Olá. Vamos ler novamente as passagens que servem de base à nossa meditação atual.
Ó profundidade das riquezas, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus!
Quão insondáveis são os Seus juízos, e quão inescrutáveis os Seus caminhos!
Romanos 11:33
A mim, que sou menos do que o menor de todos os santos, me foi dada esta graça: anunciar aos gentios as riquezas insondáveis de Cristo.
Efésios 3:8
E, visto que ainda não dissemos tudo o que temos a dizer, por ora, sobre o primeiro contexto — as riquezas, isto é, as riquezas da graça —, vamos examinar apenas uma ou duas passagens relacionadas a isso.
Na carta aos Efésios, em Efésios 1:17:
Para que o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai da glória, vos dê espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento dEle.
Ora, isso vem depois do que encontramos em Efésios 1:7:
Em Quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das nossas transgressões, segundo as riquezas da Sua graça.
A oração do apóstolo, no final desse capítulo, por um espírito de sabedoria e de revelação, diz respeito à compreensão das riquezas da Sua graça.
Efésios 2:7:
Para que, nos séculos vindouros, Ele mostrasse as abundantes riquezas da Sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus.
As abundantes riquezas da Sua graça.
Já consideramos algumas coisas relacionadas a essa graça que constituem suas riquezas. Vimos a natureza da graça. Vimos o amor de Deus pela graça. Contrastamos a graça com a nossa própria vida baseada no mérito.
E vimos que a grande iniciativa da graça divina está na ação livre do Espírito Santo para nos introduzir nessa graça.
Antes de prosseguirmos e examinarmos ainda mais profundamente essa expressão ilimitada e insondável da graça divina, lembremos: assim como a graça é o início de tudo para nós e em nós, também a graça é o fundamento contínuo de tudo, até o fim.
O que é verdadeiro no início é verdadeiro durante toda a vida do filho de Deus. Parece uma contradição, mas não é, dizer que a lei da graça governa toda a vida do povo de Deus.
O que a graça começa, a graça leva adiante, e a graça coroa. Nunca deixaremos o fundamento da graça. À medida que avançarmos, descobriremos cada vez mais como estamos ligados — inteiramente ligados — à graça para tudo o que recebemos de Deus; para tudo o que conhecemos de Deus; para tudo o que podemos ser ou fazer.
Será sempre graça, nada mais. Nunca passaremos dessa graça, desse fundamento, para qualquer outro. Isso parece simples, mas é algo com que nos deparamos todos os dias da nossa vida, ao longo de todo o caminho.
Seremos simplesmente compelidos pelo Espírito Santo a reconhecer isso, a aceitá-lo e a assumir essa posição. Ora, tudo isso é uma questão da graça de Deus. Nunca iremos além disso; nunca avançaremos mais — a não ser pela Sua graça.
Assim, estamos avançando continuamente, avançando de fato, de maneira muito prática, em direção à passagem que acabamos de ler:
Para que, nos séculos vindouros, Ele mostrasse as abundantes riquezas da Sua graça para conosco.
Nos séculos vindouros, as riquezas da graça serão abundantes e manifestadas em nós. E creio que estamos começando a perceber que isso é um fato. Cada vez mais, estamos nos dando conta de que será necessária mais graça, e ainda mais graça.
E, se tivermos alguma dificuldade com isso — se acharmos que é um tanto difícil, e que será cada vez mais difícil, exigindo cada vez mais graça —, coloquemos esta declaração culminante sobre toda a nossa vida:
Nos séculos vindouros, mostrar as abundantes riquezas da Sua graça para conosco.
Portanto, não se pode chegar a esse ponto, em que tudo é tão grandioso, tão completo, perfeito, pleno e definitivo, em um único dia ou em uma única experiência. Toda a vida do povo de Deus é uma peregrinação de graça.
Imagino que vocês saibam — e vale a pena fazer uma pausa aqui para observar isso, para nos lembrarmos disso — que as cartas de Pedro estão fundamentadas nesta única palavra: graça. É uma grande pena que os tradutores não nos tenham dado a tradução correta em todos os casos nas cartas de Pedro.
Ora, Pedro, como vocês também sabem, apresenta a igreja em sua peregrinação. Paulo apresenta a igreja nas regiões celestiais, em grande parte como quem já chegou. Ele a contempla do alto. Pedro a contempla aqui, e diz:
Rogo-vos, como peregrinos e forasteiros.
