Queridos irmãos e irmãs, vocês poderiam abrir comigo em três passagens do Novo Testamento?
Primeiro, na carta do apóstolo Paulo aos Romanos, em Romanos 8:14-17. Vamos ler a partir do versículo 14:
Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Porque não recebestes o espírito de escravidão, para viverdes outra vez em temor;
mas recebestes o espírito de adoção, pelo qual clamamos: Aba, Pai.
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus:
e, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo;
se de fato padecemos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados.
Depois, na carta do apóstolo Paulo aos Gálatas, em Gálatas 4:1-7, a partir do versículo 1:
Digo, porém, que, enquanto o herdeiro é criança, em nada difere de um escravo, embora seja senhor de tudo;
mas está sob tutores e administradores até o dia determinado pelo pai.
Assim também nós, quando éramos crianças, estávamos escravizados aos rudimentos do mundo:
mas, vindo a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,
para que Ele remisse os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.
E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai.
Assim, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro por meio de Deus.
Depois, na carta do apóstolo Paulo aos Efésios, em Efésios 1:3-5, a partir do versículo 3:
Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Qual nos abençoou com toda bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo:
assim como nos escolheu Nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis diante Dele:
em amor, tendo-nos predestinado para a adoção como filhos, por meio de Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de Sua vontade.
Mais uma breve oração.
Amado Senhor, somos tão gratos por podermos nos voltar para Ti em todos os momentos de necessidade. Queremos agradecer-Te, amado Senhor, porque Tu providenciaste uma unção para o ministério da Tua Palavra. Pela fé, nos firmamos nessa unção, nessa graça e nesse poder, para a proclamação da Tua Palavra, para a tradução da Tua Palavra e para ouvirmos a Tua Palavra.
Amado Senhor, as tardes podem trazer um pouco de cansaço ou sonolência. Já oramos a respeito disso. Pedimos, ó Senhor, que Tu permeies todo este tempo como uma brisa fresca sobre todos nós. Renova-nos e vivifica-nos, para que sejamos capacitados, ó Senhor, a receber a Tua Palavra.
Teremos o cuidado de Te dar todo o louvor e toda a glória por responderes à nossa oração nesta tarde. Pedimos isso em nome do nosso Messias, o Senhor Jesus. Amém.
Pediram-me que, nesta tarde e amanhã à tarde, nestas duas sessões, eu falasse sobre o tema da filiação. Não consigo pensar em um assunto mais prático para nós.
A meu ver, o Senhor tem Seus olhos voltados, em nossa geração e neste momento, para três questões. Uma é a igreja de Deus, para que seja completada e edificada. A segunda é que Israel seja salvo. A terceira é a questão da filiação.
O Senhor usará todas as coisas para nos conduzir ao ponto em que possamos ser filhos na família da fé.
Acho isso interessante, porque esse é um dos muitos grandes temas da Bíblia. Se vocês olharem bem no começo de sua Bíblia, em Gênesis 1:28-29, ouvirão o Senhor dizer a Adão e Eva que deveriam frutificar, multiplicar-se, encher a terra, sujeitá-la e exercer domínio.
Talvez vocês não percebam, mas isso tem muito a ver com a filiação. Não se trata apenas de nascer de Deus, de ser criado por Deus ou mesmo de ser salvo por Deus. Trata-se de responsabilidades e deveres, e precisamos cumpri-los.
Encontramos a mesma coisa novamente em Gênesis 2:15, onde nos é dito que o Senhor colocou Adão no jardim para cultivá-lo e guardá-lo. É a mesma ideia outra vez: responsabilidades e deveres que nos foram dados por Deus.
Quando chegamos ao fim da Bíblia, em Apocalipse 21:7, ouvimos estas palavras maravilhosas de nosso Senhor. Ele diz:
Aquele que vencer herdará estas coisas; e Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho.
Vocês pensariam que o Senhor diria: “Eu serei seu Pai, e ele será Meu filho”. Mas Ele diz:
Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho.
Há muito mais na questão da filiação do que a maioria das pessoas percebe, porque ela tem algo a ver com a cidade de Deus.
Quando vocês olham para a cidade, encontram duas coisas. Há uma capital — não é uma cidade qualquer, mas a capital de um reino que não tem fim. Ao mesmo tempo, vocês não têm apenas uma capital, mas também uma noiva.
É uma combinação muito peculiar, a união de duas coisas que normalmente ninguém em sã consciência colocaria juntas: uma capital que é uma noiva — a noiva do Cordeiro, a noiva de Deus. Uma noiva que é, ao mesmo tempo, uma capital.
É interessante que isso parece ter algo a ver com a filiação. Uma capital é o lugar onde toda a administração e todo o governo estão centralizados. Aqui temos a questão da filiação:
Eu serei seu Deus, e ele será Meu filho.
É como se, para você e eu fazermos parte daquela cidade, precisássemos chegar ao ponto em que não somos apenas crianças, mas filhos maduros.
Pensando nisso por outro ângulo, é igualmente interessante que nosso Senhor esteja buscando uma noiva. Ela não é uma noiva comum. Não é apenas uma criatura bela e glamorosa que enfeita a casa. Ela é, ao mesmo tempo, uma capital.
Em outras palavras, não se trata apenas de ser salvo. Trata-se de ser conduzido ao ponto em que você possa reinar e governar com o Senhor Jesus. Para mim, isso tem algo a ver com a filiação.
Não sei quantos de vocês usam a antiga versão King James. Nós, do outro lado do Atlântico, naturalmente a chamamos de Versão Autorizada. Mas, se vocês usam essa versão, perceberão uma confusão terrível entre os termos “filho” e “criança”, como se isso realmente não importasse e como se as duas palavras gregas fossem sinônimas.
Por exemplo, em João 1:12, essa versão nos diz:
A todos quantos O receberam, Ele deu o direito de se tornarem filhos de Deus.
Entretanto, a palavra grega tekna tem, na verdade, o sentido de crianças. É a autoridade, ou o direito, de se tornarem filhos de Deus no sentido de crianças nascidas Dele.
