Filipenses 2:5-11:
Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus:
O Qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus algo a que Se devesse apegar;
Mas esvaziou-Se a Si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-Se semelhante aos homens;
E, sendo achado em figura de homem, humilhou-Se a Si mesmo, tornando-Se obediente até à morte, e morte de cruz.
Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e Lhe deu o nome que está acima de todo nome;
Para que, ao nome de Jesus, se dobre todo joelho, dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra;
E toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.
Filipenses 3:8-9:
Sim, deveras, considero todas as coisas como perda, pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; por amor dEle sofri a perda de todas as coisas e as considero como refugo, para que possa ganhar a Cristo;
E ser achado nEle, não tendo justiça própria, a que vem da lei, mas a que vem mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus pela fé.
Hebreus 11:24-26:
Pela fé, Moisés, sendo já homem, recusou ser chamado filho da filha de Faraó;
Escolhendo antes ser maltratado com o povo de Deus do que desfrutar, por algum tempo, os prazeres do pecado;
Considerando o opróbrio de Cristo maiores riquezas do que os tesouros do Egito; porque tinha em vista a recompensa.
O Senhor nos dirigiu para que hoje nos ocupemos com a realização de Sua plena vontade, para a qual Ele nos chamou.
Nesta manhã, como vocês sabem, estávamos considerando aquela grande lei: a realização e o cumprimento, a lei do governo da Palavra de Deus. Só pudemos tocar de leve a borda desse assunto, e apenas posso esperar que isso tenha, pelo menos, levado vocês a uma nova reflexão.
Por causa dessa ênfase, espero que vocês passem a considerar a Palavra de Deus com muito mais atenção e cuidado em todas as questões da vida.
Todos os que foram úteis ao Senhor e aos outros foram pessoas da Palavra — não apenas pessoas que conheciam a Palavra, mas pessoas cuja relação de coração com a Palavra de Deus fez delas homens da Palavra.
Todos os que, de alguma maneira, exerceram a função de liderança espiritual, como Josué, fundamentaram-se inteiramente na Palavra de Deus, como vimos. É assim do começo ao fim.
Mas o maior de todos, o Senhor Jesus, era minuciosamente cuidadoso em tudo. Ele agia de acordo com a Palavra. As Escrituras ocupavam um lugar tão importante em toda a Sua vida, conduta, ensino e obra que Ele ficou conhecido como a Palavra de Deus. Ele era a própria Palavra.
A Palavra não é algo apenas escrito num livro. Ela se tornou pessoal — personificada na vida, no caráter e no ser.
Se vamos ser usados em benefício dos outros, se vamos ser capazes de cumprir qualquer responsabilidade, como aqueles homens no princípio — na igreja em Jerusalém e em Antioquia —, precisamos ser homens da Palavra.
Eles eram homens que esperavam em Deus por Sua Palavra. Não organizavam a igreja, decidiam programas, planos e projetos para ela e depois pediam a Deus que os abençoasse. Nunca introduziam coisa alguma antes de esperar no Senhor por Sua Palavra a respeito daquilo.
A pergunta era sempre: “Isso está de acordo com o que foi revelado?” Esse é o único caminho de crescimento da igreja, de edificação.
Bem, como vocês podem ver, isso abre uma porta muito ampla. Não vamos avançar mais nesse assunto. Apenas volto a enfatizar que uma lei divina do progresso espiritual — na vida individual, na vida da igreja, local e universal — é o governo absoluto da Palavra de Deus.
À lei e ao testemunho! Se eles não falarem segundo esta palavra, certamente não haverá alva para eles.
Se algo não está de acordo com a Palavra, haverá nisso um perigo oculto.
Bem, nesta tarde passamos a outra lei desse progresso na vontade de Deus, até sua plena realização. Tendo em mente todo esse assunto, isso é inerente à nossa vocação. Não é um acréscimo à vida cristã. Não é algo opcional. Vocês não podem ter uma vida cristã e decidir se querem ou não ter isso. É fundamental e intrínseco à vida cristã.
