E não há como sermos servos uns dos outros, do nosso próximo, se não entendermos o que significa Cristo Jesus ser Senhor.
Seria bom se pudéssemos simplesmente dar o fundamento por conhecido. Mas me lembro de que, muito tempo atrás, um irmão em Cristo compartilhou isto comigo. Ele disse: “Nunca dê nada por conhecido quando compartilhar a Palavra de Deus, porque as pessoas nunca sairão levando aquilo que você acha que elas sabem. Elas só sairão levando aquilo que você lhes der”.
Por isso, não tenho dado nada por conhecido. Se vocês ouvirem verdades simples, é isso mesmo que ouvirão: verdades simples. Vocês já as ouviram antes. Peçam a Deus que os avive novamente e que me vivifique. Não vou compartilhar nada de novo com vocês durante todo este fim de semana, mas oro para que Deus nos vivifique novamente por meio de algumas das antigas verdades.
O apóstolo Paulo havia chegado a esse ponto em que Cristo Jesus era Senhor e ele era servo dos outros. Há um processo pelo qual o apóstolo Paulo chegou a enxergar isso.
O que eu gostaria de fazer na introdução desta noite é ir, por assim dizer, tateando o caminho até chegar ao centro do que está no meu coração — o encargo que gostaria de compartilhar — e então começar a desenvolvê-lo. Ao longo do fim de semana, acho que vocês verão com muita clareza aonde estamos indo.
Quando tenho um desejo ardente no coração em relação a algum tema, geralmente faço estudos de livros bíblicos. Gosto de estudar livros inteiros. Gosto de estudar Crônicas, Josué e Atos. Gosto de livros completos. Mas, de vez em quando, sinto vontade de estudar temas.
Uma das coisas que sempre faço quando estudo temas — e, como este estudo é um tanto temático, fiz isso desta vez — é fazer estas duas perguntas:
Sempre me ajuda ter uma imagem, alguma história que eu possa acompanhar. Parece que Deus gosta de fossilizar princípios eternos em algumas dessas histórias.
Então, em relação a esta mensagem sobre o servo, deixem-me fazer essas duas perguntas. O Espírito Santo nos deu, em algum lugar da Bíblia, um exemplo de alguém que compreendeu plenamente o que significa ter Cristo Jesus como Senhor e ser servo do seu próximo?
Creio que Ele nos deu um exemplo. Deixem-me ser ousado por um momento: confiem em mim quanto a isso, e creio que vou lhes mostrar. Acho que Deus nos deu uma ilustração desse tipo — e apenas uma. Não creio que haja mais de uma ilustração disso na Bíblia, e gostaria de compartilhar essa única ilustração.
Agora, a princípio, se vocês têm uma mente espiritual, talvez digam: “Sei imediatamente qual é essa ilustração. É o nosso próprio Senhor Jesus. Ele é o modelo. Ele é o exemplo. Ele é a ilustração”.
Certamente, Jesus sabia o que era ter um relacionamento vivo com Seu Pai e conhecê-Lo. É claro que ninguém jamais se entregou pelos outros como o nosso Senhor Jesus.
Acho que Jesus, em certo sentido, é uma boa ilustração desse princípio; mas, em outro sentido, a maneira como Ele viveu O desqualificou para isso. Em primeiro lugar, o Senhor Jesus não viveu pela graça como nós somos chamados a viver pela graça — especialmente se entendermos a graça como favor imerecido, favor que não merecemos. Jesus não viveu assim. Ele não precisava do favor imerecido de Deus.
Em segundo lugar, sei que Ele viveu na dependência de Seu Pai. Não estou dizendo que Ele não exerceu fé, mas Ele não viveu pela fé da maneira como Deus nos chamou a viver pela fé.
Na verdade, penso em Gálatas 4:4-5:
Quando veio a plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho,
nascido de mulher, nascido sob a lei.
Acho que o Senhor Jesus viveu pela lei. Ele obedeceu a Deus. O que vocês e eu recebemos por favor imerecido, Ele recebeu por meio de perfeita obediência. Então, há uma ilustração, mas não creio que o Senhor Jesus seja a ilustração que Deus nos deu nessa linha.
