E Jesus, respondendo, disse-lhe: Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas, porque não foi carne e sangue que to revelou, mas Meu Pai, que está nos céus.
E também Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
E Eu te darei as chaves do reino dos céus: e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus; e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus.
Querido Pai celestial, nós nos reunimos aqui em nome do Teu Filho amado, nosso Senhor Jesus Cristo. Como Te louvamos e Te agradecemos, sabendo que a Tua presença está aqui conosco.
Pedimos apenas, Senhor, que removas qualquer véu que possa estar sobre o nosso coração. Oramos para que todos possamos contemplar a glória do Senhor na face de Jesus Cristo. Oramos, Senhor, para que nos abras a Tua Palavra.
Que tornes a Tua Palavra viva e operante em cada um de nós. Desejamos, Senhor, que sejas exaltado e glorificado no meio do Teu próprio povo. Pedimos em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.
O tema do nosso tempo juntos é “Venha o Teu Reino”. Como os meus dois irmãos já mencionaram, cada um de nós recebeu uma parte. A minha parte neste tema, “Venha o Teu Reino”, é o reino e a igreja.
Nos versículos que acabamos de ler, vemos que, em Mateus 16:18, nosso Senhor Jesus disse:
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja.
Aqui Ele mencionou a igreja, e sabemos que Mateus 16 é a primeira ocasião em que nosso Senhor Jesus mencionou a palavra igreja.
Em seguida, em Mateus 16:19, Ele disse a Pedro:
Eu te darei as chaves do reino dos céus.
Aqui encontramos a palavra reino. Em outras palavras, o próprio Senhor Jesus uniu essas duas palavras: a igreja e o reino. Ele edificará a Sua igreja, e Ele tem o reino.
Gostaríamos de considerar essa questão sob quatro perspectivas diferentes:
Nesta noite, gostaríamos de considerar juntos, diante do Senhor, o primeiro ponto: o reino é um com a igreja.
Para considerarmos isso, penso que é importante definirmos o que é a igreja e o que é o reino. Ora, todos sabemos que a igreja e o reino estão além de qualquer definição. Não há como definir a igreja, porque, quando tentamos defini-la, na verdade a confinamos. O mesmo acontece com o reino.
Mas, por uma questão de clareza, penso que precisamos ter ao menos algumas ideias básicas sobre a igreja e o reino, conforme os encontramos na Palavra de Deus. Assim, procuraremos definir a igreja e o reino de maneira muito simples.
Vocês sabem, quando nosso Senhor Jesus mencionou essa palavra, igreja—
Sobre esta rocha edificarei a Minha igreja.
—, para Ele essa palavra, ou essa realidade chamada igreja, era muito, muito diferente daquilo que normalmente pensamos.
Na verdade, é exatamente o oposto da nossa concepção comum. Quando pensamos na palavra igreja, ou quando dizemos que estamos construindo uma igreja, normalmente pensamos em construir um edifício com pedra, tijolo, madeira ou barro. É isso que entendemos por igreja: um edifício físico separado para cultos religiosos ou cristãos.
Algumas pessoas talvez tenham uma ideia melhor da igreja. Dizemos que a igreja não é um edifício físico, material. Dizemos que a igreja é uma organização religiosa, uma instituição cristã — uma instituição que leva o nome do Senhor, mas é administrada por homens.
Ela tem um local definido de culto, aonde as pessoas podem ir aos domingos, ou talvez em outros dias. Tem um credo, uma declaração de fé, um livro de regras e disciplina, um conjunto de rituais e cerimônias e uma forma definida de culto.
Além disso, existe uma classe especial de pessoas chamada clero, em contraste com os leigos, as pessoas comuns. Ora, é isso que conhecemos como a igreja na terra. Ela tem uma natureza histórica e tradicional.
Mas, quando nosso Senhor Jesus mencionou a palavra igreja, Ele tinha um conceito muito diferente. Para Ele, a igreja não é uma organização; é um organismo. Não é uma instituição humana; é uma entidade divina.
O próprio Senhor é o Edificador. Ele disse:
Edificarei a Minha igreja.
A igreja é tão importante para Ele que não permitirá que outra pessoa faça a obra. Ele disse:
Edificarei a Minha igreja.
Ele próprio é a Rocha sobre a qual a igreja é edificada, e Ele está edificando a igreja com pedras vivas: pessoas que O confessam como o Cristo, o Filho do Deus vivo. Com essas pedras vivas, Ele as edifica sobre Si mesmo para serem a Sua igreja.
