Mas agora despojai-vos também de todas estas coisas: ira, furor, malícia, maledicência, palavras vergonhosas da vossa boca. Não mintais uns aos outros; pois vos despistes do velho homem com os seus feitos, e vos revestistes do novo homem, que está sendo renovado para o conhecimento, segundo a imagem Daquele que o criou: onde não pode haver grego e judeu, circuncisão e incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre; mas Cristo é tudo e em todos.
Permitam-me dizer, queridos amigos, ao nos aproximarmos da mensagem contida nestas palavras, que minha grande preocupação é que toquemos a realidade neste momento. Que avancemos além da teoria, além do ensino em si, e encontremos o Senhor no ponto da realidade profunda, onde Sua necessidade em nós seja realmente atendida — nossa necessidade Dele. Amém.
Vivemos numa época em que o acúmulo de verdade, ensino e conhecimento cristãos é imenso, mas a realidade correspondente na vida está longe de ser proporcional. Há uma distância, uma lacuna, entre aquilo que se conhece e aquilo que se vive.
Queremos entrar nessa lacuna, conforme o Senhor nos capacitar, e fechá-la — ou deixar que Ele a feche — no que diz respeito a nós neste momento: que a verdade e a vida se aproximem; que, de fato, se tornem uma só coisa.
Esse é o objetivo que está em meu coração neste momento: não dizer muito mais, por mais verdadeiro que seja, mas realmente tocar questões vitais. Talvez se diga muita coisa, mas tenho um único pensamento e objetivo que governa tudo o que será dito. Tudo se concentrará em torno de uma única questão, que, confio, ficará cada vez mais clara à medida que avançarmos.
Dito isso, vamos examinar este trecho da Palavra que acabamos de ler: Colossenses 3:9-11. Vamos analisá-lo, dividi-lo e observar os cinco pontos muito distintos abordados pelo apóstolo.
Em primeiro lugar, há um olhar retrospectivo para o Criador e a criação:
Está sendo renovado para o conhecimento, segundo a imagem Daquele que o criou.
Isso nos remete à criação e ao Criador. Apenas observem. Vamos tratar de cada um desses pontos separadamente. Mas o primeiro é esta referência retrospectiva ao princípio de todas as coisas no Criador e na criação: a imagem Daquele que criou.
Em segundo lugar, há o modelo e o propósito do Criador na criação:
Está sendo renovado segundo a imagem Daquele que criou.
O modelo — a imagem; o propósito — a renovação dessa imagem.
Em terceiro lugar, há a verdadeira natureza e o efeito da crise na vida do cristão. Algo aconteceu na vida do cristão que marca o início de um processo — um processo indicado por estas palavras: “está sendo renovado”, feito novo, refeito.
Uma crise na vida do crente: algo acontece; vocês se despem e se revestem. Essa é a natureza, o significado e o efeito da grande crise na vida do cristão.
A seguir, a ocupação e a energia do Espírito Santo. Quem está realizando essa obra de renovação — esse ser renovado? Bem, não somos nós que a realizamos, nem para nós mesmos nem para outras pessoas. Outras pessoas não a realizam por nós.
Essa é a ocupação e a energia do Espírito Criador — Aquele que pairou sobre o caos e, do caos, fez surgir a ordem divina. O mesmo Espírito agora está empenhado, com Sua própria energia, em refazer segundo a imagem: renovar. É a atividade do Espírito Santo.
E, em quinto lugar, há a exclusividade e a abrangência de Cristo. Temos aquela última afirmação:
Onde não pode haver.
Esse é o tipo correto de exclusividade, ou exclusivismo. Todo um domínio, sistema, ordem e natureza é excluído: “Não pode haver”. Mas a abrangência se resume a Cristo: “Cristo é tudo e em todos”.
Essa é a análise dessas palavras. Muito simples, mas tão abrangente, tão importante e significativa.
