Por favor, abram no livro de Atos.
Atos 2:42-47
E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações.
E em toda alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos pelos apóstolos.
E todos os que criam estavam juntos e tinham tudo em comum;
e vendiam suas propriedades e bens, e os repartiam com todos, segundo a necessidade de cada um.
E, perseverando diariamente de comum acordo no templo, e partindo o pão em casa, tomavam suas refeições com alegria e singeleza de coração,
louvando a Deus e tendo o favor de todo o povo. E o Senhor lhes acrescentava, dia a dia, os que eram salvos.
Apocalipse 2:1-7
Ao anjo da igreja em Éfeso escreve: Estas coisas diz Aquele que tem na Sua destra as sete estrelas, Aquele que anda no meio dos sete candeeiros de ouro:
Conheço as tuas obras, o teu labor e a tua perseverança, e que não podes suportar os maus; e puseste à prova os que se dizem apóstolos e não o são, e os achaste falsos;
e tens perseverança, e suportaste por amor do Meu nome, e não te cansaste.
Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.
Lembra-te, pois, de onde caíste, e arrepende-te, e pratica as primeiras obras; senão, venho a ti e removerei do seu lugar o teu candeeiro, se não te arrependeres.
Tens, contudo, isto: odeias as obras dos nicolaítas, as quais Eu também odeio.
Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas. Ao que vencer, dar-lhe-ei a comer da árvore da vida, que está no paraíso de Deus.
Voltemo-nos ao Senhor em oração.
Amado Senhor, nós nos voltamos a Ti como nosso Mestre, para que nos fales. Não estamos aqui para ouvir palavras humanas, a voz do homem, mas estamos aqui para ouvir a Tua voz, para ver a Tua face.
Por isso, Senhor, pedimos que venhas a nós pelo Teu Espírito. Vem a cada um de nós e dá a cada um uma palavra de Ti, para que sejas glorificado no meio do Teu povo. A Ti seja a glória, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.
Mencionamos, na primeira manhã, que há um clamor que atravessa os séculos. Esse clamor começou com Deus e tem sido, e ainda está sendo, ecoado por homens e mulheres piedosos ao longo dos séculos. É o clamor por restauração.
Também mencionamos, na sessão seguinte, os princípios que regem a restauração. Agora, nesta manhã, queremos entrar na trágica história da ruína.
Na verdade, para mim, com exceção de Gênesis 1:1, que trata da obra original de criação de Deus, toda a Bíblia, desde Gênesis 1:2 até o fim do livro de Apocalipse, trata da obra de restauração de Deus. Deus está realizando a obra de restauração.
Porque, em Gênesis 1:2, está escrito:
O Espírito de Deus Se movia sobre a face das águas.
Ou pairava, ou permanecia sobre elas como quem as chocava. E, a partir disso, esta terra foi restaurada para ser habitável.
Restauração é mais do que recuperar aquilo que se perdeu. Restauração é recuperar tudo, até retornar ao propósito eterno de Deus.
Nosso irmão já mencionou que Deus tem um único propósito. Segundo o Seu beneplácito, Ele estabeleceu esse propósito em Si mesmo e em Seu Filho, antes mesmo da fundação do mundo. Deus tem esse propósito e está trabalhando para cumpri-lo. Espero sinceramente que nos lembremos disso à medida que prosseguirmos.
Já em Gênesis 1:1 está escrito:
No princípio, criou Deus os céus e a terra.
Deus falou, e assim se fez. Quanto à primeira criação, a obra está completa. Deus nunca faz uma obra inacabada. Ela está completa.
Mas, queridos irmãos e irmãs, quando examinamos o propósito eterno de Deus, precisamos reconhecer que, embora a primeira criação seja uma obra completa, segundo o propósito eterno de Deus, algo precisa ser acrescentado a ela para que seja completada.
Esse algo não era evidente naquela ocasião, porque não havia necessidade dele. Naquela primeira criação, todo o universo estava em perfeita harmonia.
