Nesta manhã, gostaríamos de compartilhar sobre a vida de mais um homem de Deus. Seu nome é conde Nikolaus Ludwig von Zinzendorf.
Na primavera de 1719, um jovem nobre, a pedido de sua família, partiu para uma grande viagem pela Europa. No século XVIII, a educação de um nobre não estava completa sem uma viagem como essa. Ele deveria fazê-la para aprofundar seus estudos jurídicos, conhecer o mundo e adquirir o refinamento das maneiras da corte.
Mas o interesse desse jovem nobre era outro. Ele fez a viagem porque queria conhecer o povo de Deus de diversas denominações. Por causa de seu título, de sua posição e de seu caráter, tanto as portas dos palácios quanto as dos gabinetes desses teólogos estavam abertas para ele.
Certo dia, durante a viagem, ele foi visitar um museu de arte em Düsseldorf. Enquanto observava as obras naquele museu, um quadro chamou especialmente sua atenção. Era uma pintura de Domenico Fetti, intitulada Ecce Homo.
Era uma pintura da cabeça do Senhor Jesus. É claro que se tratava da imaginação de um artista, mas aquela cabeça deveria representar Cristo. Sobre ela havia uma coroa de espinhos, e abaixo da pintura estava este desafio:
Tudo isto fiz por ti;
Que fazes tu por Mim?
Esse jovem ficou diante da pintura. Refletiu e confessou que não conseguia responder àquela pergunta. Então, ali mesmo, ele orou. Pediu a Deus que o conduzisse à comunhão dos sofrimentos de Cristo e que, se seu coração não estivesse disposto, Deus o compelisse a entrar nessa comunhão. Pediu a Deus que lhe mostrasse onde e como poderia servi-Lo.
Ele ficou tão absorvido pela pintura que permaneceu ali, imóvel, até que finalmente o zelador do museu tocou em seu ombro e disse: “Está na hora de sair”. Ele voltou ao hotel e entregou tudo o que era e tinha a Deus.
Daquele momento em diante, ele se ocuparia de uma única coisa. Ele disse: “Tenho apenas uma paixão: é Ele, somente Ele”.
O nome desse jovem conde era Nikolaus Ludwig von Zinzendorf. Ele nasceu em Dresden, em 26 de maio de 1700. Seu pai, Georg Ludwig, era um dos primeiros-ministros da corte da Saxônia.
Seu pai era muito dedicado a Jesus Cristo. Sua mãe, Charlotte Justine, baronesa von Gersdorf, era uma mulher instruída e piedosa.
Pouco depois do nascimento do filho, a mãe escreveu estas palavras na Bíblia da família:
No dia 26 de maio do ano de 1700, uma quarta-feira, por volta das seis horas da tarde, o Deus Todo-Poderoso abençoou a mim, Justine, com a dádiva de meu filho primogênito, Nikolaus Ludwig.
Que o Pai de misericórdia governe o coração desta criança, para que ela ande de modo irrepreensível no caminho da virtude.
Que Ele não permita que mal algum tenha domínio sobre ela, e que seu caminho seja fortalecido em Sua Palavra; assim, o bem não lhe faltará, nem neste mundo temporal, nem na eternidade.
Apenas seis semanas depois do nascimento dessa criança, seu pai adoeceu gravemente, à beira da morte. Antes de morrer, ele abençoou o filho. Enquanto o bebê dormia, disse: “Meu querido filho, gostaria de abençoar você, que já foi mais abençoado do que eu, pois estou indo para o trono de Jesus”.
Depois da morte do pai, a mãe levou o bebê de volta para a casa de seus pais. Quatro anos depois, ela se casou novamente, com um marechal de campo do exército prussiano. Assim, esse menino ficou aos cuidados de sua avó materna. Ele raramente via a mãe.
Até os dez anos de idade, ele esteve aos cuidados de sua avó, Catharina von Gersdorf, em Grosshennersdorf. Isso realmente foi do Senhor, pois sua avó era uma mulher muito devota e piedosa.
Naquela época, havia um avivamento religioso na Alemanha. Se vocês conhecem a história da igreja, sabem que era o período do movimento pietista. Muitos cristãos de renome, como Philipp Jakob Spener, visitavam a casa em Grosshennersdorf.
