Como estamos ocupados com a obra, precisamos nos afastar um pouco dela, aquietar-nos, descansar e voltar à presença do Senhor — olhar para o Senhor.
Tenho no coração um sentimento semelhante ao que encontramos em 2 Pedro. Já idoso, Pedro exortou os irmãos e as irmãs, dizendo: “Estou aqui para lembrar vocês”, não porque eles não soubessem. Às vezes, precisamos ser lembrados.
Muitas vezes, na igreja e em nosso trabalho, existe o perigo de nos envolvermos tanto com a obra que nos esquecemos do que Deus deseja realizar e obter na obra e na igreja. No início, talvez tenhamos alguma visão e algum encargo, mas as atividades e os esforços exteriores podem ocupar nosso coração. Aos poucos, perdemos a clareza quanto à visão e ao nosso caminho.
Por isso, precisamos reservar um tempo para nos aquietar e voltar ao Senhor. Precisamos colocar o que somos e o que fazemos sob a luz do Senhor, permitindo que Ele nos ilumine, nos lembre novamente e nos encoraje mais uma vez.
Às vezes, no serviço da igreja e na obra, encontramos muitas dificuldades. Por causa delas, podemos perder o ânimo, ficar desanimados, recuar ou fazer concessões para diminuir as dificuldades. Portanto, precisamos nos reunir diante do Senhor e encorajar uns aos outros.
Esse é o motivo de nos reunirmos nesta ocasião. Espero que os irmãos e as irmãs não sintam que há um líder conduzindo esta reunião. Antes, que todos nós venhamos diante do Senhor, esperemos juntos diante Dele e nos aquietemos em Sua presença.
Também desejamos ter comunhão uns com os outros, compartilhando o que o Senhor nos concedeu por graça na obra e na igreja, assim como as dificuldades que encontramos. Por meio dessa comunhão, podemos receber ajuda de muitos irmãos e irmãs.
Como temos apenas dois dias, precisamos definir um âmbito para este encontro. Pela manhã, consideraremos a palavra do Senhor. À tarde, vamos nos dedicar à comunhão sobre os assuntos considerados pela manhã. À noite, dedicaremos todo o tempo à oração.
Espero que os irmãos e as irmãs se sintam à vontade. Não estamos aqui apenas para realizar uma reunião; estamos aqui para nos reunir diante do Senhor e ter comunhão uns com os outros.
Enquanto esperava diante do Senhor, senti que nesta manhã deveríamos ter um pouco de comunhão sobre a essência da igreja e da obra. Qual é a essência da igreja? Qual é a essência da obra? Amanhã pela manhã, esperamos ter comunhão sobre a relação entre a igreja e a obra.
Nesta manhã, gostaria de compartilhar sobre a essência da igreja. Afinal, o que é a igreja? Muitas vezes, usamos o termo igreja de maneira imprecisa e, sem perceber, perdemos a clareza quanto à sua essência. Podemos até confundir a igreja com a obra.
A igreja não é meramente uma reunião de pessoas, nem é um produto da história. Muitas vezes, as pessoas pensam que a igreja é o conjunto das opiniões humanas. As pessoas expressam seus pensamentos e suas opiniões e, de acordo com seus conceitos, estabelecem uma igreja. Isso são opiniões humanas.
Em outras ocasiões, as pessoas pensam que a igreja é apenas um produto da história — que, depois de dois mil anos, ela se transformou junto com a história e que cada época deve ter um tipo de igreja correspondente ao seu contexto histórico. Mas a igreja não é nada disso.
Hoje, há muita confusão no cristianismo por causa das opiniões humanas e porque as pessoas pensam que a igreja muda junto com a história. Quando falamos da igreja, precisamos voltar ao pensamento original de Deus.
As Escrituras nos mostram que, antes da fundação do mundo, Deus estabeleceu um mistério em Seu Filho. Esse mistério foi concebido na eternidade passada, no coração de Deus, segundo a Sua vontade. Esse propósito estava em Seu Filho; em outras palavras, era para Seu Filho.
Deus ama Seu Filho e deseja expressar Seu amor por Ele. O amor não é apenas uma palavra; o amor precisa ter uma expressão concreta. Porque Deus ama Seu Filho unigênito, Ele daria todo o universo a Seu Filho. Contudo, em meio a todas as coisas, Deus tem uma dádiva singular para Seu Filho amado: essa dádiva é a igreja.
