Voltemo-nos ao Senhor em oração.
Pai Santo, queremos louvar-Te e agradecer-Te porque, pelo sangue do Teu Filho amado e pelo novo e vivo caminho que Ele nos abriu, podemos chegar à Tua presença com santa ousadia.
Podemos contemplar a glória do Senhor e ser transformados pelo Teu Espírito, de glória em glória. Portanto, Senhor, é exatamente isso que esperamos que faças neste momento. E a Ti seja a glória, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.
Como mencionamos logo no início, queremos ilustrar o desenvolvimento da obra de restauração de Deus na igreja por meio da vida de alguns homens. Cremos que Deus realmente usa vasos de barro e os abençoa para manifestar Seu poder e Sua glória. Nessas vidas, podemos ver como Deus realiza Sua obra de restauração.
Anteriormente, compartilhamos sobre a vida de Martinho Lutero, que demonstra a verdade da justificação pela fé. Depois, também compartilhamos sobre a vida do conde Zinzendorf, e nele vemos a paixão por Cristo.
Agora, nesta manhã, gostaríamos de compartilhar sobre a terceira pessoa, provavelmente conhecida de alguns de vocês: John Wesley.
No ano de 1739, George Whitefield, o fervoroso evangelista, descobriu que todos os púlpitos de Bristol estavam fechados para ele. Declarou que faria seu próprio púlpito, e essa declaração marcou o início do avivamento wesleyano.
Ele começou a pregar ao ar livre, desafiando as regras e os costumes da igreja. Disse:
Pensei que talvez assim estivesse prestando serviço ao meu Criador, Que teve uma montanha como púlpito, E os céus como caixa de ressonância; E Que, quando Seu evangelho foi rejeitado pelos judeus, Enviou Seus servos pelos caminhos e valados.
Milhares se reuniam para ouvi-lo. Mas então ele se viu diante de um dilema: o que deveria fazer com todas aquelas pessoas que vinham ouvi-lo? Não podia deixá-las como ovelhas sem pastor.
Assim, finalmente, decidiu recorrer ao amigo John Wesley. Pediu ao jovem Wesley que fosse a Bristol, a Kingswood, para ajudar.
Quando John Wesley recebeu esse chamado, naturalmente consultou seus amigos. Mas todos estavam muito relutantes a esse respeito. E o próprio John Wesley, especialmente, não estava preparado para uma iniciativa como aquela.
Por fim, depois de muita oração, procuraram abrir a Bíblia e encontrar algumas passagens das Escrituras que os apoiassem. Mas todas as passagens pareciam muito desfavoráveis, indicando talvez que ele morreria, e assim por diante. Ainda assim, finalmente Wesley sentiu que deveria ir. E foi.
Mas isso era muito difícil para ele, porque estava preso ao anglicanismo. Não se devia falar em lugar algum, a não ser no púlpito de uma igreja. E, naturalmente, naquela época, qualquer pessoa que fosse pregar precisava ter licença e ser ordenada. Se você não fosse ordenado, não tinha permissão para pregar; era contra a lei.
Wesley era um ministro ordenado. Tinha o direito de pregar. Mas sentia-se obrigado a pregar somente nos púlpitos das igrejas.
Naquela manhã de domingo, quando ficou ao lado de Whitefield e o viu pregando ao ar livre para milhares de pessoas, olhou para aquele mar de rostos, e uma convicção lhe veio ao coração. Disse: “Provavelmente o Senhor preparou um público para que eu transmita Sua mensagem”.
Assim, no dia seguinte, 2 de abril, às quatro horas da tarde, John Wesley se colocou sobre uma pequena elevação fora da cidade e pregou para três mil pessoas.
Seu texto era Isaías 61:1-2:
O Espírito do Senhor está sobre Mim, Porque Ele Me ungiu para anunciar boas-novas aos pobres; Enviou-Me a curar os quebrantados de coração, A proclamar liberdade aos cativos, E a abertura da prisão aos que estão presos; A proclamar o ano do favor do Senhor.
Wesley refletiu que havia encontrado um precedente nas Escrituras, pois nosso Senhor Jesus proferiu Seu Sermão do Monte ao ar livre.
Ele foi questionado a respeito de sua nova maneira de pregar ao ar livre. Esta foi sua resposta formal:
Permitam-me falar claramente. Se por princípios católicos vocês entendem quaisquer outros que não sejam as Escrituras, eles não têm peso algum para mim. Não reconheço outra regra, seja de fé ou de prática, além das Sagradas Escrituras.
