Voltemos à carta aos Colossenses 3:8-11.
Mas agora despojai-vos também de todas estas coisas: ira, cólera, malícia, maledicência, palavras vergonhosas da vossa boca; não mintais uns aos outros, visto que vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos revestistes do novo homem, que está sendo renovado para o conhecimento, segundo a imagem dAquele que o criou; onde não pode haver grego e judeu, circuncisão e incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; mas Cristo é tudo, e em todos.
Agora, rapidamente, por causa daqueles que não estiveram conosco ontem à noite, vamos recapitular os cinco pontos que compõem esse parágrafo.
O primeiro é o olhar retrospectivo para o Criador e para o ser criado:
Segundo a imagem dAquele que o criou.
Voltamos ao Criador e à Sua obra de criação.
Em seguida, o modelo e o propósito da criação: Cristo, o modelo.
Renovado segundo a imagem dEle.
Depois, a verdadeira natureza e o significado da crise na vida do crente:
Vos despistes.
E:
Vos revestistes.
Depois, a atuação e a energia do Espírito Santo:
Sendo renovado segundo a imagem.
E, finalmente, a exclusividade e a abrangência de Cristo:
Não pode haver.
E:
Cristo é tudo, e em todos.
Dedicamos algum tempo ao primeiro desses assuntos: o homem e seu Criador — o Criador e o ser criado.
Falamos sobre a desintegração do primeiro homem e sobre a entrada da divisão na vida humana, que resultou na longa história da frustração humana.
Isso, de um lado; e, do outro, a intervenção de Deus em Cristo, por meio da encarnação, para reintegrar e reunificar a vida humana, para redimir o homem daquele estado de divisão e frustração.
Isso nos leva à ênfase final, que é, de fato, o ponto central de toda a nossa reflexão e preocupação neste momento.
A ideia predominante em tudo isso é o interesse supremo de Deus pelo homem. Deus está supremamente — e, em certo sentido, poderíamos dizer exclusivamente — inteiramente voltado para isso que chamamos de homem: a vida humana, a condição humana, segundo Seu Filho, Jesus Cristo.
Deus não está preocupado, interessado ou atuando em relação a meras coisas. Nós nos preocupamos com coisas, e somos tremendamente afetados por coisas.
Quero dizer, boa parte do nosso tempo e da nossa energia é ocupada com sistemas, com a sociedade, com instituições e organizações e, talvez, até mesmo com nossa vida cristã e nosso culto — amigos, com aquilo que é exterior.
Deus não está tão preocupado quanto nós com tudo isso. Se pudéssemos simplesmente distinguir esses interesses, seríamos poupados de tanta coisa.
Somos quase atormentados pelas coisas do cristianismo: reuniões, ministros, culto, a maneira como as coisas são feitas — todas as coisas que foram construídas ao redor do cristianismo. Estamos preocupados com as coisas do cristianismo e somos afetados por elas. Deus, não.
Deus atravessa tudo isso e olha para dentro de tudo isso. Ele não olha para o exterior como nós. Ele vai direto ao interior, e aquilo que Lhe interessa, aquilo com que Se preocupa e que procura é a vida humana que satisfaz Seu pensamento criador.
Ele está tratando com você e comigo como pessoas. Como já dissemos algumas vezes, Ele parece estar tão concentrado que nos destaca como se fôssemos os únicos indivíduos em Seu universo.
Parece que o mundo inteiro é algo que se relaciona apenas conosco. Vocês entendem? Ele nos isola por meio de nossas experiências, nos encerra e nos aprisiona numa história espiritual, a fim de tratar conosco.
Sim, Deus está supremamente interessado no homem — nos homens, se preferirem —, procurando homens para formar homens segundo a imagem dAquele que o criou. Esse é Jesus Cristo.
A única reunificação e reintegração possível da vida humana é Cristo — está em Cristo.
E será — para dizer algo simples e óbvio, mas que tantas vezes deixamos de perceber — precisamente na medida e no grau em que Cristo, o Homem, o Homem celestial, estiver em nós que estaremos unidos uns aos outros.
Digamos de outra maneira: a medida em que Cristo não estiver presente em nossos relacionamentos será a medida da nossa divisão e a medida da nossa frustração.
Bem, agora, nos poucos minutos que temos nesta manhã, vamos prosseguir para o segundo desses pontos no parágrafo: o modelo e o propósito.
Renovado segundo a imagem dAquele que o criou.
Temos de concentrar nossa atenção, a atenção do nosso coração, nAquele que é a imagem e segundo Quem devemos ser renovados.
