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    Austin-Sparks, T.

    A Centralidade da Vida Eterna na Primeira Epístola de João

    Agora, por favor, abram na Primeira Epístola de João — na Primeira Epístola de João.

    Vou fazer algo que, não fosse sua verdadeira inspiração e talvez um elemento de surpresa, poderia ser um tanto cansativo. Vou pedir que vocês examinem comigo vários trechos desta carta, começando no primeiro capítulo.

    A Declaração Reiterada: “Esta É”

    A Mensagem

    “E esta é a mensagem que Dele ouvimos e vos anunciamos.”
    —1 João 1:5

    A Promessa

    “E esta é a promessa que Ele nos fez: a vida eterna.”
    —1 João 2:25

    O Mandamento

    “E este é o Seu mandamento: que creiamos no nome de Seu Filho Jesus Cristo.”
    —1 João 3:23

    O Testemunho

    “Se recebemos o testemunho dos homens, o testemunho de Deus é maior: pois o testemunho de Deus é este, que Ele deu acerca de Seu Filho.”
    —1 João 5:9

    “Quem crê no Filho de Deus tem em si mesmo o testemunho; quem não crê em Deus O fez mentiroso, porque não creu no testemunho que Deus deu acerca de Seu Filho.”
    —1 João 5:10

    “E este é o testemunho: que Deus nos deu a vida eterna, e esta vida está em Seu Filho.”
    —1 João 5:11

    A Vitória

    “Porque todo o que é nascido de Deus vence o mundo; e esta é a vitória que venceu o mundo: a nossa fé.”
    —1 João 5:4

    A Confiança

    “E esta é a confiança que temos para com Ele.”
    —1 João 5:14

    O Espírito do Anticristo

    “E todo espírito que não confessa Jesus não é de Deus; e este é o espírito do anticristo.”
    —1 João 4:3

    Aquele que Veio por Água e Sangue

    “Este é Aquele que veio por água e sangue, Jesus Cristo.”
    —1 João 5:6

    O Verdadeiro Deus

    “E sabemos que o Filho de Deus veio e nos deu entendimento para que conheçamos Aquele que é verdadeiro; e estamos Naquele que é verdadeiro, em Seu Filho Jesus Cristo.
    Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”
    —1 João 5:20

    Vamos reunir todos esses trechos:

    • Esta é a mensagem.
    • Esta é a promessa.
    • Este é o mandamento.
    • Este é o testemunho.
    • Este é o amor de Deus.
    • Esta é a vitória.
    • Esta é a confiança.
    • Este é o espírito do anticristo.
    • Este é Aquele que veio.
    • Este é o verdadeiro Deus.

    Não sei o que isso comunica a vocês. Numa carta muito breve em extensão — uma carta que vocês podem ler inteira em pouco mais de dez minutos, se é que precisam de mais do que isso —, temos essa reiteração dez vezes: Esta é; este é.

    Certamente, isso indica com muita clareza que o escritor, o apóstolo João, queria e pretendia identificar precisamente os grandes elementos da vida cristã e da fé cristã.

    Há essa repetição dez vezes: Esta é. E, a cada vez, algo é identificado — dez coisas diferentes. A respeito de cada uma, ele está dizendo: “Agora, esta é”. É impressionante. É instrutivo. É muito desafiador.

    A Vida como Questão Central

    Tudo isso procede do primeiro versículo da carta:

    “O que era desde o princípio, o que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas mãos apalparam, acerca da Palavra da vida.”
    —1 João 1:1

    Tudo brota daí. Esse é o resumo de tudo o que o apóstolo vai dizer: aquilo que ouvimos Dele.

    Portanto, nesta carta, João está recapitulando aquilo que veio com Cristo e aquilo que ele, junto com os outros apóstolos, havia visto, ouvido e apalpado.

    Ele tem um assunto muito sério a tratar. De fato, em todos os seus escritos, João tinha um encargo — um encargo que chegava a ser uma paixão.

    Vocês terão notado — e, se não notaram, talvez possam perceber agora — que, em cada uma dessas dez indicações, como as chamamos, há, de alguma maneira, uma questão central. Há uma questão que governa todo o conteúdo dessas declarações “esta é”, e essa questão central, relacionada a cada uma delas, é a vida.