Assim também é o que vamos dizer agora sobre outra lei da vontade e do propósito de Deus em nossa vocação. É o que está sugerido — e, mais do que sugerido, apresentado a nós — nas Escrituras que selecionamos para esse propósito, dentre muitas outras.
Vou chamá-la de a lei da renúncia.
Em Filipenses 2, o Senhor Jesus nos é apresentado em termos da grande renúncia. Sendo igual a Deus, a nota à margem diz que Ele não considerou isso algo a que devesse Se agarrar, a que devesse Se apegar tenazmente. Mas Ele esvaziou-Se a Si mesmo. Ele fez a grande renúncia no céu.
O apóstolo Paulo compreendeu esse sentimento que exorta os cristãos a terem. Ele entendeu a questão. Isso lhe veio naquele grande encontro com o Senhor no início de sua vida cristã: ele viu.
Então todas as outras coisas, por maiores que fossem — e eram muitas, e eram grandes, como ele nos diz na carta aos Filipenses —, perderam seu domínio sobre ele, porque outra coisa passou a dominá-lo.
Ele fez a grande renúncia; talvez não nas mesmas dimensões que o Senhor, mas, para ele, era tudo, assim como era para o Senhor. Ora, esse tudo pode não ser tão grande quanto o tudo do Senhor, mas é tudo. Se é tudo, bem, é isso.
Ele considerou todas essas coisas — a lista de vantagens que eram suas por hereditariedade, nascimento, criação, formação, conhecimentos adquiridos e assim por diante — como refugo. Ele renunciou a elas.
E, por meio da grande renúncia de seu Mestre e da sua própria, a igreja tem sido beneficiada ao longo de todas essas gerações. Esse é o ponto. Esse é o ponto ao qual vocês precisam chegar em breve.
Depois lemos sobre Moisés. Poderíamos ter mencionado muitos outros nesse mesmo capítulo, Hebreus 11. Moisés renunciou a tudo o que tinha no Egito — o conhecimento dos egípcios, a corte de Faraó, todas as vantagens concentradas ali. Ele fez a grande renúncia, novamente por causa do povo de Deus.
Ora, esse é o ponto. Antes de chegarmos à sua aplicação, deixem-me lembrar que uma das marcas e dos vestígios claros do diabo e de sua atuação é a distorção do bem em mal: coisas boas transformadas em coisas más.
Satanás não cria nada. Ele não é criador. Não cria nada, mas se apodera do que foi feito; e aquilo que foi feito para o bem, ele transforma em mal.
Por isso, vocês encontram toda uma lista de paradoxos na Bíblia. É fascinante acompanhá-los, o que não vou fazer; apenas lhes dou a indicação. Há toda uma lista de paradoxos, ou aparentes contradições, e eles revelam esse rastro de coisas boas na intenção divina que foram transformadas em más.
Considerem a questão da ambição. A ambição, de fato, é a mãe de muitos males.
A ambição no mundo — quantos homens e mulheres ambiciosos existem, que, para realizar sua ambição, pisam em todos os princípios e atropelam toda sensibilidade! A ambição é a força que os impulsiona: obter, ser, controlar, dominar.
Ah, e não temos visto algo disso durante nossa vida? Essas pessoas ambiciosas, como costumamos chamá-las, lançaram o mundo no estado mais angustiante e terrível — literalmente, multidões sendo assassinadas por causa da ambição humana.
A ambição, vocês sabem, pode entrar e tem entrado na igreja de Deus. Homens, como Pedro diz:
Dominando sobre a herança de Deus.
Querendo ser alguma coisa na igreja, realizando alguma ambição secreta. Talvez não percebam nem reconheçam isso, mas os outros percebem. É isso.
Bem, aqui está algo que podemos dizer sem dificuldade: Deus criou a ambição. Isso é algo divino.
As traduções não nos ajudam muito nesse ponto, mas Paulo disse:
Fazemos disso nossa ambição: ser-Lhe agradáveis.