Assim, encontramos a imagem sendo introduzida, investida em Sua posição e apresentada. Ele nos é apresentado oficial e historicamente em Seu batismo, que prefigura Sua cruz:
Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo.
Isso marca o momento em que Ele assume Sua posição oficial como a imagem segundo a qual essa renovação deve ocorrer — apresentado, investido em Sua posição, introduzido no mundo diante do céu, da terra e do inferno.
Ele é estabelecido como o modelo central da intenção de Deus para toda a criação. Com esse propósito, aqui está a imagem introduzida e apresentada, à qual a humanidade deve ser conformada, ou então perecer e desaparecer.
Tudo é governado por essa apresentação. Depois da apresentação, ou da investidura, veio imediatamente a prova.
É espiritualmente importante reconhecer a sequência: introduzido, investido em Sua posição e provado.
Sabem, não deveria haver nenhuma divisão entre os capítulos 3 e 4 do Evangelho de Lucas. Jesus é batizado, sai da água, o Espírito desce, e a voz do céu dá testemunho dEle. Então, imediatamente, o Espírito O conduz ao deserto para ser tentado, ou provado, pelo diabo — a outra figura central na criação.
Depois da identificação:
Este é o Meu Filho amado.
Vem a prova.
E quero que vocês, nestes poucos momentos, observem novamente a abrangência dessa prova, desse período de tentação.
Isso deve ter sido, no pensamento de Cristo, algo tremendamente importante de se considerar, porque está registrado em todos os Evangelhos Sinóticos e é mencionado nos escritos posteriores do Novo Testamento.
Ora, Jesus era reservado ao falar de Sua própria história interior. Somente Ele poderia ter contado essa experiência. Ninguém mais estava com Ele; Ele estava sozinho no deserto. Somente Ele sabia disso. Mas, em algum momento posterior, deve ter contado, ou isso não poderia ter sido registrado.
É uma das maiores experiências de Sua história terrena. Mas certamente tinha uma importância muito grande no significado integral da encarnação.
E esse é o ponto que quero que vocês observem. Prestem muita atenção a isto: essa experiência ocupa uma posição de enorme importância no significado integral da encarnação do Filho de Deus. Ela abrange tudo.
Toda tentação posterior que veio ao Senhor Jesus — e essa não foi a única. Lembrem-se de que, ao final, está escrito:
Então o diabo O deixou por algum tempo.
Em outras palavras, o diabo disse: “Eu voltarei”. Aquilo não foi o fim.
E como isso se mostrou verdadeiro. Todo ataque posterior do inimigo retomaria as mesmas coisas incluídas nessa única tentação, de maneiras diferentes. Por meios diferentes, seguindo linhas diferentes, sob formas diferentes; mas, em princípio, era a mesma coisa outra vez.
Temos aqui a tentação em três formas — não três tentações, mas a tentação em três esferas diferentes, com três aspectos diferentes.
Em primeiro lugar, o corpo: a fome. O tentador veio pela via da exigência física, da necessidade física e do interesse físico — primeiro, por meio do corpo.
E então, tendo fracassado ali — pois esse corpo já havia, em princípio, feito o sacrifício completo; no corpo havia obediência absoluta —, ele veio pela via da alma.
Ele O levou ao pináculo do templo:
Lança-Te daqui abaixo. Está escrito.
O diabo sabe citar as Escrituras.
Aos Seus anjos dará ordens a Teu respeito.
Mas ele deixou de fora um fragmento muito importante da declaração de Salmos 91:11. Não disse:
Em todos os Teus caminhos.
“Em todos os Teus caminhos” — isso teria sido perigoso.
Há caminhos em que você não pode sequer reivindicar a promessa das Escrituras. Há caminhos em que nem mesmo a proteção de Deus está disponível, se forem caminhos de presunção. Se você age presunçosamente em relação a Deus, não pode reivindicar a proteção de Sua Palavra. Não é “em todos os teus caminhos”, a não ser que todos os teus caminhos estejam em Deus.
Mas isso é uma observação à parte. Aqui, o ponto da tentação era este: se Você fizer isso — lançar-Se lá de cima —, todos O aclamarão imediatamente. “Este Homem veio do céu. Ei-Lo aqui!” Eles O aclamarão. O mundo O aceitará, O aplaudirá, e o mundo será conquistado.
O mundo, o mundo — aquilo que chamamos de popularidade. Essa é a alma. Essa é a prova.
Se você não obtiver a aprovação do mundo, isso é difícil. É rejeição; é perseguição. Você não encontra lugar, compreensão, favor ou aceitação no mundo.