Na verdade, se Cristo fosse esse modelo, tenho certeza de que Satanás nos tentaria a dizer que isso é inatingível. Jesus era o modelo; Ele era o Deus-homem e viveu daquela maneira por ser Quem era. Portanto, nós não poderíamos viver assim de qualquer modo.
Então vocês percorrem a Palavra de Deus e dizem: “Há tantos homens de Deus na Bíblia, tantas mulheres de Deus — certamente alguém deve ter sido essa ilustração de conhecer Cristo como Senhor e de ser servo”.
Vocês podem estudar Moisés: ele é uma grande imagem de mansidão. Estudem Jó: uma imagem de paciência. Estudem Elias: aprendam algo sobre coragem. Talvez Abraão: uma imagem de fé. Salomão: sabedoria. Estudem o apóstolo João: aprendam algo sobre devoção. Ou Davi: adoração. Pedro: santificação progressiva.
Acho que, quer vocês considerem os santos da Bíblia, quer considerem os santos posteriores à Bíblia — Agostinho, Lutero, Calvino, Whitefield, qualquer que seja a lista que leiam —, descobrirão que cada um daqueles santos bíblicos que mencionei, cada um que não mencionei e todos aqueles santos posteriores à Bíblia são modelos incompletos da vida cristã.
Nenhum deles é um modelo completo da vida cristã. Não creio que Deus queira que moldemos nossa vida segundo qualquer santo sobre o qual lemos, ou segundo qualquer biografia que lemos.
Creio que Deus colocou na Bíblia um, e apenas um, modelo completo da vida cristã. Ele nos deu uma imagem da vida da nova aliança. Acho que Deus quer que examinemos toda a nossa experiência cristã à luz desse único modelo.
Essa única vida é uma proteção contra todos os modelos incompletos da vida cristã. Acho que vocês já sabem a quem estou me referindo.
Estou falando do apóstolo Paulo. Acho que o apóstolo Paulo foi escolhido por Deus como o único modelo completo da vida cristã vitoriosa. Só ele reunia tudo.
Agora, ouçam estes versículos. Eu os anotei para poupar tempo. O apóstolo também sabia disso. O Espírito Santo lhe disse que faria isso com ele e, em certo sentido, ele viveu sob o peso dessa responsabilidade.
Atos 9:15-16, palavras dirigidas a Ananias:
Ele é um instrumento escolhido por Mim para levar o Meu nome perante os gentios,
os reis e os filhos de Israel;
pois Eu lhe mostrarei quanto deve sofrer pelo Meu nome.
1 Coríntios 4:16:
Portanto, eu vos exorto, irmãos: sede meus imitadores.
1 Coríntios 11:1 diz a mesma coisa:
Sede meus imitadores, assim como eu também sou de Cristo.
Filipenses 4:9:
As coisas que aprendestes, recebestes, ouvistes e vistes em mim, essas praticai.
1 Tessalonicenses 1:6:
Tornai-vos nossos imitadores.
2 Tessalonicenses 3:7-9:
Vós mesmos sabeis como deveis seguir o nosso exemplo,
porque não nos comportamos de maneira indisciplinada entre vós,
nem comemos de graça o pão de ninguém;
antes, com labor e fadiga, trabalhamos noite e dia,
para não sermos um peso a nenhum de vós;
não porque não tenhamos esse direito,
mas para nos oferecermos a vós como modelo,
a fim de que seguísseis o nosso exemplo.
E, por fim, 1 Timóteo 1:16-17:
Por esta razão alcancei misericórdia,
para que em mim, o principal, Jesus Cristo demonstrasse toda a Sua paciência,
como exemplo para aqueles que haveriam de crer Nele para a vida eterna.
O apóstolo reconhecia que Deus o havia escolhido, dentre todas as pessoas que já viveram, para ser o modelo — o modelo completo — da vida que vamos descrever. Durante todo o seu ministério, ele fez referência a isso.
Em Oseias 7:8, lemos:
Efraim é um bolo que não foi virado.
Essa é apenas outra maneira de dizer que está assado pela metade: dourado de um lado e cru do outro.