Façam disso uma ambição! Ah, vocês resgataram uma palavra ruim. Recuperaram algo que se desviou, que o diabo tomou e voltou para seu próprio uso.
Foi a ambição em Satanás, antes de sua queda, que o levou a cair; e ele, como a serpente, injetou esse veneno na natureza humana. Mas a ambição — “fazemos disso nossa ambição” — é algo divino.
Poderíamos prosseguir com muitos paradoxos como esse. Paulo nos deu uma lista em certa passagem:
Entristecidos, mas sempre alegres;
Como pobres, mas enriquecendo a muitos.
É um paradoxo, sem dúvida.
Ora, aqui estamos diante de um desses paradoxos, neste mesmo capítulo, Filipenses 2, e nesta mesma consideração da grande renúncia.
Satanás se apoderou de algo que Deus criou e colocou no homem e em Seu universo. O que é? Adquirir, possuir, ter.
Não é errado, em si, ter. Não é errado, em si, adquirir ou possuir. Se vocês têm travado muitas batalhas sobre se deveriam ter isto ou se é certo possuir aquilo, então, na própria natureza de vocês, existem os vestígios dessa coisa divina — o desejo de possuir, de ser enriquecidos. Existe esse impulso de adquirir. Sim, Deus o colocou ali.
Estávamos olhando para Israel nesta manhã, e quantas coisas o Senhor lhes disse sobre possuir:
Eu vos introduzo numa terra que mana leite e mel.
E assim por diante. “Isto é para vocês possuírem.” Quero dizer, vocês podem possuí-lo — ser um povo rico.
Todo lugar que pisar a planta do vosso pé, vo-lo tenho dado.
Em contraposição a isso está a renúncia. É uma contradição? A renúncia agora se torna uma lei da posse. Ele abriu mão, e Lhe foi dado. Ele renunciou e recebeu toda a plenitude de Deus.
Satanás usa essa coisa divina e distorce algo que é divino, que vem de Deus, que é inteiramente correto em sua própria natureza, e o transforma em algo mau. Assim, temos neste mundo essa terrível imposição de si mesmo — obter, controlar, forçar, dominar.
Bem, onde está a solução? Onde está? A resposta a essa pergunta é a resposta ao paradoxo.
Vejam, é justamente aí que o inimigo fez sua obra, introduzindo o eu em algo bom — poder, posse, ter —, tudo para o eu, agarrando-se às coisas para si mesmo. Mas:
Ele esvaziou-Se a Si mesmo.
Essa é toda a história da redenção: o esvaziamento do eu.
Todos os maravilhosos resultados da redenção em todo este universo — o que o homem terá como dádiva de Deus, e o que podemos ter agora como dádiva de Deus em sentido espiritual, toda bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo —, toda essa plenitude para a qual somos chamados na vontade de Deus vem pelo caminho de nossa conversão, de nos voltarmos, não nesta direção, mas naquela; não para o eu, mas para Deus.
Agora, não percam de vista esse princípio. Pensem seriamente no que estou dizendo. Pedro tropeçou nesse ponto porque, na verdade, ainda não estava convertido naquela ocasião. Sei que vão me contestar nisso.
Havia um sentido real em que Pedro não estava convertido até depois do Pentecostes. Não vamos discutir isso; digam o que quiserem a respeito. Mas, quando o Senhor veio com a bacia e a toalha para lavar seus pés, Pedro disse:
Não, Senhor; Tu nunca me lavarás os pés.
Então o Senhor disse:
Se Eu não te lavar, não tens parte Comigo.
Ah, bem, Pedro cedeu nesse ponto. Mas, poucas horas depois, ficou demonstrado que, na verdade, era Pedro quem estava em vista — ter tudo o que pudesse obter, embora suas intenções fossem boas.
Quando o Senhor disse: “Você receberá muito”, a grande lição que Pedro teria de aprender era a renúncia. Tenham cuidado com sua ambição pela plenitude. Em quem vocês estão pensando? Para que é isso? É para o eu ou é para o Senhor?
