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    Ministry Of The Church #1 © 2026 Christian Testimony Ministry
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    Ministry Of The Church #1
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    Austin-Sparks, T.

    O ministério da igreja em 2 Coríntios

    A ideia central do que vamos estudar neste momento está na Segunda Carta aos Coríntios.

    Em 2 Coríntios 4:1:

    Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos.

    O ministério da igreja

    Esta Segunda Carta aos Coríntios trata inteiramente do ministério da igreja. Vocês notam que o apóstolo fala no plural. Ele não está falando apenas de si mesmo, de Timóteo e de outros cooperadores separados para o evangelho; como veremos, ele se refere a si mesmo e aos crentes aos quais está se dirigindo.

    Isso fica muito claro em diversas passagens: o que ele tem em mente é o ministério do povo do Senhor — o ministério da igreja, que nada mais é do que o conjunto de todas as pessoas do povo de Deus que nasceram de novo e nas quais habita o Espírito Santo.

    É isso que ele diz em 2 Coríntios 1:21:

    O que nos ungiu é Deus.

    Ele nos ungiu juntamente com vocês. Trata-se da unção da igreja para o serviço do Senhor, e é disso que vamos nos ocupar. Teremos de ressaltar esse ponto à medida que avançarmos.

    Permitam-me dizer algo a respeito desta carta em particular: recentemente, o Senhor tem me conduzido novamente a ela, com uma profundidade maior do que nunca. É o documento mais rico e valioso do Novo Testamento sobre o serviço a Deus.

    Creio que não há outro livro tão rico em conteúdo sobre esse assunto: o serviço do povo de Deus. Provavelmente, antes de terminarmos, vocês concordarão com isso, caso ainda não o reconheçam.

    Paulo como expressão do serviço da igreja

    Esta carta é o testemunho do maior servo de Cristo sobre o que o serviço do Senhor significa e sobre o que significou em sua própria vida. Ele representava a igreja em todos os aspectos.

    Ele não via a igreja apenas de maneira intelectual e doutrinária. A igreja estava expressa nele, em seu próprio ser, em sua própria vida. A verdade da igreja não apenas entrou nele; também brotou dele. Ela procedia de sua própria história interior com Deus.

    Em um sentido muito real, ele era a personificação da igreja e da verdade da igreja. Portanto, se a igreja é o instrumento pelo qual Cristo ministra nesta dispensação, ao mundo e no mundo, o apóstolo Paulo personifica, de maneira muito plena e profunda, o princípio do serviço.

    Mais adiante nesta carta, ele falará de sermos cooperadores de Deus. Se houve um homem que foi cooperador de Deus, esse homem foi Paulo.

    Mas, vejam, a questão é que não se tratava apenas de Paulo, o servo de Jesus Cristo, considerado como um indivíduo isolado. Tratava-se de Paulo como alguém que abrangia todo o significado do serviço da igreja.

    Sabemos e compreendemos que, quando vemos o Senhor Jesus — quando realmente O vemos —, vemos Deus. Vemos como Deus é. Chegamos ao conhecimento e à compreensão de Deus em Cristo; isso também aparece na carta, como veremos.

    Mas, quando vemos Seu maior servo, vemos o que significa o serviço a Deus. Passamos a compreender o que realmente é o ministério da igreja.

    É por isso que eu disse que esta carta é, de maneira singular, o testemunho desse grande servo — talvez o maior — do Senhor Jesus. Ou seja, ela não foi nem é um tratado. Não é uma argumentação doutrinária.

    Há muito pouca doutrina nesta carta em sentido sistemático ou técnico. Há uma enorme quantidade de doutrina, mas ela não recebe esse nome; não é apresentada como doutrina. Tudo é experiência.

    Sua intenção não era ser uma carta, uma epístola ou um documento que expusesse a doutrina de Cristo e do cristianismo. Era o derramar do coração de um homem, a partir de sua experiência como servo de Deus, ao povo do Senhor, com a intenção de mostrar a esse povo o que realmente é o serviço do Senhor.

