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    The Horizon Of Divine Purpose #6 of 8 © 2026 Christian Testimony Ministry
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    The Horizon Of Divine Purpose #6 of 8
    The Horizon Of Divine Purpose #6 of 8
    Austin-Sparks, T.

    O propósito divino e a Igreja

    Em vez de ler as várias passagens da Palavra de Deus que dizem respeito à nossa meditação atual, vou, por enquanto, resumir tudo em dois trechos da carta aos Efésios.

    Em Efésios 1:9, como parte de uma longa declaração, encontramos o seu cerne:

    Fazendo-nos conhecer o mistério da Sua vontade, segundo o Seu beneplácito, que propusera em Si mesmo.

    O Seu beneplácito, que Ele propôs em Cristo. Depois, Efésios 3:11:

    Segundo o propósito dos séculos que estabeleceu em Cristo Jesus, nosso Senhor.

    Pai, acolhe aqueles que se juntaram a nós pela primeira vez nesta série de reuniões e ajuda-os a entrar plenamente naquilo que somos conduzidos a considerar neste momento.

    O horizonte do propósito divino

    Estamos dando continuidade ao que o Senhor nos disse na última série de reuniões especiais, quando nos ocupamos de Cristo como o horizonte de todas as coisas nos desígnios de Deus. Neste momento, estamos nos ocupando do horizonte do propósito: todas as coisas delimitadas pelo propósito divino, o propósito como a extensão da Pessoa.

    Não vamos nos deter nos detalhes disso, mas essa observação servirá como uma explicação muito breve do termo que estamos usando. Essa palavra, horizonte, é uma palavra do Novo Testamento, embora nunca apareça em nossas traduções. Ela está ali, na língua original.

    Em nossas traduções, ela é traduzida como “ordenado”, mas isso não nos transmite o verdadeiro significado. O significado é horizonte. Sabemos que o horizonte é a esfera, o âmbito dentro do qual vivemos e pelo qual somos governados. É o círculo, o círculo completo, e o limite da ação.

    No Novo Testamento, como vimos, essa palavra descreve e define Cristo. Ele é a esfera, a abrangência e o horizonte de Deus — nada há além Dele. Ele é o limite de todas as atividades divinas, pois todas as coisas, para Deus, estão em Cristo.

    Isso basta, por enquanto, a respeito de horizonte. Chegamos ao horizonte relacionado ao propósito: delimitados pelo propósito em Cristo.

    O significado de propósito

    Esta também é uma palavra interessante. A palavra original é prothesis. Os estudantes mais antigos entendem o que é uma tese. É aquilo que se apresenta em relação a determinado assunto, com a intenção de orientar o uso ou o desenvolvimento futuro desse assunto.

    Você apresenta uma tese para obter um grau acadêmico ou um doutorado, e essa tese é uma contribuição que, aceita pelas autoridades competentes, vai orientar, no futuro, o assunto em questão. Elas recorrerão a essa tese para obter orientação.

    Essa palavra, prothesis — o pequeno prefixo pro significa simplesmente “antes” —, designa aquilo que foi colocado de antemão, apresentado como a base de Deus para governar todo este universo nos séculos vindouros. Esse é o significado por trás da palavra traduzida como “propósito” no Novo Testamento, especialmente nos escritos do apóstolo Paulo.

    A tese de Deus, que Ele apresentou antes da fundação do mundo, é fazer de Seu Filho o herdeiro e a soma de todas as coisas. É isso que Paulo diz aqui. Quando isso se realizar — quando for um fato universal consumado —, a intenção de Deus é entrar plenamente nessa realidade e habitar ali com prazer e satisfação.

    Assim, o fim, como vimos, está indicado nas últimas palavras das profecias de Ezequiel:

    O Senhor está ali.

    Onde? Precisamente onde o Seu propósito está plenamente expresso.

    Três princípios do propósito divino

    Há vários aspectos desse propósito que vão nos ocupar ao longo deste dia, se o Senhor assim nos conduzir e ajudar.

    A Palavra de Deus revela o fato de que Deus elege instrumentos específicos em relação a esse propósito eterno — esse propósito dos séculos. Deus elege instrumentos específicos. Deixemos isso por um momento; voltaremos a esse ponto.

    A próxima coisa que fica clara em toda a Palavra de Deus, do princípio ao fim, é que a terceira Pessoa da Trindade, o Espírito Santo, está incessantemente empregando Suas energias em relação a esse propósito. Nessa linha, a Bíblia é um registro contínuo das energias do Espírito de Deus em favor de algo.