Há outros casos em que a palavra que significa “crianças” é traduzida como “filhos”. Não estou dizendo isso para depreciar a versão King James. É uma versão maravilhosa, especialmente para memorizar, porque o Espírito Santo lhe conferiu um ritmo que a torna muito fácil de memorizar — mais do que muitas versões modernas, que pessoalmente considero extremamente difíceis quando se trata de memorização.
Mas isso é apenas um pequeno comentário à parte. Não tem muito a ver com o que estamos discutindo. A versão King James não faz uma distinção real entre essas duas palavras gregas empregadas no texto. Uma deveria ser traduzida estritamente como “filho” ou “filhos”, e a outra, estritamente como “criança” ou “crianças”.
Existe uma distinção? Lembro-me de como, anos atrás, meu querido irmão T. Austin-Sparks enfrentou tantas dificuldades na Grã-Bretanha por declarar que havia uma distinção muito real entre essas duas palavras gregas e que elas não podiam ser consideradas sinônimas em seu significado.
Ele dizia que uma criança podia ser uma criança, mas nunca poderia herdar o negócio da família de modo a administrá-lo. Pois bem, publicaram livretos contra ele. Citaram todo tipo de coisa para dizer que ele era uma espécie de herege e que estava ensinando algo falso.
Lembro-me de um dos amigos próximos do Dr. Martyn Lloyd-Jones — uma autoridade em grego bíblico — dizer que não havia distinção e que as duas palavras podiam ser usadas de maneira intercambiável. Mas, recentemente, como tenho grande respeito por ele, fiquei muito contente ao encontrar no léxico que ele acaba de publicar esta afirmação:
A diferença entre os crentes como crianças, tekna, de Deus e como filhos, huioi, é evidenciada em Romanos 8:14-21. Tekna refere-se àqueles que nasceram de Deus, e huioi refere-se àqueles que demonstram maturidade, agindo como filhos. Quando se faz referência ao relacionamento básico de um filho de Deus nascido de novo, ele é expresso por tekna. Huios expressa semelhança com o caráter de Deus.
Não sei se tudo isso é por causa do sono, mas acho muito, muito interessante. Então, agora podemos começar. Existe uma distinção entre essas duas palavras? Eu digo que acredito haver uma distinção real.
Uma criança pode tornar-se um filho maduro: crescer, ser educada, treinada, disciplinada e adquirir um caráter que a capacite a administrar o negócio da família. Uma criança não pode fazer isso. Ela permanece em relação com seu pai — com seus pais, naturalmente — como uma criança nascida deles, mas não pode, de fato, administrar o negócio da família.
Um dos primeiros lugares na Palavra de Deus em que a questão da filiação é ressaltada é Êxodo 4:22-23. Foi isto que o Senhor disse a Moisés:
E dirás a Faraó: Assim diz o Senhor: Israel é Meu filho, Meu primogênito:
e Eu te disse: Deixa ir Meu filho, para que Me sirva;
mas recusaste deixá-lo ir:
eis que Eu matarei teu filho, teu primogênito.
Talvez vocês não tenham assimilado isso, especialmente numa tarde quente de verão. Mas é interessante, porque, quando o Senhor disse a Faraó: “Eu matarei teu filho, teu primogênito”, Ele estava falando do príncipe herdeiro — aquele que herdaria todo o grande império do Egito.
Não apenas uma criança: um filho, um primogênito. Temos aqui a primeira indicação de que a filiação tem a ver com herdar e com governar.
Israel é Meu filho, Meu primogênito.
Vocês encontram uma indicação ainda mais clara se abrirem em Oseias 11:1:
Quando Israel era criança, Eu o amei, e do Egito chamei Meu filho.
Em outras palavras, quando Israel desceu ao Egito, eram crianças. Quando saíram do Egito, eram filhos. Algo havia acontecido neles.
Quando vocês começarem a perceber isso, verão essa realidade em toda parte. Toda aquela geração dos filhos de Deus — os filhos de Israel — no deserto era formada por crianças. Mas a segunda geração tinha um espírito diferente. Eles atravessaram e tomaram posse da terra. Mais uma vez, é a diferença entre crianças e filhos maduros.
Espero não estar entediando vocês completamente. Naquilo que já mencionei de Apocalipse 21, encontramos a mesma ideia. Essa noiva não é uma criatura bonita que não tem nada na cabeça. Se fosse assim, ela não poderia compreender seu Senhor e teria de deixar tudo por conta Dele. Não haveria como reinar, governar ou participar do governo.
O ponto é que cada um de nós pode, potencialmente, fazer parte da noiva. Mas, para sermos a noiva de fato, na prática, o Espírito de Deus precisa nos treinar, nos disciplinar e nos fazer crescer.
Um bebê não pode sentar-se no trono como a noiva de Cristo. Pensem nessa ideia de que, de alguma forma, desde que vocês sejam salvos e convertidos, isso é tudo o que importa. Pela graça, estarão no trono. Como é que o Senhor fará as coisas que diz que fará nos séculos vindouros — quando Ele diz: “Eis que faço novas todas as coisas” — se tudo o que Ele tem são bebezinhos?
Bebês são lindos enquanto são bebês. Mas, quando uma pessoa tem vinte anos e ainda é um bebê, há algo repulsivo nisso. Pensem por um momento. Vocês não concordam comigo? Quando uma pessoa tem quarenta anos e se comporta como uma criança de cinco, algo deu errado.
O reino de Deus será inteiramente habitado por bebezinhos que deveriam ter crescido, mas nunca cresceram? O reino de Deus será administrado por pessoas que não conseguem pensar direito? Um bebê é lindo, mas um bebê não consegue pensar direito.
Que tipo de capital será essa? Aqui temos, no fim da Bíblia, uma noiva e uma capital. São, por assim dizer, duas coisas em uma, e seguem para o futuro. Nem sequer sabemos o que farão no futuro. Não temos ideia de quais são os propósitos de Deus para os séculos vindouros.
Tudo o que Ele nos deixa é a imagem de uma noiva gloriosamente formada pela obra consumada do Senhor Jesus, pelo sangue e pela água que saíram do Seu lado, mediante o Espírito de Deus.
