Voltemo-nos ao Senhor em oração.
Senhor, ao nos reunirmos em Tua presença, inclinamos o coração diante de Ti, reconhecendo-Te como o Senhor dos céus e da terra, reconhecendo-Te como nosso Senhor, como meu Senhor.
Queremos exaltar-Te, porque o Teu nome é o único digno de louvor. Deus Te deu um nome que está acima de todo nome, e diante desse nome todo joelho se dobrará. Todos confessarão que Jesus é Senhor.
Nós Te confessamos como nosso Senhor, como nosso Rei, como nosso tudo. Entramos em Tua presença para ouvir Tua palavra. Pedimos-Te, Senhor, que, pelo Teu Espírito Santo, vivifiques cada um de nós, para que possamos ouvir Tua voz falando conosco de maneira íntima e pessoal, e nos atraias para mais perto de Ti, porque Tu és digno.
Entregamos este tempo em Tuas mãos, e a Ti seja a glória, em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.
O tema deste nosso tempo juntos é o desenvolvimento da obra de restauração de Deus na igreja. E tenho no coração o encargo de ilustrar essa obra de restauração de Deus na igreja por meio da vida de cinco homens.
Agora, irmãos e irmãs, sabemos que, sempre que Deus realiza uma obra na igreja, em favor da igreja e para Si mesmo, Ele procura vasos — vasos humanos aptos para o Seu uso. Esses vasos humanos, porém, são apenas vasos de barro. É o tesouro nesses vasos que revela a grandeza suprema do poder da glória.
Tudo o que Deus deseja realizar na igreja, entre o Seu povo, vemos que, antes de tudo, Ele realiza nessas vidas. Deus primeiro opera nessas vidas e, depois, a partir delas, opera na igreja. Assim, essas vidas são como sementes que Deus semeou na terra.
E é assim que Deus sempre realiza a Sua obra. Por isso, entendemos que podemos ilustrar o desenvolvimento da obra de restauração de Deus na igreja por meio dessas vidas. Mas esperamos que a nossa atenção não se concentre nesses homens. Nossa atenção deve estar naquele tesouro que se encontra nesses vasos de barro.
Agora, por causa do nosso tempo limitado, escolhemos, dentre muitos, cinco vasos de Deus que marcaram época. Esses homens são Martinho Lutero, o conde Zinzendorf, John Wesley, John Nelson Darby e Watchman Nee.
Portanto, nesta manhã, gostaríamos de compartilhar, juntos diante do Senhor, a vida de Martinho Lutero.
Voltemos ao dia 18 de abril de 1521 d.C. A ocasião era a Dieta de Worms. Ali estava a assembleia geral do Sacro Império Romano-Germânico, convocada pelo recém-coroado imperador Carlos V.
E a principal questão diante dessa Dieta de Worms era a palavra de Deus em oposição à tradição humana; a liberdade de consciência em oposição à tirania da autoridade.
De um lado estava um monge, professor universitário e pregador do evangelho de Jesus Cristo, cujo nome era Martinho Lutero. Ele havia sido convocado a comparecer diante da assembleia geral, diante do imperador, dos seis príncipes-eleitores do império, dos duques, dos condes, dos príncipes, dos marqueses, dos legados papais e dos dignitários de todas as categorias — diante de embaixadores de muitos países.
Em outras palavras, ele havia sido convocado a comparecer diante de uma representação bastante completa de todo o poder do império, do Estado e da igreja.
Uma pergunta lhe foi feita: “Você vai se retratar ou não?”
Isto é, Martinho Lutero se retrataria daquilo que havia escrito a respeito da fé e das boas obras, da tirania do papado e contra aqueles que desejavam defender a tirania romana e destruir a fé?
Diante disso, Lutero respondeu sem hesitar:
Visto que Vossa Sereníssima Majestade e Vossas Altezas exigem de mim uma resposta clara, simples e precisa, eu a darei. E é esta: não posso submeter minha fé nem ao papa nem aos concílios, porque é claro como o dia que eles frequentemente erraram e se contradisseram. Portanto, a menos que eu seja convencido pelo testemunho das Escrituras e pelo raciocínio mais claro, e que assim minha consciência fique vinculada à palavra de Deus, não posso nem quero me retratar; pois não é seguro para um cristão falar contra a própria consciência.
