até que o pequeno exemplar de papel que eu tinha se desfez.
Quando comecei a ler a Bíblia inteira, fiquei cheio de perguntas. Uma delas era sobre Moisés e Arão. Nunca conseguia entender por que continuavam se prostrando com o rosto em terra diante do Senhor.
Para adorar o Senhor, eu entendia. Mas era quando estavam em dificuldades. Toda vez que estavam em dificuldades, Moisés e Arão se prostravam com o rosto em terra diante do Senhor. Eu pensava comigo mesmo: “O que há de errado com esses homens?”
De todos os filhos de Israel, Moisés e Arão deveriam saber o que fazer. Eles tinham a lei. A lei lhes havia sido dada. Sabiam tudo. Por que não diziam simplesmente: “Ah, sim, sim, sim. O Senhor não disse tal e tal coisa? Sim, claro. Está certo. Essa é a resposta”?
Mas continuavam com o rosto em terra diante do Senhor.
Metade do nosso problema ao enfrentar as portas do inferno é que temos respostas técnicas para problemas espirituais. Achamos que podemos respondê-los com teologia. Precisamos nos prostrar com o rosto em terra diante de Deus e permanecer ali até que Deus nos dê luz.
Quando Deus nos dá luz, esse é o primeiro passo no uso das chaves.
Deixem-me tentar explicar um pouco mais. O que quero dizer? Quando o inimigo vem como uma inundação e tudo dá errado — quando é um dia mau, quando parece que Satanás está no comando, todos são abalados até os seus fundamentos, e pessoas que julgávamos tão firmes e sólidas como rocha desmoronam —, de que precisamos?
Precisamos ver o Senhor. Não basta dizer: “É Satanás”. Claro que é Satanás. Mas o que devemos fazer com Satanás?
Alguém diz: “O Senhor disse que as portas do inferno não prevalecerão contra ela”. Ah, então você espera que o Senhor intervenha e faça isso. Você é mais calvinista do que eu pensava.
Você espera que o Senhor intervenha e use as chaves. Então por que o Senhor não disse a Pedro: “Eu mesmo tenho as chaves. Basta deixar por Minha conta, e Eu as usarei”? Por que Ele disse:
A ti dou as chaves do reino dos céus.
— Mateus 16:19
Isso é desconfortável porque, de repente, a responsabilidade vem para nós. Teremos de prestar contas.
Eu não gostaria de estar no lugar daqueles que, ao longo da história da igreja, tiveram responsabilidade, mas ficaram sentados, paralisados, quando tudo deu errado. O Senhor vai dizer: “Eu não lhes dei chaves? Por que não as usaram?”
Agora vocês me dizem: “Por que o Senhor não é mais gracioso?” Ouviram isso? Naturalmente, vocês, bons cristãos, nunca diriam uma coisa dessas; deixam que eu diga algo assim. “Por que o Senhor não é mais gracioso? Ele não entende como somos pobres, indignos e pequenos?”
Ah, certamente Ele entende. É por isso que nos salvou. Agora ouçam isto: o Senhor está treinando vocês, educando vocês.
É o Seu amor e a Sua graça que dizem: “Não farei nada. Não agirei por eles se eles não agirem”.
Vocês perceberam o tempo verbal no grego? É muito difícil expressá-lo em inglês ou, na verdade, em qualquer outra língua. A ideia não é que usemos as chaves, tranquemos alguma coisa, e o céu diga: “Ah, eles trancaram. Está trancado”. Ou que destranquemos alguma coisa, e o céu diga: “Tudo bem. Vocês destrancaram. Está destrancado”.
Não é isso que o texto diz. Você não pode trancar aquilo que Deus não quer que seja trancado, e não pode destrancar aquilo que não é da vontade de Deus destrancar.
Então chegamos ao ponto central da questão: precisamos consultar o Senhor. É por isso que Moisés e Arão se prostravam com o rosto em terra diante do Senhor. “Como lidamos com esta situação? O que fazemos? De que maneira fazemos isso?”
Em outras palavras, precisamos ter luz sobre o assunto. Se o inimigo veio como uma inundação, qual é a chave para essa situação? O que levou a situação a esse ponto?
Oro para que o Senhor dê entendimento sobre esse assunto, porque agora estamos entrando num dos períodos mais conturbados da história mundial. As nações estão numa encruzilhada, especialmente os Estados Unidos.
