Cristo é o horizonte eterno de Deus, em torno do qual se concentram todos os Seus interesses e atividades.
Iniciamos estas meditações observando que a Bíblia concentra tudo numa cisão e ruptura primordial no céu, antes da criação deste mundo, e depois também após a criação.
Não avançamos muito na leitura da Bíblia antes de nos depararmos com essa situação. Primeiro, há um antagonismo no universo; depois, esse antagonismo é introduzido neste mundo.
A partir daí, a Bíblia se desdobra e segue seu curso até o fim, quando toda divisão é resolvida e removida, e tudo está em Cristo.
É-nos mostrado que a causa daquela ruptura universal, no céu e na terra, foi a insubordinação à vontade de Deus: uma vontade que se levantou e se afirmou contra a vontade de Deus.
“Eu me exaltarei.”
Foi independência — o rompimento com o governo de Deus. Ali, tudo procedeu de um desejo de superioridade, de preeminência, de ascendência, de poder.
Todas essas coisas, que encontramos ao longo de toda a Bíblia e de toda a história, são a prole maligna que nasceu daquilo. Elas são encontradas primeiro no grande arqui-inimigo e, depois, no homem, envenenado por ele para seguir o mesmo caminho.
Depois de vermos isso, observamos exatamente o que aconteceu quando aquela revolta ocorreu — quando aquele caminho de insubordinação e independência foi adotado, primeiro no céu e depois na terra.
O que aconteceu foi que aqueles que participaram dela, que nela se envolveram, que nela foram implicados e por ela vitimados perderam seu lugar em Deus. Até então, originalmente, havia aquele único âmbito: um âmbito de unidade, de harmonia, de concórdia.
A partir daquele momento, passaram a existir dois âmbitos.
Naquele momento, Deus apresentou todo o Seu propósito: o horizonte dentro do qual se realizaria a plena restauração; no qual se encontrariam a antiga harmonia e glória originais; no qual todo aquele mal seria destruído. E esse horizonte era Seu Filho — Seu Filho.
Ele Se tornou aquele limite, a linha de demarcação entre o que está em Deus e o que não está em Deus; o que é de Deus e o que não é de Deus; o que é semelhante a Deus e o que não é semelhante a Deus.
Deus estabeleceu esse horizonte em Seu Filho. Daí em diante, tudo o que é de Deus e para Deus deve ter Cristo como seu limite. Seu Filho, sendo aquilo que o horizonte é para esta terra no plano natural, foi constituído a medida, a extensão, o alcance e o limite dos interesses de Deus.
Além disso, Seu Filho foi constituído o caráter, a natureza e a constituição de tudo aquilo que, por fim, estará dentro do alcance do propósito eterno de Deus.
Antes de darmos mais um passo, talvez seja bom indicar algo do significado disso para nós mesmos.
Todos nós estamos familiarizados com a existência de uma cisão nessa relação entre o céu e a terra, entre Deus e o diabo, e entre os dois sistemas e ordens que eles respectivamente representam. Temos consciência disso e estamos convencidos disso.
Sabemos que não se trata apenas de algo externo a nós. Está ao nosso redor; está em toda parte. Mas sabemos que também está dentro de nós. Sabemos, pelo nosso próprio coração humano, que existe um antagonismo inato que só precisa de uma ocasião suficiente para se manifestar.
Talvez, antes de tudo, ele apareça na forma simples com que começa na Bíblia: uma pergunta acerca de Deus — apenas uma pergunta. Ao acolher essa pergunta, desenvolve-se todo esse sistema, até que o antagonismo e a inimizade se manifestem, caso isso prossiga. Mas já estão presentes na natureza humana, na raça.
Assim foi com Adão. Como eu disse, estamos conscientes, bem conscientes. Mas temos reconhecido isso suficientemente? Temos realmente compreendido, não apenas intelectualmente, suas grandes implicações para o nosso tempo?