    Vida. Vocês perceberam isso? Prestem atenção. Voltem e examinem novamente. Esta é — e a questão ligada a isso é a vida. Esta é — e a questão ligada a isso é a vida. E assim por diante, até o resumo final:

    “Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.”
    —1 João 5:20

    João está dizendo isso e enfatizando isso com tanta força que nos leva à questão central de toda a batalha do cristianismo.

    Pois talvez vocês não precisem que lhes digam que o cristianismo espiritual é uma batalha tremenda. Quando vocês entram nesse tipo de relacionamento com o Senhor Jesus, que é vida — que é vivo —, são lançados num conflito tremendo. Mais cedo ou mais tarde, vocês descobrem isso.

    Os Escritos de João no Contexto do Conflito Espiritual

    Foi exatamente nesse contexto que João escreveu. Ele escreveu seu Evangelho, escreveu estas três cartas e escreveu o livro de Apocalipse. Escreveu todos eles praticamente na mesma época.

    Ninguém que conheça alguma coisa desses escritos de João tem a menor dúvida de que eles se situam no âmbito de uma tremenda batalha espiritual.

    Vocês conseguem se lembrar do seu Evangelho? Conseguem se lembrar desse Evangelho do começo ao fim? Tudo o que temos ali a respeito do Senhor Jesus — em Seus ensinos e em Suas obras — está envolvido por uma atmosfera de intenso antagonismo.

    Quantas vezes os judeus, os líderes judeus, deliberaram entre si para matá-Lo por causa das coisas que Ele dizia? Até que, por fim, o fizeram. Mas, ao longo de todo esse Evangelho, vocês verão que Ele Se move nessa atmosfera de intenso antagonismo espiritual. E João escreveu o Evangelho tendo isso claramente em vista.

    Estas três cartas são apenas três aspectos de uma mesma coisa. A primeira carta é para o povo do Senhor em geral; a segunda é para uma igreja; e a terceira é para um líder espiritual na igreja. Mas são apenas três aspectos de uma mesma coisa.

    Se vocês lerem com atenção, não poderão deixar de perceber que João escreve por causa da existência de uma oposição efetiva, de antagonismo e de hostilidade à vida espiritual.

    E, se vocês não reconheceram isso nessas cartas, não poderão deixar de percebê-lo no livro de Apocalipse. Pois, se há algo a dizer sobre esse livro, é que ele é um livro de guerra, não é? Vocês sabem como os três primeiros capítulos giram em torno de “ao que vencer” — expressão repetida sete vezes. Daí em diante, é guerra.

    Seria bom que vocês sempre se lembrassem de que, embora haja algum significado e valor na posição que esses livros ocupam na sequência em que estão, essa organização pode ser enganosa ou, pelo menos, pode nos fazer perder ou deixar de perceber alguma coisa.

    Não estou sugerindo que vocês desfaçam a encadernação do seu Novo Testamento e o encadernem de outra maneira. Mas seria bom se pudessem obter esses livros separadamente e reunir o Evangelho, as cartas e Apocalipse como uma narrativa contínua, cada parte com seu propósito específico.

    Vocês precisam se lembrar de que o Evangelho de João não foi escrito lá atrás, logo ao final da vida do Senhor Jesus, para apresentar um relato de Sua vida terrena. É ali que ele está colocado na sequência histórica. Foi escrito bem no final do primeiro século cristão, depois da destruição de Jerusalém; e o mesmo aconteceu com estas cartas e, provavelmente, com Apocalipse.

    Todos eles surgem bem no final daquela primeira era cristã, depois que todos os outros apóstolos já haviam partido para estar com o Senhor. E João, já muito, muito idoso, estava escrevendo naquele ponto tão crítico — naquele ponto de virada — da história do cristianismo.

    Bem, esse é o parêntese. Lembrem-se sempre disso, porque vocês precisam do Evangelho de João para compreender as cartas de João. Já se disse que ele escreveu seu Evangelho e depois escreveu estas cartas como uma espécie de carta de apresentação do Evangelho. Seja como for, há outras coisas muito úteis nessa relação.

    O Evangelho e as Epístolas como Testemunhos Complementares

    O Evangelho foi escrito com um objetivo. Foi escrito com este único objetivo: tornar conhecido o que estava em Jesus Cristo; em outras palavras, o que havia entrado no mundo Nele, o que Ele havia trazido em Sua própria Pessoa.

