Vamos abrir no Salmo 133.
Oh! Quão bom e quão suave é
Que os irmãos vivam em união!
É como o óleo precioso sobre a cabeça,
Que desce sobre a barba,
A barba de Arão;
Que desce à orla das suas vestes;
Como o orvalho do Hermom,
Que desce sobre os montes de Sião:
Porque ali o Senhor ordena a bênção,
A vida para sempre.
Agradecemos ao nosso Senhor porque, por Sua misericórdia, Ele nos reuniu para que possamos comparecer diante Dele e buscar a unidade dos santos.
Sabemos que a unidade da fé corresponde à unidade na Divindade. A obra que nosso Senhor realizou na cruz não inclui apenas nossa redenção e salvação como indivíduos; inclui também nos chamar para fora das raças e tribos.
Inclui também abolir todas as diferenças e divisões que temos no mundo, para que todos sejamos um Nele.
Hoje, no Senhor, somos um só corpo. Ele é nossa única Cabeça. Não há outra cabeça, e não há outra pessoa que possa ser nossa cabeça. Nem nós mesmos somos nossa própria cabeça, porque oferecemos nosso corpo como sacrifício.
Cristo não é apenas a Cabeça de cada um de nós individualmente. Cristo também é a Cabeça da igreja. Estamos sob Sua direção e autoridade. Que Ele seja nossa Cabeça; então todo o Corpo será ajustado e edificado em conjunto, em amor.
Irmãos e irmãs, precisamos enxergar que a unidade dos santos é um dom de Deus. Esse dom de Deus nos é concedido em nosso Senhor Jesus, e essa bênção nos é concedida no Espírito Santo.
Portanto, pela graça de Deus, precisamos abandonar tudo o que possa impedir essa unidade. Assim poderemos expressar essa unidade tão preciosa que Deus nos deu.
A sessão desta manhã é a última desta conferência. Por isso, gostaríamos de compartilhar juntos sobre a bênção da unidade dos santos.
Sabemos que há um salmo que fala da bênção da unidade, dizendo:
Oh! Quão bom e quão suave é que os filhos de Deus sejam um.
Esse é o Salmo 133.
O Salmo 133 é chamado de Cântico dos Degraus. Do Salmo 120 ao Salmo 134, há quinze salmos chamados Cânticos dos Degraus.
Segundo nos é dito, os israelitas cantavam esses Cânticos dos Degraus quando estavam a caminho de Jerusalém. Três vezes por ano, os israelitas iam a Jerusalém para adorar a Deus em Seu templo. Eles estavam espalhados por toda parte.
No início desses cânticos, vemos que aqueles que pertenciam a Deus viviam em terras estrangeiras. Onde quer que morassem, seu coração ansiava pelo templo de Deus.
Pela graça de Deus, eles convergiam para Jerusalém, vindos de vários lugares. Enquanto viajavam em direção a Jerusalém, encontravam-se uns com os outros e seguiam juntos para lá.
Quando avistavam o templo de longe, seu coração se comovia. Então chegavam a Jerusalém, subiam os degraus, entravam no templo e contemplavam a glória de Deus.
Por um lado, percebiam sua própria corrupção e fraqueza. Mas, por outro, sentiam como a graça de Deus era abundante.
Desde o início da viagem até entrarem no templo, cantavam esses cânticos. Quando chegavam ao Salmo 133, alcançavam o ponto culminante dos Cânticos dos Degraus.
Pela grande misericórdia de Deus, podiam ser um. Já não estavam dispersos. Já não eram como antes, quando cada indivíduo cuidava apenas de seus próprios assuntos. Agora eram um em Deus.
Por isso, agradeciam a Deus e O louvavam. Cantavam o Salmo 133:
Oh! Quão bom e quão suave é
Que os irmãos vivam em união!
Mas, como ainda estavam na carne, logo voltariam para casa. O Salmo 134 fala do momento em que começavam a retornar.
Mas agradecemos a Deus porque hoje somos o povo celestial. Embora, na carne, nem sempre possamos nos reunir, nossa unidade não é algo exterior. Quando nos reunimos, somos um; mesmo quando voltamos para casa, somos um. Esse fato é eterno.
Alguns dizem que os quinze Cânticos dos Degraus se referem aos quinze degraus do templo. Segundo Ezequiel 40, havia sete degraus para subir ao átrio exterior e oito para entrar no átrio interior. Em cada degrau, cantavam um cântico. Essa é outra interpretação.
