Vamos ler novamente alguns versículos — versículos conhecidos, conhecidos por nós porque já estiveram diante de nós várias vezes na segunda carta aos Coríntios.
Quero ler apenas o último versículo do capítulo 3, 2 Coríntios 3:18:
Mas todos nós, com o rosto desvendado, contemplando como num espelho a glória do Senhor, somos transformados na mesma imagem, de glória em glória, como pelo Senhor, o Espírito.
Portanto, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi concedida, não desfalecemos; mas renunciamos às coisas ocultas e vergonhosas, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus, mas, pela manifestação da verdade, recomendando-nos à consciência de todo homem, na presença de Deus.
Mas, se ainda o nosso evangelho está encoberto, para os que perecem está encoberto; nos quais o deus deste mundo cegou o entendimento dos incrédulos, para que não lhes resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, o Qual é a imagem de Deus.
Porque não pregamos a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor, e a nós mesmos como vossos servos, por amor de Jesus. Porque Deus, Que disse: “Das trevas resplandecerá a luz”, é Quem resplandeceu em nossos corações, para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo.
Agora, nestas horas que temos passado, e ainda estamos passando juntos, fomos levados novamente a reconhecer o serviço do povo de Deus — da igreja em sua expressão universal, local e individual —, o ministério para o qual somos chamados.
“Temos”, diz o apóstolo, “este ministério”. À medida que avançamos, acrescentamos, acrescentamos e acrescentamos a este ministério as muitas coisas que são ditas a respeito dele, considerando-o de diferentes perspectivas e em seus vários aspectos, como temos feito.
À medida que avançamos — não chegando, de modo algum, ao fim, mas à medida que avançamos —, torna-se necessário, e muito importante, concentrar tudo em sua questão principal e suprema.
Se, depois de tudo o que foi dito e de todo este tempo que passamos juntos, nos pedissem para expressar numa frase breve o que é este ministério, fico pensando no que diríamos. Fico pensando em como vocês resumiriam tudo o que foi dito e definiriam esta expressão: “Tendo este ministério”.
Se pudermos apreender isso de maneira concisa e precisa — compreender o que este ministério realmente é — e sair daqui com isso, não apenas com uma porção de ensinamentos e coisas que foram ditas, mas com a questão essencial de tudo: a que isso realmente se resume? Com o que estamos comprometidos, talvez mais profundamente do que nunca? O que, daqui em diante, vai nos caracterizar de maneira nova e muito mais definida como aqueles que foram chamados para este ministério? Podemos expressar isso numa frase?
Ora, não é difícil encontrar a resposta nestes quatro primeiros capítulos da segunda carta aos Coríntios. Lembro a vocês que essa palavra é mencionada nada menos que treze vezes, de 2 Coríntios 3:8 a 2 Coríntios 4:2. O objetivo central de toda esta carta se expressa numa única palavra, e essa palavra é glória.
Agora, façam um círculo em torno dela, se quiserem. Daqui em diante, vocês têm a chave da carta; mas têm mais do que isso. Têm a chave de tudo o que realmente significa este ministério que nos foi confiado.
Não é outra coisa, nem nada menos, que a glória do Senhor Jesus.
Seria um estudo muito proveitoso tomar essa palavra e acompanhá-la por toda a carta, voltar à primeira carta e percorrer a segunda, para ver o que ela significa — o que a glória do Senhor Jesus realmente significa, a que ela se contrapõe, como resolve todos os problemas e como se torna a força propulsora, a preocupação que governa tudo, para o povo de Deus.
A glória do Senhor Jesus — esse é o critério para tudo. É o critério para o comportamento. Isso nos leva de volta à primeira carta, não é? O comportamento dos coríntios era tão indigno do Senhor Jesus.
Depois que o apóstolo os deixou por conta própria, sem a influência de sua presença, por quatro anos ou mais, a vida espiritual deles declinou, e tudo o que se introduziu ali era vergonhoso, desonroso e indigno de Cristo.
A glória de Cristo se coloca diante de todo comportamento e de toda conduta — aquilo que fazemos e a maneira como vivemos.