    Vejam, essa é a natureza desta carta. Ela não é, de modo algum, um tratado sobre algum tema do evangelho. Quase não trata de doutrina nesse sentido. É inteiramente prática, do começo ao fim.

    Desde as primeiras palavras — e vocês verão isso daqui a pouco — até o final, ela é tão prática que, se a acompanharmos atentamente, até partes de uma frase nos desafiam. Somos confrontados com questões práticas a respeito do significado de existirmos para Cristo neste mundo.

    O que significa estarmos aqui nesta terra, sendo pessoas que pertencem ao Senhor Jesus? Digo que somos desafiados por essa pergunta do começo ao fim. Esta carta é assim tão prática.

    O caráter autobiográfico da carta

    Agora, antes de prosseguirmos no estudo da carta, precisamos fazer outra observação. Vocês descobrirão que esta carta é provavelmente — sim, não provavelmente, mas de fato — mais autobiográfica do que qualquer outra carta escrita por Paulo.

    Há muita autobiografia na Carta aos Gálatas, mas nem a metade do que há nesta carta. O homem fala de suas próprias experiências o tempo todo, seja de maneira explícita, seja de maneira implícita.

    Há inúmeras coisas aqui que, se soubéssemos identificá-las, veríamos que estão relacionadas ao que aconteceu com o apóstolo Paulo. Em primeiro lugar, muitas são mencionadas como tais; muitas outras não são apresentadas exatamente dessa forma, mas, quando estudamos com atenção, fica muito claro que estão relacionadas à sua própria experiência.

    Assim, desde a primeira metade de uma frase até o fim da carta, falando a partir de sua própria experiência como servo do Senhor, ele nos mostra o caminho do serviço: o que podemos esperar e o que o serviço realmente é.

    Digo que ele fala do fundo de seu próprio coração — daquilo que ele mesmo não apenas havia vivido, mas ainda estava vivendo.

    O apostolado de Paulo pela vontade de Deus

    Isso fica claro se vocês acompanharem a carta com tempo suficiente e com a devida tranquilidade. Algumas das primeiras palavras da carta são uma amostra do que estou dizendo a respeito dela como um todo. Vejam-nas novamente, em 2 Coríntios 1:1:

    Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus, e o irmão Timóteo, à igreja de Deus, que está em Corinto, com todos os santos que estão em toda a Acaia.

    Vocês poderiam dizer: “Bem, essa é a maneira como ele introduz sua carta”. Ele sempre escrevia uma introdução às suas cartas — nem sempre da mesma forma —, mas esta é a introdução para esta ocasião específica, para esta carta. Assim, ele simplesmente começa com esse tipo de preâmbulo.

    Bem, é isso, mas é muito mais do que isso — muito mais. Precisamos examinar esse preâmbulo, como podemos chamá-lo, porque há duas implicações aqui que são, de fato, a introdução à carta inteira.

    Toda a carta está implícita nessas duas coisas. Há aqui uma dupla implicação, em 2 Coríntios 1:1:

    Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus.

    Agora, vocês, coríntios, entenderam? Ouçam isso. Prestem atenção. Vocês, coríntios, têm dito — é isso que encontramos —: “Esse homem não é um verdadeiro apóstolo. Ele nunca viu Jesus Cristo pessoalmente”.

    “Ele é um falso apóstolo, fazendo afirmações a respeito de si mesmo que não podem ser comprovadas. Nunca viu Jesus na carne. Não foi um dos doze escolhidos pelo Senhor Jesus. Entrou no apostolado pela porta dos fundos.”

    Ah, esses coríntios haviam dito coisas ainda piores a respeito dele. Vocês verão uma delas daqui a pouco: “Paulo? Não, ele não é um verdadeiro apóstolo. Jesus nunca chamou Paulo quando estava na carne. Conhecemos Pedro, conhecemos João e conhecemos os outros. Jesus os chamou e disse: ‘Segue-Me’. Paulo nunca foi um deles”.

