Havendo Deus, outrora, falado aos pais pelos profetas, em diversas porções e de diversas maneiras,
nestes últimos dias nos falou em Seu Filho.
Portanto, convém atentarmos com mais diligência para as coisas que ouvimos, para que delas jamais nos desviemos.
Já dissemos algo anteriormente sobre essa palavra definitiva de Deus por meio de Seu Filho. Ressaltamos que, ao falar em Seu Filho, Deus não Se expressou apenas naquilo que o Filho disse; a própria Pessoa de Seu Filho era a palavra de Deus.
Naquilo que o Filho era e é, como a corporificação, a representação e a expressão do pensamento de Deus — da mente de Deus —, Deus Se deu a conhecer aos homens por meio dessa Pessoa viva. E isso diz respeito particularmente ao homem; isto é, os pensamentos de Deus dizem respeito ao homem.
Talvez fosse de grande valor se Deus tivesse falado apenas sobre Si mesmo, sobre Seu próprio caráter e ser. Isso seria muito bom, talvez maravilhoso. Mas poderíamos ficar apenas com isso, com algo que se encerrasse em si mesmo. Bem, é bom saber que Deus existe e que tipo de Deus Ele é.
Mas Deus não Se dá a conhecer apenas para nos informar sobre Sua existência e Seu caráter. A Bíblia como um todo deixa isso muito claro: a revelação que Deus faz de Si mesmo está vitalmente relacionada ao homem, e o homem está vitalmente relacionado a ela.
Ou, em outras palavras, alguns dos pensamentos de Deus dizem respeito ao relacionamento entre o homem e Ele. E é em Seu Filho, Jesus Cristo, que esse relacionamento se estabelece entre Deus e o homem, entre o homem e Deus.
É justamente aí que encontramos a primeira palavra, ou expressão, de Deus. Por que Deus Se tornaria homem? Por que a encarnação? Por que Ele assumiria a carne, Se faria carne e habitaria entre nós? Por que Deus falaria pela encarnação, como Sua primeira palavra, Sua palavra definitiva e Sua palavra plena?
Tudo na Bíblia converge para isto: em Cristo, estabeleceu-se uma união entre Deus e o homem. Os tipos, as figuras e os símbolos do Antigo Testamento sempre apontam para isso.
O elemento central, por exemplo, naquele grande sistema simbólico do tabernáculo, central à vida de Israel, era a arca do testemunho, a arca da aliança. Ela estava no centro. Tudo convergia para ela.
Vocês sabem que ela era feita de madeira de acácia, sempre um tipo da humanidade, revestida de ouro, sempre um tipo da divindade. Assim, nesse elemento central, colocado no Santo dos Santos, onde Deus Se encontrava com o homem e lhe falava, e onde o homem se encontrava com Deus entre os querubins, sobre aquele propiciatório que era a tampa da arca, temos essa grande declaração do pensamento de Deus bem no centro de tudo.
O elemento central de todo o Seu sistema é a união entre Ele e o homem em Cristo. Nesse sentido, Cristo é a palavra de Deus.
Deus falou em Seu Filho. Antes, Ele falou de numerosas e variadas maneiras e formas de expressão. Como vimos: por meio de pessoas, por meio de seus ofícios — profetas, sacerdotes e reis; por meio de sua atuação nos sacrifícios, nos altares e assim por diante; por meio de muitos símbolos, tipos e figuras.
Deus falou de inúmeras maneiras, em porções fragmentárias, em diferentes épocas. Houve o período do sacerdócio, do sacrifício e da mediação. Isso durou algum tempo. Depois, deu lugar a outro período, o da realeza e da monarquia, e Deus voltou a falar de uma maneira diferente, por meio dos reis.
Então, esse período deu lugar ao dos profetas, e Deus passou a falar por meio de profetas — não de reis e sacerdotes, mas de profetas. No passado, Ele falou de diversas maneiras e em diferentes épocas.
Mas agora Ele reuniu tudo. Todas as formas antigas estão agora reunidas, por assim dizer, e concentradas numa única Pessoa, que incorpora toda a palavra de Deus. E não há mais nada. É definitivo, nestes últimos dias.