Há muito mais, mas não é disso que estou tratando agora. Quero ir diretamente ao centro de toda esta questão: a glória como aquilo que governa a vida ativa e a presença do povo de Deus neste mundo.
Já dissemos algumas coisas a esse respeito — sobre como isso se manifesta na prática. Começamos reconhecendo que, se a glória do Senhor Jesus é o próprio objetivo pelo qual o povo do Senhor está aqui nesta era, esse é um caminho de alto custo.
Observamos tudo o que o apóstolo disse, no início deste assunto, sobre as aflições de Cristo, os sofrimentos de Cristo que transbordam para nós, e como eram reais em sua própria experiência. O alto custo de permanecer firme em favor da glória do Senhor Jesus.
Agora, por causa do tempo, vamos a este quarto capítulo. Nestes últimos versículos, temos estas palavras tão conhecidas: “Porque Deus, Que disse: ‘Haja luz’”. Literalmente, é isso que está aqui: Deus, Que disse:
Haja luz.
Daqui a pouco, o apóstolo voltará ao tema da nova criação. É isso que está por trás de seu pensamento: Deus, Que disse “Haja luz”, resplandeceu em nossos corações para dar a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo, Que é a imagem de Deus.
A glória de Deus na face de Jesus Cristo — agora em nossos corações.
Já nos detivemos bastante na luz que havia no rosto de Moisés quando ele desceu do monte. Quando se colocava diante do povo e lia a palavra de Deus, precisava pôr um véu, porque eles não podiam olhar fixamente para seu rosto.
O apóstolo diz, em essência — e é isso que ele quer dizer —, que a luz da glória de Deus estava no rosto de Moisés, mas, naquele tempo, não podia entrar no coração do povo. Eles não tinham a capacidade ou a condição de recebê-la em seus corações.
Mas a luz na face de Jesus Cristo — a mesma glória de Deus, agora na face de Jesus Cristo —, o véu é retirado, e ela entrou em nossos corações. Ela entrou em nosso interior.
Essa é a mudança de dispensação. Tudo era exterior e objetivo; agora se torna interior. Ele resplandeceu em nossos corações, ou para dentro deles.
Deus disse “Haja luz” na primeira criação — exterior e objetiva. Na nova criação, é interior: Ele resplandeceu em nossos corações.
Vamos nos deter por um momento nesta maneira pela qual o apóstolo se expressa. É uma maneira figurada. Precisamos ajustar nossa maneira de pensar a respeito de muitas dessas coisas.
É claro que, de modo natural e imediato, formamos imagens mentais. Quando se diz “a glória de Deus na face de Jesus Cristo”, pensamos, muito naturalmente e por instinto, no semblante, em Seu rosto.
Mas não é disso que o apóstolo está falando. Ele está apenas usando isso como uma figura.
A mesma palavra é traduzida de outra maneira duas vezes nesta carta. Em outro lugar, é traduzida como “pessoa”. Vocês encontram isso em 2 Coríntios 1:11:
Ajudando-nos também vós com as vossas súplicas, para que, pelo dom que nos foi concedido por intermédio de muitos, sejam dadas graças por muitas pessoas a nosso respeito.
Essa palavra, “pessoas”, é a mesma palavra grega traduzida como “face” no capítulo 4. Depois, vocês encontram a mesma coisa novamente em 2 Coríntios 8:24:
Mostrai-lhes, portanto, diante das igrejas, a prova do vosso amor.
É a mesma palavra: “diante das igrejas”, literalmente, “na face das igrejas”. Vocês sabem o que isso significa — não o rosto físico das pessoas nas igrejas. Significa diante das próprias pessoas.
Assim, neste caso, significa simplesmente a pessoa de Jesus Cristo: a luz do conhecimento da glória de Deus na pessoa de Jesus Cristo. Ele é a imagem pessoal, a corporificação e a expressão exata da glória de Deus.
Vocês conhecem isso em Hebreus 1:3. É exatamente assim que começa: a imagem expressa, ou a expressão exata, da glória divina.
Não é do rosto resplandecente, em si, que o apóstolo está falando. Que o Senhor nos dê mais rostos resplandecentes! Isso não serve de desculpa para nossos rostos tristes. Senhor, tem misericórdia de nós por causa de nossos rostos.