Mas, com base nos princípios das Escrituras, não considero difícil justificar tudo o que faço. Deus me ordena nas Escrituras que, conforme minhas possibilidades, instrua os ignorantes, reforme os ímpios e fortaleça os virtuosos. O homem me proíbe de fazer isso na paróquia de outro — o que, na prática, significa proibir-me de fazê-lo de qualquer maneira, visto que não tenho uma paróquia própria, nem provavelmente jamais terei.
A quem, então, devo ouvir: a Deus ou ao homem?
Considero o mundo inteiro minha paróquia. É isto que quero dizer: em qualquer parte dele em que eu esteja, considero apropriado, correto e meu dever inalienável anunciar a todos os que estiverem dispostos a ouvir as boas-novas da salvação.
Esta é a obra para a qual sei que Deus me chamou, e estou certo de que Sua bênção a acompanha. Portanto, tenho grande encorajamento para ser fiel no cumprimento da obra que Ele me deu para fazer. Sou Seu servo e, como tal, sou empregado segundo a orientação clara de Sua Palavra, fazendo o bem a todos os homens, conforme tenho oportunidade.
E Sua providência concorda claramente com Sua Palavra, tendo-me desvinculado de todas as outras coisas para que eu pudesse dedicar-me exclusivamente a isso e andar fazendo o bem.
Ora, esta é a Carta Magna de Wesley.
Voltemos ao início de sua vida. John Wesley nasceu em 17 de junho de 1703, filho de Samuel Wesley e Susanna Wesley. Foi o décimo quinto de dezenove filhos e o segundo filho homem da família.
Seu pai era o pároco de Epworth, em Lincolnshire. Tanto seu pai quanto sua mãe eram muito instruídos e tinham raízes puritanas muito fortes. Ambos eram dotados de uma determinação inflexível e de uma vontade firme. Há uma história muito interessante a esse respeito, mas não vou contá-la a vocês.
A educação dos filhos ficava a cargo da mãe. A família vivia em constante pobreza, embora as crianças nunca passassem fome.
Quando uma criança completava um ano de idade, era ensinada a temer a vara e a chorar baixinho. Susanna Wesley disse:
Insisto em dominar cedo a vontade das crianças, porque este é o único fundamento sólido e racional de uma educação religiosa, sem o qual tanto o preceito quanto o exemplo seriam ineficazes.
Mas, quando isso é plenamente realizado, a criança se torna capaz de ser governada pela razão e pela piedade de seus pais, até que seu próprio entendimento amadureça e os princípios da religião criem raízes em sua mente.
O pequeno John, juntamente com as outras crianças, assim que conseguia falar, era ensinado a recitar o Pai-Nosso ao levantar-se e ao deitar-se. À medida que seu entendimento crescia, acrescentavam-se outras orações breves, um pequeno catecismo e passagens das Escrituras para memorizar.
Era costume que cada criança passasse meia hora por semana a sós com a mãe. A vez de John era na quinta-feira à noite.
Exatamente na hora marcada, o pequeno John batia à porta da mãe. Ela o deixava entrar, e ele se sentava numa cadeira ao seu lado. Conversavam sobre o que havia acontecido durante a semana anterior. Havia palavras severas a respeito de suas falhas e um pouco de elogio pelo que havia sido bom.
John podia falar francamente sobre seus problemas e seus sonhos. Conversavam sobre o livro que ele estava lendo, a parte da Bíblia que vinha estudando e o que poderiam fazer para ajudar alguém necessitado.
John sempre se sentia melhor depois daquela meia hora de quinta-feira. Muitos anos depois, escreveu à mãe, desejando poder recorrer a ela da mesma maneira, no mesmo horário, para conversar sobre problemas maiores do que jamais imaginara ter de enfrentar.
Quando John tinha seis anos, ocorreu um incêndio memorável que destruiu a casa paroquial. Na noite de 7 de fevereiro de 1709, a família foi despertada pelas chamas.
Os pais reuniram todas as crianças. Quando saíram da casa e chegaram ao jardim, começaram a contá-las. Ao contar os filhos, perceberam que faltava um. John estava desaparecido.
Por quê? Porque ele dormia no quarto dos fundos, no alto da casa. Dormiu durante todo aquele alvoroço, sem saber de nada.