Mas, independentemente da interpretação, sabemos que o Salmo 133 fala das bênçãos da unidade.
Sempre que a Bíblia usa uma expressão como oh!, chamando-nos a contemplar algo, Deus quer que prestemos atenção especial. Há algo aqui que Deus quer que observemos. É algo que não podemos negligenciar, porque aqui há um fato glorioso.
Esse fato glorioso é que os irmãos vivem em união. Nesta terra, vocês não encontram isso.
Nesta terra há judeus e gentios, e eles não têm comunhão uns com os outros. Há diferentes denominações. Algumas diferenças se devem à raça, outras à cultura, outras à classe social e outras à instrução.
A terra está cheia de distinções de classe, e a divisão é algo normal. A unidade é algo que não se encontra.
Mas hoje Deus nos uniu, tirando-nos de todas essas diferenças. A cruz aboliu todas essas diferenças. Em Cristo, podemos ser um. Isso é algo que não se encontra no mundo.
Por isso, Deus quer que contemplemos isto: irmãos vivendo em união.
Aqui vemos os irmãos. Não importa quem éramos no passado, a que raça pertencíamos, de que cultura viemos, que instrução tínhamos ou qual era nossa posição social: no Senhor, somos todos irmãos.
Temos irmãos e irmãs. Em nós está a vida do Senhor. Além do nome de nosso Senhor, não há outro nome mais doce aos nossos ouvidos do que “irmão”.
Vocês se lembram de quando Saulo perseguia os filhos de Deus. Ele estava a caminho de Damasco, esperando prender os filhos de Deus e levá-los a Jerusalém para acusá-los.
Mas agradecemos a Deus porque, no caminho para Damasco, nosso Senhor apareceu a ele. Quando entrou na cidade de Damasco, durante três dias e três noites não pôde ver nada. Não comia, não bebia e estava orando.
Deus enviou Ananias até ele. Ananias colocou a mão sobre a cabeça de Saulo e disse: “Irmão Saulo”.
Queridos irmãos e irmãs, Saulo havia sido um inimigo. Agora Ananias colocava a mão sobre a cabeça de Saulo e o chamava de “irmão Saulo”. Antes, eles haviam sido inimigos; não suportavam nem mesmo ver um ao outro. Mas agora eram irmãos.
Creio que, quando Saulo ouviu aquela voz, houve um sentimento profundo dentro dele: “Um homem como eu… você me chamou de irmão?”
Queridos irmãos e irmãs, agradecemos e louvamos ao nosso Deus. Somos todos irmãos, e irmãos precisam amar uns aos outros. Se não amamos uns aos outros, não agimos como irmãos.
Por isso, nosso Senhor nos disse que devemos amar uns aos outros. Por que devemos amar uns aos outros? Porque somos irmãos. Como podem irmãos não amar uns aos outros?
Assim como o Senhor nos amou, devemos amar uns aos outros. O Senhor nos amou e entregou a Si mesmo por nós. Precisamos amar nossos irmãos e dar nossa vida por eles.
Essa é a natureza que a vida do Senhor nos trouxe. Essa é a verdade a respeito do amor entre irmãos, porque isso é o que o Senhor nos deu por meio de Sua própria vida.
Mas, irmãos e irmãs, como esse amor fraternal pode ser expresso?
Esse amor fraternal é expresso quando os irmãos vivem em união. Viver juntos e ser um expressa o amor mútuo.
Hoje somos irmãos. Não se trata apenas de nos encontrarmos de vez em quando. Não se trata apenas de termos, uma vez por ano, uma conferência como esta e nos reunirmos.
Muitas vezes, os cristãos só se encontram de tempos em tempos. No domingo, você vai à igreja por uma hora. Encontra irmãos e irmãs, canta hinos e ora. Talvez nem seja você quem ora; outra pessoa ora por você. Você ouve um pouco da Palavra de Deus e, depois de vinte minutos, fica impaciente.
Então uma hora passa depressa. Vocês apertam as mãos e dizem: “Até a semana que vem”. É fácil nos reunirmos simplesmente como amigos, mas isso é apenas um contato exterior.