Então ele olhou ao redor, para a assembleia em cujas mãos estava a sua vida, e declarou:
Aqui estou. Não posso agir de outra maneira. Que Deus me ajude. Amém.
Essas palavras selaram o curso da Reforma.
Martinho Lutero nasceu em 10 de novembro de 1483 d.C., uma hora antes da meia-noite, em Eisleben. Seu pai, João Lutero, era um homem íntegro — diligente, trabalhador, franco, cuja firmeza de caráter chegava à obstinação.
Sua mãe, Margarida, possuía todas as virtudes de uma mulher boa e piedosa. Sua modéstia, seu temor de Deus e seu espírito de oração eram particularmente notáveis.
Mais tarde, o reformador comentou: “Meu pai era um pobre lenhador, e minha mãe às vezes precisava carregar lenha nas costas para criar a nós, seus filhos. Meus pais sofreram e suportaram muita coisa por nós, seus filhos”.
Assim que Martinho Lutero teve idade suficiente para compreender, seus pais procuraram transmitir-lhe o conhecimento de Deus, educá-lo na fé e no temor de Deus e formar nele um caráter cristão.
Muitas vezes, o pai era encontrado ajoelhado ao lado daquela criancinha, orando em voz alta por seu filho — para que Deus o guardasse, para que seu filho se lembrasse do nome de Deus e, um dia, fosse usado para propagar a verdade.
Naqueles dias, a filosofia da educação era o medo. O castigo era o incentivo para o estudo.
Assim, Martinho Lutero recordava que, quando era criança, seus pais o castigavam e disciplinavam com muita severidade. Por causa disso, ele se tornou muito tímido. Ele dizia que seus pais pensavam estar fazendo a coisa certa.
Ele reconhecia que uma criança deve ser disciplinada, mas os pais precisam conhecer o temperamento da criança. Isto é, os pais precisam saber quando, onde e como aplicar o castigo. E, junto com a vara, deve haver também a maçã.
Quando foi para a escola, recebeu um tratamento não menos severo. Certa manhã, foi açoitado quinze vezes. Ele reconhecia que uma criança deve ser disciplinada, mas deve sempre ser amada.
Quando era pequeno e frequentava a escola, ele aprendeu algumas coisas. Decorou o catecismo breve. Aprendeu os Dez Mandamentos, o Pai-Nosso e algumas fórmulas de oração. E também, é claro, um pouco de gramática latina e assim por diante.
Naquele menino, naquele período, não havia sinal de qualquer convicção religiosa. A única convicção que se podia encontrar nele era o medo. Ele dizia que, quando ouvia o nome do Senhor Jesus, ficava pálido. Por quê? Porque o Senhor Jesus lhe era apresentado como um Juiz ofendido.
Aos quatorze anos, seu pai o enviou para estudar em uma escola franciscana em Magdeburgo. Ainda tão jovem, ele foi mandado para um lugar onde não tinha parentes nem amigos.
Assim, vivia literalmente com medo de seus mestres. A maior parte do tempo de recreação era passada mendigando nas ruas para conseguir alimento.
Um ano depois, seu pai o enviou para outra escola, uma escola célebre em Eisenach. Havia parentes naquela cidade, mas, infelizmente, eles não cuidaram dele. Provavelmente também eram pobres demais para ajudar aquele menino.
Então encontramos novamente o jovem Lutero nessa situação. Ele precisava cantar com alguns colegas que também eram pobres. Saíam pelas ruas e cantavam de porta em porta para conseguir um pouco de comida. Mas, muitas vezes, tudo o que recebiam eram palavras duras, e nenhuma comida.
Certo dia, ele estava cantando na rua e já havia sido rejeitado em três casas. Estava prestes a voltar para seu alojamento em jejum.
Enquanto caminhava pela rua, chegou à praça de São Jorge. Parou à porta da casa de um morador dali. Meditou. Refletiu. Perguntou a si mesmo se deveria abandonar os estudos e voltar para trabalhar nas minas com seu pai.
Enquanto estava ali, de repente a porta se abriu, e uma senhora saiu. Seu nome era Úrsula Cotta, esposa de Conrado Cotta.
