Senhor, precisamos recorrer novamente à Tua compaixão.
Que coisa lamentável seria tentarmos realizar uma obra celestial — uma obra divina — com nossa própria força humana. É exatamente nessa condição que nos encontramos agora. Precisamos da Tua compreensão, da Tua compaixão; caso contrário, nosso falar e nosso ouvir realmente de nada nos aproveitarão, não terão nenhum valor eterno.
Ó Senhor, ajuda-nos com Teu auxílio divino neste momento, para que possamos falar sob a unção e com o poder do Espírito Santo. E, da mesma maneira, unge também nossos ouvidos e concede-nos um ouvir que não seja apenas nossa audição natural.
Que nesta manhã, pelo poder do Espírito Santo, possamos ouvir a voz do Filho de Deus e viver. Concede-nos esta misericórdia por amor ao Teu próprio nome e à Tua glória. Amém.
Como vocês sabem, temos nos ocupado, nestas reuniões da manhã, com a grande transição de uma humanidade antiga e desacreditada, em Adão, para uma humanidade nova e aprovada, em Cristo.
Nossa atenção se voltou primeiro para a exposição e a devastação daquela humanidade desacreditada, conforme a vimos representativamente reunida ao redor da cruz do Senhor Jesus, em Caifás, Pilatos, Judas Iscariotes, Pedro e nos dois discípulos a caminho de Emaús.
Que devastação a cruz produziu! Que exposição da velha humanidade em seu ponto mais elevado, em seu melhor estado! Quando terminamos de examiná-la, não poderia haver nada pior.
Depois, passamos ao campo de batalha das duas humanidades, conforme o encontramos nas duas cartas aos coríntios: de um lado, o homem natural, que é a velha humanidade; do outro, o homem espiritual, a nova.
Paramos ali e fizemos pouco mais do que olhar essas cartas de maneira geral, destacando alguns pontos em que se mostra a transferência de elementos da velha humanidade para a nova: o conflito entre o homem natural e o homem espiritual, ou entre aquilo que é natural e aquilo que é espiritual.
Isso toca tantas coisas, até mesmo as mais sagradas: as coisas do Espírito tocadas pela mão do homem natural e utilizadas para a satisfação do homem natural. É isso que encontramos na primeira carta aos coríntios.
Há ali muito mais detalhes, dos quais não vamos tratar. Apenas tocamos no assunto para indicar alguma coisa.
Espero que vocês tenham percebido a indicação de como isso é perigoso e, portanto, das consequências trágicas que o toque da mão natural nas coisas espirituais pode trazer.
Isso evidencia aquela advertência tão terrível dirigida aos cristãos, como os de Corinto: cristãos, pessoas nascidas de novo, chamadas santos, ou separadas para Deus. Essa advertência terrível toma como fundamento a tragédia de Israel no deserto. Eles pereceram no deserto.
O apóstolo usa isso para advertir os coríntios de que aquilo que receberam como antecipação pode ser perdido no deserto, se houver qualquer concessão entre o natural e o espiritual. Se vocês, embora estejam geograficamente, por assim dizer, fora do Egito, ainda não estão espiritualmente fora do Egito, bem, era exatamente nessa condição que eles se encontravam.
Bem, deixando agora o lado negativo, chegamos ontem de manhã ao ponto de mostrar que o apóstolo deu uma resposta a todo aquele conjunto de questões da primeira carta — as dez perguntas levantadas pelos coríntios numa carta que lhe enviaram, abrangendo tantos assuntos. Sua resposta não foi um código de regras e leis, como o mosaico, mas um princípio.
Todos os princípios se reúnem em um único princípio, que culmina nesta pergunta: Quanto de Cristo há nisto?
Quanto de Cristo há nas divisões de vocês?
Está Cristo dividido?
Isso toca precisamente na questão das divisões, entendem? Está Cristo dividido?
Fostes batizados em nome de Paulo?
Cristo é o princípio para resolver esse problema de divisão. E todas as outras questões, às quais nem sequer vou me referir agora — a resposta a esses problemas, o exame dessas dificuldades —, tudo se concentra em Cristo.
