Estamos prosseguindo neste grande assunto que o Senhor tem procurado colocar diante de nós nestes dias. Nesta noite, vamos destacar uma parte desse assunto.
Permitam-me recordar a verdade que governa tudo o que estamos considerando. Precisamos ter absoluta clareza quanto ao que Deus está fazendo de modo particular neste momento da história do mundo e, portanto, quanto àquilo para o qual nós, que pertencemos ao Senhor, somos chamados.
O que Deus está fazendo nesta dispensação é formar um Israel espiritual e celestial. Ao fazer isso, Ele está reproduzindo, de maneira espiritual, as leis do Israel terreno. Ele está seguindo as mesmas linhas de Sua maneira de agir com o antigo Israel, mas agora sobre uma base celestial, e não terrena.
Ele deixou a base terrena do Antigo Testamento e passou a uma base celestial no Novo Testamento. Ele passou do temporal para o espiritual, e o espiritual é muito maior do que o temporal.
Bem, vamos ver isso nesta noite no Evangelho de João. Esse Evangelho está em plena unidade com a carta aos Hebreus, porque é uma parte de tudo aquilo que o Novo Testamento representa.
O Evangelho de João expressa essa questão do Israel espiritual de maneira maravilhosa. Há duas coisas muito claras nesse Evangelho: uma é o contexto judaico; a outra é a realidade espiritual por trás desse contexto judaico. O contexto judaico é trazido para o primeiro plano e serve de base para toda a dispensação.
Bem, vamos examinar isso. Tenho diante de mim dezesseis aspectos do contexto judaico deste Evangelho de João, mas prometo que respeitarei o tempo. Consideraremos tantos quantos forem possíveis nesta noite.
Observamos, em primeiro lugar, que, mais uma vez, assim como na carta aos Hebreus, a introdução e a apresentação são as do Filho de Deus.
Nesse novo movimento de Deus em direção ao Israel celestial, Seu Filho está bem à entrada. Todos conhecemos esta maravilhosa apresentação do Filho de Deus no início do Evangelho de João:
No princípio era o Verbo,
e o Verbo estava com Deus,
e o Verbo era Deus.Ele estava no princípio com Deus.
Todas as coisas foram feitas por intermédio Dele;
e, sem Ele, nada do que foi feito se fez.— João 1:1-3
E há mais do que isso, como vocês podem ver. O ponto é que Deus fundamentou a dispensação em Seu Filho. O Filho de Deus é o fator que governa toda esta dispensação.
Agora passamos ao que chamei de contexto judaico de Cristo. A primeira das dezesseis figuras que tenho diante de mim é Jesus como o Cordeiro de Deus.
Em João 1:29:
No dia seguinte, João viu Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo.
E novamente:
E, vendo passar a Jesus, disse: Eis o Cordeiro de Deus.
— João 1:36
Ora, sabemos que todo o sistema judaico foi edificado em torno do cordeiro pascal. O cordeiro era a própria base de tudo em Israel. O cordeiro pascal os constituiu como nação, e o sangue do cordeiro foi o maior fator governante em toda a sua história.
Seria impossível contar os cordeiros que foram oferecidos em Israel ao longo daqueles muitos séculos. Teriam sido muitos milhões de cordeiros mortos. Teria havido um oceano de sangue de todos aqueles cordeiros.
E agora João contempla Jesus e diz:
O Cordeiro.
Este é o Cordeiro de Deus:
Eis o Cordeiro de Deus.
Assim, ele distingue Jesus, identifica-O como o Cordeiro único — o único Cordeiro para o qual todos aqueles milhões de cordeiros sempre apontaram.
Assim como o sangue do cordeiro era o fundamento do antigo Israel terreno, sabemos que este Cordeiro de Deus é o próprio fundamento de toda a nossa vida cristã. Portanto, Jesus é o fundamento desta dispensação.
No cenáculo, em Jerusalém, Jesus estabeleceu, na Páscoa, o fundamento da igreja para esta dispensação. Embora existam outros aspectos da vida da igreja, o aspecto central é a mesa do Senhor. Tudo se centraliza nessa mesa. Tudo se reúne em torno dessa mesa. Tudo procede dessa mesa.
Se vocês tivessem entrado em qualquer assembleia do povo do Senhor, em qualquer parte do mundo, nos tempos do Novo Testamento, poderiam ter encontrado coisas diferentes em assembleias diferentes. Mas teriam encontrado uma coisa que era igual em todas elas: ali estava a mesa do Senhor, o Cordeiro de Deus no centro de tudo.