Essa mulher sunamita já havia observado aquele jovem estudante várias vezes nas reuniões. Ela havia sido tocada pela doçura de sua voz e por sua devoção. E tinha ouvido as palavras duras que as pessoas dirigiam àquele jovem. Por isso, compadeceu-se dele.
Ela abriu a porta, convidou-o a entrar e lhe deu comida. Seu marido aprovou o que ela fez. Na verdade, ficou tão satisfeito com a conversa que teve com o jovem Lutero que a família o acolheu e o convidou a morar com eles. Assim, seu problema foi resolvido.
E essa experiência causou uma impressão tão profunda em Lutero que, daquele dia em diante, sua confiança em Deus nunca mais foi abalada, nem mesmo pelos problemas muito graves que enfrentou mais tarde.
Aos dezoito anos, ele foi estudar na universidade em Erfurt, onde estudou as obras-primas da Antiguidade e a filosofia escolástica. Mas, mesmo naquele período, enquanto absorvia esses conhecimentos, não se esqueceu de Deus, porque sentia que era de Deus que precisava depender.
Assim, todas as manhãs, ele primeiro orava. Depois ia à igreja para orar. Em seguida, dedicava-se aos estudos. E não desperdiçava nem um momento de estudo.
Ele dizia: “Orar bem é metade do estudo”.
Ele já estava na universidade havia cerca de dois anos. Certo dia, estava na biblioteca, examinando os livros. Olhava apenas os títulos, procurando memorizar os títulos e os autores, sabe, para conhecer os livros que havia ali.
Enquanto examinava um livro após outro, encontrou um livro estranho, um livro raro que nunca tinha visto. Olhou o título, e o título do livro era A Bíblia.
Imediatamente, sua curiosidade foi despertada. Folheou as páginas e descobriu naquele livro coisas que nunca tinha ouvido antes.
Sabe, aos domingos ele ia à igreja e ouvia a leitura da Bíblia — trechos dos Evangelhos e das Epístolas —, e sempre pensou que aquilo fosse a Bíblia inteira. Nunca soubera que havia capítulos e livros na Bíblia que ele ainda desconhecia.
Por isso, ficou tão entusiasmado. Voltava repetidas vezes para examinar as páginas daquele livro. Embora naquela época ainda não tivesse entendimento, encontrava grande alegria ao lê-lo.
Sabemos que nesse Livro está a semente da Reforma.
Naquela época, ele havia obtido seu primeiro grau, o de bacharel. Mas, por causa do esforço excessivo para passar no exame, ficou gravemente enfermo. Pensou que morreria.
Entre as pessoas que o visitaram estava um sacerdote experiente. O jovem Lutero abriu o coração e disse ao sacerdote: “Em breve deixarei este mundo”.
E o sacerdote lhe disse:
Meu caro bacharel, tenha coragem. Você não morrerá dessa enfermidade. Nosso Deus ainda fará de você um homem que, por sua vez, aconselhará muitos. Pois Deus dá a Sua cruz àqueles a quem ama, e os que a suportam com paciência adquirem muita sabedoria.
Lutero se recuperou dessa enfermidade. Por causa do Livro, de sua enfermidade e das palavras daquele sacerdote, uma mudança começou a acontecer nele. Mas ainda não havia tomado aquela grande decisão.
Ele continuou seus estudos. Em 1505, recebeu os títulos de mestre em artes e doutor em filosofia. Agora precisava decidir o que faria no futuro. Precisava escolher uma carreira. Pensou em escolher o direito, porque esse era o desejo de seu pai.
Mas Deus tinha outro propósito para ele. Dois acontecimentos ocorreram naquele período.
Primeiro, certo dia, chegou até ele a notícia do assassinato de seu amigo mais próximo, Alexis. Quando soube que seu jovem amigo havia sido assassinado, o medo tomou conta dele, e ele disse: “Senhor, e se fosse eu? Se eu morresse sem nenhum aviso, o que aconteceria comigo?”
Depois, no verão daquele mesmo ano, quando voltava de casa para a universidade, já estava se aproximando da cidade de Erfurt quando uma tempestade o surpreendeu. Os relâmpagos brilhavam. Um raio caiu perto de seus pés. Ele se lançou ao chão. Estava cheio de terror. Pensou: “Este é o meu dia”.