O pai correu para dentro da casa em chamas, pensando em resgatar John, mas a escada já estava tomada por fumaça e fogo. Então se ajoelhou no vestíbulo em chamas e entregou seu filho ao Senhor.
Finalmente, John foi despertado pelo barulho. Correu para a frente da casa e olhou para a multidão que se reunia lá embaixo. Ficou à janela, esperando ser resgatado.
Um homem correu até a parede, e outro subiu em seus ombros. Esse homem estendeu os braços, e o pequeno John saltou para eles. Quando chegaram ao chão, o telhado desabou.
John Wesley frequentemente dizia que era “um tição tirado do fogo”. Acreditava que Deus certamente tinha um propósito para sua vida.
Quando John tinha dez anos, foi admitido em Charterhouse, um internato para meninos em Londres, com uma bolsa de estudos concedida por caridade.
Ouçamos o que ele disse:
Dos dez aos catorze anos, tive pouco além de pão para comer, e nem mesmo pão em grande quantidade. Creio que isso, longe de me prejudicar, lançou o fundamento de uma saúde duradoura.
Ele recebia suas refeições no refeitório e era pequeno para sua idade. Lembrem-se: John Wesley era de baixa estatura. Os meninos maiores, os mais velhos, roubavam de seu prato os pedaços mais saborosos. Assim, ele tinha muito pouco para comer.
Mas seguia à risca a instrução do pai. Seu pai lhe dissera que, todos os dias, precisava dar três voltas correndo ao redor do gramado, cerca de oitocentos metros. Por isso, todos os dias corria aproximadamente oitocentos metros.
Enquanto o jovem Wesley aprimorava sua mente, começou a ser um pouco menos diligente na manutenção de suas práticas religiosas. Mais tarde, disse:
Tendo sido removidas nossas boas restrições, tornei-me muito mais negligente do que antes no cumprimento dos deveres exteriores e quase continuamente culpado de pecados exteriores, que eu sabia serem pecados, embora não fossem escandalosos aos olhos do mundo.
Contudo, eu ainda lia as Escrituras e fazia minhas orações de manhã e à noite. E aquilo por meio do qual eu então esperava ser salvo era:
- Não ser tão mau quanto outras pessoas.
- Ainda ter apreço pela religião.
- Ler a Bíblia, participar da igreja e fazer minhas orações.
Aos dezessete anos, ingressou em Christ Church, em Oxford. Ele mesmo fez pouquíssimas menções aos estudos, mas nos deu a entender que sua vida religiosa estava um pouco melhor do que em Charterhouse.
Ele observou:
Eu ainda fazia minhas orações, participava do culto público e privado e lia as Escrituras e outros livros religiosos, especialmente comentários sobre o Novo Testamento. Contudo, naquela época, eu não tinha sequer uma noção de santidade interior.
Na verdade, vivia habitualmente, e na maior parte do tempo, satisfeito em algum pecado conhecido, embora com algumas interrupções e breves lutas, especialmente antes e depois da Santa Comunhão, que eu era obrigado a receber duas vezes por ano.
John Wesley já estava em Oxford havia cinco anos quando realmente despertou. Aos olhos do mundo, parecia irrepreensível, mas ele próprio tinha consciência de sua deficiência.
O primeiro indício veio em 1725. Naquela época, Wesley pensava em sua futura carreira. O que deveria fazer? Sentia-se inclinado a ingressar no ministério, mas tinha plena consciência de que não estava apto para isso.
Uma noite, ao voltar para seu alojamento, encontrou um porteiro ali. O porteiro era muito pobre. Wesley soube que, naquele dia, aquele homem não havia comido nada e só havia bebido um pouco de água. Tinha apenas uma muda de roupa e, ainda assim, era tão grato a Deus.
Wesley lhe perguntou: “Você agradece a Deus quando não tem o que vestir, nada para comer e nenhuma cama onde se deitar. Por que mais você agradece a Deus?”
O pobre homem disse:
Agradeço a Ele por ter-me dado a vida e a existência, um coração para amá-Lo e o desejo de servi-Lo.
Ao voltar para seu quarto, John começou a sentir que havia algo na religião — alguma profundidade — que ele nunca havia alcançado. Por isso, decidiu transformar sua vida.
É característico desse estudioso que, toda vez que havia uma crise em sua vida, sempre havia um livro relacionado a ela. Naquele período, ele estava lendo Tomás de Kempis. Em seus escritos, descobriu que a religião tinha sua sede no coração e que a lei de Deus se estendia a todos os nossos pensamentos, assim como às nossas palavras e ações.