Bem, comecemos a abordar esses pontos um de cada vez: o homem e seu Criador; o Criador e o ser criado.
Talvez seja bom colocar várias outras passagens ao lado desta. Voltando ao início desta mesma carta, Colossenses 1:16:
Porque Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; todas as coisas foram criadas por meio Dele e para Ele. E Ele é antes de todas as coisas, e Nele todas as coisas subsistem. Para que em todas as coisas Ele tenha a preeminência. Por meio Dele reconciliar Consigo mesmo todas as coisas.
O centro e a circunferência de todas as coisas é Cristo, o Criador de todas as coisas. Depois temos as palavras conhecidas de João 1:3:
Todas as coisas foram feitas por meio Dele; e, sem Ele, nada do que foi feito se fez.
João e Paulo estão em perfeita concordância sobre esta questão: Quem deu origem a todas as coisas?
Depois, em Romanos 11:36:
Porque Dele, e por meio Dele, e para Ele são todas as coisas.
E mais uma: 1 Coríntios 8:6:
Todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de Quem são todas as coisas, e nós para Ele; e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de Quem são todas as coisas, e nós por meio Dele.
Bem, isso estabelece o que chamamos de retorno ao Criador e à criação.
Então, naturalmente, para compreender o que significa renovar, ou refazer, ou começar de novo — um processo de recuperação —, temos de contemplar aquela terrível desintegração do homem a quem essas Escrituras se referem.
Sim, a ruptura da vida humana — a ruptura de cada membro da raça humana. Não precisamos argumentar com base nas Escrituras sobre isso, porque a discussão termina imediatamente quando consideramos a nós mesmos e a humanidade tal como a conhecemos.
Talvez estejamos hoje mais conscientes do que nunca dessa ruptura e desintegração na vida humana. Há uma cisão fundamental no homem e na humanidade, e, onde quer que ela se encontre, sempre significa frustração. A frustração é a evidência de uma cisão, de uma divisão na vida humana e na natureza humana.
Vemos isso, naturalmente, desde o início da história registrada na Bíblia, ao longo de todo o seu percurso, até se manifestar de modo pleno em nosso tempo. Há frustração na vida humana — frustração contínua.
Cada novo passo considerado um passo de progresso, de avanço, de desenvolvimento traz consigo sua própria frustração. Não importa quanto se tenha avançado, quanto se tenha desenvolvido, quão extraordinária seja a ampliação do conhecimento e da capacidade de fazer e realizar: a frustração acompanha tudo isso na mesma medida.
Até chegarmos ao ponto de desenvolvimento do mundo a que chegamos em nosso próprio tempo, quando as descobertas, as invenções e o domínio das forças deste universo as colocam a serviço do homem — coisas terríveis e absolutamente espantosas, nas quais vocês nunca, nunca teriam acreditado apenas alguns anos atrás —, e, bem ao lado de tudo isso, está aquilo que o leva à ruína.
Aqueles que mais sabem são os mais aterrorizados com aquilo em que puseram as mãos: possibilidades e potencialidades temíveis, que gostariam de nunca ter descoberto, de nunca ter conhecido.
A frustração caminha de mãos dadas, ao longo da história, com cada novo desenvolvimento e movimento. Ela está presente na vida humana, na criação e no universo como ele é agora.
E o próprio Deus Se empenhou em tornar isso evidente, para que o homem o percebesse.
Por exemplo, a lei, tal como a temos no Antigo Testamento, foi confiada a uma nação escolhida justamente para este propósito: ser a lição concreta de Deus para todas as nações e para todo o mundo.
Paulo põe o dedo sobre todo aquele sistema — sua longa história e sua aplicação minuciosa — e diz que a lei foi dada para mostrar como o homem é impotente.
Se houve algo que o Deus Todo-Poderoso empregou para demonstrar, na prática, a fraqueza do homem, foi a lei de Moisés — a lei de Deus.