    Mas nós conhecemos o restante da história, não é? Sabemos como o Senhor o encontrou, e como ele encontrou o Senhor, no caminho de Damasco. Mas esses judaizantes, que haviam se infiltrado em Corinto, tentaram desacreditar esse homem de todas as maneiras possíveis e haviam conquistado um grupo grande e influente em Corinto, que aceitava Pedro, aceitava Apolo, mas não aceitava Paulo.

    Em 2 Coríntios 1:1:

    Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, pela vontade de Deus.

    Sabem, isso talvez não os ajude muito no que diz respeito ao apóstolo Paulo, mas, como princípio, é uma força tremenda sabermos em nosso próprio coração, com verdadeira segurança, que estamos onde estamos pela vontade de Deus.

    Aquilo em que estamos envolvidos é pela vontade de Deus. Nossa posição decorre da vontade de Deus. O lugar onde moramos é a vontade de Deus para nós, pelo menos neste momento. O lugar onde nos reunimos com o povo do Senhor é a vontade de Deus para nós.

    Sabemos que aquilo que fazemos nesta vida é a vontade de Deus para nós. Sabem, isso é uma força tremenda. Esse homem não poderia ter passado por tudo o que teve de enfrentar — não apenas em Corinto, mas em toda parte — se não tivesse, no íntimo do coração, a segurança, a confiança e a certeza de que aquilo que ele era e aquilo que fazia não eram fruto de sua própria escolha, mas da vontade de Deus.

    Uma força tremenda, não é? Essa era a força desse homem. À medida que prosseguirmos, veremos como isso foi confirmado. Sim, era realmente Deus. Não temos dificuldade alguma em reconhecer a vontade de Deus na vida de Paulo.

    Mas aqui, vejam, ele enfrenta o desafio logo no início da carta — o desafio que terá de enfrentar ao longo de toda ela — e responde com base neste fundamento: “Estou onde estou com a certeza de que isso é obra de Deus. Sou o que sou porque Deus me fez assim. É Deus Quem sustenta minha vida e meu ministério”.

    Agora, essa é a primeira coisa a respeito de sermos cooperadores de Deus — a respeito do serviço do povo do Senhor. Se estamos onde estamos porque sabemos que essa é a vontade de Deus, temos uma grande força para o testemunho e para a vida onde estamos.

    A comunhão como princípio essencial do ministério

    Eles haviam dito o contrário. Essa é a afirmação dele, que, ao longo de muitos séculos, tem sido comprovada como verdadeira. Mas eles também haviam dito: “Esse homem é um autocrata. Ele é uma lei para si mesmo. Está procurando fazer um nome para si. Está reunindo pessoas ao seu redor para ser o senhor delas. Esse homem tem uma natureza e uma disposição independentes”.

    Qual é a resposta dele? Qual é? Ele aponta para estas palavras de 2 Coríntios 1:1:

    E o irmão Timóteo; com todos os santos que estão em toda a Acaia.

    Não, não, não sou uma unidade isolada. Não sou um membro independente. Não estou simplesmente procurando um nome para mim, um grupo de seguidores para mim. Timóteo — perguntem a Timóteo. Todos os santos da Acaia — perguntem a eles.

    Aqui está outro princípio do ministério, introduzido desde o início. Lembrem-se: do começo ao fim, esta carta é a carta do ministério, do serviço, da obra do Senhor. Tudo aqui é um princípio desse serviço.

    Vocês não podem — não podem — servir ao Senhor em isolamento, desligados dos outros, em independência. Vocês precisam fazer parte do Corpo de Cristo, a igreja. Precisam trabalhar em comunhão com o povo do Senhor. Não devem viver separados, sendo uma lei para si mesmos.

    Esse princípio da comunhão é essencial para um testemunho eficaz. É por isso que o inimigo se preocupa tanto em nos isolar, dividir, separar e fragmentar, ou em nos fazer fugir e nos isolarmos. Essa pressão está sempre sobre nós.

    Talvez mais de uma vez vocês tenham se sentido como o salmista, em Salmos 55:6:

    Ah! Quem me dera asas como de pomba! Voaria e estaria em descanso.

    Estariam mesmo? Não estariam.