Creio que muitos cristãos — provavelmente todos, de alguma maneira — estão assados pela metade: queimados de um lado e crus do outro. Todos nós parecemos ter nossa própria ênfase característica, e todos temos nossa própria caricatura. Corremos atrás de uma coisa ou de outra.
Creio que somente o apóstolo Paulo foi devidamente assado dos dois lados. Todos nós estamos assados pela metade, e qualquer pessoa que sigamos, com exceção do apóstolo Paulo, nos desviará se for a única que seguimos.
É isso que há de bom nos irmãos. É isso que há de bom no corpo, porque não ficamos limitados a um único indivíduo e podemos ver Cristo em toda parte, em todo o Seu povo. Mas, se vocês querem uma única ilustração, acho que Deus nos deu uma no apóstolo Paulo.
Jesus era Senhor da sua vida, e Paulo era um escravo — um servo — dos homens.
À parte do Senhor Jesus, o apóstolo Paulo foi o homem que mais sofreu no mundo.
Acho que 2 Coríntios 7:5 descreve, em resumo, sua vida:
Nossa carne não teve descanso, mas fomos afligidos de todos os lados:
conflitos por fora, temores por dentro.
Nem mesmo Jó sofreu como o apóstolo. Depois do seu sofrimento, Jó teve cento e quarenta anos de bênçãos. O apóstolo Paulo sofreu até o fim, até o último mês.
E isso basta quanto à ilustração. Sim, Deus nos deu uma ilustração: todos os ovos numa só cesta, o conjunto completo. O apóstolo Paulo é o modelo e a proteção contra todo modelo incompleto que jamais venhamos a encontrar.
É por isso que o Senhor permitiu que o apóstolo Paulo experimentasse tudo pelo que qualquer cristão poderia passar. Quando Deus precisou de uma igreja que fosse a igreja-modelo, que passasse por tudo, Ele escolheu Corinto. Quando escolheu um homem como Seu modelo, escolheu o apóstolo Paulo.
A segunda pergunta é esta: se Deus nos deu essa imagem, onde ela está? Onde está registrada? Onde posso encontrar esse tema desenvolvido?
Mais uma vez, assim como nosso coração foi tentado a buscar o modelo no Senhor Jesus, somos tentados a ir ao livro de Atos. Ali está a história do apóstolo Paulo: sua conversão, suas viagens missionárias, seu ministério. Ali lemos sobre seus sofrimentos.
No entanto, se estudarem o livro de Atos, vocês descobrirão que Atos apresenta a visão exterior do apóstolo Paulo. É Paulo, sem dúvida, mas é a visão exterior.
Existe uma visão interior? Há alguma passagem das Escrituras que nos mostre o interior do apóstolo Paulo, de modo que ele possa explicar o que acontece quando Deus começa esse processo de formar uma pessoa desse tipo?
Mais uma vez, eu diria que sim. Obviamente, eu não estaria fazendo esta série se não houvesse. Estou falando do livro de 2 Coríntios — do livro de 2 Coríntios.
Se vocês já leram 2 Coríntios de uma só vez, terão notado o que todos os outros comentaristas notaram ao lê-lo: é um livro muito pouco sistemático, diferente de alguns dos outros livros.
Romanos é muito sistemático, muito lógico. Primeira Coríntios é muito sistemática: um, dois, três; A, B, C; a minúsculo, b minúsculo, c minúsculo. Mas, em 2 Coríntios, se vocês fizerem uma leitura superficial, quase parece que o apóstolo Paulo está pulando de um assunto para outro.
Na verdade, alguns comentaristas sugerem que o livro é tão pouco sistemático que nem sequer era uma carta — que o apóstolo não o escreveu como carta. Em vez disso, dizem eles, descobrimos o seu diário. Este era o seu diário, e ele simplesmente anotava essas coisas durante suas viagens, escrevendo um pouco a cada dia, e o Espírito Santo o preservou.
Esse livro tem sido chamado de autobiografia de Paulo. Um comentário o chama de uma sequência de soluços, e certamente é uma carta cheia de lágrimas. Outro disse: “É o pulsar do coração de Paulo”. O testemunho de Paulo nas palavras de Paulo.
