Fomos à Inglaterra procurar vestígios do movimento dos Irmãos. Vimos muita coisa, mas também voltamos com o coração pesado. No passado, o Senhor usou grandemente muitos irmãos, entre eles John Wesley, George Müller, os morávios e os irmãos de Norwich.
No entanto, as condições de hoje são muito inferiores às do passado. Mesmo quando Christian Chen e eu estivemos lá, a situação era muito precária. Um dos irmãos que lideravam entre eles disse algo que nos deixou profundamente abatidos: “Este lugar é muito conhecido. Gorbachev veio aqui quando visitou a Inglaterra e, depois da Segunda Guerra Mundial, uma grande convenção foi realizada aqui”.
Tínhamos ido ali em busca de evidências e vestígios da obra do Senhor, mas o que vimos foram coisas totalmente desligadas da obra do Senhor. Pensávamos que, como obreiros, estávamos levando os irmãos e as irmãs a andar juntos nesse caminho. Pensávamos que aquilo que havíamos recebido devia ser o mesmo que os irmãos haviam recebido no passado.
Mas não entendíamos por que o Senhor havia permitido que isso acontecesse. Vimos evidências de coisas que o Senhor havia feito no passado, mas tudo havia caído em desordem. Isso nos deixou profundamente abatidos, e ficamos nos perguntando o que havia acontecido.
Nesta manhã, Stephen mencionou que precisamos rever o que o Senhor nos mostrou, como Ele nos deu isso e como precisamos segui-Lo. De fato, precisamos ser renovados — não apenas os obreiros, mas também os irmãos e as irmãs na igreja.
Todos nós precisamos de renovação. Caso contrário, pouco a pouco, podemos caminhar até chegar a um ponto em que tudo se reduza a nada. Também fomos à Morávia para ver os irmãos morávios, e a situação deles também era muito precária.
Compartilho esse sentimento para reforçar o chamado do irmão Stephen à revisão e à reavaliação. Precisamos mesmo nos apresentar diante do Senhor e reconsiderar essas coisas.
João 6 fala da obra de Deus. A pergunta é:
Que faremos para realizarmos as obras de Deus?
Jesus respondeu que a obra de Deus é crer Naquele que Deus enviou.
A obra de Deus é esta: que creiais Naquele que Ele enviou.
— João 6:29
Li essa passagem há muitos anos, mas não a compreendi. Mesmo agora, não afirmo compreendê-la plenamente. Se tudo de que preciso é crer no Senhor, então por que devo me reunir, pregar o evangelho, participar das reuniões, fazer a limpeza e tantas outras coisas?
Então, em João 14, o Senhor diz que aqueles que creem Nele farão as obras que Ele faz, e obras ainda maiores, porque Ele vai para o Pai. Ele ensinou as pessoas, curou as pessoas e expulsou demônios. Que tipo de obra devemos fazer?
O primeiro ponto é que a obra de Deus é a obra de Deus. Nosso conceito natural é sempre fazer alguma coisa. Sempre que ouvimos a palavra obra, pensamos em fazer alguma coisa. Mas as Escrituras nos dizem claramente que a obra de Deus só pode ser feita pelo próprio Deus. Somos completamente incapazes de fazer a obra de Deus.
O nosso crer é a obra de Deus. Porque cremos Nele, Ele opera em nós; e aquilo que Ele realizou se manifesta a partir do nosso interior. Continua sendo Deus quem opera, não nós.
O Senhor disse:
As obras que Eu faço também fareis;
e obras maiores do que estas fareis, porque Eu vou para o Pai.
— João 14:12
Quando nosso Senhor estava na terra, Ele era uma única Pessoa, realizando uma obra preparatória e fundamental. Sem essa obra fundamental, seria impossível edificarmos sobre ela.
