Quero saber: quantos de vocês já ouviram falar dele ministrando a Palavra em algum lugar deste país, na comunhão local de vocês ou na comunhão de Richmond? Certo, então não são muitos.
Pelo visto, muitos de vocês ainda não ouviram o ministério do nosso irmão, e talvez nem tenham ouvido o nome dele. Por isso, achamos que seria bom primeiro pedir que ele compartilhasse um pouco de sua vida pessoal com o Senhor: como veio a conhecer o Senhor e como o Senhor o chamou para o ministério.
Achamos que isso nos ajudaria muito a conhecer a maneira como o Senhor trabalhou em sua vida e a conhecer um pouco do nosso irmão e de seu relacionamento com o Senhor. Isso realmente vai encorajar os jovens.
O Senhor trabalha por meio de instrumentos humanos, por mais fracos que sejamos. Mas, em Sua grande sabedoria, Deus escolhe trabalhar por meio daqueles que são fracos, daqueles que nada são, para demonstrar e manifestar Seu grande poder.
Primeiro, vamos pedir ao nosso irmão que compartilhe um pouco de seu testemunho pessoal. Já o ouvi algumas vezes, mas, sempre que o ouço compartilhar novamente, é muito revigorante, porque mostra como o Espírito Santo trabalha nas vidas. Creio que todos seremos encorajados.
Antes de tudo, quero agradecer a vocês por me convidarem. Como visitante, disse a alguns amigos que vir aqui me faz lembrar dos dias em que eu era jovem, há sessenta e cinco anos, quando estava no ensino médio e tínhamos reuniões como esta. Então, isso realmente me faz recordar o passado.
Agora, antes de dar meu testemunho, gostaria de ler uma passagem para nos familiarizarmos com este tipo de reunião. Por favor, abram em Lucas 2. O Evangelho segundo Lucas, capítulo 2. Vamos ler Lucas 2:41-52.
Esta passagem fala do nosso Senhor quando Ele tinha doze anos.
E Seus pais iam todos os anos a Jerusalém, à festa da Páscoa.
E, quando Ele tinha doze anos, subiram segundo o costume da festa;
e, cumpridos aqueles dias, ao regressarem, o menino Jesus ficou em Jerusalém; e Seus pais não o sabiam;
julgando, porém, que Ele estivesse entre os companheiros de viagem, caminharam um dia; e O procuravam entre os parentes e conhecidos:
e, não O encontrando, voltaram a Jerusalém, à Sua procura.
E aconteceu que, depois de três dias, O encontraram no templo, sentado no meio dos mestres, ouvindo-os e fazendo-lhes perguntas:
e todos os que O ouviam se admiravam de Sua inteligência e de Suas respostas.
E, quando O viram, ficaram maravilhados; e Sua mãe Lhe disse: Filho, por que nos fizeste assim? Eis que Teu pai e eu Te procurávamos aflitos.
E Ele lhes disse: Por que Me procuráveis? Não sabíeis que devo estar na casa de Meu Pai?
E eles não entenderam a palavra que lhes disse.
E desceu com eles, e veio a Nazaré; e lhes era sujeito: e Sua mãe guardava todas essas palavras em seu coração.
E Jesus crescia em sabedoria e estatura, e em graça diante de Deus e dos homens.
Nosso Senhor Jesus, quando tinha doze anos, foi a Jerusalém com Seus pais, segundo o costume judaico. Um homem tinha de ir a Jerusalém três vezes por ano para adorar ao Senhor.
Naquela época, aos doze anos, um menino se tornava filho da lei. Hoje, entre o povo judeu, isso acontece aos treze anos; mas, naquela época, era aos doze.
Antes de completar doze anos, um menino estava sob a instrução de seus pais. Ele não era responsável como indivíduo, porque estava sob a responsabilidade dos pais. Mas, ao completar doze anos, tornava-se filho da lei.
Daquele dia em diante, ele era responsável por todas as suas ações e por sua vida. Tornava-se membro pleno da sinagoga e recebia o direito de fazer perguntas e de responder a perguntas. Portanto, foi nessa ocasião que nosso Senhor Se tornou filho da lei.
Depois de se cumprirem os dias — isto é, a Páscoa e a Festa dos Pães sem Fermento —, Seus pais começaram a voltar para casa. Mas nosso Senhor Jesus permaneceu em Jerusalém.
Depois de um dia de viagem, Seus pais procuraram encontrá-Lo entre os parentes e conhecidos. Segundo o costume daqueles dias, as pessoas geralmente viajavam em grupos. Os mais velhos viajavam juntos, e os mais jovens também viajavam juntos, formando um grupo.