1 Pedro 2:11
Esse é o ponto de vista de Pedro: a peregrinação da igreja.
E a grande palavra da peregrinação, para Pedro, é a palavra graça. Graça. Ele tem tanto a dizer sobre a graça.
Vocês provavelmente se lembram de que ele diz que, se suportarem com alegria a perseguição, a oposição e os maus-tratos:
Isto é agradável a Deus.
Mas os tradutores colocaram ali a palavra agradável. A palavra verdadeira é graça. A palavra no original é: “Isto é graça”.
A peregrinação inclui perseguição, oposição, deturpação do que dizemos e fazemos, e tantas outras coisas. E, se alguém sabia disso, era Pedro. Se alguém conhecia o significado da graça, era aquele homem que havia negado o seu Senhor de tal maneira que sentia ter pecado além de qualquer possibilidade de perdão.
Se você tivesse feito uma coisa dessas três vezes, de maneira veemente, irada — declarado que não conhecia Jesus Cristo, depois de ter estado com Ele por três anos no contato mais íntimo —, procurando então se poupar e, logo de início, recusando categoricamente a sugestão de que tivesse qualquer ligação com Ele; se você tivesse feito isso, como Pedro fez, creio que seria um bom motivo para acreditar que havia cometido o pecado imperdoável, não acha?
Não é de admirar que ele tenha saído e chorado amargamente. Não é de admirar que o Senhor tivesse em Seus planos fazer uma menção especial a ele, ao chamar os discípulos dispersos depois da Sua cruz:
Ide, dizei a Seus discípulos e a Pedro.
Marcos 16:7
E a Pedro, mencionado pelo nome.
Bem, tudo isso nos é muito familiar. Mas podemos compreender por que a grande palavra de Pedro era graça. Graça, sim. Graça para a peregrinação.
E uma das coisas de que Pedro tanto fala em sua carta são os sofrimentos — os sofrimentos deste tempo presente. E é graça ao longo de todo o caminho. Ah, quanta graça isso exige!
Mas — e isso pertence a uma consideração posterior — é graça que conduz à glória. Graça e glória. O que a graça começa — e todos sabemos que é pela graça que começamos, pela graça de Deus que nos conduz à salvação —, a graça vai aperfeiçoar, levar até o fim e, por último, coroar.
A pedra de remate será trazida com aclamações de:
Graça, graça a ela!
Zacarias 4:7
Ora, quando falamos das riquezas da graça, estamos no domínio do insondável, do inesgotável, e nunca conseguiremos sondar essas profundezas. Mas creio que podemos, por um pouco de tempo, ir um pouco mais fundo nesta noite.
Quero que vocês venham a este primeiro capítulo da carta aos Efésios. Não vou tirar nenhuma conclusão disso; pode ser uma coincidência. Talvez não haja realmente nada aí. Mas vocês sabem que, na simbologia dos números da Bíblia, o número da graça é cinco. Cinco.
E aqui, neste capítulo, temos cinco dessas abundantes riquezas da Sua graça. E, quando digo abundantes, tenho plena certeza de que, ao examiná-las, vocês dirão: “Isso está além de mim. Não consigo compreender. É grande demais”.
No entanto, vocês sabem, podemos contemplar grandes montanhas, mesmo que não consigamos percorrê-las por inteiro. E, às vezes, faz-nos bem contemplá-las.
Mas, graças a Deus, essas não são apenas coisas objetivas que nos são apresentadas aqui. Estamos dentro delas. Estamos dentro delas. Então, vamos examinar essas cinco grandes riquezas da Sua graça.
Tomemos, então, Efésios 1:4:
Assim como Ele nos escolheu nEle antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante Ele, em amor.
Ele nos escolheu nEle antes da fundação do mundo. Vocês entendem isso? Conseguem compreender isso?
Isso é eleição — uma palavra muito problemática na teologia e na doutrina. Mas, neste momento, não estamos interessados em teologia, nem na doutrina cristã em si. O que nos interessa é o valor espiritual, porque estamos falando de riquezas.