Provavelmente um arcanjo, Lúcifer, conduzia todos os seres angelicais na adoração a Deus, o Criador. Não havia discórdia. Tudo se reunia ao redor de Deus e glorificava a Deus.
Mas, infelizmente, como sabemos, por causa de sua beleza e de suas muitas atividades, o orgulho começou a surgir naquele arcanjo. Havia injustiça em sua obra. O ego começou a se manifestar nele. Ele queria se elevar para ser igual a Deus. Queria ser o próprio Deus.
Por isso, ele foi expulso do paraíso celestial. E, por causa dele, esta terra tornou-se sem forma e vazia.
Quando isso aconteceu, em Gênesis 1:2, o Espírito de Deus pairava sobre a face do abismo. Com Seu amor e Seu poder, Ele restaurou a terra para ser habitável.
O que aconteceu? No sexto dia, Ele criou o homem. Na verdade, na primeira criação não havia homem. Mas, quando Deus restaurou a terra para ser habitável, Deus criou o homem.
Quanto ao propósito eterno de Deus, o homem foi destinado, antes mesmo da fundação do mundo, a ser o companheiro de vida do próprio Filho amado de Deus. Deus tinha isso em mente antes mesmo de criar qualquer coisa.
Mas Ele não fez isso na primeira criação. Na obra de restauração, Ele criou o homem. Por quê? Porque, no que diz respeito à obra de restauração de Deus, o homem é Seu instrumento.
Ele fez o homem um pouco menor que os anjos, mas o coroou de honra e glória e lhe deu domínio sobre todas as coisas que havia feito. Irmãos e irmãs, essa é a razão pela qual Deus criou o homem. Foi para a obra de restauração e para cumprir Seu propósito eterno.
Deus criou o homem do pó da terra. Soprou em suas narinas o fôlego de vida, e ele se tornou alma vivente.
Quanto à obra de criação do homem, quando o homem foi criado, ele era perfeito. Mas precisava ser aperfeiçoado.
Deus o colocou diante da árvore da vida e, se ele comesse da árvore da vida e entrasse em união com Cristo, então a obra de restauração de Deus poderia ser realizada.
Mas, infelizmente, o homem caiu em tentação, rebelou-se contra Deus e, em vez disso, comeu da árvore do conhecimento do bem e do mal.
Por essa razão, mais uma vez, Deus deu continuidade à Sua obra de restauração.
Vocês sabem, em João 5:17, nosso Senhor Jesus disse:
Meu Pai trabalha até agora, e Eu trabalho.
Quando Deus restaurou a terra para ser habitável em seis dias, Ele descansou no sétimo dia. Mas Seu descanso foi interrompido pela queda do homem. Ele começou a trabalhar novamente e, desde então, tem trabalhado.
Quando nosso Senhor Jesus veio a esta terra, Ele disse: “Estou apenas dando continuidade. Estou apenas fazendo a obra que Meu Pai tem feito o tempo todo. Não posso fazer coisa alguma de Mim mesmo. Faço porque vejo Meu Pai fazendo”.
Agora, o que o Pai está fazendo? Qual é a Sua obra? Ao longo dos séculos, a obra de Deus — a natureza da obra de Deus — é a obra de restauração: não apenas recuperar o que se perdeu, mas recuperar tudo, até retornar ao propósito eterno de Deus.
Nosso Senhor Jesus veio a este mundo exatamente para esse propósito. Por isso, em Salmos 40:7-8, Ele diz:
Eis aqui venho;
no rolo do livro está escrito a Meu respeito:
Deleito-Me em fazer a Tua vontade, ó Deus Meu;
sim, a Tua lei está dentro do Meu coração.
Ao longo de toda a Sua vida, Ele realizou a obra de Seu Pai. Pregou aos pobres, curou os enfermos e expulsou demônios. Todas essas obras eram expressões da obra que o Pai estava realizando.
Vocês se lembram de que, em João 5, as pessoas ficaram admiradas porque nosso Senhor curou um homem que estava enfermo havia trinta e oito anos. Elas se perguntavam: “Como isso aconteceu?”. Mas o Senhor disse: “Vereis obras maiores”. Qual é essa obra maior? É a obra que Ele consumou na cruz do Calvário.