Então, quanto isto comunica Cristo? Quanto isto representa Cristo? Tudo é examinado desse ponto de vista, e assim é julgado e resolvido.
A conduta de vocês — ou talvez vocês tenham aquilo que consideram suas liberdades em Cristo. Já não estão debaixo da lei; afirmam ter liberdade em Cristo e estão desfrutando dessa liberdade. E então essa liberdade os leva a fazer certas coisas. Vocês dizem: “Não estou debaixo da lei; estou debaixo da graça. Posso tomar a cerveja de que gosto”.
Muito bem, se a sua consciência permite. Mas e aquele querido irmão para quem a bebida foi uma maldição e uma ruína, que foi salvo, e você o convida à sua casa e lhe oferece uma bebida? E então? Você pode desfazer tudo.
Conheci um caso assim, de um querido homem cuja casa não tinha móveis. As crianças não tinham roupas. A família inteira dormia num único cômodo, sobre uma cama de palha, e ele não levava dinheiro para casa para comprar comida, por causa da bebida. Tudo estava naquela situação por causa disso.
Ele foi gloriosamente salvo numa reunião ao ar livre que realizamos. Pouco tempo depois, as crianças tinham roupas, ele usava um belo terno e vinha às reuniões cheio de alegria. Então um irmão o convidou à sua casa.
Em sua liberdade em Cristo, esse irmão ofereceu cerveja ao homem. Tudo aquilo despertou novamente, e ele voltou a ser como antes. E então?
É Cristo, entendem? De que maneira a sua liberdade comunica Cristo? Somos governados pelo que Paulo chama de:
A lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus.
Bem, isso é negativo outra vez. Eu não pretendia dizer isso, mas essas questões são respondidas por um princípio, e o princípio é Cristo. Cristo. Elas edificam?
Agora, tendo passado por isso, com tudo o que ainda resta nas cartas, chegamos ao lado positivo. Talvez vocês fiquem mais felizes agora, ao passarmos para o lado positivo. Quero que observem apenas um ou dois trechos da primeira carta aos coríntios, de suas partes iniciais, em 1 Coríntios 9:1:
Não sou eu livre?
Não sou eu apóstolo?
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
É essa frase que quero que vocês tomem e conservem por um ou dois minutos:
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
Podemos passar à segunda carta? 2 Coríntios 4:4:
Nos quais o deus deste século cegou o entendimento dos incrédulos,
para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo,
o Qual é a imagem de Deus.
Depois, 2 Coríntios 4:6:
Porque Deus, que disse: Das trevas resplandecerá a luz,
é Quem resplandeceu em nossos corações,
para iluminação do conhecimento da glória de Deus,
na face de Jesus Cristo.
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
Deus resplandeceu em nossos corações para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
Gostaria de acrescentar um trecho de outra carta, a carta aos gálatas, no primeiro capítulo. De uma passagem um tanto extensa, vamos extrair apenas uma parte, a partir de Gálatas 1:15-16:
Mas, quando aprouve a Deus
revelar Seu Filho em mim,
para que O pregasse entre os gentios.
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
É claro que o contexto imediato dessas palavras é o apóstolo confirmando a autenticidade de seu apostolado e respondendo àqueles que diziam que ele não era um apóstolo legítimo, porque não era um dos doze. Isso está relacionado àquela acusação.
Mas há um contexto muito maior e mais abrangente do que esse, como vocês podem ver nesses outros versículos e em muitos outros semelhantes. A resposta à pergunta “Não vi eu Jesus, nosso Senhor?” é esta: aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim. O mesmo Deus que disse, no princípio:
Haja luz.
Resplandeceu em nossos corações para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo — o que, naturalmente, significa na pessoa de Jesus Cristo.
Agora, então, vamos nos ocupar com esta visão de Jesus Cristo que governa e domina tudo.
Hesito em dizer isso neste que é quase o último dia deste encontro, mas isso envolve quatro das maiores questões com as quais podemos lidar. Ver Jesus — como isso é abrangente e revolucionário!
Essas quatro questões — e não imagino que vou tratar de todas elas nesta manhã — são questões fundamentais.