Sabem, quando alguém tem sido uma bênção na nossa vida, de alguma maneira acabamos nos sentindo atraídos por essa pessoa. Queremos nos aproximar dela.
Permitam-me sugerir, irmãos, que vocês podem se aproximar do apóstolo Paulo ao estudar 2 Coríntios. Em 2 Coríntios, Paulo simplesmente abre o seu coração. Ele coloca a si mesmo no papel — de maneira profundamente pessoal.
Segunda Coríntios não é um texto seco e esquemático, de modo nenhum. O apóstolo Paulo simplesmente derrama a si mesmo. Um homem descreveu isso como “uma pena mergulhada em lágrimas, escrevendo a partir da angústia do seu coração”. Outro homem chama esse livro de jardim do Getsêmani de Paulo.
É o seu testemunho. Aqui, Paulo revela o processo pelo qual Deus lhe ensinou o que significava ter Jesus como Senhor e o que significava ser servo. Ele é o modelo perfeito.
Houve um tempo em que ele foi o inimigo número um do Senhor Jesus, o maior legalista que já viveu. Agora, de alguma maneira, havia sido transformado no amigo número um do nosso Senhor Jesus, o maior ministro da graça de Deus que já viveu.
Muito bem, vocês veem o que fizemos até aqui. Apresentamos dois grandes pontos. O que vamos examinar? Servos. Qual é a ilustração? Paulo. Onde ela se encontra? Em 2 Coríntios. Estão vendo como estamos avançando?
Gostaria de lhes mostrar, em 2 Coríntios, alguns princípios que Paulo registra em forma de testemunho para mostrar como Deus o levou a esse ponto.
Vou lhes apresentar três princípios. Vamos examinar o primeiro nesta noite. Por baixo de todos os princípios, no pano de fundo de tudo, está aquilo que vocês podem chamar de segredo de Paulo — e este não é o primeiro princípio, mas vocês verão como ele se liga a todos os princípios: o tema de 2 Coríntios é a plena suficiência do nosso Senhor Jesus Cristo.
Esse era o segredo de tudo. O apóstolo descobriu — ou melhor, Deus revelou ao apóstolo — que Jesus bastava, que Jesus era suficiente, que Jesus era plenamente suficiente.
Isso se torna o segredo da sua vida. Quando o apóstolo descobre isso, Deus o leva a começar a escrever esses princípios que vamos examinar. Tentaremos apresentá-los com muita clareza e os examinaremos de maneira muito simples. Então, que Deus nos dê luz e nos forme segundo esse modelo.
Agora, não estamos estudando 2 Coríntios como um livro neste fim de semana, mas deixem-me sugerir um pequeno esboço. É um livro muito pouco sistemático e difícil de esboçar. Mas acho que vocês verão, se acompanharem as grandes seções, que esse tema percorre o livro inteiro.
Nos primeiros sete capítulos, o apóstolo registra, em forma de testemunho, o que significa ter Cristo plenamente suficiente nele.
Depois, nos capítulos 8 e 9, ele mostra o que significa ter Cristo plenamente suficiente por meio dele.
Depois, do capítulo 10 até o fim do livro, Cristo é plenamente suficiente para ele, de modo que ele não precisa se defender de maneira alguma. É claro que “plenamente suficiente por meio dele” é ilustrado por aqueles grandes capítulos sobre mordomia. O dinheiro simplesmente se torna a ilustração do fluir do ministério.
Três princípios mostram o processo pelo qual Deus formou em Paulo esse tipo de servo. Peço que abram, por favor, em 2 Coríntios 1:8-11. Examinaremos esses versículos, que nos dão o primeiro princípio.
Não queremos, irmãos, que ignoreis a nossa aflição que nos sobreveio na Ásia:
fomos excessivamente sobrecarregados, além das nossas forças,
a ponto de desesperarmos até da própria vida;
de fato, tínhamos em nós mesmos a sentença de morte,
para que não confiássemos em nós mesmos,
mas em Deus, Que ressuscita os mortos;
Ele nos livrou de tão grande perigo de morte e nos livrará;
Nele temos posto a nossa esperança. E Ele ainda nos livrará,
ajudando-nos também vós com as vossas orações,
para que, por muitas pessoas, sejam dadas graças em nosso favor
pelo benefício que nos foi concedido por meio das orações de muitos.
