Quero reunir alguns trechos da Palavra de Deus: um do Antigo Testamento e os demais do Novo.
Do Antigo Testamento, no livro de Êxodo 32:31-32:
E tornou Moisés ao Senhor e disse: Ora, este povo pecou grande pecado, fazendo para si deuses de ouro. Agora, pois, se perdoares o seu pecado…; e, se não, risca-me, peço-Te, do Teu livro, que tens escrito.
Agora, no Novo Testamento, na carta de Paulo aos Filipenses 4:3:
E peço-te também a ti, meu verdadeiro companheiro, que ajudes essas mulheres que trabalharam comigo no evangelho, e com Clemente, e com os demais cooperadores meus, cujos nomes estão no livro da vida.
A carta aos Hebreus 12:23:
Chegastes à universal assembleia e igreja dos primogênitos, que estão inscritos nos céus.
O livro de Apocalipse 13:8:
E adorá-la-ão todos os que habitam sobre a terra, cujos nomes não estão escritos, desde a fundação do mundo, no livro da vida do Cordeiro que foi morto.
Apocalipse 17:8:
A besta que viste foi e já não é; e há de subir do abismo e ir à perdição. E os que habitam na terra, cujos nomes não estão escritos no livro da vida desde a fundação do mundo, se admirarão.
Apocalipse 20:12, 15:
E vi os mortos, grandes e pequenos, que estavam diante do trono; e abriram-se os livros: e abriu-se outro livro, que é o da vida. E os mortos foram julgados pelas coisas que estavam escritas nos livros, segundo as suas obras.
E aquele que não foi achado escrito no livro da vida foi lançado no lago de fogo.
Apocalipse 21:27:
E não entrará nela coisa alguma que contamine, nem quem pratique abominação e mentira: mas somente os que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro.
O livro da vida do Cordeiro. Vocês perceberão que, com esse último trecho, estamos perto do fim — do fim de toda a história das eras deste mundo. As coisas estão sendo reunidas para o fim. Tudo está sendo congregado e apresentado de forma muito precisa e concisa. É uma totalidade imensa e abrangente.
Porque aqui, nessas palavras acerca do fim, temos duas palavras que são a chave não apenas de toda a Bíblia, mas de toda a história do relacionamento de Deus com este mundo. Essas duas palavras são o Cordeiro e vida.
O livro da vida do Cordeiro é a expressão completa. A Bíblia trata inteiramente do Cordeiro e da vida. Vamos começar onde esse trecho termina: vida. Pois essa é a grande palavra; essa é a realidade que abrange tudo. Vida — essa é a questão do começo ao fim.
A Bíblia é o registro, desde o seu início até o seu encerramento, de um tremendo conflito. É um livro de conflito. Forças hostis umas às outras estão sempre ativas, implacavelmente ativas, ao longo de todo este volume e de toda a história que ele abrange.
Se perguntarmos: “Do que se trata tudo isso? O que é toda essa disputa? Qual é o significado de tudo isso?”, a resposta se encontra nessa única palavra. Essa é a questão em torno da qual a disputa acontece. É aquilo que a Bíblia chama de vida e entende por vida.
Vida. Pois o significado bíblico de vida, conforme aparece em passagens como as que lemos — o livro da vida, o livro da vida do Cordeiro —, é algo bem diferente daquilo que nós chamamos de vida, que o homem chama de vida, que o mundo chama de vida.
Essa palavra bíblica estabelece uma distinção muito clara. Ela divide toda a humanidade, em todas as épocas de sua história, em duas categorias: os que têm essa vida e os que não têm essa vida. É um grande fator de distinção na história da humanidade.
Vida ou seu oposto, morte. Mais uma vez, o que a Bíblia entende por morte não é o que o homem considera morte. Assim como essa vida é muito maior do que aquilo que o mundo entende por essa palavra, também a palavra bíblica para morte significa algo muito maior do que simplesmente o corpo morrer e ir para a sepultura.
Essa palavra estabelece uma distinção muito clara. Ela diferencia um homem de outro, uma classe de outra. Houve um momento, como a Bíblia mostra, em que essa grande divisão começou.
Os primeiros capítulos da Bíblia apresentam esse acontecimento histórico com muita clareza. Deus havia criado o homem, e compreendemos, a partir de muitas outras partes da Bíblia, que o homem não estava completo quando saiu das mãos de Deus. Ainda havia algo a ser acrescentado para torná-lo completo.