Estudei bastante teologia ao longo da vida, mas não posso dizer que tenha extraído dela muita riqueza — muitas riquezas. É poeira seca. E estudar o tema da eleição, assim como o da adoção — ah, como é árido, como é sem vida!
E, no entanto, aqui está ele na Palavra. Está claramente declarado que Ele nos escolheu em Cristo antes da fundação do mundo. Houve uma eleição, naqueles conselhos eternos de Deus, que nos incluiu.
Se hoje estamos em Cristo Jesus, estamos em Cristo Jesus porque fomos escolhidos em Cristo Jesus antes da fundação do mundo.
Bem, vejam, para começar, estamos tratando com um Deus que não está sujeito ao tempo. Aquilo que, do ponto de vista do tempo, estava quatro mil anos à frente já era presente para Deus antes de o tempo começar, porque Ele não está sujeito ao tempo. Tudo o que para nós é futuro é sempre presente para Deus.
E assim, para Ele, de fato, Cristo já estava lá; nós já estávamos lá. De fato, estávamos. E Deus agiu sobre uma base eterna. Isso talvez não seja muito útil ou interessante, mas vamos examinar essa questão.
Vou mudar a palavra. Não gosto dessa palavra eleição, embora ela apareça, em certas formas, no Novo Testamento:
Eleitos segundo a presciência de Deus Pai.
1 Pedro 1:2
Isso é Pedro. E os eleitos são mencionados ali como um corpo.
Mas repito: não gosto muito dessa palavra eleição por causa das associações que ela traz. Então, vou mudá-la e falar de seleção. É a mesma coisa quanto ao significado e ao funcionamento: seleção.
Pois bem, quando chegamos a essa palavra, ela nos ajuda. A nação de Israel foi selecionada dentre todas as nações — selecionada, escolhida, se preferirem, eleita, se preferirem. Mas Deus olhou para todas as nações da terra e selecionou Israel entre elas.
Isso significava que Deus havia rejeitado todas as outras nações porque selecionara essa nação? Significava que Ele os havia selecionado para serem salvos, e que todas as outras nações se perderiam por não terem sido selecionadas?
Bem, vamos entrar nesta sala. Aqui estamos, um pequeno grupo de pessoas. Permitam-me — não tomar o lugar de Deus, mas assumir essa posição apenas para ilustrar o argumento. Quero que algo seja feito. Olho para este grupo.
E, naturalmente, essa situação é hipotética; conheço todos razoavelmente bem. Mas olho para o grupo e digo: “Irmão, quero que você venha para o meu lado nesta coisa que quero que seja feita”. Eu seleciono você. Entendem?
Agora, não tirem conclusões precipitadas, nem você nem os outros. Não julgue que você é mais importante do que todos os outros, que é melhor do que todos os outros, ou que é mais digno disso do que os outros. Isso não é verdade.
E vocês, os demais, não concluam precipitadamente que, por eu não selecionar vocês — qualquer um de vocês, ou todos —, vocês foram rejeitados por mim e não têm lugar algum neste meu plano. Não concluam que têm menos valor do que esse irmão, que são menos dignos por não terem sido selecionados para essa tarefa. Não cheguem a nenhuma conclusão desse tipo.
O Senhor selecionou a nação de Israel e disse: “Escolhi vocês, não porque sejam melhores do que as outras nações — de modo algum porque sejam melhores, nem porque sejam dignos. Mas agi soberanamente e escolhi vocês, ou selecionei vocês, porque tenho um propósito que quero cumprir”.
“Ora, Meu propósito é usar vocês para o bem de todas as outras nações. Todas essas outras nações receberão bênçãos por meio do Meu uso de vocês — da Minha seleção de vocês.”
Vamos à Bíblia. Qual foi a aliança com Abraão, a primeira declaração?
Em ti serão benditas todas as famílias da terra.
Gênesis 12:3
Isso não parece significar que todas as nações foram rejeitadas e destinadas à perdição por não serem a nação selecionada, parece?
Na tua descendência.
“Na tua descendência.”
Aqui está uma grande ilustração na história: José. José era odiado por seus irmãos, mas amado por seu pai. José foi rejeitado por seus irmãos, mas o amor do pai repousava sobre ele.
Ora, por meio de José, o Egito foi salvo da fome e da morte — não apenas os seus irmãos, os filhos de seu pai, mas, por meio de José, a bênção da vida e da salvação chegou à terra do Egito, à nação do Egito.