Por enquanto, não me refiro ao mundo. Ali, isso é tão patente, tão evidente: a inutilidade, a dor e o esgotamento de todos neste mundo que, à parte de Cristo, tentam harmonizar o universo e produzir um estado de completo acordo.
Não há visão mais desesperadora e dolorosa. Sentimos uma compaixão imensa pelos homens que dedicam a vida a esse trabalho. Estão destinados e condenados ao fracasso. Todo mecanismo criado para resolver essa ruptura se torna uma contradição em seu próprio nome: “Nações Unidas” — mas as nações não estão unidas.
Mas não é nisso que estou pensando. Será que nós, queridos amigos, realmente compreendemos, no íntimo do nosso ser, a importância, o verdadeiro significado da Igreja de Deus, o Corpo de Cristo?
Para muitos cristãos, o ensino do Novo Testamento sobre a Igreja e o Corpo de Cristo é muito interessante. Pode ser fascinante.
Mas aquilo que temos no Novo Testamento acerca da Igreja, acerca do Corpo de Cristo, remonta diretamente àquela ruptura primordial no universo — àquela divisão.
Esta Igreja, o Corpo de Cristo, é escolhida por Deus e destinada por Deus a expressar Seu Filho na destruição da morte. Portanto, assim que você se coloca real e verdadeiramente — não intelectualmente, não apenas teologicamente, mas de fato — sobre o fundamento da Igreja, sobre o fundamento do Corpo, você entra no conflito dos séculos, muito além de qualquer outro tipo de conflito.
O mesmo que provocou a cisão no céu entre os anjos, e depois provocou a mesma cisão na terra entre Deus e o homem, concentra sua oposição contra isto como contra nenhuma outra coisa: que, em Jesus Cristo, aquela obra seja desfeita e aquele mal seja reparado.
Por isso, a batalha é intensa. Sempre que o inimigo consegue — e penso que ele consegue bastante, levando as pessoas a adotar intelectualmente a verdade da Igreja e depois violá-la espiritualmente —, ele ri. Ele ama os hipócritas. Ri da Igreja. Parabeniza a si mesmo porque, afinal, sua obra original não foi tão desfeita assim.
Ah, estamos envolvidos nisso, e devemos reconhecer que, quando a revelação da Igreja vem por meio do apóstolo Paulo e é registrada nos maiores documentos já dados à humanidade, você se encontra ali mesmo em conflito com principados e potestades da maldade por causa da Igreja.
Isso deveria nos esclarecer. Deveria nos pôr de pé. Deveria ser uma grande advertência para nós. Não estamos lidando com mero ensino. Não estamos lidando com uma doutrina, ainda que seja uma doutrina grandiosa em ensino e verdade. Estamos na batalha desesperada de todos os séculos.
Trata-se de Deus ter designado Seu Filho para ser o horizonte dentro do qual toda aquela revolta, cisão e ruptura primordial será finalmente desfeita.
Você e eu devemos permanecer em Cristo. Não devemos sair para o terreno do homem natural. Não poderia haver testemunho mais glorioso da verdade de Cristo como Cabeça e de Seus membros como Seu Corpo.
Você está cansado da verdade da Igreja, cansado da doutrina, cansado do Corpo de Cristo; diz que já sabe tudo a respeito? Que Deus tenha misericórdia de você. O inimigo causará estragos em sua vida se você não tiver reconhecido, no coração, que aquilo que aconteceu no céu e na terra está presente aqui hoje como o campo de batalha — a batalha dos séculos.
Bem, sendo esse o contexto de tudo, vimos então que se segue a obra dupla de Deus desde o princípio: de um lado, a obra destrutiva de Deus para desfazer tudo isso.
Sempre que Deus tomava alguém em Suas mãos, em conformidade com Seu propósito final em Seu Filho, começava naquela vida, ou naquele povo, a disciplina — a disciplina do desmantelamento.
Desse lado, queridos amigos, não posso lhes oferecer perspectiva mais feliz do que esta: se vocês realmente se alinharem com o propósito de Deus, um dos aspectos de Seu tratamento com vocês será este: vocês serão desfeitos, e completamente.