Precisamos, como nunca antes, dar uma resposta. Queridos, posso dizer algo a vocês? Por favor, não me entendam mal. Isso separa os homens dos meninos.
Os meninos simplesmente dirão: “Estamos confusos. Como podemos usar as chaves? Não sabemos o que fazer”. Mas os homens — aqueles que amadureceram — são os que devem agir em nome do Senhor. Primeiro, porém, é preciso ter luz sobre a situação.
Estou tentado a dar vários exemplos de experiências nessa área, mas não acho que realmente tenhamos tempo para isso. O fato é este: temos causado grande prejuízo a nós mesmos ao negligenciar os dons do Espírito.
Por mais que sejam usados de forma abusiva ou falsificados, os dons do Espírito são os dons do Espírito. Eles são recursos essenciais para enfrentar as portas do inferno.
Deixem-me explicar. Profecia: quantas vezes, quando estávamos de joelhos diante de uma situação — nacional, local ou dentro da congregação —, enquanto buscávamos o Senhor, este ou aquele recebeu uma passagem da Escritura.
Repetidas vezes, duas ou três pessoas receberam a mesma passagem. Então sabíamos que era profético. Entendem? Era como se o Senhor estivesse falando conosco profeticamente, aplicando a Sua Palavra a uma situação.
Considerem a palavra de conhecimento. O que é uma palavra de conhecimento? São os fatos — os fatos. Às vezes, precisamos de uma palavra de conhecimento. Precisamos saber o que está na raiz de um problema. É ciúme? É rivalidade? É doutrina? É imoralidade? É fraude? O que está na raiz?
Às vezes, uma palavra de conhecimento, confirmada por outros — nunca aceita com base em uma única pessoa, sempre confirmada em comunhão —, é a chave para o uso das chaves.
Deixem-me apresentar isso de outra forma: uma palavra de sabedoria. Sabedoria é saber o que fazer com os fatos. Você pode ter os fatos e ainda assim não saber o que fazer. Sabedoria é saber como usar os fatos.
Fé. Nunca entendi meus queridos irmãos e irmãs que não creem nos dons do Espírito de forma alguma. Não consigo entendê-los, porque todos falam do dom da fé. Dizem que Hudson Taylor tinha o dom da fé, Amy Carmichael tinha o dom da fé, este tinha o dom da fé e aquele tinha o dom da fé. Como é que apenas um dom funciona? Não é estranho?
O dom da fé — o que é o dom da fé? É quando a fé se manifesta de repente em você pelo Espírito de Deus.
Vocês já ouviram alguém numa reunião de oração passar de um apelo a uma petição, a um pedido, e então, de repente, alguém orar com fé? Quando realmente é o Senhor, há um testemunho do Espírito em todos os outros membros do corpo, e algo é tocado.
Ou discernimento de espíritos — como precisamos disso. O que é que está aqui dentro?
Agora, sei que há muito, se posso usar o termo, estardalhaço ligado a essa questão dos dons do Espírito. Vi as coisas mais extraordinárias na minha pobre vida — pessoas fazendo as coisas mais estranhas, dizendo as coisas mais estranhas em nome do Senhor, e o Senhor não tem absolutamente nada a ver com aquilo.
Mas isso não significa que não existam verdadeiros dons do Espírito. Eles são essenciais no uso das chaves.
Vocês prestaram atenção em Salmos 110:1? Perceberam como o Senhor disse ao meu Senhor:
Assenta-Te à Minha direita,
Até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés.— Salmos 110:1
Não é este o Senhor Jesus?
Esse salmo é citado no Novo Testamento mais do que qualquer outro. Fala do Messias ressurreto e glorificado à direita de Deus. O Pai diz ao Filho: “Assenta-Te. Não lutes. Assenta-Te até que Eu ponha os Teus inimigos por escabelo dos Teus pés”.
O cetro sairá de Sião. Vocês se lembram:
Domina Tu no meio dos Teus inimigos.
— Salmos 110:2
É este o Senhor Jesus à direita de Deus? Como Ele está governando no meio dos Seus inimigos? Por meio do Seu corpo.
Então o texto diz:
O Teu povo se oferece voluntariamente no dia do Teu poder.