Mas, quando Ele foi para o Pai, tornou-Se nosso grande Sumo Sacerdote e derramou o Espírito Santo, que habita em nós. Dessa maneira, a obra de Cristo pode ser expressa por meio do Seu Corpo. Talvez seja esse o significado das obras maiores.
Foi levantada uma pergunta a respeito da evangelização de imigrantes chineses em um país de língua inglesa. Se alguém tem um encargo de ensinar a Bíblia aos chineses, o que deve fazer para preservar a igreja como o testemunho do Corpo de Cristo?
Essa pergunta surge da dificuldade de distinguir a relação entre a igreja e a obra. A igreja não existe para a obra; pelo contrário, a obra existe inteiramente para a igreja.
Uma pessoa pode se dedicar à obra do evangelho, mas não perceber que o desejo do coração de Deus é a igreja — não apenas certo tipo de obra. Não podemos dizer que essa obra esteja errada. Há necessidade de trabalho, e muitos o realizam fielmente. Mas, se isso for tudo, fica aquém do propósito eterno de Deus.
Precisamos daquilo que Paulo chamou de visão celestial. Sem essa visão, podemos simplesmente tentar suprir certas necessidades, mas isso não é a verdadeira edificação da igreja.
Se o Senhor mostrou algo a um irmão ou a uma irmã, essa pessoa deve primeiro orar para que o Senhor abra os olhos dos demais irmãos e irmãs, para que vejam todo o conselho de Deus. Não devem permanecer ocupados apenas com um encargo por determinado povo ou por determinada obra.
Por outro lado, aquele que viu algo deve compartilhar a respeito da igreja. Se o Senhor lhe mostrou alguma coisa, então você precisa ensinar e ter comunhão com os outros irmãos e irmãs. Mas isso não significa que os outros tenham de ouvir simplesmente porque você compartilhou. Se não ouvirem, você não deve ficar irado.
Devemos ter comunhão tanto quanto pudermos. Contudo, o único que pode abrir nossos olhos para vermos é o próprio Deus. O homem não pode fazer absolutamente nada nessa questão.
Lembro-me de que T. Austin-Sparks me contou pessoalmente que, quando Deus lhe mostrou Seu propósito eterno, ele era pregador na denominação batista. Começou a compartilhar e a ter comunhão com os outros. Depois de um ano, apenas um irmão havia sido ganho — apenas um havia sido verdadeiramente conquistado por essa visão e tido seus olhos abertos.
Assim, sabemos que as coisas espirituais só podem ser realizadas pelo próprio Deus, por meio do Espírito Santo. Se Deus nos mostrou alguma coisa, precisamos ser fiéis e humildes ao ter comunhão com nossos irmãos e irmãs. Nunca devemos achar que aquilo que vimos nos torna superiores aos outros.
Nas coisas espirituais, não existe segunda geração. Cada geração precisa ser uma primeira geração diante do Senhor. A obra do Senhor por meio de John Wesley, George Müller, dos irmãos morávios e de outros continua exercendo uma influência invisível sobre as gerações posteriores.
Muitas vezes queremos ver evidências materiais, mas devemos entender que o efeito da obra do Senhor não permanece necessariamente com as pessoas originais ou no lugar original. Até nós recebemos algo da influência que esses irmãos deixaram, embora seus grupos originais pareçam ter desaparecido.
Hoje enfrentamos o mesmo problema. Precisamos vigiar ao trabalhar. Não devemos buscar nossa própria segunda geração. Em vez disso, devemos esperar que os jovens a quem servimos se tornem uma primeira geração diante do Senhor.
Deus precisa realizar Sua própria obra em cada geração. Ao entrarmos no século XXI, não podemos simplesmente copiar o que o Senhor fez no século XVIII. Neste século, o Senhor tem Sua própria palavra e Sua própria obra para os jovens de hoje.
Só podemos fazer aquilo que o Senhor nos confiou hoje. Não podemos ser responsáveis pela história futura. Talvez o Senhor seja misericordioso, e aquilo que fazemos dure por muito tempo, embora não permaneça como uma evidência visível para as pessoas verem.
