Oramos novamente, Pai, para que possamos estabelecer nossas prioridades. Meu alvo é o próprio Deus — não isto ou aquilo, nem mesmo bênçãos para nós, mas o próprio Deus.
Pedimos-Te que, nesta noite, possamos realmente receber um toque de Deus em nossa vida. Oramos para que, no caso de muitos aqui, isso seja uma intervenção muito definida de Deus na vida.
Toma a Palavra. Está escrito:
A Tua palavra é como um martelo que esmiúça a penha.
E mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, penetrando até à divisão.
A Tua palavra é lâmpada para os nossos pés e luz para o nosso caminho.
E muitas outras coisas nos dizem que é a Palavra do Senhor, com todos esses significados e valores, que é anunciada aqui nesta noite. Por amor do Teu nome. Amém.
Será que vocês conhecem alguma coisa do capítulo onze do Evangelho de João? Bem, ontem passamos um dia inteiro nele, e estamos muito longe de tê-lo esgotado. Nesta noite, vamos mergulhar nele mais uma vez e ler apenas um pequeno trecho: João 11:38.
Jesus, pois, movendo-Se outra vez muito em Si mesmo, veio ao sepulcro; e era uma caverna, e tinha uma pedra posta sobre ela.
Disse Jesus: Tirai a pedra.
Marta, irmã do defunto, disse-Lhe: Senhor, já cheira mal, porque é já de quatro dias.
Disse-lhe Jesus: Não te hei dito que, se creres, verás a glória de Deus?
Tiraram, pois, a pedra.
E Jesus, levantando os olhos para o céu, disse: Pai, graças Te dou, por Me haveres ouvido. Eu bem sei que sempre Me ouves; mas Eu disse isto por causa da multidão que está em redor, para que creiam que Tu Me enviaste.
E, tendo dito isto, clamou com grande voz: Lázaro, sai para fora.
E o que fora defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço.
Disse-lhes Jesus: Desatai-o e deixai-o ir.
É a última parte que queremos considerar nesta noite:
E o que fora defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas, e o seu rosto envolto num lenço.
Disse-lhes Jesus: Desatai-o e deixai-o ir.
Gostaria apenas de colocar ao lado disso um trecho de João 10:10:
Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.
Dissemos que estamos aqui na presença de Deus manifestado em carne, na Pessoa de Jesus Cristo, Seu Filho. E, estando na presença de Deus, somos levados a conhecer o pensamento de Deus a respeito do homem. O que Jesus diz é a expressão do pensamento de Deus para o homem.
Creio que vocês já aprenderam que aquilo que está escrito em todo este Evangelho de João é mais do que uma narrativa histórica, uma coleção de palavras e atos de Jesus Cristo. Em cada uma dessas palavras e obras, em cada parte, há uma apresentação, de uma maneira ou de outra, de alguma verdade eterna e insondável, porque ela vem de Deus.
Deus é insondável, inescrutável, incompreensível — profundo além da nossa compreensão. Há uma profundidade e uma plenitude que jamais, jamais serão esgotadas, seja no tempo, seja na eternidade. Tudo o que procede de Deus envolve, ou melhor, traz consigo todo esse significado.
Não se trata apenas de linguagem humana. Não são apenas as palavras e as obras de um homem. Cada fragmento contém a imensa profundidade de Deus. Este capítulo, identificado na organização do texto, para nossa conveniência, como João 11, é um exemplo maravilhoso do que acabamos de dizer. Cada versículo vai muito além daquilo que, em si, é dito ou feito. É tão abrangente, tem um alcance tão amplo, é tão cheio de profundidade de significado.
Tenho lido o Evangelho de João e, naturalmente, este capítulo, há mais de sessenta anos, e tenho falado sobre ele muitas vezes, em muitas partes do mundo. Mas continuamos na presença daquilo que está além de nós. Não estou simplesmente lhes dando algo que já foi dito antes. Sempre há alguma coisa que ainda não vimos ou aprendemos.
Agora, isso não significa que vocês nunca tenham visto aquilo que vou dizer nesta noite. O que estou dizendo é que existe aqui uma plenitude tal que, por mais que vocês já tenham visto, ainda há mais daquilo que Deus quer dizer por meio dos fragmentos deste capítulo.