Muitas vezes mantemos os irmãos e irmãs à distância. Assim nos sentimos seguros. Ninguém pode nos atacar, ninguém pode nos incomodar e ninguém pode pisar no nosso pé. Mas isso não é viver juntos.
O que significa viver juntos? Viver juntos é estar juntos o tempo todo, e não apenas nos encontrarmos de vez em quando.
Estamos juntos quando nos reunimos, mas também estamos juntos quando não estamos na reunião. Não estamos juntos apenas quando nos encontramos no domingo. Mesmo quando não estamos nas reuniões, continuamos vivendo em união, porque todos pertencemos a uma só família.
Não importa quando nem onde, continuamos juntos. Podemos ser um. Não há diferença, divisão nem contenda. Na paz do Senhor, temos nossa paz.
O salmo diz:
Quão bom e quão suave.
Na Bíblia, a palavra bom tem um significado especial. Algo não é bom simplesmente porque os homens dizem que é bom. Muitas vezes, aquilo que muitas pessoas consideram bom é justamente o que não é bom.
O que a palavra bom significa na Bíblia? Significa que Deus considera aquilo bom. É algo que está de acordo com Sua vontade, e esse é o verdadeiro bem.
O que é suave? É algo agradável, que satisfaz o coração de Deus e também satisfaz nosso coração.
Como é bom que os irmãos vivam em união! Isso expressa o coração de Deus. E como é agradável: satisfaz o coração de Deus e também satisfaz nosso coração.
Quando os irmãos vivem em união, isso não é limitado pelo tempo nem pelo espaço. Porque, no Senhor, já vivemos na eternidade.
Portanto, queridos irmãos e irmãs, não é apenas quando nos reunimos aqui, especialmente quando partimos o pão juntos, que vemos os irmãos vivendo em união. Podemos pensar que isso dura apenas uma hora e que, muito em breve, vamos nos separar até o ano que vem. Não é assim.
No Senhor, não somos limitados pelo tempo nem pelo espaço. A unidade no Espírito e a paz no Senhor são eternas.
Quando os irmãos vivem em união, o salmista usa duas figuras para descrever isso.
Ele diz que é como o óleo precioso sobre a cabeça de Arão, que desce sobre a barba e até a orla de suas vestes.
Irmãos e irmãs, todos sabemos que Arão era o sumo sacerdote. Segundo Êxodo 30, quando o sumo sacerdote ia assumir sua posição, precisava ser ungido com óleo precioso.
Esse óleo precioso não era colocado sobre sua cabeça gota a gota. O óleo precioso era derramado sobre sua cabeça. Descia sobre sua barba e por todo o seu corpo, até a orla de suas vestes. Todo o seu corpo, toda a sua pessoa, era ungido.
Depois de ser ungido, ele podia entrar no tabernáculo para servir.
Nosso Senhor Jesus, quando estava na terra, foi batizado. Quando saiu da água, o céu se abriu, e o Espírito Santo desceu sobre Ele e permaneceu Nele.
Em outras palavras, antes de começar Seu ministério, Ele foi ungido com o óleo precioso, que é o Espírito Santo. Há algo mais precioso do que o Espírito Santo? Deus derramou Seu Espírito sobre a cabeça de Seu Filho.
Vocês se lembram de quando nosso Senhor Jesus entrou na sinagoga e falou pela primeira vez. Ele abriu as Escrituras em Isaías 61 e declarou que o Espírito do Senhor estava sobre Ele, porque Deus O havia ungido. Ele disse que aquela Escritura se cumprira entre eles.
Nosso Senhor, enquanto estava na terra, foi ungido para ser o Apóstolo e Profeta. Hebreus 3:1 fala de nosso Apóstolo e Sumo Sacerdote, o Senhor Jesus.
Sua obra na terra não foi realizada por Sua própria iniciativa. Tudo foi feito no Espírito Santo. Mesmo quando foi crucificado, o livro de Hebreus nos diz que, pelo Espírito eterno, Ele ofereceu a Si mesmo.
Portanto, quando nosso Senhor estava na terra, Ele foi ungido. Naquele momento, Sua unção estava sobre Ele mesmo.
Então nosso Senhor morreu. No terceiro dia, foi ressuscitado dentre os mortos. Apareceu aos discípulos durante quarenta dias e depois ascendeu ao céu.
