Pai, nós Te agradecemos mais uma vez porque Tu não nos deixaste sozinhos no estudo deste Livro. Tu nos deste o Espírito Santo e O colocaste em nosso coração, dando-nos continuamente uma revelação da revelação, iluminando continuamente o nosso Senhor Jesus Cristo.
Senhor, nós realmente tememos a nossa própria sabedoria e pedimos que Tu nos libertes completamente de tudo o que é carne e sangue e humano. Sabemos que, diante da nossa fraqueza, Tu és eternamente um Cavalheiro. Tu nunca Te impões a nós. Tu nunca nos forças, mas sempre nos apresentas uma revelação do nosso Senhor Jesus.
Oramos de modo especial nesta noite para que possamos vê-Lo novamente. Senhor, se as verdades em que tocarmos não forem novas, se forem antigas, então vivifica-nos novamente para essas antigas verdades. Arrebata-nos com a visão de Cristo. Obrigado. Oramos no incomparável nome de Jesus. Amém.
Enquanto pensava no que compartilhar com vocês, irmãos, neste fim de semana, antes de entrarmos no que gostaria de compartilhar, permitam-me apresentar um versículo bíblico que se relaciona especialmente com este encontro de irmãos. É Filemom 1:20. Há apenas um capítulo — nem chega a haver vinte.
Vou fazer apenas uma pequena alteração, não para acrescentar à Palavra de Deus, mas para mudar a palavra irmão para irmãos. Quero apenas colocá-la no plural. Espero que isso seja aceitável para o nosso propósito. Aqui está:
Sim, irmãos, que eu receba de vós benefício no Senhor.
Refrigérai o meu coração em Cristo.
Não é uma passagem maravilhosa? “Refrigérai o meu coração em Cristo.” Essa é a nossa oração neste fim de semana: que todos recebamos refrigério — refrigério de Deus, refrigério uns dos outros, todos os irmãos refrigerando uns aos outros no Senhor Jesus.
De modo especial, esse versículo, essa oração, se relaciona com a nossa primeira abordagem das Escrituras, porque queremos conversar um pouco sobre refrigério: refrigério vindo de Deus e refrigério uns para os outros.
Há uma porção das Escrituras que tem ocupado muito o meu coração nos últimos meses: cinco capítulos, provavelmente cinco dos capítulos mais amados da Palavra de Deus. Estou falando de João 13 a João 17.
Todos gostam de compartilhar algo de João 13 a João 17. Mestres da Bíblia e estudantes dedicados das Escrituras de todas as épocas têm identificado esses cinco capítulos, talvez, como cinco dos capítulos mais preciosos da Palavra de Deus.
Quanto ao relato, como vocês sabem, todos os acontecimentos e conversas desses maravilhosos capítulos ocorreram um dia antes de nosso Senhor Jesus ir para a cruz. Não vamos entrar nos malabarismos para determinar que dia foi esse, porque pessoas diferentes partem de posições diferentes. Mas, naquele dia, nosso Senhor havia concluído Seu ministério formal ao mundo.
Agora, segundo João 13:1, Ele havia Se voltado para os Seus. Na verdade, aquela última semana foi dedicada aos Seus e ao Seu ministério junto aos Seus.
Quando chegamos a capítulos como esses, sabem, durante anos eu tinha certo receio deles, porque todos me diziam como eram maravilhosos, quanto conteúdo havia neles, como eram profundos e como eram ricos. Eu sentia que não estava à altura desses capítulos e, por isso, sempre me retraía um pouco. Todos haviam dito coisas tão grandiosas sobre eles, e eu pensava: “O que eu poderia dizer?”
Bem, espero deixar passar alguma coisa neste fim de semana — deixar passar muita coisa. E, para ser sincero com vocês, não espero lhes apresentar algo que nunca tenham ouvido antes. Mas acho que seria errado dizer que não recebi nada desses capítulos só porque não recebi tudo o que há neles.
Há alguns princípios que Deus gravou a fogo no meu coração, na minha vida, e gostaria de compartilhar um pouco disso com vocês.
Creio que nos ajudaria, para termos uma percepção desses cinco capítulos, se pudéssemos nos colocar naquele contexto histórico, naquela noite, e tentar sentir a emoção e perceber o que estava acontecendo.
Naquele momento, os discípulos tinham pouquíssima capacidade espiritual. Quero dizer, mesmo nas melhores condições, mesmo que estivessem indo muito bem, haviam passado apenas três anos e meio com o Senhor Jesus. Mesmo que estivessem inteiramente abertos e não tivessem perdido o bonde, tinham apenas três anos e meio de vida no Senhor.
Em certo sentido, o Senhor Jesus está colocando tudo para fora naquela noite antes de morrer. Ele tem muita coisa no coração e fala sobre tudo. É por isso que essa porção das Escrituras é tão extraordinária. Há tanta coisa aqui.
Deixem-me ilustrar isso. Tenho um amigo querido em Rhode Island e, algum tempo atrás, ele veio à minha casa. Estava enfrentando o que tantos têm enfrentado nestes dias: estava prestes a se divorciar. Era um período terrível para ele e para sua família, e ele tinha uma filha de nove meses.
Acho que ele não queria conversar sobre isso. Acho que só queria que eu estivesse ali. Não queria que eu dissesse nada. Entrou na minha sala, sentou-se e colocou a filhinha no colo.
Enquanto estava sentado, eu apenas observava. Digo a vocês: aprendi uma lição naquele dia. Aquele homem começou a abrir o coração para aquela bebê de nove meses. Ele sabia que haveria uma mudança no relacionamento, que não poderia mais ver aquela criança e passar tempo com ela como antes. Vocês não precisam dos detalhes do divórcio. Isso sempre parte o coração.
Ele começou a dizer àquela bebê coisas incríveis. Disse o quanto a amava. Falou dos seus sonhos para aquela criança e dos seus planos. Fez algumas promessas extraordinárias. Prometeu sustentá-la, explicou como viria visitá-la e como estava juntando uma pequena poupança. Vocês não acreditariam no que ele estava dizendo àquela criancinha.