Estamos sempre lutando com nossas limitações para compreender, apreender e expressar adequadamente o que está contido aqui. Alguns de nós somos muito fracos nisso, e sabemos que somos.
Um netinho meu soube que eu vinha aos Estados Unidos. Ele está neste país e disse à mãe: “Para que o vovô está vindo aos Estados Unidos?” Ela respondeu: “Bem, para pregar”. E ele disse: “Para pregar? Ele não é muito bom nisso, é?”
O vovô concorda plenamente. Ah, vocês sabem o que precisam aguentar! Meu neto é quem diz. Ele é mais ou menos deste tamanhinho.
Bem, é assim mesmo, vocês sabem. É exatamente assim que nos sentimos quando chegamos à presença da grandeza divina da Palavra de Deus. Creio que aqueles de vocês que estiveram aqui, especialmente ontem à tarde, perceberam algo da vastidão deste capítulo. Espero que vejamos um pouco mais — de modo algum a plenitude do que está no trecho que acabamos de ler, especialmente em João 11:44.
Antes de chegarmos diretamente a isso, deixem-me dizer apenas uma coisa que considero necessária e que nos conduz até esse ponto. Precisamos reconhecer a perspectiva deste Evangelho.
Em primeiro lugar, há uma perspectiva voltada para o passado. Isto é, João escreveu este Evangelho muitos anos depois de tudo o que nele se encontra ter sido concluído. Tudo já havia terminado no que diz respeito à realização dos acontecimentos relatados. Quando João escreveu, tudo o que está aqui pertencia ao passado. Era algo concluído do ponto de vista histórico. João escreve a partir dessa posição — a perspectiva voltada para o passado.
Mas vocês perceberão que o próprio Evangelho é escrito com uma perspectiva voltada para o futuro. Isto é, tudo foi escrito à luz do dia que haveria de vir. Ouvimos Jesus dizer repetidamente: “Naquele dia, naquele dia, naquele dia”. Quando? Naquele dia.
E isso está relacionado ao dia do Espírito Santo: “Quando Ele vier, naquele dia”. Foi escrito para o dia que viria. E nós estamos vivendo naquele dia — o dia para o qual este Evangelho foi escrito, o dia, a dispensação, do Espírito Santo.
Jesus deixava perfeitamente claro que aquilo que Ele dizia e fazia em carne estava relacionado àquele dia que ainda viria: o dia em que o Espírito Santo inauguraria a presente dispensação. Portanto, este Evangelho foi escrito para nós, precisamente porque vivemos naquele dia.
Talvez vocês estejam perguntando: “Por que isso? Por que ele está dizendo isso?” É simples, é óbvio. Nós sabemos disso, sabemos mesmo? Eu disse isso para que reconheçamos que este versículo, João 11:44, nos pertence. Foi escrito para nós, no dia em que vivemos — este próprio dia da dispensação. Ele nos pertence.
Agora, e quanto à perspectiva deste Evangelho voltada para o passado? Escrito depois de tudo ter sido efetivamente realizado na história, ele apresentava o lado objetivo, e tudo era exterior. Tudo era exterior. Tudo o que Jesus estava fazendo era exterior. Seus significados eram expressos em coisas, maneiras e meios exteriores: o objetivo.
O dia para o qual tudo aquilo, no plano objetivo, foi feito e dito é o dia do subjetivo — quando aquilo é retirado da história exterior e se torna história interior; quando já não é apenas algo fora de nós, mas algo que deve ser implantado dentro de nós.
Esse é o verdadeiro significado, como vocês compreendem, da vinda do Espírito Santo: tomar tudo o que nas Escrituras é objetivo e colocá-lo bem no centro da vida do crente, de modo que se torne parte da própria realidade interior da vida do crente.
Se não reconhecermos essas coisas, podemos perder o rumo ao ler as narrativas e pensar nelas apenas como histórias maravilhosas daquilo que Jesus fez. Esta, em particular — a ressurreição de Lázaro dentre os mortos —, é uma história maravilhosa. Mas ela aconteceu e foi registrada para que se tornasse, em nossa experiência, parte do nosso próprio ser.