Ora, o princípio por trás de Filipenses 2 é precisamente este: o Senhor Jesus abriu mão de tudo o que tinha — a glória celestial e a igualdade com Deus —, não por Si mesmo. Isso já era dEle. Não havia absolutamente nada que Ele precisasse fazer, ou pudesse fazer, para ampliar Suas próprias posses e Seus direitos.
Mas a honra de Deus precisava ser vindicada na criação do homem. Deus criou o homem, assumiu essa tremenda responsabilidade de criar o homem.
Vocês já sentiram isso muitas vezes? Ah, alguns de vocês têm uma natureza melhor que a minha. Mas às vezes me pergunto se Deus poderia justificar a criação da humanidade como ela é hoje. Basta pensar na história do homem, e a gente se pergunta no que Deus estava pensando.
Ele assumiu a tremenda responsabilidade de fazer toda a raça humana — fazer você, fazer a mim. Às vezes tive de devolver essa questão ao Senhor e dizer: “Senhor, Tu me fizeste. Tu me fizeste. Tu me deste existência, mas, ao existir, fiquei sob Tua responsabilidade”. Bem, isso ajuda algumas vezes. Eu creio nisso.
Deus precisava ser vindicado em Sua responsabilidade como Criador. Portanto, Ele precisava salvar esse homem que havia feito, e precisava ser glorificado nesse homem.
Não há salvação nem glorificação enquanto o homem é uma criatura egoísta. O egoísmo revela tudo, não é? Ele rouba toda a glória em toda parte. Essa coisa precisa ser tocada e tratada — não teoricamente, não sentimentalmente, não teologicamente, mas de fato, de fato.
Não há maneira de tratar algo de fato — e sublinhem essa expressão: realmente, verdadeiramente, de fato — senão tomando aquilo e destruindo-o em sua própria pessoa e obra, e tornando-se você mesmo o oposto, por meio de uma obra poderosa e profunda de Deus.
É a vindicação de Deus, a justificação do Pai, a justificação da criação, tornando possível que os homens cheguem àquela glória em comunhão com o Pai no céu para sempre.
Esse foi o motivo que O levou à grande renúncia, a abrir mão. Foi, primeiro, para o alto — em direção à vindicação de Seu Pai; e, segundo, para fora — em direção aos homens, para a redenção daquela distorção que o diabo havia introduzido neles, por meio da qual tanta miséria podia ser produzida.
Era a salvação de vocês e a minha, livrando-nos de algo que o diabo havia plantado na raça humana e que contradiz o propósito de Deus. Isso era voltado para fora, não para Si mesmo — não para Si mesmo.
Tudo isso está incluído nesta descrição:
Ele esvaziou-Se a Si mesmo;
Humilhou-Se a Si mesmo;
Tomou a forma de servo;
Foi achado em figura de homem;
Tornou-Se obediente até à morte.
E foi a forma de morte mais vergonhosa e ignominiosa que este mundo conheceu. Sempre me ensinaram que a crucificação era a pior forma de morte. Isso é abrir mão de Si mesmo, não é? De todo interesse próprio. Isso é renúncia — tudo o que estava envolvido.
Primeiro, pelo Pai. É por isso que Ele está sempre falando do Pai: “Meu Pai, Meu Pai”. Era a vindicação do Pai, a redenção do homem para a glória e a transformação e transfiguração da humanidade.
Observem: ambição, propósito, a vontade de Deus.
Agora, amigos, vocês e eu estamos nesse caminho, não estamos? Vocês não têm notado que o tratamento do Senhor conosco, quando Ele põe Sua mão sobre nós, segue essa direção?
Repetidas vezes, na experiência cristã, deparamos com uma situação em que a questão é se vamos nos apegar ou abrir mão. Vamos abrir mão? Conseguimos abrir mão? Conseguimos renunciar?
Ficamos parados até fazer isso. Não conseguimos passar adiante. Pode ser um incidente na vida; pode ser o que chamaríamos de uma coisa pequena em comparação com outras. Mas ali está.