Não há nada depois do fim — nada depois do fim. Cristo é a culminação do falar de Deus. Se vocês não O ouvirem, não há mais nada a vir. No fim, Deus falou na condição de Filho, em Seu Filho.
Por causa da plenitude transcendente de Sua palavra em Cristo, devemos, portanto, atentar com mais diligência para as coisas que ouvimos.
Agora, nesta noite, vamos avançar um pouco mais nesta carta aos Hebreus, que espero que vocês tenham aberta diante de si. Nesta tarde, estávamos andando ao redor dela, olhando-a por fora. Agora procuramos entrar nela e captar algo de sua mensagem interior para nós.
Tomemos esta expressão: “as coisas que ouvimos”. É a essas coisas que devemos atentar com mais diligência. Porque, como dissemos anteriormente, todo o tom desta carta é tão sério, tão solene, tão imperativo. Há algo ligado a esse ouvir, a esse ouvir espiritual de Deus falando em Seu Filho, que tem consequências de enorme importância para o povo de Deus.
“As coisas que ouvimos”, ou as coisas que Deus disse em Seu Filho. Repito: não apenas por meio de Seu Filho, mas em Seu Filho. Isto é, o que Cristo nos diz como mensagem de Deus? O que Ele é como mensagem de Deus para nós?
Uma mensagem muito abrangente. Ah, num período tão breve como este — dois ou três dias —, só podemos abordar algumas de suas partes. E começamos pelo princípio.
O apóstolo Paulo — bem, quer tenha escrito esta carta aos Hebreus ou não, estou certo de que exerceu muita influência sobre ela. De qualquer modo, é possível reconhecer sua marca nela. Vocês podem encontrá-lo muito presente nesta carta. Não vamos discutir a autoria, mas aí está.
Certamente, ele teve muito a ver com ela. Seja isso verdade ou não, não importa tanto. Mas o apóstolo Paulo, sob o mesmo Espírito Santo que ditou esta carta, nos deu tanta coisa sobre o significado de Cristo e nos ajudou tremendamente em nossa busca por compreender esta carta.
Observem o movimento desta carta logo no início. O primeiro capítulo — o primeiro capítulo — apresenta de maneira maravilhosa a grandeza do Senhor Jesus como Filho de Deus.
Há coisas aqui que estão inteiramente além da nossa compreensão. Precisamos ler, ler e ler de novo, com calma e reflexão, e permitir que cada oração nos toque.
Deus, nestes últimos dias, nos falou em Seu Filho,
a Quem constituiu herdeiro de todas as coisas,
por meio de Quem também fez os mundos;
o Qual, sendo o resplendor de Sua glória,
e a expressa imagem de Sua substância,
e sustentando todas as coisas pela palavra de Seu poder.
Vocês compreendem isso? Alguma dessas coisas? São afirmações tremendas. E observem: são ditas a respeito de Alguém que é chamado Seu Filho.
Tendo-Se tornado tanto superior aos anjos,
quanto herdou mais excelente nome do que eles.
Pois a qual dos anjos disse Ele jamais:
Tu és Meu Filho,
hoje Eu Te gerei?
A resposta à pergunta, naturalmente, é: a nenhum. Miguel, ou qualquer um dos arcanjos — eram seres poderosos, muito poderosos. Pensem no que um único anjo pode fazer a todo um poderoso exército dos assírios.
Um anjo saiu por ordem de Deus, e todo o exército foi morto naquela noite. Um único anjo! Vejam também todas as coisas tremendas que os anjos fizeram na Bíblia. Mas a nenhum deles Deus disse:
Tu és Meu Filho.
E outra vez:
Eu Lhe serei Pai,
e Ele Me será Filho.
Não, isso não foi dito aos anjos, a anjo algum. Quando Ele novamente introduz o Primogênito no mundo, diz:
E todos os anjos de Deus O adorem.
E, quanto aos anjos, diz:
Aquele que faz de Seus anjos ventos,
e de Seus ministros uma chama de fogo;
mas, quanto ao Filho, diz:
O Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre;
e o cetro da retidão é o cetro do Teu reino.
Tremendo, não é? Tudo isso a respeito do Filho. Por que isso foi colocado no início da carta? Por que isso constitui a porta de entrada da carta, o fundamento sobre o qual toda ela está edificada?