Primeiramente, o lugar e o destino do homem na economia de Deus. Isso, por si só, não é pouca coisa. Tudo isso se torna claro quando vemos Jesus, nosso Senhor.
O apóstolo acrescenta essas últimas palavras: “nosso Senhor”. Sinto-me tentado a me deter aqui e mostrar que, no Novo Testamento, o nome Jesus, sozinho, é usado apenas quando se refere à Sua vida anterior à ressurreição.
Se o nome Jesus é usado sozinho, vocês verão que o contexto é o de Sua vida anterior à ressurreição. Depois disso, os apóstolos nunca O chamaram apenas de Jesus. Sempre usavam “nosso Senhor”, “nosso Senhor Jesus” ou “Jesus Cristo, nosso Senhor”.
Se vocês têm o hábito de dizer “Jesus, Jesus”, estão numa base errada. Estão na base anterior à ressurreição. Pois é, algumas pessoas têm esse hábito.
Bem, isso é apenas uma observação à parte: Jesus, sim, e nosso Senhor. Seu senhorio se tornou manifesto depois de Sua ressurreição e ascensão. Ali mesmo, na estrada de Damasco:
Quem és Tu?
Eu sou Jesus.
Ele O conhecia como Jesus.
Senhor, que queres que eu faça?
O próprio início de uma revolução, de uma transição entre conhecer segundo a carne e conhecer segundo o Espírito.
Tudo isso, novamente, é um parêntese. Vamos prosseguir.
A primeira dessas quatro grandes questões, que se tornam claras por meio de uma verdadeira visão espiritual de Jesus, é o lugar e o destino do homem na economia de Deus.
A segunda é a natureza e a dinâmica do ministério nesta dispensação. Isso é pouca coisa? É imenso, não é?
Em terceiro lugar, a natureza e o propósito da igreja, agora e nos séculos vindouros. Isso é pouca coisa? É imenso.
E, em quarto lugar, o imenso significado, nesse contexto tríplice, de Cristo crucificado, ressurreto e exaltado.
São quatro questões muito grandes, não são? E todas estão compreendidas nestas palavras:
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
Quando Ele o fez, foi isso que comecei a ver. É isso que o apóstolo diz: o que comecei a ver. Ele não apresenta essas questões numa lista dessa maneira. Eu apenas as extraí do conteúdo e da substância do Novo Testamento, entendem? Mas é a isso que tudo se resume.
Primeiramente, então, ver Jesus, nosso Senhor, ou Deus revelar Seu Filho, ilumina e desvenda o lugar e o destino do homem na economia divina.
Notem bem: mantenho-me muito próximo do Novo Testamento. Se não estou lendo e citando as Escrituras em sua forma textual, estou me mantendo muito próximo delas. Creio que aqueles que as conhecem perceberão isso.
Preciso dizer aqui, embora isso possa me levar a um terreno controverso — e não importa muito, se é que importa —, que creio firmemente que o apóstolo Paulo teve uma participação muito real na redação da carta aos hebreus.
Se ele de fato a escreveu ou a ditou, bem, vocês podem discutir isso por tanto tempo quanto os homens vêm discutindo. Mas estou certo de que Paulo teve uma influência muito definida e direta, para dizer o mínimo, na redação dessa carta aos hebreus. Vocês reconhecerão, no que vou dizer, que isso vem dali.
Agora, Paulo, mesmo nesta primeira carta aos coríntios, considera o homem desde sua origem, desde o princípio. Em 1 Coríntios 15:45:
O primeiro homem, Adão.
Ele começa com o homem. Volta até o próprio início da humanidade, do gênero humano.
Ele acompanha toda a trajetória da humanidade e a batalha entre as humanidades, até chegar ao homem glorificado. O capítulo 15 de 1 Coríntios — como esse capítulo é maravilhoso!
Sabem, depois de ler esse capítulo tantas vezes, parei para contemplá-lo e tive de dizer: “Como um homem mortal poderia saber disso?” Só pode ser porque ele havia visto Jesus Cristo. É a única resposta.
Há corpos terrestres; há corpos celestiais.
Há corpos terrenos, e há corpos celestiais.