Ele estava completo até onde havia chegado, mas isso não era suficiente para satisfazer a Deus. Na apresentação simbólica de uma grande verdade espiritual e divina, Deus colocou aquilo que era necessário para completar o homem em uma posição na qual ele poderia, sob certas condições e sobre determinada base, recebê-lo e tornar-se completo.
Mas era possível que o homem não se colocasse sobre essa base; que, em vez disso, a ignorasse, a violasse e deixasse de cumprir as condições para possuir aquilo. Assim, ele foi colocado à prova, submetido a um teste em relação a essa realidade — esse algo que se destinava a completá-lo.
Conhecemos a história. Ele falhou. Desobedeceu. Então, aquilo que simbolizava esse fator supremo, sublime e definitivo para sua plenitude foi colocado fora de seu alcance. Ele foi separado daquilo, de modo que não pudesse possuí-lo em sua desobediência.
A grande divisão aconteceu. Ali está aquilo que Deus fez para o homem, agora em um lugar fechado, e ele não pode possuí-lo nesse estado de queda. E aqui está ele, no mundo, incompleto.
Temos palavras que usamos para definir isso. Dizemos que o homem, no mais íntimo de seu coração, não é uma criatura satisfeita. É uma criatura insatisfeita, descontente, sempre desejando algo que sente que lhe pertence e que deveria ter.
Ele labuta, luta, trabalha e faz de tudo para tentar alcançar esse algo, mas isso sempre lhe escapa. Ele sabe que, enquanto não o tiver, não estará completo. Há algo que falta em seu próprio ser e que o mantém nesse estado de imperfeição.
A Bíblia chama essa condição de vaidade. Ora, a palavra inglesa que usamos transmite uma ideia diferente daquilo que a Bíblia entende por vaidade. Para nós, vaidade talvez seja dar importância a si mesmo, preocupar-se com a própria imagem, arrumar-se de modo a causar uma impressão, e assim por diante. Chamamos isso de vaidade das pessoas e dizemos que elas são muito vaidosas. Mas não é isso que a Bíblia quer dizer com essa palavra.
A Bíblia quer dizer algo que não pode ser expresso em uma única palavra. Significa estar sempre desejando, trabalhando e lutando por algo que lhe escapa. Você nunca o alcança. Nunca consegue pôr a mão nele. Passa a vida assim e depois morre.
As pessoas morrem com este sentimento: de algum modo, perdi aquilo que estava destinado a mim e aquilo para o qual eu fui destinado. É vaidade. Tudo é em vão.
Esse algo era a vida de que a Bíblia fala — essa realidade peculiar, específica e única que Deus desejava que o homem tivesse.
Agora, queridos amigos, não desejo, nem por um momento, entregar-me a teorias e filosofias da vida, entrar nesse mundo de conceitos mentais. Preciso submeter isso à prova ao longo de todo o caminho, passo a passo. Precisamos ter as evidências e a comprovação daquilo que estamos dizendo.
Neste pequeno salão, esta noite, com este grupo relativamente pequeno de pessoas, a maioria, se fosse convidada e pudesse fazê-lo, se levantaria com o rosto radiante e diria: “Sei que é verdade: desde que recebi esse dom, meu coração tem estado satisfeito. Encontrei aquilo pelo qual minha natureza anseia, aquilo que minha vida deseja”. Ah, o caminho da satisfação!
Isso pode ser posto à prova a qualquer momento. Se você não sabe, pode pôr isso à prova neste próprio salão. Eu sei que é assim.
Essa grande divisão aconteceu em determinado momento da história da humanidade. A partir da desobediência do homem, esse grande fator que o completaria lhe foi negado. Sua vida passou a ser marcada por essa vaidade — em seu coração, em seu trabalho, em todas as suas buscas. Era algo que ele nunca conseguia alcançar, que lhe escapava durante todo o percurso.
Esse é o fator, a grande realidade transcendente, que se torna o critério final, definitivo, de tudo. É por isso que a Bíblia termina com essa ênfase.
Apenas como uma observação, um parêntese: se vocês ainda não fizeram isso — vocês, cristãos, ou qualquer outra pessoa —, peguem o livro de Apocalipse e sublinhem a palavra vida ou vivo. Vejam como fica o livro depois de fazerem isso. É uma grande questão.