    Ele não está simplesmente agindo por agir, exercitando-Se e manifestando poder. Ele sempre tem um objetivo em vista. Do começo ao fim, desde a primeira menção ao Espírito em Gênesis 1 até a última menção ao Espírito em Apocalipse, o Espírito Se move com energia, tendo esse propósito em vista.

    A terceira coisa que se torna perfeitamente clara na Palavra de Deus é que o julgamento de todas as coisas se dá à luz desse propósito. Todas as coisas são julgadas em relação a esse propósito. Se são contrárias a ele, o julgamento opera para sua ruína e destruição. Se são favoráveis a ele, o julgamento opera para sua glória.

    Toda a obra de julgamento está concentrada e focalizada nessa questão que se chama a prothesis de Deus, o propósito eterno de Deus. Essas são as três coisas que vocês precisam manter diante de si à medida que avançamos.

    Israel como o canal do Messias

    Primeiramente, então: a eleição de instrumentos específicos em relação ao propósito.

    No Antigo Testamento, é muito evidente que Israel, como nação, foi eleito — escolhido por Deus por Seu próprio direito e soberania. Não há outra base nem outra explicação. Isso sempre é um mistério.

    É muito fácil dizer: “Ele cometeu um erro. Escolheu o povo errado, simplesmente escolheu pessoas inteiramente inadequadas”. Esse argumento pode ganhar muita força, se você quiser desenvolvê-lo no plano natural. Mas Ele diz: “Não escolhi vocês por serem melhores que os outros”.

    Na soberania essencial e exclusiva de Deus, Ele agiu ao escolher Israel. Escolheu Israel à luz do mesmo propósito mencionado aqui no Novo Testamento, mas a relação deles com esse propósito era peculiar. Escolheu Israel para ser o canal do Messias — se preferirem, o ventre do Messias —, por meio do qual o Messias, o Cristo, deveria vir.

    Sublinhem essa palavra, canal, porque ela distingue Israel no propósito peculiar de sua eleição. Esse propósito — ser o canal de Deus por meio do qual chegar ao Cristo, por meio do qual trazer o Cristo — governou e caracterizou a eleição de Israel.

    Queridos amigos, preciso deixar muita coisa a cargo de vocês. Não estamos aqui hoje para pregar; estamos aqui para instruir, para ensinar. Eu ficaria muito mais feliz se esta plataforma não estivesse aqui em cima e eu estivesse aí embaixo, no meio de vocês, com a Palavra aberta, nessa base de estudo e investigação bíblica. Por favor, ajustem a mente de vocês a isso, porque hoje estamos realmente trabalhando com a Palavra de Deus.

    Muita coisa terá de ficar para vocês desenvolverem depois. Só posso fazer essas afirmações. Se eu fosse tratar de tudo o que está contido em uma única afirmação, precisaria de um dia para cada uma delas.

    O propósito que governou e caracterizou a eleição de Israel era este: eles foram chamados e escolhidos segundo o propósito. Isso explica por que Deus escolheu um povo assim e lança luz sobre a dispensação posterior em que estamos, quando chegamos ao próximo instrumento: a Igreja.

    A Igreja como o corpo de Cristo

    Vocês veem a tremenda e transcendente vocação da Igreja nos desígnios eternos — a imensa grandeza do chamamento da Igreja. Então vocês olham para si mesmos, e eu olho para mim mesmo.

    Quando começamos a nos conhecer à luz de Deus, imediatamente dizemos: “Bem, isso pode se aplicar a algumas pessoas; não pode se aplicar a mim. Para isso, são necessárias pessoas melhores do que eu, pessoas feitas de outra matéria”.

    Então vocês leem que devemos existir para a glória da Sua graça, e essa é a resposta. Chamados? Escolhidos? A própria escolha traz em si tudo o que tornará possível e necessária uma manifestação extraordinária da graça de Deus. A escolha é governada pelo propósito, não por algo que seja um fim em si mesmo.

    Na fase seguinte, o propósito governou a constituição daquele povo depois de ter sido escolhido. Eles foram constituídos.

    Que história é essa, e quanta coisa há nela! Vejam Israel desde o momento em que entrou no Egito, sob toda a disciplina de quatrocentos anos de escravidão, sendo trabalhado e constituído de maneira secreta e oculta; depois, sendo tirado do Egito e levado ao deserto, com esse processo de constituição ainda em andamento.

    Tudo tinha relação com essa constituição: o tabernáculo e todos os seus detalhes, o sacerdócio e todos os seus detalhes, os sacrifícios, as festas e todos os seus detalhes. Toda essa maravilhosa e abrangente constituição desse povo, e o processo de constituí-lo, eram governados por um propósito.