É por isso que nosso Senhor não estava viajando com Seus pais; supunha-se que Ele estivesse com os outros jovens. Vocês também podem perceber como os pais do nosso Senhor Jesus confiavam Nele. Tinham confiança Nele, sabendo que Ele sempre faria o que era certo.
Mas, ao fim do dia, não conseguiram encontrá-Lo, então voltaram a Jerusalém. Depois de três dias, finalmente O encontraram no templo. Ele estava sentado entre os mestres — os doutores, os rabinos —, ouvindo o que diziam e fazendo perguntas.
Naqueles dias, essa era a maneira de aprender, a maneira de ensinar. Os mestres ficavam ali ensinando, e os alunos ficavam ouvindo. Mas, enquanto ouviam, podiam fazer perguntas. Às vezes, o mestre lhes fazia perguntas, e eles respondiam. Outras vezes, eles faziam perguntas, e o mestre lhes explicava mais. Essa era a maneira de aprender naqueles dias.
Todos os que ouviam o Senhor se admiravam de Sua inteligência e de Suas respostas. Nosso Senhor tinha uma compreensão extraordinária. Ele não apenas fazia perguntas; também dava respostas.
Imagino que as respostas que Ele dava tivessem o mesmo espírito que encontramos mais tarde em Sua vida. Vocês se lembram de que, perto do fim de Sua vida, as pessoas Lhe perguntaram qual era o maior dos mandamentos. Nosso Senhor Jesus disse:
Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento.
Este é o grande e primeiro mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Em outras palavras, a compreensão que nosso Senhor tinha da lei de Deus ia além da letra. Ele conhecia o espírito da letra.
Quando Seus pais O encontraram ali, Sua mãe disse:
Filho, por que nos fizeste assim?
A resposta do nosso Senhor Jesus foi:
Não sabíeis que devo ocupar-Me dos negócios de Meu Pai?
Para as outras crianças, ao completarem doze anos e se tornarem filhos da lei, seu relacionamento era com a letra da lei. Mas, com nosso Senhor Jesus, era diferente.
Quando Ele tinha doze anos e Se tornou filho da lei, Seu relacionamento era com Deus Pai, o Doador da lei. Em outras palavras, o compromisso dos outros meninos era com Moisés, mas o compromisso do nosso Senhor Jesus era com Seu Pai.
Portanto, podemos dizer que foi nessa ocasião que nosso Senhor Jesus realmente entregou Sua vida a Deus, Seu Pai. Ou podemos colocar de outra maneira: esse foi o dia em que Ele realmente Se consagrou a Deus, Seu Pai.
Com tal compromisso e consagração, Ele sentia que era Seu dever ocupar-Se dos negócios do Pai. É claro que Seus pais não entenderam. Ainda assim, vemos que nosso Senhor Jesus voltou com eles e lhes era sujeito.
Sabem, irmãos e irmãs, penso que estamos nos reunindo nesta ocasião quase como se estivéssemos há dois mil anos, quando nosso Senhor Jesus tinha doze anos e foi a Jerusalém. Agora, estamos aqui.
Entregamos nossa vida a Deus. Este é o momento da nossa consagração. Ouvimos que precisamos nos submeter ao Senhor. Somos servos da justiça; somos servos do nosso Senhor Jesus.
Com tal compromisso e consagração, é justo que nos ocupemos dos negócios de nosso Pai. Ou, colocando de outra maneira: o que será da nossa vida? O que vamos fazer?
Repetidas vezes, ouvimos nestes últimos dias que não devemos viver para nós mesmos. Devemos viver para Ele. Estamos aqui para nos ocupar dos Seus negócios, não dos nossos próprios negócios.
Entregamos nossa vida a Ele. Pertencemos a Ele, e é Ele Quem deve nos dirigir quanto ao que devemos fazer para Sua própria glória. Por isso, creio, irmãos e irmãs, que essa deve ser a condição do nosso coração.
Ao mesmo tempo, vemos que nosso Senhor Jesus, embora no íntimo de Seu coração tivesse assumido esse compromisso — e nunca tivesse voltado atrás —, foi para casa com Seus pais e Se submeteu a eles, porque ainda era menor de idade.
A Bíblia diz:
E Jesus crescia em sabedoria e estatura, e em graça diante de Deus e dos homens.
Provavelmente, isso é algo que todos nós precisamos fazer depois desta conferência.
Portanto, este é um momento de perguntas e respostas. Creio que essa é a base para o nosso tempo juntos, porque temos esse episódio na Bíblia. É assim que aprendemos; é assim que crescemos.
Antes desta reunião, nosso irmão me disse que, como vocês não me conhecem, preciso lhes contar um pouco sobre mim.