Também leu Viver Santo e Morrer Santo, de Jeremy Taylor, e A Vida de Deus na Alma do Homem, de Henry Scougal. Ele nos contou:
Vigiei contra todo pecado, fosse em palavras ou em ações. Comecei a buscar a santidade interior e a orar por ela. Assim, fazendo tanto e vivendo uma vida tão boa, não duvidava de que era um bom cristão.
É evidente, por esse relato, que, embora Wesley buscasse sinceramente a verdade do evangelho, ainda não havia entrado naquela experiência transformadora.
Naquela época, começou a escrever seus diários. Os diários de Wesley são muito famosos. O primeiro continha regras e resoluções rigorosas relativas a todas as ações da vida: como empregar seu tempo e como regular suas intenções. Ele desenvolveu uma maneira metódica de lidar com a própria alma. Sua vida assumiu a forma de autoanálise crítica, regras e resoluções.
Wesley ficou afastado de Oxford por dois anos porque seu pai não estava bem. Foi ajudá-lo como ministro auxiliar na igreja. Mas, em 1729, voltou a Oxford e descobriu que seu irmão Charles havia iniciado um pequeno grupo para proteção e encorajamento mútuos.
As pessoas ridicularizavam esse pequeno grupo de homens, chamando-o de “Clube Santo Metodista”. Naturalmente, Wesley, por ser um pouco mais velho, entrou e assumiu a liderança daquele Clube Santo. Começou a imprimir nele seu próprio caráter.
Transformou o clube, que tinha uma finalidade parcialmente educacional, numa busca concentrada pelo aperfeiçoamento espiritual. O exame das Escrituras tomou o lugar do estudo dos clássicos gregos. Às quartas e sextas-feiras, dedicavam-se à oração, ao autoexame e ao jejum.
Às suas práticas devocionais acrescentaram-se obras de caridade. Visitavam prisões e casas de trabalho para indigentes. Proviam auxílio e apoio aos enfermos e aos pobres.
Durante aquele período, Wesley permaneceu em Oxford como membro do corpo acadêmico de Lincoln College até 1735. Naquele ano, seu pai faleceu.
Wesley recebeu a oportunidade de ser capelão da nova colônia na Geórgia, na América do Norte. Seguindo o conselho de algumas pessoas, decidiu assumir essa função.
Por quê? Porque, durante esse período, no que dizia respeito à própria alma, ele era constantemente inquietado por dúvidas e anseios. Esperava que essas dúvidas fossem resolvidas e esses anseios satisfeitos na nova colônia.
Até então, sua religião era uma religião de regras e luta, sem inspiração divina. Foi realmente necessária aquela experiência muito humilhante na nova colônia para ensinar-lhe uma lição valiosa.
Antes de embarcar para a América, ele analisou sua própria motivação:
Minha principal motivação é a esperança de salvar minha própria alma. Espero aprender o verdadeiro sentido do evangelho de Cristo pregando-o aos pagãos. Não posso esperar alcançar aqui o mesmo grau de santidade que talvez alcance lá.
Durante a travessia do Atlântico, em 26 de janeiro de 1736, John viveu uma experiência muito marcante. No meio de um culto a bordo, alguns morávios estavam cantando. Eles iam para a Geórgia como missionários.
Enquanto cantavam, o mar se lançou sobre o navio, rasgou a vela principal em pedaços, cobriu a embarcação e invadiu o espaço entre os conveses, como se as grandes profundezas já os tivessem engolido.
Uma gritaria terrível começou entre os ingleses, mas os alemães continuaram cantando calmamente.
Wesley escreveu mais tarde:
Depois, perguntei a um deles: “Vocês não ficaram com medo?”
Ele respondeu: “Graças a Deus, não”.
Perguntei: “Mas suas mulheres e crianças não ficaram com medo?”
Ele respondeu serenamente: “Não. Nossas mulheres e crianças não têm medo de morrer”.
Pouco depois de chegar à Geórgia, John procurou o líder morávio August Gottlieb Spangenberg, que já havia iniciado seu trabalho na colônia. Wesley lhe pediu conselho a respeito de sua própria situação.
A primeira pergunta de Spangenberg o atingiu como um golpe:
Meu irmão, primeiro preciso fazer-lhe uma ou duas perguntas. Você tem o testemunho dentro de si? O Espírito de Deus testifica com seu espírito que você é filho de Deus?