Agora, esse é o fundamento sobre o qual construímos o que temos a dizer a respeito de todo este Evangelho. Posso acrescentar mais uma palavra, que espero também ter algum valor para vocês?
À luz do que dissemos, é sempre necessário e importante levar em conta a correspondência entre as Epístolas do Novo Testamento e o Evangelho. Porque, afinal, as Epístolas são a expressão subjetiva do Evangelho objetivo.
Como posso colocar isso de uma maneira que ajude vocês? Bem, vocês leem os Evangelhos. Se quiserem, leiam este capítulo, como veremos ao prosseguir, e verão a história — o relato do que aconteceu, todas as suas partes, suas fases, suas etapas. Muito bem, maravilhoso.
Mas, quando chego às Epístolas, sou informado sobre o significado disso. É ali que recebo a explicação para minha própria vida. Isso continuará sendo história, ocorrida há dois mil anos, até que eu veja o que Deus pretendia que aquilo fosse em minha própria vida. E descubro isso nas Epístolas.
Leiam sempre os Evangelhos dessa maneira dupla: aquilo que está nos Evangelhos é explicado em algum lugar nas Epístolas. Leiam as Epístolas, e vocês dirão: “Isto está explicando o que está no Evangelho”. Portanto, leiam o Novo Testamento dessa maneira.
Precisamos recorrer ao livro de Atos e às Epístolas para encontrar o verdadeiro significado do Evangelho, antes de alcançarmos o verdadeiro valor interior dos Evangelhos.
Agora, depois de dizer tudo isso, chegamos a este versículo em João 11:
E o que fora defunto saiu, tendo as mãos e os pés ligados com faixas.
Como diz a nota à margem: “faixas mortuárias”.
E o seu rosto envolto num lenço.
Disse-lhes Jesus: Desatai-o e deixai-o ir.
Vocês sabem, há uma quantidade imensa de conteúdo no restante do Novo Testamento, depois de João, que está exatamente de acordo com isso, dizendo o que isso significa para nós. Aqui está o que significou para Lázaro e suas irmãs, mas o que aquilo significava, no pensamento de Deus, para nós?
Em primeiro lugar, é possível termos vida pela Palavra de Jesus Cristo — vida de ressurreição, vida divina, aquilo que se chama vida eterna. É possível termos essa vida pela qual fomos trazidos da morte do nosso estado natural para essa novidade de vida, pela ordem soberana do Filho de Deus, e, ainda assim, estarmos limitados em todos os sentidos enquanto a possuímos.
Limitados no ministério: mãos atadas. Limitados no progresso: pés atados. Limitados no entendimento: um pano envolvendo a cabeça. Nenhuma liberdade verdadeira. Essas três coisas estão entre os principais assuntos do ensino dos apóstolos.
Deixem-me repetir, porque isso é muito verdadeiro, e é verdadeiro a respeito de multidões hoje. É um dos problemas do cristianismo. Pessoas, por meio de uma resposta simples à Palavra do Senhor Jesus, nasceram de novo. São Seu povo; são filhos de Deus; têm vida divina.
É perfeitamente possível, e de fato acontece em numerosos casos, que os cristãos tenham o começo da vida cristã — vida real, verdadeira — e, ainda assim, estejam limitados em quase todos os sentidos no que diz respeito a essa vida. Essa vida está limitada neles.
Aqui, o simbolismo é: mãos atadas, pés atados, cabeça envolta. As mãos são os símbolos do ministério, de uma vida frutífera.
Vocês vão me dizer que não há muitos cristãos — cristãos que creem no Senhor Jesus e têm essa fé salvadora no Senhor Jesus — cuja ministração de vida, cuja frutificação, é extremamente limitada? Atados. Amarrados.
Ah, quantos cristãos estão simplesmente amarrados nessa questão da atuação real, do ministério real. E, quando uso essa palavra “ministério”, não estou falando de púlpitos e pregação bíblica. Refiro-me àquela ministração do Senhor Jesus — a ministração do Senhor Jesus.