Bem, fico contente por não ser conhecido, porque, se vocês me conhecerem segundo a carne, não há nada de que me gloriar, mas há muito de que me envergonhar. Vocês se lembram do apóstolo Paulo em 2 Coríntios 5:16. Ele disse:
Assim que, daqui por diante, a ninguém conhecemos segundo a carne.
Houve um tempo em que Paulo até conheceu Jesus segundo a carne, mas que conhecimento terrível ele tinha naquela época. Agora, porém, ele dizia: “Já não O conheço segundo a carne, mas O conheço no Espírito”. Por isso, espero que vocês não me conheçam segundo a carne.
Mas, graças a Deus, nós que estamos em Cristo Jesus somos uma nova criação. Então, realmente espero que vocês possam me conhecer no Espírito ou, colocando de outra maneira, conhecer o que o Senhor fez em minha vida. Sou sempre grato ao Senhor.
Bem, nasci em uma família cristã. Na verdade, nasci em uma família chinesa tradicional, se vocês sabem como era: quatro gerações vivendo debaixo do mesmo teto.
Meu avô viveu durante a dinastia Qing, antes da Revolução Chinesa. Os missionários começaram a chegar à China, e meu avô trabalhava no ramo da construção. Ele queria fazer negócios com estrangeiros.
Então, quando os missionários chegaram e começaram a abrir escolas missionárias, meu avô enviou meu pai, que era o filho mais velho, para uma dessas escolas. A ideia era que ele aprendesse inglês para poder ajudar nos negócios depois.
Meu pai foi para essa escola missionária. A propósito, a senhora que dirigia a escola era da Virgínia. Eu a visitei quando vim para este país. Ela levou meu pai ao Senhor, e sua conversão foi verdadeira.
Quando meu pai contou ao meu avô que havia crido no Senhor Jesus, isso foi considerado uma desonra para a família. Naquela época, na China, qualquer pessoa que cresse em uma religião estrangeira, ou em Jesus, era considerada uma desonra.
Por quê? Porque, naquela época, somente as pessoas mais pobres se uniam à igreja para obter alguns benefícios por meio dos missionários. Nós as chamávamos de “cristãos de arroz”.
Meu avô se sentiu muito desonrado pelo fato de seu filho crer em Jesus. Por isso, tirou meu pai da escola. Achava que, se meu pai fosse mantido longe dos missionários estrangeiros, ficaria bem.
Mas, graças a Deus, a fé do meu pai era verdadeira. Finalmente, meu avô decidiu enviá-lo para trabalhar como aprendiz, a fim de cortar todos os vínculos com os missionários.
Na China, um menino era enviado como aprendiz segundo o costume antigo. Ele deixava sua casa e ficava com seu mestre, talvez por três anos, para aprender o ofício. Era quase como um escravo naquela família, fazendo todo tipo de tarefa. Nem sequer começava a aprender o ofício antes de completar um ano inteiro.
Então, começava a receber instrução naquele ofício, na profissão que estava aprendendo. Quando o aprendiz terminava seu período de formação, não havia aprendido apenas a habilidade do mestre; havia aprendido também seu modo de vida e sua maneira de agir.
Esse era o costume antigo. Na verdade, nós que somos discípulos de Cristo devemos ser aprendizes de Cristo. Devemos deixar tudo e segui-Lo, aprendendo com Ele não apenas a habilidade, mas também a vida.
Por causa disso, meu pai, embora fosse um cristão novo na fé, orou muito. Os missionários também oraram por ele. Naquela noite, meus avós e meu pai não conseguiram dormir, porque ele seria enviado para longe no dia seguinte.
Depois da meia-noite, minha avó cedeu e disse: “Deixem que ele volte para a escola”. Assim, meu pai concluiu seus estudos na escola missionária.
Mas, quando meu pai quis fazer faculdade, meu avô não quis sustentá-lo. Então, meu pai trabalhou para custear os estudos. Levou oito anos para concluir a faculdade.
A propósito, ele foi o único formando do seminário teológico da Universidade de Soochow — o único formando, o único.
Quando meu pai concluiu os estudos, o Senhor o havia chamado para servi-Lo. Por isso, meu avô não conseguiu trazê-lo de volta para os negócios. Em certo sentido, meu pai foi rejeitado pela família.
Mas dou graças a Deus porque, quando nasci, nasci em uma família cristã. Meu pai amava o Senhor; ele conhecia o Senhor.
Em minha casa, todas as noites, antes da refeição, tínhamos o culto doméstico. Meu pai reunia todos os filhos — éramos sete — na sala de estar. Ele lia uma Bíblia grande, e depois todos nos ajoelhávamos enquanto ele orava por nós.
Foi assim que fui criado, e sou sempre grato por isso. É claro que frequentei uma escola missionária desde a infância. Aprendi histórias bíblicas e todas essas coisas e, à medida que crescia, frequentava a escola dominical.