A criança brincava com a barba dele, brincava com os botões da roupa e não entendia uma palavra do que ele dizia. Ele estava derramando o coração e falando àquela criancinha que não tinha capacidade de compreender. Ela olhava para o rosto dele, sem sequer começar a entender o que o pai tentava comunicar.
Bem, tenho a impressão de que João 13 a João 17 é um pouco assim. Havia doze bebezinhos sendo embalados no colo do Senhor Jesus, brincando com Sua barba e com Seus botões. Ele estava derramando o coração e lhes dizendo tantas coisas. Eles não tinham essa capacidade espiritual.
Acompanhem estes versículos, por favor.
Respondeu Jesus e disse-lhe: O que Eu faço, tu não o sabes agora; mas depois o entenderás.
— João 13:7
Desde agora vo-lo digo, antes que aconteça, para que, quando acontecer, creiais que Eu sou.
— João 13:19
Então os discípulos olhavam uns para os outros, duvidando de quem Ele falava.
— João 13:22
E nenhum dos que estavam à mesa compreendeu a que propósito lhe dissera isto.
— João 13:28
Disse-Lhe Simão Pedro: Senhor, para onde vais?
— João 13:36
Disse-Lhe Pedro: Senhor, por que não posso seguir-Te agora?
— João 13:37
Disse-Lhe Tomé: Senhor, nós não sabemos para onde vais; como podemos saber o caminho?
— João 14:5
Disse-Lhe Filipe: Senhor, mostra-nos o Pai, e isso nos basta.
— João 14:8
Disse-Lhe Judas, não o Iscariotes: Senhor, de onde vem que Te hás de manifestar a nós, e não ao mundo?
— João 14:22
Eu vo-lo disse agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis.
— João 14:29
Mas tenho-vos dito estas coisas, para que, quando chegar a sua hora, vos lembreis de que Eu vo-las disse.
— João 16:4
Ainda tenho muito que vos dizer, mas vós não o podeis suportar agora.
— João 16:12
Então alguns dos Seus discípulos disseram uns aos outros: Que é isto que nos diz: Um pouco, e não Me vereis; e outra vez um pouco, e ver-Me-eis; e: Porque vou para o Pai?
— João 16:17
Diziam, pois: Que quer dizer isto: Um pouco? Não sabemos o que diz.
— João 16:18
Isso praticamente resume os cinco capítulos: “Não sabemos do que Ele está falando.”
Agora, sei que todos nós achamos que nossa própria vida é singular. Assim como vocês, tenho uma esposa muito singular. Na verdade, na parede do nosso quarto temos Cânticos 6:9:
Uma só é a minha pomba, a minha imaculada.
Isso é porque ela faz algumas coisas singulares.
Uma das coisas singulares que minha esposa faz acontece quando deixamos os filhos em casa. Digamos que vamos passar um fim de semana fora. É impressionante o que aquelas crianças precisam enfrentar. Recebem um sermão da minha esposa: um sermão sobre refeições, um sermão sobre os animais de estimação, um sermão sobre amigos, um sermão sobre telefonemas, um sermão sobre limpeza.
Depois de terminar todos esses sermões — e talvez ela não seja tão singular assim —, começa a escrever bilhetes. Deixa bilhetes por toda parte: na geladeira, no armário da cozinha, no banheiro, nos interruptores, na cama, no guarda-roupa.
Então, quando vamos sair, ela ainda faz mais três corridinhas do carro até a casa. “Espere um pouco. Preciso dizer mais uma coisa a eles.” Ela entra correndo. Então saímos; às vezes damos a volta no quarteirão e voltamos, e ela entra correndo outra vez porque precisa lhes dizer alguma coisa.
Por que ela faz isso? Porque os ama. Está tentando prever todas as possíveis emergências que eles poderão enfrentar e deixar tudo resolvido. Ela pensa em tudo.
Acho que é isso que temos em João 13 a João 17. O Senhor Jesus está deixando Seus filhinhos. Nós vamos passar apenas um fim de semana fora; Ele, na verdade, vai ficar fora apenas três dias. Vai passar um fim de semana fora. Está deixando esses bilhetes por toda parte porque conhece o coração deles. Sabe o que vão sentir e pelo que vão passar.
Ele está deixando todos esses belos princípios, bilhetes por toda parte, porque eles são criancinhas e não conseguem lidar com Sua ausência.
Mais uma coisa sobre os cinco capítulos como um todo, e então veremos o que está no meu coração. Quero esclarecer algo sobre esses maravilhosos capítulos. Não quero que vocês tenham uma ideia errada a respeito deles.
O Senhor Jesus não chegou àquela noite como eu cheguei a esta conferência, com um púlpito e anotações organizadas, tendo preparado tudo de antemão. A maior parte disso é conversa à mesa. Quase tudo começa com uma pergunta ou com o pensamento de outro irmão, e eles começam a conversar.
Jesus não chegou àquela última noite dizendo: “Esta é a Minha última noite na terra. O que vou lhes dizer? Acho que vou falar de um, dois, três; A, B, C.” Ele não deu uma palestra naquela noite. Foi uma conversa à mesa.
Isso é admirável quando lemos o texto. Percebemos que era Sua última noite antes de morrer, e, no entanto, como Ele estava no controle e como estava tranquilo.
Lembro-me de quando estudava na escola bíblica. Isso acontecia quase todos os semestres. No início do semestre, o professor estava todo animado, abria a Palavra e começava a compartilhar. Era possível perceber tanto do seu coração e da sua vida. Surgiam perguntas, e a conversa seguia.
Mas, à medida que o fim do semestre se aproximava, dava para perceber que o tempo dele estava se esgotando. Ainda havia muita coisa do programa que não tinha abordado, muito conteúdo que não tinha explicado. Eu sempre detestava a última semana do semestre, porque tratávamos de um milhão de coisas. Ele simplesmente começava a despejar tudo sobre nós, e tínhamos de tomar notas e fazer todo o resto.