    Se vocês realmente se tornaram parte orgânica do Corpo de Cristo, também desejariam voar de volta. Perguntem a qualquer um daqueles servos de Deus que, por circunstâncias adversas, foram afastados, se o anseio mais profundo de seu coração não é ser trazido de volta à comunhão, que agora significa mais para eles do que jamais significou quando a desfrutavam.

    Há algo nesse vínculo que é vital para o nosso testemunho, para o nosso ministério: vínculo — vínculo de coração.

    “Paulo, apóstolo de Jesus Cristo, e Timóteo, e todos os santos.” Isso é uma resposta, vejam. Havia sido feita contra ele a acusação de ser autocrático, de dominar pessoalmente os outros e de ter uma concepção individualista. Bem, naturalmente, era mentira. Nós sabemos disso.

    Mas, sabem, naquele tempo tudo ainda estava no início. As atividades do maligno e de pessoas más — especialmente desses que perseguiam o apóstolo por toda parte — eram muito reais. O servo de Deus não era insensível a essas coisas.

    Ele não procurou defender a si mesmo. Sentiu que lhe cabia dizer, com muita ênfase, que a verdade era exatamente o contrário dessas acusações.

    Agora, vejam, vocês ainda nem entraram na carta. Chegaram apenas às duas primeiras afirmações daquilo que chamam de introdução, mas essa é a chave para compreender a carta inteira.

    O sofrimento e a consolação no serviço

    Agora, vejam, voltaremos a isso repetidas vezes, de maneiras diferentes, mas tudo isso é o que podemos esperar se estivermos realmente comprometidos com essa tremenda tarefa de sermos cooperadores de Deus.

    Paulo sofreu de maneira muito aguda com acusações cruéis, especialmente em Corinto — sofreu intensamente. Nesse ponto, entramos na carta.

    Neste primeiro capítulo, conforme a divisão que temos — embora ele realmente não devesse ser isolado —, quais são as palavras predominantes? Sofrimentos e consolação. Sublinhem quantas vezes aparecem: sofrimento, sofrimento, sofrimento; e consolação, e consolação.

    Vocês poderiam dizer, com toda a razão, que esse é o assunto. É isso que está, de fato, em primeiro plano em sua mente: sofrimentos e consolação.

    A primeira coisa que encontramos nesta carta sobre o ministério do povo de Deus é que o serviço do Senhor tem suas raízes no sofrimento e é aprofundado por ele.

    Ele diz aqui, em 2 Coríntios 1:4:

    Toda a nossa tribulação.

    E, em 2 Coríntios 1:5:

    As aflições de Cristo são abundantes em nós.

    Esses sofrimentos são abundantes em nossa experiência.

    Queridos amigos, se ainda não resolvemos essa questão, mais cedo ou mais tarde teremos de resolvê-la e encontrar graça para vencer nossa murmuração e nossas queixas a respeito dos sofrimentos que enfrentamos como cristãos.

    Leva muito tempo para fazer isso. O que teremos de resolver logo no início desse assunto — e é por isso que está no começo da carta — é que as aflições são inevitáveis se quisermos ter algum valor para o Senhor.

    Se o Senhor vai obter alguma coisa por nosso intermédio, ou de nós, esse é o significado do serviço e do ministério. Não pensem na palavra ministério como algo oficial. Excluam isso por completo. Não pensem em um pastor, “o ministro”, uma classe ministerial ou uma profissão.

    Essa linguagem, essa maneira de falar que se introduziu no serviço de Deus, é tão falsa e enganosa quando as pessoas dizem: “Vou entrar no ministério”.

    Lembro-me de um homem que havia servido muito no ministério — continuamente, aqui, ali e em toda parte — e que, creio eu, havia sido usado pelo Senhor. Acho que ele estava nessa atividade havia uns trinta anos.

    Um dia, eu caminhava durante uma Convenção de Keswick e o encontrei. Ele estava usando um colarinho clerical. Eu nunca o tinha visto assim, e ele percebeu que levantei as sobrancelhas. Disse: “Veja, irmão, entrei no ministério”.

    Bem, isso dá vontade de vomitar. É horrível. Não estou falando desse tipo de coisa.