E o apóstolo, esse mesmo apóstolo que fez uma declaração tão terrível sobre o efeito da lei — que ela apenas trouxe à luz a fraqueza, a impotência e o desamparo do homem; que nada fez para salvá-lo, mas, antes, para condená-lo —, esse homem escreve um capítulo inteiro nestes termos:
O bem que quero fazer, não faço. E o mal que não quero fazer, esse faço. Miserável homem que sou! Quem me livrará?
Mas como eu soube que aquilo era certo e devia ser feito? Como descobri que aquilo era errado e que eu não devia fazê-lo? A lei me fez conhecer o certo e o errado e me deixou paralisado — completamente incapaz de corresponder a ela, quer para dizer não, quer para dizer sim.
Oh, que miséria! Isso não é frustração? E não é a história chegando até os nossos dias?
Vocês e eu, queridos amigos, vivemos numa época em que não há uma lei, dentre todas essas leis que se multiplicam, capaz de lidar com a natureza humana tal como ela é. O tempo todo, a transgressão da lei é apenas outra maneira de expressar a absoluta incapacidade do homem de corresponder à lei — ou, vamos dizer assim, a absoluta incapacidade da lei de lidar com o homem.
Há essa cisão na natureza humana, essa divisão na personalidade e na constituição do ser humano, que resulta em frustração. Esse é o mundo de hoje, não é? Frustração.
Essa divisão é pessoal, porque acabei de citar Romanos 7:19:
O bem que quero fazer, não faço; e o mal que não quero fazer, esse faço.
Ela também é pessoal — essa divisão, essa cisão em nós.
Ela está no âmbito social. Não preciso me demorar em cada uma dessas áreas. A sociedade — como a sociedade humana é marcada por rupturas; como é instável; como é inquieta.
A competitividade — ah, isso nos causa uma verdadeira náusea, não é? Vejam como, na sociedade, ninguém pode apresentar algo novo, algo diferente, sem que outra pessoa fique de olho e tente fazer algo melhor: “Vou fazer outra coisa”. Ah, quantas faces tem esse conflito na ordem social das pessoas!
Ela está no âmbito econômico. Não estamos aqui para falar de economia; vamos substituir essa palavra por outra: dinheiro. Certamente o amor ao dinheiro é uma raiz de todos os males, mas não é ele a causa de conflito, contenda, rivalidade — de tudo aquilo que fala, de um lado, de cisão e divisão e, de outro, de frustração?
Nunca antes as pessoas deste país tiveram tanto dinheiro. Nunca antes, na história deste país, as pessoas tiveram tanto dinheiro, e nunca houve tanta insatisfação e tanta avidez por mais.
Dia após dia, os jornais estão cheios dessa busca ávida por dinheiro e mais dinheiro. O que isso significa? Não significa descanso, paz e satisfação, de modo algum — mais, e ainda mais.
Como a natureza humana é dividida! Seria de esperar que, tendo tanto, as pessoas estivessem contentes; que a natureza humana sossegasse e dissesse: “Tenho tudo isso; vou me dar por satisfeito”. Mas acontece justamente o contrário.
No âmbito econômico, no âmbito político, há essa cisão que produz frustração e mais frustração. Poderíamos dizer muito sobre a frustração na política, mas não vamos nos deter nisso.
Como já disse, no campo da ciência, por mais longe que o homem vá, à Lua ou aos planetas, há nele algum impulso que o levará sempre mais além. Ele nunca, nunca encontra descanso. Há algo nele que o derrota. Ele tenta, e então chega longe — tão longe —, mas continua sendo um ser inquieto, nunca satisfeito.
E assim poderíamos continuar: frustração no mundo industrial, frustração na vida nacional e frustração nas relações internacionais. Bem, tudo isso é verdade. E por quê?
Voltemos ao ponto em que começamos. Em algum momento, em algum ponto, por alguma razão, a natureza humana sofreu uma ruptura, desintegrou-se e tornou-se cindida — dividida, em conflito, até mesmo no indivíduo. Todos nós temos muitos conflitos dentro de nós.