Por ser este o último livro da Bíblia e por estarmos avançando aqui para o fim de tudo na história deste mundo presente, essa questão da vida aparece com clareza e grande destaque. Ela se torna a questão decisiva. É a única realidade para a qual tudo o mais caminhou, da qual tudo o mais falou e para a qual tudo o mais apontou.
Toda a Bíblia e toda a história têm se concentrado nessa única e tremenda questão. É o critério definitivo. As passagens que lemos mostram que a grande divisão, em sua máxima dimensão no fim, se resume a isto: de um lado, a grande multidão que vai para o juízo — aqueles cujos nomes não são encontrados escritos no livro da vida do Cordeiro.
Do outro lado está uma grande multidão, uma grande multidão que ninguém pode contar. Esses estão diante do trono de Deus e do Cordeiro. São aqueles cujos nomes se encontram no livro da vida do Cordeiro. Eles têm essa vida.
A divisão começou lá atrás. Tornou-se o critério das eras e, por fim, é o critério dos destinos eternos: essa questão, esse assunto da vida.
Isso, queridos amigos, é a explicação total e definitiva da encarnação do Filho de Deus. Isto é, a explicação completa de por que o Filho de Deus, a Quem conhecemos como Jesus, o Cristo, veio a este mundo em forma humana.
Ele está bem no centro da história, Esse que veio do céu. Está com um braço estendido, alcançando todo o passado, até aquela tragédia no princípio — aquela terrível tragédia. Com uma das mãos, Ele alcança aquele ponto lá atrás; com a outra, alcança o fim, a consumação.
De pé no meio das eras, abrangendo toda a história e toda a humanidade, Ele clama:
Eu vim para que tenham vida.
Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância. — João 10:10
A implicação clara é que eles não a tinham. Não haveria necessidade de Ele vir do céu se já a tivessem. Eles não a tinham. A explicação de Sua vinda se resume inteiramente nesta única palavra: vida.
Eu vim para que tenham vida.
Esse é o significado pleno da encarnação do Filho de Deus. É claro que eu poderia passar uma semana de anos falando sobre essa vida — o que ela é, seu caráter, e assim por diante. Por enquanto, não vou dizer mais sobre ela, além de conduzir vocês a este fato: isso divide os homens.
Ou você tem essa vida específica, ou não a tem. Você não a possui por natureza, pelo seu nascimento natural. Você tem outro tipo de vida, do qual a Bíblia fala, e a língua original da Bíblia deixa isso perfeitamente claro pelas diferentes palavras que emprega para vida.
Há aquela palavra que significa a vida que todos os homens têm por natureza — a palavra da qual deriva nosso termo científico biologia: a palavra grega bios, vida animal, simplesmente a vida humana comum. Todas as pessoas a têm pelo nascimento natural, mas essa não é a palavra nem a realidade de que se fala aqui no livro da vida do Cordeiro.
É uma palavra inteiramente diferente, porque é uma realidade inteiramente diferente. Ninguém a possui por natureza. Você pode ter a mais elevada origem, a melhor origem natural, e vir da melhor linhagem; mas a natureza proclama esta única coisa: você não pode herdar essa vida de sua mãe nem de seu pai.
O problema e a perplexidade da hereditariedade, não é mesmo? Pais santos, avós santos, talvez gerações de santos, e, no entanto, esta geração — uma ovelha negra, sem santidade alguma.
Ah, não, você não herda isso nem mesmo de pais piedosos. Eles podem conhecer essa vida; podem possuí-la; ela pode ter realizado neles a grande obra que realiza. Ainda assim, você nasce deles e não a possui. Não pode simplesmente se apoiar naquilo que seus pais têm.
Você pode ser criado em um ambiente de piedade e semelhança com Cristo, mas isso não significa que herde essa vida. É algo que você mesmo, a sós com Deus, precisa receber como um dom Dele.
Pois bem, essa é a grande questão à qual estão ligadas tantas coisas no tempo e tantas coisas na eternidade. Agora tomo a palavra central entre os três elementos da expressão: o livro da vida do Cordeiro. O livro.
Vocês devem ter percebido, pelas passagens que lemos — e elas são apenas uma seleção muito pequena —, que essa é uma ideia bíblica, essa ideia do livro. Pode ser simbólica. Não vou me deter na preocupação de saber se é literal ou simbólica. Há algo aqui que tem um significado muito real.