O pensamento da morte, do juízo e o medo encheram seu coração. Em sua angústia, fez um voto: “Deus, se Tu me salvares, abandonarei o mundo e me dedicarei a Ti”.
Ao entrar na cidade, sua resolução era firme. É claro que lhe causava grande dor separar-se de seus pais, da universidade e de seus amigos.
Não contou a ninguém, mas convidou seus amigos da universidade para uma festa certa noite. Foi uma festa muito alegre. Houve música, eles cantaram, e Martinho Lutero não contou a ninguém o que pretendia fazer. Quando a festa terminou, aquela havia sido sua despedida do mundo.
Na escuridão da noite, saiu de seu alojamento. Deixou para trás suas roupas e seus livros. Levou apenas dois livros. Talvez vocês achem estranha a escolha dos livros que levou. Levou Virgílio e Plauto — um poeta épico e um autor de comédias.
Bateu à porta do convento dos Eremitas de Santo Agostinho e pediu para ser admitido. A porta se abriu e se fechou. Lutero estava separado do mundo.
Era 17 de agosto de 1505. Ele tinha vinte e um anos.
Finalmente com Deus, ele estava agora prestes a encontrar aquela santidade que tanto desejava. Não sabia que a salvação vem inteiramente de Deus. Buscava sua própria justiça e não levava em conta a justiça de Deus. Mas, no claustro de Erfurt, aprenderia a verdade.
No convento, encontrou uma Bíblia presa por uma corrente. Voltava a esse Livro repetidas vezes. Embora ainda o compreendesse pouco, esse era o estudo que mais lhe agradava.
Desejando alcançar a santidade, vivia uma vida de ascetismo. Procurava crucificar sua carne por meio de jejuns, mortificações e vigílias, encerrado em sua cela como em uma prisão.
Lutava incessantemente contra os pensamentos enganosos e as inclinações más de seu coração. Um pouco de pão e um pequeno arenque eram seu único alimento.
Contudo, não encontrou na tranquilidade do claustro e na perfeição monástica a paz interior que buscava havia tanto tempo. Desejava ter a certeza de sua salvação. Esse era um grande anseio de sua alma.
Mas os temores que o haviam perturbado no passado o acompanharam até o claustro. Pela leitura daquele Livro acorrentado, sabia o que era santidade e ansiava por ela, mas não a encontrava em seu coração nem em sua vida.
Nesse estado de espírito, ele encontrou algum consolo nas conversas e na correspondência com o vigário-geral dos agostinianos de toda a Alemanha, Johann von Staupitz.
O corpo debilitado, a aparência melancólica e, ao mesmo tempo, o olhar sério e resoluto do jovem monge chamaram a atenção de Johann von Staupitz, o vigário-geral.
Então Johann von Staupitz conversou com ele. Assegurou a Lutero que estava inteiramente equivocado ao supor que poderia apresentar-se diante de Deus com base em suas obras e méritos; que recebia todas essas coisas somente pela misericórdia de Deus, e que essa misericórdia precisava chegar até ele por meio da fé no sangue de Cristo.
Ele disse:
Por que você se atormenta com todas essas especulações e esses pensamentos elevados? Olhe para as feridas de Jesus Cristo, para o sangue que Ele derramou por você; é ali que a graça de Deus se manifestará a você. Em vez de se torturar por causa dos seus pecados, lance-se nos braços do Redentor, confiando Nele, na justiça de Sua vida e na expiação de Sua morte. Não recue. Deus não está irado com você; você é que está irado com Deus.
Ouça o Filho de Deus. Ele Se fez homem para lhe dar a certeza do favor divino. Ele lhe diz:
“Você é Minha ovelha. Você ouve a Minha voz. Ninguém o arrebatará da Minha mão.”
Um raio de luz entrou no coração de Lutero. Então Johann von Staupitz lhe disse: “Dedique-se inteiramente àquele Livro”, e lhe deu uma Bíblia.
Por causa de sua agonia e de sua luta interior, ele voltou a ficar gravemente enfermo. Foi enviado à enfermaria.
Certo dia, estava tomado pelo desespero quando recebeu a visita de um monge idoso. Esse homem lhe falou sobre a eficácia da fé. Lembrou a Lutero aquele artigo do Credo Apostólico:
Creio na remissão dos pecados.