Irmãos, não pensem que foi isso que Jesus fez naquela noite. Jesus não disse: “Tenho tanto conteúdo e tantas coisas que ainda não fiz, e agora preciso despejar tudo antes de partir.” Não foi nada disso.
Nosso Senhor Jesus não estava passando às pressas pelo conteúdo que não havia abordado durante Seu ministério. Sim, Ele estava derramando o coração. Sim, havia um encargo em Seu coração. Mas não era por causa de coisas que ainda não tinha abordado.
Na verdade, acho que vocês concordarão — espero mostrar isso a vocês — que o que o Senhor Jesus está fazendo nesses cinco capítulos é uma revisão. Ele já havia abordado todo o conteúdo, e agora estava lhes dando uma revisão extraordinária.
Ele veio para revelar Deus. Veio para revelar o Pai. Veio para revelar o coração do Pai. Agora, no dia seguinte, Ele vai partir e realizar a obra, e o que está dizendo aos discípulos é isto: “Durante três anos e meio, tenho revelado o Pai. Espero que vocês tenham visto isso.”
Ele está revisando. “Espero que vocês tenham visto isso. Querem ver o coração de Deus? Espero que não tenham deixado isso passar.” Ele começa a apresentar aquela extraordinária revelação do coração de Deus que havia manifestado durante toda a Sua vida e todo o Seu ministério.
Acho que essa é uma das coisas que Ele está fazendo nesses cinco capítulos. Por meio de ilustrações e conversas, Ele nos dá um retrato completo do coração de Deus.
Acho que, se vocês pudessem se apropriar de todos os princípios de João 13 a João 17, teriam tudo. Acho que é tudo: o coração de Deus, aquilo que Ele quer que vocês conheçam do Senhor.
Há pessoas entre o povo de Deus que estudaram isso com muito mais preparo espiritual e intelectual do que eu. Mas, enquanto examinava esses capítulos, encontrei oito coisas que o Espírito Santo parece destacar de modo especial. Tenho certeza de que provavelmente não são oito. Provavelmente são mais — ou menos, se puderem ser agrupadas. Depende de como olhamos para isso.
Eu ia apresentar as oito, mas vocês podem ficar tranquilos. Não vou apresentar todas as oito. Sinto realmente, diante do Senhor, que, em vez de passarmos correndo por oito princípios, seria melhor considerarmos um em cada reunião.
Há quatro — não sei se são mais fundamentais do que os outros — que prenderam mais o meu coração. É onde estou. Gostaria de mostrar a vocês, enquanto caminhamos juntos e Deus nos concede graça, quatro revelações do coração de Deus que nosso Senhor Jesus, na noite anterior à Sua morte, estava apresentando ao dizer: “Se vocês viram alguma coisa em Minha vida e em Meu ministério, espero que tenham visto isto, e isto, e isto.”
Ah, que Deus nos dê olhos para ver essas coisas.
A primeira revelação está logo no início, em João 13. Acompanhem, por favor, enquanto leio.
Ora, antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que já era chegada a Sua hora de passar deste mundo para o Pai, como havia amado os Seus, que estavam no mundo, amou-os até o fim.
E, durante a ceia, tendo já o diabo posto no coração de Judas Iscariotes, filho de Simão, que O traísse, Jesus, sabendo que o Pai tinha dado todas as coisas nas Suas mãos, e que havia saído de Deus e ia para Deus, levantou-Se da ceia, tirou as vestes e, tomando uma toalha, cingiu-Se.
Depois deitou água na bacia e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido.
Aproximou-Se, pois, de Simão Pedro, que Lhe disse: Senhor, Tu lavas-me os pés? Respondeu Jesus e disse-lhe: O que Eu faço, tu não o sabes agora; mas depois o entenderás.
Disse-Lhe Pedro: Nunca me lavarás os pés. Respondeu-lhe Jesus: Se Eu te não lavar, não tens parte Comigo.
Disse-Lhe Simão Pedro: Senhor, não só os meus pés, mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que está banhado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais está todo limpo; e vós estais limpos, mas não todos. Porque bem sabia Ele quem O havia de trair; por isso disse: Nem todos estais limpos.
Depois que lhes lavou os pés, tomou as Suas vestes e Se assentou outra vez à mesa, disse-lhes: Entendeis o que vos tenho feito? Vós Me chamais Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque Eu o sou. Ora, se Eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros. Porque Eu vos dei o exemplo, para que, como Eu vos fiz, façais vós também.
Na verdade, na verdade vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado maior do que Aquele que o enviou. Se sabeis estas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes.
— João 13:1-17
Para aqueles que gostam de uma conexão lógica, eis o que gostaria que examinássemos. Então espero que vejamos essa primeira revelação do coração de Deus.
Primeiro, gostaria de definir, tanto quanto pudermos, qual é o princípio — a verdade, a realidade — ilustrado pelo lava-pés. Qual é o princípio?
Depois, gostaria de passar um momento ou dois discutindo por que Pedro, nosso representante, teve tanta dificuldade com esse princípio. Então, com a graça de Deus, gostaria de ampliar um pouco o princípio. O que significa lavar os pés uns dos outros?
É simples. Qual é o princípio? Por que Pedro recuou diante dele? E, ampliando o princípio, o que significa lavarmos os pés uns dos outros?
Algumas pessoas creem que isso é literal, que estabelece uma cerimônia ou ordenança em que se lavam os pés de fato. Quer deva ser literal, quer não, pelo menos há também um princípio por trás disso. Vamos procurar nos ater ao princípio.
Algumas pessoas, por causa de Lucas 22 — porque, pouco antes disso, segundo o relato, os discípulos discutiam sobre quem seria o maior no reino —, dizem que o princípio é a humildade. Ali estão eles discutindo sobre quem será o maior, e então o Senhor Jesus Se humilha, abaixa-Se e lhes lava os pés.
Não duvido de que haja um princípio de humildade nessa passagem, mas não acho que essa seja a ideia principal. Não acho que esse seja o ponto central. Acho que é mais profundo. Acho que é mais abrangente.