Muito bem, deixem-me apresentar o primeiro princípio. Vou apenas enunciá-lo e depois tentar desenvolvê-lo um pouco, com a ajuda de Deus.
Antes de Paulo poder se tornar nosso modelo, antes de Paulo poder se tornar esse projeto, antes de poder conhecer Cristo como Senhor e a si mesmo como servo, Deus teve de trabalhar isso em sua vida. Aqui está o princípio, que pode ser resumido nestas palavras:
Deus teve de levar Paulo além de Paulo e para dentro da plena suficiência de Jesus.
Antes que isso pudesse acontecer, Deus teve de levar Paulo além de Paulo e para dentro da plena suficiência do Senhor Jesus. Irmãos, o que foi verdade no modelo, o que foi verdade no exemplo, precisa ser verdade na vida de qualquer pessoa que queira seguir esse exemplo.
Se você quiser saber o que significa ter Jesus como Senhor e ser servo, Deus precisa levá-lo além de você mesmo e para dentro da plena suficiência de Jesus.
Se eu quiser conhecer essa verdade como o apóstolo a conheceu, então Deus precisa me levar além de mim mesmo e para dentro da plena suficiência de Jesus.
Sabem, às vezes temos uma visão muito superficial do ministério. Pensamos em nossos dons e talentos e, se forem dedicados ao Senhor, se forem usados para o Senhor, então supomos que estamos ministrando. “Posso simplesmente dedicar minha energia a Deus, meu serviço a Deus, meus talentos”, e assim por diante.
Então, eu ministro quando deixo Deus usar minha voz, quando deixo Deus usar meu coração, quando deixo Deus usar minhas anotações, e assim por diante. O ministério está além disso.
Observem, por favor, 2 Coríntios 1:8-9. Paulo começa a descrever o que Deus permitiu em sua vida. Estou usando a New American Standard, caso o texto esteja um pouco diferente. Não sei qual versão vocês estão usando.
Mas o texto diz:
Fomos excessivamente sobrecarregados.
E então ele acrescenta:
Além das nossas forças.
O senhor Wuest traduz assim:
Fomos oprimidos muito além do nosso poder.
Se vocês têm a NIV, ela diz:
Estávamos sob grande pressão, muito além da nossa capacidade de suportar.
Tanto que 2 Coríntios 1:8-9 diz:
Desesperamos até da própria vida.
Tínhamos em nós mesmos a sentença de morte.
Agora, ali em 2 Coríntios 1:8, ele está descrevendo algo que lhes aconteceu na Ásia. Por enquanto, não é importante saber o quê. Na verdade, os comentaristas não conseguem chegar a um acordo sobre isso.
Foi o episódio de Atos 19:23-41, o alvoroço provocado por Demétrio contra Paulo? Foi o seu naufrágio, quando teve de se manter à tona? Ele estava falando de alguma aflição emocional causada pela situação em Corinto? Teve algum confronto frustrante com os judaizantes, os legalistas? Talvez tenha sido isso.
Outros diriam: “Não, foram os seus problemas de visão, ou as feras em Éfeso, ou a sua prisão, ou o seu espinho na carne”. Por enquanto, não importa o que foi. Algo que Deus permitiu era mais do que ele podia suportar — estava além das suas forças.
Vocês provavelmente já ouviram estas expressões; talvez já as tenham usado: levado ao limite, sem saber mais o que fazer, no fim das forças, no fim da linha, no último instante, à beira do precipício.
Irmãos, precisamos enxergar isso, porque se torna muito importante para os princípios que vêm a seguir. O Espírito Santo não levou Paulo até o limite. Vocês podem ler isso no texto: Paulo foi pressionado além do limite — não até o limite, mas além do limite. É isso que o texto diz.
Os anatomistas nos dizem que todos temos limites diferentes quanto ao que podemos suportar. Os médicos chamam esses limites de limiares. Todos temos limiares diferentes.