Algumas pessoas estão abertas, enquanto outras estão fechadas. Algumas pensam que aquilo que viram é tudo e, quando você tem comunhão com elas, não conseguem receber nada de você. Mas, se alguém está aberto, você pode ver a graça de Deus vindo sobre essa pessoa.
Portanto, se um irmão ou uma irmã vive numa situação assim, primeiro aprenda a ser paciente. Segundo, ore diante do Senhor, pedindo que o Espírito Santo o oriente sobre como andar no caminho que está à sua frente.
Não devemos limitar nossa visão a um pequeno grupo. Não podemos obrigar as pessoas a seguir o Senhor, mas há muitos filhos de Deus que têm, de fato, um coração voltado para Ele.
Por exemplo, quando estávamos em Minnesota, tínhamos muito pouco. Havíamos lido alguns livros dos irmãos e, mais tarde, fomos a Richmond. Aos poucos, um grupo de irmãos e irmãs se levantou para seguir a comunhão. Até irmãos mais velhos vieram ao nosso meio e perguntaram: “Como vocês descobriram algo assim? Por que estão dispostos a seguir esse caminho?”.
Há muitos irmãos e irmãs dispostos a seguir o Senhor. Se tivermos um coração voltado para aqueles que ainda não tiveram contato com essas mensagens preciosas, talvez descubramos que muitos têm esse desejo.
Agora estamos em Baltimore. No início, havia um grupo de irmãos e irmãs simples e puros. Gradualmente, por meio da comunhão com eles, um bom número começou a buscar o Senhor. Creio que o Senhor continua trabalhando.
Muitas pessoas talvez ainda não tenham tido contato com essas coisas, mas têm um coração disposto. Quando ouvirem mensagens tão preciosas, poderão seguir. Portanto, precisamos ampliar nosso coração e dar a muitos irmãos e irmãs oportunidades de receber ajuda.
Nosso ambiente é semelhante. Vivemos num mundo de língua inglesa, entre novos convertidos, pessoas que não creem, pesquisadores visitantes da China e estudantes chineses. Pregamos o evangelho, e muitos creem no Senhor, um após outro.
Nós os ajudamos a buscar o Senhor e a crescer. Durante esse processo, aprendemos muito. No início, líamos livros e ficávamos entusiasmados com o que havíamos lido. Mas, quando compartilhávamos essas coisas em comunhão, as pessoas muitas vezes recebiam pouca ajuda, e ficávamos com o coração pesado.
Antes, usávamos muita terminologia espiritual — quebrantamento, a cruz e muitos outros termos. Essas coisas podem ser preciosas, mas apenas falar delas não ajudava. Aos poucos, à medida que nós mesmos passamos a compreender um pouco mais, nossa comunhão se tornou diferente, e os irmãos e as irmãs receberam mais ajuda.
Não apressávamos as pessoas nessas questões. Nosso coração estava voltado para essas coisas, e os irmãos e as irmãs estavam dispostos a ser conduzidos. Com o tempo, quando estavam prontos, recebiam mais ajuda por meio da comunhão.
O Senhor continua trabalhando. Precisamos ampliar nosso coração para que muitos irmãos e irmãs tenham oportunidades de receber algo. Assim como muitos novos convertidos foram a Richmond e receberam ajuda, um por um, devemos esperar que muitos também recebam do Senhor dessa maneira.
Morei por algum tempo nas Filipinas, depois voltei a Taiwan e passei a maior parte do tempo em Kaohsiung. Dos treze aos sessenta anos de idade, vivenciei muitas mudanças na igreja.
No início, ficávamos tristes e não conseguíamos dormir. Orávamos diante do Senhor e derramávamos muitas lágrimas. Vi muitas divisões entre as igrejas nas Filipinas, em Taiwan e em outros lugares.