— Salmos 110:3
A palavra em hebraico pode ser traduzida como “no dia do Teu exército”. Em outras palavras, este é o exército do Senhor, e Ele está recebendo voluntários. Você é uma oferta voluntária?
Vou dar um exemplo do que quero dizer sobre o uso das chaves.
Anos atrás — deve ter sido há trinta e cinco ou quarenta anos —, um certo irmão com um ministério real veio ao nosso meio, à congregação de Halford House, na Inglaterra. Ele parecia ter um dom muito real e era uma bênção para muitas pessoas. Mas comecei a ter uma sensação muito estranha.
Eu era tão leal a esse irmão que nunca falei disso com nenhum dos outros irmãos. Apenas tinha aquela sensação estranha. Então comecei a pensar: “Acho que você está com ciúme. Ele parece ter tanto poder, tanta influência. Talvez você esteja com ciúme. Vocês são diferentes em temperamento”.
Mas percebi que as pessoas tão abençoadas pelo ministério dele mudavam de personalidade. Isso me perturbou. Por mais que o Senhor opere em você, sua personalidade continua sendo a sua personalidade. Mas aquelas pessoas começaram a agir como se houvesse outro espírito.
Então ele disse a uma irmã que tinha um histórico de problemas mentais: “Você não nasceu de novo. O Senhor está dizendo isso”. Eu não sabia que ele tinha dito isso. Ele tinha uma linha direta com o céu. Nunca conversava com nenhum dos outros irmãos. Tudo o que o Senhor lhe dizia, ele falava.
Essa pobre irmã foi até o rio Tâmisa e ia se jogar na água. Ela disse: “O que me resta? Nada”. Misericordiosamente, outra irmã caminhava pela trilha junto ao rio, viu-a no exato momento em que ia se jogar, impediu-a e a acompanhou de volta. Isso me preocupou ainda mais.
Naquela época, esse irmão não morava conosco; apenas vinha nos visitar. Então recebi um telefonema de dois irmãos muito queridos que moravam a cerca de cento e sessenta quilômetros dali. Disseram: “Irmão, nós dois queremos ter um dia de jejum e oração. Poderíamos usar a biblioteca de Halford House para isso?”
“Claro”, eu disse. “Com certeza. No sábado. E venham nos ver também.”
Fui vê-los no meio da manhã. Começaram a conversar. Disseram: “Temos orado tanto pela obra do Senhor no sul da Inglaterra, e estamos orando por esta congregação aqui. Você pode nos dizer alguma coisa? Há algo perturbando você?”
“Bem”, eu disse, “acho que sim. Mas não conversei com ninguém sobre isso.”
“Então nos diga o que é”, disseram.
Contei-lhes sobre esse irmão. Eu disse: “Estou com ciúme? É apenas uma diferença de temperamento?” Eles disseram: “Vamos nos ajoelhar”.
Nós três nos ajoelhamos. Nunca esqueci aquela reunião. Entre tantas reuniões grandiosas, nunca me esqueci daquela. Aqueles dois irmãos trouxeram aquele espírito à tona. Não conheciam esse irmão. Nunca o tinham encontrado. Expuseram aquele espírito e o executaram em nome do Senhor.
Aquilo que poderia ter destruído toda a obra foi encerrado naquela manhã — espiritualmente.
O dia seguinte foi o mais extraordinário para mim. Uma após outra, as pessoas cujas personalidades haviam mudado tanto vieram me dizer — e foi isso que todas disseram, sem terem conversado entre si: “De repente, acordei. Perdoe-me. Eu me tornei tão crítico”.
Creio que essa é a chave para a questão. Vejam, eles usaram as chaves. Eu me sentia de mãos atadas, incapaz de usar as chaves. Sentia como se, de alguma forma, fazer aquilo fosse promover a mim mesmo.
É aí que precisamos de comunhão. Quando nós, irmãos, nos reunimos no fim daquele período e conversamos, firmamos um compromisso de que, sempre que tivéssemos novamente um testemunho de algo errado, falaríamos uns com os outros. Nunca mais guardaríamos isso apenas dentro de nós.
Bem, acho que isso basta para uma noite. Mas vamos resumir essa questão? Como usamos as chaves?
As armas que usamos serão a Palavra de Deus. Como é maravilhoso quando o Senhor aplica a Sua Palavra a uma situação e nos dá a Sua Palavra como fundamento para nos firmarmos. Então, juntos, é quase como se estivéssemos girando uma chave na fechadura, ou destrancando alguma coisa, em nome do Senhor.