Agora, todos nós experimentamos a dor da mesma maneira. Todos temos milhões de pequenas terminações nervosas chamadas receptores e, quando alguém chuta o seu tornozelo, um pequeno nervo leva uma mensagem ao cérebro, dizendo: “Ai!”, e então você reage.
Mas, de acordo com aqueles que afirmam saber, todos temos limiares de dor diferentes. Alguns de nós conseguem suportar mais do que outros. Quando lemos sobre algumas das torturas infligidas por seres humanos a outros seres humanos, é realmente impressionante o que o corpo humano consegue suportar.
Temos limiares de dor. Não sei como vocês veem isso, mas, pessoalmente, acho que as mulheres têm um limiar de dor maior do que os homens. Pelo menos a minha mulher tem.
Agora, o que é verdade em relação à dor também é verdade em relação à vida. Se vocês conseguirem pensar na vida nesses termos, a vida de vocês é, na verdade, composta de limites, e somos todos diferentes. Todos temos limites diferentes, limiares diferentes, fronteiras diferentes.
Há limiares mentais, limiares de energia, limiares pessoais, limiares emocionais e limiares da vontade.
Deus não apenas levou Paulo até o limite, mas o levou para além da linha — para além do limite. Estou sugerindo isso, e acho que veremos essa verdade à medida que avançarmos.
Deus pressionou, pressionou e pressionou aquele homem para que fosse o exemplo, para que fosse o modelo, até que ele ultrapassasse todas as suas linhas e todos os seus limiares — até que fosse além do seu limiar de dor e sofrimento, além do seu limiar de paciência, além do seu limiar de força de vontade, além do seu limiar de esperança.
Paulo foi levado além daquilo que era por natureza. Ele teve de ir além de si mesmo. O Espírito Santo o pressionou e o pressionou. Levou-o além das suas forças, além da sua justiça, além da sua sabedoria, além dos seus próprios recursos, além dos seus amigos.
Algumas pessoas têm dificuldade com isso. Dizem que há uma contradição entre essa passagem e 1 Coríntios 10:13, em que Deus diz que não nos levará além do que somos capazes de suportar.
Não vos sobreveio tentação que não fosse humana;
mas Deus é fiel e não permitirá que sejais tentados além do que podeis suportar;
antes, com a tentação, proverá também o escape,
para que a possais suportar.
Isso é uma contradição, irmãos? Deus está dizendo: “Nunca levarei vocês além dos seus limiares, além dos seus limites”? Sabem, é assim que isso costuma ser interpretado: “Deus não me dará mais do que posso suportar. Deus conhece os meus limites. Deus conhece as minhas capacidades. Ele sabe o que consigo aguentar”.
“Quando Deus vir que já aguentei tudo o que posso aguentar, então Ele me dará alívio ou me levará para casa.” Todos nós já ouvimos isso, ou dissemos isso, ou talvez tenhamos sentido isso.
Mas, se estamos falando sério sobre ser escravos de Deus e ter um coração de servo, precisamos entender que Deus precisa — não apenas faz isso às vezes, mas precisa — nos levar além de todos os nossos limiares.
Quando Ele diz que não dará a vocês mais do que são capazes de suportar, Ele não estava dizendo: mais do que são capazes de suportar com suas próprias forças. Ele não estava dizendo: mais do que são capazes de suportar na carne, recorrendo aos seus próprios recursos.
Não se trata de mais do que você pode suportar; trata-se de mais do que a fé pode suportar. Trata-se de mais do que você, apegando-se a Deus, pode suportar. Esse é o contexto.
Segunda Coríntios 1:9 explica por que Deus o levou além dos seus limites. Deus o levou para além de cada linha e além de cada limiar. De maneira muito simples, o texto diz:
Para que não confiássemos em nós mesmos.
Estão vendo por que Deus precisa levá-los para além da linha? Para que vocês não confiem em si mesmos.
Provérbios 28:26 diz:
Quem confia no seu próprio coração é insensato.
Deus já sabe disso, mas nós precisamos saber. Precisamos conhecer a insensatez de confiar em nós mesmos.