Aos poucos, passei a sentir que o Senhor é Aquele que continua trabalhando. Ele nos coloca em muitos ambientes diferentes. Às vezes, estamos junto a pastos verdejantes e águas tranquilas; em outras ocasiões, andamos pelo vale da sombra da morte, ou estamos solitários e tristes.
Ainda assim, sempre sentimos que o Senhor continua ali, trabalhando e usando as muitas coisas que nos sobrevêm para que cresçamos, amadureçamos e O conheçamos. Interiormente, aprendemos como andar e o que precisamos aprender.
Nesta manhã, Stephen compartilhou que o Senhor continua trabalhando na igreja. A igreja é a coluna e o fundamento da verdade — não apenas o fundamento, mas também a coluna.
Paulo disse a Timóteo que, se ele demorasse, Timóteo saberia como se conduzir na casa de Deus, que é a igreja do Deus vivo, a coluna e o fundamento da verdade.
Para que saibas como convém andar na casa de Deus,
que é a igreja do Deus vivo, a coluna e o fundamento da verdade.
— 1 Timóteo 3:15
O Senhor muitas vezes permite que estejamos em certos ambientes para que aprendamos. Por meio dessas coisas, muitas passagens das Escrituras nos são abertas. Aprendemos o que é a paciência, o que significa esperar e o que significa passar pelo sofrimento.
No Antigo Testamento, Moisés construiu o tabernáculo segundo o modelo mostrado no monte. Tudo estava de acordo com aquele modelo.
Em Números 7, os líderes de Israel trouxeram suas ofertas diante do Senhor: seis carros cobertos e doze bois. Os carros foram aceitos e utilizados no serviço do tabernáculo.
Trouxeram a sua oferta perante o Senhor: seis carros cobertos e doze bois;
um carro para cada dois dos príncipes, e para cada um, um boi;
e os apresentaram diante do tabernáculo.
— Números 7:3
Foi levantada a seguinte pergunta: qual é o significado dos carros cobertos? Moisés não podia alterar coisa alguma na construção do tabernáculo. Tudo seguia o modelo mostrado no monte. Nada podia ser mudado — nem mesmo um pequeno detalhe.
O tabernáculo representa a igreja de Deus. Portanto, cremos que Deus tem um modelo celestial para a edificação de Sua casa na terra. Não podemos edificar segundo nossas próprias preferências, nossas ideias culturais ou aquilo que consideramos belo na época em que vivemos.
Alguns podem pensar que o modelo do primeiro século não pode se aplicar ao século XX ou ao século XXI. Talvez digam que avançamos e, por isso, não podemos edificar segundo Atos ou o ensino das epístolas. Mas isso é um grande erro.
Se há no Novo Testamento um modelo celestial para a edificação da casa de Deus, então não podemos ser controlados pela época em que vivemos. Precisamos voltar ao princípio e à visão celestial que Deus deu desde o princípio. Não podemos edificar de maneira descuidada, nem alterar as coisas apenas para adequá-las à época atual.
Contudo, precisamos entender o que é o modelo celestial. Não se trata apenas de uma questão de organização exterior, como ter presbíteros e diáconos. O modelo celestial é o próprio Cristo. Toda a nossa edificação deve ter o próprio Cristo como modelo.
Tudo o que não é de Cristo não está correto. O modelo não é um sistema exterior. Embora as Escrituras falem de presbíteros e diáconos, precisamos lembrar que o modelo celestial é Cristo. Ele é nosso modelo, e devemos nos conformar inteiramente a Ele.
Não podemos acrescentar nada fora de Cristo, nem podemos mudar coisa alguma. Se não é Cristo, então não é de Deus. Esse é o princípio básico que precisamos conhecer.
No entanto, os carros cobertos de Números 7 nos mostram algo a respeito dos métodos. Moisés não podia mudar aquilo que Deus havia ordenado no monte, mas, depois que o tabernáculo foi construído, os líderes ofereceram carros cobertos.