Mas o apóstolo está dizendo aqui que Jesus Cristo é a corporificação e a expressão pessoal da glória de Deus, e que Ele foi revelado em nossos corações.
É a compreensão do que Jesus Cristo realmente é e significa — de Seu significado no universo de Deus — que foi revelada em nossos corações.
O apóstolo fundamentou toda a sua vida e todo o seu ministério nisto:
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
A contrapartida do resplendor da glória no caminho de Damasco é esta: ela não permaneceu do lado de fora; entrou em seu interior.
E, nessa luz, ao contemplar Jesus de Nazaré, vi como Ele era diferente daquilo que eu pensava e cria a Seu respeito antes, quando O perseguia.
Eu O vi — Quem Ele é, o que Ele é. Vi o resplendor da glória divina em um homem, em um homem. Cristo era a imagem e a representação de Deus manifesto.
Acho isso algo realmente maravilhoso e impressionante. Pensamos que agora temos muita luz acerca do Senhor Jesus — uma quantidade extraordinária de luz acerca do Senhor Jesus.
Talvez pensemos, ou imaginemos, que tudo o que sabemos agora é novo, algo que surgiu depois de Sua passagem por este mundo. Nada disso.
Tudo o que sabemos agora, tudo o que algum dia saberemos, ou que o povo de Deus saberá acerca do Senhor Jesus depois de Sua ascensão, já era verdadeiro a Seu respeito quando Ele estava aqui. Tudo já estava ali.
Quem Ele era, o que Ele era, qual era Seu significado, o que estava depositado Nele — tudo o que pertence à eternidade estava ali, no homem chamado Jesus de Nazaré. Nada foi acrescentado a Ele. Ele não foi ampliado nem aumentado. Tudo já estava ali.
João pôde dizer, quando Ele estava aqui:
Vimos a Sua glória, glória como do Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.
Tudo já estava ali.
Mas ninguém a via, a menos que o Pai a revelasse. Quando isso acontecia, mesmo nos dias de Sua carne, era algo surpreendente para aqueles que recebiam a revelação.
Quando Ele perguntou aos discípulos:
E vós, Quem dizeis que Eu sou?
Pedro, por inspiração, revelação, iluminação — por um ato divino —, disse:
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Jesus disse:
Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou.
Acho que o próprio Pedro ficou tão surpreso quanto qualquer outra pessoa por ter dito aquilo.
Mas, vejam, foi algo que veio por iluminação. Vocês conhecem os dois no caminho de Emaús. Jesus Se juntou a eles, mas o texto diz claramente que seus olhos estavam impedidos de reconhecê-Lo.
Então, em determinado momento, seus olhos foram abertos, e eles O viram. Que diferença isso fez! Voltaram com alegria, e sua exclamação ao chegarem de volta a Jerusalém mostrou que seus olhos haviam sido abertos.
Tudo já estava ali. Tudo estava Nele, mas ninguém via até que Deus lhes desse a capacidade de ver.
Deus, Que disse “Haja luz”, resplandeceu em nossos corações para dar a luz do conhecimento da glória.
O que é este ministério? É o resultado de um ato divino — algo que Deus fez em nós, em cada um de nós.
Deus fez algo segundo o mesmo princípio que operou quando esta terra estava sem forma e vazia, e havia trevas sobre a face do abismo, e a palavra de Deus foi proclamada:
Haja luz.
E houve luz — um decreto divino, um ato da palavra de Deus.
Agora Paulo diz que, segundo esse mesmo princípio, algo aconteceu conosco. Algo aconteceu conosco. Esse acontecimento veio de Deus para dentro de nossa vida.
Essa é a base de nosso testemunho, do ministério da igreja — o fundamento para que a igreja viva na realidade disso. Isso precisa ser realmente verdadeiro em toda a igreja. Antes de tudo, existe uma igreja que apenas professa a fé, e existe a igreja verdadeira.
Mas esta é a vocação confiada ao povo de Deus nesta dispensação: refletir a glória de Cristo a partir de nosso ser interior.