Quando ascendeu ao céu, Deus O ungiu novamente. No Salmo 2, Ele foi ungido para ser Rei. No Salmo 110, foi constituído Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque.
Quando nosso Senhor ascendeu ao céu, Deus O ungiu para ser o Sumo Sacerdote e o Rei. Essa é a mensagem que Pedro proclamou no dia de Pentecostes: Deus O havia feito Senhor e Cristo.
Mas, quando Deus O ungiu, aquele óleo não permaneceu apenas sobre Sua cabeça. Aquele óleo precioso desceu.
Dez dias depois da ascensão de nosso Senhor, no dia de Pentecostes, cento e vinte discípulos estavam reunidos no cenáculo. De repente, ouviram um som como o de um vento impetuoso e, imediatamente, foram cheios do Espírito Santo.
Em um só Espírito, foram batizados em um só corpo. Queridos irmãos e irmãs, o batismo do Espírito Santo nos batiza no Corpo de Cristo. O batismo do Espírito Santo nos coloca sob a direção de Cristo como Cabeça.
Então vemos que esse óleo precioso desceu sobre a barba. Penso que os cento e vinte eram como a barba, porque todos haviam visto o Senhor, seguido o Senhor e estado com Ele enquanto estava na terra. Eram muito próximos do Senhor.
Louvamos a Deus porque eles foram ungidos. Com essa unção, começaram a ministrar, e três mil foram salvos. Esses três mil também foram ungidos.
Esse óleo tem continuado a fluir por dois mil anos. Onde quer que as pessoas creiam no Senhor, são batizadas pelo Espírito Santo nesse Corpo. O óleo desce até a orla das vestes.
Em outras palavras, todo o Corpo foi ungido pelo Espírito Santo. Cada membro, por ter sido ungido, pode começar a ministrar.
Portanto, irmãos e irmãs, vocês estão vendo? Quando os irmãos vivem em união, se realmente vivemos no Corpo, cada membro ocupa a posição que Deus lhe designou.
Sob a direção de Cristo como Cabeça, somos ajustados uns aos outros como membros. Então podemos experimentar o derramamento do óleo precioso, e haverá serviço espiritual.
Hoje vemos que, entre os filhos de Deus, o serviço ou ministério é algo difícil. Depende de umas poucas pessoas que servem, enquanto os outros irmãos e irmãs apenas recebem esse serviço, como se não fossem membros, como se não tivessem função e como se não tivessem dons.
Mas, irmãos e irmãs, vocês estão no Corpo. Vocês são membros. Deus já determinou que cada um de vocês seja um membro específico do Corpo. Você não pode escolher qual membro quer ser; isso foi designado por Deus.
Você precisa agradecer e louvar a Deus, porque, embora os membros sejam muitos, nenhum deles é dispensável.
Por ser um membro, o Senhor lhe dá uma função. Você precisa servir como Ele quer que você sirva. O Espírito Santo lhe dá dons de acordo com o que o Senhor ordenou.
Por que, então, você não exerce essa função hoje? Por que não consegue servir? Porque não vive no Corpo. Vive fora do Corpo. Por isso, o óleo precioso não chega até você.
Mas, se você realmente se colocar nesse Corpo e aprender a ser um membro no Corpo, o óleo precioso será sua porção. Você poderá servir em Sua igreja por meio do dom que o Espírito Santo lhe deu.
Essa é a bênção dos irmãos vivendo em união. Se os irmãos não vivem em união, mesmo quando nos reunimos, simplesmente brigamos uns com os outros. Não é de admirar que não haja unção. Não é de admirar que o serviço e o ministério da igreja sejam tão fracos.
Onde quer que os irmãos vivam em paz e unidade, ali vocês experimentam o derramamento do Espírito Santo.
O derramamento do Espírito Santo não tem o propósito de nos deixar empolgados. Não é para nosso próprio prazer. Há um propósito para a unção.
O propósito é que, por causa dessa unção, haja serviço.
Há outra figura:
Como o orvalho do Hermom,
Que desce sobre os montes de Sião.
Como o orvalho do Hermom,
Que desce sobre os montes de Sião:
Porque ali o Senhor ordena a bênção,
A vida para sempre.
O monte Hermom fica ao norte. Tem cerca de três mil metros de altitude, e a neve permanece em seu cume durante todo o ano.