    Estou falando daquilo que o Senhor obtém de nossas vidas. Esse é o nosso ministério. Isso é ser cooperador de Deus: aquilo que o Rei está recebendo.

    Permitam-me dizer novamente, com a autoridade não apenas de tantos testemunhos e de tanta experiência, mas desse homem representativo — a autoridade de toda a sua vida: se tivermos algum valor para o Senhor, haverá sofrimento. Não se enganem a esse respeito.

    Se vocês e eu procurarmos evitá-lo, fugir dele, recusá-lo ou nos rebelarmos contra ele, estaremos cortando a própria artéria do nosso serviço espiritual.

    Ainda não chegamos ao ponto a que esse homem chegou, e não estou dizendo que eu tenha chegado — não pensem isso nem por um instante. Mas confio que estamos caminhando nessa direção.

    No final, depois de tudo o que está nesta Segunda Carta aos Coríntios — ah, e quanta coisa há quando vocês a leem considerando esse assunto, o sofrimento, e tudo o que entrou na vida desse homem —, no final de tudo, quando está na prisão e o machado do carrasco o aguarda, ele diz, em Filipenses 3:10:

    Para conhecê-Lo, e à comunhão de Seus sofrimentos.

    Depois de tudo! Portanto, ainda não chegamos lá. Mas por que ele podia dizer isso? Mais uma vez: conhecer “a comunhão de Seus sofrimentos”? Porque havia aprendido que todos os valores vinham por esse caminho.

    Todos os valores que possuía, tudo o que havia passado a enxergar, sua vocação em Cristo para o tempo e para a eternidade, tudo lhe havia vindo por meio da participação nos sofrimentos de Cristo.

    Talvez recuemos até mesmo diante da ideia de dizer coisas assim, mas o que estou dizendo é isto, queridos amigos: isso explica muita coisa, não é? Explica muitas experiências.

    Mas a questão, por enquanto, é que, para termos qualquer valor para o Senhor, as aflições são inevitáveis. Sem que as convidemos, elas virão. Sem que nos coloquemos em seu caminho, estaremos ali, participando das aflições de Cristo, como o apóstolo as chama aqui.

    A graça diante da fraqueza humana

    Essas coisas causaram sofrimentos tão agudos ao apóstolo. Eram dirigidas contra ele não para derrubá-lo de alguma posição elevada reconhecida — pois eles não reconheciam nele nenhuma posição elevada; muito pelo contrário —, mas eram lançadas contra ele com a intenção de mostrar como ele era um homem insignificante.

    Estavam tentando fazê-lo parecer um homenzinho miserável e desprezível. Guardem isso por um momento. Ele teria concordado plenamente com eles nesse ponto e, repetidas vezes, disse algo nesse sentido.

    Um dos sofrimentos será que as pessoas descobrirão nossas falhas e farão muito alarde delas — de nossas imperfeições. Vocês sabem, queridos amigos, que nunca houve um servo frutífero do Senhor que não tivesse falhas?

    Abraão tinha suas falhas. Vocês ficam admirados de que um homem tão grande pudesse ter suas falhas registradas no relato eterno. Ainda assim, ele foi usado por Deus na obra de Deus e no serviço de Deus.

    Ele fez a mesma coisa duas vezes: mentiu para salvar a própria pele. Vocês pensariam que, depois da primeira vez e do que sofreu por causa disso, ele nunca mais faria aquilo; mas ele foi e fez de novo. Esse é Abraão. Está nas Escrituras. A Bíblia não foi escrita para encobrir essas coisas.

    Moisés — ele não tinha falhas? Coisas grandes e sublimes são ditas a seu respeito: Moisés, o servo do Senhor. Mas poderíamos nos deter, não é, e apontar as falhas — falhas graves e evidentes — de Moisés.

    Uma falha decisiva o privou do grande desejo de sua vida: atravessar para entrar na terra. O Senhor disse, em Deuteronômio 3:26:

    Não Me fales mais neste negócio.