No capítulo seguinte — e não deveria haver divisões de capítulos; elas existem apenas por conveniência —, Jesus voltou a Betânia, e ali diz que Lhe fizeram uma ceia. Lázaro era um dos que estavam à mesa com Ele.
Pensem em como toda aquela situação teria sido se Lázaro ainda estivesse amarrado em suas faixas mortuárias. Mas não, ele podia compartilhar sua experiência com os outros.
E, se vocês acham que estou tentando tirar alguma coisa de onde não há nada, olhem novamente. Foi naquele momento que os líderes judeus decidiram matar também Lázaro, porque, por causa dele, muitos criam. Por causa dele, muitos criam.
É isso que quero dizer com mãos desatadas — ministério, frutificação. Muitos criam por causa dele. Não é verdade que multidões de cristãos não vivem nessa liberdade de vida em que muitos creem por causa deles? Permanecem cristãos isolados, amarrados.
Mas, no significado das mãos — mãos que frutificam, mãos que servem, mãos que ministram Cristo, mãos do testemunho de Jesus —, eles ainda estão nas faixas mortuárias. É por isso que Jesus disse:
Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.
Lázaro tinha vida — estava vivo —, mas não vida abundante, até ser desatado.
Agora, entrem nas Epístolas e, apenas com esse trecho em mente, vejam quanto há ali a respeito de a vida do crente ser uma vida eficaz, uma vida frutífera, uma vida responsável, uma vida que realmente produz alguma coisa.
De fato, poderíamos dizer que, entre outras coisas, este é um dos principais propósitos de todas as cartas que os apóstolos escreveram: levar esses cristãos… E será que eu já lhes lembrei que mais de noventa por cento do Novo Testamento foi escrito para cristãos? Isso é impressionante, e é desafiador.
Eles escreveram suas cartas aos cristãos para levar esses cristãos, que tinham vida, a tê-la em maior abundância; isto é, a serem desatados nessa questão de sua novidade de vida.
Talvez isso seja suficiente por enquanto. Voltaremos a esse assunto daqui a pouco. O que é verdadeiro quanto ao significado das mãos também é verdadeiro quanto aos pés: mãos e pés atados.
Mais uma vez, não é verdade que muitos, muitos cristãos — sim, cristãos, crentes nascidos de novo — não estão progredindo na vida espiritual, não estão avançando? Talvez vocês os encontrem três, seis ou dez anos depois; tornam a encontrá-los, e eles estão exatamente onde estavam antes. Não avançaram.
São seus pés que estão atados. Não estão avançando. Não estão progredindo espiritualmente. Não estão conquistando terreno. Não estão alcançando o que está adiante. Não estão, para usar a expressão de Paulo, “alcançando”. Há um estado de estagnação espiritual, de enfermidade espiritual — pés atados.
Essa não é a intenção de Deus. Jesus, Deus encarnado, disse: “Deixai-o ir. Desatai-o. Vão, libertem essas pessoas, para que ele possa andar, para que possa correr pelo caminho dos Meus mandamentos”.
Essa é a intenção de Deus para nós. Portanto, não estou apenas afirmando isso; é um desafio quanto à posição em que nos encontramos.
E quanto a essa cabeça, com os olhos cobertos, com a boca coberta? Os olhos, em particular, vêm primeiro. Não é verdade que há muitos que pertencem ao Senhor e que, na realidade, não estão vendo cada vez mais, sempre mais, daquilo que Ele tem para eles e por meio deles?
Muitos cristãos não enxergam além de um palmo à frente dos olhos. É um pequeno mundo no qual vivem, um horizonte muito estreito de percepção espiritual, entendimento, compreensão e conhecimento espiritual. Um mundo pequeno.
Suas cabeças estão envoltas, seus olhos estão cobertos. Eles têm vida, mas é só isso.
Agora, tendo dito essas coisas para indicar o que queremos dizer com as faixas mortuárias que aparecem aqui, mesmo em um único versículo, vamos olhar para isso novamente. Lázaro saiu. Ele tinha vida. Mas, naquele momento em que saiu, ainda estava em contato com o sepulcro — ainda estava, de certa maneira, em contato com a morte.