Agora continuem lendo. Deixem de lado esses números que os homens introduziram para dividir a carta em capítulos. Isso é apenas uma conveniência prática para a leitura pública e, muitas vezes, uma divisão infeliz na sequência do texto. Continuem lendo como se não houvesse divisões de capítulos.
Convém atentarmos com mais diligência para as coisas que ouvimos.
Pois não foi aos anjos que Ele sujeitou o mundo vindouro, do qual falamos.
Mas alguém, em certo lugar, testificou, dizendo:
Que é o homem, para que Te lembres dele?
Ou o filho do homem, para que o visites?
Não foi aos anjos que Ele sujeitou o mundo vindouro, do qual estamos falando. Mas que é o homem, para que Tu Te lembres dele? Ou o filho do homem — não Deus, o filho do homem —, para que Tu o visites?
Tu o fizeste, por um pouco de tempo, menor do que os anjos;
de glória e de honra o coroaste,
e o constituíste sobre as obras de Tuas mãos;
todas as coisas sujeitaste debaixo de seus pés.
Quem é esse? A quem Ele fez tudo isso? Ao homem. Ao homem! Essa é a ideia de Deus para o homem. Foi por isso que Deus criou o homem. Essa era a intenção de Deus no que diz respeito ao homem.
Pois, ao sujeitar-lhe todas as coisas, Ele nada deixou que não lhe estivesse sujeito.
Mas agora ainda não vemos todas as coisas sujeitas a ele.
Ao homem. Mas o que vemos? Não vemos essa intenção divina a respeito do homem se cumprindo agora no homem em geral. Mas o que vemos?
Vemos, porém, Aquele que foi feito, por um pouco de tempo, menor do que os anjos, a saber, Jesus, por causa do sofrimento da morte, coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem.
Observem o nome usado: o nome de Sua humanidade — Jesus. O próprio Jesus, por causa do sofrimento da morte, coroado de glória e de honra. O que tudo isso lhes diz?
Claramente, é isto que significa. Deus tinha esse grande, esse maravilhoso pensamento a respeito do homem. Na criação do homem:
Façamos o homem à Nossa imagem, conforme a Nossa semelhança;
e tenha ele domínio.
O grande pensamento de Deus para o homem era que ele fosse coroado de glória e de honra.
Que é o homem, para que Te lembres dele?
Tu o tens em mente.
E o filho do homem, para que o visites?
Tu o designaste — pois esse é o significado literal da palavra. Tu o designaste para isso.
Esse era o propósito. Então o homem decepcionou a Deus. Desobedeceu a Deus. Rebelou-se contra Deus. Tomou o partido do inimigo de Deus.
O resultado é que o homem, essa raça de Adão, está muito longe de ser aquilo que Deus pretendia que fosse. O que precisa ser feito para que Deus alcance Seu objetivo? E Ele o alcançará no que diz respeito ao homem. Ele precisa começar de novo com outro Adão.
Paulo nos ajuda aí. Ele chama Jesus de o último Adão. Sempre me alegro por ele chamá-Lo de o último Adão. Não haverá necessidade de outro — de um terceiro ou de um quarto. Este realizará tudo plena e definitivamente. Ele é a palavra definitiva de Deus, a última expressão divina de Seu propósito. Ele é o último Adão.
Ele veio para começar tudo de novo. Agora, observem que esta carta, desde o início, tem muito a dizer sobre Ele, esse último Adão, esse segundo Homem.
O escritor diz a respeito dos crentes:
Ele não Se envergonha de lhes chamar irmãos.
E diz:
Anunciarei o Teu nome a Meus irmãos;
no meio da congregação cantarei o Teu louvor.
Ele deu início a uma nova família, esse último Adão.
E é essa família que chegará à glória e à honra, e à realização do pensamento de Deus. Mas ela receberá seu caráter dAquele que é o Primeiro entre seus membros.
É nisso que vou me concentrar, talvez pelo restante desta noite. Não precisamos nos alongar muito. Voltem a Gênesis 1:28. O Senhor trouxe o homem e a mulher à existência. Ele diz:
Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra, e dominai.