Essa igreja também é chamada de corpo de Cristo. Ele é a Cabeça. Quando esteve na terra durante trinta e três anos e meio, Ele assumiu um corpo físico que Lhe foi dado pela virgem Maria. Mas, depois de Sua morte, ressurreição e ascensão, Ele assumiu outro corpo — um corpo espiritual, um corpo coletivo —, e esse corpo é a Sua igreja.
Ele é a Cabeça desse corpo, e esse corpo é o Seu corpo:
A plenitude Daquele que enche tudo em todos.
Ou, em outras palavras, essa igreja que Ele menciona não é outra coisa senão Ele próprio.
Por quê? Porque em 1 Coríntios 12:12 está escrito:
Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, sendo muitos, são um só corpo, assim também é Cristo.
Em outras palavras, a igreja é uma extensão Dele próprio. É o Cristo coletivo.
Esse corpo deve crescer até a maturidade; e, quando estiver plenamente maduro, Ele voltará para recebê-lo junto de Si como Sua noiva, para compartilhar com Ele a glória e reinar com Ele em poder.
Existe apenas uma igreja. Ela tem suas manifestações locais, mas, ainda assim, existe apenas uma igreja. Ora, é isso que o Senhor quer dizer com igreja.
Agora, o que é o reino? Nossos dois irmãos já nos deram uma definição muito boa, e percebemos que todos recebemos ajuda do irmão Fox. Então, nesta noite, penso que também tenho a obrigação de mencionar o irmão Fox.
O irmão Fox disse que a palavra reino, como a encontramos na Bíblia em inglês, não é uma boa tradução. Ela deveria ser traduzida como governo soberano.
Deus é o Soberano. Ele é Deus, o Soberano do universo, e governa tudo o que criou.
Mas, como nossos irmãos já mencionaram — e penso que preciso enfatizar isso novamente —, quando falamos de reino, muitas vezes pensamos nele em termos geográficos ou geopolíticos. Pensamos em território, domínio, abrangência, esfera e área de governo. Pensamos em termos geográficos.
Bem, o reino realmente tem um significado geopolítico. Mas, como o irmão Fox mencionou, em primeiro lugar, quando pensamos no reino, não devemos pensar em geografia; devemos pensar na Pessoa.
Em outras palavras, o reino é o Soberano. O Soberano é o reino. Ele é o reino. Sua personalidade governa esse domínio. Portanto, antes de tudo, precisamos pensar no reino em termos da Pessoa. Deus é o Rei. Ele é o reino.
Então, em segundo lugar, porque Ele é Soberano e governa o universo que criou, Ele imprime o Seu caráter no universo. É por isso que vemos que o reino está onde Ele governa; e, onde Ele governa, ali o Seu caráter se manifesta.
Onde quer que as pessoas se coloquem sob o governo de Deus e permitam que o Espírito Santo as caracterize com o caráter de Cristo, ali está o reino de Deus.
Assim, quando pensamos no reino, primeiro pensamos no Rei e depois no domínio. Se pensarmos nesses termos, creio que não estaremos muito longe da verdade.
Depois dessa definição simples, gostaríamos de descrever a igreja e o reino um pouco mais, para entendermos o que realmente são. Sabemos que a palavra igreja, no grego original, é ekklesia.
Ora, ekklesia significa os chamados para fora reunidos — os chamados para fora reunidos.
Podemos ver isso na tipologia. Vocês sabem, os filhos de Israel, quando estavam no deserto, depois do monte Sinai, foram chamados de igreja no deserto. Ou, se quisermos usar uma tradução mais precisa, é melhor traduzir por assembleia: os chamados para fora reunidos.
Assim, em Atos 7:38, os filhos de Israel foram chamados de assembleia no deserto. Quando estavam no Egito, não eram chamados de assembleia. Não eram chamados de igreja. Por quê? Porque eram um povo sob o domínio de Faraó. Eram escravos, desorganizados, dispersos e oprimidos.
Não eram verdadeiramente uma nação, um reino ou um povo. Então Deus os libertou do Egito e os trouxe a Si, ao monte Sinai. Ali Ele lhes deu a lei. Estabeleceu uma aliança com o Seu povo.
Ali, vemos que os filhos de Israel começaram a se tornar a assembleia no deserto. Por quê? Porque estavam reunidos em torno de um centro, e esse centro era o tabernáculo. No tabernáculo estava a arca, e a arca representava o próprio Deus.
Em outras palavras, Deus os havia chamado para fora do Egito e os reunido junto de Si. É por isso que eram chamados de assembleia no deserto.
É claro que sabemos que essa palavra é grega e também tem um contexto grego. Os gregos tinham cidades e praticavam aquilo que chamaríamos de democracia. Em cada cidade, havia ocasiões de assembleia.