Às vezes, isso pode ser uma prova extremamente difícil. Muitos homens precisam colocar tudo na balança: a lealdade a Deus de um lado e, do outro, a possibilidade de obter o favor dos homens, posição, promoção e tudo o mais — por algum caminho um pouco tortuoso, que não é reto, que não é correto diante de Deus.
Essa questão de ser bem-visto pelo mundo às vezes se torna algo muito intenso. O deus deste mundo faz com que seja assim: uma verdadeira tentação na esfera da nossa alma, a de ser bem-visto pelos homens — uma tentação de fazer concessões nisto ou naquilo para conseguir um caminho mais fácil no mundo, os favores do mundo.
Tendo fracassado novamente ali, o inimigo se voltou para outro extremo. Levou-O a um monte muito alto, mostrou-Lhe todos os reinos do mundo e a glória deles, e disse:
Todas estas coisas Te darei, se me adorares.
Ele havia passado do círculo exterior do corpo para aquele lugar interior da alma. Agora, havia ido diretamente ao coração. Esse é o espírito: a adoração, o lugar de Deus. Quem será Deus? Quem ocupará esse santuário interior do ser humano?
Bem, não estou me detendo nessas três coisas em particular, mas estou tentando mostrar a vocês a abrangência dessa tentação: o homem inteiro estava envolvido — corpo, alma e espírito.
Sabem, o Senhor permite que sejamos provados em todas essas esferas. Às vezes, o físico é a esfera de uma prova muito definida e difícil — ficamos muito abatidos quanto à nossa vida física a serviço de Deus.
Mas o Senhor disse em outra ocasião:
Aquele que salvar a sua vida a perderá; e aquele que perder a sua vida a encontrará.
E isso frequentemente se torna uma questão física, uma questão física real, como tem sido para muitos nestes últimos dias.
Para nós, a questão volta a ser se venderemos os interesses de Deus e os interesses espirituais em favor dos interesses físicos envolvidos. Ou se subjugaremos o corpo, para que ele não seja o senhor, mas o servo.
Bem, tudo isso é uma prova real. E a alma, penso eu, talvez seja uma esfera muito maior do que imaginamos: toda a questão da reputação, da posição, do favor e da ascensão neste mundo.
Ganhar o mundo significa ganhar seu favor, seu sorriso, sua satisfação. É uma tentação intensa para os jovens — na verdade, para todos os cristãos, mas particularmente para os jovens — decidir se farão concessões para realmente serem bem-vistos pelo mundo.
E, no espírito, chega até nós a forma mais intensa da tentação. Bem, eu já indiquei isso. Não podemos tratar de tudo o que está relacionado a essas questões, mas o que estou dizendo é que aqui, nessa tentação do Senhor Jesus, vocês encontram a abrangência de toda tentação: o homem inteiro — espírito, alma e corpo.
E, nessa prova abrangente, a imagem foi provada e verdadeiramente confirmada.
Pensem novamente naquele que estava entre os mais próximos de Seus discípulos, o querido Pedro. Quando Jesus falou de Seus sofrimentos vindouros, Pedro disse:
Isso de modo algum Te acontecerá.
“Salva-Te a Ti mesmo.” Aqui estamos de volta à esfera do corpo: “Salve-Se. Não Se coloque no caminho disso”.
Então veio o Getsêmani:
A Minha alma está profundamente triste.
Ele foi provado em Sua alma.
E, finalmente, a cruz:
Meu Deus, Meu Deus.
Provado até o último grau em relação a Deus, Seu Pai — ao amor de Seu Pai, à fidelidade de Seu Pai.
A prova foi levada à área mais profunda e mais íntima de Sua vida humana, assim, ao longo de todo o caminho.
Mas o ponto é este: observem qual é o centro, o âmago de tudo isso. Quer seja no corpo, a provação; na alma, a prova; ou no espírito, a experiência mais dolorosa, há uma coisa no centro de tudo: Sua relação filial com Deus.
O testemunho, a apresentação, foi:
Meu Filho, em Quem Me comprazo.
Meu Filho.
“Muito bem”, diz o diabo, “esse é o ponto central em que vou me concentrar”. E qual é a essência da tentação? É a relação filial com o Pai — a relação de amor com o Pai.
Você alguma vez é provado por meio do seu corpo a ponto de duvidar do amor de Deus? Por meio da sua situação, das circunstâncias que surgem e o cercam, e no seu próprio ser? Ah, sim, conhecemos um pouco disso, alguma coisa disso.