“Vou continuar com esse osso entre os dentes, roendo-o sem parar, ou vou soltá-lo?” Muito bem, agora está resolvido.
E, por outro lado, vocês não experimentaram o que acontece quando, finalmente, pela graça de Deus, pela graça do Senhor Jesus, abrem mão e dizem: “Senhor, está bem, não vou mais interferir. Eu renuncio”?
Não estou falando de simplesmente se resignar. Cuidado. Resignar-se ao seu destino não é a vontade de Deus. Não estou dizendo: “Bem, já não me interessa” — uma atitude negativa, uma atitude passiva.
Não; é dizer positivamente: “Senhor, isto é o que Tu queres. Está em Tuas mãos, e Tu tens um propósito ao me trazer a esta posição. Eu abro mão. Eu renuncio”.
Quando chegamos aí, vem algo maior do que tudo o que desejávamos. É estranho, não é? Funciona assim.
E quanto a Abraão e Isaque? Abraão não poderia ter argumentado com Deus? Não poderia ter defendido sua insistência em conservar Isaque? Ah, sim, ele poderia ter construído uma argumentação tremenda contra oferecer Isaque. Mas chegou ao ponto da grande renúncia: abriu mão.
Porém, mais uma vez, ele não apenas recebeu Isaque de volta, mas recebeu uma nação:
E na tua descendência serão benditas todas as nações da terra.
De dentro para fora, vocês veem o alcance de uma renúncia — um tremendo potencial de ampliação.
Moisés — nós o destacamos dentre todos esses — poderia ter argumentado com base na soberania: “Bem, Senhor, Tua soberania dispôs as coisas de modo que, quando todos os bebês estavam sendo mortos, eu fosse poupado; e que a filha de Faraó aparecesse naquele dia, e Tua soberania me resgatasse e me levasse diretamente para o palácio”.
“Criado na casa de Faraó, instruído em toda a sabedoria dos egípcios — Tua soberania estava nisso.” Esse é o ponto.
Ele abriu mão de tudo. Deixou tudo. Renunciou a tudo. Por quê? Porque foi convertido — talvez não no sentido do Novo Testamento, mas convertido: voltou-se em outra direção, houve uma mudança de rumo, uma conversão.
Ele deixou de olhar para dentro, para o seu próprio povo — sua raça, como sabemos, estava em seu coração —, e passou a olhar para o povo em função de Deus. Escolheu antes sofrer aflição com o povo de Deus. O que eu possa perder não importa, desde que o povo receba o benefício.
Vocês entendem o ponto? Veem o Filho, Cristo, reproduzindo-Se na vida desses homens segundo este único princípio: a renúncia?
Porque Ele, o Senhor, o Filho de Deus, fez isso:
Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e Lhe deu o nome que está acima de todo nome.
Ao nome de Jesus, se dobre todo joelho, dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra.
Há uma particularidade aqui. Vocês notam que muitas vezes se diz algo assim, mas a terceira dimensão fica de fora. O “debaixo da terra” é omitido. Em outras ocasiões, é “nos céus e na terra”.
Deixo isso para vocês pensarem. Neste caso, o mundo inferior também se curvará diante dEle. Sua renúncia significa que o mundo inferior, todas as dimensões do universo, são afetados.
Que vasto alcance tem a capacidade de abrir mão e entregar a Deus! Acho que quase não preciso dizer mais do que isso para deixar claro o ponto. É uma das coisas mais difíceis que vocês e eu temos de aprender.
Mas Ele era manso e humilde de coração, e a mansidão é exatamente isso — exatamente essa ausência de egoísmo, esse aspecto da vida voltado para fora: “Não para mim mesmo, mas quanto os outros podem ganhar se eu tiver de perder; se eu puder perder, para que o povo que Ele criou seja beneficiado”.
Essa é a lei da ampliação — da ampliação.