Depois, há a intercessão, com base nessa Palavra que nos foi dada.
Por fim, há o que chamo de ação executiva. Em nome do Senhor, você toma uma atitude. Você tranca aquilo.
Há muitos outros exemplos disso que eu poderia dar, de coisas que presenciei. Cheguei ao simples reconhecimento e à compreensão de que a autoridade que o nosso Cabeça nos deu é suficiente para impedir todos os propósitos das portas do inferno.
Mas o nosso problema é que poucos de nós amadureceram o suficiente para exercer esse tipo de autoridade.
Você pode falar sobre a igreja. Pode falar sobre as verdades da igreja. Pode falar sobre a Palavra de Deus. Pode estudar a Palavra de Deus. Mas, no fim, o que importa é se você consegue ouvir o que o Senhor está dizendo numa determinada situação e, então, se vocês conseguem agir juntos em nome do Senhor.
Poderia dar muitos exemplos, não apenas relacionados à comunhão e à vida da congregação, mas até a questões nacionais. Lembro-me de alguns dos extraordinários momentos de oração que tivemos, especialmente quando a Grã-Bretanha estava pensando em entrar na União Europeia — naquela época, ela era chamada de Mercado Comum.
Ah, que momentos de oração tivemos. Chegamos ao entendimento de que o Senhor não era favorável a isso. Nós O buscamos ainda mais, recebemos certas passagens da Escritura e nos firmamos nelas.
Todas as pesquisas diziam que a Grã-Bretanha entraria no Mercado Comum no dia seguinte. O Senhor deu uma passagem maravilhosa ao irmão Eric Shore, o irmão que fazia todo o trabalho de edição para T. Austin-Sparks e que estava conosco em Halford House:
A sorte se lança no regaço;
Mas toda a decisão dela vem do Senhor.— Provérbios 16:33
Louvamos o Senhor por uma hora inteira. Tivemos um tempo de adoração tão intenso que quase levantou o telhado. Fomos para casa, e todo o cenário era desanimador. As notícias eram desanimadoras.
Na manhã seguinte, acordamos com a notícia de que o presidente de Gaulle havia vetado a entrada, e a Grã-Bretanha não entrou.
Naturalmente, desde então as coisas mudaram. Muitos anos depois, buscamos o Senhor novamente. Dessa vez, o Senhor disse: “Não Me peçam. Eles vão entrar”. Então deixamos a questão de lado.
Mas o Senhor nos deu uma promessa de que, de todos os cantos da Europa, surgiria um exército para Ele. É extraordinário o que aconteceu em Portugal, na Espanha, na Itália e no Leste Europeu. Milhares e milhares encontraram o Senhor. Ainda é necessário muito mais ensino e profundidade, mas é extraordinário.
O que quero dizer, simplesmente, é isto: aqui vocês têm um salmo extraordinário. Quem o Pai usa para colocar os inimigos no lugar que lhes cabe?
A igreja.
Nós nunca conversamos com o diabo. Nunca tentem fazer isso. Nunca tentem fazer essas declarações. Sempre se escondam no Senhor. Mas não tenham medo.
As portas do inferno não prevalecerão contra a obra de edificação do nosso Senhor Jesus. E não prevaleceram. Repetidas vezes, o Espírito Santo Se moveu numa nova e pequena repetição, quase um Pentecostes, para restaurar algo mais. E isso continuará até o fim.
Que o Senhor use estas pobres palavras para abrir os olhos do nosso coração. Vamos orar?
Senhor, nós realmente precisamos de Ti. Senhor, Tu és o único que pode guardar esta palavra de interpretações equivocadas e mal-entendidos e, ao mesmo tempo, revelá-la a nós.
Perdoa-nos, Senhor, se Tu nos deste responsabilidade e, de algum modo, estamos paralisados, confusos e, nós mesmos, em turbulência. O que faremos? Como enfrentaremos isso?
Senhor, ajuda-nos. Pois Tu mesmo disseste:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Senhor, ajuda-nos a decidir contigo: as portas do inferno não prevalecerão contra ela.
Ajuda-nos, Senhor. Precisamos de Ti. Pedimos isso em nome do nosso Senhor Jesus.