Exteriormente, eu era cristão. Mas, de alguma forma, embora conhecesse o evangelho e nunca tivesse duvidado da Bíblia, não sentia necessidade Dele.
Eu sabia que Jesus é o Salvador do mundo, mas, de alguma forma, sentia que não precisava Dele, porque achava que não era pecador. Olhem para as pessoas do mundo: como eram pecadoras! Mas eu era aluno de uma escola missionária, e não era um mau aluno. Sentia que não precisava de Jesus.
O mundo precisava Dele, mas eu não. Portanto, embora exteriormente fosse cristão, na verdade não era. Não tinha desejo por Ele. Não sentia necessidade Dele.
Foi somente aos quatorze anos que adoeci. Eu estava morrendo. Naquela época, não havia tratamento nem remédio para aquela doença. Só restava esperar para ver se eu conseguiria sobreviver.
Fiquei muito doente durante vários meses. Realmente achei que morreria. Com minha formação cristã, e sabendo que ainda era muito jovem, eu não queria morrer. Queria viver. Então, orei. Sabem, eu sabia orar.
Meu pai e os missionários oraram por mim e, de alguma forma, depois de vários meses, consegui me recuperar.
Quando me recuperei, um pensamento natural me veio à mente. Por causa da minha formação, pensei: “Eu deveria estar morto. Mas agora, com certeza, foi Deus Quem permitiu que eu vivesse”.
Eu estava muito grato e queria demonstrar minha gratidão a Ele. Então, procurava uma maneira de demonstrar meu reconhecimento, minha gratidão. Creio que essa é uma maneira natural de pensar.
E, de fato, quando as aulas começaram — eu estava no equivalente ao ensino fundamental II naquela época —, um amigo veio falar comigo e disse: “Será que poderíamos começar alguma coisa em nossa escola? É uma escola missionária, mas será que poderíamos começar algo por nossa própria iniciativa?”
Aproveitei a oportunidade. Achei que aquela era a maneira de retribuir a Deus a bondade que Ele havia demonstrado para comigo. Então, começamos a realizar reuniões em nossa escola.
Depois do jantar, antes do horário de estudo noturno, costumávamos bater em todas as portas dos dormitórios e convidar nossos colegas para a reunião. Usávamos a biblioteca da escola para nos reunir. Tínhamos duas ou três reuniões por semana: reuniões de oração, estudos bíblicos e assim por diante.
Ainda me lembro da primeira vez que dirigi uma reunião de oração, antes de ser salvo. O que eu poderia fazer? Meu pai tinha uma biblioteca de livros cristãos, então fui até lá e procurei um livro sobre oração.
Encontrei um livro e li algumas coisas interessantes sobre como Deus respondia às orações. Fiz algumas anotações e, naquela noite, fui contar aos amigos — bem, não aos irmãos e irmãs. Provavelmente, nenhum de nós era salvo naquela época, nem mesmo os professores.
Contei a eles como Deus respondia às orações e depois disse: “Bem, vamos nos ajoelhar e orar”. Nós nos ajoelhamos, mas ninguém orou. Alguns alunos começaram a rir.
Eu os repreendi com muita seriedade. Disse: “Estamos na presença de Deus. Isso é uma coisa séria. Não devemos rir”.
Ainda me lembro da primeira vez que preguei. Sabem, eu preguei antes de ser salvo. Era filho de pastor. Novamente, fui à biblioteca do meu pai, procurei entre os livros e encontrei um sermão muito atraente.
Na verdade, ele havia sido pregado por um grande pregador dos Estados Unidos, o Dr. Truett, e tratava da arca de Noé. Eu o traduzi para o chinês, decorei e preguei.
Enquanto pregava, eu me sentia muito bem. A única coisa que lamentei foi que ninguém veio me elogiar. Foi só isso que faltou.
Vocês podem ver minha ignorância — e não apenas a minha, mas também a dos meus professores. Pedimos aos nossos professores, que supostamente eram todos cristãos e ensinavam em uma escola missionária, que pregassem para nós.
Lembro-me de um professor que veio e nos contou a história de Um conto de Natal, de Charles Dickens, porque ele não era salvo. Mais tarde, porém, tornou-se um pregador famoso na China.
Enquanto realizávamos essas atividades, eu achava que estava retribuindo a Deus a bondade que Ele havia demonstrado para comigo. Mas, curiosamente, foi durante aquele ano, sem que ninguém pregasse para mim, que comecei a sentir o peso dos meus pecados.
Eu sempre havia achado que era muito bom — melhor do que a maioria das pessoas. Na China, temos um ditado segundo o qual até um sábio erra trinta por cento das vezes. Então, eu pensava que, se cometesse alguns erros, não havia problema.