Assim como trouxemos a imagem do terreno,
assim também traremos a imagem do celestial.
Ele descreve algo da natureza desse corpo celestial, desse corpo físico celestial, dessa humanidade glorificada — uma revelação extraordinária do destino do homem na economia de Deus.
Assim, ele considera a humanidade: primeiro Adão; depois, pela cruz, atinge aquela raça em Adão, desacredita-a, deixa-a de lado e começa com um novo homem.
Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura:
as coisas velhas já passaram;
eis que se fizeram novas.
A história do homem nesta carta vai desde sua concepção no coração de Deus, sua origem na criação do primeiro Adão, sua rejeição em Adão, até o novo homem, Cristo. Oh, que homem é este na glória!
Nisto gememos. E, quando gememos, por que gememos? Oh, por aquilo para o qual fui criado! Deus me destinou a isso. Gememos, aguardando nossa adoção, isto é, a redenção do nosso corpo, o revestimento do nosso novo homem.
Quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade,
e isto que é mortal se revestir da imortalidade.
Por que vocês não gemem por isso? Isto que é corruptível se revestirá da incorruptibilidade; isto que é mortal, que está morrendo, se revestirá da imortalidade — vida eterna.
Como Paulo recebeu tudo isso?
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
Deus repetiu em mim Seu decreto criador. Sobre o mundo em caos e trevas, Ele disse:
Haja luz.
E houve luz. Aquele decreto de Deus — Ele fez isso, diz Paulo. Ele o repetiu e disse, nesta humanidade obscurecida:
Haja luz.
Quando Ele disse isso, eu, naquela luz, vi Seu Filho. Vi Seu Filho e vi tudo o que Deus pretendia e pretende para a humanidade: seu destino na economia de Deus.
Bem, isso está ali no capítulo 15, como vocês sabem. A partir dessa visão, ele nos diz que o mundo vindouro — a terra habitada que há de vir, como vocês sabem; isto está em Hebreus — será inteiramente sujeito a esse homem e a essa humanidade.
Isso está em Hebreus 2:7-8:
Tu O fizeste um pouco menor que os anjos;
de glória e de honra O coroaste,
e O constituíste sobre as obras de Tuas mãos:
todas as coisas sujeitaste debaixo de Seus pés.
Mas não vemos isso se cumprir na velha humanidade. Ela está desacreditada; está perdida. Não é esse reino. Mas vemos Jesus. Vemos Jesus.
Ele é o homem representativo dessa nova humanidade, o homem que a abrange em Si, o último Adão. Nós O vemos coroado de glória e honra. Esse é o destino do homem na intenção de Deus.
Paulo nos mostra nessas cartas e, pelo menos por sua influência, na carta aos hebreus, o intenso interesse de Deus pelo homem e Sua infinita paciência, perseverança e dedicação ao homem ao longo da história.
Deus nunca exterminou definitivamente a humanidade antes que ela ultrapassasse o ponto sem retorno e dissesse: “Não queremos. Não queremos. Definitivamente, não queremos”.
Foi assim nos dias de Noé: um pregador da justiça, e os homens assumindo esta posição: “Não queremos”. Então Deus diz:
O fim de toda carne é vindo perante Mim.
Deus nunca fez algo assim até que se comprovasse que o cálice da iniquidade transbordava e não havia esperança, por causa da determinação obstinada do homem de rejeitar a vontade revelada de Deus.
Mas, fora isso, observem a infinita dedicação, paciência e perseverança de Deus.
Espero não ofender ninguém ao dizer isto. Não pretendo ofender ninguém, mas penso que Deus escolheu o povo judeu porque ele exigia mais paciência do que qualquer outro povo da terra, porque iria levar Sua paciência ao limite máximo. E foi o que fizeram.
Deus é maravilhoso em Sua soberania. Às vezes penso que Ele me escolheu apenas para mostrar quanta misericórdia tem.
Bem, isso nos levaria a outra parte de 1 Coríntios, não é?
Deus escolheu as coisas loucas do mundo,
e Deus escolheu as coisas fracas do mundo,
e as coisas vis do mundo, e as desprezadas,
e as que não são.