Virá a hora em que vocês clamarão:
“Ai de mim, porque estou perdido!”
“Miserável homem que eu sou!”
Esse é um lado. A disciplina de Deus deve desfazer aquilo em que há antagonismo à vontade de Deus, independência de vida e contradição à absoluta unidade e harmonia de Cristo em Seu Corpo.
Mas, graças a Deus, há o outro lado: a reconstituição sobre a base divina, segundo a visão divina.
Essas duas coisas prosseguem em toda vida cristã verdadeira. De um lado: enfraquecimento, esvaziamento, desmantelamento, tornando-nos cada vez mais conscientes de nossa incapacidade e impotência. Contudo, do outro lado, Cristo Se torna cada vez mais a luz, a sabedoria, o tudo.
Cristo é o horizonte de Deus.
Tudo isso é prefigurado na escolha de Israel por Deus e em Seu tratamento com Israel, Seu povo escolhido. Devemos estudar o Antigo Testamento desse ponto de vista: a prefiguração disso — como Deus de fato disciplinou, quebrantou, desfez e abateu aquele povo; e, do outro lado, como procurou redimi-lo segundo Seu próprio propósito.
Já nos referimos a alguns desses homens, como Abraão, Moisés e Davi. Devemos voltar a Davi. Essas duas coisas são tão evidentes em seu caso.
Muito humano — muito humano —, com todas as fraquezas da humanidade mais frágil presentes nele; contudo, a avaliação que Deus faz daquele homem é maravilhosa. É sempre surpreendente:
“Achei Davi, homem segundo o Meu coração, que fará toda a Minha vontade.”
Bem, vocês veem as duas coisas em sua vida, como exemplo e representante de toda a nação. De um lado, Deus tem um homem quebrantado, humilhado, prostrado com o rosto diante Dele; um homem que, mesmo quando culpado do pecado mais triste e trágico, se prostra diante de Deus com aquelas expressões de arrependimento, aqueles clamores de um coração quebrantado.
Ali estão eles — os Salmos pungentes de um homem quebrantado diante de Deus:
“O meu pecado está sempre diante de mim.”
“Cria em mim um coração puro, ó Deus.”
E assim por diante.
Do outro lado, quanto de Cristo encontramos em Davi e nos Salmos! Eles estão simplesmente cheios de Cristo. Seus grandes Salmos proféticos e messiânicos brotaram de seu próprio coração. Ele entrou muito profundamente na experiência de Cristo.
As próprias palavras que o Senhor Jesus usou em Sua paixão vieram de Davi — vieram daquele coração quebrantado:
“Deus Meu, Deus Meu, por que Me desamparaste?”
Afinal, há tanto de Cristo que chega até nós por meio de Davi. E é exatamente isso: o quebrantamento para dar lugar a Cristo. Cristo é o horizonte de Deus, e, sobre a base de Cristo, segundo a linha de Cristo, Deus opera na vida de cada filho que se entrega a Ele.
Todo filho que se entrega a Deus talvez não possa fazer o que deseja, principalmente porque se entregou a Ele. É isso que acontece quando nos entregamos.
Na plenitude do tempo, Deus enviou Seu Filho: a plena expressão de toda essa história e a plena expressão de tudo aquilo que deverá ser universal em sua essência, natureza e constituição, no propósito final de Deus.
Observem certas características muito distintas da vida terrena de Cristo.
Primeiro, isto é muito claro: Sua vida em Deus, Sua vida no Pai, foi de absoluta dependência e absoluta subordinação.
Desde o princípio, Ele assume essa obra de desfazer todo aquele mal. Isso está em Sua Pessoa. Ele é perfeitamente sujeito à vontade do Pai. Em outras palavras, Ele está em Deus; Ele permanece em Deus.
Outra coisa que fica muito clara quando vocês leem Sua vida é o esforço contínuo e multifacetado do adversário para tirá-Lo de Seu lugar em Deus; para tirá-Lo daquela posição que ocupava; e para colocá-Lo, como o último Adão, onde colocou o primeiro Adão — fora do horizonte de Deus, fora de Deus.