A Bíblia começa com um quadro muito diferente desse: tudo era bom. O Pai Todo-Poderoso, que é minucioso e perfeito em Suas exigências, absoluto em Seus padrões de satisfação — o Deus infinito —, podia olhar para toda a criação e dizer:
É muito bom. É muito bom.
Já é algo notável se o Senhor pode olhar para uma pequena parte e dizer: “Isso é muito bom”, não é? Vocês e eu ficaríamos muito felizes se houvesse uma pequena coisa em nós sobre a qual Ele pudesse dizer que era muito boa. Mas, olhando para todas as coisas, Ele disse:
É bom. É muito bom.
Esse é o quadro inicial da Bíblia.
Algo aconteceu. Uma força de ruptura atravessou este universo, e daí vem essa frustração.
E qual é a frustração final? A frustração final é a morte. Nada fala mais de frustração do que a morte. Ela diz que nada é perfeito, nada chega à plenitude nesta vida.
Agora estão falando sobre a ciência chegar, talvez em breve, ao ponto de conseguir destruir a morte. Bem, isso será difícil. É difícil imaginar algo assim.
Tudo neste universo está dizendo: “Isso é mentira”. A morte tem um encontro marcado com cada ser mortal, e vocês nunca escaparão desse encontro. Ela vai derrotando vocês ao longo de todo o caminho.
Vocês podem dizer que a ciência prolongará a vida, aumentando o tempo que temos aqui; mas isso nem sempre é uma bênção, sabem? Muitas pessoas hoje gostariam que o Senhor as levasse. Talvez isso não seja verdade para todos vocês de idade muito avançada, mas vocês sabem que prolongar a vida muitas vezes é uma bênção duvidosa.
Lembro-me de ter lido, muitos anos atrás, uma inscrição num relógio de sol no Castelo de Stirling, na Escócia. Dizia assim:
Nossa vida é como um dia de inverno: Alguns apenas tomam o desjejum e se vão; Outros ficam para o almoço e comem até se fartar; O mais velho apenas ceia e vai se deitar. Grande é a dívida de quem prolonga o dia; Quem mais cedo parte tem menos a pagar.
Bem, isso não é sobrevivência; não é Escritura. Não sei quem escreveu. Pode ser uma visão mórbida da vida, mas há alguma verdade nisso.
É possível ter uma vida longa com a bênção do Senhor. Muitos dias de vida não são garantia de felicidade. Eles pensam que podem destruir a morte. Isso significa que serão benfeitores da humanidade? Talvez aconteça exatamente o contrário. Os homens podem desejar ainda mais morrer, por causa das condições em que vivem.
Bem, seja como for, o ponto é que a manifestação final e plena da frustração é a morte.
Quando consideramos tudo isso sobre a cisão e a frustração em todos os âmbitos, a que origem chegamos? Ao próprio homem. É simplesmente o homem, não é? É isso que aconteceu no homem — essa devastação na natureza humana e na vida humana.
De fato, a imagem de Deus foi perdida. O propósito do Criador na criação sofreu frustração. Quando olhamos para a vida humana hoje, vemos que o propósito divino do princípio está sendo frustrado.
Esse é o lado sombrio do nosso assunto. É tão verdadeiro. Precisamos olhar para ele antes de passar para o outro lado.
As Escrituras, embora toquem nesse assunto, voltam nosso olhar para o outro lado:
Está sendo renovado segundo a imagem Daquele que o criou.
Aí está a reintegração, a reunificação, no Criador — em Cristo.
Cristo é tudo. Observem que cada elemento de cisão é abordado aqui — cada elemento de divisão na natureza do homem e, depois, no final do parágrafo, todas as divisões raciais: grego e judeu, circuncisão e incircuncisão, bárbaro, cita, escravo, livre.