Muito bem. Vejo quanta paciência, quanta longanimidade, quanta dedicação, que processo de edificação o apóstolo mostra da parte de Deus para com a humanidade.
Deus atribuiu tamanho valor a esse tipo de criação que, se ao final Ele não tiver uma humanidade assim, então Deus terá sido completamente derrotado. Contudo, Ele é Deus, o Deus da Bíblia. Ele precisa ter essa humanidade, precisa, e a terá.
Além disso, o apóstolo mostra, pelo Espírito, que todo o trato de Deus com Seus próprios filhos — termos de família, Seus próprios filhos, Sua própria família — tem este objetivo em vista: a transição para a glória, conduzindo muitos filhos à glória.
Mas relacionem isso com estas palavras:
Filho meu, não desprezes a disciplina do Senhor,
nem desfaleças quando por Ele és repreendido;
porque o Senhor corrige a quem ama,
e açoita a todo filho a quem recebe.
Que capítulo maravilhoso em Hebreus sobre o trato de Deus com Seus filhos, Sua família, mostrando que nenhuma disciplina, no momento, parece ser motivo de alegria, mas de tristeza. Vocês e eu conhecemos um pouco disso. Mas depois — depois.
Há um depois, e é para esse depois que Deus está trabalhando em Seu trato conosco, por mais difícil que esse trato seja. Talvez voltemos a isso; não sei se nesta manhã. Mas aqui está o princípio.
Deus não está contra nós quando passamos por dificuldades. O diabo diz que está. Basta passar por uma situação ruim, e imediatamente há um pequeno demônio ao seu ouvido, acusando Deus, difamando Deus, tentando distorcer sua mente para que você questione Deus.
Ele está tentando levá-lo de volta ao jardim, colocá-lo novamente na base do velho Adão.
Agora, para mim é mais fácil dizer isso do que passar por essa experiência. Assim como é mais fácil para vocês ouvir isso do que passar por ela. Mas o texto diz: “Depois, depois”.
Oh, o final de 1 Coríntios 15:57:
Mas graças a Deus,
que nos dá a vitória
por nosso Senhor Jesus Cristo.
Esse trato conosco é governado pelo grande destino para o qual Ele nos criou e nos chamou.
Tudo isso, mostra o apóstolo, está representado pelo homem aperfeiçoado na glória. E tudo isso não está apenas representado por Ele ali, como o propósito final de Deus para a humanidade, mas também está assegurado nesse homem na glória.
Sua garantia está Nele. Nesse contexto, o apóstolo usa uma figura do grego ao falar do Espírito Santo que nos foi dado como penhor de nossa redenção final.
Vocês sabem qual é a figura? Vocês veem algumas mercadorias, alguns produtos, num depósito — numa estação ferroviária. Aquilo está destinado a alguma finalidade ou a algum lugar, e há uma marca estampada: “Amostra”.
Amostra. É um penhor. São as primícias. É uma profecia. Mas há mais por vir — muito mais por vir. Isso é apenas o começo. É apenas uma parte daquilo que está chegando.
O apóstolo usa essa figura de linguagem. Os gregos entendiam muito bem do que ele estava falando. Ele diz que Deus nos deu o Espírito como amostra, penhor, profecia daquilo que há de ser.
Está garantido. Está tudo ali, garantido Nele, para chegar até nós.
É irreverente falar do Espírito Santo assim? Ele enviou a amostra. Amados, vocês e eu realmente temos o Espírito. O que temos? Oh, o penhor da nossa herança.
Temos esse testemunho, essa certeza, e a atuação desse poder que nos sustenta em direção a algo, em direção ao nosso destino. Oh, graças a Deus por esse sustento!
Para citar Pedro:
Que pelo poder de Deus sois guardados mediante a fé,
para a salvação preparada para se revelar no último tempo.
Onde estaria qualquer um de nós hoje, se não fosse esse santo sustento? Quando realmente soltamos tudo, quando realmente dissemos: “Não podemos ir mais longe; chegamos ao limite”, e quando teríamos ido embora se fôssemos deixados por nossa conta — bem, o milagre é que estamos aqui.