Ele foi à cruz e ali levou o pecado do mundo. Ali morreu em nosso lugar. Levou toda a criação àquela morte. E, pela cruz, derrotou o inimigo e o colocou debaixo de Seus pés.
Ele clamou, como nosso irmão mencionou:
Está consumado.
Está feito. A obra de restauração está concluída.
Tudo o que havia sido perdido foi recuperado. Está escrito em Colossenses 1 que Ele reconciliou todas as coisas com a plenitude de Deus pelo sangue da Sua cruz.
Na cruz do Calvário, nosso Senhor Jesus lançou o fundamento da restauração. Tudo o que precisava ser feito foi feito na cruz. O fundamento foi lançado.
Tudo o que é necessário é que aquilo que Ele fez na cruz se torne realidade primeiro na igreja e, depois, por meio da igreja, em todo o universo.
Depois que nosso Senhor Jesus concluiu a obra de restauração na cruz do Calvário, Ele ressuscitou dentre os mortos e ascendeu às alturas. O Pai O exaltou sobremaneira e Lhe deu um nome que está acima de todo nome. Ao nome do Senhor Jesus, todo joelho se dobrará, e toda língua confessará que Jesus é Senhor.
Ele foi constituído Cabeça sobre todas as coisas para a igreja, que é o Seu corpo, a plenitude Daquele que enche tudo em todos.
Quando o Senhor estava na terra, depois da confissão de Pedro de que Jesus é o Cristo, o Filho do Deus vivo, nosso Senhor Jesus disse:
Tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
Nosso irmão mencionou ontem à noite como, do lado traspassado de nosso Senhor Jesus, saíram sangue e água. O Espírito Santo veio e usou esse material para edificar a igreja, o corpo de Cristo.
Assim, vemos que, no dia de Pentecostes, cento e vinte crentes estavam reunidos naquele cenáculo. Eles oraram de comum acordo — a oração em dores de parto —, de comum acordo, durante dez dias.
Quando chegou o Pentecostes, de repente o Espírito Santo veio sobre eles. Foram cheios do Espírito Santo e, em um só Espírito, foram batizados em um só corpo.
Naquele mesmo dia, três mil foram acrescentados àquele corpo.
Todas essas pessoas perseveraram. Não foi apenas uma comoção emocional. Elas perseveraram, continuaram e se dedicaram à doutrina e à comunhão dos apóstolos, ao partir do pão e às orações.
A doutrina dos apóstolos nada mais é do que a doutrina de Cristo. O que receberam, transmitiram a nós. Não tinham uma doutrina própria. Paulo não tinha sua própria doutrina. Pedro não tinha sua própria doutrina. Tiago não tinha sua própria doutrina. É uma única doutrina: a doutrina de Cristo.
E a comunhão dos apóstolos: aquilo que tinham visto e ouvido, contemplado, tocado, conhecido e experimentado, eles compartilharam conosco. Compartilharam isso em comunhão; relataram isso a nós. Sua comunhão era com o Pai e com o Filho.
Em outras palavras, a comunhão dos apóstolos não é outra senão a comunhão do Filho de Deus, Jesus Cristo. Uma única doutrina, uma única comunhão: a doutrina de Cristo e a comunhão do Filho de Deus, Jesus Cristo.
Eles perseveravam nisso. Dedicavam-se a isso. Isso se tornou a própria vida deles, seu modo de viver.
E, no partir do pão, estava seu primeiro amor pelo Senhor, lembrando-se Dele o tempo todo. Partiam o pão de casa em casa. Partiam o pão em cada refeição. E oravam juntos.
Irmãos e irmãs, quando vocês leem os quatro primeiros capítulos do livro de Atos, o que veem ali? Veem algo glorioso surgindo nesta terra, algo que o mundo jamais havia conhecido.
Ali estavam muitas pessoas — milhares de pessoas — juntas, não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Estavam juntas. Tinham um só pensamento. Havia tamanha unidade entre elas.