Cada elemento desintegrador é excluído. O ser unificado e a unificação de todos começam no indivíduo e, por fim, se manifestam em toda a raça, ao lado da qual não haverá outra raça, porque não se pode ter algo além de tudo. Se chegamos ao tudo, não há mais nada — nada além de tudo.
Como sublinhamos essa expressão em todas essas passagens: tudo, tudo, tudo, tudo. Aquela consumação final: tudo reunificado.
É nesse ponto que começamos a grande consideração positiva do significado de Cristo e do verdadeiro sentido da encarnação: o Filho de Deus tornando-Se homem — feito à semelhança do homem, diz Paulo; Ele próprio homem.
Seu título preferido, escolhido e estimado para Si mesmo era “Filho do Homem”. Filho do Homem. Evidentemente, Ele amava esse título, usando-o constantemente em preferência a todos os outros: Filho do Homem — o Homem representativo.
Sua Pessoa, Sua encarnação, o próprio objetivo de Sua saída da eternidade e entrada na história — o verdadeiro significado e propósito, Sua explicação de Si mesmo como Aquele que veio da glória — encontra-se nesta palavra: homem. Amém.
“Filho do Homem” não é apenas um nome próprio. É um título que expressa um propósito. É um significado, uma explicação, uma definição: Homem, Cristo Jesus.
Esse Filho do Homem é uma unidade em Si mesmo. Não há cisão nessa Pessoa, nessa humanidade. Ele é um — não dois, mas um: uma unidade, uma integração.
Sabem, o Senhor Jesus, durante toda a Sua vida aqui, nunca sofreu por causa da consciência. Não quero dizer que Ele não tivesse consciência; a consciência é um elemento constitutivo de toda a nossa personalidade. Mas Jesus nunca, nem por uma fração de segundo, sofreu por causa da consciência.
Se isso tivesse acontecido, Ele não teria sido uma unidade em Sua personalidade e em Sua natureza, porque a consciência é sempre um elemento de divisão, não é? Ela sugere conflito. Paulo diz que ela acusa ou defende. Seja qual for sua ação, ela fala de algo com que a pessoa em questão precisa lidar.
A consciência! Não sabemos tudo sobre a consciência? É essa consciência que responde por noventa por cento da nossa miséria. Não é verdade? “Ah, minha consciência! Como ela me atormenta!”
Jesus nunca sofreu na consciência — não por muito tempo. Não havia dualidade em Seu pensamento. Era uno. Era uno. Não havia conflito em Sua constituição.
Vejam, se há obediência perfeita — obediência perfeita —, não há lugar para a consciência. Não há lugar para a consciência perturbar uma vida perfeitamente obediente.
E Ele pôde dizer aquilo que nenhum outro membro da raça humana jamais poderia dizer:
Eu faço sempre as coisas que Lhe agradam.
Eu faço sempre.
Que declaração, que afirmação! Num mundo como este, um Homem da criação humana, colocando-Se diante do céu, da terra e do inferno e dizendo:
Eu faço sempre as coisas que Lhe agradam.
Não há cisão. Isso exige obediência perfeita.
Agora nosso tempo acabou. Boa noite.
Vocês começam a perceber, talvez um pouco mais, e com alguma satisfação no coração, por que o apóstolo estava sempre, sempre usando uma pequena expressão — e o que ele queria dizer com ela, o que ela significava para ele, como arrebatava seu coração? É isto: “em Cristo”, “em Cristo”.
Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.
A consciência é redimida nessa questão. A condenação traz consigo, mais do que qualquer outra coisa, frustração. Em Cristo, não há condenação.
E ele usa essa expressão o tempo todo. É realmente interessante: “um homem em Cristo”, “em Cristo”. Posição — posição no âmbito em que toda aquela terrível contradição e todo aquele conflito são interrompidos, e somos colocados numa posição na justiça de Deus, pela fé em Cristo.