O que significa? Bem, o que quero dizer com aquilo que acabei de falar é isto: não penso que Deus precise manter um livro para Se lembrar, literalmente manter um livro para Se lembrar. Deus sabe tudo e Se lembra de tudo aquilo de que deseja Se lembrar.
Às vezes ficamos impressionados com a memória extraordinária de algumas pessoas: os nomes de que se lembram, os rostos de que se lembram, os acontecimentos de que se lembram. Ora, ficamos muito impressionados com a memória de certas pessoas, com aquilo que guardaram ali e que podem trazer à lembrança a qualquer momento.
Mas pensem em Deus. Se isso é verdade a respeito do homem finito, quanto mais infinitamente verdadeiro deve ser a respeito de Deus? Ele não Se esquece — a não ser daquilo que deseja esquecer. Graças a Deus, há coisas que Ele deseja esquecer.
Ele deseja esquecer, e de fato esquece. A Escritura nos diz que Ele não Se lembrará mais das transgressões de Seu povo. Nunca mais. Ele as colocará atrás de Suas costas; Ele as lançará nas profundezas do mar; Ele as apagará da memória. Ele pode fazer isso.
Gostaríamos de poder esquecer muitas coisas. Deus pode esquecer aquilo que deseja esquecer, mas aquilo que Ele não deseja esquecer — como está escrito, o justo permanece em memória eterna.
A Bíblia apresenta formas muito expressivas de dizer essas coisas:
Pode uma mulher esquecer-se de seu filho que ainda mama, de sorte que não se compadeça do filho do seu ventre? Mas, ainda que esta se esquecesse, Eu, todavia, não Me esquecerei de ti. Eis que, nas palmas das Minhas mãos, te tenho gravado. — Isaías 49:15-16
Não precisamos discutir se o livro é simbólico ou literal. Certamente é uma maneira de apresentar, de forma vívida e ilustrativa, essa grande verdade da lembrança de Deus — de Deus manter alguém em Sua lembrança.
O que Ele tem em Sua lembrança quando se trata desse livro, o livro da vida do Cordeiro? Há muitos livros. Lemos a respeito deles: livros foram abertos, e outro livro foi aberto. Os livros — ah, há os livros da tragédia e os livros da condenação e do juízo; mas há outro livro, que é o livro da vida.
Aqui está algo que Deus tem sempre em Sua memória, algo que Ele conhece, algo que Ele identifica. Quando queremos confirmar, averiguar e ter certeza a respeito de pessoas, recorremos aos livros, aos registros.
Aqui em nosso país, vamos à Somerset House, onde estão todas as certidões de nascimento. Queremos identificar: aqui estão pessoas que têm determinado nome; será que se trata de fulano? Bem, vamos verificar. Consultar o livro. Identificamos as pessoas pelo livro. O livro é um livro de identificação.
No livro da vida do Cordeiro, falando novamente de modo simbólico, estão aqueles que Deus identifica como pertencentes a essa determinada categoria, como sendo desse determinado tipo, como estando nessa classe específica e sendo diferentes de todos os demais — distinguidos como pessoas singulares.
Deus sabe. Deus sabe. Deus os tem, por assim dizer, em Seu registro.
Observem todas as palavras que lemos a esse respeito. Paulo, falando desses cooperadores, desses companheiros de trabalho e daqueles que o haviam ajudado, referiu-se àqueles cujos nomes estão no livro da vida. Hebreus fala daqueles cujos nomes estão inscritos nos céus. Apocalipse diz exatamente isso.
Pois bem, o trabalho de identificação está acontecendo. Você pode ser identificado pelo livro? O livro identifica você?
Você é um daqueles de quem Deus Se lembra para a vida eterna e a glória eterna, mantidos em memória eterna? Ah, é algo grandioso, sabe, não ser esquecido pelo Senhor.
No Antigo Testamento há uma ilustração disso em dois bodes: um é trazido e oferecido como sacrifício ao Senhor; o outro, sobre o qual o pecado do povo é transferido pela mão do sacerdote, é enviado ao deserto, à terra do esquecimento — esquecido.
Aquele pobre bode, vagando por lá, longe da habitação dos homens, em completa desolação, sem um amigo, bem poderia, se pudesse falar, ser ouvido dizendo: “Estou esquecido, esquecido, esquecido por todos os homens e esquecido por Deus”. É algo desolador ser esquecido assim.