Exaltavam o Senhor Jesus e manifestavam a própria vida do Senhor Jesus. Estavam totalmente libertas do ego. Eram altruístas. Amavam umas às outras. Cuidavam umas das outras.
Louvavam o Senhor. Davam graças em todas as coisas. Uma igreja gloriosa! E Deus acrescentava pessoas à assembleia diariamente. Que igreja gloriosa era aquela!
O Senhor da glória não merece uma igreja gloriosa? O Cabeça na glória havia encontrado agora um corpo na terra igualmente glorioso.
É verdade: a primeira igreja na terra era uma igreja gloriosa. Mas precisava ser completada.
O corpo precisava crescer de duas maneiras, para que pudesse abranger toda a terra e todos os séculos. Aquilo era apenas o começo.
Naquela época, esse corpo aparecia somente em Jerusalém. Ainda não estava em toda a Judeia, em Samaria e até os confins da terra. Seu corpo precisava crescer — crescer em tamanho para abranger toda a terra.
Em segundo lugar, precisava haver um aumento da medida de Cristo naquele corpo, até que o corpo chegasse à estatura da medida da plenitude de Cristo. Deveria ser cheio de Cristo em toda a plenitude.
Podemos dizer que a igreja, naquele tempo, estava em sua infância. Precisava crescer até a maturidade, crescer em tamanho e em profundidade. Estava em um estágio embrionário: glorioso, mas embrionário.
Como seria bom se a igreja crescesse, crescesse e crescesse em direção Àquele que é o Cabeça, sem nenhuma interrupção, sem nenhum desvio. Mas, infelizmente, por causa da fraqueza da carne humana, vemos que, em vez de crescer continuamente em Cristo, ela começou a se afastar de Cristo.
Encontramos isso no livro de Atos, durante os primeiros trinta e poucos anos da história da igreja. O livro de Atos abrange aproximadamente trinta e poucos anos. Nosso Senhor Jesus esteve na terra por trinta e três anos, e depois o livro de Atos nos dá o registro da igreja primitiva durante o segundo período de trinta e três anos do primeiro século.
Vemos que ela teve um começo verdadeiramente glorioso. Isso não significa que não houvesse problemas.
Quando o Espírito de Deus agiu sobre aquelas pessoas, elas foram totalmente libertas de seu ego. Vocês sabem, uma das coisas que mais prendem o ego é a posse: “Isto é meu”. Mesmo em um bebê, mesmo em uma criança, quando as crianças estão brincando com brinquedos, às vezes vemos os pequeninos disputando e dizendo: “Isto é meu”. O apego do ego à posse está profundamente enraizado na carne.
Mas, graças a Deus, vemos que eles estavam tão envolvidos com Cristo que se esqueceram de si mesmos.
Mas, infelizmente, em Atos 5, encontramos um casal, Ananias e Safira. Quando viram outras pessoas vendendo suas propriedades para ajudar os necessitados, sentiram que havia grande glória e honra naquilo. Queriam fazer a mesma coisa, mas não conseguiam abrir mão de tudo.
Venderam sua propriedade, mas deram uma parte e guardaram outra. Tentaram enganar a igreja, fazendo-a acreditar que aquilo era o valor total. Mas o Espírito Santo estava tão presente na igreja primitiva.
Pedro perguntou: “Isso é tudo?”. Eles disseram: “Sim”. Pedro disse: “Vocês não podem enganar o Espírito Santo”. A disciplina veio rapidamente.
Embora houvesse problemas, eles eram resolvidos muito rapidamente. O resultado foi que um santo temor veio sobre o povo de Deus. Aquela foi uma grande disciplina.
É verdade que, em Atos 6, houve murmuração. As viúvas dos judeus helenistas estavam sendo esquecidas, e eles murmuraram por causa disso.
Graças a Deus, a reação foi rápida. Os apóstolos eram sensíveis ao Espírito de Deus, e imediatamente essa questão foi resolvida. Sete homens foram designados para cuidar das mesas, para que os apóstolos pudessem se dedicar ao ministério da Palavra e à oração. O resultado foi que a Palavra cresceu.