Ainda havia nele algo que falava do sepulcro e das limitações do sepulcro. Mais uma vez, quais são essas limitações?
Bem, voltemos às nossas Epístolas. Não tenham medo; não vou percorrer todas as Epístolas. Mas lhes darei apenas o suficiente para indicar o que isso significa.
Se vocês abrirem a Primeira Carta aos Coríntios e tiverem algum conhecimento do que está nessa carta, saberão o que queremos dizer com uma marca do sepulcro — a marca do sepulcro ainda sobre cristãos nascidos de novo.
Paulo começa essa carta dirigindo-se a eles como santos. Isso significa aqueles que pertencem ao Senhor. Mas, à medida que ele prossegue escrevendo, uma situação terrível se revela, não é? Eles têm vida, ah, mas não se pode dizer que a têm em abundância. As faixas mortuárias estão sobre eles, e a marca do sepulcro ainda está ali.
Na Primeira Carta aos Coríntios, trata-se da marca do sepulcro nas limitações da vida natural. Cristãos, mas atados e limitados pelos laços da vida natural. Essa é a palavra que o apóstolo usa especificamente:
O homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las.
Isso é limitação, não é? Vocês prosseguem na carta e descobrem que essas pessoas estão simplesmente se comportando como as pessoas do mundo. Seu comportamento, sua conduta, sua maneira de proceder são exatamente os mesmos do mundo.
Alguém cometeu uma injustiça contra outro crente — um crente contra outro — e, aparentemente, isso acontecia em mais de um caso em Corinto. Como resultado, o crente que sofreu a injustiça considerou aquilo um crime, algo que deveria ser corrigido em um tribunal do mundo. Então, levou seu irmão na fé diante do juiz em um tribunal secular.
Exatamente o que o mundo faz. Exatamente o que o mundo faz. Esse é um exemplo de toda uma série de coisas semelhantes que aconteciam em Corinto, algumas piores do que essa.
Divisões:
Há divisões entre vós.
E, quando há divisões entre vocês, não são carnais? Não espirituais — carnais.
Bem, considerem a carta inteira. É uma história terrível de pessoas que têm vida, que pertencem ao Senhor, mas simplesmente se comportam como as outras pessoas, vivendo da maneira como o mundo vive.
Vocês encontrarão as mulheres se comportando como as mulheres do mundo no modo de se vestir. O assunto é abordado em sua postura, em seu comportamento, até mesmo na assembleia. Não estou destacando particularmente as mulheres, mas estou indicando que aqui está o espírito do mundo entre os crentes de Corinto.
Leiam novamente à luz disto: tudo aquilo que ainda os mantém nessa escravidão, nessa limitação de sua vida espiritual — a vida que possuem —, são faixas mortuárias.
Não é de surpreender que o mundo de Corinto não esteja sentindo o impacto do testemunho deles, que a igreja em Corinto não esteja fazendo diferença no mundo, porque o mundo entrou na igreja e em seus membros individualmente.
Nesse sentido, as faixas mortuárias ainda estão sobre eles, por causa das limitações que recaem sobre a vida espiritual quando o natural assume o comando, governa, controla e dirige. Limitações terríveis. Vida espiritual, sim, mas não vida abundante.
Vocês entendem o que quero dizer? O testemunho deles está atado — ainda há algo do sepulcro. E aquela carta aos Coríntios foi escrita com o mesmo espírito, a mesma ideia, a mesma intenção e o mesmo objetivo: “Desatem-nos. Deixem-nos ir”.
Paulo está se esforçando para que esses coríntios sejam desatados como cristãos — desatados, libertados, postos em liberdade para entrar na plenitude da vida que possuem.
Vocês passam de Coríntios para Gálatas, e ninguém que conheça essa carta negará a verdade da afirmação de que aqui vocês estão, de fato, em contato com o sepulcro.
Vocês sabem do que trata toda a Carta aos Gálatas, não sabem? Conhecem as duas palavras que se destacam, não conhecem? Liberdade. Liberdade.
Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou, e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão.