As pessoas livres daquela cidade se reuniam para discutir e decidir questões que diziam respeito a todos. Os escravos não podiam participar dessas assembleias. Esse tipo de assembleia era apenas para pessoas livres, cidadãos das cidades.
Em Atos 19, quando Paulo estava em Éfeso, houve um tumulto porque Demétrio, o ourives, percebeu que seu negócio estava diminuindo à medida que as pessoas abandonavam os ídolos para adorar o Deus vivo. Então ele incitou uma multidão, e as pessoas correram para o teatro.
Durante duas horas, elas não sabiam por que estavam ali. Uns gritavam uma coisa, e outros, outra. Depois de duas horas, o escrivão da cidade finalmente as acalmou e disse que, se Demétrio e seus companheiros tinham alguma acusação contra alguém, havia tribunais e procônsules. Se houvesse outras questões, a assembleia regular poderia resolvê-las. Mas, naquele dia, tinham se reunido sem motivo; então ele dissolveu a assembleia.
Quando reunimos essas coisas, chegamos a uma descrição muito simples. O que é a igreja? O que é a assembleia?
Em primeiro lugar, é um povo chamado para fora deste mundo. De cada nação, cada tribo, cada língua e cada povo, Deus chamou um povo para fora.
Esse povo se reúne. Reúne-se em nome do Senhor Jesus. Em Mateus 18:20, somos informados de que, onde dois ou três estão reunidos em Seu nome — isto é, no nome do nosso Senhor Jesus —, ali Ele está no meio deles.
Assim, os chamados para fora se reúnem em torno de um centro, um nome: o nome do nosso Senhor Jesus. Em terceiro lugar, eles se reúnem para se ocupar dos assuntos de Deus, dos assuntos do Senhor Jesus. Ora, é isso que a igreja é.
Agora, como descrevemos o reino? Sabemos que o nosso Deus é de eternidade a eternidade. Portanto, vemos que o Seu reino é um reino eterno.
Deus é o Soberano, e Ele criou o universo para Si. Governa tudo o que criou. O salmista disse:
Os céus declaram a glória de Deus;
E o firmamento anuncia a obra das Suas mãos.
Em outras palavras, depois que Deus criou o universo, Ele imprimiu o Seu caráter nele. Ele o governa.
Antes de haver rebelião nos tempos pré-históricos — nosso irmão já mencionou como Lúcifer, o arcanjo, se rebelou —, antes que isso acontecesse, quando Deus criou os céus e a terra, as hostes angelicais e todas as coisas sobre esta terra, vemos que, no princípio, tudo isso era o reino de Deus.
Por quê? Porque Ele era o Soberano, sem contestação. Tinha autoridade suprema sobre tudo o que governava e imprimia o Seu caráter em tudo. Não havia nada contra Ele. Assim, ali vemos o reino de Deus.
Mas sabemos que, nos tempos pré-históricos, houve rebelião entre as hostes angelicais. E não apenas nos tempos pré-históricos: mais tarde, nos tempos históricos, houve a rebelião humana contra Deus, de Adão e Eva.
Depois que essa rebelião aconteceu, irmãos e irmãs, vemos que houve uma mudança no reino de Deus. Ora, preciso ter muito cuidado ao dizer isso, porque, por um lado, não houve mudança. De eternidade a eternidade, Deus é Deus.
Embora tenha havido rebelião nos tempos pré-históricos e nos tempos históricos, o trono de Deus não se moveu nem um pouco. Sua autoridade continua sendo suprema. Sua autoridade continua sobre tudo o que Ele criou. Nada — nem mesmo Lúcifer, nem mesmo os homens rebeldes — está fora de Sua autoridade. Ele governa e exerce Seu domínio sobre tudo. Isso não mudou.
Mas existe uma mudança, e a mudança é esta: embora Ele ainda governe tudo e nada esteja fora de Sua autoridade, há algo errado com a submissão.
No princípio, Sua autoridade era absoluta e perfeita, e a submissão que o universo Lhe prestava também era absoluta e perfeita. Mas agora Sua autoridade continua perfeita e absoluta, enquanto a submissão já não é absoluta.
Vemos que um terço dos anjos seguiu Lúcifer na rebelião contra Deus. Entre os seres humanos, desde a queda de nossos primeiros pais, a maioria — a grande maioria — não se submete voluntariamente ao governo de Deus.
Por causa disso, vemos que o caráter que Ele imprimiu no universo mudou. Lúcifer, no princípio, era uma brilhante estrela da manhã. Ele deveria conduzir as outras estrelas da manhã a cantar louvores a Deus. Contudo, rebelou-se contra Deus e se tornou o adversário de Deus, Satanás.