Dos problemas veio o crescimento.
O evangelho estava sendo pregado na Judeia, em Samaria e até os confins do mundo. No fim do livro de Atos, Paulo estava em uma moradia alugada em Roma, como prisioneiro, mas pregava o reino de Deus e ensinava a respeito de Cristo.
Mesmo enquanto o corpo crescia, encontramos em 2 Timóteo 3 as palavras de Paulo: “Nos últimos dias haverá pessoas amantes de si mesmas, amantes dos prazeres, amantes do dinheiro, não amantes de Deus, nem amantes da justiça”.
Pessoalmente, creio que ele não está se referindo às pessoas do mundo. Quanto às pessoas do mundo, todas são amantes dos prazeres. Isso é natural. Amantes de si mesmas, amantes do dinheiro — isso é natural.
Creio que Paulo está dizendo que, mesmo entre o povo de Deus, haverá pessoas amantes de si mesmas. Não devemos amar o ego; devemos negar o ego. Mas haverá pessoas amantes de si mesmas.
Haverá pessoas amantes do dinheiro. Devemos ser libertos de Mamom, porque não podemos servir a dois senhores. Ou servimos a Deus, ou a Mamom. Mas, infelizmente, entre os crentes há pessoas amantes do dinheiro.
Amantes dos prazeres: Moisés desprezou os prazeres e as riquezas deste mundo. Devemos ser libertos dos prazeres deste mundo, porque Deus é o nosso deleite. Ele é o nosso prazer. Ele satisfaz nosso coração.
Mas, infelizmente, vemos que, mesmo durante aqueles primeiros trinta e três anos, perto do fim desse período, entre o povo de Deus havia pessoas amantes de si mesmas, amantes do dinheiro e amantes dos prazeres.
Em 2 Pedro, Pedro menciona que nos últimos dias haverá falsos mestres. Falsos mestres entrarão no meio da igreja e negarão até mesmo o Senhor que os comprou.
Essas coisas começaram a entrar na igreja já nos primeiros trinta e três anos de sua história.
Várias epístolas foram escritas por causa de problemas. A primeira epístola aos Coríntios foi escrita por causa dos problemas entre os crentes de Corinto.
Gálatas foi escrita por causa do problema que havia ali. Eles começaram a receber outro evangelho, que não era o evangelho de Jesus Cristo. Misturaram a lei com a graça.
Colossenses foi escrita por causa da infiltração do gnosticismo no meio do povo de Deus. Eles tentavam ser aperfeiçoados por meio da filosofia humana e do ritualismo, em vez de ver que toda a plenitude da Divindade habita em Cristo e que estamos completos Nele.
Oh, graças a Deus. Com todos esses problemas entrando na igreja, vemos que, por meio das epístolas, Deus nos deu mais luz. Deus nos capacitou a entrar em uma experiência mais profunda de Cristo. Ainda havia crescimento. A restauração continuava acontecendo.
Então chegamos ao segundo período de trinta anos do primeiro século. Paulo já havia partido. Pedro já havia partido. Os primeiros apóstolos já haviam partido. João, o apóstolo João, era o único que restava.
Vejam a situação no fim do primeiro século, nos últimos trinta e três anos. O gnosticismo entrou na igreja — teorias, especulações sobre a criação, emanações de Deus. Todas essas coisas começaram a entrar na igreja.
Embora tivessem os três Evangelhos Sinóticos — Mateus, Marcos e Lucas —, que lhes apresentavam a história de nosso Senhor Jesus na terra, vemos que, na época de João, no fim do primeiro século, as pessoas não tinham uma concepção e uma compreensão corretas de Cristo.
Por essa razão, João foi usado por Deus para escrever o Evangelho segundo João. João escreveu esse Evangelho para refutar a concepção errada a respeito de Cristo.
Graças a Deus, ao escrever o Evangelho de João, ele nos deu uma interpretação de Cristo. Ele nos mostra a eternidade de Cristo, a supremacia de Cristo e o grande “Eu Sou” de Cristo. Na verdade, por meio do Evangelho de João, recebemos uma compreensão mais profunda de Cristo.