Acho que Jesus estava prestes a revelar o coração de Deus e que, em outras palavras, disse: “Sabem, quero que vocês conheçam Deus. Espero que compreendam esta extraordinária verdade sobre o coração de Deus.”
Podemos nos aproximar um pouco mais do princípio examinando como o lava-pés aparece nas Escrituras. A primeira menção está em Gênesis 18. Lembrem-se de Abraão, quando os três visitantes vieram visitá-lo, e a Bíblia diz que ele lhes lavou os pés.
Depois, em Lucas 7, quando o Senhor Jesus foi à casa de Simão, Ele disse:
Simão, não Me deste água para os pés; mas esta regou os Meus pés com lágrimas.
— Lucas 7:44
E, em 1 Timóteo 5, onde Deus descreve a mulher que é verdadeiramente viúva, ela lavou os pés dos santos.
Naqueles dias, eles não tinham o que temos hoje — ruas pavimentadas e tudo o mais. Usavam sandálias abertas, não usavam meias, e as estradas eram sujas e empoeiradas. Naqueles dias, todo mundo lavava os pés. Em todas as casas havia recipientes para isso.
Na verdade, alguns, com certa razão, creem que a água que Jesus transformou em vinho era água para lavar os pés, tirada daqueles recipientes. É claro que, se foi isso que Ele fez, acho que acrescentaria algo ao milagre.
Mas todos tinham aqueles recipientes especiais, e era um ato de hospitalidade. Quando você chegava à casa de alguém e essa pessoa lhe lavava os pés, não se tratava de humildade, como quem diz: “Acho que vou ser humilde e lavar seus pés.” Não era humildade. Era um ato de hospitalidade. Era um ato de refrigério.
Eu disse que chegaríamos a esse ponto. É isso: eles estavam recebendo refrigério. É mais ou menos como quando vocês chegam à nossa casa hoje e dizemos: “Tire os sapatos, relaxe, sinta-se em casa.”
Para compreender o princípio do lava-pés, você precisa compreender esse refrigério que conduzia à comunhão. O Senhor Jesus lhes deu refrigério, e isso conduziu a essa extraordinária comunhão.
Cristo não estava dizendo: “Os cristãos devem ser humildes e servir uns aos outros.” Não aqui. Ele disse isso muitas vezes, mas não aqui. Era mais profundo. Ele estava procurando ensinar e revelar esta verdade:
Eu sou o primeiro a dar refrigério.
Eu sou Aquele que lava os pés.
Eu sou o Servo.
Eu vestirei o avental de escravo.
Acho que, ao examinarmos os princípios — não só este, mas os outros que veremos —, tudo o que Ele compartilha agora sobre o coração de Deus contraria o pensamento natural. É radical. É ao contrário. É de cabeça para baixo. É quase assim que sabemos que é verdade, porque tantas vezes o Senhor Jesus apresenta Sua verdade, e ela vai contra o coração natural do homem.
Acho que compreenderemos melhor a perspectiva de Jesus se entendermos a perspectiva de Pedro, nosso representante. Onde Pedro estava espiritualmente? Lembrem-se: ele representava todos os outros. Acho que a condição dele era a condição deles.
O que Jesus disse e fez a Pedro, Jesus diz e faz a nós. Pedro nos representava. Ele é a lição prática de Deus sobre a santificação progressiva. É por isso que é tão fácil nos identificarmos com Pedro, porque acho que todos nós avançamos progressivamente como ele.
Pedro ganhou uma reputação ao longo dos anos. Nem sempre ela é exata, mas ele era impulsivo, exaltado e zeloso — muito fervoroso, com mais zelo do que conhecimento, e assim por diante. Não pensem em Pedro como um idiota desastrado. Ele não era isso.
Na verdade, ele havia avançado bastante no conhecimento de Deus. Havia avançado bastante no conhecimento do Senhor Jesus Cristo. Acho que ele representa muito bem o quanto todos eles haviam avançado. O que ele diz e faz agora, diz e faz como representante.
Deixem-me mostrar, a partir de outras passagens, o quanto ele havia avançado:
Por Ti darei a minha vida.
— João 13:37Senhor, estou pronto a ir Contigo até à prisão e à morte.
— Lucas 22:33Ainda que todos se escandalizem em Ti, eu nunca me escandalizarei.
— Mateus 26:33Ainda que me seja necessário morrer Contigo, não Te negarei.
— Mateus 26:35
Irmãos, não leiam isso como se fosse “lá, lá, lá”. É algo extraordinário. Era um amor profundo e uma afeição profunda. Isso vinha do coração. Ele havia chegado até esse ponto em sua vida. Essa era sua condição naquele momento.
Ele estava diante de Jesus. Cristo era Senhor de tudo; ele era um servo. Estava simplesmente dizendo: “Senhor, pelo menos isso eu já enxerguei, e sou Teu súdito. Morrerei por Ti.” Ele estava falando sério. Esse era seu verdadeiro coração.
Cristo é o Senhor absoluto; ele é um escravo totalmente dependente. Vocês não vão compreender a resistência de Pedro se não compreenderem a revelação que ele tinha de Cristo.
A revelação de Cristo que Pedro tinha era esta: “Tu és o Senhor. Tu és o Mestre. Tu és o meu destino. Podes pedir o que quiseres; eu farei. Envia-me a qualquer lugar; eu irei. Exige qualquer coisa; eu darei.”
“Creio que Tu és Senhor, e eu sou escravo. Entreguei tudo.” Pedro havia entregado sua família, seus amigos, sua profissão, seus peixes, seu barco, sua rede — tudo. Cristo era Senhor de tudo.
Se você estivesse à beira do mar da Galileia, teria ouvido Pedro cantar o hino de George Stebbins toda vez que saía para pescar:
Seja feita a Tua vontade, Senhor, seja feita a Tua vontade.
Tu és o Oleiro; eu sou o barro.