Aos olhos de Deus, ainda não é suficiente que Seu Filho herde toda a criação. Seu Filho precisa de uma companheira — um grupo de pessoas que compartilhem Sua vida e Seu caráter e sejam cheias de Sua imagem e de Seu caráter, para que Seu Filho encontre consolo.
Esse conceito da igreja não se originou nas pessoas, nem foi um produto da história humana. Foi estabelecido na eternidade passada, quando Deus propôs que Seu Filho amado tivesse um grupo de pessoas feitas uma só, para que fossem o corpo de Seu Filho e também Sua companheira.
Quando Deus criou o ser humano, criou homem e mulher. Ele criou Adão do pó da terra, soprou em suas narinas o fôlego de vida, e Adão tornou-se uma alma vivente.
No entanto, Deus disse que não era bom que o homem vivesse sozinho. Embora Deus tivesse preparado os céus e a terra para que o homem pudesse exercer domínio e desfrutar de toda a Sua criação, Deus ainda disse que não era bom que o homem estivesse só.
Em Gênesis, Deus fez Adão cair em um sono profundo. Tirou algo de Adão, formou uma mulher e a trouxe até ele. Adão disse:
Esta é agora osso dos meus ossos,
e carne da minha carne.
Na tipologia, vemos que Deus já havia estabelecido esse propósito em Seu Filho. Criar o universo para Seu Filho era apenas uma questão exterior; interiormente, Deus não estava satisfeito. Por isso, Ele criou o ser humano e o redimiu, para que nós, os redimidos, possuíssemos a vida de Seu Filho, fôssemos conformados à imagem de Seu Filho, sofrêssemos com Seu Filho e fôssemos glorificados com Seu Filho.
Isso é a igreja. A igreja é o propósito eterno de Deus.
Esse propósito permaneceu um mistério ao longo dos séculos. Efésios nos diz que era o mistério de Deus oculto através dos séculos. No Antigo Testamento, havia tipos e sinais — como Adão e Eva —, e os profetas deram indicações do propósito de Deus. Ainda assim, ele permanecia um mistério oculto em Deus.
Deus não proclamou publicamente o que estava oculto em Seu coração porque o tempo ainda não havia chegado. Mas, na plenitude dos tempos, como nos diz Gálatas 4:4-5, o Filho de Deus veio ao mundo, nascido de mulher e nascido sob a lei, para nos redimir da maldição da lei, a fim de que recebêssemos a filiação.
Quando nosso Senhor Jesus veio à terra, Seu viver e Sua obra revelaram esse propósito oculto. Ele nos mostrou o tipo de homem que Deus procurava.
Assim como Adão entrou em um sono profundo, nosso Senhor Jesus, ao final de Sua vida terrena, foi crucificado na cruz. Ele passou pela morte, e Dele saíram sangue e água. Com aquilo que tirou Dele, Deus edificaria.
A igreja não é apenas o propósito eterno de Deus; ela também é a obra que o Senhor Jesus realizou na terra. Sem a obra do Senhor Jesus Cristo, não haveria como a igreja se manifestar na terra, por causa da corrupção humana.
O Senhor derramou Seu precioso sangue para lavar nossos pecados. Por meio de Sua morte e ressurreição, Ele nos concedeu vida. Dessa maneira, Deus tem o material com o qual edificar Sua igreja.
O Senhor Jesus disse:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja;
e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
Essa rocha é nosso Senhor. Ele edifica Sua igreja sobre Si mesmo, usando Seu próprio material entre os seres humanos para obter aquilo que procura. A igreja não é apenas o propósito de Deus; é também a obra do Filho de Deus.
Embora o Senhor tenha realizado a redenção na terra, Ele disse:
Edificarei a Minha igreja.
Enquanto estava na terra, Ele ainda não havia edificado a igreja. Ele veio preparar o caminho da redenção, porque, sem esse caminho, não haveria como a igreja ter início.