Pelo penhor do Espírito, até aquele dia, porque isso nos está assegurado em Cristo.
O apóstolo diz:
Não rejeiteis, pois, a vossa confiança,
que tem grande galardão.
Porque necessitais de perseverança,
para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus,
alcanceis a promessa.
Há tanto em tudo isso! Ele mostra que tudo está representado no homem aperfeiçoado no céu, mas há mais: está assegurado Nele, lá no alto.
Alegro-me em parar aí — fora deste mundo, além do alcance de qualquer poder que possa desfazer essa segurança.
Agora, o apóstolo mostra que a vinda de Jesus Cristo a este mundo foi isto: antes de tudo, a reunião de todas as formas e maneiras anteriores pelas quais Deus revelou a Si mesmo.
Havendo Deus, antigamente, falado aos pais pelos profetas,
muitas vezes e de muitas maneiras,
nestes últimos dias nos falou pelo Filho.
Multifacetada, fragmentária: um pouco aqui por meio deste, um pouco ali por meio daquele, todos falando em partes, porções, fragmentos. Agora vocês reúnem tudo, juntam todas as partes, fazem delas um todo, e a vinda do Filho a este mundo é a reunião de tudo isso.
É isso que está aqui. Vejam Jesus, e vocês verão a reunião de todos os métodos, maneiras e momentos anteriores em que Deus revelou a Si mesmo. É a revelação plena e final de Deus em Jesus Cristo.
Foi isso que aquele jovem, Saulo de Tarso, com todo o seu conhecimento do Antigo Testamento na mente — alguém que podia citá-lo inteiro sem ter o livro diante de si —, descobriu quando se encontrou diante de Jesus Cristo, o Senhor ressurreto e glorificado. Sua Bíblia se tornou um livro novo.
Ele viu que, Naquele, tudo estava reunido; tudo estava sintetizado.
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
Quando O vi, já não vi fragmentos. Agora tudo estava completo. Não mais partes e pedaços; era um único e glorioso todo. Não mais um antes, um agora e um depois; agora tudo está eternamente presente Nele.
A reunião de todas as maneiras anteriores pelas quais Deus revelou a Si mesmo.
Então ele viu — e isso significava muito, sabem, para um judeu, um judeu instruído, tão profundamente instruído como Saulo de Tarso — que Jesus, nosso Senhor, não era apenas a reunião de todas as maneiras anteriores pelas quais Deus revelou a Si mesmo; Ele era a consumação de toda uma economia.
Toda a economia mosaica. É por isso que digo estar certo de que Paulo participou da elaboração dessa carta aos hebreus, porque toda a economia mosaica é examinada naquela carta, não é?
Qual é o propósito da carta? A transição daquela economia para Cristo. Ele é o Sumo Sacerdote. Ele é o sacrifício. Ele é o altar. Ele é o templo. Ele é tudo o que aquela economia representava em tipos e figuras.
Ele é a consumação dela, seu término, e a introdução de uma economia inteiramente nova. É uma economia celestial, nos céus, não feita por mãos humanas.
Todos os termos são muito definidos:
Não desta criação.
Ele diz:
Não desta criação.
A consumação de toda uma economia.
A cristandade ainda não compreendeu isso. Continua apegada à velha economia — suas vestimentas, suas túnicas, seu ritual, suas coisas exteriores.
É preciso perceber que tudo isso chegou ao fim. Agora, somos sacerdotes? Sim, somos sacerdotes, mas de uma ordem diferente. Nossa veste é a Sua justiça, e nenhuma outra pode se apresentar diante de Deus.
Todos os nossos adornos são espirituais. Espirituais.
Oh, como estou lutando o tempo todo para deixar coisas de fora, por causa dos detalhes! Sabem, Pedro viu isso.
Pedro fala às queridas mulheres. Mais uma vez, a tradução infeliz é compreensível, porque é difícil entender quando se traduz literalmente. Se fosse traduzido de maneira literal, Pedro diz às queridas irmãs:
O adorno delas
não seja o exterior, no trançar dos cabelos,
no uso de joias de ouro,
ou no vestir roupas.