Essas palavras simples, com a bênção do Senhor, parecem ter voltado a mente de Lutero das obras para a fé. Lutero conhecia essas palavras desde a infância. Ele as recitava, mas, para ele, eram apenas uma fórmula de palavras.
Enquanto as recitava e repetia para si mesmo, aquele homem idoso lhe disse: “Isso não é uma coisa genérica. É a sua fé pessoal”.
Finalmente, a luz entrou em seu coração. Ele foi liberto da justificação pelas obras e conduzido à justificação pela fé. E essa foi a história simples de sua conversão.
Lutero não permaneceria enterrado e escondido em um convento, porque Deus tinha um propósito para ele. Assim, em 1508, foi convidado para ser professor na recém-inaugurada Universidade de Wittenberg.
Ele ensinaria filosofia escolástica, dialética aristotélica e física. Mas, durante esses anos em que ensinava filosofia na universidade, também estudava teologia.
Assim, em 1512, já havia passado por todas essas etapas e graus e recebeu o título de doutor em teologia. Daquele momento em diante, deixou de lecionar filosofia e passou a lecionar teologia. E esse era o desejo de seu coração.
Começou suas aulas com os Salmos e com Paulo. Davi e Paulo, Salmos, Romanos e Gálatas eram seus favoritos.
Certo dia, enquanto preparava sua aula, chegou a Romanos 1:17:
O justo viverá pela fé.
Uma luz, podemos dizer, mais intensa que o brilho do sol, encheu todo o seu ser. Ele recebeu em seu coração a grande doutrina da justificação somente pela fé, como se viesse da própria voz de Deus.
Viu que a vida eterna deveria ser obtida não pela penitência, mas pela fé. Assim, sob essa luz, ministrava suas aulas sobre as Escrituras do Antigo e do Novo Testamento.
Enquanto ainda estava na universidade — precisamos voltar um pouco no tempo —, em 1510, ele foi enviado a Roma em nome dos agostinianos, a Ordem de Santo Agostinho. Viajou para Roma descalço.
Embora tivesse conhecimento e luz provenientes das Escrituras, da palavra de Deus, quando esteve em Roma ficou profundamente decepcionado com o que viu: o luxo dos mosteiros. Não havia piedade ali.
Mas vemos que ele ainda estava tão preso à tradição que, em Roma, parecia um santo enlouquecido. Visitou todas as igrejas, catacumbas e criptas, e viu todas aquelas relíquias e milagres dos mártires.
Certo dia, foi subir de joelhos a escadaria de Pilatos, porque o papa concedia uma indulgência a quem subisse de joelhos aquela escadaria.
Lá estava Lutero, arrastando seu corpo escada acima. No meio do percurso, de repente ouviu uma voz, como um trovão, vinda de seu coração:
O justo viverá pela fé.
Ele despertou. Sentiu muita vergonha de si mesmo. Levantou-se. Fugiu. Voltou para Wittenberg.
Mas ainda não estava pronto para reformar a igreja. Nem sequer pensava em deixá-la. Permaneceu um católico fiel até 1517.
A providência de Deus agiu de maneira misteriosa. Lutero não era apenas alguém que parecia inaugurar uma época; ele próprio também era filho daquela época.
Foi naquele período que o papa Leão X, para construir a grandiosa Basílica de São Pedro e também reabastecer seu tesouro, autorizou o envio de homens para vender indulgências.
Agora, não sei se todos vocês sabem o que é uma indulgência. Em termos simples, indulgência é isto: se você comprar essa indulgência, seus pecados serão perdoados.
Toda a Alemanha ficou agitada. O comissário papal encarregado de vender indulgências era um homem chamado Johann Tetzel.
Ele causou grande alvoroço. Chegava a uma cidade com pompa e ali erguia uma cruz vermelha, na qual pendurava o brasão do papa. Depois subia à plataforma e, com grande eloquência, dizia:
As indulgências são as mais preciosas e as mais nobres dádivas. Esta cruz — dizia ele, apontando para aquela cruz vermelha — tem tanta eficácia quanto a cruz de Jesus Cristo. E eu lhes darei cartas, todas devidamente seladas, pelas quais até mesmo os pecados que vocês pretendem cometer poderão ser perdoados.