Enquanto esteve na terra, o Senhor chamou discípulos para segui-Lo. Eles receberam Sua vida, passaram a conhecê-Lo, aprenderam com Ele e conheceram Sua imagem e Seu caráter. Esse foi o trabalho fundamental de preparação para que correspondessem a Ele em vida e caráter e se tornassem Sua companheira.
Depois da ascensão do Senhor, no dia de Pentecostes, o Espírito Santo foi derramado. Atos 2 nos mostra que, quando os cento e vinte estavam reunidos no cenáculo, o Espírito Santo desceu, e, em um só Espírito, eles foram batizados em um só corpo.
Como nos diz 1 Coríntios 12:13:
Pois em um só Espírito fomos todos batizados em um só corpo,
quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres;
e a todos nós foi dado beber de um só Espírito.
A igreja surgiu no dia de Pentecostes. Antes disso, os cento e vinte eram salvos individualmente e amavam o Senhor, mas ainda eram apenas uma multidão. Quando o Espírito Santo os batizou em um só corpo, eles se tornaram membros de um só corpo — um organismo vivo.
Naquele mesmo dia, três mil pessoas foram salvas e também foram batizadas pelo Espírito Santo nesse único corpo. Por meio da comunhão do Espírito Santo, a igreja cresce, amadurece e chega à plenitude da estatura de Cristo.
Por meio do Espírito Santo, o mistério oculto através dos séculos foi agora revelado aos apóstolos e profetas. O mistério oculto tornou-se um mistério manifesto. Hoje, podemos saber o que é a igreja e conhecer sua origem.
A origem da igreja é o Deus Triúno: o propósito de Deus, a redenção de Cristo e a comunhão do Espírito Santo. Somente isso pode revelar a igreja. Precisamos nos lembrar disso com frequência, porque, em meio às muitas ocupações da igreja, podemos nos esquecer.
A igreja não é um edifício material. A igreja é o povo redimido — a ekklesia, aqueles que Deus chamou para fora do mundo, de toda tribo, língua e nação, e reuniu.
A igreja não é uma organização, um sistema ou algo exterior. A igreja é um organismo. É o povo redimido de Deus reunido como um só corpo, tendo Cristo como a Cabeça.
No entanto, não podemos simplesmente dizer que a igreja é a totalidade de todas as pessoas redimidas em um sentido exterior. Cada um de nós tem Cristo e a vida de Cristo, mas cada um de nós também carrega a vida natural, a carne e o ego.
Quando nos reunimos, a vida de Cristo em nós se reúne, mas o velho homem e o ego também podem se reunir. Se chamarmos essa mistura de igreja, então a igreja teria muitas imperfeições, manchas, rugas, deficiências e problemas.
A rigor, diante de Deus, a igreja é gloriosa, embora, aos nossos olhos, hoje ela pareça cheia de imperfeições. O que é, então, a igreja?
1 Coríntios 12:12 nos diz:
Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros,
e todos os membros do corpo, embora muitos, são um só corpo;
assim também é Cristo.
Talvez pensemos que Paulo deveria ter dito: “Assim também é a igreja”. Mas ele diz: “Assim também é Cristo”. A razão é que, diante de Deus, a igreja é Cristo. Tudo o que está fora de Cristo precisa passar pela cruz e ser levado ao fim pela cruz. O que permanece é Cristo.
A igreja é a extensão de Cristo; é o próprio Cristo expresso. Portanto, nós, os redimidos, precisamos vir diante do Senhor e passar por muita aflição, treinamento, disciplina e experiências em que somos levados ao fim de nós mesmos.
Caso contrário, aquilo que Deus estabeleceu, que Cristo comprou com Seu precioso sangue e que o Espírito Santo procura realizar não poderá vir à expressão. A essência e o conteúdo da igreja não admitem mistura. Na igreja, não há nada além de Cristo.
Se realmente enxergarmos a igreja, só poderemos nos prostrar diante de Deus e permitir que a cruz faça uma obra mais profunda em nós. Caso contrário, Deus não poderá obter essa igreja como a companheira de Seu Filho, porque não fomos conformados à Sua imagem.
Quando falamos da igreja, não se trata apenas de uma doutrina. Precisamos enxergar a igreja em sua essência e em seu conteúdo. Essa é uma grande lição e uma grande advertência. A cada momento, precisamos examinar a nós mesmos, para não introduzirmos o nosso próprio ego na igreja e contaminarmos o corpo.