Mas, curiosamente, durante aquele ano, enquanto tentava servir a Deus para retribuir Sua bondade, passei a perceber a gravidade do meu pecado.
Eu não havia cometido coisas horríveis na sociedade. Era apenas um estudante. Mas estava profundamente convencido do meu pecado. Sentia que nada do que fazia era certo. Meus pensamentos, minhas ações — tudo estava errado diante de Deus. Às vezes, eu chorava pelos meus pecados.
Não sabia o que fazer, mas conhecia o evangelho. Comecei a ler a Bíblia. Eu orava. Buscava o Senhor. Sabia que Jesus era o Salvador do mundo, mas, de alguma forma, Ele parecia escapar de mim.
Eu queria ser salvo, ter meus pecados perdoados. Sentia o pecado como um grande peso sobre mim, e, ainda assim, a salvação parecia me escapar.
Durante aquele ano, busquei com muita intensidade. Onde quer que houvesse uma reunião de avivamento, uma campanha evangelística ou algo assim, eu estava presente. Alguns grandes pregadores, bastante conhecidos, vieram à nossa cidade, e fui ouvi-los.
Eu era tocado pelo que diziam. Geralmente, depois de uma reunião evangelística, eles chamavam as pessoas à frente para se ajoelharem e se converterem. Fui à frente algumas vezes. Chorava e depois voltava para casa, mas nada acontecia.
Isso continuou por um ano inteiro. Eu estava desesperado. Queria ser salvo. Sabia que, se morresse, iria para o inferno. Deus é reto. Ele é justo. Seria justo que Ele fizesse isso.
Então, no verão de 1930, houve uma conferência de verão nos arredores de Xangai, na China. Eu me inscrevi e fui para lá com um único desejo: ser salvo.
Era uma conferência conduzida por três jovens americanos, recém-formados no Asbury College. Eles eram os preletores da conferência, e havia também outro preletor chinês.
Eles pregavam o evangelho simples. Eu já conhecia tudo. Concordava com tudo. Depois de alguns dias, nada havia acontecido. Via outras pessoas irem ao altar e serem salvas, mas nada acontecia comigo.
Certa manhã, antes da reunião, eu estava no meu quarto. Não sei se estava orando ou conversando — não sei —, mas, de qualquer forma, estava falando com Deus.
Eu disse: “Deus, quero ser salvo. Por que outras pessoas são salvas com tanta facilidade, e para mim é tão difícil ser salvo?”
Então, pensei: “Talvez eu tenha ouvido alguém dizer que há pessoas endurecidas pelo evangelho. Talvez eu esteja endurecido pelo evangelho, porque sei pregar”.
Então, disse a Deus: “Deus, se Tu queres me salvar, salva-me agora. Se não, adeus. Vou virar as costas para Ti. Não Te quero mais”.
Deus conhece nosso coração. Se somos sinceros com Ele… Às vezes, não somos sinceros, e Deus sabe disso, porque conhece nosso coração. Ele não Se deixa enganar por nós.
Mas, se somos honestos, se somos sinceros, Ele vem ao nosso encontro, apesar de nós mesmos.
Naquela tarde, fui à reunião. O Sr. Koperick estava pregando sobre João 3:16. Ora, João 3:16 era familiar demais para mim. Tudo o que ele dizia, eu já sabia. Nada aconteceu.
Depois de pregar, ele pediu que todos se ajoelhassem para orar. Ajoelhei-me junto ao meu banco e orei. Um pregador negro veio ao meu lado e insistiu para que eu fosse orar no altar.
Para agradá-lo, fui novamente ao altar. Estava ali orando e chorando. Quando terminei, olhei ao redor e disse: “Por que estou aqui? Nada aconteceu”. Então, a reunião terminou.
Eu estava saindo quando outro pregador me parou. Todos já haviam ido embora, e nós dois estávamos naquele salão. Ele me fez uma pergunta direta: “Você é salvo?”
Eu precisava ser honesto. Disse a ele: “Espero ser salvo”.
Ele me perguntou: “Você crê na Bíblia?” Eu disse: “Desde a infância”. Então, ele abriu a Bíblia em 1 João 1:9.
Se confessarmos os nossos pecados, Ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda injustiça.
Ele disse: “Você crê nesta palavra?” Eu disse: “É claro que creio”. Ele disse: “Muito bem. Tire o ‘nós’. Coloque seu nome no lugar”.
Então, pediu que eu lesse duas vezes, colocando meu nome. Naquela época, meu nome não era Stephen Kong. Stephen foi o nome que passei a usar depois de ser salvo.
Assim, coloquei meu nome:
Se eu confessar os meus pecados, Ele é fiel e justo para me perdoar os pecados, e me purificar de toda injustiça.
Li duas vezes.