A justiça de Deus em Cristo, pela fé. Queira Deus que todos nós possamos apreender isso como uma realidade, porque nunca os santos de Deus foram tão atacados e atormentados pela acusação e pela condenação como neste tempo.
A frustração na vida cristã se deve, em grande parte, à incapacidade de compreender e apreender o que realmente significa estar em Cristo — Naquele em Quem não há consciência atormentando, em Quem não há cisão.
Essa é a posição à qual fomos conduzidos. Tenho mais a dizer sobre isso quando chegarmos à crise.
Ah, a infinita bem-aventurança, se ao menos a compreendêssemos! Todos somos derrotados aqui; todos falhamos aqui — cada um de nós —, deixando de compreender essa bem-aventurança inicial e fundamental de sermos colocados em Cristo, onde, no que diz respeito a Deus e a nós, não há conflito.
Deus não é contra nós. Sim, tantas vezes acreditamos que Ele é, e o diabo nos diz mil vezes por dia: “O Senhor não está a seu favor; Ele está contra você”. Tudo o que ele pode usar como base de argumentação, ele usa para nos colocar sob condenação — novamente a sombra daquela terrível devastação que ele causou na vida humana.
Mas quanta bem-aventurança há em nossa posição, antes mesmo de começar a obra de nos aperfeiçoar! Nossa posição em Cristo: uma nova humanidade, uma humanidade de natureza diferente.
Em Cristo, a humanidade foi regenerada. Em Cristo, foi introduzida nesta criação uma humanidade cujo destino é a conformidade à Sua imagem — sendo renovada, refeita.
Não é de admirar que, com tudo o que Ele tinha a perder, enfrentar e sofrer, prosseguisse tranquilamente em Seu caminho.
Somente naquele dia, naquela hora, naquele momento em que, sendo feito pecado por nós e maldição por nós, Ele tomou sobre Si o lugar desta criação rompida e tão dilacerada — somente então foi perturbado por algum tipo de controvérsia com Seu Pai, ou de Seu Pai com Ele.
Queridos amigos, estou lhes dizendo coisas tremendas, mas, afinal, o que é isso? É, afinal, a simples verdade da nossa posição cristã em Jesus Cristo: não há mais controvérsia entre nós e o céu; não há condenação.
O Criador estabeleceu uma posição e um estado, e voltou para redimir de tudo aquilo que contradiz esse estado.
Vamos parar por aqui. Mas o que eu quero — e disse que tinha um único objetivo, um único pensamento neste momento, em torno do qual tudo isso está sendo reunido — é precisamente este ponto: é o homem que Deus busca.
É o homem que Deus busca — não coisas, não apenas uma ordem, mas o homem. Ele busca a vida humana: para alcançá-la, redimi-la, refazê-la.
É sobre a nossa natureza humana que Ele concentrou Sua atenção. Se eu pudesse continuar, veríamos como isso nos ajuda a compreender Seu modo de lidar conosco — Sua atenção voltada para nós, Seu cuidado para conosco.
Em que Ele tem os olhos fixos? Numa humanidade — num homem, numa vida humana — que seja a expressão Dele mesmo, segundo a Sua imagem.
Fazemos mil perguntas sobre tudo o que Ele está fazendo e por que está fazendo tantas coisas conosco: “Por que Ele me conduz por este caminho?” Mas todas as perguntas encontram resposta nesta única coisa: Ele busca o nosso ser humano, a nossa natureza humana, a nossa humanidade.
Esta criação é verdadeiramente singular — os seres humanos —, e Seu propósito é fazer deles Sua própria expressão.
É por isso que Ele está tratando conosco. Às vezes nos parece que somos os únicos indivíduos em todo o vasto universo. Tudo é tão real, às vezes tão terrível, tão extraordinário. Às vezes parece que Ele nos separou de todos os outros.
Aqui está a resposta, em Colossenses 3:9-11:
Está sendo renovado.
Feito novo, segundo a imagem do Criador.