    O propósito era fazer deles o canal por meio do qual o Cristo viria. Tudo o que dizia respeito ao trato de Deus com aquele povo e à sua constituição tinha algo de Cristo. Vocês podem ver isso, naturalmente, no tabernáculo, no sacerdócio e nos sacrifícios; mas vejam isso também nas experiências deles.

    Há aí um campo para muita meditação. Deus tratou com eles interior e exteriormente, à luz do propósito para o qual os havia escolhido: constituí-los como um canal por meio do qual Ele chegaria ao Seu Cristo e traria o Seu Filho.

    Além disso, o propósito governou a história deles. Só é possível explicar a história de Israel sob a mão de Deus, ao longo dos séculos até Cristo, à luz de algo para o qual Deus estava trabalhando: a disciplina, o sofrimento, a infinita paciência de Deus, a instrução.

    Ah, quanta coisa essa história contém! A relação deles com Deus, e a relação de Deus com eles, é explicada por esta única coisa: foram destinados a ser, escolhidos para ser, esse canal pelo qual Deus avançaria até finalmente chegar ao Seu Filho e trazer o Seu Filho.

    No caso de Israel, no sentido terreno, histórico e temporal, eles foram chamados segundo o propósito do Pai acerca do Filho de Deus. A eleição de Israel é inconfundível, e os caminhos de Deus com eles podem ser discernidos. O propósito de Deus em tudo isso precisa ficar perfeitamente claro, porque é algo que não termina em Israel.

    Chegamos ao próximo grande instrumento eleito, escolhido para o propósito divino. Chegamos àquela comunidade eleita. Às vezes, ela é chamada de “os eleitos”; nós a chamamos, e o Novo Testamento a chama, de Igreja.

    A diferença entre a Igreja e Israel é esta: a Igreja não pertence ao tempo; a Igreja pertence à eternidade. Foi escolhida em Cristo Jesus antes dos tempos eternos. Fomos escolhidos Nele antes da fundação do mundo.

    Israel pertence à terra e ao tempo, para servir a um propósito como canal. Mas a Igreja é um vaso ou instrumento eleito, não para ser o canal do Cristo, mas o corpo do Cristo. Há uma grande diferença entre um canal e o próprio corpo.

    Isso é algo superior, algo maior que Israel: eternamente eleita, não como um veículo, mas como a expressão corporificada. Diz-se que a Igreja é chamada segundo o Seu propósito. O chamamento é segundo o Seu propósito.

    O chamamento segundo o propósito

    Queridos amigos, ouçam com muita atenção. Compreendam o significado de uma afirmação como esta. Estamos tão familiarizados com as palavras:

    E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o Seu propósito.

    É algo muito belo — nós o estimamos, guardamos junto ao coração como uma promessa. Mas observem que tudo é governado pela última frase:

    Daqueles que são chamados segundo o Seu propósito.

    Você nunca foi chamado por Deus apenas para ser salvo, por mais grandioso que seja ser salvo. Nunca foi chamado por Deus apenas para ser cristão. Nunca foi chamado por Deus apenas para ser membro daquilo que se chama Igreja. Essas coisas podem estar incluídas, mas você foi chamado por Deus e escolhido em Cristo desde a eternidade para o propósito que Deus tem como Seu objetivo e fim último.

    “Segundo o Seu propósito” — essa é a explicação de Deus ter vindo primeiro a nós e nos chamado. O fato de Ele nos salvar, por mais grandioso que seja, não é um fim em si mesmo, mas está de acordo com o Seu propósito.

    A constituição da Igreja

    A Igreja também é constituída segundo o propósito. Vamos ponderar cada questão à medida que avançamos, passo a passo. Constituída segundo o propósito.

    Em todo o âmbito da criação, as espécies são constituídas de acordo com seu propósito particular. É maravilhoso como se encaixam no propósito para o qual foram criadas. São adaptadas a ele. Espontânea e organicamente, movem-se e trabalham em relação ao próprio objetivo e propósito para o qual foram criadas.

    Vocês não gostariam que os obrigassem ou exigissem que fizessem e agissem como muitas outras criaturas fazem. Diriam: “Eu nunca conseguiria fazer isso”. Vocês veem um cavalo correndo muitos e muitos quilômetros, seguindo o dia inteiro, e dizem: “Eu não conseguiria fazer isso”. Aquele cavalo que fica tantas horas em pé — eu não conseguiria fazer isso.

    Não, isso não é exigido de vocês, porque vocês não são cavalos. Os pés e as pernas de um cavalo são constituídos para fazer isso. Se isso lhes fosse exigido, logo descobririam que não são cavalos.