E vocês, por um quarto de florim, não receberão estas cartas de indulgência, por meio das quais poderão introduzir no paraíso não um metal vil, mas uma alma divina e imortal, sem que ela corra qualquer risco?
Mas, além disso, as indulgências estavam disponíveis não apenas para os vivos, mas também para os mortos. E, nesse caso, nem sequer era necessário arrependimento.
No exato instante em que o dinheiro tilinta no fundo do cofre, a alma sai do purgatório e voa, liberta, para o céu.
Depois de muita reflexão séria, sem consultar nenhum de seus colegas, Lutero sentiu que precisava fazer alguma coisa.
Escolheu o caminho ordenado e habitual de uma discussão acadêmica erudita. Assim, em 31 de outubro de 1517, ao meio-dia, Lutero caminhou corajosamente até a catedral de Wittenberg e pregou à porta suas noventa e cinco teses contra a doutrina das indulgências.
Declarou a alguém que compartilhava de suas convicções que havia escrito aquelas teses com o desejo expresso de colocar a verdade à plena luz do dia. Declarou-se pronto para defendê-las, na manhã seguinte, contra qualquer pessoa.
Os germes da Reforma estavam contidos nessas proposições. As indulgências do papa, dizia Lutero, não podem tirar pecados. Somente Deus perdoa pecados, e Ele perdoa aqueles que estão verdadeiramente arrependidos, sem a ajuda da absolvição humana.
A igreja pode remitir as penalidades que ela mesma impõe, mas o poder da igreja está apenas neste mundo; não se estende para além da morte. Quem é esse homem que ousa dizer que, por tantas coroas, a alma de um pecador pode ser salva?
Todo cristão, todo verdadeiro cristão, participa de todas as bênçãos de Cristo pela graça de Deus e sem uma carta de indulgência.
Ninguém apareceu na universidade no dia seguinte para atacar as proposições de Lutero. Mas a própria história se encarregou da discussão e da defesa.
Essas teses foram copiadas, traduzidas, impressas e espalhadas como que sobre asas de anjos. Em poucas semanas, difundiram-se por toda a Alemanha e pela Europa.
O comissário papal, Tetzel, tentou apresentar uma resposta. Nela, apenas reafirmou o poder do papa e o poder dos clérigos delegados pelo papa. Reafirmou que essas indulgências tinham pleno poder para perdoar pecados.
Então Lutero lhe respondeu com resoluções que explicavam suas teses. Nessas resoluções, encontramos todos os princípios da Reforma.
Ele reafirmou que a justificação era somente pela fé, sem as obras da lei. Assim, estava desafiando o papa.
No verão de 1518, o papa convocou Lutero a Roma sob a acusação de heresia e desobediência. Por meio da intervenção do príncipe-eleitor Frederico, o processo foi transferido de Roma para Augsburgo.
Como nosso tempo é limitado, preciso passar muito rapidamente por esse período. Na Dieta de Augsburgo, pediram que ele se retratasse do que havia escrito, mas ele se recusou. Apelou às universidades e ao papa, para que este fosse mais bem informado. Ainda tinha confiança no papa.
Depois, temendo ser preso, apelou aos concílios gerais. Seguiu-se uma discussão com o doutor Eck. Durante aquele período, Lutero disse que não poderia submeter-se ao julgamento do papa nem ao do concílio, mas que os artigos de fé deveriam vir somente das Escrituras.
Essa foi, portanto, a ruptura de Lutero com a Igreja Romana.
O doutor Eck ficou irritado com sua derrota na discussão com Lutero. Por isso, voltou às pressas para Roma e procurou conseguir que uma bula de excomunhão fosse expedida contra Lutero.
Em 15 de junho de 1520, a bula de excomunhão foi expedida. Os escritos de Lutero foram condenados às chamas, e ele próprio foi entregue a Satanás como um herege perverso, a menos que se arrependesse e implorasse a clemência do pontífice dentro de sessenta dias.
Mas, naquele mesmo ano, em 10 de dezembro, às nove horas da manhã, na presença de um grande número de professores e estudantes, Lutero lançou solenemente às chamas a bula de excomunhão, juntamente com alguns outros escritos.
Ele disse:
Assim como atormentaste o Santo do Senhor, que o fogo eterno te atormente.