Se Deus não pressionasse o apóstolo Paulo para além da linha, o apóstolo Paulo confiaria no apóstolo Paulo. Se Deus não levar você para além da linha, você confiará em si mesmo todas as vezes. Eu vou confiar em mim mesmo.
Deus teve de pressionar Paulo para além de Paulo, ou Paulo confiaria na justiça de Paulo. Deus teve de pressionar Paulo para além de Paulo, ou Paulo confiaria na força de Paulo, na sua própria força de vontade, na sua própria coragem, na sua própria paciência, no seu próprio amor, nos seus próprios dons, na sua própria engenhosidade, na sua própria criatividade.
Então Deus empurrou, e Deus empurrou; Deus pressionou. Paulo disse: “Estou quase no limite”. Deus disse: “Ótimo, empurre de novo”. “Não consigo aguentar muito mais.” “Ótimo, empurre de novo e de novo.”
Até que, finalmente, Paulo clamou em 2 Coríntios 1:9:
Tínhamos em nós mesmos a sentença de morte.
Finalmente, Paulo clamou: “Sou um homem morto”.
Sabem, o princípio estava ali, naquilo que Paulo dizia. Ele disse: “Deus me levou além de Paulo. Deus me levou além do meu limiar. Deus me levou além dos meus limites. Clamei: ‘Sou um homem morto’, e finalmente percebi que não podia confiar em Paulo mais do que poderia confiar num cadáver”.
Imaginem carregar um cadáver com vocês aonde quer que fossem. Deixe-me lhe perguntar, irmão: quantas vezes você recorreria a esse cadáver em busca de ajuda, de conselho? Você está carregando um corpo — um corpo morto. Quantas vezes buscaria conselho nesse cadáver, ou ajuda, ou auxílio, ou assistência, ou orientação?
Só uma vez. Bastaria uma vez, e então você aprenderia: não se pode confiar num cadáver. O apóstolo guardava um segredo: não se pode confiar num cadáver.
Paulo disse: “Ouçam, Deus me levou tão longe que aprendi que não havia mais valor em confiar em mim mesmo do que em confiar num cadáver. Deus me levou para além da linha, e vi que eu era um homem morto”.
Agora, neste ponto, não ganharíamos muito entrando na infinita variedade de maneiras pelas quais Deus nos leva para além da linha, porque acho que Ele faz isso de modo diferente na vida de cada um de nós. Ele vai pressionar você de uma maneira; vai me pressionar de outra.
Mas, irmão, tão certo quanto Deus é Deus e esta Palavra é verdadeira, se você está falando sério sobre conhecer Cristo Jesus como Senhor e sobre ser servo — escravo — dos outros, garanto que Deus vai levá-lo além de todos os seus limiares, para que você não confie em si mesmo.
Mas isso é apenas uma parte. Do outro lado dessa linha, quando você cruza a linha e está além de si mesmo, há isto:
Não confiássemos em nós mesmos,
mas em Deus, Que ressuscita os mortos.
Vejam, do outro lado, para Paulo, estava Deus, Que ressuscita os mortos. Segundo o testemunho — vocês podem lê-lo aqui —, não foi fácil para Paulo ser pressionado além dos seus limites, além dos seus limiares. Ele lutou, assim como nós lutaríamos.
Mas eu lhes digo: quando cruzou essa linha e ficou ali, ele viu a plena suficiência do Senhor Jesus.
Paulo teve de ser pressionado além da sua natureza e dos seus recursos para que pudesse conhecer a plena suficiência de Cristo. Para que eu conheça a plena suficiência de Cristo, preciso ser pressionado além de mim mesmo.
Agora, antes de deixarmos esse princípio, quero ilustrar mais uma coisa, e então terminaremos.
Como vocês sabem — e percebo isso novamente pela nossa comunhão e pela direção do coração de vocês, que já expressaram —, eu seria um homem morto se trouxesse legalismo neste fim de semana. Simplesmente sei disso. Posso sentir.
Vocês foram criados para conhecer Deus e foram redimidos para conhecer Deus. Vocês não foram deixados aqui porque têm um trabalho a fazer. Foram deixados aqui porque têm um Deus a conhecer.