Observem que, desde o princípio, Deus toma o princípio do que é terreno e o torna a realidade espiritual do novo. Aquilo que era terreno e temporal no antigo Israel agora é celestial e espiritual no novo Israel.
Agora examinamos novamente João 1:43:
No dia seguinte, quis Ele partir para a Galileia e achou Filipe; e disse-lhe Jesus: Segue-Me.
Filipe disse:
Havemos achado Aquele de Quem Moisés escreveu na lei, e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José.
— João 1:45
Essa é a primeira parte do contexto judaico: Moisés e os profetas. Mas prossigamos. Natanael lhe disse:
Pode vir alguma coisa boa de Nazaré?
— João 1:46
Jesus viu Natanael vindo para Ele e disse:
Eis aqui um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!
— João 1:47
Natanael Lhe disse:
De onde me conheces Tu?
Jesus respondeu:
Antes que Filipe te chamasse, te vi Eu, estando tu debaixo da figueira.
— João 1:48
Natanael Lhe respondeu:
Rabi, Tu és o Filho de Deus; Tu és o Rei de Israel.
— João 1:49
Jesus respondeu e lhe disse:
Porque te disse: Vi-te debaixo da figueira, crês? Coisas maiores do que estas verás.
E disse-lhe:
Na verdade, na verdade vos digo que vereis o céu aberto, e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem.
— João 1:51
É necessário mostrar a vocês que há bastante do Antigo Testamento judaico nessa imagem? Moisés e os profetas, o israelita em quem não há dolo e a escada de Jacó — tudo está ali.
Penso que Ele está dizendo: “Há uma transição daquele antigo para um novo, e essa transição está em Mim mesmo. Os profetas e Moisés falam de Mim”. O israelita não é o Jacó em quem há dolo.
Mas o pensamento realmente central nesta parte diz respeito ao céu fechado e ao céu aberto. Quando Jesus disse a Natanael:
Vereis o céu aberto.
Ele estava apontando para uma dispensação inteiramente nova.
A característica marcante do sistema judaico do Antigo Testamento era um céu fechado. Na antiga dispensação, qualquer pessoa que entrasse na presença de Deus o fazia sob pena de morte.
Que lugar terrível era aquele — o monte onde Deus estava! Havia trovões, relâmpagos e terremotos. Até Moisés disse:
Estou todo assombrado e tremendo.
— Hebreus 12:21
O povo foi advertido de que não deveria se aproximar. Foi dito que, se até mesmo um animal tocasse o monte, deveria morrer. Todo aquele sistema, aquela dispensação, estava dizendo: “Não entrem”.
Entrem onde Deus está, e vocês morrerão. Um céu fechado: nenhum caminho para o povo entrar na presença de Deus. Tudo dizia: “Fiquem de fora”. As pessoas sabiam que entrar na presença de Deus era algo terrível. Significava morte.
O sumo sacerdote precisava de uma provisão muito especial para entrar no Santo dos Santos e, ao estabelecer essa provisão, Deus disse: “Para que não morra”. Assim, o sistema judaico era um sistema de juízo e morte — um sistema de céus fechados. Não havia passagem para o homem.
Mas então Jesus disse:
Vereis o céu aberto.
O caminho entre o céu e a terra, entre Deus e o homem, fica desimpedido. Por Seu próprio sangue, Ele abriria o céu para que o homem pudesse entrar nele.
Portanto, podemos chegar a Ele pelo novo e vivo caminho que Ele abriu para nós em Seu sangue. Jesus disse:
Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por Mim.
— João 14:6
Assim, a segunda imagem judaica é um céu fechado. A segunda característica do Novo Testamento é um céu aberto, e estamos desfrutando disso nesta noite.
Não ficamos do lado de fora, com medo e tremor, perguntando se talvez ousaríamos nos aproximar. Podemos chegar com confiança ao trono da graça. Ah, esta nova dispensação é melhor! Este novo Israel tem privilégios que o antigo nunca teve.
É isso que Deus está fazendo nesta dispensação. Ele o fez em Seu Filho, e muitos, muitos que antes estavam excluídos agora estão encontrando o caminho para entrar. Deus providenciou para todos um caminho aberto em Seu Filho, Jesus Cristo.
Passamos a João 2. Nos primeiros onze versículos, que não leremos na íntegra, temos o relato das bodas em Caná da Galileia.
Houve um casamento em Caná da Galileia. A mãe de Jesus estava ali. Jesus e Seus discípulos também foram convidados para o casamento. Então o vinho acabou. A mãe de Jesus Lhe disse:
Não têm vinho.
A mãe de Jesus disse aos serventes:
Fazei tudo quanto Ele vos disser.