Qual é a palavra traduzida por “adorno”? “Adorno”. No original, é: “O mundo de quem?” O cosmos de quem? De quem é o mundo, a esfera, o sistema de coisas que não consiste em se enfeitar, em causar uma impressão?
Agora, não estou defendendo o descuido, o desleixo ou coisas desse tipo. Mas em que mundo vocês vivem? Como aparecem aos outros, que impressão causam por essas coisas exteriores — Pedro diz a respeito das mulheres piedosas: “O mundo delas não é esse. Essa não é a esfera delas; esse não é o cosmos delas, seu sistema”.
Mas o adorno, o adorno de um espírito manso e tranquilo.
Aqui está outro parêntese. Vejam, um sistema consiste em exterioridades. As exterioridades ficaram para trás, e agora tudo é um sistema do Espírito no coração — algo celestial para um povo celestial.
Agora, algumas pessoas perceberam o princípio e tentaram colocá-lo em prática vestindo determinado tipo de roupa e formando uma seita que usa esse tipo de roupa. Elas perceberam o princípio, sim, mas não se pode cumprir o princípio dessa maneira. É o Espírito que se manifesta e se expressa.
O fim de uma economia: sua consumação.
E então, mantendo-nos próximos de Paulo, temos a transição para um regime inteiramente novo: o regime do homem aperfeiçoado e estabelecido na glória como modelo de Deus para essa nova humanidade.
“Segundo Cristo” é a expressão usada tantas vezes. “Segundo Cristo” ou “não segundo Cristo” — esse é o teste, o desafio. Segundo o homem aperfeiçoado e a humanidade estabelecida no céu: o modelo de Deus, em conformidade com o qual Ele está trabalhando.
Ele está trabalhando. E aqui voltamos novamente ao lugar do Espírito Santo nas cartas aos coríntios, especialmente na primeira carta.
Examinem a carta: qual é a função suprema e final do Espírito Santo?
Ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos,
se não tiver amor,
serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.
E ainda que eu distribua todos os meus bens para sustento dos pobres,
e ainda que entregue o meu corpo para ser queimado,
se não tiver amor,
nada disso me aproveitará.
A obra suprema do Espírito Santo é o caráter de Jesus Cristo. Não o amor como algo que se veste por fora. Vocês podem vestir isso por fora, sabem. Pode ser uma encenação, uma maneira de se comportar, uma maneira de falar.
As pessoas podem pôr a mão no seu ombro e dizer “Amado”, e ser desleais pelas suas costas, apontando seus defeitos a outra pessoa. Amor não fingido, diz o apóstolo — amor não fingido pelos irmãos.
É o Espírito de Jesus Cristo.
Por isso, vocês não se surpreendem quando, ao terminar suas cartas, ele pronuncia esta bênção, que se tornou tão comum e perdeu tanto de seu significado contextual, de sua aplicação e relação com toda a situação de Corinto:
A graça do Senhor Jesus Cristo,
e o amor de Deus,
e a comunhão do Espírito Santo
sejam com todos vós.
A graça de nosso Senhor Jesus Cristo — essa é a graça de nosso Senhor Jesus Cristo. Vejam isso ali:
Sendo Ele rico, por amor de vós Se fez pobre,
para que pela Sua pobreza vos tornásseis ricos.
A graça do Senhor Jesus: esvaziar-Se de Si mesmo. Vocês veem isso na carta aos filipenses, não veem? A graça de nosso Senhor Jesus Cristo é o próprio Jesus Cristo, não é, o tempo todo?
O amor de Deus — como vocês o conhecem? Somente em Jesus Cristo, nunca de outra maneira. O amor de Deus.
A comunhão do Espírito Santo: comunhão, unidade, a remoção daquelas divisões e daquele espírito divisionista:
Eu sou de Paulo.
Eu sou de Apolo.
Eu sou de Pedro.
A comunhão, a participação conjunta no Espírito Santo.
Será que devo continuar nesse ponto? Acho que não posso. Tenho de começar o próximo assunto, e ele me fará ultrapassar o tempo. Creio que tenho cerca de dezessete minutos. Não, nem isso. Trouxe meu relógio nesta manhã. Ajudem-me a não ultrapassar o tempo.