Durante o dia, quando o sol brilha, o vapor sobe da neve. Quando esse vapor encontra o ar frio acima, condensa-se e desce como chuva. Umedece o solo, e o vento o transporta.
Parece impossível que o orvalho seja levado pelo vento do monte Hermom até Sião, porque o monte Sião é uma pequena colina ao sul. Mas sabemos que isso é um poema.
O poema nos apresenta a figura do orvalho do monte Hermom, ao norte, que desce e continua descendo até alcançar o monte Sião.
O monte Hermom representa o céu por causa de sua altura. Sião é o lugar do trono de Davi. Aqui vemos a bênção celestial descendo ao lugar do trono.
Onde quer que dois ou três estejam reunidos em nome do Senhor, Ele está no meio deles. Onde quer que as pessoas se reúnam em nome do Senhor, ali o trono de Davi é estabelecido entre elas.
É ali que a bênção celestial desce. Essa bênção é ordenada, e certamente estará ali. Essa bênção é a vida para sempre.
Em outras palavras, onde quer que os irmãos vivam em paz e unidade, e onde quer que os irmãos e irmãs permitam que Cristo seja a Cabeça e se apeguem a Ele, ali a vida é abundante.
Hoje sentimos que a obra do Espírito Santo entre nós é tão fraca. Fazemos o melhor que podemos para ser cristãos, e fracassamos.
Quando nos reunimos, parece que a vida dentro de nós é fraca. Onde há falta de vida, encontramos organização, porque, sem organização, não se consegue manter a forma.
Onde há falta de vida, há necessidade de tradição. Irmãos e irmãs, hoje vocês veem os filhos de Deus vivendo na tradição.
No início, era vida; agora é tradição. No início, era o fluir da vida; agora é a organização dos homens. Por quê? Porque os irmãos não vivem juntos em paz.
Mas, onde os irmãos vivem em paz e unidade, a vida para sempre já foi ordenada por Deus.
Portanto, irmãos e irmãs, o amor que temos uns pelos outros deve ser expresso na convivência dos irmãos em paz e unidade.
O Salmo 133 foi escrito por Davi. O sentimento no coração de Davi era muito profundo, porque, em sua própria casa, entre seus próprios filhos e irmãos, não havia paz.
Por isso, essa questão causava grande dor ao coração de Davi. Quando ele via os israelitas vindo de toda a terra para Jerusalém, pelo menos naqueles dias eles estavam juntos em paz e harmonia, porque seu coração estava voltado para Deus. Eles vinham adorar a Deus.
Quando Davi via isso, sentia uma profunda emoção. Ele desejava que isso pudesse acontecer em sua própria casa. Também desejava que aquilo que acontecia entre os israelitas não ocorresse apenas três vezes por ano, mas durante o ano inteiro.
Davi era profeta. Portanto, esse salmo também pode ser chamado de salmo profético.
Essa profecia não se cumpriu nos dias em que os israelitas vinham juntos a Jerusalém. Aquilo era apenas uma sombra. A expressão da realidade ainda estava por vir.
A realidade só poderia aparecer depois que nosso Senhor Jesus tivesse realizado a salvação.
Davi profetizou sobre os irmãos vivendo em paz e unidade. Antes de nosso Senhor Jesus ir à cruz, Ele orou ao Pai para que eles fossem um, assim como o Pai e o Filho são um.
Então Ele foi à cruz para realizar essa obra de unidade. Assim, o Espírito Santo pôde vir e nos conceder essa unidade.
Vocês já viram isso no mundo? Nos primeiros quatro capítulos de Atos, vemos essa realidade.
Durante dez dias, os cento e vinte oraram em unanimidade. Mas considerem essas cento e vinte pessoas. Havia onze apóstolos que tinham seguido o Senhor por mais de três anos e que discutiam continuamente entre si sobre quem era o maior.
Pedro dizia: “É claro que sou eu”. Tiago e João diziam: “Nós dois somos maiores do que você”. Mesmo antes de nosso Senhor entrar em Jerusalém para ser crucificado, Tiago e João levaram sua mãe para pedir lugares à direita e à esquerda do Senhor.
Não é de admirar que os outros discípulos tenham ficado indignados, porque eles também queriam se sentar à esquerda e à direita. Mesmo quando estavam prestes a participar da ceia, ainda discutiam.