Esses carros eram uma provisão prática para transportar as pesadas tábuas, as bases e os utensílios do tabernáculo. Deus havia dito especificamente que a arca deveria ser levada sobre os ombros dos sacerdotes e não poderia ser transportada num carro. Mas Ele não havia dado instruções detalhadas sobre como os outros objetos pesados deveriam ser transportados.
Assim, aqueles que amavam o Senhor podiam responder segundo o mover do Espírito Santo e segundo as necessidades da época. Os carros não alteravam o modelo do tabernáculo; serviam à execução daquele modelo.
O mesmo princípio é visto em Davi. Porque Davi amava o Senhor, estabeleceu grupos de cantores e daqueles que serviam em oração. Essas disposições não eram meramente exigências exteriores; eram respostas que surgiam daqueles que amavam o Senhor.
Esses são métodos. Em cada época e lugar, as pessoas que amam o Senhor podem oferecer métodos para o cumprimento do propósito eterno de Deus. Mas nunca devem alterar o próprio modelo celestial.
Por exemplo, a maneira como os crentes adoram o Senhor pode variar conforme sua cultura e sua origem. Os orientais talvez sejam mais reservados, enquanto os crentes na África podem expressar seu amor pelo Senhor com tambores e danças. Se isso é verdadeiramente dirigido pelo Espírito do Senhor, louvado seja o Senhor.
Outros podem adorar em silêncio, como fazem os quakers. Podem ficar sentados juntos durante uma hora e depois ir para casa. Se o coração deles está verdadeiramente voltado para o Senhor, isso também pode ser uma expressão válida. Os métodos podem variar, mas o princípio da igreja nunca deve mudar.
O modelo celestial no Novo Testamento aponta para o próprio Cristo. Como Cristo é eterno, o modelo é eterno. É universal e imutável.
Como podemos saber se aquilo que fazemos corresponde ao desejo do coração de Deus? Como podemos ter certeza de que o Senhor aprova o que estamos fazendo? Isso é importante, porque, se não soubermos, poderemos agir de maneira insensata.
Muitas pessoas podem realizar coisas exteriores corretamente, até mesmo de acordo com a Palavra de Deus, e ainda assim fazê-las de maneira errada. Precisamos ter certeza de que aquilo que fazemos está correto tanto exteriormente quanto interiormente, especialmente porque a hora é avançada.
Primeiro, na questão da igreja, precisamos de uma visão clara. Se não temos uma visão clara, não podemos ter verdadeira certeza.
Onde não há visão, o povo se entrega à falta de limites.
— Provérbios 29:18
Muitos filhos de Deus, incluindo muitos que servem ao Senhor, não têm essa visão celestial. Não viram claramente o que o Senhor busca hoje. Sem essa visão, só podemos trabalhar de acordo com o pouco que vimos.
A história mostra que uma primeira geração pode receber uma visão, mas, depois de trinta ou quarenta anos, essa visão pode se perder. A segunda geração pode conservar uma casca ou um modelo exterior, enquanto a realidade interior de Cristo se perdeu. Isso é trágico.
Mas isso não representa o propósito estabelecido por Deus. A primeira geração pagou um alto preço para obter a visão. A segunda geração muitas vezes recebe apenas aquilo que foi transmitido como tradição, sem a experiência pessoal e sem pagar o preço.
Cada geração precisa se tornar uma primeira geração. Precisamos buscar o Senhor por nós mesmos e estar dispostos a pagar um preço. O maior preço é o nosso quebrantamento.
Outro perigo é o orgulho. Podemos pensar que temos tudo. Esse é o caminho de declínio de Filadélfia para Laodiceia. O orgulho impede que uma geração posterior prossiga na realidade espiritual.