Wesley ficou desconcertado com tamanha franqueza e mal sabia o que dizer. Então o morávio prosseguiu:
Você conhece Jesus Cristo?
Wesley fez uma pausa e disse: “Sei que Ele é o Salvador do mundo”.
É verdade. Mas você O conhece? Ele o salvou?
“Espero que Ele tenha morrido para me salvar.”
Você conhece a si mesmo?
A isso, Wesley respondeu sem refletir: “Conheço”. Depois, em seu diário, acrescentou com sinceridade: “Mas temo que essas tenham sido palavras vãs”.
Durante dezoito meses, Wesley trabalhou na Geórgia com a mais intensa dedicação. Levantava-se às quatro horas, frequentemente dirigia cultos às cinco da manhã, meditava, orava, cantava, cumpria muitos deveres pastorais, visitava de casa em casa e exortava os moradores à virtude e à religião.
Suas rigorosas exigências morais, sua estrita adesão à tradição da Alta Igreja Anglicana e algumas questões pessoais deram ocasião à rebelião e à rejeição. A desilusão se instalou.
A vida na colônia ideal não era mais favorável à santidade do que em qualquer outro lugar do mundo. Ele começou a aprender que a salvação não está no ambiente exterior, mas na transformação interior.
Assim, despediu-se da América em 22 de dezembro de 1737.
A bordo do navio que o levava de volta à Inglaterra, escreveu em seu diário:
Fui à América para converter os indígenas; mas, ah, quem me converterá? Quem é aquele que me livrará deste coração mau de incredulidade?
Tenho uma religião de tempo bom. Posso falar bem; sim, e eu mesmo crer, enquanto não há perigo por perto. Mas basta que a morte me encare, e meu espírito se perturba. Tampouco posso dizer: “Morrer é ganho”.
Na verdade, se o evangelho é verdadeiro, estou seguro. Pois não apenas dei, e continuo dando, todos os meus bens para alimentar os pobres; não apenas entrego meu corpo para ser queimado, afogado ou para qualquer coisa que Deus determinar para mim; mas busco o amor, embora não como deveria, contudo como posso, na esperança de alcançá-lo.
Agora creio que o evangelho é verdadeiro. Demonstro minha fé pelas minhas obras, colocando tudo o que tenho em jogo por ele. Eu o faria novamente, mil vezes novamente, se ainda tivesse de fazer essa escolha.
Quem me vê percebe que desejo ser cristão. Mas, numa tempestade, penso: “E se o evangelho não for verdadeiro? Então tu és o mais insensato de todos os homens. Para que entregaste teus bens, teu conforto, teus amigos, tua reputação, tua pátria, tua vida? Para que vagueias pela face da terra? Por um sonho, uma fábula engenhosamente inventada”.
Ah, quem me livrará do medo da morte? O que farei? Há algum tempo, um homem sábio me aconselhou: “Aquieta-te e segue em frente”. Talvez agora isto seja o melhor: considerar isso minha cruz.
Quando chegou a Londres, encontrou Peter Böhler, um jovem morávio. Peter lhe falou da salvação que vinha somente pela fé. A princípio, Wesley simplesmente não conseguia compreender isso.
Peter disse: “Meu irmão, meu irmão, essa sua filosofia precisa ser eliminada”. Mas, gradualmente, Wesley começou a enxergar.
Ele se convenceu de sua incredulidade e de sua falta de fé, a única pela qual podemos ser salvos. Já havia passado treze anos vagando.
Agora começou a perceber que a santidade é o fruto da fé, não a causa da fé. Durante muitos anos, havia ensinado algo diferente da fé em Jesus Cristo. Na verdade, havia colocado a santificação antes da justificação.
Assim que percebeu isso, ficou convencido de que deveria parar de pregar. Como poderia ensinar aos outros se ele próprio não tinha fé?
Por isso, buscou o conselho de Peter Böhler. Peter disse: “De modo algum”.
“Mas o que posso pregar?”
Pregue a fé até que a tenha; e então, porque a tem, você pregará a fé.
Assim, John começou a pregar a fé. Domingo após domingo, pregava a fé nas igrejas. A primeira pessoa a quem realmente pregou a fé foi um prisioneiro condenado à morte, e aquele prisioneiro foi verdadeiramente salvo.
Durante todo esse tempo, Wesley continuava buscando com diligência. Graças a Deus, finalmente chegou aquele dia: 24 de maio de 1738.
