Muitas vezes tenho sido profundamente consolado pelas palavras da Escritura que dizem:
Ele Se lembra de que somos pó.
E, se o Senhor Se lembra de que somos pó, tenho plena certeza de que Ele quer que nós também nos lembremos disso. Tivemos um dia pesado hoje. Chega um momento em que já estamos quase no limite do que conseguimos suportar.
Por isso, sinto que, nesta noite, devo seguir uma linha um pouco mais leve — sem me aprofundar no assunto que temos diante de nós nestes dias — e apenas falar de maneira simples, para encorajar o povo do Senhor nesta vocação celestial.
Posso lembrá-los destas palavras fundamentais:
Santos irmãos, participantes da vocação celestial.
E agora os convido a abrir a carta aos Hebreus, em Hebreus 10:35-36:
Não rejeiteis, pois, a vossa confiança,
que tem grande galardão.
Porque necessitais de paciência,
para que, depois de haverdes feito a vontade de Deus,
possais alcançar a promessa.
Às vezes, os companheiros da vocação celestial ficam um pouco cansados e precisam de palavras como estas:
Não rejeiteis a vossa confiança,
que tem grande galardão.
Esses cristãos hebreus corriam esse perigo. Por várias razões, estavam em perigo de abandonar a sua confiança.
A todo momento, eram persuadidos a seguir um caminho mais fácil, a se contentar com algo menor do que aquilo para o qual estavam sendo chamados: simplesmente se acomodar à religião histórica — religiões, credos e símbolos sem vida —, a tudo aquilo que constituía o judaísmo do Antigo Testamento.
Essas pessoas diziam: “Por que vocês se preocupam tanto com esse caminho ascendente, celestial? Contentem-se em ir à igreja quando for hora de ir à igreja, em levar suas ofertas quando for hora de levar ofertas e em cumprir todo o ritual estabelecido do templo. Contentem-se com essa rotina. Não se preocupem tanto com essa vida mais elevada. Deixem tudo isso de lado e se contentem com uma vida religiosa comum”.
E, considerando que esses cristãos estavam sofrendo muito por causa do mundo, essa era uma tentação muito real. Vocês lerão nesta carta que, quando tomaram sua decisão pelo Senhor Jesus, sofreram muito nas mãos do mundo.
O mundo se voltou contra eles, e eles perderam tudo. Estavam passando por um período difícil. Portanto, o convite a levar as coisas com mais facilidade era uma tentação muito real.
Além disso, corriam o perigo de não prosseguir. Vocês percebem como a carta insiste, vez após vez:
Prossigamos.
Não olhemos para trás, nem fiquemos parados. Esses eram os perigos que enfrentavam.
Por isso, o escritor lhes deu esta palavra de conselho:
Não rejeiteis a vossa confiança.
Essa é a palavra adequada para essas situações. A confiança tem grande galardão.
Mas uma coisa é simplesmente dizer algo assim: “Ah, irmãos, não desistam. Ah, irmão, aguente firme. Ah, irmão, não abandone a sua confiança. Ah, irmão, continue prosseguindo”.
Bem, isso está certo, mas, na verdade, não é suficiente. É preciso algo mais.
Por isso, o Espírito Santo, por meio do escritor desta carta, mostra o fundamento sobre o qual devemos continuar prosseguindo. A maneira de enfrentar uma situação como essa é uma nova e maravilhosa revelação da glória e da grandeza de Jesus Cristo.
Observem como a primeira parte da carta é uma gloriosa revelação da grandeza do Senhor Jesus. E tudo isso é dito para levar essas pessoas a encontrar verdadeira satisfação no Senhor Jesus.
Não há nada como estar satisfeito com algo para ser liberto da insatisfação. É maravilhoso ver pessoas que demonstram estar satisfeitas com o Senhor. Isso é maravilhoso para essas próprias pessoas, mas também é maravilhoso para os outros.
Agora vou compartilhar um pouco do meu testemunho pessoal. Vocês vão me prometer uma coisa: que não vão pensar que estou tentando chamar atenção para mim mesmo, ou que me considero alguém muito importante. Aqueles que melhor me conhecem jamais pensariam isso de mim.
Não, estou tentando ajudar, apenas abordando alguns princípios da vida de vitória. Quero dizer algo sobre minha experiência cristã inicial. Acho que pouquíssimas pessoas me ouviram falar disso antes.
Minha esperança é que isso ajude especialmente os cristãos mais jovens que estão aqui nesta noite. E, se também se aplicar aos mais velhos, bem, se a carapuça servir, usem-na.