    Portanto, somos diferentes. Eu, por mais que tentasse, não conseguiria ser uma mulher. Não estou falando de mudar minha forma nem nada disso. Bem, muitas vezes sinto muita pena das mulheres — sinto mesmo, muita pena. Digo: “Ah, eu não conseguiria ser mulher por nada que vocês pudessem me oferecer”. Mas não me é exigido ser mulher. Não fui constituído dessa maneira.

    Não sei se as mulheres sentem o mesmo em relação aos homens, mas é assim. Somos constituídos para o propósito para o qual fomos criados. Se permanecermos em nossa própria esfera, as coisas não serão tão difíceis para nós quanto as pessoas de outra esfera poderiam imaginar.

    Os homens podem passar por coisas pelas quais as mulheres não são chamadas a passar, e, se uma mulher tentar fazê-lo, terá problemas. É aí que se traz confusão a este mundo. As mulheres são chamadas a passar por coisas pelas quais os homens nunca são chamados a passar; mas, se cada um permanecer em sua esfera apropriada, todos passarão por essas coisas da maneira certa. É uma questão de constituição na criação.

    Agora, então, a Igreja, pelo Espírito Santo, está sendo constituída para o seu propósito eterno. Está sendo qualificada, equipada, dotada e desenvolvida para esse grande propósito de Deus.

    Por um lado, há coisas que sabemos que, no presente, não podemos fazer ou às quais não podemos corresponder; mas o Espírito de Deus está trabalhando em nós para tornar possível o que naturalmente é impossível. Essa é a grande diferença entre o homem natural e o espiritual.

    Sabemos que há muitas coisas que não podemos compreender naturalmente.

    O homem natural não recebe as coisas do Espírito de Deus, nem pode conhecê-las;

    Mas o homem espiritual pode. O Espírito de Deus está nos capacitando para compreender as coisas de Deus.

    Esse trato de Deus conosco é uma reconstituição, uma reconstituição. Não será algo artificial, como o homem no espaço, que precisa ser mantido ali por meios artificiais — algo que não faz parte de sua constituição. Este será o nosso ambiente natural, para o qual somos constituídos: o céu.

    Tudo aquilo que no céu é tão diferente do que é aqui está envolvido nessa obra de constituição realizada por Deus. O que Ele está fazendo? Por que está fazendo isso? Por que essa história? Do ponto de vista natural, isso está nos virando de cabeça para baixo e do avesso; mas, na verdade, está nos colocando na posição certa do ponto de vista do céu.

    A Igreja está sendo constituída como o vaso do propósito eterno. Todo o nosso aprendizado na escola do Espírito é governado pela eleição, pela escolha, pelo propósito.

    O perigo da perda do propósito

    Tendo dito isso, e reconhecendo a vasta abrangência dessas poucas afirmações concisas, há sempre o perigo constante e a tragédia iminente da perda do propósito na vida cristã e na Igreja.

    Com Israel, esse perigo estava sempre presente. Fazia parte da história. Com Israel, essa tragédia estava sempre muito próxima e, por fim, os alcançou: a perda desse senso, dessa consciência e desse domínio do propósito específico que estava por trás de sua história e de todo o trato de Deus com eles.

    Mais cedo, neste período de reuniões, observamos algumas características da presença e das atividades do Espírito Santo em relação ao propósito. Vimos o que significa estar sob o domínio do Espírito de Deus em relação ao Seu propósito.

    No início de Israel e no início da Igreja, havia esse senso dinâmico de que existiam como povo de Deus para algum propósito especial. Eram dominados por ele; ele tomava posse deles.

    Paulo usa uma palavra muito expressiva:

    Fui alcançado por Cristo Jesus.

    Um policial se aproxima, põe as mãos em você, toma posse de você, leva-o à delegacia e o faz prisioneiro. É isso que, na linguagem da lei, se chama ser apreendido. Essa é a própria palavra que Paulo usou:

    Fui alcançado por Cristo Jesus.

    Ele liga a palavra e a afirmação ao propósito — ao propósito divino.

    Vejam como isso era verdadeiro a respeito da Igreja no princípio. Não quero dizer que eles compreendiam todo o significado disso, ou que possuíam todo o entendimento esclarecido e toda a instrução a respeito; mas tinham consciência disso. É muito melhor ter consciência da realidade do que ter toda a doutrina sem a realidade.

    Lá estão eles no início do livro de Atos: pessoas sob o domínio do Espírito Santo, tomadas por Ele, com a percepção de que algo está acontecendo, de que alguma coisa grandiosa está em vista, de que há um propósito no fato de estarmos onde estamos e sermos o que somos. Tem de ser assim. Tem de ser assim.