Wesley escreveu em seu diário:
Creio que eram cerca de cinco horas da manhã quando abri meu Novo Testamento nestas palavras:
“Foram-nos dadas grandíssimas e preciosas promessas, para que sejais participantes da natureza divina.” — 2 Pedro 1:4
E, justamente quando saía, abri-o novamente nestas palavras:
“Não estás longe do reino de Deus.” — Marcos 12:34
À tarde, fui à Catedral de São Paulo. O cântico era este, de Salmos 130:1-4, 7-8:
Das profundezas clamo a Ti, ó Senhor. Senhor, ouve a minha voz. Estejam os Teus ouvidos atentos À voz das minhas súplicas. Se Tu, Senhor, observares as iniquidades, Ó Senhor, quem subsistirá? Mas Contigo está o perdão, Para que sejas temido. Ó Israel, espera no Senhor; Pois no Senhor há misericórdia, E Nele há abundante redenção. E Ele remirá Israel De todas as suas iniquidades.
À noite, fui, muito a contragosto, a uma reunião de uma sociedade na rua Aldersgate, onde alguém estava lendo o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos.
Vocês precisam lembrar que ninguém tinha permissão para pregar sem ser ordenado. Portanto, naquela pequena sociedade, alguns morávios estavam presentes, mas não podiam pregar. Por isso, liam o prefácio de Lutero à Epístola aos Romanos.
Wesley continuou:
Por volta das oito e quarenta e cinco, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração por meio da fé em Cristo, senti meu coração estranhamente aquecido.
Senti que realmente confiava em Cristo, somente em Cristo, para a salvação; e recebi a certeza de que Ele havia tirado meus pecados, até mesmo os meus, e me salvado da lei do pecado e da morte.
Comecei a orar com todas as minhas forças por aqueles que, de maneira muito particular, me haviam maltratado e perseguido. Então testemunhei abertamente a todos os presentes aquilo que agora, pela primeira vez, sentia em meu coração.
Mais tarde, foi identificado o trecho do prefácio de Lutero que estava sendo lido. Era este:
Concluímos que somente a fé justifica e que somente a fé cumpre a lei. Pois a fé, pelo mérito de Cristo, obtém o Espírito Santo. Esse Espírito nos dá novos corações, alegra-nos, desperta e inflama nosso coração, para que façamos voluntariamente, por amor, aquilo que a lei ordena.
E assim, finalmente, as boas obras de fato procedem livremente da fé que opera tão poderosamente e que é tão viva em nosso coração.
Continuemos com seu diário:
Mas não demorou muito para que o inimigo sugerisse: “Isso não pode ser fé, pois onde está tua alegria?”
Então fui ensinado que a paz e a vitória sobre o pecado são essenciais à fé no Autor de nossa salvação; mas, quanto aos arrebatamentos de alegria que geralmente acompanham seu início, especialmente naqueles que prantearam profundamente, Deus às vezes os concede e às vezes os retém, segundo os desígnios de Sua vontade.
Depois de voltar para casa, fui fortemente atacado por tentações; mas clamei, e elas fugiram. Voltaram repetidamente. A cada vez, eu levantava os olhos, e Ele me enviava auxílio do Seu santo lugar.
E nisso descobri em que consistia principalmente a diferença entre esta condição e meu estado anterior: eu me esforçava, sim, lutava com todas as minhas forças, tanto sob a lei quanto sob a graça. Mas antes eu era vencido algumas vezes, senão frequentemente; agora, era sempre vencedor.
Mais tarde, o próprio Wesley explicou sua experiência de Aldersgate. Disse que, antes de Aldersgate, tinha a fé de um servo, mas agora tinha a fé de um filho.
Como servo, eu não tinha certeza. Como filho, tinha certa medida de certeza, de modo a testemunhar uma confiança e um amor filiais.
Essa experiência de 24 de maio de 1738 não apenas se tornou o fundamento de sua trajetória espiritual, mas também marcou o início de um poder renovado em seu ministério.
Ele disse:
Então aprouve a Deus acender um fogo que, confio, jamais será apagado. Assim que vi claramente a natureza da graça salvadora e fiz dela o tema esclarecedor de minha pregação, Deus começou a operar por meio de meu ministério como nunca havia feito antes.