Quanto à edificação da igreja, Deus nos chamou para trabalhar com Ele. Contudo, na realidade, a edificação da igreja não é algo que o ser humano possa realizar. O próprio Senhor disse:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja.
A edificação da igreja está nas mãos do Senhor. Somente o próprio Senhor pode edificar Sua igreja. Somente Deus pode edificar a igreja; somente o Espírito Santo pode edificar a igreja. Podemos ser usados por Deus, mas a edificação não está em nossas mãos.
Porque a igreja é tão preciosa — a companheira eterna que Deus dá a Seu Filho, santa, gloriosa e perfeita —, nenhum de nós está qualificado para edificá-la por conta própria.
Quando as pessoas tentam edificar a igreja, estão apenas brincando de igreja. O resultado da edificação humana é Babel, não a igreja. Precisamos confessar que o próprio Cristo deve edificar a igreja.
Somos a obra de Suas mãos. Primeiro, precisamos permitir que Ele trabalhe em nós. Então, a partir do que Ele fez em nós, poderá realizar por nosso intermédio a obra que deseja.
Todos nós podemos ser pessoas que servem na igreja, mas, na realidade, não somos nós que fazemos a obra. O Senhor realiza Sua obra por nosso intermédio. A verdadeira edificação não é nossa; somos apenas usados pelo Senhor.
Sempre que nós mesmos queremos edificar a igreja, os problemas surgem imediatamente. Precisamos nos lembrar com frequência de que somente Cristo pode edificar a igreja. Vamos ao Senhor e dizemos: “Senhor, esta é a Tua obra. Eu não posso realizá-la, mas estou disposto a me entregar em Tuas mãos. Faze primeiro uma obra em mim e, depois, trabalha por meu intermédio”.
O próprio Senhor edifica Sua igreja, mas como Ele a edifica? Segundo as Escrituras, no dia de Pentecostes, a igreja nasceu na terra.
Primeiro, o Senhor ganhou um grupo de pessoas em Jerusalém. Dentro da mesma esfera, elas foram batizadas em um só corpo e se levantaram para dar testemunho do Senhor. Isso aconteceu em Jerusalém.
Nos primeiros capítulos de Atos, vemos que, diariamente, o Senhor acrescentava aqueles que estavam sendo salvos. No sentido original, Ele os acrescentava a Si mesmo. Isso é significativo. Se as pessoas são apenas acrescentadas a uma organização exterior, podemos pensar na igreja como uma instituição. Mas ser acrescentado ao próprio Senhor é ser unido a um organismo.
Os crentes em Jerusalém talvez fossem dez ou vinte mil. Eles gostavam de se reunir, mas não queriam se dispersar. Por isso, o Senhor usou a perseguição para dispersá-los, e eles foram por toda parte pregando o evangelho.
No processo de edificação da igreja, o Senhor trabalha localidade por localidade. Em cada localidade, o evangelho é pregado, pessoas são salvas e se reúnem para viver para Cristo, expressar Cristo em seu viver, manifestar a vida e a glória de Cristo e dar testemunho Dele.
De Jerusalém, o testemunho foi para Samaria, para a Judeia e até os confins da terra. Onde quer que o evangelho chegue, ali a igreja nasce e ali os crentes dão testemunho do Senhor.
Quando o evangelho chegou a Taiwan, grupos de crentes se reuniram em Taipei, Kaohsiung, Tainan e em muitas outras localidades. Localidade após localidade, região após região, grupos de pessoas se reuniram em nome do Senhor.
O Senhor disse:
Porque onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome,
ali estou Eu no meio deles.
Como ainda vivemos na carne, somos limitados pelo tempo e pelo espaço; portanto, precisamos de uma localidade. Não se trata apenas de um indivíduo, mas de dois ou três reunidos. O menor número capaz de representar um corpo é dois ou três.
Reunir-se em nome do Senhor é reunir-se sob Sua autoridade — tomar Cristo como a Cabeça. É preciso haver uma Cabeça para que possa haver um corpo. Se houver muitas cabeças, não poderá haver um só corpo.