Não é de admirar que o ladrão moribundo na cruz, quando um senso vívido da realidade irrompeu em sua alma, tenha clamado a Jesus, ao seu lado:
Jesus, lembra-Te de mim, quando entrares no Teu reino. — Lucas 23:42
“Lembra-Te de mim.” Ser alguém de quem se lembra no reino de Deus. A grande coisa é ser lembrado. É terrível ser esquecido.
Quando o Senhor Jesus, na cruz, cumpriu literalmente a figura e o símbolo daquele bode enviado para fora, o pecado do mundo foi colocado sobre Ele. Espiritualmente, na desolação de Sua alma, Ele foi enviado para fora; e, naquele terrível momento, esquecido por Deus.
Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste? — Mateus 27:46
Isso é algo terrível. Graças a Deus, isso não é necessário para ninguém, porque o Senhor Jesus removeu essa necessidade e tornou possível que você e eu sejamos inscritos nos céus, que tenhamos nossos nomes no livro da vida do Cordeiro.
Mas não se trata apenas de sermos inscritos como aqueles que têm vida. É mais do que isso. Observem que a última referência a esse livro da vida do Cordeiro está ligada à cidade santa, à Jerusalém celestial — uma grande figura daquela comunidade redimida no fim.
O autor da carta aos Hebreus, como lemos, diz que chegamos à igreja dos primogênitos, cujos nomes estão inscritos nos céus. A última ocorrência dessa mesma expressão está ligada àquilo que simbolicamente é chamado de Cidade Santa, Nova Jerusalém, que desce do céu, da parte de Deus. Em outras palavras, aquela comunidade redimida.
Não se trata apenas de você entrar nela porque tem vida. Os direitos de cidadania nela lhe serão concedidos.
Vocês se lembram daquele maravilhoso Salmo 87:
O Seu fundamento está nos montes santos. O Senhor ama as portas de Sião, Mais do que todas as habitações de Jacó. Coisas gloriosas se dizem de ti, Ó cidade de Deus. Farei menção de Raabe e de Babilônia entre aqueles que Me conhecem; Eis a Filístia, e Tiro, com a Etiópia: Este nasceu ali. — Salmos 87:1-4
Do que o salmista está falando? Ah, um homem diz: “Nasci no grande Egito”. O Egito foi uma das civilizações mais antigas e mais maravilhosas da história. Outro diz: “Nasci na Filístia, e a Filístia tem uma grande história”. Outro fala de Tiro, a grande cidade de Tiro. Ainda outro diz: “Vocês estão se vangloriando do lugar onde nasceram; eu nasci na Etiópia. Vocês se lembram da rainha de Sabá?”
Todos estão se vangloriando, mas então o salmo diz:
Coisas gloriosas se dizem de ti, Ó Sião, cidade de Deus. Este e aquele nasceram nela. — Salmos 87:3, 5
Foi isso que Jesus quis dizer com nascer do alto — nascer de novo. Os direitos de cidadania da Nova Jerusalém, os direitos de cidadania da própria metrópole do governo divino, são concedidos a você. É a liberdade do reino, a liberdade da cidade.
Vocês sabem o que isso significou para o apóstolo Paulo quando, estando preso, o centurião romano estava prestes a açoitá-lo. Paulo disse, em essência: “Você sabe o que está fazendo?”
É-vos lícito açoitar um romano, sem ser condenado?
O centurião pensou que contornaria a situação. “Bem, sim, mas há romanos e romanos.”
Eu, com grande soma de dinheiro, alcancei este direito de cidadão.
Paulo disse:
Mas eu o sou de nascimento.
O homem teve de ceder diante disso. Simplesmente teve de recuar.
Livre de nascimento. Ele possuía os direitos de cidadania como homem livre do grande governo e domínio romano. Sim, nós, queridos amigos, quando somos inscritos nos céus, no livro da vida do Cordeiro, recebemos todos os direitos e liberdades da cidade celestial.
Nascer do alto significa algo maior do que todas as glórias da terra, por maiores que sejam. O Senhor Jesus falou sobre isso quando disse:
Os filhos estão livres.
Ao avançarmos rapidamente para o fim — o livro da vida do Cordeiro: vida, o livro, o livro da vida do Cordeiro —, de onde veio essa ideia, o livro da vida do Cordeiro?
Ah, sim, a Bíblia tem muito a dizer a respeito disso. Logo no início da Bíblia, encontramos o cordeiro do sacrifício. Encontramos essa ideia já em Abel, na primeira família daquela humanidade mencionada. Daquele ponto em diante, por toda a Bíblia, o Cordeiro está em vista. O Cordeiro está em vista. Não se pode fugir desse Cordeiro em lugar algum.