Quando eu era um jovem, no final da adolescência, embora tivesse uma mãe muito piedosa, que orava muito por mim e que, desde a infância, me ensinara sobre o Senhor, chegou um tempo em que eu estava longe de ser feliz.
Eu conhecia o cristianismo, mas não me alegrava no Senhor. Na verdade, eu era uma pessoa muito infeliz.
Eu morava na cidade de Glasgow e, numa noite de domingo, muito infeliz, resolvi sair para caminhar. Não sabia para onde estava indo. Simplesmente saí e comecei a andar pela rua.
Depois de caminhar por uns quinze minutos, ouvi pessoas cantando ao longe. Ao prestar atenção, percebi que era um hino que eu conhecia. Resolvi seguir na direção de onde vinha o canto.
Fui chegando cada vez mais perto, e o canto se tornava cada vez mais forte. Por fim, cheguei ao lugar de onde ele vinha: um ponto onde cinco ruas se encontravam.
Bem no centro havia um grande poste com cinco luminárias. Ao redor dele, um grupo de pessoas formava um círculo, e havia uma grande multidão que se estendia em todas as direções. As pessoas que estavam no centro cantavam hinos.
Comecei a esquecer que estava tão infeliz e fui abrindo caminho para chegar cada vez mais perto.
Quando a reunião terminou, descobri que eram trabalhadores muito comuns: homens que carregavam os navios, homens que conduziam carroças pelas ruas, e homens e mulheres que trabalhavam nas fábricas. Mas como eram felizes! Como estavam satisfeitos!
Foi justamente essa satisfação que tocou meu coração. Eles se alegravam no Senhor Jesus.
Ora, eu não era ninguém importante. Era apenas um jovem de dezessete anos. Mas aquelas pessoas estavam livres de si mesmas, porque estavam tão ocupadas com o Senhor Jesus.
Eu vivia preso ao meu próprio eu infeliz, porque não conhecia a alegria que eles tinham no Senhor Jesus. A alegria deles no Senhor Jesus me libertou daquele meu eu infeliz e me fez sair de mim mesmo, de modo que passei a encontrar satisfação no Senhor Jesus.
Bem, essa não é a história toda, mas é um começo muito bom.
Vejam, quando voltamos a esta carta aos Hebreus, é exatamente essa a situação que encontramos. As pessoas estavam perdendo a alegria. Talvez já a tivessem perdido.
Segundo esta carta, houve dias em que provavelmente se alegravam no Senhor. E a Bíblia diz: “Olhem novamente para o Senhor Jesus. Tirem os olhos de vocês mesmos. Tirem os olhos dos seus problemas. Olhem para Ele”.
E então Ele apresenta esse maravilhoso retrato do Senhor Jesus. Aí está algo para contemplar, e isso será o começo da salvação de vocês como cristãos.
Agora vou continuar o testemunho. O Senhor havia conquistado a primeira vitória nessa direção e, por meio da satisfação que esses cristãos encontravam nEle, havia me levado à mesma satisfação.
Não demorou muito para que eu estivesse bem no meio daquele círculo, dando meu testemunho. Receio que tenha sido uma tentativa muito fraca. Eu estava muito nervoso e, por mais que tente, não consigo me lembrar do que disse.
Mas, ainda assim, eu me soltei, e essa foi a segunda grande experiência da minha vida cristã. Ao entrar naquele círculo, comprometer-me com o Senhor e dar meu testemunho, tornei-me um homem completamente livre.
Eu estivera inteiramente fechado em mim mesmo, na prisão do meu próprio eu. Naquela noite, quando falei aos outros sobre o Senhor Jesus — quando disse a todas aquelas pessoas o que o Senhor Jesus significava para mim —, fiquei completamente livre.
Daquele dia em diante, continuei testemunhando do Senhor Jesus. Às vezes, chegava a falar em cinco reuniões ao ar livre numa única semana.
Agora, não pensem em mim. Pensem no princípio: vocês se comprometem e deixam que as pessoas saibam disso, e serão libertos.
Digam às outras pessoas o que o Senhor Jesus é para vocês, e descobrirão que isso tem um maravilhoso efeito libertador na própria vida de vocês.
Ora, isso tem fundamento no Novo Testamento:
Se creres em teu coração,
e confessares com a tua boca,
o Senhor Jesus—
Eu sei como isso é elementar. Mas, queridos amigos, há momentos, mesmo na vida de cristãos maduros, em que eles ficam em silêncio, em que seus desânimos e todos os seus problemas lhes fecham os lábios.
Então, mais uma vez, ficam inteiramente fechados em si mesmos. O único caminho de libertação é assumir um compromisso e declará-lo: “Vou prosseguir com o Senhor. Há desânimo dentro de mim; há desânimo nas minhas circunstâncias; mas vou prosseguir com o Senhor pela Sua graça”.