Ora, quando Deus fala, Sua palavra é sempre um ato. Não é apenas uma palavra; é um decreto criador. Quando Deus fala, Ele diz:
Haja luz.
E houve luz. As palavras de Deus são atos.
E Ele veio em carne e falou — algo aconteceu, sempre aconteceu alguma coisa. Quando Deus disse:
Frutificai, e multiplicai-vos,
Ele concedeu o poder de procriar, de multiplicar, de reproduzir.
Frutificai, e multiplicai-vos, e enchei a terra.
Em outras palavras: encham a terra de pessoas como vocês, e Eu lhes dou poder para fazer isso. Foi nesse ponto que Satanás se precipitou para intervir.
“Se eu conseguir capturar esses dois, poderei encher a terra com a minha semelhança, com a minha descendência. Capturar esse poder de multiplicação, de reprodução, para encher esta terra não com o tipo de gente que Deus quer, mas com o tipo que eu quero.”
Agora eu lhes pergunto: foi isso que aconteceu? Vocês não precisam olhar para fora deste salão. Olhem para dentro de si mesmos. Vocês têm um velho Adão? Sim, esse é o nosso problema, não é — aquilo que chamamos de velho Adão?
Aquele primeiro Adão, com seu relacionamento com Deus rompido, cuja própria natureza é não confiar em Deus, não crer em Deus, suspeitar de Deus — ele está em cada um de nós.
Basta sermos fortemente pressionados por alguma dificuldade real, na qual pareça que Deus nos abandonou, e imediatamente — não de fora, mas de dentro — começamos a ter reservas quanto ao amor de Deus. Há algo que se levanta em nossa própria constituição.
Bem, vocês estão contra Deus? Isso é verdade? Naturalmente, se ainda não chegaram a esse ponto, talvez digam: “Sim, eu sei”. Mas, cedo ou tarde, vocês saberão. Há algo na constituição dessa raça de Adão que, por sua própria natureza, é rebelião contra Deus — questionamento e dúvida a respeito de Deus.
Satanás encheu este mundo de uma descendência assim. É um mundo incrédulo, um mundo que desconfia de Deus e que, em grande parte, vive em rebelião contra Deus. Vejam, Satanás capturou a raça, geração após geração, por meio desse processo de encher a terra.
Isso é terrível. Mas o que quero ressaltar é isto: o último Adão veio. Aleluia! Ele não pertence àquela ordem, de modo algum; mas é um homem real, com uma natureza humana real, provado e testado de todas as maneiras, ainda mais severamente do que o primeiro Adão, porém sem pecado.
E que vitória! Aqui lemos nesta noite:
Ele provou a morte por todo homem.
Vocês sabem o que a morte realmente é, amigos? Acho que não. Acho que nenhum de nós sabe. Não, não sabemos. E graças a Deus não é necessário que nenhum de nós realmente saiba o que isso significa.
Quando esse Filho de Deus estava para vir ao mundo, Ele foi anunciado por um anjo. Um anjo fez a anunciação. Um anjo veio com a notícia da encarnação e deu início a isso.
Quando Ele de fato nasceu, o céu se encheu de anjos cantando e glorificando a Deus. Quando Ele estava no deserto, sob a pressão da tentação, com o diabo e as feras, está escrito que os anjos O serviam.
Quando Ele estava no jardim, naquela terrível agonia do jardim, um anjo veio e O fortaleceu. Quando Ele ressuscitou dentre os mortos, os anjos estavam ali junto ao túmulo.
Mas, quando Ele estava na cruz — na cruz —, nenhum anjo veio, nenhuma voz, nenhuma mão para ajudar, nenhum auxílio do céu; e o próprio Deus desviou o rosto.
Isso é a morte. Isso é a morte em favor de todo homem. Ele a provou para que nós não precisássemos prová-la.
E Ele saiu vitorioso, assentado à direita de Deus — nascido dentre os mortos, o Primogênito, o Primeiro entre muitos irmãos. Por meio dEle, uma família pode ser gerada.
Deus Lhe deu, ao último Adão, esse grande poder de reprodução: uma família segundo Sua própria semelhança, uma família de Cristo, que traz a semelhança desse último Adão.
Assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial.