Todo o poder maligno do adversário se concentra nisso: levá-Lo a sair de Sua esfera correta em Deus.
Mas a terceira coisa também é muito clara: Sua plena vitória mediante a obediência mais completa, mais profunda, à vontade de Deus — até mesmo à Cruz.
O custo infinito que isso representou para o Filho de Deus é algo que você e eu, por mais que venhamos a compreender aqui, jamais conheceremos até que a eternidade o revele. Que custo a obediência representou para o Filho de Deus!
Mas, mediante esse custo infinito, a obra é concluída. Está escrito pelo apóstolo:
“Para isto o Filho de Deus Se manifestou: para destruir as obras do diabo.”
Muitas vezes, quando pensamos nisso, pensamos Nele fazendo algo no âmbito externo. Vocês precisam lembrar que, fosse o que fosse que houvesse nesse âmbito externo, isso foi realizado em Sua própria natureza; foi realizado em Seu próprio coração; foi realizado em Seu caráter.
Ele destruiu as obras do diabo em Adão. Destruiu as obras do diabo no céu — naquela ruptura — por meio dessa inteireza, dessa perfeição de coração para com a vontade de Deus.
Nenhum coração dividido; nenhuma vida dividida. Seu coração é inteiro; Seu coração é uno. E permanece uno em cada hora de teste, provação, pressão e tentação, mantendo essa unidade até o fim:
“Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito.”
Ele desfez em Si mesmo as obras do inimigo — em Sua própria Pessoa.
Agora, isso nos leva ao próximo passo nessa vida terrena: por um pouco de tempo, consideremos a tentação do Senhor.
Ontem nos ocupamos de Seu batismo em conexão com essa questão primordial. É muito importante que vocês não tomem essas coisas apenas como episódios da vida de Cristo na terra, mas que as relacionem à única questão suprema. Todas estão relacionadas.
Então chegamos às Suas tentações no deserto, e todas fazem parte de um mesmo todo — são uma só coisa em seu significado e em sua relação. Vocês precisam ver como as tentações no deserto estavam intimamente ligadas ao Seu batismo. Elas se correspondem: são dois lados de uma mesma coisa.
Quando Ele saiu da água, o céu se abriu, o Espírito pousou sobre Ele, e a voz do céu disse:
“Este é o Meu Filho amado.”
Primeiro, o Espírito — a unção. Essa era a base e a força dinâmica do conflito. Naquele momento de entrega à vontade de Deus em Seu batismo, Ele passaria a viver, trabalhar, andar e fazer tudo no Espírito e pelo Espírito.
Mas qual era o significado de o Espírito vir sobre Ele naquele momento, repousar sobre Ele e estabelecer Nele Sua morada? Não era o estabelecimento desse próprio vínculo com o Pai?
Como Homem e como Servo de Deus, o Filho do Homem, Ele aceitou uma base de dependência e aceitou a lei da submissão. O Espírito Santo veio e estabeleceu esse vínculo, essa união do Filho do Homem com o Pai.
O Espírito formou essa união, criou essa união, estabeleceu essa união. Trata-se de estar unido ao Pai no Espírito — não agora em Sua divindade como o Filho eterno, mas agora como Filho do Homem em Sua missão, em Seu amor, para nossa redenção.
Sobre isso veio a confirmação da filiação: o Espírito formando o vínculo, a comunhão, a união; e então a confirmação:
“Meu Filho, Meu Filho.”
Imediatamente, vocês precisam voltar os olhos para aquele princípio. Seu batismo e Sua tentação nos levam diretamente de volta àquele ponto, pois este é o horizonte de Deus para desfazer e para realizar neste universo: “Meu Filho”, Aquele que foi eternamente designado e destinado a ser a esfera do propósito e da experiência divinos.
Isso avança progressivamente no tempo e se consuma na eternidade, alcançando a natureza e a relação finais dos filhos de Deus — filhos de Deus pela operação do Espírito Santo, a começar pelo novo nascimento.