Além disso, durante aquele período, até mesmo na igreja, como vemos em 3 João, havia alguém que queria ser o cabeça da igreja, em vez de se apegar firmemente a Cristo como o Cabeça.
Houve uma perda gradual do primeiro amor, como encontramos em Apocalipse 2, na igreja em Éfeso. Exteriormente, tudo continuava bem, mas o fogo interior havia se apagado.
O Senhor disse:
Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.
Por isso, a primeira epístola de João trata inteiramente do amor. Deus é amor. Sabemos o que é o amor porque Deus manifestou Seu amor por nós ao nos dar Seu Filho unigênito para nos redimir, para nos libertar. Isso é amor.
Como precisamos amá-Lo, porque Ele nos amou primeiro. E precisamos amar uns aos outros.
Gradualmente, vemos que a igreja estava se afastando. Gradualmente, o amor estava esfriando. Mas, graças a Deus, Deus reagiu nos dando as epístolas e o livro de Apocalipse: mais luz, uma compreensão mais profunda de Cristo, acrescentando à revelação de Seu propósito.
Agora deixaremos o terreno que nos é familiar na história da igreja. No que diz respeito à Bíblia, a história da igreja está escrita no livro de Atos. No fim do livro de Atos, encontramos Paulo ali e, às vezes, nos perguntamos o que aconteceu depois.
Dizem-nos que, entre todos os livros da Bíblia, há somente um que não tem um encerramento, e esse é o livro de Atos. Por quê? Porque o livro de Atos ainda está sendo escrito, e continua sendo escrito hoje.
Mas agora entramos em um terreno desconhecido, porque não temos diante de nós a Palavra de Deus escrita sobre esse período. Vamos ao segundo século da história da igreja.
Historicamente falando, as sete cartas de Apocalipse 2 e Apocalipse 3 foram escritas a sete igrejas reais na Ásia Menor, na província romana da Ásia. Essas cartas foram escritas pelo Senhor ressuscitado, por meio de Seu apóstolo João, aos anjos das sete igrejas. Isso é literalmente verdadeiro.
Mas, profeticamente falando, muitas vezes consideramos que a carta à igreja em Éfeso representa a igreja no fim do primeiro século.
Por quê? Porque, no fim do primeiro século, ao olhar para a igreja exteriormente, tudo parecia estar bem. O verdadeiro problema estava no interior: eles haviam perdido o primeiro amor.
Essa era a condição da igreja no fim do primeiro século. Por causa disso, Deus reagiu. Deus reagiu permitindo que a perseguição viesse sobre a igreja.
Assim, durante os séculos II e III, vemos que a igreja passou por grande perseguição. Ela sofreu intensa perseguição sob o Império Romano.
No começo, quando a igreja surgiu, as pessoas não sabiam quem eram aqueles cristãos. Quanto ao Império Romano, ele considerava a igreja apenas mais uma seita do judaísmo.
O judaísmo, como religião, havia recebido reconhecimento legal no império. Os judeus eram protegidos. Mas então toda a situação mudou.
A igreja foi separada do judaísmo aos olhos do mundo. Graças a Deus por isso.
Assim, ser cristão tornou-se um crime para o império, porque os cristãos se recusavam a queimar incenso a César. O imperador romano, César, era considerado um deus e era adorado pelo povo. Os cristãos se recusavam a queimar incenso ao ídolo.
Ser cristão era ser criminoso. Eles sofreram dez perseguições registradas na história. Muitos morreram pelo testemunho de Jesus. Mas o sangue dos mártires nutriu a igreja.
Mesmo assim, vemos que, durante os séculos II e III, quando a perseguição cessava, a reação da igreja não era a que deveria ser.
Em vez de serem purificadas pela perseguição, depois de tudo o que haviam sofrido, as pessoas começaram a amar o mundo. Começaram a perder a simplicidade e a sinceridade de Cristo.
Foi nessa época que se desenvolveu a divisão entre o clero e os leigos.