    O objetivo das três cartas é mostrar o que está nos crentes por causa de Jesus Cristo. O que estava Nele deve agora estar nos crentes, e aquilo que está nos crentes — esse é o encargo das cartas.

    O Evangelho e as cartas correspondem um ao outro: de um lado, a Pessoa do Senhor Jesus e aquilo que veio com Ele; do outro, o povo do Senhor e aquilo que está nele — ou que deveria estar nele — porque Ele está nele.

    João estava dizendo, e dizia no espírito em que sempre se expressava, que Jesus trouxe consigo, em Sua Pessoa, muitas coisas da parte de Deus para este mundo. Mas tudo o que Jesus trouxe era mais do que uma doutrina, mais do que um ensino, mais do que uma verdade.

    O significado e a comprovação de tudo o que veio com Ele estão nesta única palavra: vida.

    Seu ensino — o valor de Seu ensino — deveria ser encontrado nos efeitos de Seu ensino, na produção de vida. Seu ensino de nada vale, a não ser para condenação, se o resultado não for vida.

    Todas as obras que Ele realizou deveriam resultar em vida. Não eram apenas obras interessantes, maravilhosas, admiráveis e milagrosas. O resultado pretendido era vida, e toda a obra do Senhor Jesus de nada vale se não resultar em vida.

    Não é o ensino de Jesus, embora isso seja importante. Não é o que Jesus fez, embora isso seja importante. É o resultado de tudo o que Ele disse, fez e foi — essa é a questão crucial. A comprovação do Senhor Jesus está na vida que resulta de tudo o que diz respeito a Ele.

    João é muito explícito a esse respeito. Ele resume tudo isso, tanto no Evangelho quanto na carta. Vejam seu Evangelho, capítulo 20. O capítulo 21 é uma espécie de capítulo adicional; na verdade, ele encerrou o Evangelho no capítulo 20.

    “Jesus, pois, fez ainda muitos outros sinais na presença dos discípulos, os quais não estão escritos neste livro;
    estes, porém, estão escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus; e para que, crendo, tenhais vida em Seu nome.”
    —João 20:30-31

    Vocês podem abreviar essa declaração, se quiserem, e dizer: todas essas coisas foram escritas para que vocês tenham vida em Seu nome. Essa é a questão. Esse é o objetivo. Esse é o único propósito de termos tudo isso a respeito de Jesus, de Seu ensino e de Suas obras: que vocês tenham vida.

    Então, como vocês podem observar na Primeira Epístola, no final do capítulo 5, ele faz algo semelhante:

    “Estas coisas vos escrevi, a vós que credes no nome do Filho de Deus, para que saibais que tendes a vida eterna.”
    —1 João 5:13

    Estas coisas foram escritas para que vocês saibam que têm a vida eterna. No Evangelho, é: “Para que, crendo, tenhais”. Na carta: “Para que saibais que tendes”. Para que vocês saibam que têm.

    A Ocasião Histórica dos Escritos de João

    Vamos examinar a ocasião desses escritos: o momento e as circunstâncias. Já apontamos que João escreveu no encerramento da era apostólica.

    O que temos no livro de Atos já era história. Tudo o que temos nas epístolas de Paulo e dos outros está registrado como algo realizado, e a revelação do propósito divino já está disponível.

    Agora João entra em cena e, em essência, diz: “Vocês têm tudo isso. Vocês têm tudo isso. Vocês sabem tudo isso. Isso lhes foi confiado. Pois bem, o que estão fazendo a respeito?”

    É um chamado de volta. É um chamado para corresponder a tudo o que a igreja recebeu. É um desafio, naquele momento, ao povo do Senhor, à Igreja de Jesus Cristo, para que se alinhe plenamente com tudo o que lhe foi dado, porque o Senhor, tendo dado, responsabiliza Seu povo por tudo isso.

    Mais uma vez, vejam, ele prossegue com o livro de Apocalipse. Na abertura desse livro, ele chama as igrejas a prestar contas diante da Palavra escrita. Certamente, faz isso com base naquilo que o apóstolo Paulo havia dado àquelas igrejas da Ásia, tendo sido o instrumento para estabelecer ali um testemunho do Senhor Jesus Cristo.