Ora, essa talvez seja a verdade mais gloriosa que um mortal possa conhecer. Essa deveria ser a coisa mais gloriosa que você e eu conhecemos: em Cristo, a verdade de Deus acerca de Jesus, com tudo o que está ligado a ela desde a eternidade.
Mas, por outro lado, essa é a coisa mais aterradora, a mais desconcertante para o adversário. Não há nada que ele tema mais, e nada que o incite mais, do que isso. Ele vê nessa relação, selada pelo Espírito Santo, com o Pai do Filho e dos muitos filhos que Ele levará à glória, o desfazimento final de todas as suas obras.
Se isso prosseguir, então a desesperança, a inutilidade e a frustração estarão estampadas sobre tudo o que ele fez antes de o mundo existir, no céu, e sobre tudo o que tem feito depois da criação e ao longo dos séculos. Tudo será desfeito se isto se tornar efetivamente verdadeiro: que essa relação entre o Filho do Homem e o Pai se torne a relação entre toda uma raça e Deus, sobre a base da filiação por meio do Espírito Santo.
Não admira que haja conflito nesse terreno.
É bom poder identificar com precisão o significado das coisas. Assim, chegamos a essa tentação no deserto.
É impressionante que seja Marcos quem realmente nos apresenta toda a força do que aconteceu. Mateus e Lucas nos dizem que Jesus foi conduzido pelo Espírito ao deserto. Marcos, cujo relato é mais original que os outros, como vocês sabem — e cremos que Pedro teve muito a ver com a redação do Evangelho que leva o nome de Marcos —, diz que Jesus foi impelido pelo Espírito ao deserto.
Pedro era um dos companheiros mais íntimos de Cristo, e esse relato da tentação só poderia ter vindo do próprio Cristo. Ninguém mais estava lá. Portanto, Ele deve tê-lo transmitido ao Seu companheiro mais íntimo.
E, vindo dessa maneira, como o mais original dos relatos, a declaração de Marcos é que Jesus foi impelido pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo.
O Espírito que viera sobre Ele na unção agora O cingiu e O impeliu ao deserto para ser submetido a essa provação universal — universal porque a filiação está no centro dela.
“Se Tu és o Filho…”
Vejam, o que o inimigo tentava fazer naquelas tentações era introduzir uma cunha entre Cristo e Seu Pai.
Ele tentava colocar esse último Adão fora do horizonte de Deus, como fizera com o primeiro Adão; levar Cristo a Se mover, a agir, a proceder com independência, sem consultar o Pai e sem Se submeter ao Pai.
Levá-Lo a agir por Si mesmo — essa é a raiz da tentação: tirá-Lo de Deus. Fora de Deus — é isso.
Se vocês não entendem isso, tenham ou não muita experiência espiritual ainda, irão aprender: toda a atividade do inimigo visa se interpor entre nós e Deus. De alguma maneira, de alguma maneira, colocar-se entre nós e o Senhor; introduzir a ponta fina da cunha e depois cravá-la até o fim — afastados do Senhor, separados do Senhor.
É isso que ele está fazendo, e é isso que tenta aqui no deserto. Toda essa questão de permanecer em Deus — permanecer em Deus — era o campo de batalha: viver em Deus, viver a partir de Deus e nem sequer usar poderes concedidos por Deus para fins pessoais.
Evidentemente, durante quarenta dias e quarenta noites, o Senhor estava considerando tudo o que estava implícito naquele contexto — na visão que havia recebido. Ele havia Se entregado em Seu batismo, entregado à vontade de Deus, para ser inteiramente de Deus. Ali, pelo Espírito de visão, havia visto o que estava no fim. Ele compreendia o significado da filiação.
Agora, então, a visão seria submetida a uma grande prova.
Ao que parece, durante todo aquele período de quarenta dias e quarenta noites, Ele estava considerando profundamente o que estava envolvido nesse tremendo empreendimento. Observem bem: somente ao fim dos quarenta dias e quarenta noites o diabo veio a Ele.