Era onde ele estava: entrega absoluta. Era à luz disso e a partir desse entendimento — se quiserem chamar de teologia, essa era sua teologia — que ele pensava: Cristo é Senhor; eu sou servo.
Pedro quase foi levado de roldão naquele dia antes da morte de Jesus, por essa revelação de Cristo ao seu coração. Digo a vocês: um dos irmãos orou há pouco para que fôssemos transformados em nossa teologia e assim por diante. O Senhor Jesus abriu um rombo na teologia de Pedro. Ele nunca mais foi o mesmo depois disso, como vocês verão.
Olhem novamente para João 13:6-8. Quando Jesus Se cingiu com aquele avental de escravo — eu não conheço as línguas originais. Louvo a Deus por Ele nos ter dado homens que escrevem em inglês o que dizem estar escrito no grego e no hebraico.
Estudei alguns desses autores, e eles observam que há uma ênfase extraordinária nos pronomes. Não a percebemos no inglês. Ela aparece assim:
Tu?
Meus?
“Tu? Estás brincando? Tu? Lavar os meus pés?” Pedro está dizendo: “Senhor, Tu não conheces minha teologia. Eu lavarei os Teus pés, sem problema. Eu Te servirei, sem problema. Mas Tu? Os meus?”
O versículo 8 é ainda mais forte. Os estudiosos do grego nos dizem que a expressão grega não poderia ser mais forte do que nessa passagem. Pedro disse: “Nunca me lavarás os pés.” Ele usa essa forma: nunca, pelos séculos da eternidade.
Isso é que é dogmatismo. “Não, não, nunca, nunca. Não importa o que digas, Senhor, nunca. Se eu viver um milhão de anos, nunca permitirei que isso aconteça. Tu não entendes de boa teologia, Senhor. Tu és o Senhor. Eu sou o servo. Eu lavarei os Teus pés — nunca, nunca, pelos séculos da eternidade.”
“Darei minha vida por Ti. Morrerei por Ti. Não Te negarei. Lavarei os Teus pés. Senhor, por favor, não inverte isso.”
Foi nesse momento que o Senhor Jesus disse o que considero uma das coisas mais chocantes que Ele já dirigiu a cristãos:
Se Eu te não lavar, não tens parte Comigo.
— João 13:8
Nossa, isso é forte. Nenhuma parte. Agora, Ele não estava dizendo: “Pedro, se você não Me deixar fazer isso, vai morrer e ir para o inferno.” Não estava dizendo isso. Ele já disse em João 13:10 que Pedro estava limpo. Pedro já estava limpo. Já era salvo.
Mas Ele disse: “Pedro, se você não compreender este princípio, se não compreender que Eu sirvo você, que Eu lhe dou refrigério antes que você possa Me dar refrigério, então não terá parte — nenhum relacionamento íntimo, nenhuma comunhão, nenhuma união, nenhuma unidade, nenhuma revelação, nenhum ministério.”
Isso praticamente basta para apresentar a vocês o primeiro princípio. Acho que o Senhor Jesus, na noite anterior à Sua morte, estava procurando fazer uma revisão. Em outras palavras, Ele disse:
Irmãos, espero que vocês tenham visto pelo menos isto:
que é Deus Quem veste o avental;
que é Deus Quem ministra ao homem;
que é Deus Quem serve.
Antes que vocês movam um dedo para servi-Lo, Ele já está aos seus pés, lavando-os.
Lembro-me de que, quando confiei no Senhor pela primeira vez, durante muitos anos me ensinaram que eu havia sido salvo para servir a Deus. Não é esse o propósito principal.
Eis o princípio:
Salvos para sermos servidos a fim de servir.
Vocês percebem a diferença? Digo a vocês: isso não é apenas uma questão de termos. Não é apenas uma questão de linguagem. Não é apenas semântica. É uma direção diferente, irmão. Salvos para sermos servidos a fim de servir. Não pode haver outro caminho.
Naquele dia, Pedro estava onde milhares estiveram desde então: inteiramente entregues ao senhorio de Cristo. “Querido Senhor, sou Teu servo.” E não têm parte com Ele. Ah, que tragédia — nenhuma parte com Ele.
Isso parte o coração. De vez em quando vemos alguns assim, dedicados e sinceros, trabalhando, orando, contribuindo e seguindo ano após ano — tão ocupados trabalhando, servindo, lavando os pés de Deus. Na realidade, não conhecem o Senhor. Não estão tendo parte, um relacionamento íntimo, com Ele.
Salvos para sermos servidos a fim de servir.
Deixem-me desenvolver um pouco mais por que Pedro teve tanta dificuldade com isso. Sim, porque sua teologia ainda não havia chegado até esse ponto. Pedro percorreu uma estrada cheia de solavancos, como vocês sabem. Como sabem, ele chegou bem ao final, e chegou bem por causa do seu coração. Tinha um coração disposto.
Naquele momento, Pedro estava bastante confuso e perplexo. Quando ouviu aquelas palavras, “Nenhuma parte Comigo”, digo a vocês: para aquele coração sensível, foi como levar uma pancada na cabeça com um pedaço de madeira.
Pobre Pedro. “Estou disposto a morrer por Ti.” Jesus disse: “Não teremos comunhão.” Ora, essa! Pedro não compreendia o que Ele estava dizendo, mas de jeito nenhum queria correr esse risco.
Seu coração estava dizendo: “Senhor, espera um pouco. Nenhuma comunhão? Nenhuma parte Contigo? Está bem — então lava minha cabeça, minhas mãos e meu corpo inteiro.” Como ele abandonou depressa o seu dogmatismo!
Num momento, estava inflexivelmente dogmático: “Nunca, nem pelos séculos da eternidade, nunca.” Depois: “Está bem, lava meu corpo inteiro.” Pedro não correu para esse extremo em cinco meses, cinco semanas ou cinco dias. Isso aconteceu em cinco minutos.