Foi nessa época que, em vez de o bispo ser um presbítero, segundo a Palavra de Deus, o bispado se tornou um cargo separado. Presbítero é a pessoa; bispo é sua função.
Mas, ao longo da perseguição, vemos que o bispo passou a ocupar uma posição superior no meio cristão. Em outras palavras, todo o sistema religioso hierárquico se desenvolveu durante os séculos II e III.
Foi no segundo século que se ensinou a doutrina da regeneração batismal — que a pessoa é regenerada ao ser batizada. Foi também no segundo século que se passou a praticar o batismo infantil.
Por quê? Se vocês creem na regeneração batismal, o que acontecerá se uma criança morrer antes de ser batizada? Assim, vemos que o batismo infantil começou a ser praticado no segundo século.
Mas, graças a Deus, apesar do que estava acontecendo na igreja dos séculos II e III, o testemunho de Deus não se perdeu.
Por volta de meados do segundo século, um autor anônimo escreveu sobre a comunidade cristã. Foi isto que ele escreveu:
Os cristãos nos mostram seu modo de vida maravilhoso e reconhecidamente notável.
Vivem em seus próprios países, mas simplesmente como peregrinos.
Contudo, suportam todas as dificuldades como estrangeiros.
Toda terra estrangeira é para eles uma pátria, mas sua própria pátria lhes é estrangeira.
Passam seus dias na terra, mas são cidadãos do céu.
Obedecem às leis do país e, ao mesmo tempo, superam essas leis por sua maneira de viver.
Amam a todos e são insultados por todos.
Esse é o testemunho de Jesus, apesar do declínio da igreja.
Para resumir uma longa história, consideraremos o período do século IV ao século XV.
O Império Romano usou todo o seu poder para destruir a igreja de Deus. Mas o resultado foi que a igreja saiu vitoriosa. O Império Romano foi destruído.
Bem, no início do quarto século, suponho que todos vocês conheçam a história de Constantino, o Grande. Quando disputava com seu rival o trono do Império Romano, ele disse que havia tido uma visão.
Era a visão de uma cruz, com estas palavras escritas: “Por este sinal, vence”. Então ele fez uma bandeira.
A história nos diz que muitos dos soldados de seu exército eram cristãos. Por isso, não sei se ele usou aquilo para incitar os cristãos a lutar por ele, por seu reino. Não sei.
Mas, de qualquer modo, ele venceu seu rival. Chegou ao trono do Império Romano.
Nos primeiros anos do quarto século, proclamou que haveria liberdade religiosa para todas as religiões. Mas favoreceu o cristianismo.
Grandes catedrais foram construídas. Dinheiro foi doado. Qualquer soldado que estivesse disposto a ser batizado receberia roupas e prata como recompensa. Ora, quem não faria isso?
O cristianismo tornou-se popular. Os bispos eram convidados ao palácio. Começaram a ter influência política.
Constantino não era apenas o chefe do Império Romano; ele presidia os concílios da igreja. Era o cabeça da igreja.
A igreja e o mundo se uniram em casamento, tornando-se um só. Se foi a igreja que batizou o mundo ou o mundo que batizou a igreja, eu não sei. Mas não se podia ver a diferença.
Exteriormente, o cristianismo prosperava. As pessoas afluíam à igreja. Mas, interiormente, aquela era a verdadeira condição.
Muitas festas pagãs foram batizadas para se tornar festas cristãs. Os pagãos, mesmo enquanto adoravam ídolos, tinham muitas festas nas quais podiam se divertir. Mas, quando foram batizados no cristianismo, não havia festas para que se divertissem. Como vocês iriam mantê-los na igreja?
Muito engenhoso: a Igreja Romana batizou as festas pagãs e as tornou cristãs. Assim, vocês ainda podiam desfrutar dos prazeres do mundo.
No sexto século, todo o gigantesco sistema da Igreja Católica Romana já estava estabelecido. O papa era o cabeça da igreja. A igreja governava o mundo.
Meus irmãos e irmãs, foi no sexto século que a abominável noção de purgatório foi mencionada pela primeira vez.