O que havia acontecido durante todo aquele tempo? Bem, só posso concluir que Ele havia Se comprometido com algo que agora estava encarando de frente. Isso precisava ser compreendido. Era necessário apreender realmente o que aquilo significava.
Queridos amigos, isso também é verdade na vida cristã. Se vocês derem qualquer passo de entrega ao Senhor, se receberem alguma visão do grande propósito do Senhor e se entregarem a ele, não demorará muito para que sejam submetidos à mais terrível prova quanto à sua visão.
Veremos, em outra conexão, como isso se aplicou a outros, mas aqui está Cristo. Então veio o diabo.
Houve um longo período de consideração, contemplação, ponderação e, naturalmente, um tempo de provação nesse empreendimento. Sozinho — sozinho. Ninguém mais por perto. Ninguém mais ali. Talvez houvesse até mesmo uma sensação de que Deus havia Se retirado Dele.
Então veio o diabo, e temos essas tentações.
Não vou me deter na primeira; vocês a conhecem tão bem. Em Sua fome, Seu esgotamento e a fraqueza de Seu corpo:
“Se Tu és o Filho de Deus, manda que estas pedras se tornem pães.”
É aí que começa: usa Teu próprio poder, dado por Deus, para Teus próprios fins egoístas, para Tua própria salvação, para Teu próprio bem.
Uma coisa certa a fazer, uma coisa legítima: salva Tua vida. Vocês ouvem o Senhor Jesus dizer mais tarde:
“Aquele que salvar a sua vida perdê-la-á.”
Salva Tua vida. Isso está certo, não está? Por que desperdiçar Tua vida?
Bem, perguntem a qualquer servo de Deus verdadeiramente entregue e consagrado, que talvez tenha ido para uma terra distante e entregado a própria vida. E não apenas ali. Se esse é o custo do grande propósito de Deus — desfazer a obra do inimigo —, então:
“Aquele que salvar a sua vida perdê-la-á; e aquele que perder a sua vida por Minha causa achá-la-á.”
Salvar a própria vida: uma coisa muito legítima e adequada a fazer. Por que desperdiçar sua vida?
A questão é: o Senhor quer que entreguemos nossa vida? Não o que a razão diz, não o que os homens dizem, não o que o diabo diz, mas será que o Pai nos pede que derramemos nossa vida, que abramos mão dela?
Não é esse o grande princípio, o princípio básico desse propósito universal e final — pessoas que abrem mão de sua vida, que não consideram sua vida preciosa para si mesmas, que derramam sua vida na vontade de Deus?
Isso não defende nenhuma ação temerária ou presunçosa; deve, porém, decorrer de nosso relacionamento com o Senhor.
A segunda tentação — e ela precisa ser tratada tão rapidamente. Penso, queridos amigos, que a única maneira de medir correta e adequadamente a força da segunda tentação é ler uma parte das Escrituras.
A segunda tentação: o diabo O leva ao pináculo do templo e diz:
“Se Tu és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo.”
Então, toda a sutileza daquilo:
“Está escrito: Ele dará ordens aos Seus anjos a Teu respeito; e eles Te sustentarão nas mãos, para que não tropeces com o Teu pé em alguma pedra.”
Citar as Escrituras, extrair da Bíblia sua tentação!
O que isso significava? Como eu disse, a única maneira de compreendê-lo adequada e corretamente é ler algo. Vou ler na Nova Tradução; penso que ela torna o relato mais vívido.
Então levaram Jesus à casa do sumo sacerdote, onde estavam reunidos todos os principais sacerdotes, os anciãos e os doutores da lei. Pedro O seguiu de longe, até entrar no pátio do sumo sacerdote. Ali permaneceu, sentado entre os guardas e aquecendo-se junto ao fogo.