    A reação divina à perda do propósito

    A partir desse ponto, avançamos para a reação de Deus em relação ao propósito. Vimos a tragédia que alcançou Israel no fim. Israel foi escolhido e tratado por Deus da maneira que o Antigo Testamento revela, para ser o canal por meio do qual o Messias, o Cristo, deveria vir.

    Quando Ele veio, aquela nação O matou — e matou o próprio propósito de sua existência. Quando O mataram, mataram a si mesmos como vaso e instrumento do propósito de Deus.

    Deus disse, em essência: “Muito bem, vocês ficam de lado. Não tenho lugar para algo que seja apenas uma coisa, seja qual for o Meu propósito para ela, por mais que Eu tenha trabalhado nela e sido paciente com ela. Se, depois da devida prova e do devido tempo, ela não se mostrar fiel ao Meu propósito, nunca a mantenho até transformá-la. Eu a ponho de lado”.

    Essa é uma possibilidade terrível, não é? Estou falando de propósito. Não entendam isso como eleição para a salvação; estou falando de propósito.

    Vocês chegam ao livro de Apocalipse — e estou me adiantando demais, mas não para este momento. Ali vocês encontram o Senhor falando às igrejas, e a uma delas Ele diz:

    Arrepende-te; quando não, removerei do seu lugar o teu candeeiro.

    “Não tenho espaço para coisas boas, mesmo coisas boas, que deixem de cumprir o propósito essencial de sua existência. Não tenho lugar para nada que não cumpra o objetivo específico de sua criação ou de sua eleição.”

    Mesmo com Israel, precisamos ver como Deus reagiu em relação ao propósito. As profecias de Ezequiel são peculiar e especialmente voltadas para esse objetivo. Elas constituem o livro das atividades específicas de reação de Deus em relação ao propósito.

    A soberania e os instrumentos divinos

    Deus escolhe à luz de um único grande propósito que abrange tudo. Aquilo que Ele escolhe se torna o vaso e o instrumento do Seu Espírito e das energias do Seu Espírito.

    Quero que vocês observem o que vou dizer. Observem o método de Deus com Israel, porque ele lança muita luz sobre o Seu método com a Igreja. Embora a esfera possa ser diferente — terrena e celestial —, os princípios são exatamente os mesmos em todos os tempos.

    Primeiramente, observamos que todo o corpo do povo de Deus foi chamado segundo o propósito. Todo o corpo, em primeira instância, foi chamado e escolhido segundo o propósito.

    Tenham cuidado com a medida em que nossas ideias de testemunho específico, ministério específico e comunhão específica nos afastam deste grande fato: toda a Igreja é o vaso e o instrumento eleito de Deus. Toda a Igreja é escolhida por Deus segundo o propósito.

    A história da Igreja é um deplorável afastamento disso, mas não vou me deter nesse ponto. Se todo o corpo perde essa característica distintiva de caráter e propósito, o próximo movimento de Deus é levantar ministérios dentro de suas fronteiras, de sua esfera.

    No Antigo Testamento, eles são chamados de profetas; no Novo Testamento, de apóstolos e profetas. Ministérios — não essencialmente pessoas, mas ministérios — dentro da abrangência, do âmbito, do horizonte de todo o povo, para chamar de volta, anunciar novamente, definir, esclarecer, repreender, exortar, suplicar e advertir, tudo à luz da perda da característica distintiva do propósito em sua vida e em seu caminho.

    Ele realmente levanta vasos e instrumentos no meio do povo. Primeiro, Sua intenção era que o todo fosse isso. Mas, quando há afastamento, Ele reage por meio da voz dos profetas, ou desses ministérios específicos.

    Mais uma vez, esses ministérios nunca se destinam a ser um fim em si mesmos. São um chamado a todo o povo de Deus. Destinam-se a ser uma revelação da mente de Deus para todo o Seu povo, em toda parte — todos os que são verdadeiramente chamados pelo nome do Senhor.

    Esse é o seu propósito; essa é a sua abrangência. Sua voz precisa alcançar toda a terra. O ministério precisa alcançar todo o povo de Deus.

    O remanescente como testemunho coletivo

    Se todo o povo de Deus não der a resposta que Deus deseja, seguimos de perto o Antigo Testamento neste ponto: se, como no caso dos profetas, muitos do próprio povo de Deus se recusam a ouvir, ou ouvem com hostilidade, qual foi o próximo movimento de Deus? Do meio de todo o povo, um remanescente.

    Um povo dentro do todo que responde — um remanescente para ser, por um lado, uma repreensão a todos os demais e, por outro, um exemplo para todos os demais.