De onde isso veio? Isso nasceu na mente e no coração de Deus antes que o mundo existisse. Lemos esta noite:
O Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo.
Isso é algo que se estende para abranger todo o tempo. Deus sabia, quando fez o homem e este mundo, o que aconteceria. Ele sabia o que aconteceria. Tinha de saber; não poderia deixar de saber. Mas o fez deliberadamente — o mistério e a maravilha de Seus caminhos.
Sabendo o que aconteceria, como o homem desobedeceria, como o pecado entraria e quais seriam as consequências para a humanidade — a longa história dessa rebelião pecaminosa —, Ele sabia de tudo antes mesmo de começar.
Mas Ele não apenas previu. Também, em Seu coração e em Sua mente, escolheu enfrentar tudo isso por meio Daquele que é chamado de Cordeiro, morto desde a fundação do mundo.
É um pensamento eterno. É um pensamento que transcende o tempo. Ele cobre e abrange tudo aquilo que entrou no decorrer do tempo. O Cordeiro, o Cordeiro. Sim, pequeno em Si mesmo, mas que imensidão de coisas está envolvida nesse pequeno Cordeiro.
Nada pode surgir no tempo — pecado, oceanos de pecado, montanhas de pecado — sem que seja vencido pelo Cordeiro. O Cordeiro é grande o suficiente para tudo isso. O Cordeiro morto desde a fundação do mundo: a provisão singular e plenamente suficiente do próprio Deus para o homem, para a humanidade.
Assim, João Batista viu Jesus caminhando e clamou:
Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo! — João 1:29
Era àquele Cordeiro, no pensamento de Deus, que ele se referia. O Cordeiro de Deus — não todos os cordeiros mortos nos altares judaicos, mas Aquele que eles prefiguravam. O Cordeiro de Deus. Eis o Cordeiro de Deus.
Vindo do passado eterno, aqui está Ele no tempo, caminhando diante de vocês, presente aqui: o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. Identificado por João Batista, o precioso Cordeiro do próprio Deus.
O precioso Cordeiro do próprio Deus — precioso para Deus não apenas porque é Seu Filho, mas porque Deus encontra a redenção de toda a Sua criação no sangue desse Cordeiro. Ele vê a remoção de tudo aquilo que surgiu para desafiar Seus direitos sobre a criação.
Ah, Ele vê tudo aquilo em que Seu coração esteve eternamente empenhado tornar-se possível e ser assegurado pelo Cordeiro. Contemplaremos o Cordeiro para sempre, sim, contemplaremos. Mas esse Cordeiro é muito precioso, muito precioso.
Há uma história muito terrível no Antigo Testamento que destaca o tremendo valor e a importância de um cordeiro. É uma das histórias muito terríveis do Antigo Testamento, e não vou mencionar nomes, por consideração especialmente a uma determinada pessoa.
Havia um rei que possuía muitíssimo. Tinha inúmeras ovelhas e bois; tinha suas mulheres, seus filhos; tinha tudo o que um rei rico poderia possuir. Um dia, avistou uma mulher que desejou ter para si, mas ela era casada. Seu marido estava vivo.
O rei ficou pensando nisso e chegou a uma decisão horrível: “Vou me livrar do marido dela e então ficarei com ela”. Assim, tramou e planejou algo terrível. Colocou aquele marido na batalha, cuidou para que estivesse na linha de frente e, em determinado momento, os outros receberam ordem de recuar e deixá-lo sozinho para ser morto.
E isso aconteceu. Ele tomou a mulher por esposa. Mas os olhos de Deus haviam visto. Deus falou com um de Seus servos, o profeta, e disse: “Vá ao rei”.
O profeta foi e apresentou tudo aquilo em uma parábola. Disse que havia um homem rico que possuía ovelhas, bois e tudo o que o coração poderia desejar. Nada lhe faltava, absolutamente nada. Um dia, um viajante chegou à sua casa, e ele precisou oferecer uma refeição.
Em vez de tomar uma de suas inúmeras ovelhas, foi e tomou a única cordeirinha de um homem pobre ali perto, que tinha apenas uma e a amava. Ela entrava em casa e comia com ele; era um membro da família. Ele a estimava, alimentava, cuidava dela. Ele a amava. Era sua única cordeirinha.