Depois, ele disse: “Ore de acordo com a Palavra”. Bem, eu sabia orar. Nós dois nos ajoelhamos, e comecei a orar.
Comecei a confessar meus pecados. Disse ao Senhor: “Cometi isto, cometi aquilo, cometi isto e aquilo, isto e aquilo”. Depois, disse: “Há muitas outras coisas de que me esqueci, mas Tu Te lembras”.
“Confesso meus pecados. Agora fiz minha parte. Agora é Contigo. Faze a Tua parte.”
Quando orei naquela ocasião, foi diferente. Como posso descrever o que senti? Senti como se fosse alguém que se lançasse sobre o Senhor e dissesse: “Recebe-me, ou eu morro”.
Curiosamente, depois que terminei de orar, algo aconteceu.
Levantei-me, e o pregador me perguntou: “Você é salvo?” Eu disse: “Sou salvo”. Ele perguntou: “Como você sabe?”
Eu disse: “Aquele peso de pecados que esteve sobre mim durante um ano inteiro desapareceu. Há uma paz tão grande em meu coração”.
Aquele pregador era muito sábio. Ele disse: “Não, pense bem”. Pensei por um momento. Imediatamente, disse: “Sei que sou salvo porque Deus diz que sou”.
Ele disse: “Você está certo. Seus sentimentos podem mudar, mas a Palavra de Deus nunca muda”.
Depois, ele me disse: “Vá testemunhar imediatamente. Conte a alguém o que Deus fez por você”. E foi o que fiz.
Fui para meu quarto e abri a Bíblia. Quando a li, era um livro novo. Eu já havia lido a Bíblia antes, mas, quando a li naquela tarde, a passagem era 2 Pedro 1. Abri a Bíblia, e Deus falou comigo.
Deus Se tornou uma realidade para mim. Já não era um Deus distante. Agora, estava muito perto de mim — meu Pai, meu Deus. Isso mudou toda a minha vida.
Se você for honesto com Deus, Ele tratará com você, Se revelará a você e o salvará.
Depois que fui salvo, conforme o costume da época, ao final de qualquer conferência, a última reunião era sempre sobre consagração.
Naquela época — e também éramos ignorantes —, entendíamos por consagração oferecer-se para ser pregador, obreira bíblica ou missionário. Isso era consagração.
Na última reunião, o pregador ficou na plataforma e disse: “Agora, vocês que são salvos, vocês que foram redimidos pelo precioso sangue do Cordeiro, é claro que devem se consagrar, entregar-se a Deus, sair para pregar, ser missionários e assim por diante”.
Um grande mapa da China estava pendurado na parede ao fundo da plataforma. O pregador disse: “Se vocês querem servir a Deus, podem escolher para onde querem ir. Venham à plataforma. Apontem com o dedo para o lugar aonde querem ir servir a Deus”.
Lembrem-se: eu tinha quinze anos naquela época e era recém-convertido. Estava tão tocado pela graça de Deus! Pensei: “Bem, o que devo fazer? É claro que quero servir a Deus. Para onde devo ir?”
“Vou para o lugar mais distante, o lugar mais difícil, para provar meu amor por Deus.” Então, fui até a plataforma e apontei para a Mongólia.
Naquela época, na mente dos chineses, a Mongólia era o lugar mais distante e mais difícil. Vocês se lembram do deserto de Gobi e de todos aqueles lugares. Então, decidi que iria para a Mongólia.
Para mim, aquilo era muito real naquela época. Tomei uma decisão. Daquele dia em diante, durante um ano inteiro, reuni tudo o que consegui encontrar sobre a Mongólia. Estava decidido a ir para lá como missionário.
Durante aquele ano, eu estava no último ano da escola, e começamos a organizar reuniões cristãs novamente. Dessa vez, era diferente: dois alunos e dois professores, todos salvos.
Começamos a organizar reuniões, e era possível perceber a diferença. Muitos alunos foram salvos. Convidávamos pregadores para vir pregar a nós, e um terço dos alunos da escola frequentava essas reuniões.
Foi nessa época que conheci Watchman Nee. Nós quatro organizávamos todas as reuniões. Todas as sextas-feiras à tarde, depois das aulas, tínhamos uma reunião de participação voluntária. Convidávamos aqueles que chamávamos de pregadores famosos de Xangai para vir pregar a nós.
Depois de alguns meses, já havíamos convidado todos os pregadores famosos que conhecíamos. Certo dia, nós quatro estávamos conversando: quem deveríamos convidar agora?
Um professor disse: “Ouvi falar de um homem chamado Watchman Nee. Vou tentar encontrá-lo e perguntar se ele pode pregar para nós”. E assim fez.