O espelho é o espelho de nosso espírito renovado, regenerado, refletindo a glória. Esse é o sentido da palavra aqui: refletir a glória. Esse é o ministério.
Não quero multiplicar palavras, mas sinto que precisamos realmente ser muito claros e práticos.
Quando chegamos ao Senhor pela primeira vez, quando isso acontece — expressem como quiserem, usem a explicação que preferirem: conversão, novo nascimento, seja o que for —, quando isso acontece, a glória irrompe em nosso interior. Ela de fato resplandece para fora, não é?
Que coisa maravilhosa é quando o Senhor Jesus, o Senhor da glória, entra em seu coração. Não é maravilhoso?
É claro que foi assim com todos nós. Foi maravilhoso. Sei que, quando isso aconteceu comigo, eu pregava ao ar livre cinco noites por semana; e as outras noites — bem, era fevereiro — ficavam para o restante.
Semana após semana, em qualquer oportunidade, eu dava testemunho do Senhor Jesus. Ainda consigo ver aquilo. Era exatamente assim — tudo tão maravilhoso.
Ao nosso redor se reunia todo um grupo de rapazes que haviam entrado na mesma experiência, e que tempo de glória foi aquele! Éramos chamados de “Rapazes da Glória”. É verdade.
Mas não é a isso que quero chegar. Entramos em experiências de provação, adversidade e sofrimento. O apóstolo fala muito dos sofrimentos de Cristo que transbordam para nós.
O perigo é que, como aconteceu em Corinto, percamos a glória. Percamos a glória. Esse é o nosso perigo.
Nas dificuldades, nas adversidades e nas provações, as coisas não acontecem como gostaríamos. Essas coisas se tornam bastante difíceis para nós.
E não estabeleçam, queridos amigos cristãos, uma divisão entre a vida secular e a vida espiritual, dizendo: “Bem, vejam, certas coisas acontecem comigo. Elas fazem parte do meu emprego neste mundo, do trabalho que faço, do lugar onde preciso trabalhar. Isso é uma coisa; minha vida cristã pertence a outra esfera”.
Não façam isso. Não façam isso nem por um momento. Vocês descobrirão que o ataque contra a glória é feito mais por poderes malignos do que por pessoas.
Ah, as pessoas podem ser as difíceis, as complicadas, aquelas que fazem vocês passar por maus momentos. Vocês talvez pensem que tudo isso está apenas na esfera humana.
Mas não se esqueçam de que, se foram chamados à comunhão com o Filho de Deus, foram chamados ao ministério da glória. Não há nada — nada — em toda a sua vida e em nossa vida de que o inimigo não se apodere para roubar Dele a glória em nós, seja algo físico, circunstancial ou qualquer outra coisa.
Há algo além dos acontecimentos e das circunstâncias comuns da vida humana. Lembrem-se disso.
Os cristãos mais novos precisam ser lembrados disso. Nós, os mais velhos, não ignoramos os artifícios do inimigo. Sabemos muito bem que aquilo que consideramos a coisa mais simples da vida cotidiana pode ser uma armadilha do diabo.
O telefone toca no momento mais inoportuno possível, por causa de alguma coisa. Estávamos em oração, buscando firmemente o Senhor. Há algo além daquilo que dá errado.
Paulo diz que existem hostes de espíritos malignos — hostes deles. Não é possível contá-los; estão por toda parte. Não queremos fixar os olhos neles, mas queremos observar isto: eles estão atrás da glória.
Toda a atenção deles está concentrada na glória do Senhor Jesus.
Vocês podem perceber, por algumas coisas que já dissemos, e se lerem novamente esta segunda carta aos Coríntios, que, por meio de toda uma série de acontecimentos na vida de Paulo — as reações daquele grupo influente e poderoso em Corinto à sua pessoa, desacreditando-o, defendendo-o, depreciando seu ministério —, procuravam expor suas fraquezas.
Falavam de suas limitações físicas, dizendo que sua presença pessoal era desprezível e sua fala, desprezível. Todas essas coisas estavam contra ele.