Agora a questão estava nas mãos do Sacro Império Romano-Germânico: o império acolheria esse herege ou o expulsaria?
Então veio a Dieta de Worms. Lutero foi convocado a comparecer diante do imperador do Sacro Império Romano-Germânico na Dieta de Worms. Recebeu um salvo-conduto para viajar até Worms, porque, como pessoa excomungada, qualquer um poderia matá-lo.
Seus amigos o aconselharam a não ir, porque esse documento papal não era muito confiável. Mas Lutero sentiu que precisava ir.
Irei a Worms, ainda que haja ali tantos demônios quantas são as telhas no telhado.
Assim, ele foi. Em 17 de abril, foi convocado a comparecer diante da assembleia.
Avançou e se colocou diante do trono de Carlos. Por um momento, a visão de uma assembleia tão augusta pareceu deslumbrá-lo e intimidá-lo. Todos os olhos estavam fixos nele. O tumulto foi diminuindo aos poucos, e seguiu-se um profundo silêncio.
Às duas perguntas que lhe fizeram, respondeu:
Quanto à primeira, reconheço como meus os livros que acabam de ser mencionados, e não posso negá-los. Quanto à segunda — isto é, retratar-me —, visto que se trata de uma questão que diz respeito à fé e à salvação das almas, e na qual está envolvida a palavra de Deus, o maior e mais precioso tesouro, tanto no céu como na terra, não devo responder de maneira imprudente. Por essa razão, suplico a Vossa Majestade Imperial, com toda a humildade, que me conceda tempo, para que eu possa responder sem ofender o Deus santo.
Foi-lhe concedido mais um dia, mas ele teria de responder oralmente, e não por escrito.
Na manhã de 18 de abril, Lutero não ficou livre de momentos de provação, nos quais o rosto de Deus parecia estar oculto dele. Sua carne enfraqueceu. Seus inimigos se multiplicavam diante dele. Sua imaginação ficou dominada por aquela visão.
Ele orou:
Ó Deus todo-poderoso e eterno, como é terrível este mundo! Eis que abre a boca para me devorar, e tenho tão pouca confiança em Ti. Como é fraca a carne, e como é poderoso Satanás! Se é somente na força deste mundo que devo depositar minha confiança, tudo está acabado. Minha última hora chegou. Minha condenação foi pronunciada.
Ó Deus, ó Deus, ó Deus, ajuda-me contra toda a sabedoria do mundo. Faze isso. Tu deves fazê-lo. Tu somente. Pois esta obra não é minha, mas Tua; a causa é Tua, e é uma causa justa e eterna. Ó Senhor, ajuda-me, Deus fiel e imutável.
Em homem algum deposito minha confiança. Meu Deus, estás Tu morto? Não, Tu não podes morrer. Apenas Te ocultas. Tu me escolheste para esta obra. Sei disso muito bem. E Tu, ó Deus, fica ao meu lado por amor de Teu bem-amado Jesus Cristo, Que é minha defesa, meu escudo e minha torre forte.
Depois de um momento de luta silenciosa, continuou:
Senhor, onde Te demoras? Ó meu Deus, onde estás? Vem, vem. Estou pronto. Estou pronto para entregar minha vida por Tua verdade, paciente como um cordeiro, pois esta é a causa da justiça. Ela é Tua.
Nunca me separarei de Ti, nem agora nem por toda a eternidade. Ainda que o mundo esteja cheio de demônios, ainda que meu corpo, que continua sendo obra de Tuas mãos, seja morto, estendido sobre o pavimento, cortado em pedaços, reduzido a cinzas, minha alma é Tua.
Sim, tenho a certeza da Tua palavra. Minha alma pertence a Ti. Ela permanecerá para sempre Contigo. Amém. Ó Deus, ajuda-me. Amém.
Depois de orar, Lutero encontrou paz interior. Então leu a palavra de Deus, examinou seus escritos e procurou preparar a resposta de maneira adequada.
O pensamento de que estava prestes a comparecer diante do imperador e de todo o império para dar testemunho de Jesus Cristo e de Sua palavra encheu seu coração de alegria.
E, é claro, já lemos no início o que ele confessou:
Aqui estou. Não posso agir de outra maneira. Que Deus me ajude.