Nenhum de vocês aqui nesta noite duvida ou questiona que traz a imagem do terreno. Esse é o velho Adão — nós trazemos essa imagem. Esta maravilhosa carta nos diz que o homem não foi chamado para isso, não foi destinado a isso.
O que Deus fará conosco é nos conformar à imagem de Seu Filho. Ele começa isso no novo nascimento — no seu novo nascimento, no meu novo nascimento —, pela reprodução de Cristo.
Ah, queridos amigos, apeguem-se a esse pequeno trecho. Que coisa poderosa! Isso nos sustentará até o fim. Para que o cristão foi destinado? O que é um cristão? O que significa o novo nascimento? O que significa estar unido ao Senhor? Significa a reprodução de Cristo.
Numa família, numa raça, que encherá esta terra — a terra habitada vindoura, da qual estamos falando. Essa é a expressão aqui. Ela será povoada por pessoas semelhantes a Cristo. É para isso que somos chamados. Essa é a realidade tremenda que corremos o risco de perder.
Essa é a realidade tremenda que precisamos trazer conosco. É em torno disso que giram todas estas advertências e exortações: precisamos atentar com mais diligência, para não perdermos isso.
Deixem de lado, por um momento, todas as suas questões e dificuldades teológicas e doutrinárias. Aqui está um livro com treze capítulos, se quiserem, cujo peso inteiro recai sobre isto: vocês, cristãos, são chamados para algo tremendo. Não percam isso.
Algumas pessoas tentaram contornar isso dizendo que esta carta não foi escrita para cristãos, mas para judeus. Isso é tentar contornar a questão. Eu disse nesta tarde: vocês não podem aplicar nenhuma parte desta carta a não cristãos.
Em Hebreus 6:5, está escrito:
Provastes os poderes do mundo vindouro.
Nenhum não cristão jamais fez isso. Muitas, muitas outras coisas mostram que esta carta é dirigida aos cristãos.
Tudo nela está dizendo: vocês são chamados à Sua glória eterna. São chamados a ser conformados à Sua imagem. São chamados a fazer parte desse povo em Sua criação, nas eras vindouras — uma expressão do pensamento de Deus a respeito do homem.
Coisas tremendas são chamadas aqui de herança. Voltaremos a isso em outra ocasião. Uma herança é algo mais do que simplesmente pertencer a uma família. Vocês podem ser membros de uma família porque nasceram nela, mas isso não os torna necessariamente herdeiros.
Muitas pessoas pertencem a famílias, mas não são os herdeiros. Esta carta trata da herança. Então, deixemos isso por enquanto.
Por que Cristo é apresentado nessa majestosa revelação no início? Para que o Espírito Santo prossiga e diga: “Vocês são chamados a ser coerdeiros com Ele, unidos a Ele, participantes de Sua herança, e a servir ao propósito de Deus nEle, manifestando Sua gloriosa intenção ao criar o homem”.
Vocês são chamados para isso. Vocês O veem? Isso é tremendo, não é?
Ouvir palavras como estas no início de Hebreus 3:1 — com que finalidade?
Portanto, santos irmãos, participantes de um chamado celestial, considerai o Apóstolo e Sumo Sacerdote da nossa confissão, a saber, Jesus.
Santos irmãos, parceiros num chamado celestial. Ora, nem todas as pessoas que trabalham para uma empresa são sócias da empresa. Essa palavra aqui, “participantes” em algumas versões, “parceiros” no original, é esse termo comercial.
É a mesma palavra usada a respeito dos discípulos quando estavam pescando e lhes foi concedida aquela pesca milagrosa. Eles fizeram sinal aos seus parceiros. Evidentemente, essas duas ou três famílias mantinham uma sociedade comercial. Essa é a palavra aqui: parceiros, coparticipantes, com base num relacionamento mútuo em torno dos interesses desse empreendimento.
Aqui está: santos irmãos, parceiros num chamado celestial. O que é esse chamado celestial? Parceria com Cristo.
O escritor dirá:
Tornamo-nos participantes de Cristo, se retivermos firmemente até o fim o princípio da nossa confiança.
Parceiros com Cristo.
Não quero enredar vocês em palavras nem criar uma montanha pesada demais para enfrentarem. Minha preocupação, queridos amigos, é, por um lado, que vejamos quão grande é Cristo. Mas por quê? Por que a revelação de Jesus Cristo em termos tão majestosos?