Filiação — não servidão e escravidão, mas filiação, a liberdade dos filhos. Essas são as duas grandes palavras dessa carta.
Mas quais são as faixas mortuárias ali na Galácia? São as faixas mortuárias da tradição, do legalismo e de todas essas coisas.
Sabem, queridos amigos, é muito, muito fácil ficar amarrado nessas faixas mortuárias. O perigo persistente do cristianismo, ao longo dos séculos, é cristalizar-se em algo estabelecido, algo fixo.
Vocês recebem alguma luz, alguma revelação, algo da imensa verdade — um fragmento dela. Não demora muito para começarem a transformar aquilo em um sistema fixo e fazer dele o limite, dizendo: “É nisto que vocês devem crer. Vocês precisam permanecer dentro deste horizonte e precisam se comportar assim”.
Aquilo se torna um grande sistema de “vocês devem” e “vocês não devem”, e não há diferença entre isso e o Antigo Testamento: “Farás” e “não farás”. O cristianismo caiu nesse padrão e continua fazendo isso: delimitando a grande revelação, tornando Cristo menor do que Ele é.
Cristalizando a verdade em algo fixo e estabelecido: “É assim”. E o significado é: “Isto é o limite final”.
Agora, vocês percebem que, quando o Espírito veio, como temos registrado no livro de Atos, uma coisa que aqueles antigos discípulos judeus experimentaram foi uma maravilhosa libertação daquela escravidão — o judaísmo.
O Espírito Santo estava atuando o tempo todo contra quaisquer barreiras fixas. Pedro argumentava que era judeu de nascimento, de criação e até a raiz, e que nada imundo jamais havia entrado em sua boca, de acordo com Levítico 11.
Muito bem, Pedro, você está impondo sua interpretação às Escrituras e está impondo seus limites àquilo que Cristo fez por Sua cruz.
Não faças tu comum ao que Deus purificou.
O Espírito Santo reagiu ao tradicionalismo, ao legalismo, à limitação e à escravidão de Pedro, e o fez ir e fazer o que jamais teria feito de outra maneira.
Como, vez após vez, até sua morte, se cumpriram as palavras que o Senhor Jesus lhe disse no último capítulo deste Evangelho:
Quando eras mais moço, te cingias a ti mesmo, e andavas por onde querias; mas, quando já fores velho, estenderás as tuas mãos, e outro te cingirá, e te levará para onde tu não queiras.
Esse princípio estava sendo aplicado no caso de Cornélio e sua casa, em Cesareia — o gentio. Pedro foi levado a ir para onde não queria. Ele dizia: “De modo nenhum, Senhor”. O Senhor dizia: “Sim, Pedro”.
Para onde tu não queiras.
A reação do céu a essa limitação legalista — as faixas mortuárias sobre um apóstolo.
Essa não foi a única batalha que Pedro enfrentou nessa questão. Não nos deteremos nisso. Leiam novamente, e então João diz que, quando o Senhor Jesus disse aquilo a Pedro, Ele indicou com que tipo de morte Pedro glorificaria a Deus.
Não temos o relato dessa forma de morte, mas Pedro, anos depois, escreveu e disse:
Brevemente hei de deixar este meu tabernáculo, como também nosso Senhor Jesus Cristo já mo tem revelado.
Como o Senhor Jesus lhe havia revelado: outro te cingirá.
A tradição diz que Pedro foi crucificado. Crucificado. Somente judeus podiam ser crucificados pelos gentios. Como Paulo tinha cidadania romana, não o crucificaram; executaram-no por decapitação.
Pedro foi escolhido para esse tipo de morte, assim como seu Senhor morreu, conforme o Senhor lhe havia mostrado. Foi cingido por outro e levado para onde não escolheria ir.
Mas o caminho do Espírito é o caminho que vai contra nossas limitações, nossas vestes de morte. Ele nos leva aonde jamais teríamos pensado em ir. De fato, nossa teologia não aceitaria esse caminho. Nossa doutrina, talvez, pudesse ser contrária a ele. Nossa tradição o proibiria. Mas o Espírito Santo diz: “Este é o caminho. Desatai-o. Deixai-o ir”.