Sejam dois ou três crentes, sejam dez ou vinte mil, se eles se reúnem sob a direção e a autoridade de Cristo, em unidade manifestam Cristo, e a presença de Deus está no meio deles. É dessa maneira que o Senhor edifica.
O método de edificação do Senhor é por meio da localidade. Não é abstrato; começa em cada localidade. Contudo, há apenas uma igreja universal, porque há apenas uma Cabeça, Cristo, e a igreja é Seu único corpo.
No sentido universal, desde a primeira igreja até o dia em que o Senhor vier receber Sua noiva, todos os redimidos estão na única igreja. Isso está além das limitações do tempo e do espaço. Todos os redimidos, em sua totalidade, constituem Seu corpo.
A igreja universal começa com a igreja local. Essa obra não é abstrata; é muito prática.
Em Apocalipse 2–3, vemos sete igrejas locais na Ásia. O Senhor Jesus, nosso Sumo Sacerdote, anda no meio dos sete candeeiros de ouro. Ele está edificando, iluminando, falando, corrigindo e revelando a Si mesmo às igrejas.
O Senhor fala às sete igrejas e edifica cada assembleia local. Mas, quando chegamos a Apocalipse 21–22, já não vemos assembleias locais. Vemos apenas uma Nova Jerusalém, que desce do céu, da parte de Deus, cheia de Cristo.
No início de Apocalipse, o Senhor está edificando. No final de Apocalipse, Ele obteve o que procura: a igreja universal. O processo de edificação é real e prático.
A comissão e o testemunho da igreja na terra são apresentados em Apocalipse como o testemunho dos sete candeeiros de ouro. A igreja é como um candeeiro.
O candeeiro é de ouro puro. No tabernáculo, apenas duas peças eram de ouro puro: o propiciatório e o candeeiro. Os outros objetos eram de madeira revestida de ouro.
Talvez pensemos que o candeeiro deveria ser de madeira revestida de ouro, porque representa pessoas redimidas. No entanto, surpreendentemente, o candeeiro é de ouro puro, porque o candeeiro é Cristo. Toda a madeira precisa ser removida; não pode haver madeira nele.
O candeeiro não é o objetivo; é um meio. A igreja não é o objetivo. A igreja existe para Cristo. Cristo é o objetivo.
Para que serve o candeeiro? Ele sustenta a luz para que ela ilumine todo o lugar. Um candeeiro não é uma decoração. Sua finalidade é iluminar, e Cristo é a verdadeira luz.
A missão e o testemunho da igreja são exaltar Cristo. Como Paulo diz em Filipenses, no meio de uma geração corrupta e perversa, brilhamos como luzes. Contudo, essa luz não somos nós; a luz é Cristo.
1 Pedro fala de um sacerdócio real e de uma raça eleita. Nosso propósito é proclamar Aquele que realizou uma redenção gloriosa — pregar Cristo.
A igreja não prega a si mesma. A igreja prega Jesus Cristo. A igreja não toma a si mesma como alvo. Ela é apenas um instrumento do Senhor na terra.
Às vezes, fazemos da própria igreja o alvo. Falamos sobre a igreja o dia inteiro e nos esquecemos de Cristo. Então, perdemos o testemunho e a missão da igreja. Se as pessoas conseguem ver apenas a igreja, mas não conseguem ter contato com Cristo na igreja, nós falhamos.
A igreja é apenas o meio; o alvo é que o Senhor seja alcançado.
Na igreja, as pessoas muitas vezes dão atenção às atividades, mas não dão atenção suficiente ao viver da igreja. Pode haver muitas atividades, mas muito pouco viver.
O que é o viver da igreja? Naturalmente, é expressar Cristo no viver. Esse corpo existe com a finalidade de manifestar Cristo.
Se descrevermos o viver prático da igreja com um único versículo, esse versículo é Atos 2:42:
E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão,
no partir do pão e nas orações.
Os redimidos em Jerusalém dedicavam-se continuamente ao ensino dos apóstolos, à comunhão, ao partir do pão e às orações. Essa é a base da vida da igreja.
Na língua original, apóstolos está no plural, mas ensino está no singular. Havia muitos apóstolos, mas cada um não tinha seu próprio ensino. Eles tinham um só ensino e uma só comunhão.