Assim, desde pequeno, esse menino estava aberto à influência de todas essas pessoas piedosas. De alguma maneira, isso começou a moldar seus sentimentos e pensamentos já naquela idade.
Vamos deixar que ele fale por si mesmo:
Até meu décimo ano de vida, houve mais cuidado em me proteger das más influências e cultivar em meu coração a obra da graça de Deus do que teria sido possível em qualquer outro lugar, a não ser em uma igreja de Jesus Cristo bem ordenada.
Posso dizer com sinceridade que, desde as minhas primeiras lembranças, meu coração era inclinado à religião. E mesmo nos momentos em que disposições orgulhosas e irritadiças se apoderavam dele, e o orgulho vão e insensato de minha posição me assediava, as afeições de meu coração nunca se afastaram de meu Salvador.
Sempre permaneceu em mim um interesse profundo e terno por Sua trajetória na terra. Eu amava muito os bons e antigos hinos da igreja e sentia enorme prazer em ouvi-los sendo cantados ali.
Durante minha permanência com minha avó, ocorreram duas circunstâncias que determinaram todo o curso de minha vida. Quando eu tinha seis anos, meu tutor, o pastor Christian Gottlieb von Reichel, despediu-se de mim depois de três anos de serviço. Ao fazê-lo, disse-me algumas palavras sobre o Salvador e Seus méritos, e sobre o sentido em que eu pertencia a Ele, e somente a Ele.
Essas palavras causaram em mim uma impressão tão profunda que comecei a chorar por muito tempo. Enquanto chorava, tomei a firme resolução de viver somente para Aquele que havia dado Sua vida por mim.
Minha querida tia Henrietta procurava manter-me nessa disposição, falando comigo frequentemente com palavras amorosas e evangélicas. Eu abria todo o meu coração a ela, e então apresentávamos minha situação ao Senhor em oração. Minha convivência franca e sincera com ela foi tão benéfica que nunca pude esquecê-la. Essa troca confidencial de pensamentos e sentimentos me levou, em todos os meus esforços nos anos posteriores, a estabelecer grupos e sociedades de confiança mútua e edificação.
Aos oito anos, um antigo hino que minha avó cantou antes de se recolher me levou a uma longa sequência de pensamentos, enquanto eu permanecia deitado, sem conseguir dormir. As especulações mais sutis e refinadas que os ateus já inventaram surgiram espontaneamente em minha mente e me deixaram bastante perplexo.
Essa tentação, porém, teve um bom efeito: nos anos posteriores, quando essas mesmas objeções e especulações me foram novamente apresentadas, pareceram-me muito rasas e superficiais, e não causaram impressão alguma em minha mente.
Zinzendorf tinha uma constituição física muito frágil. Ele só superou essa fraqueza aos vinte e um anos. Mas possuía uma mente muito viva, uma compreensão rápida e uma memória extraordinária.
Antes dos quatro anos, ele já havia compreendido os pontos centrais da doutrina cristã e os acolhido em seu coração — especialmente a importante verdade de que Cristo era nosso Irmão e de que Ele morreu por nós.
Quando tinha apenas quatro ou cinco anos, reunia crianças e falava com elas sobre o Salvador. Aos seis anos, realizava reuniões de oração com os amigos que conseguia reunir.
Às vezes, quando tinha papel, tinta e pena nas mãos, escrevia bilhetes expressando seu amor pelo Salvador. Ele jogava esses bilhetes pela janela do castelo, esperando que o Salvador os recolhesse.
Sua aliança com o Salvador era: “Sê Tu meu, querido Salvador, e eu serei Teu”.
Quando Zinzendorf tinha onze anos, foi enviado à Escola Real de Halle, reconhecida por todos como o melhor lugar para formar jovens nobres.
Halle era o centro do movimento pietista, e seu líder naquela época era August Hermann Francke. Ele era o diretor dessa escola.