Na verdade, era no outro extremo da nossa cidade. Era uma terça-feira, e eles tinham uma reunião na terça-feira à tarde. O irmão Nee estava instruindo os irmãos e irmãs nas verdades do evangelho — aquilo que hoje está traduzido como Diálogo sobre o evangelho.
Meu professor havia se formado recentemente na faculdade, então também era jovem naquela época. Ele foi até lá e, enquanto o irmão Nee falava sobre as verdades do evangelho, discutiu com ele. Não concordava com ele.
Depois de discutir com ele, pediu que viesse pregar para nós. O irmão Nee veio. Ainda me lembro do que ele pregou: foi uma mensagem evangelística sobre “Deus está disposto”.
Durante aquele ano, estávamos muito ocupados servindo ao Senhor. Estávamos realmente fervorosos. Organizávamos grupos evangelísticos para ir às aldeias, pregar o evangelho e orar pelos enfermos.
Ainda me lembro de uma casa em que entramos. Havia um homem que estivera doente, e todos fomos até lá, colocamos as mãos por todo o seu corpo e oramos por ele — depois de ele já ter morrido.
Ele tinha uma doença contagiosa: meningite. Mas estávamos todos cheios de fervor.
Sempre que a igreja metodista realizava uma campanha ou reunião evangelística, estávamos na linha de frente. Ficávamos na rua, puxando as pessoas para dentro do prédio, para que ouvissem o evangelho.
Ainda me lembro de um puxador de riquixá. Sabem o que é um riquixá: um homem o puxa, e você vai sentado. Quando o convidei a entrar, ele não quis, porque estava trabalhando.
Então, tentei falar com ele na rua, mas ele não queria ouvir. Tapou os ouvidos com as mãos, e eu gritava por cima das mãos dele. Era assim que pregávamos o evangelho.
Depois de um ano inteiro, graças a Deus, concluí meus estudos. Não queria fazer faculdade. Achava que seria desperdiçar quatro anos. Queria servir ao Senhor.
Como eu poderia servi-Lo? A única coisa que conhecia era ir para uma escola bíblica. Achava que essa era a única maneira de aprender a Bíblia e servi-Lo.
Então, procurei um bom instituto bíblico. Graças a Deus, naquela época havia alguns bons institutos. Eu os conhecia porque participava ativamente das atividades cristãs; por isso, conhecia aqueles pastores e professores.
Decidi escolher um bom instituto. Era um instituto bíblico fundado pela Missão Oriental. Talvez vocês não conheçam a Missão Oriental, mas creio que muitos de vocês provavelmente já leram Mananciais no deserto.
Mananciais no deserto foi escrito pela Sra. Cowman, e o Sr. Cowman foi o fundador da Missão Oriental. Então, escolhi aquele instituto. Estava decidido a ir e me preparar para ir à Mongólia como missionário.
Conversei com meu pai. É claro que meu pai amava o Senhor, e eu tinha plena certeza de que ele me permitiria fazer isso. Mas, para minha surpresa, ele se opôs.
Ele disse: “Não, você não vai para o instituto. Não há nada realmente bom na China. Vá para a faculdade. Depois que terminar a faculdade, vou enviá-lo aos Estados Unidos para estudar teologia”.
Fiquei muito decepcionado. Mas, na China, aprendemos a obedecer aos nossos pais, então senti que precisava ir para a faculdade.
Ele me enviou para uma faculdade metodista em outra cidade. Então, perguntei: “O que devo estudar? Quero servir ao Senhor. Por que devo fazer faculdade? O que devo estudar?”
Finalmente, pensei: “Bem, talvez história tenha alguma relação com a Bíblia”. Então, escolhi cursar história.
Fui para aquela instituição missionária e imediatamente mergulhei nas atividades cristãs — escola dominical e tudo o mais.
Mas, depois de algum tempo, comecei a perceber algo diferente. Eu achava que todos os cristãos amavam a Deus, criam na Bíblia e criam no Senhor Jesus.
Mas, para minha surpresa, descobri que meus professores, que eram missionários vindos à China para nos ensinar sobre Cristo como a Palavra de Deus, nem sequer criam que Jesus é o Filho de Deus.
Tudo o que falavam era sobre questões políticas, sociais e econômicas. Isso foi um choque para mim.
Depois que concluímos os estudos, um dos meus colegas foi ficar com o irmão Nee como seu secretário. Mais tarde, meu professor também foi ficar com o irmão Nee. Todos foram batizados por imersão.
Meu professor começou a falar comigo sobre o batismo por imersão. Como metodistas, havíamos sido batizados por aspersão quando éramos bebês.
Eu achava que deveria adiar meu batismo, porque amava meu pai. Não queria magoá-lo. Ele era pastor metodista.