Um escolhido, um selecionado dentre uma nação, tornou-se uma grande bênção também para outra nação. Eleição — ser escolhido, selecionado — significa simplesmente ser destinado a servir a Deus em um propósito, e não que você deva ser salvo e os outros destinados à perdição.
Vejam a distorção que foi dada a essa palavra — quando seu sentido é tão positivo.
E sabemos, ao longo de toda a história de Israel, que, sempre que Israel se esquecia de Deus e deixava de cumprir a vocação para a qual havia sido chamado, era colocado em uma situação de adversidade quanto ao seu chamado.
Era uma nação para as nações. E então tornou-se um corpo exclusivo, fechado em si mesmo, desprezando as nações, chamando os gentios de cães e não mantendo relações com eles.
“Portanto, nós somos o povo, e somos o único povo. Deus só Se interessa por nós. As nações estão condenadas.” Justificavam a si mesmos com base em seu próprio chamado:
Na tua descendência serão benditas todas as nações da terra.
Gênesis 22:18
E, meu caro amigo, em vez de ser uma bênção, tornaram-se, de fato, uma maldição entre as nações. Deus disse: “Basta. Vocês anularam a própria vocação, o próprio chamado, a própria eleição. Vocês a anulam”.
E Israel, durante esses dois mil anos, tem estado nas trevas exteriores, com muito choro, lamentação e ranger de dentes. É assim, não é? Por quê? Porque, no Filho de Deus, sua vocação em favor do mundo inteiro estava assegurada, e eles rejeitaram a própria vocação quando O rejeitaram.
Isso é história, e esse é o significado da eleição: selecionados, não para serem salvos enquanto todos os outros se perdem, mas para um propósito — a bênção de todos os outros, a salvação de todos os outros que serão salvos.
Agora, vejam, chegamos a Efésios 1:4: a igreja, escolhida nEle antes da fundação do mundo para ser uma bênção — o vaso e instrumento de Deus para ser uma bênção para o mundo inteiro.
Bem, em sua carta aos Gálatas, Paulo fala da igreja como a Jerusalém que é de cima:
A Jerusalém que é de cima, a qual é nossa mãe.
Gálatas 4:26
João, em sua visão, vê a cidade santa, a Nova Jerusalém, descendo do alto, do céu, da parte de Deus. Paulo a viu lá: a Nova Jerusalém, nossa mãe. João a vê descendo: a Nova Jerusalém que é de cima, nossa mãe.
E ele prossegue, dizendo:
As nações andarão à sua luz.
Apocalipse 21:24
As nações andarão à sua luz. Portanto, há nações além dessa nação selecionada. E essa nação selecionada — Pedro, novamente, diz:
Vós sois raça eleita.
1 Pedro 2:9
Essa nação selecionada, a igreja, foi selecionada para ser luz para as nações nos séculos vindouros.
As nações andarão à sua luz.
Essa é, como eu a entendo, a verdadeira doutrina da eleição.
Ora, você e eu, em Cristo, como parte dessa nação, dessa Jerusalém que é de cima, dessa cidade celestial — você e eu fomos chamados e escolhidos em Cristo para formar esse corpo, simbolizado como uma cidade, a fim de difundir a luz da graça nos séculos vindouros às nações redimidas.
Elas verão a manifestação plena da graça de Deus, as abundantes riquezas da Sua graça para conosco.
Agora, queridos amigos, ao dizer essas coisas, sinto a todo momento que preciso retomar o fôlego. Sei muito bem que estou me envolvendo em algo que será uma prova muito real — um terreno muito profundo e que nos põe à prova.
E digo isto: por causa da grandeza dessa vocação, que é manifestar as abundantes riquezas da Sua graça não apenas aos anjos, mas às nações — às nações redimidas — nos séculos vindouros, por causa disso, você e eu temos de aprender o significado da graça pela experiência.
Se ela há de ser manifestada em sua plenitude, ah, como você e eu seremos levados a conhecer a necessidade da graça, a grandeza da graça! Tudo é graça.
Não explicaria isso a ardente provação de que Pedro fala em conexão com a graça?
Não estranheis a ardente provação que surge entre vós para vos provar, como se alguma coisa estranha vos acontecesse.