Infelizmente, quando o menino foi enviado à escola, sua mãe escreveu uma orientação para a instituição — bem-intencionada, mas infeliz. Ela mencionou que seu filho tinha grandes talentos e que, por isso, precisava ser mantido sob rigorosa disciplina, para que não se tornasse orgulhoso e presunçoso por causa deles.
Isso se encaixava perfeitamente na teologia de Francke, pois ele acreditava na depravação do ser humano. Assim, logo que o menino chegou à escola, foi submetido à disciplina desde o início. Foi colocado em uma turma abaixo daquela para a qual havia se preparado. Faziam-no executar os trabalhos mais humildes e servis, e ele era severamente repreendido por coisas muito triviais.
Apesar de tudo isso, de modo geral ele se saiu bem nos estudos e falava com todas as suas forças para conduzir as pessoas a Cristo. Antes de deixar a escola, entregou ao diretor uma lista de sete reuniões de oração que havia organizado.
Em uma de suas cartas, ele mencionou “a oportunidade diária de ouvir notícias edificantes a respeito do reino de Cristo”. Agora, vamos lembrar: esse menino era conde, e conde do Império, uma das posições mais elevadas. Por isso, durante as refeições, sentava-se ao lado do diretor.
Assim, teve muitas oportunidades de conhecer missionários de todas as partes do mundo, testemunhas do evangelho de Jesus Cristo e pessoas perseguidas em diferentes regiões. Ele podia ouvi-los durante as refeições, e todas essas conversas despertavam em seu coração um zelo pelo Senhor.
Ele podia perceber todos os obstáculos e benefícios de uma vida piedosa. O desejo de sofrer pela fé, de superar todo impedimento e o contentamento com as condições mais humildes foram penetrando profundamente em sua vida.
Aos dezesseis anos, ele foi transferido da escola de Halle para a Universidade de Wittenberg. Isso aconteceu porque seu tutor legal achava que ele deveria ser enviado à universidade para se livrar de suas inclinações pietistas e se preparar para o serviço do Estado.
Precisamos lembrar que, naquela época, a Universidade de Wittenberg era o centro da ortodoxia — da ortodoxia luterana. O conflito entre o movimento pietista e a ortodoxia luterana era intenso naquele período.
Assim, quando esse jovem chegou à universidade, os teólogos dali o receberam com desconfiança. Seus colegas o ridicularizavam por causa de sua austeridade.
Mas ele estava determinado a não deixar que ninguém lhe tirasse o coração voltado para o Senhor. Por isso, dedicou-se a uma vida muito rigorosa, a vida de um pietista rigoroso. Passava noites inteiras em oração e meditação. Jejuava um dia por semana. Estudava sua Bíblia como alguém que nunca mais voltaria a vê-la.
Ele foi para lá estudar direito, mas seu interesse não estava nisso. Confessou que tudo o que aprendera de direito civil — e ele se saiu bem — não se devia a uma dedicação especial à matéria. O amor de seu coração era a teologia da cruz.
Mas ele não tinha permissão para assistir às aulas de teologia; por isso, estudava teologia em seu próprio quarto.
Durante seus anos em Wittenberg, descobriu uma coisa: os pietistas e os luteranos ortodoxos tinham uma base comum. Ele a chamou de cristianismo do coração.
Ele descobriu que o cristianismo do coração — uma devoção a Jesus Cristo de coração para coração, pessoal e íntima, e uma devoção a todos os que O reconhecem como Salvador — estava acima de todas as barreiras de credo, formas de culto e organização eclesiástica. Era imediatamente reconhecido, em toda parte, por todos os que o compartilhavam, e constituía um ponto de encontro para todos os cristãos.
A formação de Zinzendorf estava agora completa. Nos primeiros dez anos, ele havia sido educado na casa de sua avó. Depois, foi formado na Escola Real de Halle e na Universidade de Wittenberg. Para completar sua formação, fez a grande viagem que já mencionamos.
Ele havia chegado aos vinte anos e precisava decidir sua futura carreira. Por sua própria vontade, teria gostado de servir à igreja. Mas esse não era o desejo de seus parentes e amigos.
Finalmente, cedeu aos desejos da família e aceitou uma nomeação, uma nomeação muito importante, como conselheiro jurídico na corte da Saxônia. Assim, precisou mudar-se para Dresden e estabelecer-se ali.