Os apóstolos receberam seu ensino do Senhor e ensinaram aquilo que receberam. Eles não tinham um ensino próprio. Portanto, o ensino dos apóstolos é o ensino do Senhor.
Não temos um novo ensino próprio. Ensinamos fielmente o que o Senhor ensinou e compartilhamos em comunhão o que Ele revelou. Não podemos ensinar apenas uma parte do que Ele nos deu; precisamos ensinar todo o conselho de Deus.
Não podemos tomar uma verdade e fazer dela o centro. Toda a verdade tem um único centro: Cristo. Cristo é o centro.
As muitas verdades são como os raios de uma roda. Cristo é o cubo, e os diversos ensinamentos das Escrituras são os raios. A roda é a igreja.
Cada raio parte de Cristo e chega até a circunferência da igreja. Se uma verdade recebe uma ênfase maior do que lhe é devida, ou se outra verdade é negligenciada, a roda não pode funcionar adequadamente. Precisamos ter a plenitude e o equilíbrio da verdade, com Cristo como o centro.
Toda a verdade nos é dada para nos conduzir a Cristo, porque Cristo disse:
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida.
Esse ensino não é apenas palavras. É espírito e vida. Pedro não tinha seu próprio ensino, e Paulo não tinha seu próprio ensino. A comunhão deles era uma só.
Em 1 João 1:1-3, João diz que ele e os outros apóstolos tinham comunhão com o Pai e com o Filho e que anunciavam essa comunhão aos crentes. A comunhão é a comunhão do Pai e do Filho no Espírito, e, por meio dos apóstolos, somos introduzidos nela.
Na prática, o conteúdo de nossa comunhão é o próprio Cristo. Como temos uma só comunhão, podemos ter comunhão uns com os outros. Quando recebemos essa comunhão, nosso viver manifesta Cristo, e podemos viver a vida do corpo.
Isso é muito prático em duas questões: o partir do pão e a oração. No partir do pão, lembramos do Senhor. Esse é o viver da igreja.
Quando partimos o pão, temos comunhão com o Senhor e com todos os filhos de Deus. O pão representa Cristo e o corpo de Cristo. Por um lado, Ele entregou a Si mesmo por nós; por outro, o pão partido representa o corpo que foi partido.
Quando lembramos do Senhor no partir do pão, voltamos ao Senhor. Na vida da igreja, o partir do pão é muito importante, e a oração também é importante. Precisamos nos reunir para orar.
Muitas vezes, a vida da igreja é deficiente porque não há o partir do pão e a oração. Conforme as circunstâncias permitirem, precisamos aproveitar cada oportunidade para nos reunir para essas coisas. Isso nos proporciona a realidade da vida da igreja.
Ainda temos algum tempo para falar sobre a obra. Muitos irmãos e irmãs têm participado dela. Alguns acumularam muitos anos de experiência, enquanto outros talvez estejam apenas começando.
Independentemente de há quanto tempo servimos, especialmente nós, que servimos ao Senhor há muitos anos, precisamos ainda mais ser lembrados. Quando estamos na obra há muito tempo, ela pode se tornar um hábito, e nos esquecemos de para que estamos trabalhando.
Segundo a revelação das Escrituras, a obra de Deus é uma só. Deus pode fazer muitas coisas, mas, em princípio, Sua obra tem um único propósito.
Em João 6:27, depois que a multidão foi alimentada com cinco pães e dois peixes, as pessoas foram procurar o Senhor. Ele disse:
Trabalhai, não pela comida que perece,
mas pela comida que permanece para a vida eterna.
Elas perguntaram:
Que faremos para realizar as obras de Deus?
O Senhor respondeu:
A obra de Deus é esta:
que creiais Naquele que Ele enviou.
Elas perguntaram sobre as obras de Deus, no plural, mas o Senhor respondeu sobre a obra de Deus, no singular. Deus tem uma só obra: que creiamos Naquele que Ele enviou.
O conceito humano é fazer muitas coisas. O conceito de Deus é que creiamos Naquele que Ele enviou. Não se trata, em primeiro lugar, de fazermos alguma coisa; é Deus Quem faz a obra, e Sua obra é que creiamos em Seu Filho.