Depois, há a lista de coisas que ele nos apresenta em 2 Coríntios 6 e 2 Coríntios 12. Quantas coisas havia — todas contra ele! Ele sabia do que estava falando quando mencionava perigos, naufrágio e os muitos naufrágios aos quais se refere.
Todas essas outras coisas — essas forças malignas — procuravam destruir o ministério da glória de Cristo nesse homem e por meio dele. Esse é o significado disso. Elas estão atrás da glória.
Sabiam muito bem que Deus havia feito resplandecer no coração desse homem a luz do conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo. Por isso, ele era um homem marcado, pois a glória nele estava marcada como alvo.
A tremenda batalha é a batalha pela glória.
Ao usar esta palavra, “véu”, Paulo a empregou a respeito de Israel. Há um véu sobre o rosto deles até o dia de hoje. Não conseguem receber a glória; não conseguem ver a glória.
Usando essa expressão, “o véu”, ele a retoma em outro contexto:
Se o nosso evangelho está encoberto, está velado para os que não creem, nos quais o deus deste mundo cegou o entendimento.
Para que a luz da glória não resplandeça em seu interior.
É por isso que o Senhor Jesus Se interessava de maneira tão especial pelas pessoas cegas. Parece que Ele tinha um interesse particular por elas. Nenhuma pessoa cega jamais deixou de receber Sua compaixão, Seu interesse e Sua ajuda.
Não estou dizendo que Ele não Se interessava pelos surdos, pelos mudos e por todos os demais, mas parece que os casos que mais se destacam em Suas atividades, quando esteve aqui, são aqueles relacionados às pessoas cegas.
E vocês sabem que a concessão da visão ao homem que nasceu cego está no contexto de:
Eu sou a luz do mundo.
“Eu sou a luz do mundo.”
A capacidade de ver é algo que Deus planejou em favor da glória. Ah, queridos amigos, isso é tão desafiador para mim e para vocês.
É aqui que surge o desafio. Não quero tornar isso difícil, mas, se o torno difícil para vocês, estou tornando igualmente difícil para mim.
O desafio é este: aquilo que temos de verdade, de ensino, daquilo que tecnicamente chamamos de luz — e temos muito. Temos uma quantidade extraordinária de ensino. Essa é apenas outra palavra, vocês sabem, para doutrina. Escolham a que preferirem: ensino, doutrina. Quantidades extraordinárias.
Uma quantidade imensa de luz foi dada à igreja. Muitos outros entraram nessa esfera de grande abundância de verdade e ensino.
E o desafio é este: quanto disso realmente se torna uma manifestação de Sua glória? Podemos enfrentar esse teste?
Porque, vejam, o próprio princípio da luz que resplandece em nosso interior é que a luz da glória de Deus esteja em nossos corações e seja refletida.
Vamos colocar isso de maneira prática. Quando tivermos terminado nossa carreira, mais curta ou mais longa, até que ponto as pessoas poderão dizer: “Graças a Deus por aquele homem, por aquela mulher, porque, de fato, por meio dele, por meio dela, cheguei a um conhecimento vivo do Senhor Jesus”?
Talvez de maneira mais plena, ou logo no início, a glória de Deus na face de Jesus Cristo entrou em minha vida conforme era refletida naquele homem ou naquela mulher.
Esse é o critério para todo o nosso ensino. Ora, digo eu, temos tanto ensino e, ainda assim, o negamos em nosso comportamento e em nossa prática. Tanta coisa o contradiz, não é?
Aqui estamos nós, com reunião após reunião, hora após hora, acumulando ensino. O teste de tudo isso não será termos muito mais daquilo que tecnicamente chamamos de luz.
O teste de estarmos aqui nestas ocasiões, nesta hora, e do valor de tudo isso será: as pessoas poderão ver o Senhor Jesus — e o glorioso Senhor Jesus?
Vejam, era exatamente a isso que o apóstolo queria chegar com esses coríntios. Havia ocorrido uma vergonhosa contradição do evangelho. O comportamento deles, seu caráter, quase tudo o que aparece naquela primeira carta — havia uma contradição da glória.