No fim da Bíblia, não nos são contadas todas as coisas que as pessoas querem saber. Vamos comer na eternidade? Vamos usar roupas na eternidade? Vamos ter casas na eternidade? Como vamos nos locomover na eternidade? Vamos reconhecer uns aos outros na eternidade?
Eu poderia passar uma hora falando dessas coisas. Suspeito que saberei quem é Abraão. Ninguém precisará me dizer; simplesmente saberei por dentro, assim como, às vezes, estou sentado num avião, olho para alguém e simplesmente sei que aquela pessoa é um filho de Deus. É estranho. É algo interior.
Enfim, isso também é um comentário à parte. Estou falando de sermos preparados para algo. A maneira como a Bíblia termina é tão importante quanto a maneira como ela começa. Ela termina com uma noiva e uma capital seguindo para a eternidade. Elas são uma com o Senhor. O casamento já aconteceu, e agora a eternidade — os séculos vindouros — está diante delas.
Vocês vão me dizer que o Senhor confiará todo o governo dos séculos vindouros a bebezinhos que não conseguem pensar direito? Claro que não. Uma inteligência comum, até abaixo da média, deveria nos levar à conclusão de que algo precisa acontecer conosco como crentes, se quisermos ser capazes de governar com o Senhor.
Campbell Morgan disse, muitos anos atrás: “O reino de Deus é maior do que a cidade de Deus”. Em outras palavras, você pode nascer de Deus e entrar no reino, mas, para fazer parte da noiva e da cidade de Deus, precisa sofrer com Ele e conhecer algo de Sua disciplina, educação e treinamento.
Quando chegamos a Romanos — a carta aos Romanos que lemos há pouco — encontramos estas palavras maravilhosas, em Romanos 8:14:
Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Vocês não receberam o espírito de escravidão, de sujeição ou de servidão para viverem outra vez em temor. Receberam o Espírito de adoção, pelo qual clamamos: “Aba, Pai”. Como lemos em Romanos 8:16-17:
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus.
E, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo;
se de fato padecemos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados.
Agora, observem o “se”. Se sofrermos com Ele, também seremos glorificados com Ele. Vocês percebem uma distinção? Recostem-se. Não estou pedindo que usem demais a cabeça nesta tarde, mas me escutem com atenção.
Crianças. E, se filhos, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo. A palavra aqui é tekna, “crianças”: aqueles que nasceram de Deus. Cada pessoa nascida do Espírito de Deus é, potencialmente, herdeira de Deus e coerdeira com Cristo.
Mas escutem: existe uma distinção. Ela aparece quase imediatamente:
Se de fato padecemos com Ele, para que também com Ele sejamos glorificados.
Há uma distinção ainda mais interessante:
Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
Todo o assunto aqui é introduzido por estas palavras: aqueles que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são os filhos de Deus. Todos somos filhos de Deus no sentido de crianças nascidas Dele e, potencialmente, todos somos filhos maduros. Mas, se quisermos chegar ao ponto em que possamos reinar com Ele e herdar aquilo que é nosso Nele — aquilo que Ele conquistou a tão alto preço por Sua obra consumada —, precisamos ser guiados pelo Espírito.
Amados, escutem-me. Há pouquíssimas pessoas que são verdadeiramente guiadas pelo Espírito de Deus.
Hoje já tenho uma idade considerável. Há muitos e muitos anos — desculpem-me por continuar citando o Sr. Sparks, mas ele tem muito a ver com este assunto —, lembro-me de que ele se virou para mim e disse: “Sabe, tenho mais de oitenta anos e posso contar nos dedos das duas mãos aqueles que conheço que são verdadeiramente guiados pelo Espírito de Deus”.
É claro que ouvimos pessoas dizendo: “O Espírito me mandou fazer isto”, ou: “O Espírito me mostrou aquilo”. Algumas pessoas vão de desastre em desastre, e é sempre o Espírito. Eu lhes pergunto: “Como é que vocês acabam numa confusão dessas?”.
“Não sei”, dizem elas, “mas, se eu admitisse que o Espírito não me guiou, toda a minha vida desmoronaria como um castelo de cartas”. Pois bem, eu digo: “Acho que seria muito melhor se desmoronasse”. Vocês continuarão sempre dizendo: “O Senhor disse isto, o Senhor disse aquilo, o Senhor disse aquilo outro”, e não é o Senhor.
O Senhor não conduz vocês à desordem e à confusão. Quando o Senhor realmente fala, vocês podem ser provados, como José foi. Em Salmos 105:19, está escrito:
A palavra do Senhor o provou.
Isto é, a palavra que Deus lhe havia dado — de que um dia ele seria governador — o provou quando ele estava na prisão, como se aquilo não fizesse sentido. Contudo, a palavra se cumpriu.
Eu poderia contar muitas histórias, mas preciso me conter. Lembro-me de uma irmã idosa, uma irmã maravilhosa. Ela era dinamarquesa. Algumas senhoras dinamarquesas são realmente extraordinárias.
Ela me disse: “Quando eu tinha dezoito anos, Deus falou comigo e disse que eu O serviria no Afeganistão. Então me preparei e fiquei pronta. O Senhor supriu minhas necessidades. Nunca recebi salário; eu confiava no Senhor, e Ele sempre supria minha necessidade. Mas eu não podia ir ao Afeganistão, porque o país estava fechado”.
“Então fiz o que estava ao meu alcance. Era a Índia Britânica. Fui para o que então era a Índia Britânica, para a fronteira noroeste, e ali passei grande parte da minha vida, até que aquela região se tornou o Paquistão, quando conquistou a independência. Mas, então, a missão me disse que eu precisava me aposentar.”
“Bem”, disse ela, “não acredito que missionários se aposentem.” Então discutiu com eles. Disseram-lhe: “Você pode fazer o que quiser, mas não poderá continuar fazendo parte da missão depois de chegar aos sessenta anos”.
Ela se estabeleceu bem na fronteira. Era enfermeira oftalmológica, uma enfermeira especializada no cuidado dos olhos. Estabeleceu-se na fronteira com o Afeganistão e ali exerceu, com outras pessoas, um ministério de oração pelo Afeganistão.