Em João 5:17, o Senhor disse:
Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho.
Deus tem trabalhado desde a criação. Quando o Senhor Jesus veio, Ele trabalhou, mas o que fazia era aquilo que Deus estava fazendo. Ele disse que não podia fazer nada de Si mesmo, mas somente aquilo que via o Pai fazer.
Depois, em João 14:12, o Senhor disse que Seus seguidores também fariam as obras que Ele fazia. O Senhor realizou a obra do Pai na terra; hoje, nós realizamos Sua obra. Não fazemos nossa própria obra.
Qual é a obra do Pai? É que creiamos em Seu Filho, para que Seu Filho seja Senhor sobre toda a criação, nos encha, tenha autoridade em nós, seja glorificado e nos conforme à Sua imagem.
À medida que o corpo amadurece, o Senhor virá novamente para recebê-lo. Essa é a obra de Deus. A obra de Deus é uma só, embora Ele faça muitas coisas. Todas essas muitas coisas existem em função de uma única obra: que Seu Filho seja Senhor de tudo e obtenha Seu único novo homem.
Podemos realizar muitos trabalhos diferentes. Alguns pregam o evangelho, alguns edificam os crentes, alguns fazem visitas, e outros realizam muitos outros serviços. Contudo, não podemos nos esquecer do princípio da obra: o propósito da obra é um só.
Se nosso trabalho se torna um objetivo em si mesmo e se separa da obra de Deus, então, diante de Deus, ele se torna madeira, feno e palha.
Por exemplo, se pregamos o evangelho apenas para que as pessoas sejam salvas, escapem do inferno e vão para o céu, e fazemos disso o propósito de nosso trabalho, então perdemos de vista o propósito de Deus.
Pregamos o evangelho para levar as pessoas a Cristo, para que, em Cristo, elas cresçam e amadureçam. Como Paulo diz em Colossenses 1:28, proclamamos Cristo para apresentar todo homem perfeito em Cristo.
Levar pessoas à salvação não é o propósito final. Edificar os irmãos e as irmãs também não é o centro da obra. O propósito da obra é que a obra de Cristo seja realizada.
Podemos realizar muitos trabalhos diferentes, mas todos os nossos trabalhos precisam estar unidos para a realização da única obra de Deus. Precisamos perguntar a nós mesmos: para que estamos aqui? É apenas para levar as pessoas à salvação, a compreender a Bíblia ou a se tornarem mais ricas na vida espiritual? Essas coisas não são o alvo final.
A obra de Deus é trabalhar em cada um de nós para nos integrar a Cristo, de modo que Cristo seja formado em nós. Isso não é individualista. Essa obra reúne todos os irmãos e as irmãs como um só corpo, e todo o corpo edifica a si mesmo em amor.
Quando enxergamos a obra de Deus, imediatamente percebemos que somente Deus pode realizá-la. Nós não podemos realizá-la por nós mesmos.
A obra é o transbordar da vida. Portanto, precisamos permitir que o Senhor faça uma obra mais profunda em nós. Se não tivermos essa obra mais profunda de Cristo, a vida não poderá transbordar.
A riqueza e a medida da vida determinam a medida de nossa obra. Conforme a medida da vida de Cristo que foi constituída em nós, haverá uma obra exterior correspondente. É isso que Deus procura.
Paulo não apenas pregou Cristo, e Este crucificado; ele mesmo serviu em fraqueza, temor e muito tremor, não com a sabedoria humana, mas em demonstração do Espírito e de poder.
Ao trabalharmos hoje, precisamos examinar a nós mesmos. Estamos trabalhando a partir de nós mesmos e trazendo as pessoas para nós? Ou nossa obra procede de Deus e de Sua vida, levando as pessoas a Cristo?
Também precisamos nos lembrar de nosso alvo final enquanto trabalhamos e servimos: que Deus seja manifestado e receba Sua glória. Quando o Filho recebe glória, Deus fica satisfeito.
Isso não é uma questão pequena. Como pessoas que servem, estamos servindo ao Senhor e realizando a obra de Deus. Não é algo que possamos tratar levianamente.
Que aproveitemos cada oportunidade para nos lembrar dessas coisas e examiná-las novamente. Essa é a nossa comunhão nesta manhã.