Preciso começar aquela próxima grande questão: como ver Jesus é a fonte e o caráter de todo ministério nesta dispensação.
Não quero estragar isso. Acho que seria melhor — vocês também não estraguem isso, está bem? Não comecem imediatamente a conversar sobre tudo o que existe debaixo do sol, dissipando o que recebemos. Perdoem-me por dizer isso, mas vamos conservar isso em silêncio diante do Senhor, porque nos desafia.
Até que ponto somos capazes de dizer, com o efeito disso, com a revolução, a transformação, a transição:
Não vi eu Jesus, nosso Senhor?
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
Quando isso aconteceu, nossa, quanta coisa desapareceu! Simplesmente desapareceu. E quanta coisa veio! Como tudo ficou diferente, como ficou diferente!
Chamei esta seção de “A Visão como Princípio Governante e Dominante”: ver Jesus, nosso Senhor.
Vão, peçam a Ele que faça isso com vocês. Deixem-me apenas dizer: isso não é algo que acontecerá por completo de uma só vez. Oh, não.
Alguns de nós, depois de muitos anos, estão vendo hoje mais do significado e do sentido de Jesus, nosso Senhor, do que jamais viram ao longo de toda a vida. Tem de ser assim. Graças a Deus que tem de ser assim.
Sempre teremos uma margem, algo a mais, um acréscimo, quase até o fim.
Gostaria de poder começar agora, como jovem, com aquilo que tenho. Poderia viver toda a minha vida outra vez, muitos anos, com o que tenho agora. Essa é a minha dificuldade.
O Dr. Tozer disse certa vez, sabem, que todo ministério deveria ter tamanho transbordamento que nenhum homem jamais conseguisse terminar seu sermão.
Vocês sabem o que ele quis dizer. Você chegou ao fim do seu tempo e ainda tem muito mais do que aquele tempo poderia comportar. Deveria ser assim quando se trata do Senhor Jesus.
Oh, quanto mais vejo do que jamais consegui dizer, ou poderia dizer hoje! Vejo que Ele é tão vasto, tão pleno, imenso.
Estamos aqui, queridos amigos, não para falar da grandeza de Cristo como um assunto, mas para ser a expressão dela — a expressão dela.
Talvez isso ultrapasse nossa capacidade. Quero dizer, podemos ir para o túmulo, se Ele não vier, já muito idosos. Ainda nem começamos. Mas deveria ser assim. Ele é tão grande, tão maravilhoso.
Que o decreto criador se cumpra, se ainda não se cumpriu. Mas, se já se cumpriu, os olhos do nosso coração foram iluminados, e começamos a ver algo Dele.
Lembrem-se: não deve haver estagnação nisso, nenhum progresso interrompido como em Corinto, nenhuma infância prolongada indevidamente. Não há problema em ser um bebê quando se é um bebê; é terrível ser um bebê quando já se tem idade para a maturidade.
Era assim em Corinto. Seu crescimento estava atrofiado por causa da carnalidade, por causa do coração.
Será que realmente não haviam percebido a lógica? É isso que Paulo está ensinando. Eles sabiam do que o apóstolo estava falando. Ele precisa voltar a esse ponto.
Sendo iluminados os olhos do vosso coração.
Ele precisa voltar ao assunto em sua segunda carta a eles: o véu é retirado, e todos nós, com o rosto descoberto, vemos a glória de Deus na face de Jesus Cristo e somos transformados na mesma imagem, de glória em glória.
Vamos orar.
Então, Senhor, só podemos pedir que, com a apresentação da verdade, Tu vás além, que nos leves além, e que concedas a cada vida aqui presente viver na realidade da face desvelada de Jesus Cristo, da glória que nela há; viver na realidade de ter visto Jesus, nosso Senhor.
Oh, faze com que isso seja verdadeiro para cada um de nós — muito verdadeiro, maravilhosamente verdadeiro e cada vez mais verdadeiro — até que finalmente vejamos Sua face. Pedimos isso em Seu nome. Amém.