Isso é Gálatas, não é? Eu lhes disse que vocês precisam das Epístolas para explicar o Evangelho, e um único versículo do Evangelho contém tudo isso.
Apresso-me a concluir com mais uma coisa. Vocês passam para a Carta aos Efésios.
Depois de passar pelo desatar das mãos em Coríntios e pelo desatar dos pés na Galácia — para andar em liberdade, para permanecer firmes na liberdade —, agora vocês chegam à cabeça em Efésios: a retirada do lenço da cabeça em Efésios, feita de modo completo, tremendo.
Efésios trata do lenço em volta da cabeça. O que queremos dizer com “em volta da cabeça”? Paulo mal começa essa carta e já se curva em oração diante do Pai da glória:
Para que vos dê… o espírito de sabedoria e de revelação no conhecimento Dele;
Tendo iluminados os olhos do vosso coração, para que saibais qual seja a esperança da Sua vocação, e quais as riquezas da glória da Sua herança nos santos;
E qual a sobre-excelente grandeza do Seu poder sobre nós, os que cremos.
“Para que saibais.” Os olhos do entendimento de vocês iluminados; o lenço retirado da cabeça. É uma revelação maravilhosa, esta Carta aos Efésios — como é grandiosa no que diz respeito aos olhos do coração serem descobertos, desatados.
Ela trata da grandeza do chamado e da vocação do povo de Deus, da imensidão daquilo para o que foram trazidos à união com Seu Filho. Como é grande. Como é grande. Está além de toda a nossa capacidade de compreensão — acreditem, não é exagero.
“Para que saibais.” Há um pequeno prefixo ausente em nossa tradução que é a chave de tudo. O apóstolo diz: “Para que saibais”. Nós sabemos.
No Novo Testamento, essa palavra nos é apresentada em sua forma simples e em sua forma composta. Isso não aparece em nossa tradução, mas é simplesmente o seguinte: o conhecer, em si, é aplicado ao nosso conhecimento inicial do Senhor.
Para usar as palavras de João:
E a vida eterna é esta: que Te conheçam, a Ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a Quem enviaste.
Esse conhecimento é vida — a entrada na vida, o recebimento da vida divina. Mas, quando Paulo fala de conhecer, ele usa uma palavra grega composta que não temos em nossa tradução: epignosis, pleno conhecimento.
Vocês sabem, esses efésios conheciam. Durante dois anos, Paulo não cessou de lhes pregar todo o conselho de Deus. Eles conheciam, e, com base no conhecimento inicial, tinham vindo ao Senhor. Mas agora ele está orando, no fim de sua vida, de sua prisão, para que cheguem ao pleno conhecimento.
Pleno conhecimento. É mais do que vida; é vida abundante. Mais do que ver; é ver com toda a amplitude do propósito e do significado divinos para nosso chamado e nossos direitos celestiais.
Vocês vão me dizer que todos os cristãos são assim? Mas não há muitos — tenho alguns neste próprio lugar — que, embora tenham vida no Senhor, estão com um lenço em volta da cabeça, obscurecendo sua visão espiritual, limitando sua visão espiritual, reduzindo o alcance de sua compreensão do grande propósito de seu chamado?
A verdadeira revelação, queridos amigos, não é, como tenho procurado expressar, apenas informação. É libertação. É libertação.
Ser salvo, e salvo de modo pleno e maravilhoso, é ser libertado. Vocês costumam dizer a respeito desse homem, Paulo: não havia nada na terra, nem no inferno, nem qualquer combinação de ambos, que pudesse transformar aquele fariseu furioso e fanático no maior amigo que Jesus Cristo já teve.
Aquela luz do céu — nada teria feito isso a não ser ela. Aquela luz do céu, e o lenço retirado: um homem liberto, percorrendo livremente toda a grandeza de Jesus Cristo.
Creio que podemos ver que um único versículo de todo o Evangelho de João contém a Bíblia: o pensamento de Deus para o homem, a plenitude de Deus para Seu povo.
“Desatai-o.” Ele tem vida, mas desatem-no. Deixem-no ir.
Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.