Mas, antes de ir, decidiu em seu coração que não permitiria que o mundo o afastasse do Senhor. Estava determinado a confessar o Senhor com ousadia. Durante seus anos em Dresden, realizava reuniões em sua casa.
Ele permaneceu ali de 1722 a 1727 e, depois disso, tirou uma licença.
Em 1722, ao atingir a maioridade, comprou uma propriedade de sua avó. Era a propriedade de Berthelsdorf, e ele a transformou em um verdadeiro jardim do Senhor. Orou para que aquele lugar se tornasse um refúgio para cristãos oprimidos e perseguidos de todos os grupos e denominações.
Ele não precisou esperar muito. Christian David estava procurando um lugar de refúgio para a semente escondida na Boêmia e na Morávia.
Essa semente escondida era formada pelos remanescentes da Unidade dos Irmãos, a Unitas Fratrum. Esse movimento havia começado antes da Reforma. Para eles, Cristo era a totalidade de sua doutrina, e a comunhão com Ele era a fonte de toda a sua vida cristã.
Mas eles eram perseguidos. Eram perseguidos pela Igreja Romana como hereges e pelo Estado como traidores. Foram quase exterminados, mas ainda havia um remanescente.
Christian David procurava um lugar de refúgio para essas pobres pessoas. Em 1722, ele conheceu Zinzendorf. Conversou com ele sobre a situação, e Zinzendorf respondeu imediatamente: “Que venham para cá tantos de seus amigos quantos desejarem. Eu lhes darei terra para construir, e Cristo lhes dará o restante”.
Christian David começou a trabalhar imediatamente. Voltou à Morávia e, em 17 de junho de 1722, chegou um grupo de dez pessoas — seis adultos e quatro crianças muito pequenas — liderado por David.
Zinzendorf não estava presente, pois se encontrava na corte em Dresden, mas seu administrador lhes deu um local estratégico ao pé de uma colina conhecida como Hutberg.
Christian David não queria perder tempo. Em 17 de junho, derrubou a primeira árvore para começar a construir naquele lugar. Ao usar o machado para cortar a primeira árvore, citou Salmos 84:3:
Até o pardal achou casa,
E a andorinha, ninho para si.
Já naquele início, um nome foi dado à colônia de exilados. Na verdade, esse nome não foi dado por Zinzendorf, mas por seu administrador. Ao escrever um relatório para Zinzendorf, ele disse:
Que Deus conceda que Vossa Excelência possa construir nesta colina, chamada Hutberg, uma cidade que não apenas permaneça sob a vigilância do Senhor, mas cujos habitantes também continuem em vigília pelo Senhor, para que não haja silêncio ali, nem de dia, nem de noite.
Em outras palavras, aquele lugar estaria sob a vigilância do Senhor e seria um lugar onde o povo de Deus permaneceria em vigília pelo Senhor. O nome alemão era Herrnhut.
À medida que Herrnhut crescia, também aumentava a diversidade de seus habitantes. Os refugiados vinham não apenas da Morávia e da Boêmia, mas de diferentes partes da Alemanha, todos desejosos de adorar em liberdade e de preservar aqueles princípios que a perseguição católica não havia conseguido arrancar deles.
Além dos descendentes da Unitas Fratrum, havia refugiados de famílias luteranas, pietistas, reformados, separatistas, seguidores de Schwenckfeld e católicos romanos.
Com tamanha diversidade, era quase inevitável que surgisse discórdia. Naquele período, não havia apenas oposição externa, mas também dissensão interna.
Zinzendorf era o senhor da propriedade de Berthelsdorf, e escreveu:
Eu poderia facilmente ter encontrado meios de me livrar de muitas dessas pessoas que me causam tantos problemas. Mas creio que o Senhor tem uma grande obra a realizar entre esses exilados.
Ele entendia que a liberdade de consciência em todas as questões era o que mais correspondia à vontade de Deus. Por isso, empenhava-se constantemente pela unidade dos cristãos.