Queridos irmãos e irmãs, esses eram os onze apóstolos. Também estavam ali mulheres que haviam servido ao Senhor enquanto Ele estava na terra. Elas realmente amavam o Senhor.
Quando o Senhor foi crucificado, os discípulos se dispersaram. Mas, ao pé da cruz, estavam essas preciosas irmãs. Elas O acompanharam até mesmo em Seu sepultamento.
Foram as primeiras a ir ao túmulo, as primeiras a testemunhar a ressurreição do Senhor e as primeiras a anunciar Sua ressurreição. Elas tinham muitas coisas das quais poderiam se orgulhar.
A mãe do Senhor Jesus também estava ali, e ela tinha uma posição especial. Os irmãos do Senhor segundo a carne também estavam ali. Embora não cressem Nele antes de Sua crucificação e morte, depois que Ele ressuscitou dentre os mortos, passaram a segui-Lo plenamente.
Exteriormente, esses cento e vinte cristãos eram os melhores cristãos. Mas, se vocês os examinassem em detalhe, havia muitos problemas.
Mas, quando o Espírito Santo desceu, eles foram batizados em um só Corpo. Já não havia “você” e “eu”; havia somente o Senhor.
Pedro se levantou com os onze. Nenhuma pessoa se destacava individualmente. Não havia mais individualismo. O ganho ou a perda de um indivíduo já não vinha à tona. Eles viam que eram um só Corpo.
Os que eram salvos perseveravam na doutrina dos apóstolos, na comunhão, no partir do pão e nas orações. Diariamente estavam juntos. Adoravam ao Senhor no templo e em casa. Ninguém dizia: “Isto é meu”. Amavam uns aos outros e viviam juntos em paz.
Quando os apóstolos foram ameaçados pelo Sinédrio, voltaram para os irmãos. Oraram em unanimidade e com um só coração, e até o chão foi abalado.
Testemunhavam do Senhor com a ousadia do Espírito. O Senhor lhes acrescentava pessoas dia após dia. O mundo os via e podia dizer: “Vejam como eles se amam!”
Queridos irmãos e irmãs, isso não cumpre o Salmo 133? Não é essa a resposta à oração de nosso Senhor em João 17? A oração de nosso Senhor certamente foi respondida pelo Pai.
De fato, por causa de nossa corrupção, o testemunho de viver juntos em paz e unidade desapareceu muito depressa. Mas isso significa que nunca mais apareceu?
Se vocês examinarem a história da igreja… Não consigo fazer uma revisão dela em apenas meia hora. Só posso dar alguns exemplos.
No século XVIII, houve o movimento morávio. Havia um irmão chamado conde Zinzendorf.
Creio que o último hino que cantamos foi escrito pelo irmão Zinzendorf. Ele era um nobre, mas, desde muito cedo, amava o Senhor.
Ele foi salvo ainda muito jovem, talvez entre os quatro e os seis anos de idade. Muitas vezes, escrevia sobre seu amor pelo Senhor em um pequeno pedaço de papel e o jogava pela janela de seu castelo.
Ele recebeu uma excelente educação. Enquanto estudava, reunia amigos e colegas para orar e buscar o Senhor.
Depois de se formar, viajou para outros países como parte da educação de um nobre. Quando foi a Paris, os outros tinham grande interesse pela cidade, mas ele não.
Um dia, foi a Düsseldorf e entrou em um museu. Viu uma pintura da cabeça de nosso Senhor Jesus com uma coroa de espinhos.
Abaixo da pintura, o artista havia escrito:
Eu fiz tudo isso por você.
O que você fez por Mim?
Quando Zinzendorf olhou para aquela pintura e leu aquelas palavras, ficou parado, sem conseguir se mover. O museu estava fechando, e um guarda precisou se aproximar e tocar em seu ombro, dizendo: “Está na hora”.
Ele voltou ao hotel e se ofereceu ao Senhor.
Naquela época, nas regiões da Boêmia e da Morávia, muitos cristãos estavam sendo perseguidos. Não eram apenas os católicos que os perseguiam; até os reformadores os perseguiam.
Esses crentes haviam visto certas verdades na Palavra de Deus. Não estavam satisfeitos com a condição da igreja naquela época e estavam dispostos a obedecer à verdade conforme a enxergavam.
Por isso, tanto a Igreja Católica quanto as igrejas reformadas não os toleravam. Eram perseguidos como ovelhas dispersas no deserto. Não tinham lar.