O caráter mudou. O caráter de Deus já não está nele. Em outras palavras, ele lançou fora o caráter que Deus havia imprimido nele e começou a assumir seu próprio caráter: assassino, mentiroso e origem do pecado. Esse é o caráter de Satanás, o poder das trevas.
O mesmo acontece com os seres humanos. Por causa da rebelião, embora tenhamos sido criados à imagem de Deus, vemos como essa imagem mudou. Hoje, nós, que nascemos de Adão, assumimos a imagem de Adão em vez da imagem de Deus. O caráter do homem caído passou a caracterizar os seres humanos.
Quando pensamos no reino de Deus no sentido mais estrito, o reino de Deus está onde Deus governa de maneira absoluta e incontestável, e aqueles que estão sob Seu governo Lhe prestam uma submissão voluntária, espontânea e absoluta. Assim, Ele pode imprimir o Seu caráter neles, para que assumam esse caráter e expressem Deus e a Sua glória.
Esse é o significado estrito do reino de Deus. Quando o caráter de Deus não pode ser formado e expresso, então, no sentido mais estrito, isso está fora do reino de Deus.
Irmãos e irmãs, vemos que houve uma mudança. Por um lado, Deus continua sendo Deus. Seu trono continua estabelecido e inabalável. Sua autoridade continua suprema e perfeita. Mas, por outro lado, vemos que houve uma mudança na criação.
Portanto, os anjos caídos e a humanidade caída podem estar fora do reino de Deus. Mas não pensem que os anjos ou os homens possam estar fora da autoridade de Deus.
Por causa disso, vemos que Deus está realizando uma obra de restauração. Em outras palavras, Ele há de restaurar a terra. Há de restaurar o homem que criou. Há de restaurar todas as coisas ao Seu propósito original.
Isso significa que toda a terra e todos os seres criados, especialmente os homens, Lhe prestarão uma submissão espontânea e voluntária, e Ele poderá imprimir o Seu caráter em todos. Essa é a obra de Deus, a natureza da obra de Deus. Ele está realizando essa obra de restauração para restaurar o Seu reino nesta terra.
Em certo sentido, não há problema no céu, porque Satanás foi expulso. No céu, não há problema. O reino de Deus no céu é perfeito e continua sendo perfeito. Mas o reino de Deus na terra sofreu dano. O problema está na terra, não no céu.
Portanto, Deus está realizando a obra de restauração do Seu reino nesta terra. Sem entrar em mais detalhes — porque talvez tratemos disso amanhã, se Deus quiser —, digamos simplesmente isto: depois da queda do homem, parecia que Deus havia perdido o Seu reino na terra.
Então Deus começou a trabalhar. Ele formou um povo da descendência de Abraão: os filhos de Israel. Ele os redimiu para Si, conduziu-os pelo deserto e os levou à terra prometida.
O que Ele tinha em mente? Tinha em mente um reino para Si nesta terra. Quando os filhos de Israel saíram do Egito, depois que atravessaram o mar Vermelho e o exército egípcio foi sepultado nas águas, os filhos de Israel cantaram o cântico de vitória.
Nesse cântico de vitória, em Êxodo 15:18, vemos que o Senhor é o Rei deles. Em outras palavras, Ele reuniu o povo junto de Si para ser o Rei deles.
No monte Sinai, Ele disse:
Agora, pois, se diligentemente ouvirdes a Minha voz e guardardes a Minha aliança, então sereis a Minha propriedade peculiar dentre todos os povos: porque toda a terra é Minha;
E vós Me sereis um reino de sacerdotes e uma nação santa.
Irmãos e irmãs, o que Deus tinha em mente era o reino. Ele queria um reino na terra que O representasse: um reino de sacerdotes. Todos os filhos de Israel constituíam um reino sobre o qual Deus governava, e todos eram sacerdotes que serviam ao propósito de Deus. Como isso é glorioso.
Mas, infelizmente, antes que pudessem ser um reino de sacerdotes, o inimigo já havia entrado e os seduzido. Eles caíram em tentação e adoraram o bezerro de ouro.
Ainda assim, Deus, em Sua paciência, continuou com eles. Mas eles tentaram a Deus dez vezes no deserto, e finalmente Deus disse que aquela geração incrédula não poderia entrar na terra prometida. Contudo, Ele levantou uma nova geração, e, por Sua misericórdia, eles entraram na terra prometida.
O propósito de levar esse povo à terra prometida era estabelecer o Seu reino no meio deles. Eles deveriam ser o reino de Deus entre os reinos da terra. Deveriam representar Deus nesta terra.