No outono de 1724, ele pediu que todos os refugiados o visitassem em particular em sua casa e conversassem com ele sobre os pontos em disputa. Três dias e três noites inteiros foram dedicados a conversas com esses irmãos.
Eles permaneciam reunidos sem sequer pensar em comida. Separavam-se às duas horas da manhã, descansavam por três horas e voltavam a se reunir.
Zinzendorf enfatizou para essas pessoas que o sectarismo tinha certa relação com o conhecimento, mas não tinha relação alguma com o amor. Ele lhes abriu as Escrituras, e esse foi o começo da união desses irmãos.
Mas a discórdia ainda não havia sido resolvida. Contudo, um novo dia estava amanhecendo.
Em 1727, como já mencionamos, Zinzendorf tirou uma licença da corte. Então, voltou para Berthelsdorf, a fim de dedicar todo o seu tempo à resolução da discórdia e ao cuidado das almas que viviam em sua propriedade.
Seu espírito de amor e imparcialidade, sua notável paciência e sua oração incessante começaram a realizar o ministério da reconciliação.
Na tarde de 12 de maio, convocou todos os habitantes de Herrnhut e falou com eles durante três horas. Falou sobre o mal da separação e a bênção da unidade cristã.
Ele apresentou e explicou os deveres e as proibições que se aplicariam a todos. Em outras palavras, elaborou normas para reger a vida da comunidade. Como senhor da propriedade, naturalmente ele era o chefe da comunidade.
Estabeleceu regras e regulamentos para os que viviam ali. Eles deveriam cumpri-los e, caso não o fizessem, seriam punidos. Esse era o aspecto civil.
Também lhes deu estatutos chamados de Acordo Fraternal, pelos quais se comprometiam a andar segundo a regra apostólica. Esses estatutos não tinham força de imposição legal. Deveriam ser a base de seu acordo voluntário de permanecer juntos em comunhão cristã.
O conde declarou que, naquele dia, Herrnhut estava entre duas possibilidades: ou seria um ninho de seitas, ou seria uma congregação viva.
Naquele dia, ele fez uma aliança com o povo na presença de Deus. Depois dessa exortação, as pessoas ficaram tão envergonhadas de suas disputas religiosas que, unanimemente, se dispuseram a sepultar essas coisas no esquecimento.
Também renunciaram sinceramente ao amor-próprio, à vontade própria, à desobediência e ao livre-pensamento. Desejavam ter um espírito sereno. Nenhum deles buscava preferência sobre os demais. Cada um desejava ser ensinado pelo Espírito Santo em todas as coisas.
Daquele momento em diante, um novo espírito veio sobre toda a congregação. Havia alegria, havia paz e havia uma santa expectativa.
O dia 13 de agosto foi o dia da primeira celebração da Ceia pela comunidade reconciliada. Essas pessoas se reuniriam para lembrar o Senhor. Era a primeira vez.
Então, Zinzendorf visitou cada família da comunidade. Conversou com elas de maneira fiel, amistosa e próxima, preparando-as para essa celebração.
Quando se reuniram para participar do pão e do cálice, uma unção fluiu por cada pessoa. Com alegria e amor inexprimíveis, foram batizadas em um só Espírito.
Todos estavam convencidos de que, ao participarem dos benefícios dos sofrimentos do Cordeiro e permanecerem em comunhão uns com os outros, o Espírito Santo havia vindo sobre eles em toda a Sua plenitude de graça e misericórdia. A congregação inteira voltou a Herrnhut como uma igreja recém-nascida.
Um morávio que estava ali naquela ocasião disse:
No dia treze de agosto de 1727, todos os membros do rebanho, de modo geral, foram tocados de maneira singular pela eficácia da palavra de reconciliação por meio do sangue de Cristo. Foram tão convencidos e comovidos que seus corações se incendiaram com nova fé e amor pelo Salvador, e também com um amor sincero uns pelos outros. Isso os moveu de tal maneira que, espontaneamente, abraçaram-se em lágrimas e cresceram juntos em uma santa união entre si.
Assim, como que ressurgindo de suas cinzas, voltou a existir a antiga Unidade dos Irmãos Morávios.