1 Pedro 4:12
Ainda que agora, por um pouco de tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações.
1 Pedro 1:6
Por quê? Bem, ele simplesmente diz que a graça — a grande graça — deve ser conhecida e manifestada. Que graça! Quão profunda é essa graça!
Se isso é verdade — não uma imaginação, não uma bela ideia —, mas se pudéssemos ver, com João, as nações redimidas da terra andando à luz daquilo que Deus fez em nós, recebendo sua bênção por meio da igreja; se pudéssemos apenas ver isso, então clamaríamos e diríamos: “Insondável! Ó profundidade das riquezas!”
Quão grande é a graça, para que, nos séculos vindouros — sim, nos séculos vindouros —, Ele manifeste as abundantes riquezas da Sua graça em Sua bondade para conosco.
E dediquei muito tempo a apenas uma dessas cinco riquezas da graça, mas é necessário muito mais, não é, para explorar esse único domínio?
Talvez eu possa considerar outra nesta noite, e, se não avançarmos mais, isso não importa por enquanto. Vamos ao versículo seguinte, Efésios 1:5:
Tendo-nos predestinado para a adoção como filhos, por meio de Jesus Cristo, para Si mesmo, segundo o beneplácito da Sua vontade.
Tendo-nos predestinado para a adoção como filhos, para Si mesmo, por meio de Jesus Cristo. Há muita coisa aqui que precisa ser desdobrada, mas vou me contentar com esta expressão, esta parte do todo:
Para a adoção como filhos.
Seleção. Adoção. O que isso significa?
Paulo tem mais a dizer sobre isso em sua carta aos Romanos, no capítulo 8, em que define a filiação. Ele diz:
Os que são guiados pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus.
Romanos 8:14
Se alguém não tem o Espírito de Cristo, esse tal não é dEle.
Romanos 8:9
E ele explica que é pelo Espírito que nos tornamos filhos de Deus. Agora, aqui, ele volta ao princípio:
Tendo-nos predestinado para a adoção.
E um dos significados da adoção é certamente este: alguém que é adotado não tem sua filiação fundamentada na natureza; essa pessoa é trazida de fora.
Esta carta aos Efésios, como vocês sabem, foi escrita quase inteiramente, se não inteiramente, a gentios — pessoas trazidas de fora, chamadas de estrangeiras pelos judeus.
Mas isso remonta a muito antes de Israel ser um povo — antes de Israel existir. Pois ser trazido de fora e feito filho significa que você não é filho por natureza. Vocês não são filhos de Deus, de modo algum, por motivos naturais.
Isso elimina toda a teoria de que todos, pelo nascimento natural, são filhos de Deus. Não é verdade. Não, não é verdade.
Os filhos de Deus são trazidos para a família sobre uma base que não é natural. Não são filhos por nascimento natural; são filhos adotados. A igreja é um corpo constituído por adoção. Não pertencemos à igreja por natureza.
Ora, isso tem sido uma controvérsia, tanto no âmbito natural quanto no religioso, há centenas de anos.
No âmbito natural, científico, uma controvérsia se prolongou por trezentos anos sobre a questão da vida — a origem da vida. Um dos lados da discussão, representado por cientistas intelectualmente muito qualificados, argumentava e tentava provar que a vida é espontânea. Ela está ali naturalmente; simplesmente surge por si mesma.
E escreveram livros extraordinariamente eruditos sobre isso, debateram e realizaram suas conferências. A vida simplesmente está ali e surge por si mesma.
O outro lado assumiu esta posição: “Não, de modo algum. A vida só pode vir da vida. Ela não vem do nada. Só pode vir da vida”.
E, se a vida surge, se a vida passa a existir, ao investigar sua origem, você chegará a algum organismo vivo. Vejam toda essa ciência dos microrganismos: o próprio ar, a própria poeira do ar, está impregnada de algum organismo, minúsculo — minúsculo demais para ser visto a olho nu.
Mas submetam isso a determinados testes em um tubo de ensaio, e verão, descobrirão, que há ali um organismo vivo. A vida sempre procede da vida. Ela não vem do nada; vem da vida.
Bem, no fim, naturalmente, o segundo lado venceu. O grande Pasteur provou isso. Ele derrubou toda a argumentação. A teoria da vida espontânea está morta; foi eliminada.