Os principais sacerdotes e todo o conselho procuravam provas contra Jesus que justificassem uma sentença de morte, mas não as encontravam. Muitos davam falso testemunho contra Ele, mas suas declarações não concordavam. Alguns se levantaram e deram este falso testemunho contra Ele: “Nós O ouvimos dizer: ‘Derrubarei este templo feito por mãos humanas e, em três dias, construirei outro, não feito por mãos humanas.’” Mas nem mesmo nesse ponto seus testemunhos concordavam.
Então o sumo sacerdote se levantou em seu lugar e interrogou Jesus: “Não tens resposta às acusações que estas testemunhas apresentam contra Ti?” Mas Ele permaneceu em silêncio e nada respondeu. Novamente o sumo sacerdote O interrogou: “És Tu o Messias, o Filho do Bendito?” Jesus disse: “Eu Sou; e vereis o Filho do Homem sentado à direita de Deus e vindo com as nuvens do céu.”
Então o sumo sacerdote rasgou suas vestes e disse: “Precisamos chamar mais testemunhas? Ouvistes a blasfêmia. Qual é a vossa opinião?” Seu julgamento foi unânime: Ele era culpado e deveria ser morto. Alguns começaram a cuspir Nele, vendaram Seus olhos e O golpearam com os punhos, gritando: “Profetiza!” Os homens do sumo sacerdote se lançaram sobre Ele com golpes.
Enquanto isso, Pedro ainda estava no pátio, embaixo. Uma das criadas do sumo sacerdote passou e o viu ali, aquecendo-se. Olhou para seu rosto e disse: “Tu também estavas com esse homem de Nazaré, Jesus.” Mas ele negou: “Não sei de nada. Não entendo o que queres dizer.” Então saiu para o alpendre. A criada o viu ali novamente e começou a dizer aos que estavam por perto: “Ele é um deles.” Novamente ele negou. Pouco depois, os que estavam por perto disseram outra vez a Pedro: “Certamente tu és um deles. Só podes ser. És galileu.” Então ele começou a praguejar e, sob juramento, disse: “Não conheço esse homem de quem falais.” Então o galo cantou pela segunda vez. Pedro se lembrou de como Jesus havia dito: “Antes que o galo cante duas vezes, tu Me negarás três vezes.” E caiu em pranto.
Quando amanheceu, os principais sacerdotes, tendo elaborado seu plano com os anciãos, os doutores da lei e todo o conselho, puseram Jesus em correntes. Então O levaram e O entregaram a Pilatos. Pilatos Lhe perguntou: “És Tu o Rei dos judeus?” Ele respondeu: “Tu o dizes.”
Os principais sacerdotes apresentaram muitas acusações contra Ele. Pilatos O interrogou novamente: “Nada tens a dizer em Tua defesa? Vês quantas acusações estão apresentando contra Ti.” Mas, para espanto de Pilatos, Jesus não deu mais nenhuma resposta.
Na época da festa, o governador costumava libertar um prisioneiro a pedido do povo. Aconteceu que um homem conhecido como Barrabás estava então preso com os rebeldes que haviam cometido homicídio durante a revolta. Quando a multidão apareceu pedindo o favor habitual, Pilatos perguntou: “Quereis que eu vos solte o Rei dos judeus?” Pois sabia que era por inveja que Lhe haviam entregado Jesus. Mas os principais sacerdotes incitaram a multidão a pedir que ele libertasse Barrabás em vez de Jesus. Pilatos lhes falou novamente: “Então, que farei com o homem a quem chamais Rei dos judeus?” Eles gritaram: “Crucifica-O!” “Por quê? Que mal fez Ele?”, perguntou Pilatos. Eles gritaram ainda mais alto: “Crucifica-O!”
Assim, Pilatos, desejando satisfazer a multidão, soltou-lhes Barrabás; e, depois de mandar açoitar Jesus, entregou-O para ser crucificado.