Deixem que as pessoas saibam disso, e esse será o caminho da sua salvação. Por isso, a carta diz a essas pessoas:
Prossigamos.
Mas isso ainda não é tudo sobre o testemunho. O próximo ponto é um pouco mais difícil para mim. Mais uma vez, não é porque eu me considere alguém importante.
Muitos de vocês sabem que o Senhor me concedeu um ministério muito amplo ao longo destes muitos anos, em várias partes do mundo. Não sei qual é o seu valor. Não cabe a mim fazer qualquer avaliação a respeito disso. Somente o céu revelará qual tem sido esse valor.
Agora, este é o meu ponto: um grupo fiel de pessoas, cujas vidas eram duras e difíceis, mas que se alegravam no Senhor, foi o começo desse ministério mundial.
O que quero dizer é que vocês nunca sabem até onde o seu testemunho fiel vai chegar. Não sei o que aconteceu com todas aquelas pessoas. Depois disso, perdi o contato com elas.
Alguns anos depois, eu estava pregando em Glasgow e vi na congregação um homem baixinho, que reconheci como uma daquelas pessoas da reunião ao ar livre. Fora isso, não sei o que aconteceu com elas, e duvido muito que tenham sabido o que aconteceu comigo.
Mas o fato é que foram fiéis em seu testemunho. Não era fácil viver naquela cidade naqueles dias. Suas vidas eram realmente muito duras, mas elas foram fiéis ao Senhor Jesus.
A fidelidade delas deu origem a todo o valor que possa haver neste ministério mundial. Não quero que vocês me digam qual é o valor destas conferências, mas tenho de concluir que vocês não vêm aqui à toa.
Estas conferências começaram naquela reunião ao ar livre, há tantos anos, na cidade de Glasgow. O que quero dizer, amigos, é isto: sejam fiéis em seu testemunho. Vocês nunca sabem qual será o resultado.
Talvez vocês nunca vejam esse fruto, mas ele estará lá.
Prossigamos.
É o que diz a carta. Talvez não saibamos, nesta vida, o valor que o nosso prosseguir tem para os outros.
Naturalmente, aquele foi um começo muito simples da vida cristã. Naquele tempo, eu conhecia o Senhor Jesus apenas como Salvador e me alegrava nEle como meu Salvador.
Mais tarde, chegou o dia em que o Senhor me mostrou que aquilo era apenas o começo: que Ele nos salva não simplesmente para nos salvar, mas tendo em vista um grande propósito.
Há um propósito muito grande ligado à nossa salvação. Essa é justamente a preocupação central desta carta. É como se o Senhor dissesse a essas pessoas: “Vocês foram salvos. Vocês se alegraram na sua salvação. Mas isso não deveria ser tudo. Há um grande propósito para o qual vocês foram salvos — uma herança maravilhosa”.
Não rejeiteis, pois, a vossa confiança,
que tem grande galardão.
Não se contentem apenas em ser salvos. Coloquem todo o coração no grande propósito para o qual foram salvos.
Bem, esta não foi uma mensagem muito pesada, foi? Muito simples, mas sinto que contém coisas muito importantes. Talvez muitos de vocês aqui, nesta noite, precisem justamente dessa palavra.
Espero ver essa plena satisfação no Senhor Jesus. Pois, quando outros virem como vocês estão satisfeitos nEle, isso poderá ser o ponto de mudança na vida deles.
Sabem, amigos, isso é muito prático. Hoje se faz de tudo para tentar atrair as pessoas, especialmente os jovens, para a igreja. Oferecem entretenimento. Oferecem qualquer coisa para atrair os jovens.
Se esses jovens forem atraídos dessa maneira, não irão muito longe com o Senhor. Sempre vão querer mais e mais entretenimento.
Mas, se forem atraídos porque eles mesmos não estão satisfeitos e veem pessoas que estão satisfeitas, isso atenderá à sua necessidade. Se puderem dizer: “Eu vim porque vi quanto do Senhor Jesus havia ali. Vi como aqueles cristãos estavam satisfeitos com Cristo”, então é diferente.
Cristo é a grande atração. Ele é a grande satisfação. E Ele é a resposta à necessidade deste mundo.
O mundo já tem todas aquelas outras coisas. Não posso dar ao mundo nada que seja da mesma natureza do que ele já tem. O Senhor Jesus pode ir muito além do mundo.
Bem, vocês e eu devemos orar para que sejamos uma atração que conduza outros ao Senhor Jesus.
Acho que isso basta por esta noite. Vamos cantar “Quando Todos Chegarmos ao Céu”?