Se mantivermos um coração que busca e estivermos dispostos a pagar o preço, procurando ver diante do Senhor o que aqueles que vieram antes de nós viram, e se nos humilharmos em vez de ficarmos satisfeitos com aquilo que recebemos, então Deus não nos deixará desamparados.
Não somos aperfeiçoados assim que vemos alguma coisa. Paulo viu uma visão celestial no caminho de Damasco, mas, no início, viu apenas um esboço. Precisou passar toda a vida diante do Senhor, mantendo um espírito humilde e recebendo mais luz.
Paulo disse:
Não que já a tenha alcançado, ou que já seja perfeito;
mas prossigo.
— Filipenses 3:12
Precisamos ver um esboço. Se nem sequer temos um esboço, não temos direção, caminho nem propósito. Mas ver um esboço não significa que vimos tudo. O Senhor continua iluminando e revelando.
A igreja progride. Quando o Senhor nos mostra inicialmente algo do que é a igreja e do que é Cristo, começamos a buscá-Lo juntos. A igreja é o próprio Cristo, tendo Cristo como Cabeça e nós como membros uns dos outros.
Se mantivermos um coração humilde e obediente, o Senhor continuará Se revelando e crescendo dentro de nós. Não podemos permanecer no estágio inicial. Precisamos continuar avançando.
A edificação da igreja é viva. Não é que recebamos um pouco de revelação, concluamos que fizemos tudo bem e suponhamos que a igreja esteja completa. Não — a igreja continua crescendo até alcançarmos a medida da estatura da plenitude de Cristo.
Gostaria de dar um testemunho a respeito de mim mesmo. No início, quando Deus teve misericórdia de mim e revelou a verdade a respeito da igreja, vi que não deveríamos estar divididos. Todos os filhos de Deus deveriam ser um.
Porque vi o testemunho da unidade, deixei meu vínculo anterior com a denominação. Senti que precisava obedecer ao Senhor e me firmar no fundamento do testemunho da unidade para servi-Lo.
Mas aquilo que eu via naquele tempo era limitado. Via muitas coisas exteriores, mas interiormente via muito pouco. Quando saímos para servir ao Senhor, fazíamos quatro coisas.
Primeiro, quando alguém era levado a Cristo, nós o batizávamos. Segundo, levávamos essa pessoa a partir o pão. Terceiro, orientávamos as irmãs a usar o véu. Quarto, ensinávamos as pessoas a romper seus vínculos com as denominações.
Nenhuma dessas coisas estava errada. O batismo não está errado. Partir o pão não está errado. O uso do véu é ensinado nas Escrituras. Separar-se das divisões denominacionais não está errado. Mas pensávamos que, depois de fazer essas quatro coisas, a igreja surgiria.
Íamos a toda parte pregando o evangelho e fazendo essas coisas, pensando que era assim que se edificava a igreja de Deus. Mas, depois de alguns anos, senti que não havia como avançar. A edificação da igreja se resume a isso?
Durante a Guerra do Pacífico, fui levado à Índia. Passei dois meses e meio ali, em grande parte em quietude diante do Senhor. Além de ler as Escrituras diariamente, li os livros de T. Austin-Sparks.
À medida que me aquietava diante do Senhor, Ele abriu meu interior. Mostrou-me que a obra que fazemos e o serviço que prestamos são o próprio Cristo. Se é assim, Cristo é ilimitado. Nunca O esgotaremos.
Se estamos ministrando Cristo, então a igreja é Cristo. Vi que a edificação da igreja não é, em sua essência, exterior. É inteiramente interior. Se não estamos ministrando Cristo, então nem sequer tocamos na edificação da igreja.
Podemos batizar as pessoas, ajudá-las a partir o pão, ensinar o uso do véu e ajudá-las a romper seus vínculos denominacionais. Mas, a menos que essas coisas surjam da exigência de Cristo no interior, não edificamos a igreja de modo algum.