Eu costumava ter pouca esperança em relação às pessoas dogmáticas. Venho de um grupo denominacional e digo a vocês: somos dogmáticos. “Nós sabemos, e é assim que as coisas são. Eles nunca vão mudar, e ninguém vai me convencer.” Eu podia desistir deles e dizer: “Esqueça. Não há esperança para você.”
Mas então li isso. Se você tem um coração como o de Pedro, não importa o quanto seja dogmático. Esse dogmatismo pode mudar num instante se o seu coração estiver dizendo: “Senhor, se isso significa não ter comunhão Contigo, então estou disposto a mudar.”
Pedro errou nos dois extremos. Primeiro, rejeitou o que era indispensável. Depois, exigiu o que era supérfluo. Errou dos dois lados.
Ele poderia ter pensado que estava sendo humilde ao rejeitar a oferta do Senhor de servi-lo. Nunca é humildade rejeitar a oferta do Senhor de servir você. Isso é orgulho. É sempre orgulho.
Pedro precisou aprender isso. Imediatamente, ele se adiantou e disse: “Senhor, se isso significa relacionamento, se significa comunhão, está bem. Eu aceito.” A princípio, eram apenas palavras. Mais tarde, o Senhor precisou fazer isso descer ao seu coração.
Quando ele disse: “Não só meus pés, mas minha cabeça, meu corpo inteiro”, não havia compreensão naquela declaração. Havia muito coração nela, mas nenhuma compreensão.
Deus precisou trabalhar essa verdade nele. Pedro a aceitou prontamente com a boca: “Está bem, então faremos do Teu jeito. Tu podes me servir.” Mas ele não compreendia o que estava dizendo. Nem começava a entender.
O Senhor Jesus disse: “Está bem, Pedro, vou lhe dizer o que faremos. Vamos seguir o seu caminho e ver aonde chegamos. Você quer Me servir? Eu sou Senhor; você é servo. Pedro, há certas coisas que você não compreende.”
Deixem-me mencionar apenas quatro. Darei as referências; não vou me demorar nelas.
A primeira coisa que Pedro não compreendia era que existia um diabo pessoal que o odiava profundamente e queria vê-lo arruinado. Pedro não compreendia isso.
É quase cômico ler o relato de Mateus 16:22. Pedro chama Jesus à parte e começa a repreendê-Lo. Está gritando com Ele, falando aos berros com Jesus.
Então vem Lucas 22:31-32:
Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos cirandar como trigo.
— Lucas 22:31
Pedro não compreendia, no conflito espiritual, que havia um diabo real. Mais tarde, compreendeu e escreveu sobre isso: Satanás é como um leão que ruge, procurando a quem possa devorar. Onde ele aprendeu isso? Vou lhes dizer onde aprendeu.
O Senhor Jesus disse: “Está bem, Pedro, você quer Me servir? Aqui está sua primeira tarefa. Você está pronto para morrer por Mim, certo?”
Vigiai Comigo uma hora.
— Mateus 26:40
O maior pesadelo da história do mundo, um dos maiores conflitos espirituais de todos os tempos, e Pedro estava alheio a tudo aquilo. O que ele não sabia — e Jesus lhe explicou — era que havia um diabo real ali. Era por isso que não conseguia servi-Lo.
Então, Pedro, Mateus 26:41:
O espírito, na verdade, está pronto, mas a carne é fraca.
“Pedro, é por isso que você não consegue Me servir. Você não compreende esse princípio.” Pedro disse: “Está bem, Senhor. Deixa-me tentar outra vez.”
João 18 e Mateus 26 registram a história. Chegam todos os soldados — quinhentos soldados, armados, prontos para prender o Senhor. Pedro diz: “Está bem, Senhor, vou Te mostrar. Vou Te servir.” Ele puxa uma espada.
Pedro, o pescador, contra Roma. “Posso Te servir, Senhor. Posso Te defender. Tenho isso dentro de mim.” E Jesus disse: “Ah, Pedro.”
Então ele corta a orelha do servo do sumo sacerdote. Os estudiosos não sabem como ele fez isso. Alguns dizem que estava tentando decapitá-lo, e a espada desviou para aquele lado. Outros acham que estava tentando parti-lo ao meio. Não sabemos o que de fato aconteceu. Talvez ele estivesse apenas tirando a espada da bainha e erguendo-a.
Eis o que Pedro não compreendia. O Senhor Jesus lhe explica mais tarde, depois de curar aquele homem e recolocar sua orelha. Ele diz: “Pedro, você não está equipado para ser servo. Tenho anjos. Esses, sim, são servos. A qualquer momento, Eu poderia chamar doze legiões de anjos.”
“Se Eu quisesse um servo, Pedro — Salmos 50 —, se Eu tivesse fome, não lhe diria. Você não está equipado. Não tem capacidade para Me servir.”
“Pedro, existe um diabo real. Você não consegue Me servir. Pedro, a carne é fraca. Você não consegue Me servir. Pedro, você não foi feito para ser servo. Não tem essa capacidade. Eu fiz servos. Eles vão de um lado para o outro como relâmpagos. Cumprem Minhas ordens o tempo todo. Eu sei o que é um servo. Não fiz você para ser servo. Você não consegue nem correr uma milha, Pedro. Você não consegue Me servir.”
Bem, ele quase havia compreendido isso no coração, mas disse: “Senhor, sei que consigo. Deixa-me Te servir.”
Vocês conhecem o relato. Foi uma verdade muito humilhante que Pedro precisou aprender. A Bíblia registra, em Mateus 26:58, que, quando todos se dispersaram, Pedro O seguiu de longe. Depois de algum tempo, aproximou-se mais, e então o vemos no círculo dos inimigos declarados de Jesus Cristo.
Mateus 26:69: uma jovem criada se aproxima, e ele O nega. “Não O conheço.” Depois vem outra criada, e ele O nega com juramento. Por fim, os que estavam por ali se aproximam e dizem:
A tua fala te denuncia.
— Mateus 26:73
Ele começa a praguejar, a jurar e a negar o Senhor.
Lucas 22:61 diz:
E, voltando-Se o Senhor, olhou para Pedro.