Interrompi a citação sobre Moisés antes do fim. Vocês perceberam isso, é claro, se estavam prestando atenção. Parei em determinado ponto porque sempre receio esse miserável interesse próprio em relação à recompensa. Ele está sempre presente. Está sempre, como Pedro naquela ocasião, pronto para se lançar sobre ela.
Porque tinha em vista a recompensa.
Foi aí que parei. Muito bem, muito bem. Se for pelo caminho da renúncia e da perda, Ele prometeu enriquecimento nessa direção.
Não devemos ser motivados pela recompensa, devemos? Nenhum servo do Senhor deve ser motivado pelo que vai obter de seu serviço. Quando tiverem feito tudo, digam:
Somos servos inúteis.
Contudo, podemos dar a isso uma ênfase correta e apropriada por causa do ponto de onde partimos. Vocês estão acompanhando a linha de pensamento? Esta é a vontade de Deus para vocês, para mim, para a humanidade: ser enriquecidos com toda a Sua plenitude, ter tudo o que Ele pode dar.
Mas não egoisticamente; não para nosso próprio uso, mas para Sua glória, Sua vindicação. Se vocês e eu nos entregarmos à glória dessa maneira, então Ele poderá nos dar de Sua plenitude e nos dotar de riquezas celestiais.
Tenho plena certeza de que, quando encontramos, na disciplina da renúncia, o fundamento correto para sermos o que Ele quer que sejamos, então passamos por essa experiência.
Vejam, qualquer pessoa que realmente tenha passado por isso — que tenha estado bem no meio daquela realidade profunda e desesperadora de enfrentar algo, alguma posse, alguma coisa de enorme valor para ela, talvez até tudo para ela, algo que poderia fazer sua vida prosperar ou arruiná-la — foi confrontada com a questão de estar disposta a abrir mão e entregar ao Senhor.
Nossa, foi algo e tanto, não foi? Quase devastador para o eu, para a ambição. E, quando essa devastação acontece e saímos do outro lado, está feito. Está feito.
Então o Senhor tem Sua glória — ou, perdoem-me, há segurança. Há segurança.
Pergunto-me quantos de vocês, especialmente vocês que são servos do Senhor, quem quer que sejam, já disseram às vezes ao Senhor: “Senhor, podes me confiar isto? Podes me confiar aquela pessoa? Podes realmente confiar em mim para fazer isto por mim?”
“Conheço meu próprio coração. Conheço seu orgulho. Conheço sua ânsia de adquirir, seu amor pela posição e pela influência. Eu o conheço. E tenho medo — medo — de que, se Tu de fato abençoares, Senhor, eu sutilmente tome para mim alguma satisfação. Podes confiar em mim?”
O Senhor está trabalhando para nos levar ao lugar em que possa nos confiar uma responsabilidade eterna, celestial, porque sabe que esse mal em nossa natureza foi tratado pela disciplina da renúncia. Vocês me acompanham? É muito verdadeiro, não é? A vida espiritual, a história espiritual, é assim.
Há tantas tensões, não é? Nossa, como sofremos na vida com tensões nervosas! É estranho.
Sim, muitos colapsos nervosos se devem a essa intensidade, ao nosso próprio tipo de intensidade, que nos prejudica nervosa e fisicamente. A que isso se deve? Não estamos conseguindo o que queremos. Não estamos tendo aquilo em que pusemos o coração. Deus não está nos dando isso nem fazendo isso por nós.
Assim, vivemos nesse estado de tensão, forçando a vida, e a vida se torna um esforço penoso. Até a vida cristã se torna um esforço terrível. Mas, se vocês não sabem nada sobre isso, são pessoas muito afortunadas. É verdade.
Encontramos por toda parte pessoas sob tensão. Qual é o problema? Elas não aprenderam a abrir mão e entregar a Deus.
Porque eu sei, e vocês sabem por experiência, que, quando chegam ao ponto de abrir mão e entregar ao Senhor — faço questão de dizer ao Senhor, prestem atenção; pode ser ao Senhor por meio de outras pessoas, ou por meio de alguém, de alguma coisa, mas, em última análise, é ao Senhor —, quando fazem isso, vocês chegaram ao ponto necessário.