Para encurtar a história, um dia alguém bateu estrondosamente à porta. Era um homem que ela imediatamente reconheceu como afegão. Nunca o tinha visto antes. Ele perguntou se ela era a senhorita Rasmussen e se era enfermeira especializada em oftalmologia.
Então ele disse: “Fui enviado pelo rei do Afeganistão para perguntar se a senhora viria cuidar do príncipe herdeiro. Ele tem problemas muito graves nos olhos”.
Aos setenta e um anos, Ellen Rasmussen entrou no Afeganistão, e uma obra extraordinária começou. Acho isso maravilhoso: ouvir realmente o Senhor. Ela era uma mulher, mas, no sentido de que estamos falando, era um filho maduro.
Ela havia realmente ouvido o Senhor e sido guiada por Ele. Não tenho dúvida disso. Ela também tinha uma compreensão da igreja que era ainda mais maravilhosa.
Eu poderia continuar indefinidamente, se vocês quisessem. Lembro-me de que, quando eu era um rapazinho, em plena adolescência, e acabara de ser salvo, fui a uma reunião de oração pelo Nepal. Todos achavam que eu era maluco, especialmente os meninos e as meninas da minha idade.
Eles diziam: “Por que você quer ir ficar com todos aqueles velhos de cabelo branco, de joelhos?”. Eram sete ou oito pessoas orando pelo Nepal. Aprendi mais naquela reunião de oração do que jamais aprendi num estudo bíblico.
O Nepal era um país fechado. Havia duas senhoras em particular, a Dra. O’Hanlon e a senhorita Lucy Steele, que moravam no lado indiano da fronteira com o Nepal. Elas haviam recebido uma palavra do Senhor de que Ele as levaria ao Nepal e as usaria ali para estabelecer a igreja.
As pessoas achavam que elas eram loucas. Os jovens da minha idade achavam que eu era maluco, e também achavam que aquele pequeno grupo era maluco. Um ou dois me disseram: “O Nepal nunca vai se abrir. O Nepal é fechado”.
Mas eu estava presente, com quinze anos de idade, no dia em que chegou o telegrama da Dra. O’Hanlon e da senhorita Lucy Steele, dizendo: “Amanhã vamos entrar no Nepal. Recebemos permissão”.
Tudo o que aconteceu no Nepal desde então teve sua origem naquelas duas que primeiro entraram e pregaram o evangelho. Digo que eram duas mulheres, mas eram filhos de Deus nesse sentido de maturidade. Eram guiadas pelo Espírito.
Ao longo de toda a minha vida, pela graça de Deus, encontrei pessoas que foram verdadeiramente guiadas pelo Espírito de Deus. Isso se expressava de maneira prática em suas circunstâncias e situações.
Do que se trata tudo isso? Escutem. Filhos no sentido de crianças — e, se filhos, herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo, se de fato sofrerem com Ele, para que também com Ele sejam glorificados. Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são os filhos de Deus.
Ouvir verdadeiramente o Senhor! Preciso me conter para não me aprofundar demais nesse assunto, ou nunca chegaremos aonde deveríamos chegar nesta tarde. Mas todo verdadeiro filho de Deus tem em seu espírito um pequeno mecanismo capaz de ouvir a voz de Deus.
Muitos cristãos nunca ouvem a voz do Senhor porque estão convencidos de que o Senhor jamais falaria com eles. Desde o começo, pensam assim: “Deus não falaria comigo. Com Watchman Nee, sim. Com Stephen Kaung, sim. Talvez até com Lance Lambert. Deus falaria com esses irmãos, mas não comigo — gente sem importância, como você e eu”.
Meu querido amigo, você se torna surdo quando pensa assim. Todo pai fala com seu filho, ainda que seja numa linguagem sem pé nem cabeça. Vocês entendem o que quero dizer? Talvez seja uma linguagem ininteligível, quando um pai faz sons carinhosos para sua filhinha ou seu filhinho, mas ele fala. Todo pai fala com seu filho ou sua filha.
Que alegria extraordinária quando, de repente, a criança responde! Lembro-me de certa vez estar numa reunião para tomar chá, e um menininho, que nunca havia falado na vida, de repente disse: “Petróleo”. Todos pensamos: talvez ele vá trabalhar no ramo do petróleo. Foi uma grande empolgação.
Quando você pensa: “Deus nunca falaria comigo”, fecha aquele pequeno mecanismo capaz de ouvir a voz do Senhor.
Certa vez, tínhamos na congregação, na Inglaterra, um irmão completamente surdo. Louvado seja o Senhor, ele recuperou a audição. Mas havia sido completamente surdo, e descobrimos, para nosso grande espanto, que a razão de ter ficado surdo era que tinha catorze irmãos e irmãs. Ele não suportava o barulho que faziam.
Quando era menino, simplesmente se fechou e ficou surdo. Muitos cristãos são assim. Não gostam do barulho dos outros crentes, então fecham os ouvidos e ficam surdos. O Senhor poderia gritar com eles, mas não conseguiriam ouvir.
Como diz Romanos 8:14:
Pois todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus.
É extraordinário quando vocês começam a enxergar isso dessa maneira.
Vocês perceberão imediatamente que se faz uma distinção entre crianças e filhos maduros. Todos somos crianças e, em certo sentido, potencialmente, todos somos filhos maduros. Mas a ideia parece ser que, para ser um filho maduro, você precisa crescer, ser educado e treinado, e ser capaz de assumir responsabilidades.
Isso tem a ver com maturidade, pleno crescimento, treinamento, educação e caráter.
Se vocês olharem no mesmo capítulo, em Romanos 8:19, leremos:
Porque a ardente expectativa da criação aguarda a manifestação dos filhos de Deus.
Depois, em Romanos 8:20-21:
Porque a criação foi sujeita à vaidade, não por sua própria vontade, mas por causa Daquele que a sujeitou, na esperança
de que também a própria criação será liberta da escravidão da corrupção para a liberdade da glória dos filhos de Deus.
Todos os filhos de Deus estão nesse quadro, mas isso tem algo a ver com aqueles, dentre os filhos de Deus, que cresceram. Em outras palavras, o Senhor está buscando aqueles que possam participar de Seu governo nos séculos vindouros.