    Queridos amigos, depois de refletir muito sobre isso, provavelmente não terei dificuldade em obter a concordância de vocês quando falar do propósito de Deus para toda a Igreja e de Sua vontade para toda a Igreja. Isso permanece, permanece inalterado.

    Minha própria convicção é — e estou aberto ao Senhor para que Ele me dê mais luz e corrija esse entendimento, se estiver equivocado — que as expressões locais de toda a Igreja são a reação pretendida por Deus a uma condição geral. São como remanescentes aqui e ali.

    As expressões locais são o propósito de Deus manifesto: por um lado, para ser uma repreensão ao declínio geral de toda a Igreja; e, por outro, um exemplo daquilo que Deus realmente deseja para todo o Seu povo.

    As igrejas locais existem não para ser algo em si mesmas, não apenas para ser receptáculos de ensino e doutrina, seguindo determinada linha de procedimento e técnica, mas para causar impacto em toda a Igreja de Deus no mundo inteiro, como repreensão e exemplo.

    Alguns amigos aqui fazem parte da comunidade de Amersham; alguns, da comunidade de Richmond; outros, de Deal, de Canterbury, e eu poderia continuar — na distante Austrália, na Etiópia e em outros lugares. Vocês estão aqui representando comunidades locais do povo do Senhor.

    O Senhor lhes diria neste mesmo dia que vocês não estão ali, como uma comunidade em qualquer um desses lugares, apenas para ser algo cercado por um círculo em torno de vocês mesmos, desfrutando juntos de momentos agradáveis e felizes em uma comunhão exclusiva, ou recebendo muito ensino e doutrina com os quais enchem a cabeça. Vocês não estão ali para isso.

    Cada uma dessas congregações deveria causar um impacto mundial, ou ser uma repreensão a tudo o que perdeu sua característica distintiva de propósito. Esse é um grande propósito e uma grande contraposição: ser um exemplo, de modo que, se alguém estiver procurando saber o que Deus realmente deseja, encontre isso ali onde vocês estão.

    Os dons para a plenitude de Cristo

    Deus levanta instrumentos para esse propósito.

    Quando Ele subiu às alturas, levou cativo o cativeiro e deu dons aos homens.

    E Ele deu uns como apóstolos, outros como profetas, outros como evangelistas, e outros como pastores e mestres.

    Para quê?

    Para nada menos que o propósito pleno:

    Até que todos cheguemos à medida da estatura da plenitude de Cristo.

    Vocês voltam a Efésios. O que é isso? Que Ele encha todas as coisas e que a Igreja seja:

    A plenitude Daquele que enche tudo em todos.

    Algo como um mar, como um vaso que transborda — o conteúdo com que ele está cheio alcançando regiões muito além de sua própria localidade. Nós mal alcançamos nossa própria localidade. Será que isso é exigir demais? Eu digo que é isso que as energias do Espírito fariam.

    Isso era verdadeiro a respeito das igrejas no Novo Testamento quando estavam realmente em sintonia com o Espírito. Quando saíam de sintonia com o Espírito, imediatamente se voltavam para si mesmas e caíam em uma enorme confusão e contradição babilônica.

    Enquanto permaneciam em sintonia com o Espírito, muito além de suas próprias portas as pessoas ouviam falar delas e comentavam a seu respeito. A partir delas, em círculos e âmbitos cada vez mais amplos, o testemunho se espalhava, tanto pessoalmente como por relatos. Esse é o tipo de notícia que é bom. Nem toda notícia que corre por aí é boa, mas esse é o tipo que é bom.

    O ato soberano de Deus

    Agora observem — e preciso voltar a enfatizar isto: Deus age soberanamente nessa questão dos vasos. Ele age soberanamente quando está em Seu movimento de reação.

    Naturalmente, Ele fez isso com o todo, como vimos, em Sua escolha e eleição soberanas. Mas essa soberania de Deus se torna específica quando Ele está reagindo. Por Suas próprias razões, que talvez nunca explique e que vocês nunca poderão explicar com base em qualquer fundamento natural, Ele põe Sua mão sobre um instrumento.

    Pode ser uma pessoa, um indivíduo, em relação ao Seu propósito e à Sua reação para recuperar o que foi perdido. Depois, Ele pode agir soberanamente sobre um remanescente, uma comunidade, aqui e ali.

    Não há outra explicação senão esta: Deus trouxe aquela comunidade, ou aquelas comunidades, soberanamente à existência para um propósito específico — não apenas para algo geral, mas para algo específico: um movimento de recuperação.

    Não para ser algo em si mesmo, novamente exclusivo. Que Deus nos livre dessa exclusividade na mentalidade ou de qualquer outra forma. Mas Deus age soberanamente.