Em vez de esperar que Deus lhes desse um rei que pudesse representar o próprio Deus — pois o próprio Deus era o Rei deles —, pediram um rei como o das nações, porque não podiam vê-Lo.
Deus respondeu à oração deles e lhes deu um rei como o das nações: o rei Saul. Durante quarenta anos, tiveram de sofrer sob Saul para aprender o que era um rei da terra.
Penso que, àquela altura, eles já estavam fartos de Saul e prontos para receber o rei escolhido por Deus. Assim, no devido tempo, Deus levantou Davi, um homem segundo o Seu coração, que faria a Sua vontade.
Davi era uma pessoa que conhecia a autoridade de Deus. Por conhecer a autoridade de Deus, foi estabelecido por Deus para representar essa autoridade. Na verdade, Deus era o Rei da nação de Israel. Davi estava apenas representando Deus.
Mas, mesmo assim, Deus não tinha o Seu reino nesta terra em sua plena realidade. A nação de Israel sob Davi e Salomão, em certo sentido, era o reino de Deus nesta terra. Mas, em outro sentido, estava muito longe daquilo que Deus realmente tinha em mente. Em um sentido restrito, eles eram apenas um tipo, uma sombra daquilo que haveria de vir.
Na verdade, o verdadeiro reino de Deus nesta terra só veio quando Cristo nasceu. Quando nosso Senhor Jesus veio a esta terra, Ele nasceu Rei.
Ele era o Rei, e era a Pessoa em Quem o governo soberano de Deus era absoluto. Aqui estava um Homem que prestava a Deus obediência e submissão absolutas, em perfeição. Nele, vemos o caráter de Deus plenamente manifestado.
Irmãos e irmãs, nunca na história humana encontramos uma pessoa, ou um povo, em quem o caráter de Deus pudesse se manifestar em glória tão plena.
Nos tempos do Antigo Testamento, encontramos alguns indivíduos que talvez tivessem algo — talvez uma pequenina porção — do caráter de Deus em sua vida. Encontramos um povo que, em pequena medida, representava ou manifestava algo do caráter de Deus. Mas nunca, na história humana, houve um Homem em Quem todo o caráter de Deus se manifestasse.
É por isso que nosso Senhor Jesus disse:
Quem Me vê a Mim vê o Pai.
Isso basta. Vocês não precisam pedir para ver o Pai, porque já Me viram.
Eu e o Pai somos um.
Irmãos e irmãs, a realidade do reino de Deus na terra veio na Pessoa do nosso Senhor Jesus.
Mas Ele veio a este mundo para estabelecer o reino de Deus na terra com um povo — não apenas Ele próprio. Veio com o propósito de chamar um povo para fora deste mundo.
Ele veio para libertar um povo do poder das trevas e transferi-lo para o Seu próprio reino. Foi por isso que veio a este mundo.
Não apenas para salvar algumas almas para que não fossem para o inferno, nem apenas para salvar algumas almas para que o céu fosse habitado. Ele veio a este mundo como o Rei, trazendo o céu a esta terra, para conquistar um povo para Si que fosse semelhante a Ele, a fim de que Deus tivesse o Seu reino nesta terra.
Foi por isso que Ele veio a este mundo. É claro que, para realizar isso, Ele precisou ir à cruz. Precisou morrer, ressuscitar e ascender.
Quando estava na terra, Ele disse:
O reino de Deus está próximo: arrependei-vos.
Ele também disse:
O reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam à força.
Depois de Sua ressurreição, Ele falou aos discípulos, durante aqueles quarenta dias, a respeito do reino de Deus. No dia de Pentecostes, quando os cento e vinte foram batizados em um só corpo, qual foi a mensagem?
Deus fez Senhor e Cristo a este Jesus, a Quem vós crucificastes.
Quando chegamos ao fim do livro de Atos, encontramos Paulo em sua casa alugada, pregando o reino de Deus e ensinando as coisas referentes ao Senhor Jesus Cristo.
Portanto, irmãos e irmãs, esse é o reino de Deus na terra.
Depois de defini-los e descrevê-los um pouco, penso que podemos chegar a este ponto: o reino e a igreja são um. O reino é um com a igreja.
Podemos olhar para isso de diferentes pontos de vista. Em primeiro lugar, como entramos na igreja?
Se o nosso conceito de igreja é uma organização, uma instituição ou um clube religioso, então, para entrar nessa organização, precisamos nos associar a ela. Precisamos assumir um compromisso, passar por uma iniciação e nos tornar membros dessa instituição.