O mesmo ponto é encontrado em Gálatas 4:1-7. Se vocês olharem para essa passagem — esqueçam por um momento os capítulos e versículos —, em Gálatas 3:26, lerão:
Pois todos vós sois filhos de Deus, mediante a fé em Cristo Jesus.
Depois lemos em Gálatas 4:1-2:
Digo, porém, que, enquanto o herdeiro, isto é, o filho, é criança, em nada difere de um escravo, embora seja senhor de tudo;
mas está sob tutores e administradores até o dia determinado pelo pai.
Assim também nós, quando éramos crianças, estávamos escravizados aos rudimentos do mundo. Essa palavra talvez seja mais bem compreendida como o ABC. Estávamos escravizados ao ABC do mundo — à ordem do mundo.
Mas, como lemos em Gálatas 4:4-7:
Vindo a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,
para que Ele remisse os que estavam sob a lei, a fim de recebermos a adoção de filhos.
E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai.
Assim, já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro por meio de Deus.
Vocês percebem novamente que encontramos a mesma coisa? Primeiro, potencialmente, todos somos filhos maduros. Mas depois o texto fala de crianças. Uma criança pode ser um filho, mas está sob tutores e administradores até atingir a maioridade.
Quando éramos crianças, era natural sermos infantis. A palavra “infantil” só é usada de maneira desagradável quando falamos de um adulto que é infantil. Mas, quando éramos realmente crianças, não podíamos ser outra coisa senão infantis.
O que significa ser infantil? Significa que somos centrados em nós mesmos. Muito simples. Não de maneira maldosa; somos apenas alegremente centrados em nós mesmos. Você não era assim quando criança? Talvez haja uma ou duas exceções no mundo — todos nós as detestamos —, mas a maioria das crianças só pensa em si mesma. Em ninguém mais, na verdade. É natural.
Quando éramos crianças, gostávamos das coisas mais incríveis. Costumamos dizer: “Coisas pequenas entretêm mentes pequenas”. Vocês conseguem imaginar alguém de trinta, quarenta, cinquenta ou sessenta anos brincando com algumas das coisas com que brincávamos quando crianças?
Em muitos aspectos, quando éramos crianças, ficávamos absorvidos pelas coisas mais ridículas. É claro que dizemos: “Bem, isso é infantil”, mas não havia nada de errado. Éramos crianças. O que há de errado em uma criança ser infantil?
Mas, quando deveríamos ser filhos maduros — gerenciando, administrando, governando e reinando, por assim dizer — e ainda estamos absorvidos por coisas minúsculas, isso é infantilidade.
Quando você era criança, era limitado. Afinal, não conseguia compreender a teoria da relatividade de Einstein aos quatro, cinco ou seis anos de idade. Claro que não. Sua capacidade de compreensão era limitada.
Lembro-me de que, quando eu era menino, nos ensinavam aquela língua terrível, o latim, porque diziam que ela expandia nosso cérebro. Suponho que aqui nos Estados Unidos vocês não tenham precisado aprender latim, mas ele era considerado a base de toda a educação na Europa. Supostamente, expandia nossa massa cinzenta.
Todos temos massa cinzenta, mas poucos de nós a usaram realmente de maneira adequada. Ela está ali, dentro do crânio, e nunca é realmente usada. É por isso que sempre achei tão inteligentes os chineses — aqueles que aprenderam a escrever em chinês. A meu ver, não há nada como aprender a escrita chinesa para expandir o cérebro.
Os japoneses, com seu jeito inimitável, decidiram acrescentar uma escrita fonética para ajudar. Mas, quando você é criança, age como criança e pensa como criança. Não há nada de errado nisso.
Mas, quando você já deveria ter muitos anos no Senhor — ser adulto no Senhor, maduro no Senhor — e ainda pensa como criança, ainda é centrado em si mesmo, ainda fica girando em torno de um pequeno comentário que alguém fez a seu respeito, do qual não consegue se livrar e que agora está destruindo toda a sua vida e comunhão, isso é inacreditável para mim. Absolutamente inacreditável.
Somos tão mesquinhos e estreitos de pensamento. É diferente quando se trata de crianças. Quando duas crianças querem o mesmo lugar para sentar, há um pequeno empurra-empurra e uma briga. Alguém se senta, separa as duas, e há uma pequena birra. Todos entendemos isso.
Mas, quando estamos na igreja e encontramos todo esse tipo de coisa, é uma tragédia.
Uma criança tem uma visão limitada, e isso é perfeitamente natural. Somente quando você cresce começa a enxergar com mais clareza e a compreender o que está vendo. Uma criança pode ser capaz de ver certas coisas, mas não necessariamente compreende o que elas significam.
Por toda parte, descobrimos que a filiação está relacionada à maturidade, ao caráter, ao crescimento, à educação, ao treinamento e, agora, quero acrescentar a palavra herança.
Não sei se algum de vocês já conheceu alguém que herdou alguma coisa e depois desperdiçou tudo. Conheci algumas pessoas assim. Herdaram milhares e milhares. Eu nunca conseguia acreditar que alguém pudesse gastar tanto dinheiro tão depressa.
Lembro-me de um amigo que tinha dois ou três milhões. Gastou tudo em dezoito meses e acabou tão pobre quanto o restante de nós. Não é espantoso? Recebemos apenas uma parte no começo.
Vocês conhecem muitos crentes? É assim que administrariam a herança, porque não são capazes de lidar com ela, não são capazes de manejá-la. Portanto, essa questão é de enorme importância.
Permitam-me falar por um momento sobre a expressão “adoção de filhos”. Naturalmente, vocês a encontram nas três passagens que lemos juntos. Mas, em Efésios 1:5, lemos:
Tendo-nos predestinado para a adoção como filhos, por meio de Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito de Sua vontade.
Ou: “predestinados para a adoção como filhos”. O grego significa literalmente “colocação como filhos” — predestinados para sermos colocados como filhos. Guardem isso na mente por um momento.