Agora ele volta com uma segunda carta, tratando do lado positivo. Na primeira carta, estava, por assim dizer, do lado negativo. Senhor, tem misericórdia de nós, se 1 Coríntios é o lado negativo! É uma marreta, não é? Uma marreta nesse tratamento do lado negativo.
Mas estava do lado negativo da correção, correção, correção — mostrando o erro, ressaltando-o:
Não vos pude falar como a espirituais, mas como a carnais.
Agora, depois de tratar de algo assim e julgá-lo, ele se volta para o lado positivo e diz: “Agora, de fato, coríntios, a única justificativa para nossa existência como povo de Deus é que a glória de Jesus Cristo resplandeça de nós, tenha entrado em nós e esteja sendo vista e conhecida ao nosso redor, onde estamos”.
Deixem de lado suas imagens mentais da glória de Jesus Cristo. Às vezes, ela se manifesta simplesmente numa perseverança tranquila e paciente, enquanto outras pessoas começariam a mostrar ressentimento e mau humor, reagindo ao que lhes fazem e ao que lhes impõem de maneira prejudicial e desagradável, com espírito de vingança.
Suportem isso com paciência tranquila, firme e humilde, com perseverança, sofrendo o mal em vez de praticá-lo. Essa é a glória de Jesus.
Vocês sabem que Pedro destaca isso claramente em sua carta, não é?
Se, fazendo o bem, sofreis e o suportais com paciência, isso é graça diante de Deus.
Isso é graça. E a graça é a glória de Deus.
Sim, bem, vocês estão suportando muita coisa nesta tarde, não estão? Mas realmente queremos que estes momentos tenham um resultado prático, não é?
Não saiam daqui dizendo: “Tivemos algumas reuniões na Páscoa, o assunto foi tal e tal, e fulano falou. Foi um tempo feliz. Recebemos muita luz”.
Ah, que Deus nos livre de ficar apenas nisso, repetido ao longo dos anos, vez após vez. Não. Precisa ser assim: a luz precisa entrar em nosso interior, e então as pessoas precisam ver, nessa luz, a glória do Senhor Jesus.
Provavelmente vou continuar daqui a pouco falando da nova criação. Ele dirá que, se alguém está em Cristo, há uma nova criação, realizada por esse decreto divino: “Deus disse: ‘Haja luz’”.
O resultado em qualquer pessoa — algo muito pessoal, individual: se alguém está em Cristo — segue este princípio: Deus disse “Haja luz”, e há uma nova criação.
O mesmo decreto para uma nova criação espiritual que para a antiga criação material.
Agora, de todas as coisas que pertencem a essa nova criação, há apenas uma que vou mencionar neste momento. É esta: quando Deus, no princípio, sobre o caos e as trevas, sobre o mundo ainda sem forma, disse “Haja luz”, e houve luz, a chegada da luz foi apenas o início de um processo.
Ela deu início a algo. Não era um fim em si mesma. A luz não veio e permaneceu apenas assim, como mera existência e presença de luz.
Ela pôs as coisas em movimento e, por causa da presença da luz, do caos surgiram forma, ordem e fecundidade.
Da mesma maneira, quando a luz resplandece em nossos corações — a luz de Deus resplandece em nossos corações na face, na pessoa, de Jesus Cristo —, esse é o início de uma formação, do estabelecimento de uma ordem divina em nossa vida.
Agora, deixem-me conversar com vocês. Talvez isso não se aplique a vocês, mas não sentem que há alguma lacuna em algum lugar, alguma falha, alguma falta, quando alguém professa aceitar a Cristo e toda a desordem de sua vida permanece?
Seja qual for a maneira de descrever isso — coisas exteriores e outras coisas, seu comportamento —, essas coisas não desaparecem. Não mudam. A pessoa traz sua desordem para dentro do cristianismo.
Há muita desordem, não é, naquilo que se chama de vida cristã?
Algo está faltando; há uma lacuna em algum lugar. Talvez essas pessoas não tenham sido ensinadas de maneira adequada. O fundamento não foi lançado corretamente, de modo que fossem levadas a compreender o que a vida cristã realmente é: uma nova criação, na qual as coisas antigas passaram.
Quais são essas coisas antigas que estão sendo trazidas para cá?
As coisas antigas passaram; eis que tudo se fez novo.