Pedro estava apaixonado por si mesmo. Havia jurado entregar sua vida por amor a Cristo. Em vez disso, salvou sua própria vida e negou o Senhor.
É algo impressionante, irmãos. Torna-se ainda mais impressionante quando prosseguimos e percebemos: se você seguir pelo outro caminho, se disser: “Ele é Senhor, eu sou servo, vou servi-Lo”, aonde isso vai levar?
Sempre — é difícil acreditar — essa abordagem conduzirá a uma negação explícita de Jesus Cristo, uma negação explícita de Cristo.
Muitos, muitos, muitos cristãos chegaram a esse ponto, chorando, quebrantados, dizendo: “Está bem, Senhor, faremos do Teu jeito. Não consigo Te servir. Tu me serves. Tu me dás refrigério.”
Então nasce um servo. Um servo é formado.
Salvos para sermos servidos a fim de servir.
Deus é Quem lava os pés. Ele veste o avental. É algo maravilhoso quando Deus começa a escrever em nosso coração que fui salvo para permitir que Ele me dê refrigério, ministre a mim e me introduza nessa participação com Ele — nessa intimidade, nesse relacionamento, nessa comunhão, nessa unidade, nessa união.
Agora podemos falar de serviço. Não antes disso.
Ah, irmãos, precisamos ver essa grande revelação do coração de Deus. Todos dizem: “Ah, a entrega é tão difícil.” Não é difícil. Você entrega sua família, sua vida, sua profissão e seu futuro — isso é fácil.
Mas entregar a sua entrega — ah, isso já é outra coisa. Que Deus nos leve ao ponto em que digamos: “Está bem, Senhor. Entreguei tudo a Ti. Agora entrego a minha entrega, e Tu começas a me lavar, a ministrar a mim, para que eu possa dar refrigério aos outros.”
Deixem-me dizer uma palavra, antes de encerrarmos, sobre esse outro lado: salvos para sermos servidos a fim de servir.
João 13:13-15 diz:
Vós deveis também lavar os pés uns aos outros.
— João 13:14
O que isso significa? Como você lava os meus pés? Como eu lavo os seus?
Se Ele lavar os meus pés significa que Deus ministra a mim para me preparar para ministrar aos outros, o que significa lavarmos os pés uns dos outros?
Bem, seja qual for o significado, ele precisa estar relacionado de alguma forma com o versículo 8, vocês não acham?
Se Eu te não lavar, não tens parte Comigo.
— João 13:8
De alguma forma, quando Cristo nos dá refrigério, temos um relacionamento. Esse refrigério — seja o que for que Ele faça ao nos dar refrigério — nos une. Faz de nós um. Temos parte com Ele quando Ele nos lava.
Não seria lógico dizer que, seja qual for o significado de lavar os pés uns dos outros, seja qual for o significado de você me dar refrigério e eu dar refrigério a você, quando isso acontece, somos unidos? Temos parte uns com os outros. Temos união, unidade, intimidade.
Ouvimos tanto nestes dias sobre unidade, sobre sermos um e sobre a vida do Corpo: “Vamos todos ser um e amar uns aos outros.” Quando sou um com Cristo? A resposta é: quando Ele me dá refrigério.
Quando os cristãos são um uns com os outros? Quando aprendemos o que significa dar refrigério uns aos outros. Quando irmãos e irmãs no Senhor começam a dar refrigério uns aos outros à maneira de Deus, digo a vocês: então há unidade. O cristão A está unido ao cristão B, e uma parelha de mulas não conseguiria separá-los. Isso é unidade. Isso é ser um. Vem do refrigério.
Não precisamos de programas sobre unidade, seminários sobre unidade, fitas sobre unidade ou livros sobre unidade. Precisamos que o povo de Deus aprenda a dar refrigério uns aos outros. Como posso dar refrigério a você? Como você pode dar refrigério a mim?
Deixem-me dar três sugestões simples e práticas, e então encerraremos. Primeiro vou apresentá-las, e depois ilustrá-las para vocês.
A primeira maneira pela qual os cristãos dão refrigério uns aos outros é deixando que o Senhor lhes dê refrigério.
Aqui está uma ilustração maravilhosa: 2 Coríntios 7:13-16. A passagem usa a palavra refrigerado. Diz que Tito foi refrigerado pelos coríntios. Em outras palavras, Tito teve seu espírito refrigerado pelos coríntios.
Como eles lhe deram refrigério? Tito foi a Corinto, viu os coríntios olhando para Cristo e recebeu refrigério. Eles não fizeram nada. Apenas olharam para Jesus. Estavam recebendo refrigério do Senhor e, automaticamente, lavaram os pés de Tito.
Paulo entrou em contato com Tito e perguntou: “Como vão as coisas?” Ele disse: “Ufa, estou refrigerado.” O que eles fizeram? Não fizeram nada. Apenas desfrutaram de Jesus. Quando ele viu isso, recebeu tanto refrigério.
Na verdade, essa é a chave de todo ministério: não corrermos em mil direções tentando dar refrigério uns aos outros, mas andarmos nesse relacionamento ininterrupto. O refrigério é espiritual.
Aqui está um irmão com um problema, e o cristão A se aproxima e diz: “Você precisa de um versículo.” Talvez ele não precise de um versículo. Outro se aproxima e diz: “Precisamos orar sobre isso”, e então ora. Os pés dele foram lavados? Talvez. Talvez não.
“Você precisa vir participar da comunhão.” Isso é lavar os pés dele? Talvez; pode ser. Dar-lhe conselhos — isso é lavar seus pés? Dar-lhe um dólar? Pode ser, se você estiver fazendo isso porque recebeu refrigério do Senhor.
Aqui está outro cristão. Ele nem sabe qual é o problema daquele homem; está apaixonado demais pelo Senhor. Anda por aí dizendo: “Nossa, o Senhor falou ao meu coração hoje.” O outro está tentando contar seu problema, mas esse irmão está desfrutando do Senhor.