De 1738 em diante, escreveu ele mais tarde, falava continuamente de Jesus Cristo, colocando somente a Ele como fundamento de todo o edifício, fazendo Dele tudo em todos, o primeiro e o último. Pregava somente segundo este princípio, expresso em Marcos 1:15:
O reino de Deus está próximo; Arrependei-vos e crede no evangelho.
A Palavra de Deus ressoava como fogo entre a palha. Era glorificada cada vez mais. Multidões clamavam, como em Atos 16:30:
Que devemos fazer para sermos salvos?
E, depois, testemunhavam, conforme Efésios 2:8:
Pela graça somos salvos, por meio da fé.
Duas coisas aconteceram a Wesley: grandes realizações e grande oposição. Somente depois de 1738 as autoridades começaram a se opor à pregação de Wesley. Mas foi nesse mesmo período que sua mensagem foi acompanhada por um número crescente de conversões.
Todos os púlpitos das igrejas foram fechados para ele. Por isso, começou a pregar ao ar livre e considerou o mundo sua paróquia. Já mencionamos isso no início.
Mas o auge dos maus-tratos que recebeu por parte do clero foi este: voltou a Epworth, porém não lhe permitiram pregar na igreja onde seu pai havia ministrado durante tantos anos e onde o próprio Wesley havia sido ministro auxiliar por dois anos.
Assim, às seis horas da tarde, subiu na lápide do túmulo de seu pai e pregou a uma multidão como nunca se havia reunido naquele lugar.
Um filho vivo, pregando sobre a lápide de um pai morto.
Por toda a Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda, ele levantou sua voz nos campos, debaixo dos carvalhos, nos vales e nas encostas dos montes. Sua trajetória de pregação foi longa e gloriosa.
Por mais de quarenta anos, passou muito tempo a cavalo. Viajou cerca de quatrocentos mil quilômetros, pregou quarenta e dois mil sermões, e suas mensagens foram reunidas em duzentos livros.
O segredo de sua tremenda realização estava em sua rotina, que parecia desafiar o tempo e traçava o curso de sua vida.
Se consultarmos seu diário, podemos usar uma ilustração. Em 23 de junho de 1787, ele estava em seu octogésimo quarto ano de vida. Sua programação de sábado incluía oração, sermões, chá, conversa, almoço, visitas, assuntos administrativos, jantar e mais oração. Essa era sua rotina.
Mais tarde, ele sempre dizia: “Quando os metodistas abandonarem a pregação das cinco horas da manhã, estarão acabados”.
As principais doutrinas de Wesley, que abrangem todas as demais, são três: arrependimento, fé e santidade.
Consideramos a primeira delas, por assim dizer, o pórtico da religião; a seguinte, a porta; a terceira, a própria religião.
A doutrina da santidade cristã, ou perfeição cristã, como Wesley a chamava, era o cerne de sua mensagem.
Depois de sua experiência em Aldersgate, escreveu ao irmão Samuel. Samuel não conseguia aceitá-la; ainda estava preso ao anglicanismo e duvidava da experiência de Wesley. Em outubro de 1738, Wesley escreveu:
Quanto ao meu próprio caráter, e também à minha doutrina, responderei a você com muita clareza. Por cristão, entendo alguém que crê em Cristo de tal maneira que o pecado já não tem domínio sobre ele.
E, nesse sentido evidente da palavra, eu não era cristão até o último dia 24 de maio. Pois, até então, o pecado tinha domínio sobre mim, embora eu lutasse continuamente contra ele. E, certamente, desde aquela ocasião até agora, não o tem tido.
Assim é a livre graça de Cristo. Quais eram os pecados que então reinavam sobre mim, e dos quais, pela graça de Deus, agora estou livre, estou pronto a declarar do alto dos telhados, se isso puder servir à glória de Deus.
Se você perguntar por que meio fui libertado, embora não seja perfeito, nem esteja infalivelmente certo de minha perseverança, respondo: pela fé em Cristo — por uma espécie ou um grau de fé que eu não tinha até aquele dia.
Em outras palavras, Wesley não acreditava apenas na justificação pela fé; também acreditava na santificação pela fé.
Ele argumentava repetidamente que os cristãos, desde o momento da justificação, não precisam jamais perder a alegria e a paz que acompanham a consciência constante do amor de Deus. Deus nunca retira a consciência de Seu favor presente. Wesley acreditava que se deveria esperar, a cada hora, ser purificado no amor.
Sua doutrina da perfeição envolvia um chamado, uma oferta e um dom de Deus. Seu conceito de perfeição era subjetivo e relativo, envolvendo, sobretudo, intenções e motivações.