Mas, irmãos e irmãs, sabendo que não é isso que a igreja é — que a igreja é um organismo —, não há como nos associarmos a ela. A única maneira de fazer parte desse organismo é nascer nele.
É por isso que, em João 1:12-13, lemos:
Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no Seu nome;
Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
Em outras palavras, a maneira de entrarmos na igreja é nascer nela. Não há outra maneira. Não podemos nos associar a ela. Não podemos pagar uma taxa para nos tornar membros dela. A única maneira é nascer nela, porque ela é o corpo de Cristo.
Todos os que creem no Senhor Jesus são filhos de Deus — não apenas filhos por adoção no sentido moderno, mas filhos por nascimento. Nascemos de Deus. Recebemos a vida do nosso Senhor Jesus. É a vida de Deus. É assim que entramos na igreja.
Agora, irmãos e irmãs, como entramos no reino de Deus? Creio que vocês conhecem João 3.
Certa noite, Nicodemos foi ver nosso Senhor Jesus. Nicodemos muito provavelmente era um homem idoso, muito instruído. Era chamado de mestre de Israel. Era uma pessoa muito piedosa, temente a Deus. Havia realmente feito o melhor que podia para entrar no reino de Deus, mas, de alguma maneira, sabia em seu íntimo que faltava alguma coisa.
Era tão urgente que ele estava disposto a ir ver o Senhor Jesus à noite. Não era conveniente para ele ir durante o dia, porque os rabinos estavam ali para que as pessoas os visitassem e aprendessem com eles. Para eles, ir aprender com outra pessoa era muito humilhante.
Eles eram os instruídos, e ir aprender com Alguém que nunca havia frequentado uma escola rabínica era impossível. Assim, ele foi à noite, porque aquilo era urgente para ele. Realmente queria entrar no reino de Deus.
Irmãos e irmãs, aqui estava um homem que realmente queria entrar no reino de Deus. Desejava isso tanto que estava disposto a ir ao Senhor.
Essa deve ter sido a pergunta que ele tinha para o Senhor. Ele procurou ser educado e disse algumas palavras de cortesia: “Sabemos que vieste de Deus, porque ensinas aquilo que os homens não poderiam ensinar”.
O Senhor conhecia o coração dele; então, imediatamente, disse:
Em verdade, em verdade te digo: se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus.
Ora, irmãos e irmãs, Nicodemos pensava que certamente já havia visto o reino. Pensava que não estava muito longe, que estava a apenas um passo dele. Mas sabia que ainda não havia entrado.
O Senhor estava dizendo, em outras palavras: “Não, você ainda não o viu. Todo o seu conceito do reino de Deus está errado. Se você quer ver o reino de Deus, precisa de uma vida espiritual”.
Irmãos e irmãs, sem uma vida espiritual, não apenas não podemos entrar nele; nem sequer o vemos, porque aquilo que vemos não é a realidade em si.
Então o Senhor Jesus disse:
Se alguém não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.
É claro que existem diferentes interpretações disso. Mas o meu entendimento é que, quando nosso Senhor Jesus estava falando com Nicodemos, João Batista estava ali batizando as pessoas com água para arrependimento.
Assim, quando nosso Senhor Jesus disse:
Se alguém não nascer da água…
Ele muito provavelmente Se referia ao batismo de João — em outras palavras, ao arrependimento. É preciso se arrepender.
Não pense que, por ser o mestre de Israel, por ser bem instruído e ter conhecimento, por ser temente a Deus ou por ter realizado muitas coisas, você pode entrar no reino de Deus por suas realizações.
Não. Você precisa se arrepender — não apenas dos seus pecados, mas até mesmo das suas boas obras. Precisa se arrepender, mudar completamente de direção e nascer do Espírito de Deus.
O que é nascido do Espírito é espírito.
Irmãos e irmãs, aqui vemos muito claramente que a maneira de entrar no reino de Deus é pelo nascimento — não por realizações, não por desenvolvimento, mas pelo nascimento.
Entramos na igreja pelo nascimento. Entramos no reino pelo nascimento. Assim, aqui vemos que o reino e a igreja são um.
Em segundo lugar, ingressamos na igreja ao nascer nela, e ingressamos no reino ao nascer do Espírito. Mas isso é apenas o começo. Precisamos pensar no progresso.
Deus nos salvou. Ele nos deu uma nova vida. Somos membros do corpo de Cristo. Ele fez isso por nós. Não há nada que façamos, nada que possamos fazer e nada que tenhamos feito. É inteiramente pela graça que Ele nos salvou e nos deu uma nova vida, para que pudéssemos estar na igreja.
Mas, irmãos e irmãs, o que é a igreja? A igreja são os chamados para fora reunidos.