    Agora o Senhor ressurreto as está chamando a prestar contas de tudo o que Paulo foi usado para lhes dar. É muito impressionante, queridos amigos. É solene, mas é encorajador.

    Uma das últimas coisas que Paulo diz a respeito de seu ministério foi:

    “Todos os que estão na Ásia se apartaram de mim.”

    Eles o repudiaram. Eles o abandonaram. Haviam fechado as portas àquele ministério na Ásia.

    Agora João escreve às sete igrejas da Ásia — mas não é João; é o Senhor ressurreto, por meio de João, falando às sete igrejas da Ásia. É como se o Senhor ressurreto, ali em Apocalipse 1, estivesse dizendo: “Ó igrejas da Ásia, vocês não vão escapar assim. Podem repudiar Meu servo; podem se afastar dele; mas é Comigo que terão de acertar as contas. Fui Eu Quem lhe falou, Quem operou por meio dele. É Comigo que vocês têm de acertar as contas”.

    Isso é encorajador para qualquer servo de Deus que tenha sido fiel e tenha sofrido descrédito e rejeição. Mas é muito desafiador e muito solene, não é? O Senhor nunca permite que alguém trate de qualquer maneira algo que Ele lhe confiou sem, mais cedo ou mais tarde, chamá-lo a prestar contas a Ele por essa responsabilidade.

    Essa é a questão do momento, entendem? É uma questão de tempo. Chega um momento em que o Senhor faz isso. Mas e quanto às circunstâncias?

    Está perfeitamente claro nessas cartas e em Apocalipse, e está implícito no Evangelho, que havia se instalado um estado de declínio espiritual — um estado de mudança espiritual. Os primeiros dias, os antigos dias de glória na igreja, estavam passando, se é que já não haviam passado.

    Toda aquela devoção, aquela frutificação, aquela disposição para sofrer, aquela pureza estavam passando. O declínio havia se instalado, e uma grande mudança estava ocorrendo no cristianismo na época em que João escrevia — e não era uma mudança para melhor.

    Era uma mudança: perda do padrão, perda da qualidade, perda da pureza, perda do primeiro amor. Sim, um estado de declínio espiritual e de triste mudança.

    A Mistura Espiritual e o Declínio

    Era uma época em que ideias pagãs estavam invadindo a igreja e o cristianismo. Talvez não lhes interessasse, e apenas tomaria nosso tempo, explicar quais eram essas ideias pagãs. Mas elas estavam entrando — tipos estranhos e misteriosos de ensinos provenientes do paganismo —, entrando e sendo incorporados ao ensino cristão.

    Isso estava destruindo a pureza absoluta do Evangelho, da fé e da vida dos crentes. Aquela clareza e transparência de testemunho e de vida que haviam marcado os primeiros dias estavam dando lugar à mistura espiritual.

    Sempre que a mistura entra, há confusão. Confusão. Vocês podem perceber quanta confusão havia simplesmente lendo esta breve carta — quantas coisas indicam que o povo do Senhor estava num estado de confusão, nascido dessa mistura que havia entrado no cristianismo.

    Queridos amigos, não estou falando a vocês apenas sobre algo de quase dois mil anos atrás. Isso poderia ser interessante, mas estamos vivendo em nossos próprios dias. Não hesito em dizer que estamos vivendo em condições muito semelhantes àquelas em que João escreveu esta carta.

    Que mistura confusa é o cristianismo em geral hoje, não é? Quanta confusão há no cristianismo, usando essa palavra em sentido amplo. Que perda de vigor e de nível, de impacto e de pureza, e de paixão pelo Senhor Jesus. Que perda! Todos percebem isso. Todos lamentam isso.

    Havia naquela época mais um fator, do qual uma parte considerável do mundo está conhecendo alguma coisa hoje: a perseguição. João escreveu Apocalipse como exilado na ilha de Patmos, “por causa da palavra de Deus e do testemunho de Jesus”.

    Era um tempo de severa provação para a igreja, por meio da perseguição, da oposição e do antagonismo. Talvez não conheçamos tanto disso neste mundo ocidental, mas isso não é mérito nosso.