Essa palavra, “adoção”, aparece três vezes nas passagens que lemos. Ela é mencionada em mais dois lugares, mas não trataremos deles nesta tarde. Em Efésios 1:5, é “colocação como filhos”, predestinados para a colocação como filhos. Em Gálatas 4:5, é receber a colocação, ou adoção, de filhos. Em Romanos 8:15, é: “Recebestes a adoção de filhos”.
Essa palavra, “predestinado”, significa marcado de antemão, ou predeterminado. Na verdade, ela se relaciona com a palavra da qual vem “horizonte” em inglês. Quase poderíamos dizer que seu horizonte foi definido de antemão para a colocação como filhos.
Em outras palavras, os horizontes de Deus para você — os limites, se preferir — têm tudo a ver com a questão da filiação. Quando Ele salvou você, tinha em mente a filiação. Não era apenas para que você nascesse de Deus, mas para que se tornasse um filho maduro na família da fé.
Há aqui algo muito maravilhoso. Sei que alguns de vocês não compartilham minha visão da predestinação, mas concordarão com isto: toda a determinação de Deus está por trás de sua filiação.
Toda a graça de Deus é disponibilizada para que cada filho de Deus cresça na graça, chegue à maturidade, seja treinado, educado e disciplinado. Toda a graça e todo o poder de Deus são disponibilizados a cada filho de Deus para que seja conformado à imagem do Filho de Deus. Em outras palavras, caráter. Está tudo à disposição.
Talvez você pense que tem um temperamento que o impede de ser como o Senhor. De alguma forma, você não tem esse tipo de caráter. Sente que é especial e único. Tem problemas decorrentes de sua história, de suas circunstâncias, de um divórcio, de experiências desagradáveis com seus pais e de circunstâncias que parecem dominadas por demônios.
Escute-me: você se esconde nisso. Está o tempo todo dizendo: “Bem, veja, o que ele está dizendo é maravilhoso, mas não funciona para mim. Não funciona para mim, porque tenho circunstâncias especiais e problemas especiais que são realmente insolúveis”.
Cada filho de Deus recebe graça na medida de seus problemas. Não importa qual seja seu problema, o que você herdou de sua história familiar ou de sua ascendência, ou em que situação se encontra, por mais diabólica que ela possa ser. Se você nasceu do Espírito de Deus, há graça disponível para vencer o problema.
Você acredita nisso? Acredita mesmo? Se acreditar, algo acontecerá em sua vida. Você deixará de culpar seu marido, sua esposa, seus pais, seus filhos, suas circunstâncias ou seu temperamento.
Pela primeira vez, dirá: “Creio que a graça de Deus é suficiente para mim”. Esse será o primeiro passo rumo à filiação madura.
Isso foi predeterminado. Pensem nisso. Os crentes parecem achar que tudo depende deles. É por isso que nunca aceito o arminianismo. Todos acreditam que tudo depende da vontade humana e da decisão humana.
Meu querido amigo, até onde você caminhou com o Senhor, se realmente acha que tudo depende de você — de uma decisão que tomou? Você decidiu entrar e pode decidir sair. Nunca ouvi tamanho absurdo.
A Palavra de Deus é muito clara. Em João 6:37:
Todo aquele que o Pai Me dá virá a Mim;
e aquele que vem a Mim de modo nenhum o lançarei fora.
Não é interessante que as pessoas nunca citem a primeira parte disso?
Todo aquele que o Pai Me dá virá a Mim.
Depois, um pouco mais adiante, em João 6:40:
Eu o ressuscitarei no último dia.
Que salvação! Ela começou no coração do Pai, quando Ele deu você ao Filho. Então você veio ao Filho e foi salvo pela graça de Deus — não importa como tenha vindo, se tomou uma decisão ou se estava numa confusão tão grande que não sabia para onde se voltar. Você encontrou o Senhor; o Senhor encontrou você.
No fim, se você viver tempo suficiente e seu pobre corpo estiver se deteriorando rapidamente, saberá como é maravilhoso pensar:
Eu o ressuscitarei no último dia.
Que salvação!
Ela começa com a justificação no espírito, prossegue com a salvação da alma e termina com a redenção do corpo. Poderia existir uma salvação assim? E, no entanto, tantas vezes a desprezamos. Inventamos desculpas.
“Bem, é maravilhoso. Creio na salvação de Deus. Creio que o Senhor Jesus morreu para me salvar. Mas, no meu caso, tenho problemas muito especiais. Minhas circunstâncias são bastante singulares. Isso realmente não funciona para mim. Acho maravilhoso como funciona para os outros, mas não funciona para mim.”
Por que você não dá um novo passo hoje? Isso foi predeterminado, marcado de antemão. Você foi marcado de antemão; foi predeterminado que fosse colocado como filho.
Deus não está interessado apenas em libertar você do poder das trevas, por mais extraordinário que isso seja. Ele não está interessado apenas em salvar você ou em que você nasça de novo, por mais extraordinário que seja nascer de Deus. Ele está interessado em que você se torne um filho maduro, alcance o alvo e seja um filho.
O que é adoção? Alguns de vocês talvez queiram dormir neste ponto, porque vou tentar explicar essa palavra. Adoção não é um assunto simples.
Temos duas imagens disso. Para ser honesto, acho que a escolha de uma ou outra depende de sua formação. Há a imagem gentílica. É uma imagem maravilhosa, absolutamente maravilhosa.
A adoção nos círculos judaicos ou hebraicos era praticamente desconhecida. Temos apenas um exemplo: Eliézer de Damasco, que foi adotado por Abraão. Ele havia nascido naquela casa e foi adotado como aquele que herdaria tudo, caso Abraão não tivesse tido um herdeiro.
Mas, no mundo gentílico, havia muitíssimas adoções. Com frequência, os pais estavam fartos dos próprios filhos. Eles eram devassos e depravados, enquanto havia na casa um escravo que era mais verdadeiramente filho do que o próprio filho. Então o adotavam.
Era preciso haver pelo menos cinco testemunhas — normalmente sete — para que a adoção acontecesse. Era necessário que houvesse uma troca de dinheiro. Chamavam isso de dinheiro de resgate.