Mas, quando aquela palavra veio, não havia mais nada que eu pudesse fazer. Imediatamente, desci e bati à porta ao lado, que era a do quarto de Watchman.
Bati à porta. Ele desceu e perguntou: “O que você quer?” Eu disse: “Quero ser batizado”. E fui batizado.
Durante um ano inteiro, eu havia evitado isso. Mas, depois que fui batizado — era sábado —, o dia seguinte era o Dia do Senhor. Depois de um ano inteiro, eu havia esgotado todas as minhas desculpas.
Durante aquele ano, o Senhor começou a falar mais comigo. Examinei as Escrituras e comecei a descobrir que o povo de Deus é um só — um só corpo. Não deveria estar dividido em seitas e denominações.
Eu deveria retornar à unidade do Corpo de Cristo. Quando o Senhor começou a me mostrar isso, graças a Deus, Ele me deu dois ou três colegas de faculdade para seguirem o Senhor comigo.
O Senhor disse:
Se alguém vier após Mim…
A palavra usada é muito forte: “odiar” — seu pai, sua mãe, seu irmão, sua irmã, sua esposa, seus filhos e a si mesmo — e seguir a Mim.
É como um homem que vai construir uma torre ou entrar em guerra: calcule o custo antes de começar. Caso contrário, se não conseguir terminar, será motivo de zombaria. Se você não renunciar a tudo e seguir o Senhor, não poderá ser Seu discípulo.
Depois da pregação, almoçamos juntos, e então todos tivemos nosso tempo de oração diante do Senhor. Eu estava sentado em minha cadeira, orando. Disse: “Senhor, quero seguir-Te”.
Mas esse não foi o fim da história. Depois que entreguei minha vida a Ele, comecei a pensar no meu futuro. O que eu faria?
Não conseguia dormir. Ia às aulas, mas não ouvia o que os professores diziam. Estava em uma profunda luta interior.
Durante a faculdade, o Senhor começou a levantar uma reunião. Havia pouquíssimos irmãos, a maioria era de irmãs, e as pessoas começaram a vir de diferentes lugares.
Pela graça de Deus, eu estava ocupado abrindo as portas, recebendo as pessoas, pregando, ensinando, despedindo-me delas, fechando a porta e fazendo visitas. Estava tão ocupado!
Nenhuma daquelas instituições cristãs nos recebia. Éramos muito perseguidos.
Meus irmãos e irmãs, posso lhes dizer: aqueles dois anos foram os melhores anos da minha vida. Eu orava quase sem cessar. O Senhor estava tão perto de mim.
Em 1935, formei-me. Estava pensando no futuro. Sabia que queria servir ao Senhor, mas sentia que algo não estava certo.
Na manhã seguinte, eu ainda estava discutindo com o Senhor. “Por que Tu fizeste isso? Não está certo.”
Então, o Senhor começou a falar comigo. Ele disse: “Este Irmão morreu por você. Você quer Me servir. O que você diz? ‘Agora não’?”
“Veja, se você morrer hoje, terá tempo depois?” Quando isso veio a mim, eu disse: “Senhor, está bem. Este é o momento de servir-Te”.
Então, conversei novamente com meu pai. Ele me deixou esperando uma resposta por um ano inteiro. Acho que fez isso de propósito. Foi um bom treinamento.
Você precisa se preparar o tempo todo. Em outras palavras, quando vai pregar, não basta passar algumas horas se preparando. É a preparação de uma vida inteira.
É por isso que sempre digo aos jovens, àqueles que se sentem chamados para servir ao Senhor: deixem-me contar minha experiência.
Durante aquele ano, de 1935 a 1936, havia entre duzentas e trezentas pessoas conosco, ou até mais. Fomos infiéis, mas Ele é fiel.
É a Sua fidelidade que me tem sustentado até hoje. Eu Lhe agradeço por isso.
Então, foi isso que o Senhor fez por mim nos meus primeiros anos. Compartilho isso com vocês na esperança de que possam ver que, se o Senhor está disposto a tratar com vocês, Ele está disposto a tratar com vocês ainda mais.
Que o Senhor os ajude. Acho que já usei todo o tempo. Está bem. Está bem. Está bem.
Quando disse “os melhores anos da minha vida”, estava me referindo ao contexto da minha vida naquela época. À medida que prosseguimos com o Senhor, entramos em diferentes fases e contextos e, então, começamos a aprender diferentes lições.
Digo isso porque aprendi muito durante aqueles primeiros anos. Deixem-me colocar de outra maneira.
Um irmão mencionou — o irmão Watchman — que todas as lições que você aprende quando é jovem se aprofundam. Quando se é velho, há muito poucas lições novas a aprender, se é que há alguma. O que você aprende são as lições que aprendeu na juventude, que vão se aprofundando.