    Nossos irmãos no Oriente estão conhecendo tudo isso. Estão na prova de fogo da perseguição e do sofrimento. Quando digo que não é mérito nosso não conhecermos isso, quero dizer o seguinte: embora, neste momento, a forma que isso assume por lá talvez ainda não nos tenha alcançado—

    Se, queridos amigos, tivéssemos mais vitalidade em nossa vida espiritual e em nosso testemunho, enfrentaríamos mais dessa poderosa oposição.

    Se, queridos amigos, tivéssemos mais vitalidade em nossa vida espiritual e em nosso testemunho, enfrentaríamos mais dessa poderosa oposição. Acho que não enfrentamos oposição suficiente porque não temos peso suficiente.

    Falando da igreja em geral — e, individualmente, há muitas exceções —, como um todo, a igreja no Ocidente não é uma igreja perseguida porque não tem peso suficiente. Isso é verdade.

    Bem, essas eram as circunstâncias em que esses escritos surgiram. Mas por que eu disse tudo isso, mencionei todas essas coisas? Vamos olhar por trás delas, chegar ao cerne e perguntar: por quê? Qual é a explicação? Qual é o significado?

    O Conflito contra a Vida Divina

    Esses são apenas aspectos de uma grande batalha. A batalha tem muitas formas; assume muitos aspectos diferentes.

    Isso significa que há algo contrário — algo contrário ao cristianismo, à vitalidade, à vida do povo de Deus. Há algo contra eles. O que é? Qual é o alvo de tudo isso? O que está no cerne?

    João não nos deixa nenhuma dúvida quando sublinha, ressalta, esta única palavra do começo ao fim: vida. Vocês a encontram no Evangelho, nas cartas — vida. Então, do que se trata tudo isso?

    Tudo, por qualquer meio, de qualquer maneira — desde o subterfúgio sutil, o engano e a trapaça até todas as outras formas, chegando à perseguição aberta e mortal —, tudo, de qualquer maneira, para destruir essa vida.

    Tudo para destruir essa vida, porque essa vida é a questão eterna: desde a eternidade passada, através de todas as eras, até a eternidade futura. É isso. É isso.

    Deus pretendia que o homem que Ele criou possuísse, segundo Seu próprio desígnio, a vida eterna — que compartilhasse com Ele Sua vida. Isso é simbolizado, naturalmente, na árvore da vida no jardim, no princípio.

    Ela é um símbolo do pensamento de Deus: que o homem, sob certas condições — sobre uma determinada base de fé, de obediência, de comunhão com Ele, de andar na luz como Ele está na luz —, sobre essa base, viesse a possuir aquilo que se chama vida eterna.

    Agora, se isso acontecesse — se isso acontecesse — num universo em que existe uma hierarquia hostil, inimiga e antagônica a Deus, uma hierarquia que se opõe a Deus e a todos os Seus propósitos e intenções, se isso acontecesse, a situação dessa hierarquia seria inteiramente sem esperança.

    As forças do antagonismo seriam completa e definitivamente derrotadas se isso acontecesse, porque essa vida é indestrutível. É indestrutível. Simplesmente não pode ser destruída.

    João está nos dizendo que ela estava no Filho de Deus. Aprendemos em outra passagem das Escrituras:

    “Ao Qual Deus ressuscitou, tendo soltado as dores da morte; porque não era possível que Ele fosse retido por ela.”
    —Atos 2:24

    Simplesmente não era possível — era algo impossível — que Aquele em Quem essa vida habitava fosse retido pela morte. Ela é indestrutível. Será irresistível — irresistível.

    Certa vez, perguntaram a uma pessoa se ela aceitaria integrar uma comissão de defesa da Bíblia. Ela olhou para o homem que havia vindo fazer o convite e disse: “Um leão precisa ser defendido? Solte-o das correntes; ele cuidará muito bem de si mesmo”.

    A Palavra de Deus não precisa de defesa. Soltem-na, e isso é tudo o que vocês precisam fazer. Irresistível.

    Não sei se vocês leram recentemente no jornal sobre algo que aconteceu em algum lugar, acho que no nordeste deste país. Um trecho inteiro de uma estrada de concreto teve de ser arrancado e refeito porque cogumelos haviam aberto caminho através dele e o rachado. Cogumelos rachando uma estrada de concreto!