Somos salvos pela graça, mediante a fé. Aqui estamos nós: salvos dentre cada nação, cada tribo, cada povo e cada língua. Deus nos chamou para fora. Mas, depois de sairmos, há outro objetivo.
Se apenas saímos e não somos reunidos, então ainda não temos a igreja. Ou, em outras palavras, nosso Senhor Jesus disse:
Edificarei a Minha igreja.
A igreja precisa ser edificada. Sem edificação, não há igreja.
Se quisermos voltar à tipologia, vemos que Adão é um tipo de Cristo, e Eva é um tipo da igreja. Mas como Eva foi formada? Ela foi edificada.
Deus fez Adão adormecer, abriu o seu lado e retirou algo — talvez uma costela. Deus usou aquilo que havia sido retirado de Adão e o edificou em uma mulher.
O mesmo acontece com a igreja. A igreja precisa ser edificada; e, depois que é edificada, então temos a igreja.
Assim, irmãos e irmãs, a pergunta é esta: Estamos na igreja? Bem, dizemos que nascemos na igreja, no corpo de Cristo. Mas estamos sendo edificados juntos?
Edificar não é simplesmente jogar as coisas umas sobre as outras. Quando vamos a um lugar onde será realizada uma construção, primeiro todos os materiais são transportados para o local, mas ficam espalhados por ali. Isso não é edificação.
Podemos ter todos os materiais prontos, mas precisamos uni-los de maneira orgânica. Um edifício é muito orgânico, em certo sentido. Não é apenas uma pilha; não é apenas um amontoado.
Essas pedras vivas precisam ser edificadas juntas. Reunir-se não é apenas estar fisicamente no mesmo lugar, sem qualquer relação entre si. Não, esse reunir-se deve ser uma edificação conjunta tão orgânica que nos tornemos um só edifício, um só corpo. Há coordenação, unidade e funcionamento conjunto.
Agora, irmãos e irmãs, a pergunta é esta: Estamos na igreja porque isso é pela graça; Ele já o fez. Mas somos da igreja?
Procuro tomar essa expressão emprestada das Escrituras. O Senhor Jesus disse:
Estais no mundo, mas não sois do mundo.
Irmãos e irmãs, estamos na igreja. Todos os que nasceram de novo estão na igreja. Mas somos da igreja?
Isto é, estamos vivendo a igreja? Ou estamos apenas espalhados, individualmente?
Há muitos crentes que são solitários, individualistas. O clamor deles é: “Meu Senhor e eu. Não preciso de outros irmãos e irmãs, porque eles são problemas”.
Vemos todos esses materiais de pedra espalhados ali. Isso não é a igreja. Eles não estão edificados; isso não é orgânico.
Então há outras pessoas: uma pilha aqui, um amontoado ali. Simplesmente juntamos todas essas pedras irregulares e as empilhamos. É um trabalho fácil. Não precisamos aparar nenhuma aresta. Podemos deixar todas essas pedras como estão, com todas as suas pontas e asperezas, e simplesmente empilhá-las — um grande amontoado aqui e outro ali.
Ora, isso é a igreja? Não há relacionamento ali.
Todas essas pedras vivas precisam estar devidamente relacionadas segundo Cristo, sendo Ele o fundamento e a pedra angular. Estamos sendo ajustados, unidos e edificados juntos — relacionados uns com os outros e unidos organicamente. Não há como seguirmos por conta própria.
Irmãos e irmãs, estamos na igreja, mas somos da igreja?
Penso que isso é algo que precisamos perguntar a nós mesmos. Temos vida de igreja? Sabemos viver juntos como a igreja de Deus?
Leiam os primeiros capítulos do livro de Atos. Ali encontramos aqueles primeiros crentes: cento e vinte, de comum acordo, orando juntos durante dez dias, até que o Espírito de Deus veio sobre eles. Foram batizados em um só Espírito, em um só corpo. Que corpo havia ali!
Havia unidade ali. Quando Pedro se levantou, os onze se levantaram com ele. Então três mil foram acrescentados a eles naquele mesmo dia. Os três mil, juntamente com os cento e vinte, imediatamente perseveraram no ensino e na comunhão dos apóstolos, no partir do pão e nas orações.
Vemos que eles estavam juntos — não apenas fisicamente, mas espiritualmente. Eram um. Estavam edificados juntos. Ora, isso é a igreja.
Eles estavam vivendo a igreja. A igreja não era apenas um termo ou uma teologia para eles. A igreja era a vida deles.
Podemos estar na igreja pela graça de Deus, mas viver fora dela. Não estamos vivendo como igreja.