Vocês sabem, naquela época as pessoas não sabiam que somos salvos pela graça, por meio da fé. Confiavam em suas próprias virtudes e, como não tinham virtudes suficientes para ir ao céu, todos tinham de ir ao purgatório.
Falaremos sobre isso mais tarde. Mas, de qualquer modo, vemos que o purgatório foi pregado pela primeira vez no sexto século e, é claro, muitas, muitas outras coisas também.
Para combater todas as heresias, houve concílios nos séculos III e IV, e eles continuaram depois disso. Por meio desses concílios, tentaram definir a fé e refutar as heresias.
O resultado foi que reduziram a fé a credos e usaram a força física para impor esses credos.
A ignorância do clero, a superstição do povo e todas essas coisas tornaram a situação cada vez mais sombria. Por isso, chamamos aquele período de Idade das Trevas.
Parecia que a igreja havia entrado em um cativeiro babilônico.
Mas Deus, apesar de tudo isso, ainda preservou Seu testemunho nesta terra. Do século IV ao século XV, vemos que havia, aqui e ali, grupos de cristãos que guardavam a Palavra de Deus e o testemunho de Jesus.
Por exemplo, no segundo século, havia os montanistas. Eles enfatizavam o lugar do Espírito Santo entre o povo de Deus.
No terceiro século, havia os novacianos, que defendiam uma comunhão pura na igreja.
No quarto século, havia os priscilianistas. Eles conheciam o dom de Deus e o aceitavam por meio de uma fé viva.
Do século VII ao século IX, havia os paulicianos. Chamavam a si mesmos de cristãos e afirmavam ser, coletivamente, a igreja santa e apostólica de nosso Senhor Jesus Cristo.
Durante os séculos X a XIV, havia os bogomilos na Bósnia e os albigenses na França. Sua simplicidade e piedade contrastavam com a vida de excessos do clero naquela época.
Havia os arnaldistas na Itália, os valdenses e os Pobres de Lyon. Eles encontravam nas Escrituras uma regra completa para a vida diária e para a organização da igreja.
O conhecimento de Cristo habitando interiormente pelo Espírito era, para eles, uma verdade de especial importância. A salvação era pela fé. A prova da salvação era a vida do crente. O batismo era um testemunho da fé em Cristo, e a Ceia do Senhor era uma lembrança de Seu sacrifício.
Então, no século XIV, encontramos também os Amigos de Deus e os Irmãos da Vida Comum. Eles enfatizavam a vida interior.
O livro representativo dos Amigos de Deus é aquele pequeno livro, Theologia Germanica, ou Teologia Germânica. O livro representativo dos Irmãos da Vida Comum é A imitação de Cristo, que conhecemos bem.
No século XV, havia os hussitas — a Igreja dos Irmãos Unidos. Um de seus líderes, Comenius, disse:
Uma só coisa é necessária: voltar a Cristo.
Olhai para Cristo como o único Líder e andai em Sua comunhão, deixando de lado todos os outros caminhos, até que todos alcancemos o alvo e cheguemos à unidade da fé.
Depois havia John Wycliffe e os lolardos na Inglaterra. Wycliffe disse:
O evangelho de Jesus Cristo é a única fonte da verdadeira religião, e somente a Escritura é verdadeira.
Graças a Deus, mesmo quando a igreja entrou na Idade das Trevas, havia, aqui e ali, centelhas de luz.
Mas, ainda assim, essas pessoas foram rotuladas como hereges. Foram perseguidas pela igreja. A igreja perseguida tornou-se a igreja perseguidora. Muitos deles foram queimados. Seus livros foram queimados e destruídos.
A igreja havia entrado em ruína.
Vamos orar?
Amado Senhor, nós confessamos: quando entregas o Teu tesouro a nós, como o desprezamos, o odiamos e o corrompemos. Tem misericórdia de nós.
Oramos para que aprendamos a lição da história, para que nos humilhemos diante de Ti e para que, pela Tua graça, permaneçamos ao Teu lado, contra a corrente. Pedimos em Teu precioso nome.