Naquela época, Zinzendorf abriu sua propriedade para acolher aqueles cristãos que eram perseguidos por causa de sua fé.
Em 1722, cristãos perseguidos vieram de muitos lugares para sua propriedade, e surgiu um povoado chamado Herrnhut. O nome significa “sob a vigilância de Deus”. Eles não estavam apenas sob a vigilância de Deus; também eram sentinelas a serviço de Deus.
Aqueles que vinham de toda parte traziam consigo suas diferenças. Eram pessoas que não abriam mão da verdade que haviam visto. Estavam dispostas a entregar a própria vida, mas não estavam dispostas a abandonar a verdade.
No entanto, cada um tinha sua própria opinião. Alguns tinham vindo da Igreja Católica, outros das igrejas reformadas, outros de grupos separatistas, outros dos pietistas e outros dos anabatistas. Vinham de muitas origens diferentes.
Todos amavam o Senhor, mas não conseguiam ser um.
Quando Zinzendorf viu essa condição, surgiu um profundo encargo dentro dele. Sentia que Deus lhe havia dado esse encargo.
Em 1727, ele era funcionário da corte, mas pediu ao governo que o liberasse de sua função para que pudesse voltar para casa. Queria estar com aqueles irmãos e irmãs.
Ele poderia simplesmente tê-los mandado embora, mas havia um encargo dentro dele. Em maio de 1727, reuniu todos eles.
Disse-lhes: “Vocês estão divididos a esse ponto porque o que buscam é conhecimento. Entre vocês há falta de amor”.
Como era o proprietário daquelas terras, estabeleceu um acordo com eles: “Se vocês querem morar aqui, precisam seguir estas regras”.
Aqueles irmãos e irmãs sentiram vergonha de suas divisões. Estavam dispostos a deixar de lado suas próprias opiniões, renunciar a si mesmos e ser humildes. Já não queriam pisar uns nos outros. Queriam aprender a obedecer.
Naquele momento, um ninho de seitas se tornou uma congregação viva de Cristo.
A partir de então, a situação mudou. Havia alegria no coração dos irmãos e irmãs.
Em 13 de agosto, pela primeira vez, reuniram-se para partir o pão.
Naquele dia, enquanto se reuniam e partiam o pão, o sangue de Cristo e a comunhão entre eles tocaram cada coração. Em um só Espírito, tornaram-se um. Amavam uns aos outros.
A partir de então, começaram uma vigília de oração que continuava dia e noite. No início, havia vinte e quatro irmãos e irmãs, e cada um assumia uma hora. Oravam continuamente, dia e noite.
Essa oração contínua, durante as vinte e quatro horas do dia, prosseguiu por cem anos.
Entre eles, um em cada quatro saía para o trabalho missionário. Não recebiam salário. Pregavam o evangelho enquanto se sustentavam com seu próprio trabalho.
Iam a lugares onde o evangelho ainda não havia sido pregado. Queriam pregar o evangelho aos escravos, e alguns até se venderam como escravos para poder pregar o evangelho a outros escravos.
Queridos irmãos e irmãs, aqui vemos os irmãos vivendo em unidade e paz. Quão bom e quão suave! Esse é o testemunho da unidade.
Outro exemplo vem do século XIX. Havia um irmão chamado dr. Edward Cronin, um dentista.
Por causa de sua saúde, ele se mudou para Dublin, na Irlanda. Havia sido católico, mas Deus o salvou do catolicismo.
Quando chegou a Dublin, queria ter comunhão com todos os filhos de Deus. Foi de um lugar a outro para se reunir com os crentes.
Por exemplo, foi aos batistas. Era bom estar com eles, e eles gostavam dele. Mas, depois de algum tempo, pediram que se tornasse membro.
Ele disse: “Já pertenço ao Corpo de Cristo. Não quero me tornar membro de nenhuma denominação”. Disseram-lhe que, se não se tornasse membro, não seria bem-vindo.
Foi a um segundo lugar, e aconteceu a mesma coisa. Foi a um terceiro, e novamente foi igual. Todos queriam que se tornasse membro, e ele não queria fazer isso. Por isso, não era bem-vindo.
Durante vários meses, passou os domingos sozinho, debaixo de uma árvore ou ao ar livre, meditando.