Em 26 de abril, Lutero deixou Worms em direção a Wittenberg. Em 26 de maio, foi expedido o édito imperial. Ele deu força legal à bula que o papa havia expedido.
Nesse édito imperial, Lutero foi denunciado como um demônio vestido de monge, e foi declarado proscrito. O édito ordenava que seus livros fossem queimados e proibia sua impressão, publicação e venda; proibia que ele e seus seguidores recebessem abrigo e alimento; e determinava que os magistrados o prendessem onde quer que fosse encontrado e o entregassem ao imperador, para que fosse tratado de acordo com as leis penais contra os hereges.
Mas, quando Lutero estava a caminho de volta, em 4 de maio, de repente ouviu-se um ruído. Imediatamente, cinco cavaleiros, mascarados e armados dos pés à cabeça, tiraram Lutero de sua carruagem, colocaram-no sobre um cavalo, cobriram-no com uma capa e, num instante, desapareceram na floresta.
Uma hora antes da meia-noite, esses cavaleiros chegaram ao pé da colina, e Lutero foi levado para ficar no castelo de Wartburg.
Rumores se espalharam por toda a Europa: Lutero havia caído nas mãos de seus inimigos. Mas, na verdade, tudo era um plano engenhoso do príncipe-eleitor Frederico.
Ele sabia que o salvo-conduto valia apenas por três semanas e temia pela vida de Lutero depois desse prazo. Contudo, não queria desobedecer ao imperador. Por isso, planejou secretamente tirar Lutero de cena.
Assim, Lutero ficou, por assim dizer, preso naquele castelo. Trocaram suas roupas, vestiram-no como um cavaleiro e o chamaram de Cavaleiro Jorge.
Nos anos anteriores, Lutero havia estado no centro da luta, mas agora fora subitamente retirado de cena. Isso mostra que a Reforma não é obra do homem; é obra de Deus. Porque, embora ele não estivesse ali, a obra continuou.
Lutero ficou no castelo durante nove meses. Em seu tempo disponível, realizou a maior obra de sua vida: traduziu todo o Novo Testamento para o alemão.
Tornou o Livro acessível não apenas na igreja e na escola, mas também nos lares. A Reforma não depende dos reformadores. A Reforma depende da palavra de Deus.
Depois de nove meses, ele voltou a Wittenberg para retomar a liderança. Em 11 de junho de 1525, Lutero se casou. Casou-se com uma ex-freira.
Foi feliz nessa união. Ele disse: “A melhor dádiva de Deus é uma esposa piedosa e amável, que teme a Deus, ama sua família, com quem um homem pode viver em paz e em quem pode confiar com segurança”.
Em 28 de janeiro de 1546, Lutero voltou a Eisleben. Embora estivesse bastante enfermo naquela ocasião, ainda participou de todas as conferências até 17 de fevereiro.
Ao se recolher naquela noite, seu estado piorou. Ele orou:
Ó meu Pai, Tu, o Senhor, o Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, Tu, a fonte de toda consolação, eu Te agradeço por me haveres revelado Teu bem-amado Filho, em Quem creio, a Quem preguei, reconheci e tornei conhecido, a Quem amei e celebrei.
Entrego minha alma a Ti, ó meu Senhor Jesus Cristo. Estou prestes a deixar este corpo terreno. Estou prestes a ser levado desta vida. Mas sei que permanecerei eternamente Contigo.
Então repetiu três vezes:
Nas Tuas mãos entrego o meu espírito; Tu me remiste, ó Senhor, Deus da verdade.
Fechou os olhos e recostou-se no travesseiro. Tentaram reanimá-lo e lhe fizeram a pergunta: “Padre, o senhor morre firme na fé que ensinou?”
Lutero abriu os olhos, olhou para o doutor Jonas e respondeu com firmeza e clareza: “Sim”.
Então adormeceu. Sua respiração ficou cada vez mais fraca. Por fim, suspirou profundamente, e o reformador partiu.
Vamos orar?
Pai celestial, nós Te adoramos por causa do Teu amor por Teu Filho amado e do Teu amor por Tua igreja. Tu levantaste esse homem para ser um vaso em Tua mão, para conduzir o Teu povo à luz da justificação pela fé.
Nós Te agradecemos por essa dádiva que vem de Ti e queremos render-Te graças em nome de nosso Senhor Jesus. Amém.