Há maneiras pelas quais a terra O revela que o céu não pode revelar. Vocês precisam conhecer Deus aqui, e eu preciso conhecer Deus aqui.
Agora, falo como insensato ao dizer isto, mas Deus tinha, por assim dizer, um problema nas mãos. Vocês sabem o que quero dizer quando digo que falo como insensato. Deus não tem problema algum.
O objetivo de Deus sempre foi Ele mesmo e você — sendo um, um com Ele. Mas, quando Deus nos encontrou — e, mais uma vez, estou apenas colocando isso em termos humanos para transmitir a ideia —, estávamos terrivelmente vivos para este presente mundo mau.
Na verdade, quando Deus encontrou você, você estava tão deslumbrado com o brilho e com tudo o que este mundo oferece — as promessas, os prazeres, a sensualidade e assim por diante —, com todas as suas cenas cativantes. Tudo parecia tão bom, e estávamos tão presos aos princípios deste mundo.
De alguma maneira, se vamos conhecer Deus nos caminhos de Deus, Ele terá de nos pressionar para além deste mundo. Como Ele faz isso? Como vai chamar a nossa atenção? Como vai nos livrar da superficialidade deste mundo, para nos ensinar que este mundo não significa nada, que o dinheiro não significa nada, que as terras não significam nada, que o sucesso não significa nada, que o prazer não significa nada e que o pecado não significa nada?
Bem, o livro de Romanos revela como Deus faz isso. A resposta é que Ele derrama Suas misericórdias. Ele derrama Suas misericórdias quase por contraste.
Ele nos mostra a vaidade desta vida ao revelar a beleza incomparável da outra vida. Ele nos mostra a insensatez do pecado e nos liberta. Ele traz para a nossa vida, em lugar dos filhos das trevas, os filhos da luz.
Ele retira a terrível escuridão e nos dá alegria, paz e alguns de Seus outros dons. Ele derrama Suas misericórdias. Quero dizer, Ele as despeja sobre nós.
Então começamos a experimentar perdão, aceitação diante de Deus, alegria, liberdade, paz e misericórdia. Recebemos misericórdia sobre misericórdia, benefício sobre benefício, dom sobre dom. Deus simplesmente despeja tudo isso sobre nós.
É mais ou menos como uma família que tem filhos pequenos. O pai entra no quarto, e a criança está brincando com uma faca, com drogas, com uma arma, com explosivos; então trazem um caminhão de brinquedos. Eles nem cabem no quarto. De repente, a criança se afasta das coisas perigosas e começa a brincar com os brinquedos.
Mas o pai quer que a criança se ocupe com ele mesmo.
No início, a criança estava ocupada com coisas perigosas. Então, de repente, está ocupada com brinquedos. Ainda assim, não está ocupada com o pai; ainda não está ocupada com os pais.
Então Deus, para nos atrair para longe do mundo, derrama Sua misericórdia: misericórdia, misericórdia, misericórdia, misericórdia. E, por fim, Ele diz:
Agora, rogo-vos pelas misericórdias de Deus.
Por causa de tudo o que lhes dei, de tudo o que provaram, de tudo o que experimentaram — perdão, alegria, relacionamento, comunhão, vitória, tudo isso —, Eu lhes rogo.
Então Deus pressiona, pressiona, pressiona e pressiona, e logo dizemos: “Eu nem quero mais o mundo”. Louvado seja Deus, Ele me pressionou para além do mundo.
Ah, agora prestem atenção. Eu disse que Deus tem um problema nas mãos. Agora Deus precisa agir novamente e nos pressionar de novo.
Realmente creio, de todo o coração, que muitos cristãos interrompem o processo bem aqui. Não conseguem largar os brinquedos.
Não há alegria na alegria de Deus; só há alegria em Deus. Não há paz na paz de Deus; só há paz no Deus da paz.
Agora Deus precisa nos pressionar até que estejamos dispostos a ser pressionados para além de todas as Suas misericórdias.
Essa foi a acusação que Satanás fez a Deus contra Jó: que Tu não és maravilhoso o suficiente em Ti mesmo para seres servido independentemente dos Teus dons.