    Moisés. Davi — ah, querido Davi. Não é uma história agradável, não é, a das falhas de Davi? Isaías, um profeta maravilhoso — sim, um profeta maravilhoso, maravilhosamente usado, um príncipe entre os profetas —, clamando em Isaías 6:5:

    Ai de mim! Que vou perecendo; porque eu sou um homem de lábios impuros.

    Então vocês saem do Antigo Testamento e entram no Novo. E aqueles pobres discípulos? Poderíamos passar muito tempo nos detendo em suas falhas, e elas estão registradas.

    Aqui estão os principais servos do Senhor ao longo dos séculos — homens com falhas. Nunca pensem, ou melhor, nunca deveríamos pensar, que qualquer um deles fosse infalível — nem mesmo o apóstolo Paulo.

    Essas pessoas, vejam, se agarraram àquelas falhas para fazer delas a base para desacreditar completamente o homem.

    Mas há consolação nisso. Onde encontramos conforto aqui? O Senhor, como diz Martinho Lutero, sabe muito mais a respeito de nossas falhas do que o diabo. Ele nos conhece. Já nos conhecia antes de nos chamar — sabia tudo a nosso respeito — e continua sabendo tudo a nosso respeito.

    Sim, todas as nossas falhas que as outras pessoas nem sequer veem; e Ele conhece todas aquelas que elas veem e das quais fazem tanto alarde. Isso não nos tira necessariamente daquela maravilhosa posição de sermos cooperadores de Deus.

    Não tirou nenhum daqueles que mencionei. Eles eram assim, mas Deus! À medida que avançarmos nesta carta, veremos mais precisamente sobre isso.

    Essas pessoas queriam fazer das falhas desse querido homem a base para que ele próprio ficasse completamente desanimado e se desesperasse por causa do que era em si mesmo, e também para desacreditá-lo diante de todos os outros.

    E ninguém sabia melhor do que Paulo o quanto ele era falho. Para Paulo, era motivo de contínua admiração e espanto que o Senhor alguma vez tivesse olhado em sua direção para fazê-lo Seu servo.

    Ele disse, em 1 Timóteo 1:13:

    A mim, que dantes fui blasfemo, e perseguidor, e injuriador.

    O Senhor olhou para alguém assim e fez dele Seu servo.

    Assim, a maravilha da graça e da misericórdia de Deus ao nos permitir — não, mais do que isso, ao agir para nos trazer à comunhão Consigo mesmo em Seu serviço — significa que ninguém precisa desanimar por causa de suas falhas.

    Agora, vejam, eu disse que somos desafiados ao longo de todo o caminho. Mais uma vez, a batalha para sermos úteis ao Senhor se trava neste aspecto particular: somos levados a tomar consciência de nossas falhas — temos essa consciência e somos levados a tê-la ao longo de todo o caminho.

    Quanto mais procurarmos ser úteis ao Senhor, quanto mais comprometidos com o Senhor estivermos, quanto mais inteiramente entregues aos Seus interesses, tanto mais encontraremos em nós mesmos motivos para desânimo.

    Sim, mais perto chegaremos do desespero completo e definitivo se olharmos para nós mesmos.

    Quando começamos, naturalmente, no serviço do Senhor, bem, não sei o que pensávamos a respeito de nós mesmos. Eu me lembro — faz sessenta anos que comecei a pregar —, e eu pregava com muita ousadia e vigor.

    Quando penso nisso agora, não creio que tivesse muita consciência de como eu era um pobre exemplar. Eu me alegrava na obra do Senhor, naturalmente, e assim por diante; mas não me preocupava muito comigo mesmo.

    Mas, depois de todo esse tempo, digo a vocês, queridos amigos: neste exato dia, eu poderia muito facilmente desistir por causa da consciência — da própria consciência — da falta de valor deste vaso.

    Bem, em princípio, era assim com Paulo. Ele não tinha nenhum argumento contra esse tipo de acusação: “Ah, você não presta. Você não presta. Você é mesmo um sujeito muito fraco, sem valor. Veja isto e aquilo que fez. Isso mostra que tipo de homem você realmente é por dentro”.