    Aí está: o poder da vida. Irresistível, se tiver oportunidade, se for liberada, se assumir o controle.

    Essa vida faz com que tudo neste universo se levante para se defender dela — para se salvar dela. Isso explica muita coisa, queridos amigos, não é? É uma vida que provoca oposição por causa de seu potencial inerente. Irresistível.

    A Vida Manifestada em Jesus Cristo

    Essa vida, diz João, estava em Seu Filho Jesus Cristo. Olhem para Ele. Olhem para Ele.

    Por toda parte aonde ia, Ele encontrava, de muitas formas diferentes, antagonismo à vida que estava Nele. Porque ela estava Nele, todas as inteligências malignas deste universo — o diabo e os demônios — se manifestaram e despertaram. “Esta é uma situação crítica. Isso invadiu nosso domínio.”

    Ele enfrentou isso de todas as formas: possessão demoníaca e todas as formas de atuação satânica nos corpos e nas mentes humanas. Nenhuma delas pôde resistir a Ele. Nenhuma pôde resistir a essa vida. Nenhuma pôde manter sua posição diante Dele.

    João reúne todos os sinais de seu Evangelho — sinais exatamente disso, do poderoso e irresistível poder da vida que estava em Jesus — num único caso culminante: Lázaro.

    Lázaro não apenas teve permissão para morrer — deliberadamente, teve permissão para morrer —, mas também para permanecer no túmulo até o fim de quatro dias, até estar em estado de decomposição. Isso foi permitido deliberadamente para mostrar que a morte — morte verdadeira, não imaginária, não fictícia, não aparente, mas morte real e terrível — não pode resistir diante Daquele que é a ressurreição e a vida.

    Ele exemplifica a natureza dessa vida. Ela é indestrutível. É irresistível.

    Eu gostaria de conduzir vocês pelos muitos casos em que Jesus trouxe vida a situações que, naturalmente, eram inteiramente sem esperança. Vocês precisam se lembrar de que João selecionou deliberadamente toda uma série de situações impossíveis para mostrar que, com Este, nada é impossível.

    Não importa qual seja a situação — seja a transformação da água em vinho, uma situação sem esperança em Caná da Galileia, quando tudo havia chegado ao fim; seja a mulher de Samaria, uma situação bastante sem esperança em si mesma; seja o filho do nobre, chegando à beira da morte.

    Aquele nobre certamente teria usado toda a sua riqueza para encontrar alguma ajuda para aquele filho. Ele mesmo viajou de Cafarnaum até Caná para entrar em contato com Jesus e se aventurar a pedir que Ele fizesse alguma coisa. Uma situação sem esperança neste mundo.

    E assim poderíamos continuar. João selecionou deliberadamente essas coisas para mostrar que essa vida em Cristo não tem rival nem senhor sobre ela. Ela é que governa. Ela é que governa.

    A Recuperação da Vida em Meio ao Declínio Espiritual

    Numa situação de crescente morte e escuridão espiritual, de declínio e perda, João escreve tudo isso e diz, em essência: “Todos vocês, crentes, o que precisam recuperar neste dia é seu conhecimento e sua experiência dessa vida que está em Cristo”.

    Essa vida incomparável, essa vida poderosa — é ela que vai resolver os problemas, responder às perguntas, suprir a necessidade, vencer as forças adversas e triunfar por fim. É a vida em Cristo que vocês precisam conhecer.

    Sem isso, as coisas irão de mal a pior, e de pior a terríveis. É apenas declínio. João se coloca nessa brecha e diz: “A resposta é recuperar Jesus Cristo como a vida eterna, no poder dessa vida sem fim — uma recuperação em sua história espiritual, em sua experiência espiritual”.

    Agora, queridos amigos, já tomei tempo suficiente para introduzir o assunto e temo que precise encerrar por aqui, por enquanto. Como disse nesta tarde, temos aqui assunto para todo o fim de semana. Se o Senhor quiser, continuaremos nisso por algum tempo amanhã de manhã, depois da Ceia do Senhor, a menos que Ele nos conduza de outra maneira.

    Mas, nesta noite, chegamos a um grande fato: diante daquilo que qualquer pessoa com algum conhecimento espiritual, alguma experiência espiritual ou algum discernimento espiritual reconhecerá como um tempo de perda de poder espiritual por parte da igreja e do povo de Deus hoje, há necessidade de muito mais poder.