    Ezequiel e a soberania do chamamento

    Estamos nos mantendo próximos de Israel — de Ezequiel. Ezequiel era sacerdote por nascimento e formação. A preparação para o sacerdócio era algo muito rigoroso. O sacerdócio tinha de ser muito preciso e muito exigente. Tinha de ser um corpo de pessoas com grande discernimento.

    O sacerdote tinha de lidar com o cordeiro destinado ao sacrifício. Quando as coisas estavam em ordem, um cordeiro nunca seria levado ao templo para o sacrifício sem que o melhor julgamento natural o tivesse declarado aprovado, livre de qualquer defeito, mancha, ruga ou coisa semelhante.

    Mas isso não era suficiente para o sacerdote. A pessoa que o trazia talvez o tivesse examinado e observado por muito tempo, dizendo: “Bem, não consigo encontrar absolutamente nenhum defeito neste cordeiro, então vou levá-lo”. Mas isso não era suficiente para o sacerdote.

    Ele o recebia, mas o separava por um período determinado, sob o exame mais minucioso. Aquele sacrifício jamais deveria ser oferecido a Deus se houvesse um único pelo de cor diferente dos demais. Tinha de ser absolutamente perfeito sob o exame de um olhar treinado.

    Os melhores críticos do mundo eram esses sacerdotes treinados. Isso era o que se considerava bom diante de Deus. Eles respondiam perante Deus por não oferecer nada com defeito. Sua formação nessa questão, e em muitas outras, era muito completa. Ezequiel era um sacerdote treinado.

    Aos trinta anos — a idade em que deveria concluir a escola do sacerdócio e entrar no exercício efetivo do ministério sacerdotal —, o Senhor o chamou para ser profeta, deixar para trás sua atividade sacerdotal e assumir outra vocação para a qual não havia sido preparado.

    Esse foi o clamor de alguns desses profetas. Jeremias, vocês se lembram, disse:

    Não sei falar; porque sou uma criança.

    “Não tenho formação nem qualificação para a tarefa à qual Tu me chamaste.”

    Ezequiel foi chamado para ser profeta, e o Senhor precisou lhe dar muitas garantias quando o chamou. Leiam o primeiro capítulo.

    Filho do homem, Eu te envio a um povo que não é de língua estranha.

    Se Eu te enviasse a eles, eles te ouviriam.

    Eu te envio ao povo de Israel; eles não te ouvirão.

    Mas fala, quer ouçam, quer deixem de ouvir.

    Faço a tua fronte dura contra eles.

    Ele precisava de encorajamento para esse trabalho. Não estava qualificado para ele. Foi um ato soberano de Deus.

    Vocês podem dizer: “Ah, bem, Deus escolherá aqueles que realmente têm qualificação e preparo naturais”. Não acreditem nisso. Ele pode usar soberanamente algumas qualificações e alguma formação depois, e elas podem ser muito úteis; nós não as desprezamos. Caso contrário, estaríamos deixando Paulo de lado.

    Mas, quando Deus age, Ele não age sobre bases naturais como essas. É um ato soberano, e isso se aplica a esses ministérios. Notem bem: tem de ser Deus. Tem de ser Deus escolhendo.

    Se vocês e eu entrarmos em uma posição para a qual Deus não nos chamou, haverá uma terrível tragédia e ficaremos expostos. Mais cedo ou mais tarde, seremos motivo de riso e desejaremos sair o mais depressa possível, por qualquer porta. Só podemos estar nisso porque Deus nos colocou — nos colocou.

    Isso pode se aplicar a indivíduos; aplica-se na Palavra de Deus e aplica-se agora. Mas lembrem-se: o mesmo princípio se estende ao remanescente ou à comunidade. Em primeira instância, é Deus Quem os traz à existência.

    Ah, como nos desviamos nisso! Como a cristandade se desviou — o cristianismo organizado, como o chamamos —, saindo para formar igrejas, estabelecer igrejas, estabelecer testemunhos aqui e ali. Que Deus tenha misericórdia de nós! Não vamos muito longe com isso.

    Não, isso precisa surgir da soberania de Deus. Todas aquelas igrejas do Novo Testamento eram atos da soberania de Deus. Vejam Filipos. A marca do ato soberano de Deus está sobre ela; não há dúvida alguma.

    Paulo viu, em uma visão, o homem da Macedônia. Essa é a soberania de Deus, anulando determinadas outras possibilidades e dirigindo a atenção dele para lá. Ele disse:

    Concluímos que o Senhor nos havia chamado para lhes anunciar a Palavra.

    Então ele foi.