Talvez ele não diga nada. Está simplesmente conhecendo Cristo. Cristo está Se manifestando a ele. Está maravilhado no Senhor.
Então aquele irmão aflito volta para casa, para sua esposa, e ela pergunta: “O que mudou você? Ele lhe deu um versículo? Alguém orou com você? Alguém o arrastou para a comunhão?” “Não. Você precisava ter visto aquele cristão. Nossa, ele estava desfrutando de Cristo. Isso era uma alegria para ele.”
É isso que lava os pés. Irmãos, entrem nessa união com Cristo. Deixem que Ele os lave. Deixem que Ele lhes dê refrigério. Tenham parte com Ele, e vocês vão lavar os pés de todos.
Que dia maravilhoso teremos — uma chuva de lava-pés por aqui neste fim de semana — se todos estivermos deixando que o Senhor nos lave. Basicamente, é isso que significa lavar os pés: o resultado, o transbordamento, de sermos lavados por Cristo.
Há outra ilustração, e ela é muito prática. O princípio é andar no Espírito, estar disponível para o Senhor, estar no Senhor.
Há outra ilustração de refrigério em 1 Coríntios 16:18. Paulo disse que recebeu refrigério quando Estéfanas, Fortunato e Acaico chegaram, porque Deus os usou para suprir suas necessidades pessoais.
Foi no Senhor. Não é que eles saíssem por aí procurando necessidades para suprir. É por isso que a expressão no Senhor aparece naquele versículo que compartilhamos antes de começarmos aqui, Filemom 1:20:
Que eu tenha de ti benefício no Senhor; refrigera o meu coração em Cristo.
Não se trata de sairmos tentando encontrar necessidades, mas de estarmos disponíveis para o Senhor. À medida que andamos nessa união e Deus traz situações à nossa vida, ao suprirmos necessidades e prestarmos ajuda material às pessoas, isso lava os pés. Isso lhes dá refrigério, assim como Paulo recebeu refrigério.
Mais uma, e terminamos. Ela se relaciona, de certa forma, com João 13. É muito belo — o coração de Cristo aqui. Ele estava tão interessado em limpar os pés.
Ele não entrou e saiu andando por ali, dizendo: “Pés sujos, sujos! Nossa, nunca vi pés assim.” Ele não estava interessado em pés sujos; estava interessado em pés limpos. Esse é o coração de Cristo.
Sei que meu filho Stephen está aqui. Certa vez, ele veio jantar e, sinceramente, eu nunca tinha visto mãos daquele jeito. Estavam imundas. Eu ainda não havia recebido essa passagem, Steve, então estou livre dessa cobrança.
Ele entrou, e eu disse: “Olhe essas mãos! Você já viu…? Não, você não vai entrar aqui.” Agarrei-o pelo pulso. “Olhe essas mãos!” Então as meninas entraram: “Deixe-me ver, deixe-me ver, deixe-me ver.” Mostrei as mãos dele para todo mundo.
Não foi assim que o Senhor Jesus fez. Ele não estava tentando mostrar a sujeira deles a todos.
Irmãos, em nossa atitude para com o povo de Deus, quando alguém cai, quando tropeça, em vez de expô-lo, falar sobre ele e mostrar todas as suas falhas, o amor cobre uma multidão de pecados.
Ah, como poderíamos lavar os pés. Ah, como poderíamos dar refrigério, se não expuséssemos as pessoas. Se nosso coração estivesse voltado para a limpeza, se estivesse voltado para a pureza, se não estivesse voltado para a exposição, então poderíamos perguntar: “Como posso lavar os seus pés?”
Posso lavar os seus pés deleitando-me no Senhor. Posso lavar os seus pés estando disponível para o meu Deus; e, à medida que Deus organiza as circunstâncias, se eu puder ajudar, posso lavar os seus pés ajudando você.
Posso lavar os seus pés estendendo um grande véu sobre seus erros, sobre seus pecados, e você sobre os meus. Andem em amor e cubram uma multidão de pecados.
Uma das partes importantes deste capítulo tem a ver com isto:
Aquele que está banhado não necessita de lavar senão os pés, pois no mais está todo limpo.
— João 13:10
Conheço o entendimento usual: uma vez salvo, você não precisa ser salvo novamente, e tudo o que precisa fazer é ter os pés limpos ao longo da vida — confessar e tudo o mais. Talvez isso esteja ali. Não sei.
Mas sei disto: há outro princípio aqui. Uma vez que você foi banhado — vamos entender isso como a salvação, a purificação representada por essa figura —, uma vez que conhece o Senhor, qual é sua única necessidade depois disso? Não há outra necessidade.
“Aquele que está banhado necessita apenas…” Isso é uma única necessidade. Qual é sua única necessidade depois de ser salvo? É deixar Deus ministrar a você. Essa é sua única necessidade. Você não tem outra necessidade.
Ah, que Deus nos mostre isso. Jesus, no dia anterior à Sua ida para a cruz, disse: “Tenho algumas coisas para lhes mostrar. Espero que vocês não tenham deixado isso passar. Querem conhecer o coração de Deus? Vim para revelar Deus, e aqui está a grande verdade sobre Deus: Ele quer servir vocês. Quer lavar os seus pés. Quer ministrar a vocês.”
Vocês foram salvos para serem servidos a fim de servir. Essa é sua única necessidade. Não há outra necessidade, uma vez que vocês enxergam isso.
Então Ele diz: “Vocês viram isso? Ainda não viram nada. Olhem isto, e isto, e isto.” Que Deus nos conceda graça para enxergar.
Nosso Pai, nós Te agradecemos muito porque Tu não nos chamaste, em primeiro lugar, para Te servir, para ministrar a Ti.
Senhor, conhecemos nosso coração natural, assim como Pedro recuou diante da ideia de que o Criador estaria aos pés da criatura, de que Tu ministrarias a nós.
Capacita-nos, Senhor, a ter esse coração que simplesmente permita que Tu nos dês refrigério, para que possamos dar refrigério aos outros. Opera isso em nós, nós Te pedimos, em nome de Jesus.