Quando vi que nosso serviço era a ministração de Cristo e que a igreja é o próprio Cristo, disse interiormente: “Louvado seja Deus”. É inesgotável. É ilimitado.
Nossa busca e nosso conhecimento do Senhor são ilimitados. Se buscarmos mais o Senhor e permitirmos que Ele seja cada vez mais formado em nós, então teremos um caminho no serviço. O resultado será que o Corpo de Cristo crescerá até a medida da estatura da plenitude de Cristo.
Se aquilo que vimos consiste apenas em coisas exteriores, chegará um dia em que não haverá como avançar, embora tudo pareça exteriormente correto e de acordo com as Escrituras. Precisamos ver o próprio Cristo. A igreja é Cristo, e o serviço é a ministração de Cristo.
Como sabemos se aquilo que fazemos corresponde ao propósito de Deus? A vida de Cristo dentro de nós nos mostrará. Se obedecermos ao Espírito Santo, a mente voltada para o Espírito é vida e paz, enquanto a mente voltada para a carne é morte.
Por causa da nossa fraqueza, agradecemos a Deus por termos também Sua Palavra exterior, as Escrituras. Às vezes, nosso sentimento interior pode não estar correto, mas a Palavra de Deus está ali para nos corrigir e nos repreender.
Por meio da Palavra de Deus e da iluminação interior do Espírito Santo, podemos saber se estamos andando no caminho do Senhor. Contudo, andar no caminho do Senhor não significa que já tenhamos chegado ao alvo. Apenas começamos a andar.
Precisamos perseverar na busca do Senhor para que verdadeiramente ganhemos aquilo que Deus deseja obter em Cristo dentro de nós. Tudo é vivo, não morto.
O perigo é que as pessoas recebam uma correção exterior, mas não tenham o conteúdo e o elemento de Cristo. Então, quando chega a segunda geração, há declínio. Deus, em Sua compaixão, permite que dificuldades e provações nos sobrevenham para nos trazer de volta à cruz.
Essas dificuldades nos mostram que as coisas exteriores não são dignas de confiança. O Senhor nos conduz para dentro de Cristo e para a Palavra de Deus. Não podemos viver apenas pelo que as pessoas dizem, nem mesmo pelo ensino daqueles que vieram antes de nós. Precisamos voltar à Palavra de Deus e a Cristo.
Sem dificuldades, podemos continuar no caminho errado. Em alguns casos, a demolição exterior que o Senhor realiza é muito mais abençoada do que a continuação exterior de um caminho errado.
Não podemos separar Cristo da Palavra. É um grande perigo desejar Cristo e, ao mesmo tempo, recusar-se a obedecer à Sua Palavra. Cristo e a Palavra são um. A vida e a Palavra de Deus são um; não podem ser separadas.
Não devemos aceitar a condição atual como normal. Os profetas não aceitavam a condição de seu tempo. Precisamos nos colocar do lado de Deus e perguntar o que Deus deseja.
Quando eu era jovem, muitas vezes perguntava aos irmãos mais velhos se eu havia sido redimido e regenerado. Via irmãos ministrando a Palavra e, mais tarde, os via ocupados com assuntos comuns. Perguntava ao Senhor a respeito da realidade da igreja.
Numa conferência em Hong Kong, em 1983, enquanto participava de uma reunião em grupo, entrei na passagem das Escrituras a respeito da sarça ardente, em Êxodo. Naquela visão, vi claramente que não somos nada além da sarça.
Ao estarmos unidos, podemos ir de um lugar para outro, mas o que torna a sarça significativa é o fogo de Deus. Uma sarça consumida pelo fogo do Senhor é algo usado pelo Senhor.
Tira os teus sapatos de teus pés;
porque o lugar em que tu estás é terra santa.
— Êxodo 3:5
Desde então, vi que não somos nada além da sarça. Talvez vejamos apenas que o espinho de outro irmão nos feriu, mas não percebemos que nós mesmos também somos espinhos unidos na sarça. Contudo, quando há fogo e a Palavra de Deus fala, o chão se torna terra santa.