    Mas ali encontrou dificuldade e oposição, e imediatamente o inferno se levantou para dizer: “Não, aqui não”. Mas a soberania de Deus disse: “Sim”. Prisões, terremotos — qualquer coisa — tinham de contribuir e se submeter à soberania divina. Isso é algo que Deus fez.

    Ah, se cada uma de nossas congregações fosse assim: algo que Deus realmente fez! Voltem e orem a respeito. Essas coisas precisam nascer do céu pelo Espírito Santo de Deus. Precisam estar ali e funcionar por nenhuma outra razão senão esta: Deus as colocou ali e desejou seu testemunho naquele lugar — desejou um candeeiro ali, desejou o vaso ali.

    O ministério profético e o propósito divino

    O ponto, então, é o ato soberano de Deus reagindo em favor do todo, porque tem de ser assim. Se isso foi verdadeiro na história de Ezequiel e no Novo Testamento, observem que João Batista nasceu no sacerdócio, por descendência sacerdotal.

    Zacarias era sacerdote. João era levita por nascimento. João alguma vez atuou como sacerdote? Não. Vocês podem dizer que, em princípio, talvez o tenha feito quando apontou para o Cordeiro, mas ele não era um sacerdote em exercício. Era um profeta — o maior dos profetas.

    Qual era a sua função como profeta, soberanamente no poder do Espírito Santo desde o seu nascimento? Não era repreender o afastamento da nação do propósito de Deus e, em si mesmo, mostrar o que Deus deseja?

    Mas há Alguém maior do que ele. Jesus é:

    Sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque.

    Essa é a Sua função mais elevada. É aqui, na redenção, que se exerce a Sua função sacerdotal? No entanto, até mesmo Ele teve de suspender Seu sacerdócio enquanto Se tornou profeta.

    Somente no fim — em João 17, e dali para o jardim, para o tribunal e para a cruz — Ele assumiu Sua função sacerdotal. Até então, ela havia ficado suspensa enquanto Ele atuava como profeta de Deus.

    Foi isso que disseram:

    Jesus de Nazaré, que foi profeta poderoso em obras e palavras.

    Para repreender a nação — e, de fato, Ele fez isso! Para mostrar, em Sua própria Pessoa, o que Deus exige de Seu povo; para sofrer e dar Sua vida pela redenção deles.

    Ele é o exemplo abrangente e supremo da soberania de Deus na história deste mundo. Deus reage soberanamente contra a perda da característica distintiva do propósito entre o Seu povo: para chamar de volta, para repreender, para dar expressão.

    O chamamento coletivo do remanescente

    É aqui que devemos encerrar nesta manhã e continuar, se o Senhor quiser, a partir desse mesmo ponto nesta tarde. Procurem manter essa continuidade em sua mente.

    Como podemos reunir tudo isso e colocá-lo em foco? Vocês perceberam? Talvez você não seja um profeta individual. Talvez não seja um Ezequiel. Talvez não seja um Paulo. Talvez não seja nenhum desses vasos particularmente escolhidos ou instrumentos eleitos no sentido individual, mas pode ser parte de um remanescente.

    Isso nos põe muito à prova. Tantas pessoas querem ser algo pessoalmente, ter seu ministério, cumprir algum objetivo na história e sair pregando. O mais difícil para elas é se contentar em ser uma entre as pessoas de uma comunidade escolhida por Deus para um propósito específico de alcance mundial, e participar disso de todo o coração.

    Mas graças a Deus por todas essas pessoas queridas e gratas que pertencem a Ele, que não se revoltam contra essa posição, ambicionando seu próprio ministério pessoal, mas se contentam — não apenas em ser passageiros, não apenas em ser uma parte passiva e inativa de uma congregação, mas em estar ali, presentes em cada reunião e em cada atividade da comunidade, contribuindo para um propósito coletivo para Deus.

    O que faríamos sem todas essas pessoas que não são Ezequiéis nem Paulos, nem nada semelhante, mas que estão ali porque sentem: “Sou parte de algo. Eu não sou esse algo. Esse algo não está centrado em mim. Mas sou parte de algo que Deus deseja como expressão de Sua mente neste lugar e naquele lugar, e me entrego a isso”.

    Voltem, vocês que tantas vezes são chamados de membros comuns das fileiras. Voltem novamente à comunidade da qual fazem parte. Não se preocupem se Deus não fez soberanamente de vocês aquilo que as pessoas chamam de profeta. Mas cuidem de estar atuando em união com os outros ali, para ser, para Deus, Seu vaso e instrumento.

    Isso pode ser uma repreensão, mas o que realmente precisa ser exemplificado é aquilo que Deus deseja. Que Deus nos ajude.