    Ele não se defende nesse terreno. O que ele diz é o que encontramos em Romanos 7:18:

    Em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum.

    Vocês têm toda a razão — e têm mais razão do que imaginam. Se soubessem toda a verdade, teriam muito mais a dizer contra mim.

    Mas Paulo é servo de Jesus Cristo pela vontade de Deus. A vontade de Deus transcende tudo isso, porque a vontade de Deus é a vontade de infinita graça, de infinita misericórdia.

    Deus não nos escolheu pelo que somos em nós mesmos. Não. Em 2 Coríntios 2:16, ele clamará daqui a pouco:

    E para estas coisas quem é idôneo?

    E, em 2 Coríntios 3:5-6:

    A nossa capacidade vem de Deus; O Qual nos fez também capazes de ser ministros dum novo testamento.

    Não o que nós somos, mas o que Ele é.

    Perspectiva conclusiva

    Agora, eu apenas comecei. Ia falar dos sofrimentos do apóstolo em duas esferas, mas o tempo passou. Já estou falando com vocês há mais de quarenta e cinco minutos e, se continuar, levarei outro tanto.

    Mas talvez isso nos ajude neste começo. Abre uma janela. Diz: se quisermos ter alguma utilidade para o Senhor, encontraremos, já de início, esses tipos de aflição.

    Encontraremos as aflições e os sofrimentos causados por aqueles que, por quaisquer meios, procuram nos desacreditar, tirar nosso ânimo, estendendo-se sobre nossas próprias imperfeições e falhas, ampliando-as ou ressaltando-as.

    Eles chegarão até a nos acusar de sermos falsos, de não termos o direito de ser aquilo que afirmamos ser.

    E isto é tudo o que vou dizer agora: essa palavra repetida, reiterada, sofrimento, é a introdução ao serviço do Senhor.

    Ela nos diz com muita força que qualquer valor — qualquer valor espiritual — para o Senhor virá do sofrimento. É assim que, como veremos mais adiante, precisamos reagir aos nossos sofrimentos.

    É uma lição profunda e difícil: reagir da maneira correta aos nossos sofrimentos — como encará-los, o que fazer com eles, como lidar com eles.

    Portanto, há uma verdadeira batalha nessa esfera, para que nos ajustemos devidamente ao inevitável. Nossa carne clama por alívio.

    Sim, já orei algumas vezes: “Ó Senhor, dá-me algum descanso. Dá-me um período de águas tranquilas. Alivia a luta por um pouco”.

    Bem, ainda não. Ainda não.

    Mas há outra compensação. Ainda não chegamos a esse ponto: a consolação — quais são as consolações. Não vou nem dar uma indicação delas agora, porque exigem mais tempo do que temos.

    Direi isto: nem sempre, se é que alguma vez, elas serão o Senhor Se aproximando e dizendo: “Querido homem, querida mulher, não se preocupe. Fique plenamente confortado. Apenas prossiga, e Eu estou com você”.

    Não vejo que venha dessa maneira. Eu gostaria. Ah, muitas vezes eu disse: “Ah, se eu tivesse a experiência de Daniel! Ah, se me fosse dito aquilo de Daniel 10:11”:

    Daniel, homem muito amado.

    E que essa mensagem me fosse enviada por um arcanjo do céu! Não seria maravilhoso? Eu chamaria isso de consolação, vocês não?

    Não, parece que não vem dessa maneira para nós. Mas há consolações, e vou deixá-los esperando por enquanto, porque elas exigem mais tempo do que temos.

    Agora, eu disse que abri a janela. Vocês olham através dela, e o que verão é precisamente isto: para termos verdadeira utilidade e valor para o Senhor, passaremos por dificuldades na carne, mas haverá compensações no Espírito.

    Essas compensações significam realmente muito mais — muito mais — para o coração. São verdadeiramente compensações. Elas nos farão dizer: “Bem, se o sofrimento significa isto, está bem. Certamente, está bem. Vale a pena. Vale a pena”.

    Precisamos parar por aqui. Não avançamos muito na carta, mas, vejam, temos o dia inteiro amanhã — segunda-feira.