    Vocês não concordam? Para enfrentar a situação atual — as forças adversas, sobre as quais ainda precisamos falar mais especificamente —, para enfrentá-la e fazer frente a ela, isto é o que se faz necessário, como João mostra em seu Evangelho, em suas cartas e em Apocalipse: trazer o Senhor Jesus de volta ao Seu devido lugar em termos de vida eterna. Trazê-Lo de volta.

    Com seu Evangelho, João procura apresentar o Filho de Deus de uma nova maneira, para que haja uma compreensão renovada Dele. Nas cartas, esse é seu interesse: que o Filho de Deus seja realmente introduzido no poder da vida eterna.

    Que o Senhor diga algo ao nosso coração a respeito disso, porque, de fato, estamos muito mais adiante na dispensação do que João estava. Certamente, nenhum de nós aqui questionará a afirmação de que estamos chegando muito perto do fim.

    No pouco tempo desde que estivemos juntos aqui — desde que estive com vocês em sua turma —, quantos avanços aconteceram? Que corrida desenfreada ocorreu! Quanto mais próximos estamos daquele dia mencionado por Pedro, em sua inspiração profética, quando os céus, em chamas, serão dissolvidos com intenso calor, e todas essas coisas serão queimadas.

    Agora entendemos isso, hoje. Em poucos meses ou anos, chegamos a saber que isso não é ficção. É uma realidade terrível. Basta que algum louco, livre de qualquer restrição, aperte um botão hoje, e a civilização será praticamente aniquilada, se o Senhor permitir. É possível — possível.

    Estamos muito perto do fim. Só posso confiar que toda a oração que precedeu nosso tempo juntos aqui, toda a busca pelo Senhor, signifique que a palavra que está chegando a vocês seja uma palavra oportuna — uma palavra para esta hora e para a situação atual.

    Poucos como somos, e fracos como somos humanamente, que possamos, pelo menos individualmente e como um grupo do povo do Senhor, entrar num novo conhecimento do Senhor Jesus Cristo no poder dessa vida poderosa, indestrutível e irresistível.

    Era realmente a esse ponto que João pretendia conduzir o povo do Senhor ao escrever. Ele disse:

    “Estas coisas vos escrevi […] para que saibais que tendes a vida eterna.”
    —1 João 5:13

    É possível crer que vocês a têm e não conhecê-la. É possível ter a doutrina a respeito dela e não conhecê-la. É possível até firmar os pés na verdade a respeito dela e não viver no conhecimento dela.

    Essas pessoas eram cristãs e, doutrinária e teoricamente, tinham a vida eterna porque haviam crido no Senhor Jesus Cristo. Mas não estavam vivendo, dia após dia, no conhecimento dessa vida. Isso é possível, vocês sabem.

    Quando escreveu Apocalipse, João deixou perfeitamente claro a uma igreja que é possível realizar todas as obras cristãs sem ter todo o amor cristão. A força que impulsionava todas as atividades se foi, embora vocês continuem realizando as atividades.

    É perfeitamente possível estar cheio de obras cristãs sem que a vida de amor esteja presente. Muitas pessoas estão trabalhando intensamente no cristianismo, mas falta alguma coisa, não é? Falta alguma coisa.

    Era exatamente isso que João estava dizendo. Não, não é o ensino; não é a profissão de fé; não são sequer as obras que vocês estão fazendo. É o poderoso agir dessa vida, que vocês conhecem em sua própria experiência todos os dias. Sua vida é uma vida de ressurreição em vocês, em mim, todos os dias. Esse é o testemunho. Este é o testemunho. Esta é a mensagem.

    Naturalmente, precisaríamos de uma conferência muito longa para examinar cada uma daquelas indicações e dizer: “Esta é a mensagem: o que é ela? Este é o testemunho: o que é ele? Este é o mandamento”, e assim por diante.

    Mas, como já disse, quer tratemos delas separadamente, quer não, quando reunimos todas, elas convergem para uma única coisa. Todas essas coisas têm a ver com a vida. A vida é a questão central.

    Bem, vou parar por aqui, por enquanto. Que o Senhor grave isso profundamente em nosso coração.