— João 2:5
Quando Jesus soube em Seu coração que havia chegado o momento do Pai — e esse era um fator muito importante —, Ele agiu. Lembrem-se de que Jesus nunca agia por motivo algum sem saber que Seu Pai queria que Ele agisse, e Ele esperava por isso.
Em Seu coração, o Pai disse: “Sim, prossiga”. Ele disse aos serventes:
Enchei de água as talhas.
E eles as encheram até a borda. Ele disse:
Tirai agora e levai ao mestre-sala.
Quando o mestre-sala provou a água transformada em vinho e não sabia de onde viera — embora os serventes que haviam tirado a água soubessem —, chamou o noivo.
E lhe disse:
Todo homem põe primeiro o vinho bom; e, quando já têm bebido bem, então o inferior; mas tu guardaste até agora o bom vinho.
— João 2:10
Agora, onde está o contexto judaico? Dissemos ontem de manhã, à mesa do Senhor, que a mesa do Senhor, entre outras coisas, representa o casamento do Senhor com Seu povo.
No Antigo Testamento, foi uma aliança de casamento que se estabeleceu na Páscoa. Jeremias 31:31 fala do dia em que o Senhor os tomou pela mão e Se tornou marido deles. Isso aconteceu na noite da Páscoa.
Ora, Jesus sabia o que estava fazendo em Caná. Ah, quantas vezes ouvimos as pessoas dizerem que Jesus tinha uma disposição sociável e que, por isso, naturalmente ficava muito contente em comparecer a casamentos! Esse não é o significado aqui. Jesus sempre agia sobre bases espirituais.
O casamento entre Deus e Israel havia fracassado. Israel havia violado os termos da aliança de casamento com o Senhor. Como disseram os profetas, Israel havia se tornado uma nação adúltera. Eles haviam seguido outros deuses e quebrado sua aliança com o Senhor.
O casamento fracassou. Aqui, vocês têm isso representado em figuras. Não sei o que estava acontecendo por trás disso, mas, com base em muitas outras coisas, podemos concluir que Deus estava por trás dessa falta de vinho.
Por causa do significado espiritual, o vinho precisava acabar. Ele representa o antigo relacionamento conjugal que havia fracassado. Indica que aquele relacionamento chegou ao fim. É necessário haver um novo casamento, e é necessário haver uma nova ceia das bodas do Cordeiro.
O antigo casamento fracassou. A salvação do relacionamento conjugal entre Deus e Seu povo está somente em Jesus. Foi Ele Quem salvou a situação aqui, e todos sabiam que algo muito maravilhoso e sobrenatural havia acontecido.
Isso não era natural. Era celestial. Era sobrenatural. Assim também é esse relacionamento conjugal entre Cristo e Sua igreja.
Há uma passagem do antigo Israel, que fracassou e foi posto de lado, para um novo Israel, que vive pela vida de Jesus Cristo.
Examinemos agora o ponto seguinte. Este é o quarto da série: João 2:13.
E estava próxima a Páscoa dos judeus, e Jesus subiu a Jerusalém.
E achou no templo os que vendiam bois, ovelhas e pombas, e os cambistas assentados.
E, tendo feito um azorrague de cordéis, lançou todos fora do templo, também as ovelhas e os bois;
e espalhou o dinheiro dos cambistas, e derribou as mesas;
e disse aos que vendiam pombas: Tirai daqui estes, e não façais da casa de Meu Pai casa de venda.— João 2:13-16
Seus discípulos se lembraram de que estava escrito:
O zelo da Tua casa Me devorará.
— João 2:17
Os judeus responderam e Lhe disseram:
Que sinal nos mostras para fazeres estas coisas?
Jesus respondeu e lhes disse:
Derribai este templo, e em três dias o levantarei.
— João 2:19
Disseram, pois, os judeus:
Em quarenta e seis anos foi edificado este templo, e Tu o levantarás em três dias?
Mas Ele falava do templo de Seu corpo. Quando, pois, ressuscitou dentre os mortos, Seus discípulos se lembraram de que Ele havia dito isso.
Não é necessário apontar o contexto judaico. O templo ocupa o centro desse contexto. Para eles, o templo em Jerusalém representava tudo.
Jesus é favorável à destruição daquele templo, e Jesus é Quem substitui aquele templo. Ele disse em outra passagem que não ficaria pedra sobre pedra. Mas o que ocupará seu lugar? Deus precisa ter um templo.
Jesus disse: “Eu sou o templo da nova dispensação. Vou tomar o lugar deste templo do Antigo Testamento e vou ser tudo o que aquele templo representava, mas de maneira mais plena e melhor”.