A força concentrada de todos os poderes da tentação recai sobre essa questão, seja qual for a forma que ela assuma.
Vejam, o Senhor Jesus percorreu esse caminho. A respeito de Seu triunfo, está escrito:
Ainda que era Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.
Ele foi aperfeiçoado por meio do sofrimento.
Não pensem nessa palavra, sofrimento, em relação a Ele, como se se tratasse apenas de Seus sofrimentos físicos na cruz. Provavelmente é aí que Roma concentra tudo — no crucifixo, nas feridas, nesse aspecto.
Não, não. Seus sofrimentos estavam aqui: na esfera de não servir aos Seus próprios interesses de maneira alguma — no corpo, na alma ou no espírito — e no que Lhe custou agir assim. Esses eram Seus sofrimentos. Ele foi aperfeiçoado por meio do sofrimento.
E então, tendo sido aperfeiçoado, Ele é estabelecido no céu como o Homem que satisfaz a Deus.
Estêvão, em seus últimos momentos, disse:
Vejo o Filho do Homem em pé à direita de Deus.
O Filho do Homem — estabelecido como o modelo celestial, o Homem celestial.
Há uma palavra grega que é usada apenas uma vez no Novo Testamento. Ela é usada pelo próprio Senhor Jesus. Ele disse:
Deixei-vos um exemplo.
Sempre que essa palavra, exemplo, ocorre no Novo Testamento, ela é, como todas as outras palavras gregas, uma palavra pictórica. Há uma imagem por trás dela. Ela é tirada da sala de aula.
A sala de aula e o caderno de caligrafia. O professor estabelece um modelo para ser copiado na escrita — a linha de cima, como costumávamos chamá-la.
Não sei muito bem como são as coisas hoje na escola infantil, mas me lembro bem de como eu me esforçava para imitar aquela linha de cima na escrita e de como achava que meu sucesso dependia de imitá-la.
Pois bem, Jesus tomou essa palavra, exemplo ou modelo, da sala de aula, onde a criança recebe uma linha de cima, recebe um modelo, um exemplo, para copiar a escrita do professor.
Sabem, a Palavra fala muito sobre olhar para Jesus, contemplá-Lo. Mas isso não esgota a questão, porque penso que há sempre alguma fraqueza — pelo menos eu a encontrei — nessa ideia de exemplo.
Nunca achei A Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis, inteiramente útil. Todos os dias tentamos tomar Jesus e fazer dEle a linha de cima, não é mesmo?
Mas havia mais do que isso na palavra grega, e vou mostrar a vocês por um momento. O professor não apenas fornecia o modelo da linha de cima, mas também traçava alguns sulcos na argila sobre a qual se escrevia.
Naquela época, o único meio de escrita usado na escola que era barato o suficiente para ser fornecido em quantidade adequada eram as tabuletas de argila. Então o professor traçava sulcos — linhas.
Ora, isso é muito útil, não é? Com algumas linhas para seguir, você não se desvia. Mas, se forem sulcos, de modo que, quando você tende a sair da linha reta, o sulco o mantém nela — isso é algo a mais. Tudo isso está na palavra exemplo.
Isso significa que Ele não apenas Se tornou o modelo ao qual estamos sendo conformados, mas que o Espírito Santo nos deu, em nosso próprio coração, sulcos. Quando saímos da linha reta, o sulco nos traz de volta — algo que nos mantém no caminho reto.
Vocês entendem? É uma ilustração muito simples, mas essa é a palavra, vejam — esse é o significado da palavra.
Ele foi apresentado como o modelo, e o Espírito Santo veio para nos manter na linha desse modelo. Guardados pelo poder de Deus. Se nos desviarmos, algo nos trará de volta e nos colocará novamente no caminho reto.
Agora, por enquanto, preciso parar aqui, porque isso introduz justamente essa atuação e essa energia do Espírito Santo na questão da renovação segundo a imagem dAquele que o criou. Deixaremos isso para depois.
E então, voltando novamente ao ponto com que começamos: o Senhor concentrou Sua atenção em nós como seres humanos para restaurar a imagem do único Homem perfeito.
É em nós, como pessoas, que está Seu interesse. Ele Se preocupa conosco. Tantas vezes, o que importa para Ele diz respeito a nós, a você — não a obter um sistema perfeito ou uma ordem neotestamentária, mas pessoas, simplesmente pessoas.
Nunca teremos qualquer tipo de ordem celestial ou neotestamentária até que Ele tenha o tipo de pessoas que deseja. Quando Ele as tiver, ou estiver formando essas pessoas, tudo o mais virá em seguida, e teremos a ordem correta.