Ele realizou toda a comprovação experimental. Se vocês submeterem uma substância a calor ou frio suficientes, levados ao extremo — tão intensos, além das temperaturas normais —, nunca conseguirão produzir vida a partir daquele material.
Ora, esse mesmo tipo de discussão e controvérsia tem ocorrido há centenas de anos no mundo religioso. Um grupo muito grande de pessoas, de teólogos, dirá: “Somos filhos de Deus pelo nascimento natural”.
O humanismo está construído sobre isso — a bondade humana, a bondade natural. E basta desenvolver a bondade natural nas pessoas e, mais tarde, depois de alguns milhões de anos, mas enfim, elas se tornam Deus. A deificação da humanidade estaria na própria natureza do homem.
Como essa teoria consegue se sustentar diante da experiência de duas guerras mundiais, eu não sei. Descobrimos o que realmente há no homem e o que ele pode fazer quando foi desenvolvido ao mais alto nível de educação e civilização.
Sabemos o que o homem pode fazer ao homem, e o que está fazendo hoje. Como se pode falar de uma filiação divina natural, inerente ao homem, sem qualquer intervenção ou operação especial?
Bem, o outro lado vai à Bíblia, à Palavra de Deus, e diz: “Somente dAquele que tem vida pode proceder a vida”. A vida — a vida eterna — jamais pode existir a menos que venha de uma fonte viva.
É preciso que haja vida, vida eterna, em algum lugar, antes que você possa tê-la. Ela deve proceder dessa fonte. Não vem daquilo que está morto.
A simples pergunta do anjo, na manhã da ressurreição, tem um significado profundo:
Por que buscais o Vivente entre os mortos?
Lucas 24:5
Isso é incongruente, contraditório; são dois mundos distintos. Não há nada de vida onde há morte.
Por que vocês procuram vida entre os mortos? Só se pode buscar vida onde há uma fonte viva. Vida eterna:
NEle estava a vida.
João 1:4
Agora, vejam, a filiação — ah, não, não somos filhos de Deus pelo nascimento natural. É por adoção, sendo trazidos de fora e recebendo vida — não a possuímos por nós mesmos.
Naturalmente, vocês não precisam de um argumento desses, precisam? Mas talvez nos seja útil reconhecer que somos tirados de uma condição em que nada temos, no que diz respeito a um relacionamento com Deus, e recebemos aquilo que nos torna filhos de Deus — algo que não temos e não podemos ter, a não ser por adoção.
Sei que há outros significados mais amplos de adoção, mas este é o seu significado básico: ser trazido de fora e feito membro de uma família à qual não pertencemos por natureza.
Somente pelo novo nascimento somos adotados e acolhidos. Que coisa maravilhosa! Isso é a graça de Deus.
Mas agora, em Cristo Jesus, vós, que antes estáveis longe, fostes aproximados pelo sangue de Cristo.
Efésios 2:13
Aqueles que não eram filhos por natureza agora são feitos filhos. E parte da nossa terrível condição está representada nessa palavra, não, e na expressão estáveis longe. Só Deus sabe o grande abismo que, por natureza, existia entre nós e Ele e Sua família.
Há um abismo terrível. É necessária uma grande graça, e precisamos ser conduzidos através desse abismo. E é isso que a graça de Deus faz. A ponte está em Cristo Jesus.
Nossa adoção está em Cristo, assim como nossa eleição está em Cristo. Ele é a ponte que alcança o nosso lado, nos conduz em segurança até o outro lado e nos acolhe.
Quão insondáveis são os Seus juízos!
Ó profundidade das riquezas — as riquezas da Sua graça! Estamos, de fato, em águas profundas. Só podemos nos maravilhar e adorar, se isso é verdade, se é isso que a Palavra de Deus ensina.
Creio que ela realmente ensina isso. Sendo assim, que maravilhas, mistérios e riquezas da graça se encontram em Sua bondade para conosco.
Bondade para conosco, que antes estávamos longe, mas que, por Sua bondade, fomos aproximados — em outras palavras, por Sua graça.
Creio que devemos parar por aqui nesta noite, para não sobrecarregar vocês, e deixar essas outras três coisas para outra ocasião. Que o Senhor nos capacite. Nós O louvamos.