Ela nos é dada para mostrar a que somos chamados como cristãos: a uma parceria com Ele, com Ele, nas eras vindouras, que começa agora pelo novo nascimento.
Agora, deixem-me concluir por enquanto, voltando diretamente a este ponto central. Tão certamente quanto você e eu sabemos, por natureza, que aquele primeiro Adão está em nós — poderosamente em nós, terrivelmente em nós, miseravelmente —, nós sabemos disso.
Pelo nosso novo nascimento, pela nossa união interior com Cristo, por aquilo que aconteceu mediante a vinda do último Adão e a nossa fé nEle, o que precisa ser verdadeiro a nosso respeito é isto: assim como conhecemos a força, o poder e a realidade do velho Adão em nós, precisamos conhecer a realidade desse último Adão em nós.
A realidade de Cristo em nós, como a esperança da glória, precisa tornar-se cada vez mais real e verdadeira em nossa experiência. Cristo é a solução para todos os nossos problemas, a resposta para todas as perguntas.
Qual é a resposta para o grande problema da desunião entre os cristãos? Qual é? A desunião entre o povo do Senhor. É um grande problema, vocês sabem, não é? É um problema terrível. Parece que não há solução para isso — o velho Adão está em atividade, o velho diabo está em atividade por meio do velho Adão.
E tenho constatado isto: em cada situação, em cada caso de divisão entre o povo do Senhor, vocês conseguirão encontrar o velho Adão em algum lugar. É possível vê-lo. Vocês descobrirão que, em algum ponto, esse velho homem se intrometeu.
Seja em sua autoafirmação, em sua ambição, em sua obstinação, ou em alguma outra coisa — ele está ali. É daí que vêm essas divisões.
Qual é a resposta para a divisão entre os cristãos? Não são conferências nem discussões. É Cristo. É Cristo, e somente Cristo.
Só haverá cura na medida em que houver um aumento de Cristo. Mas, se houver um aumento de Cristo, teremos a chave da situação. Cristo não está dividido. Paulo diz:
Está Cristo dividido?
Está Cristo dividido? O sentido é: impossível. Cristo não pode ser dividido.
Portanto, se houver uma grande medida de Cristo, teremos unidade. É terrível pensar, não é, que a desunião significa simplesmente uma medida tão pequena de Cristo? Um pensamento terrível, e, no entanto, é assim.
Assim como isso é verdade numa questão como essa, é verdade em todas as outras coisas. Cristo é a resposta. Mais de Cristo, mais problemas são resolvidos. Mais de Cristo, mais dificuldades são superadas. Mais Cristo, e vocês se aproximam daquela realidade em que a terra estará cheia da glória do Senhor.
Cristo em vocês é a esperança dessa glória. Isso é uma repreensão para nós e, ao mesmo tempo, um grande chamado. Esta carta está fundamentada nisto: Cristo.
Mais Cristo. Mais Cristo.
Pelo que vocês mais oram? Com o que mais se preocupam? Talvez estejam orando para que o Senhor os use para conduzir almas a Ele, para a salvação de almas. Talvez esse seja um de seus motivos de oração.
Bem, não estou dizendo que orem menos por isso. Orem mais por isso, se puderem. Talvez estejam orando por alguma outra coisa, mas deixem-me dizer-lhes: acima de todas essas outras coisas, devemos orar para que sejamos mais semelhantes a Cristo — para que haja mais Cristo em nós.
Deus fala ao mundo numa Pessoa, não primeiramente em palavras. É numa Pessoa. Se Ele pudesse ter esse único novo homem conformado ao Seu Filho, que impacto tremendo causaria neste mundo!
Se fôssemos mais semelhantes a Cristo, precisaríamos dizer menos. Nosso testemunho seria muito mais poderoso. Bem, estamos acostumados a ouvir esse tipo de coisa, mas isto é diferente.
Só posso lhes dizer que isto se impôs a mim com tremenda força: que o Senhor deseja chamar Seu povo, chamar a nós, Seu povo, a olhar novamente para Seu Filho, ver quão grande é Seu Filho, obter uma nova compreensão da grandeza de Cristo e, então, dizer ao nosso próprio coração: “Não há nada, nada que possamos imaginar, de maior honra do que estar unidos a esse Filho”.