Então os soldados O levaram para dentro do pátio e reuniram toda a tropa. Vestiram-No de púrpura e, tendo trançado uma coroa de espinhos, colocaram-na sobre Sua cabeça. Então começaram a saudá-Lo: “Salve, Rei dos judeus!” Batiam em Sua cabeça com uma cana, cuspiam Nele e depois se ajoelhavam, prestando-Lhe uma homenagem de escárnio. Quando terminaram de zombar Dele, tiraram-Lhe a púrpura, vestiram-No com Suas próprias roupas e O levaram para fora, a fim de crucificá-Lo.
Não precisamos ir além disso.
“Lança-Te do templo, e evitarás tudo isso. Encontrarás aceitação em Tua nação. Tu Te tornarás a figura popular do momento. Conquistarás muitos seguidores. Nenhuma Cruz surgirá em Teu caminho. Poderás ter tudo isso sem pagar esse preço.”
Jesus sabia o que estava por vir? Temos muitas evidências de que Ele sabia o que estava por vir. Ele conhecia a Bíblia. Sabia que o Antigo Testamento descrevia tudo isso. Sabia o que O aguardava.
Ah, a tentação — o esforço para se interpor entre Ele e a vontade do Pai! Por fim, Ele diz:
“Não beberei Eu o cálice que o Pai Me deu?”
A vontade de Meu Pai.
O que isso significa? Bem, na balança: de um lado, aceitação popular; do outro, rejeição completa. De um lado, um caminho barato e fácil; do outro, o custo mais elevado. De um lado, grande reputação entre os homens; do outro, desprezado e rejeitado pelos homens.
De um lado, posição temporal, prestígio, aceitação e vantagens materiais; do outro, a perda de tudo isso em favor da plenitude eterna.
De um lado, Ele mesmo, apenas Ele mesmo; do outro, o mundo. Ele poderia salvar a Si mesmo — mas e o mundo? E o mundo?
Aquela tentação visava apenas Seu próprio interesse pessoal. Recusá-la significava assumir a causa do mundo.
De um lado, concessões — concessões para obter sucesso. “Tu podes ter isso.”
Não é estranho como, quando alguém se recusa a pagar o custo de prosseguir com o Senhor na plenitude de Seu caminho e poder, e escolhe a coisa menor, o diabo lhe dá muito? Vocês percebem isso? Prosperar neste mundo. Há outras pessoas que passam por dificuldades — pessoas inteiramente de Deus —, enquanto o diabo simplesmente dá bastante àqueles que escolhem o caminho menor.
Se você apenas, se você apenas o servir, seguir o caminho dele, por enquanto ele lhe pagará bem. Mas que Deus o ajude na eternidade.
Foi isso que o Senhor Jesus enfrentou. Não me atrevo a me deter para falar da terceira tentação; já me estendi demais. Observem, porém: ele Lhe mostrou todos os reinos deste mundo e disse:
“Tudo isto Te darei, se, prostrado, me adorares.”
Ah, agora está revelado. O segredo cósmico foi revelado. Era isso que ele buscava; foi isso que ele disse. O que buscava na grande revolta era conquistar tudo para si, para que o adorassem no lugar de Deus. Isso esteve presente ao longo de todo o percurso. Agora está revelado.
O diabo, em seu desespero, traiu a si mesmo. Deixou escapar o segredo final.
O princípio, repetimos, em toda relação com a plenitude final de Deus, é o princípio da renúncia de si mesmo: a renúncia dessa vida centrada no eu, de todo interesse próprio e de toda autopreservação, pelo Senhor e na vontade de Deus.
Tenham sempre esse objetivo positivo: pelo Senhor, na vontade de Deus.
Visitem muitos mosteiros, e lhes dirão que vivem sobre a base da renúncia ao mundo. Mas isso é negativo; tudo aquilo não é pelo Senhor.
Mas esse é o princípio: na vontade de Deus, na vontade de Deus. Nenhuma concessão. Nenhum abandono do terreno. Nenhuma ação sobre uma base de independência. Firmados no próprio Deus; permanecendo sobre o fundamento de nossa união, no Espírito Santo, com a vontade de Deus.
Este é um encerramento abrupto, mas vocês podem enxergar muito além do que eu disse.