“O templo era o lugar onde os homens pensavam que encontrariam Deus. Os homens encontrarão Deus em Mim de uma maneira mais real do que aquela. O templo era o lugar ao qual as pessoas iam para ser ensinadas acerca de Deus. Elas aprenderão mais sobre Deus em Mim do que jamais aprenderam naquele templo.”
“O templo era o lugar ao qual os homens iam para adorar a Deus. Será em Mim que os homens entrarão em contato com Deus para adorá-Lo.”
Isso significa aquela maravilhosa revelação que temos no Novo Testamento: Cristo e todos os Seus membros sendo constituídos um só templo para Deus. Cristo é o nosso templo.
Nele, encontramos tudo o que um templo deveria ser. Mas há pessoas que se desviaram quanto a isso. Vou a muitos lugares chamados igrejas, e essa palavra é aplicada ao edifício.
Quando vocês ouvem as pessoas orando nesses lugares, elas geralmente dizem algo assim: “Viemos à Tua casa hoje. Estamos felizes por estar neste lugar, a casa de Deus”. E estão falando do edifício.
Meu querido amigo, você não precisa de um edifício especial para dar a Deus um templo.
Onde estiverem dois ou três reunidos em Meu nome, aí estou Eu no meio deles.
— Mateus 18:20
As pessoas reunidas em Jesus Cristo constituem o templo de Deus. Não é um edifício especial; são pessoas que estão em Cristo Jesus.
É isso que Deus está fazendo nesta dispensação. Muitas pessoas perderam seus edifícios especiais. Muitas não têm permissão para se reunir em edifícios especiais. Mas estão se reunindo, duas ou três, em algum lugar escondido, e desfrutam de todos os privilégios da casa de Deus porque o Senhor está ali.
O templo agora é Cristo e aqueles que estão em união com Ele. Assim, Ele disse, dessa maneira que eles não compreenderam:
Derribai este templo, e em três dias o levantarei.
Cristo, em ressurreição, é o templo desta dispensação.
Fico pensando se, por dentro, Cristo sorria quando disse isso. Ele sabia que estava deixando-os perplexos. Sabia o que eles diriam:
Em quarenta e seis anos foi edificado este templo.
Parecia que Ele os havia induzido deliberadamente ao erro, mas estava conduzindo-os à natureza desta nova dispensação.
Chegamos apenas ao quarto de dezesseis pontos. Tenho dez minutos restantes e vou considerar mais um. João 3 — e todos conhecem João 3.
E havia entre os fariseus um homem chamado Nicodemos, príncipe dos judeus.
— João 3:1
Vocês conhecem o restante da história de Nicodemos? Não vou ler tudo agora. O que temos aqui em Nicodemos? Certamente temos um representante do antigo Israel.
Ele pertence à seita dos fariseus. Eles afirmavam ser muito representativos, e ele é um dos principais dos judeus. Portanto, ele representa Israel. É um filho de Abraão segundo a carne. É a personificação de Abraão segundo a carne.
O que o Senhor Jesus lhe diz? Ele é um filho de Abraão, um representante que abrange os filhos de Abraão segundo a carne; também é uma personificação de Israel. “Olho para você, Nicodemos, e para toda a descendência de Abraão segundo a carne que você representa.”
“E, Nicodemos, nessa condição de representante, você precisa nascer de novo.”
A descendência de Abraão segundo a carne não tem lugar no reino de Deus. Vocês sabem, esse é o argumento de Paulo em suas cartas aos Romanos e aos Gálatas:
Nem todos os que são de Israel são israelitas.
— Romanos 9:6
Há o que é natural e há o que é espiritual. Jesus estava dizendo a Nicodemos, em sua condição de representante, que a descendência natural de Abraão não tem lugar. Ele precisa nascer de novo. É necessário haver uma descendência segundo o Espírito.
Em outras palavras, é necessário haver um novo Israel, espiritual e celestial.
O que é nascido da carne é carne;
e o que é nascido do Espírito é espírito.— João 3:6
Nenhuma carne subsiste diante de Deus. Portanto, Eu lhe disse:
Necessário vos é nascer de novo.
O novo Israel nesta dispensação é o Israel daqueles que nasceram do alto.
Estes não são apenas filhos de Abraão; são filhos de Deus.
Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que creem no Seu nome.
— João 1:12
Há uma enorme diferença entre os filhos de Abraão segundo a carne e os filhos de Deus segundo o Espírito. E não é apenas uma grande diferença; trata-se de uma espécie inteiramente diferente — uma raça superior, um povo celestial.
Bem, com o quinto ponto precisamos encerrar nesta noite e prosseguir, talvez, se o Senhor quiser, amanhã à noite.