Ele frequentemente afirmava que a perfeição podia ser alcançada no que dizia respeito ao pecado deliberado, mas a ignorância sempre deixaria a pessoa sujeita ao erro involuntário. Somente a onisciência implica infalibilidade.
Ele definia a perfeição como amor perfeito: amar a Deus de todo o coração; receber Cristo como Profeta, Sacerdote e Rei, para reinar sozinho sobre todos os nossos pensamentos, palavras e atividades.
Cada vez mais, Deus Se comunica à alma. Desse amor desinteressado, todas as outras disposições divinas brotarão, por assim dizer, mais naturalmente. Quando você ama a Deus, os mandamentos de Deus não são pesados.
Essas características da santidade, juntamente com suas virtudes éticas, morais e evangélicas, Wesley não apenas manteve depois de Aldersgate, mas também insistiu nelas como um padrão legítimo de perfeição cristã.
Para ajudar aqueles que afirmavam ter entrado nessa perfeição, Wesley organizou sociedades, a fim de que pudessem crescer no amor.
Ele disse: “Eles não precisam cair. Sei que podem; mas nego que tenham de cair”.
Wesley percebeu a importância da comunhão. Nosso irmão mencionou a comunhão ontem à noite, e Wesley percebeu sua importância. Ele disse:
Olhem para o leste, o oeste, o norte e o sul. Escolham a paróquia que quiserem. Há comunhão cristã?
Pelo contrário, a maioria das paróquias não é apenas uma corda de areia? Que vínculo cristão existe entre seus membros? Que relacionamento nas coisas espirituais? Que cuidado mútuo com a alma uns dos outros?
Para promover essa comunhão, ele formou sociedades. Como as sociedades eram grandes demais, foram divididas em classes. E essa era a força do metodismo.
Ele entrou em 1790 com passos de vitória. Embora então tivesse oitenta e sete anos, em 1º de janeiro escreveu em seu diário:
Agora sou um homem velho, debilitado da cabeça aos pés. Contudo, bendito seja Deus, não me falta trabalho. Ainda posso pregar e escrever.
Entrou em 1791 cheio de confiança, embora seus passos já estivessem falhando. Sua oração constante era: “Senhor, não permitas que eu viva para ser inútil”.
Finalmente, a fraqueza o dominou em 28 de fevereiro, e ele foi levado para sua casa na City Road, onde ficou muito debilitado. Um dia tentou escrever, mas a pena não se movia. Um amigo se ofereceu para escrever por ele.
Sua resposta, em voz fraca, foi: “Nada além disto: Deus está conosco”.
Quando sua partida se aproximou, com todas as forças que lhe restavam, exclamou:
O melhor de tudo é: Deus está conosco.
Novamente, disse:
O melhor de tudo é: Deus está conosco.
Como se quisesse tranquilizar aqueles que estavam ao seu redor e também exercitar sua fé na promessa de Deus, levantou o braço enfraquecido em sinal de vitória e exclamou mais uma vez:
O melhor de tudo é: Deus está conosco.
Durante aquela noite, as pessoas o ouviram dizer repetidamente: “Louvarei, louvarei”. Ele tentava citar o hino de Isaac Watts:
Louvarei meu Criador enquanto eu tiver fôlego, E, quando minha voz se perder na morte, O louvor ocupará minhas faculdades mais nobres.
Na manhã de 2 de março, sussurrou: “Adeus”, e entrou na glória.
Vamos orar?
Pai celestial, nós Te louvamos e agradecemos porque és tão paciente conosco. E, com Teu servo, ordenaste suas circunstâncias, esperando por ele até que estivesse pronto para Ti; então o usaste para Tua glória.
Nosso Pai, reconhecemos que somos tão lentos. Também somos teimosos. Também estamos presos à nossa maneira de fazer as coisas. Mas nós Te louvamos e agradecemos porque nos dás esperança, porque estás operando em nós e realizando plenamente Teu propósito em nós e entre nós.
Por isso somos gratos. Tu nunca nos abandonas, nunca desistes de nós, mas continuarás a trabalhar até que sejamos transformados e conformados à imagem do Teu Filho amado.
Nosso Pai, simplesmente oramos para que, ao ouvirmos o que fizeste com Teu servo Wesley, nós também, Senhor, possamos nos render a Ti e permitir que aperfeiçoes a boa obra que já começaste em nós.
E a Ti seja a glória, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.