Então encontrou outro irmão chamado Wilson. Os dois se reuniram, partiram o pão e se lembraram do Senhor. Mais tarde, outras pessoas se juntaram a eles.
Havia outro irmão, John Nelson Darby. Esse irmão havia se formado em Direito.
Seu cunhado era o principal juiz da Irlanda e tinha grande respeito por Darby. Acreditava que Darby possuía uma mente tão precisa que poderia estabelecer um novo sistema para o direito da Escócia.
Mas John Darby foi salvo. Depois de anos de escuridão espiritual, foi plenamente salvo. Depois de ser salvo, sentiu que não poderia continuar como advogado.
Temia usar sua própria energia e inteligência para fazer o pecado parecer algo que não fosse pecado. Por isso, abandonou a advocacia e quis pregar o evangelho.
Foi enviado a aldeias nas montanhas e ao campo para ministrar a pessoas com pouca instrução. Ali serviu ao Senhor.
Depois de cair de um cavalo, foi a Dublin para descansar na casa de seu cunhado.
Ele sentia que o cristianismo havia se tornado uma organização. Sentia que os filhos de Deus deveriam ser um e que essa unidade não deveria ser produzida pela organização. Precisava ser obra do Espírito Santo, obra da graça.
Por volta de fevereiro de 1828, Cronin, Darby, Hutchinson, a senhora Hutchinson e várias outras pessoas se reuniram, partiram o pão e se lembraram do Senhor.
Estavam dispostos a se lembrar do Senhor sobre a base da unidade.
A partir daquele momento, muitos irmãos e irmãs que amavam o Senhor tiveram o mesmo pensamento. Muitos eram nobres, muitos ocupavam posições elevadas, muitos eram ricos e muitos tinham alto grau de instrução.
Mas, quando se reuniam, eram todos irmãos. Todos os que tinham títulos deixavam esses títulos de lado. Eram todos irmãos.
Quando se reuniam, seguiam a direção do Espírito Santo e exortavam uns aos outros. Por isso, mais tarde, as pessoas passaram a chamá-los de Irmãos.
De 1828 a 1848, em vinte anos, essa condição se espalhou por muitos lugares.
Verdades que haviam ficado ocultas na Palavra de Deus foram restauradas entre eles. Por exemplo, a verdade da volta do Senhor Jesus Cristo foi restaurada entre eles.
A condição naquela época era, de fato, como a situação do Salmo 133. Mais uma vez, a oração do Senhor foi respondida.
Outro exemplo vem do século XX. Na China, havia um jovem estudante: nosso querido irmão Watchman Nee.
Em 1920, ele foi salvo. Em 1922, ele e mais dois ou três irmãos e irmãs se reuniram na casa de um irmão, partiram o pão e se lembraram do Senhor.
Sentiam que precisavam voltar à Palavra de Deus. Precisavam voltar à simplicidade de Cristo, porque o cristianismo havia se tornado tão complicado.
Naquela época, havia três ou quatro pessoas, e o irmão Nee era uma delas. O irmão Wang, sua esposa e, talvez, a mãe do irmão Nee também estavam ali. Reuniam-se de maneira muito simples para se lembrar do Senhor.
No início da década de 1920, houve um avivamento em uma escola de comércio, e muitas pessoas foram salvas.
Em 1927, o irmão Nee foi para Xangai. Várias irmãs já haviam se mudado de Nanquim para Xangai.
Uma irmã havia sido ateia antes de ser salva. Outra era filha de um alto funcionário do governo. Depois que ela foi salva, seu pai considerou isso uma vergonha. Deu-lhe uma tesoura e um cordão e disse que se suicidasse.
Ela saiu de casa e se dispôs a pregar o evangelho para o Senhor.
Em 1927, na primeira vez em que se reuniram em Xangai para se lembrar do Senhor e partir o pão, havia quatro pessoas. O irmão Nee estava ali, juntamente com Charles Broomhall, um missionário da Missão para o Interior da China, e duas irmãs.
Eles se reuniram, partiram o pão e se lembraram do Senhor. É notável que todos esses testemunhos tenham começado com o partir do pão e a lembrança do Senhor.
Em 1928, a obra de Deus começou a partir dali. Naquela época, os irmãos e irmãs amavam uns aos outros. Quando serviam juntos, cuidavam uns dos outros.