Irmãos e irmãs, é por isso que sentimos ser tão importante enxergarmos o que é a igreja e perguntarmos a nós mesmos: Sou da igreja? Estou vivendo como um membro vivo do corpo de Cristo? Estou sendo edificado junto com meus irmãos e irmãs?
Vamos deixar esse ponto aqui e olhar para o reino. Nascemos no reino de Deus. O Senhor já nos transferiu para o reino do Seu amor. Estamos no Seu reino.
Mas, irmãos e irmãs, o que é o reino? O reino está onde o Rei é aceito, onde Sua autoridade não é contestada, onde Seu governo é aceito voluntariamente e onde prestamos ao nosso Senhor, ao nosso Rei, obediência absoluta, para que Ele possa imprimir o Seu caráter em nós.
Irmãos e irmãs, perguntemos a nós mesmos: Isso é verdadeiro em nossa vida? Pela graça de Deus, estamos no reino, mas assumimos o caráter do reino? Sabemos que nosso Senhor Jesus é o nosso Salvador, mas realmente O reconhecemos como nosso Senhor?
O reino dos céus sofre violência, e os violentos o tomam à força.
O Senhor estava dizendo essas coisas aos Seus próprios discípulos. Por um lado, esses discípulos estavam no Seu reino. Por outro lado, Ele disse: “Se vocês realmente querem tomar o reino, precisam tomá-lo com violência”.
A violência aqui significa simplesmente que precisamos exercer violência contra nós mesmos — não contra outras pessoas. Precisamos exercer violência contra nós mesmos.
O que significa exercer violência contra si mesmo? Nada mais é do que negar a si mesmo. Ora, isso é exercer violência contra si mesmo.
Quem quer negar a si mesmo? Queremos valorizar a nós mesmos. Queremos que os outros nos reconheçam. Mas, irmãos e irmãs, o Senhor disse que precisamos exercer violência contra nós mesmos. Não sejam bondosos demais consigo mesmos. Não sejam brandos demais consigo mesmos.
Vocês sabem, somos rigorosos com os outros, mas muito tolerantes conosco. Essa é a natureza humana.
Mas o Senhor disse que, se realmente queremos estar no reino — ser do reino —, precisamos exercer violência contra nós mesmos, porque somente os violentos se apoderam dele.
Se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no reino dos céus.
Portanto, aquele que se humilhar como esta criança, esse é o maior no reino dos céus.
Irmãos e irmãs, estamos vivendo sob o reinado de Cristo? Estamos assumindo o caráter do Rei?
Isso não é apenas individualmente, mas coletivamente. Estamos realmente assumindo o caráter do Rei em nossa assembleia?
Onde dois ou três estão reunidos em Seu nome, isso significa que nos colocamos sob o Seu nome. Confessamos que o Seu nome está acima de todo nome — acima do meu nome, acima do seu nome, acima de tudo.
Nós nos colocamos sob a Sua autoridade. Irmãos e irmãs, Ele disse:
Estou no meio deles.
Isso é a igreja. Ele Se manifesta.
Quando as pessoas entrarem em nosso meio, imediatamente dirão:
Deus está verdadeiramente entre vós.
E se prostrarão e adorarão a Deus. Ora, isso é a igreja. Isso é o reino de Deus nesta terra.
Assim, podemos estar nele e, ainda assim, não ser dele. Isso é algo que precisamos considerar com muito cuidado diante do Senhor.
Permitam-me concluir dizendo isto: a igreja e o reino são um. São dois aspectos de uma só realidade.
Quando pensamos na igreja, pensamos em vida — a vida de Cristo. Quando pensamos no reino, pensamos em autoridade — a autoridade de Cristo.
Quando pensamos na igreja, pensamos em crescimento — como precisamos crescer juntos. Quando pensamos no reino, pensamos em governo. O governo está sobre os Seus ombros, e todos nós estamos sob o Seu governo.
Quando pensamos na igreja, pensamos em amor. A vida é amor, edificada em amor. Quando pensamos no reino, pensamos em disciplina.
Assim, irmãos e irmãs, na verdade o reino e a igreja são apenas os dois lados de uma só realidade. Precisamos conhecer a plenitude da Sua vida e precisamos conhecer a plenitude da Sua autoridade. Que o Senhor nos ajude.
Querido Pai celestial, entregamos estas palavras, fracas e dispersas, em Tuas mãos.
Olhamos para Ti, para que vivifiques a Tua Palavra em nosso coração. Oramos para que não tenhamos apenas o conhecimento da igreja e do reino, mas para que realmente vivamos a igreja e vivamos o reino.
Que isso seja real para todos nós. Pedimos em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.