Um membro de Cristo, um parceiro com Ele no chamado celestial.
Quando considero os Teus céus, obra dos Teus dedos,
a lua e as estrelas que estabeleceste;
que é o homem, para que Te lembres dele?
E o filho do homem, para que o visites?
Minha esposa e eu fomos recentemente ao Planetário de Londres. Ali, mostram essas constelações de uma maneira maravilhosa. A gente simplesmente se encolhe e se torna tão pequeno aos próprios olhos ao contemplar aqueles corpos celestes.
Davi, o salmista, saiu certa noite sob aqueles céus. Ele estava cuidando de suas ovelhas.
Quando considero os Teus céus, as obras de Tuas mãos,
que é o homem, para que Te lembres dele?
E o filho do homem, para que o visites?
Como vocês interpretam isso? Interpretam como se significasse o seguinte: o universo é tão vasto, o homem é tão pequeno, tão insignificante neste universo; aqui está a grandeza de Deus, e o homem — bem, Deus criou o homem, mas o homem é tão pequeno? É assim que vocês leem?
Davi pensava exatamente o contrário. O poder e a sabedoria de Deus no universo colocaram o homem bem no centro dele. O homem é a parte mais importante, mais importante de Sua criação.
Que é o homem, para que esteja na mente de Deus? Mais importante do que o mundo, mais importante do que os céus. Ele é a chave de tudo.
Tu o fizeste dominar sobre as obras de Tuas mãos;
tudo puseste debaixo de seus pés.
Isso não coloca o homem numa posição menor no universo de Deus; coloca-o ali na posição mais elevada. E o pensamento de Deus, vocês veem, se realiza em Seu Filho. O sol, a lua e todas as estrelas devem adorá-Lo.
Quando Ele novamente introduz no mundo Seu Filho, Seu Unigênito, a que isso se refere? À segunda vinda do Senhor — sem dúvida alguma. À segunda vinda do Senhor. Ele dirá:
Todos os anjos de Deus O adorem.
Apocalipse mostra isso acontecendo de fato. Mas observem: é o Filho do Homem nessa posição — o Filho do Homem. Esse é um termo, uma designação, que O coloca em relação com a humanidade.
Ah, que chamado! É grande demais para nós, maravilhoso demais. Mas, queridos amigos, vocês não acham que precisamos ter uma compreensão maior de Cristo e do que significa ser cristão?
Leiam novamente esta carta aos Hebreus à luz disso. Vocês verão como ela é tremenda e como seu peso recai sobre nós. Portanto, não percam o seu chamado. Não sejam negligentes com esse grande chamado, esse chamado do alto, esse chamado celestial.
Prossigamos. É a grandeza dessa realidade que está em questão. Prossigamos até a plena maturidade. Deixemos isso por enquanto.
Senhor, opera por meio de Tua Palavra. Produze em nosso coração exatamente a impressão que Tu desejas que tenhamos.
Oramos para que as palavras, a linguagem, o esforço de transmitir a verdade não ocultem, de modo algum, a própria verdade. Grava isto em nosso coração: não é pouca coisa sermos chamados a ser coerdeiros com Teu Filho, herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo.
Tu puseste todas as coisas debaixo de Seus pés, deste-O como Cabeça sobre todas as coisas, constituíste-O herdeiro de todas as coisas. Coerdeiro com Jesus Cristo — que chamado, que chamado!
Senhor, faze o peso disso recair sobre nós, para nos mover a uma nova busca, a uma nova entrega, a uma nova disposição de sofrer a perda de todas as coisas para ganhar a Cristo.
Protege Tua Palavra. Se foi dito algo que não deveria ter sido dito, deixa simplesmente que morra; que não tenha poder sobre nós. Mas aquilo que foi verdadeiro segundo Tu mesmo, confirma-o, fortalece-o, sustenta-o, preserva-o.
Está conosco agora. Guarda-nos ao sairmos. Que sejamos abençoados pelo Senhor com Sua paz nesta noite. Por amor de nosso Senhor Jesus, pedimos. Amém.