Agora, escutem isto: a pessoa adotada era considerada um novo homem. Na verdade, a expressão usada às vezes era “nascido de novo”, com um novo nome, um novo destino e um novo futuro.
Isso não é maravilhoso? Parece ser a própria Escritura. Lembram-se de como o próprio Espírito testifica? Vocês não precisam daquelas testemunhas humanas. Como lemos em Romanos 8:16-17:
O próprio Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus;
e, se filhos, também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros com Cristo.
Ou, novamente, pensem em Gálatas: redimidos, para que pudéssemos ser herdeiros de Deus. De fato, parece ser essa a imagem.
O apóstolo Paulo não tinha o menor receio de usar ilustrações do mundo gentílico. Falava de corridas — de correr uma corrida. A maioria dos cristãos tinha pouca noção daquelas corridas. Era preciso correr nu, completamente nu. Paulo falava de luta corporal; lutava-se completamente nu. Um horror para os judeus.
Havia muitas outras coisas que Paulo usava. Ele não tinha receio de usar essas imagens gentílicas. Cresceu em Tarso. Viu tudo aquilo. Algumas dessas imagens estão entre as mais maravilhosas que temos no Novo Testamento.
Em 1 Coríntios 9:24, lemos:
Todos correm na corrida, mas um só recebe o prêmio.
Paulo tinha muitas ilustrações provenientes de Tarso. É interessante que os outros apóstolos, todos eles, exceto Paulo, nunca usaram ilustrações assim. João nunca as usou. Pedro nunca as usou. Tiago nunca as usou. Judas nunca as usou. Só Paulo — o querido Paulo.
Portanto, acho bastante possível que ele tenha usado a imagem gentílica da adoção. Era algo muito comum. Alguns arqueólogos dizem que um grande número de monumentos tem inscrições que usam essas palavras: “colocação como filhos”. Há mais inscrições desse tipo do que de muitos outros. Em outras palavras, era tão comum que as pessoas colocavam um monumento em casa registrando que fulano havia sido adotado como filho.
Mas há outra imagem, que chamarei de imagem hebraica, a imagem judaica. Não se trata, como dizem alguns comentários bíblicos, de Eliézer de Damasco. Acho que precisamos considerar a possibilidade de que fosse o bar mitzvah judaico.
Quando um menino judeu nascia numa família judaica, ele crescia. Ao chegar aos treze anos, tinha seu bar mitzvah. Bar mitzvah é uma expressão aramaica, usada hoje no hebraico, para um filho da lei — ou um filho da Palavra de Deus. Que belo.
Quando um menino judeu chega aos treze anos e é reconhecido como filho na casa de Israel, passa a ter responsabilidades e deveres que nunca teve antes. Pode ser chamado a qualquer momento, na sinagoga, para ler a Palavra.
No mundo antigo, no antigo mundo judaico, ele podia se casar. Parece-me incrível pensar em jovens de treze e catorze anos se casando, mas eles se casavam. É muito provável que Maria, quando deu à luz o Senhor Jesus, tivesse apenas catorze anos.
Aqui temos algo extraordinário. Lembro-me de o Sr. Sparks me dizer — ele nunca publicou isso dessa forma em um livro —: “Pessoalmente, penso que a adoção de filhos, a colocação como filhos, é o bar mitzvah, e não a forma gentílica de adoção, por mais maravilhosa que seja essa imagem”.
Ele disse: “Você percebeu que Romanos 8 fala de crianças? Então temos duas imagens aqui? Uma de crianças de fato nascidas de Deus — filhos de Deus, nascidos de Seu Espírito — e, de repente, você é adotado, como se não tivesse nascido de Deus, mas de outra pessoa”.
Outros dizem que isso não importa; é uma imagem. São duas imagens maravilhosas. Eu me pergunto muito seriamente sobre isso. Em Gálatas, é ainda mais claro, porque o texto fala de uma criança que ainda não atingiu a maioridade, sob tutores e administradores até atingir a maioridade e poder herdar.
Qualquer que seja a imagem que vocês adotem, o maravilhoso é isto: há uma herança da qual tomar posse. Esse é o ponto.
Pessoalmente, pergunto-me se o bar mitzvah não seria a verdadeira imagem. Aqui está alguém nascido de seus pais, que chega à idade da maturidade — treze anos — e é reconhecido como responsável na família da fé. Não é uma imagem maravilhosa? Acho que sim.
Mas, de certa forma, não importa qual imagem vocês adotem. O verdadeiro ponto é que existe uma herança.
Agora vou terminar. Todos vocês sabem que normalmente isso significa mais meia hora, mas eu realmente vou terminar.
Há uma herança, e crianças nunca podem tomar posse dela. Uma criança pode ter uma herança, mas, para realmente tomar posse dessa herança em termos práticos, precisa crescer. Precisa crescer e ser educada.
Quanto mais especial for o lugar que você ocupará no governo eterno de Deus, mais especial será a educação. Quanto mais especial for o lugar que Deus destinou a você nos séculos vindouros, em Seu governo e reinado, mais especial será o treinamento.
Não há o menor vestígio da ideia de que, de alguma maneira, você possa ser tão mesquinho, desagradável, mal-humorado e rabugento quanto quiser e, então, de repente, ao morrer, tornar-se o santo mais doce que já existiu.
Você não conseguia administrar sua casa aqui embaixo, não conseguia administrar o negócio, não conseguia nem lidar com o cachorro de estimação — todos fugiam de você. Mas, de alguma forma, quando morrer, uma varinha será agitada sobre você, e você será capaz de governar regiões inteiras da terra com o Senhor. Isso não faz sentido.
Se você e eu quisermos tomar posse de nossa herança, precisamos ser treinados e educados, e precisamos crescer. Temos uma única e breve vida na qual tudo isso acontece.
Quando você é jovem no Senhor, tem toda uma vida pela frente, e o inimigo vem e sussurra: “Não seja extremo. Não seja tão dedicado. Não se entregue inteiramente ao Senhor. Você é jovem. Solte-se um pouco. Experimente um pouco do mundo. Divirta-se”.