Esse homem, que tinha milhares, foi e tomou aquela única cordeirinha, matou-a e a ofereceu ao seu amigo.
Quando o profeta chegou a esse ponto da história, o rei explodiu de ira e indignação. Disse:
Vive o Senhor, que o homem que fez isso deve morrer.
O profeta disse:
Tu és esse homem.
Então o profeta disse:
Assim diz o Senhor: A espada jamais se apartará da tua casa, porque fizeste isso. Na tua própria família estarão os teus inimigos.
Vocês sabem o que aconteceu com Absalão, não sabem? Isso se confirmou.
Pois bem, deixo a história. Mas qual é o ponto que estamos destacando? Ah, naquela história do Antigo Testamento está contida uma história muito maior, uma história muito maior.
Vocês sabem, queridos amigos, que há dois mil anos existe um povo nesta terra de cuja casa a espada nunca se apartou? Toda a tragédia deste mundo, todo o horror da perseguição, todas as histórias que foram escritas até recentemente — isso é apenas um fragmento de dois mil anos em que a espada nunca se apartou de sua casa.
Eles mataram o único Cordeiro de Deus. Deus havia abençoado aquele povo rica e abundantemente. Eles tinham tudo o que Ele podia lhes dar, e tomaram Seu único Cordeiro e O mataram. A espada nunca se apartou.
Meu ponto é este: esse Cordeiro de Deus é muito precioso para Deus. Nosso destino eterno depende de nossa atitude para com esse Cordeiro: vida ou morte, justificação ou condenação, céu ou inferno — tudo está na balança de como tratamos esse Cordeiro de Deus.
Acho que disse o suficiente para reunir as tremendas questões da vida e da morte, da eternidade, nesta expressão: o livro da vida do Cordeiro. Só me resta fazer o apelo a vocês.
Graças a Deus, a resposta pode ser dada por tantos corações aqui esta noite. Mas e os outros? Pensem em cada um, um por um, um por um, quando o Espírito de Deus vem e Se coloca diante de cada pessoa. Seu nome está no livro da vida do Cordeiro? Está?
O antigo hino infantil pergunta: “Meu nome está escrito ali?” Seu nome está inscrito nos céus? Observem: como vocês sabem? Como sabem?
Bem, como você sabe que está onde está, sentado onde está, como uma pessoa ativa, capaz de ouvir o que estou dizendo e ver aquilo que há para ver? Você diz: “Estou vivo”. Como sabe disso? Você diz: “Ora, é claro, eu nasci”.
Mas com que vida você nasceu? É a vida deste mundo? Como você sabe se tem essa outra vida? Você tem a experiência, o conhecimento, de ter nascido de novo?
Alguns de nós sabemos que isso é verdade. Talvez não seja possível apontar o momento ou o dia exato em que aconteceu, como um raio inesperado vindo diretamente do céu. Pode ter sido um percurso, um processo, algo que se desenvolveu durante algum tempo, mas que chegou a isto: “Sei que estou salvo. Sei hoje que tenho a vida eterna”.
Seja em um momento repentino, seja de alguma outra maneira, você precisa poder se colocar nessa categoria e dizer: “Sei que passei da morte para a vida. Sei que nasci do alto. Sei que tenho a vida eterna”.
“Aceitei o Cordeiro de Deus e tudo aquilo que Ele fez para a redenção, para a minha redenção, como Aquele que levou o meu pecado. Abracei esse Cordeiro, recebi-O em minha vida. Eu sei.”
Mesmo que você não tenha expressado isso dessa maneira, sabe o que significa: “Meu nome está no livro da vida do Cordeiro”. Você pode dizer isso? Graças a Deus, tantos outros podem dizê-lo.
Ah, que isso seja verdade a respeito de todos aqui. Se você tiver alguma dúvida ou pergunta a esse respeito, querido amigo, não deixe este dia terminar e passar sem ficar a sós com Ele.
Diga: “Senhor, tudo aquilo que no céu se entende por essa palavra, Cordeiro — o Cordeiro da minha redenção, o Cordeiro morto pelos pecadores —, eu recebo pela fé em meu coração. Peço-Te: inscreve meu nome no livro da vida do Cordeiro”.
Faça isso, se ainda não o fez. E, quanto aos demais, alegremo-nos por fazermos parte daqueles que têm a vida eterna e que se unirão ao coro no fim:
Digno é o Cordeiro que foi morto. — Apocalipse 5:12