Christian David escreveu que era verdadeiramente um milagre de Deus que pessoas de tantas seitas — católicos, luteranos, reformados, separatistas, seguidores de Schwenckfeld e outros — pudessem ter sido fundidas em uma só unidade.
“A partir desse momento, Herrnhut tornou-se uma congregação viva de Cristo”, disse David Nitschmann. “Foram batizados pelo próprio Espírito Santo em um só amor”, disse Spangenberg.
Zinzendorf concluiu que 13 de agosto havia sido um dia de derramamento do Espírito Santo sobre a congregação. Foi o seu Pentecostes.
A experiência de comunhão e unidade por meio do sangue de Cristo foi tão rica que inevitavelmente se expressou em ação.
Em 27 de agosto, vinte e quatro irmãos e vinte e quatro irmãs fizeram uma aliança para orar durante cada hora do dia e da noite. Cada pessoa assumiria uma hora, para que a oração por Herrnhut e por seu testemunho continuasse dia e noite.
Com o incentivo de Zinzendorf, isso se espalhou por toda a comunidade. Todos os irmãos e irmãs participaram dessa intercessão de hora em hora.
Dia e noite, em terra e no mar, em casa e no exterior, a oração subia a Deus. E continuou por cem anos.
A experiência de 13 de agosto direcionou o zelo do coração de Zinzendorf para levar o evangelho de Jesus Cristo aos perdidos.
Em abril de 1731, Zinzendorf foi a Copenhague para participar da coroação de Christian VI. Ali, conheceu um homem escravizado chamado Anthony Ulrich, da ilha de São Tomás, nas Índias Ocidentais.
Anthony contou a Zinzendorf quantas vezes havia ficado na praia daquela ilha, suspirando em sua alma pela Europa cristã. Contou-lhe como seu irmão Abraham, sua irmã Anna e muitas outras pessoas escravizadas nas Índias Ocidentais ansiavam por ouvir o evangelho.
Quando Zinzendorf voltou, em 23 de julho, relatou ao povo o que Anthony havia dito. Naquela mesma noite, dois jovens, Leonard Dober e Tobias Leupold, tiveram um sonho.
No sonho, ouviram o chamado de Deus para ir a São Tomás pregar o evangelho. No dia seguinte, caminharam juntos e compartilharam seus sonhos um com o outro. Para sua surpresa, haviam recebido o mesmo chamado. Então, curvaram-se diante de Deus e se entregaram a Ele. Mais tarde, deram a conhecer isso a Zinzendorf e aos demais.
Bem, preciso voltar um pouco. Em 29 de julho, Anthony foi levado a Herrnhut para que ele mesmo pudesse falar ao povo. Anthony lhes disse: “Vocês não podem, não conseguem pregar o evangelho aos escravos, a menos que vocês mesmos se tornem escravos”.
Assim, esses dois jovens sentiram um chamado. Zinzendorf e os demais foram muito cautelosos diante de Deus. Não se precipitaram em nada. Mantiveram a questão diante do Senhor.
Somente depois de um ano, em 16 de junho de 1732, Dober escreveu uma carta a Zinzendorf. Ele disse: “Se outro irmão for comigo, estou pronto para me tornar escravo”.
Naqueles dias, eles costumavam lançar sortes para decidir as questões. Então, oraram e lançaram sortes. Quando a sorte foi lançada, Dober foi escolhido. A palavra para Dober foi: “Deixai o rapaz ir, pois o Senhor está com ele”.
David Nitschmann, um carpinteiro casado, foi escolhido para acompanhá-lo. Eles deveriam enviar notícias dentro de quatro meses.
Na manhã de 21 de agosto de 1732, esses dois irmãos partiram a pé para Copenhague, com trouxas nas costas, trinta xelins nos bolsos e um amor de Cristo invencível e abrangente no coração.
Esse foi o início do movimento missionário mundial moderno.
Podemos mencionar alguns pontos de sua estratégia missionária.
Tantos se ofereceram para o campo missionário que, em certo momento, um em cada quatro estava em missão. Eles foram aos lugares mais remotos do mundo. Foram à Groenlândia. Foram aos mais diversos lugares para pregar o evangelho.