O Senhor deseja que O sirvamos, e Cristo em nosso interior é precioso. Com o tempo, vi que essa sarça aponta para a cruz. Quando o Senhor foi pregado na cruz, Sua coroa era feita de espinhos. O Senhor nos introduziu em algo profundo.
Quando vemos isso, agradecemos ao Senhor. Enquanto servimos juntos, o Senhor diz que esta é terra santa. Tiramos nossas sandálias. O Senhor Se manifesta por meio de nós, e passamos a conhecê-Lo de maneira mais profunda.
Foi levantada uma pergunta sobre a diferença entre compreender as coisas espirituais e receber revelação. Muitos irmãos e irmãs ouvem alguma coisa e pensam que a compreendem. Mas essa compreensão é realmente um ver? É revelação?
Muitos podem ler livros espirituais e acumular bastante conhecimento. Contudo, precisam perguntar se esse conhecimento representa aquilo que viram ou se é apenas entendimento.
A revelação é algo que vem de Deus. Quando Deus revela, nossa mente é aberta e nosso coração é aberto. Em Efésios 1, Paulo fala do espírito de sabedoria e de revelação, e dos olhos do coração sendo iluminados.
Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória,
vos dê espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele;
sendo iluminados os olhos do vosso coração.
— Efésios 1:17-18
A revelação vem de Deus por meio do Espírito Santo. Ela é revelada em nosso espírito. Quando a revelação entra em nosso espírito, há um ver interior, embora talvez ainda não compreendamos plenamente ou não sejamos capazes de explicar aquilo que vimos.
É como a salvação. Quando somos salvos, sabemos que somos salvos, embora talvez não consigamos explicar isso plenamente. Nossa mente e nosso coração ainda precisam ser abertos para que compreendamos a revelação que Deus nos deu.
Receber revelação é uma coisa; essa revelação se tornar nossa vocação, nosso viver e nossa realidade é outra. Ela precisa passar pela cruz.
Quer a revelação diga respeito a Cristo, à igreja ou à verdade, ela precisa se tornar nosso viver por meio da obra da cruz. O simples entendimento não basta. O entendimento ocorre na mente; a revelação ocorre no espírito.
As coisas espirituais precisam começar no espírito, não na alma. A mente é uma parte da alma. Uma mente que compreende alguma coisa não necessariamente recebeu revelação. A revelação é um ver interior no espírito.
Uma vez que vemos algo no espírito, então, por meio da cruz, isso se torna nosso viver e nossa realidade. Hoje podemos compreender muito, mas carecer de revelação. O propósito de Deus é revelado aos que são como crianças e oculto daqueles que se consideram sábios.
Portanto, precisamos voltar e nos tornar como crianças, para que a revelação aumente.
Foi levantada outra pergunta: se toda obra e todo serviço devem se basear no ver interior e na revelação, devemos deixar nossa obra ou encerrar as reuniões quando não temos certeza de que recebemos revelação?
Considerem John Wesley. Ele veio à América, trabalhou e fracassou. Quando voltou à Inglaterra, não tinha sequer certeza de sua própria salvação. Foi ao encontro dos irmãos morávios e confessou que não tinha fé.
Perguntou se isso significava que deveria parar de pregar, já que havia sido ordenado ministro e trabalhado por muitos anos. Um irmão morávio lhe respondeu: “Você deve pregar a fé até obter fé”.
Portanto, devemos permanecer fiéis diante do Senhor. Precisamos buscar revelação, buscar o Senhor e permitir que a cruz torne real dentro de nós aquilo que vimos. Ao mesmo tempo, devemos continuar servindo humildemente, dependendo do próprio Senhor.
Nosso tempo terminou. Vamos ter um momento de oração. Que os irmãos e as irmãs orem conforme a direção do Espírito Santo.