“Você não quer se tornar uma espécie de máquina espiritual, um autômato santificado. Não quer parecer um alienígena. Seja humano. Relaxe. Divirta-se.” Estão vendo? Sim, sim, sim — e você faz isso.
Então você conhece a moça ou o rapaz, apaixona-se e se casa. O inimigo vem e diz: “Agora você está ocupado demais. Tem uma família para formar, os filhos estão chegando, uma casa para organizar. Depois, depois. Não assuma esse compromisso agora. Deus entende. Você tem muitos compromissos”.
Vamos adiando, e então chegamos à gloriosa meia-idade, quando começamos a alargar justamente onde não queremos alargar. Na meia-idade, dizemos que não temos vontade de ser tão extremos — de levantar às cinco da manhã para uma reunião de oração.
“Acho que o estudo bíblico é longo demais. Deveria durar só meia hora, e deveriam tocar uma campainha no final. Parem com tudo. Estamos na meia-idade — com a cintura se alargando.” Pensamos: “Ah, que maravilhoso, aqueles jovens estão tão fervorosos pelo Senhor”, mas nós já não estamos fervorosos pelo Senhor. O fogo se apagou.
Então dizemos: “Quando me aposentar, vou me dedicar à obra do Senhor. Aí terei tempo”. É claro, esperamos e nos aposentamos. A essa altura, temos dores, incômodos e limitações. Já não ouvimos tão bem, não enxergamos tão bem e não andamos tão bem.
Nosso coração começa a dar problemas, o colesterol se torna uma preocupação, e surge uma série de outras coisas. O inimigo diz: “Agora, veja bem. Você tem problemas demais. Não pode se entregar ao Senhor agora. Precisa sobreviver”.
Então, quando você está realmente velho — e agora estou falando de estar na casa dos noventa —, o inimigo vem e diz: “Não precisam de você. Não dá para estar cem por cento aos noventa anos. Você está apenas na antessala, esperando ir para casa. Vão levar você numa cadeira de rodas”.
Como o inimigo é astuto, vocês não acham? Quando eu era jovem, um ano me parecia um milênio. Eu costumava pensar como era impressionante esperar por outro acontecimento, como o Natal, quando ganhávamos presentes, ou um aniversário, quando ganhávamos presentes.
Eu ia até minha mãe e perguntava: “Quando é o Natal?”. Ela dizia: “O Natal é no fim de dezembro”. Eu perguntava: “Bem, quando é dezembro?”. “Dezembro ainda está a muitos meses de distância.”
Ou eu perguntava sobre meu aniversário: “Quando é meu próximo aniversário?”. Minha mãe sempre dizia: “Você acabou de fazer aniversário”. Sempre a mesma coisa.
Hoje não tenho esse problema. Os aniversários chegam tão depressa que mal consigo acompanhar. Mal sei minha idade. Preciso perguntar ao pessoal de casa — à minha irmã e aos outros —: “Quantos anos eu tenho?”. Passam tão depressa que não consigo acompanhar.
Há dois anos eu tinha sessenta e oito, ou sessenta e nove? Não consigo lembrar. Tenho setenta e dois? Tenho setenta e um? Não sei. Passaram tão depressa.
Para citar novamente o Sr. Sparks, lembro-me de que, certa ocasião, na Suíça, ele me disse: “Os últimos quinze anos da minha vida passaram tão depressa que não sei para onde foram”. Às vezes, quase sentimos que talvez o mundo esteja acelerando de alguma forma; está andando mais depressa.
Mas, voltando ao assunto: você tem uma única vida. Nessa única vida, Deus precisa convencer você do pecado, salvá-lo, levá-lo ao novo nascimento e, então, começar toda a sua educação, seu treinamento e sua disciplina para que seja um filho em Sua casa. Uma única vida.
Será de admirar que a Palavra de Deus diga, em Hebreus 3:7-8:
Hoje, se ouvirdes a Sua voz, não endureçais os vossos corações.
Não adie. Não adie. Acerte as coisas com o Senhor. Entregue-se ao Senhor. Você nunca se arrependerá.
Tenho viajado por todo o mundo e encontrado muitas, muitas pessoas, muitas delas cheias de arrependimentos. Dizem-me que suas vidas foram desperdiçadas porque fizeram a coisa errada. Escolheram algo que sabiam não ser a vontade de Deus e passaram a maior parte da vida num deserto, dando voltas e mais voltas num ciclo interminável, sem chegar a lugar algum.
Nunca encontrei uma única pessoa que me dissesse: “Entreguei-me cem por cento ao Senhor em determinado momento da minha vida e me arrependo profundamente disso”. Nunca encontrei uma sequer.
Posso lhes dizer: as pessoas que realmente se entregaram ao Senhor são cheias de riso, cheias de vida e cheias de graça. Os que vivem infelizes são sempre aqueles que colocam o próprio eu em primeiro lugar.
Que o Senhor nos ajude nessa questão. Vocês foram chamados para ser filhos maduros. Se você nasceu de Deus, potencialmente é esse filho.
Mas Deus está interessado em que você herde, chegue ao trono e reine com Ele. Que o Senhor, de alguma forma, fale ao nosso coração algo do qual não consigamos fugir.
Vamos orar?
Amado Senhor, nós nos inclinamos aqui em Tua presença. Sabemos que cada um de nós, Senhor, foi guiado por Ti. Tu nos trouxeste aqui.
Nossa oração, Senhor, é que nenhuma parte deste tempo seja desperdiçada. Falarás ao nosso coração, Senhor? Tu nos desafiarás? Tu nos ajudarás, por Tua graça, a responder, para que sejamos pessoas cem por cento entregues a Ti?
Queremos, Senhor, uma vez que Tu nos marcaste de antemão para a adoção, ou colocação como filhos, que possamos chegar a essa filiação madura. Que sejamos filhos em Tua casa.
Amado Senhor, segura-nos firmemente pelo Teu Espírito. Não nos deixes ir, Senhor. Segura-nos firmemente pelo Teu Espírito, como fizeste certa vez com Jacó, quando lhe apareceste em seu desespero, e ele não queria Te deixar ir.
Vem a nós, Senhor, e faz algo em nossa vida. Pedimos isso em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.