Mesmo depois de cerca de duzentos anos, Everard E. Myers disse, em 1921, que um em cada noventa e dois morávios estava no campo missionário.
Bem, o inevitável aconteceu. A vitalidade dessa nova realidade era demais para o século XVIII. O século XVIII não estava preparado, nem religiosa, nem social, nem politicamente.
Como Zinzendorf era conde do Império, e por causa do que havia acontecido, levantaram acusações contra ele. Por fim, foi banido da Saxônia. Tornou-se um exilado.
De abril de 1736 a outubro de 1747, ele foi um exilado, um peregrino pelo mundo. Não tinha permissão para voltar para casa.
Mas, quando Zinzendorf soube disso, estava pronto. Ele disse:
Isso pouco importa. De qualquer maneira, eu não poderia voltar a Herrnhut durante dez anos, pois chegou o tempo de a congregação peregrina levar o Salvador ao mundo inteiro. Nosso lar será aquele lugar específico onde, naquele momento, nosso Salvador tiver mais trabalho para nós.
Ele considerava um privilégio ser apenas um peregrino na terra.
Aprendi pela experiência que há felicidade em sentir-se em casa em qualquer lugar, em toda parte, como Ele — isto é, nosso Senhor —, que passou a maior parte de Sua vida como peregrino e no exílio.
E assim foi durante dez anos. Ele e seu grupo percorreram o continente europeu — Berlim, Suíça, Holanda, Inglaterra, por toda parte. Aonde quer que fossem, pregavam, cantavam e oravam.
Agora, precisamos avançar e chegar aos últimos dias. Durante os últimos cinco anos de sua vida, ele voltou à sua casa em Herrnhut, pois, depois de dez anos, a ordem de banimento foi revogada. Ficou provado que a acusação era falsa.
Durante seus últimos cinco anos, sofreu com uma febre que havia contraído durante suas visitas às ilhas do Caribe. Mas, mesmo doente, fez mais do que a maioria das pessoas faz quando está bem.
Nos primeiros dias de maio de 1760, uma febre intensa tomou conta dele, e sua doença se agravou. Cerca de cem irmãos e irmãs se reuniram em seu quarto.
Ele se voltou para David Nitschmann e disse:
Você imaginava, no início, que o Salvador faria tanto quanto agora vemos nas diversas comunidades morávias, entre os filhos de Deus de outras denominações e entre os pagãos? Eu apenas Lhe pedi algumas das primícias destes últimos, mas agora há milhares deles. Que imensa caravana da igreja já se encontra diante do Cordeiro!
Bem cedo, na manhã de 9 de maio, ele sussurrou para seu genro, John de Watteville: “Agora, meu querido filho, estou indo para o Salvador. Estou pronto. Se Ele já não deseja me usar aqui, estou inteiramente pronto para ir a Ele”.
E passou para a glória naquele mesmo dia.
Vamos orar?
Nosso Pai celestial, Tu és nosso Criador, Tu és nosso Redentor, Tu és nosso Salvador, Tu és nosso Senhor. Nós Te louvamos e Te agradecemos porque vemos a obra de Tuas mãos na vida de Teu servo Zinzendorf, e Tu és o mesmo ontem, hoje e para sempre.
Tu és nosso Criador. Tu és nosso Redentor. Tu és nosso Salvador. Tu és nosso Senhor. E não há nada que Tu não possas fazer, mesmo com o mais fraco, o mais insignificante, o mais humilde e aquele que nada é.
Por isso, Senhor, nós oramos para que a paixão que colocaste no coração de Teu servo seja a nossa paixão: que não conheçamos nada além de Ti.
Ó Senhor, constrange-nos com Teu amor, para que Te amemos de todo o coração, com toda a nossa inteligência e com toda a nossa força, porque Tu és digno.
Tu és digno de receber não apenas esse amor e essa paixão de Teu servo Zinzendorf; Tu és digno de receber o amor e a paixão de todos os que foram redimidos por Teu precioso sangue.
Senhor, nós Te pedimos que nos toques e nos restaures àquele primeiro amor. E que isso seja para Ti e para a Tua glória, em nome de nosso Senhor Jesus.
Amém.