Agora, o que estou dizendo, quer se aplique a vocês nesse aspecto específico ou não — comportamento, aparência e coisas desse tipo —, é que isso não é, de modo algum, a glória de Cristo. Não serve aos interesses Dele.
Há algum tempo, contaram-me algo que aconteceu na Convenção de Keswick. Uma serva do Senhor estava ali, andando pela rua, e viu uma moça vindo em sua direção, de minissaia e com outras peças de roupa que cobriam muito menos do que seria modesto.
Havia o cabelo e todo o restante, e em sua roupa havia um texto — esqueci quais eram as palavras —, algo sobre o Senhor Jesus, sobre vir ao Senhor Jesus.
Essa querida serva do Senhor viu aquela pobre jovem vindo daquele jeito, e isso lhe causou uma dor no coração. Ela se sentiu mal. Então falou com a moça.
“Você realmente acha que isso recomenda o seu Mestre? Você realmente pensa que isso transmitirá uma impressão correta do Senhor Jesus? Evidentemente, você declara pertencer a Ele. Quer compartilhá-Lo com o mundo, mas realmente acha que isso transmitirá uma impressão correta do Senhor?”
A moça disse: “Nunca pensei nisso. Nunca me ocorreu. Ninguém jamais me disse nada”.
Bem, o trabalho estava feito. A moça foi trocar de roupa, e tudo ficou acertado. Mas vocês entendem o que quero dizer. Ora, isso não se aplica a nenhum de vocês, mas o princípio se aplica.
Há muitas coisas antigas que precisam desaparecer quando Jesus é revelado no coração. Elas são incompatíveis com o Senhor Jesus. São uma contradição a Ele.
E, se realmente virmos o Senhor Jesus — não apenas nessas coisas às quais fiz referência, mas de muitas outras maneiras —, vamos colocar as coisas em ordem, vocês sabem. Vamos nos desfazer de muitas coisas antigas.
A questão é esta: não podemos realmente ver o Senhor Jesus e continuar vivendo de qualquer maneira que O contradiga. Essa é a mensagem desta carta.
Depois de todo o nosso ensino, o teste é: temos visto? Isso é evidente? É evidente que O temos visto?
É evidente em nosso lar que algo aconteceu em nós? É evidente em nosso local de trabalho?
Não apenas, e às vezes nem sequer, por nossa pregação ou por carregarmos uma Bíblia nas mãos, mas por nós — por nós mesmos, por nossa própria presença ali.
Algo foi feito por Deus em nós. É para isso que estamos aqui, tanto como comunidades do povo do Senhor quanto como indivíduos: tendo este ministério.
Renunciamos às coisas ocultas da desonestidade, pois a desonestidade não condiz com Cristo. Não andamos com astúcia, ou, literalmente, não fazemos comércio da palavra de Deus — usando as coisas divinas para nosso próprio ganho e interesse —, nem tratamos a palavra de Deus de maneira enganosa. Isso é uma contradição!
Mas nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus.
Isso nos põe à prova; isso nos desafia. Agora, vocês tiveram de suportar muita coisa. Tenho realmente lutado para chegar ao cerne disto.
Digo a vocês com toda a franqueza, amigos: tenho ministrado a tantas pessoas em todo o mundo, e fico muito cansado do ministério — muito cansado de ministrar. Muitas vezes desejo que o Senhor me poupe de continuar ministrando, por este motivo.
Parece realmente haver uma distância tão grande entre o conhecimento que essas pessoas têm da verdade divina e a medida em que Cristo Se expressa nelas.
Vocês podem ter toda essa verdade, como é chamada, essa luz, como é denominada, e encontrar tanta coisa que não se parece com Cristo — tanta coisa que não se parece com Cristo nas pessoas que possuem tudo isso.
Elas podem ser cruéis. Podem ser duras, exigentes, como esses coríntios. O que resultou da parte deles? Eles tinham a verdade. Paulo passou dois anos inteiros, dia e noite, derramando sua vida por aquela igreja em Corinto.
Espero que vocês estejam suportando isto e recebendo-o com a graça de Deus, e não de outra maneira.