Vem aquela calma maravilhosa: descanso maravilhoso, paz maravilhosa. Aquilo ficou para trás. É estranho, não é? É muito verdadeiro.
Sua grande renúncia significou que Ele Se identificou com o homem em sua queda.
A tentação não é tentação — não tem sentido — se não há algo sobre o qual atuar. Resolvam esse problema, se puderem, mas ela não tem sentido algum se não há algo sobre o qual atuar.
Não necessariamente uma natureza pecaminosa, má, diabólica, mas simplesmente a natureza humana como ela é. Assim, quando o diabo veio a Ele no deserto e Lhe ofereceu os reinos do mundo, aquilo não seria tentação se Ele não tivesse interesse nos reinos do mundo.
Se Ele pudesse dizer: “Poderíamos tê-los; não estou interessado nisso. Os reinos do mundo não têm importância alguma para Mim”, então não teria havido tentação para Ele, teria?
Mas, se os reinos deste mundo eram precisamente o objetivo pelo qual Ele havia vindo, então existe uma tentação. Há algo sutil aqui, apelando à vida da alma, até mesmo à do Filho do Homem.
Ele Se identificou com os homens, conhecendo muito bem as tentações dos homens e conhecendo a ambição natural do homem:
Tentado em todas as coisas, à nossa semelhança, mas sem pecado.
Mas Ele venceu. Não venceu dizendo: “Não tenho o menor interesse nisso. Não há tentação alguma para Mim”. Não. Ele disse: “Vou ter isso, mas não de suas mãos, Satanás; não como sua dádiva; não pelo seu caminho. Vou à cruz, e ali destruirei você e obterei isso sobre o fundamento correto”.
Assim, Ele Se fez semelhante ao homem, conhecendo a tentação do homem sem a natureza pecaminosa — esse é o problema teológico, é claro —, mas, embora sem a natureza pecaminosa, tinha uma alma humana que poderia ter ambição para si mesma ou para Deus.
E assim, naquela tentação, era sempre o Pai: o Pai, a Palavra que o Pai havia falado — esse era o campo de batalha, entendem? Não para Mim, não para Mim, mas para os outros e para o Pai.
Pergunto-me se vocês estão me acompanhando. Acho que estamos tocando em coisas muito reais para a vida espiritual. Toda a questão é Sua identificação conosco para nos salvar, e nos salvar de nosso egocentrismo, de nossa orientação para nós mesmos.
Salvar-nos pela conversão — voltando-nos para Deus. A vida do cristão, então, é simplesmente a vida que existe para Deus, não é? É para Deus.
Precisamos ser provados nisso tantas vezes. Atravessamos a experiência; saímos dela; chegamos à paz; chegamos à quietude. Mas aquilo fica para trás até a próxima vez. É assim que crescemos.
Na próxima vez será mais difícil. Lamento dizer isso. Mas, de fato, vocês aprenderam alguma coisa. Não entram na experiência mais difícil sem o conhecimento do que ela significa — do caminho para atravessá-la.
Se aprenderam alguma coisa, poderão dizer: “Ah, bem, já enfrentei algo parecido antes, e aprendi a atravessá-lo pela graça de Deus. Muito bem, isto é um pouco mais difícil, mas é o mesmo princípio”.
“Não vou lutar para fazer prevalecer minha própria vontade. Não vou lutar pelo meu próprio interesse. Não vou exercer essa minha teimosia de buldogue, agarrando-me a isso e me recusando a soltar. Vou estar pronto para colocar isso no altar.”
E Deus — a solução vem por esse caminho.
A lei da renúncia no progresso em direção à realização do propósito divino. Que o Senhor nos dê entendimento e ajuda.
Estou certo de que queremos ficar em silêncio por um momento. Deus falou de maneira tão clara e profunda ao nosso coração.
Estamos pensando no holocausto, inteiramente colocado sobre o altar.
O Senhor espera de nós alguma resposta ao Seu chamado amoroso.