Antes de lermos novamente aquelas passagens que temos considerado nos encontros anteriores desta temporada, permitam-me dizer que realmente sinto que o Senhor tem algo de importância vital para nos dizer neste momento.
Não estamos aqui, e eu não estou aqui ministrando, apenas para apresentar uma série de mensagens, uma porção de ensinamentos da Bíblia; mas, antes, para que haja uma palavra do Senhor para este tempo.
Não sei como vocês veem isso, se pensam nisso ou não, mas, se me permitem falar por mim mesmo, encaro estes momentos com um pensamento muito sério e solene diante do Senhor: que haja uma palavra Dele para esta hora.
Vocês me perdoarão se eu disser que, de minha parte, nestes momentos sempre tenho em mente que esta pode ser a última vez, a última conferência em que ministro. Estão ouvindo?
Com esse pensamento, sou ainda mais fervoroso ao falar, para que não haja apenas palavras, mas uma mensagem — e uma mensagem Dele. Digo isso para procurar envolvê-los na seriedade de um momento como este, caso o Senhor deseje falar conosco para esta hora.
Minha percepção é que é assim. Não sei se vocês que estiveram aqui até agora conseguiram discernir a mensagem essencial em tudo o que foi dito. Quero concentrar-me nisso esta noite e, com a ajuda do Senhor, procurar ajudá-los a enxergar qual é essa palavra que creio que o Senhor deseja que recebamos neste momento.
Dito isso, vamos ler novamente o início do livro das profecias de Jeremias.
Jeremias 1:4-10:
Ora, veio a mim a palavra do Senhor, dizendo:
Antes que Eu te formasse no ventre, Eu te conheci,
E, antes que saísses da madre, te santifiquei;
Às nações te constituí profeta.Então disse eu: Ah, Senhor Deus! Eis que não sei falar; porque sou uma criança.
Mas o Senhor me disse: Não digas: Sou uma criança;
Porque a todos a quem Eu te enviar irás,
E tudo quanto Eu te mandar falarás.
Não temas diante deles;
Porque Eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor.Então o Senhor estendeu a Sua mão e tocou na minha boca;
E o Senhor me disse: Eis que ponho as Minhas palavras na tua boca:
Olha, ponho-te neste dia sobre as nações e sobre os reinos,
Para arrancares, e derribares, e destruíres, e arruinares,
E para edificares e plantares.
Atos 1:8:
Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo;
E sereis Minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria,
E até aos confins da terra.
Agora, como eu disse, esta noite estamos nos concentrando no cerne das coisas, retomando alguns pontos para colocar tudo em foco: o cerne da Bíblia, o cerne do cristianismo, da vida cristã, o cerne da nossa experiência cristã e de todo o agir de Deus e de todos os Seus caminhos para conosco, para com o Seu povo.
É a comunhão com Ele mesmo para o cumprimento de uma vocação.
Comunhão com Deus tendo em vista uma vocação — não a comunhão como algo em si mesma, ou como um fim em si mesma, mas a comunhão para o cumprimento de uma vocação no tempo e na eternidade.
Se vocês mantivessem isso sempre em mente, o tempo todo, isso explicaria tudo. Essa é a explicação da Bíblia do início ao fim e de tudo o que nela se encontra: desde a criação do homem e a criação do mundo até a gloriosa consumação.
Comunhão. Aquela declaração final, gloriosa e maravilhosa:
E os Seus servos O servirão;
E verão o Seu rosto.
Isso é vocação em comunhão, se é que significa alguma coisa. Vocês sabem que isso está no final da Bíblia, quando os séculos dos séculos tomam o lugar do tempo.
Agora, quero ser muito cuidadoso — não estou preocupado em pregar; quero conversar e ter certeza de que, de minha parte, o que é dito seja explicado com cuidado. Quero que vocês entrem nisso comigo. Empenhem-se em procurar compreender e apreender o que está sendo apresentado.
Tomamos esses versículos do início do grande ministério de Jeremias — grande em todos os sentidos, estendendo-se por cerca de quarenta e cinco anos, tão pleno e tão significativo. Vimos como começou: como o Senhor colocou Sua mão sobre ele, como o Senhor lhe falou, o que o Senhor lhe disse e qual foi sua grande comissão.
Acompanhem esse fio condutor, meus amigos, e vocês verão tudo isso se desenvolvendo, de capítulo em capítulo, até o fim. Aquele início, com todo o seu conteúdo, vai se desdobrando.
Ora, Jeremias é um profeta representativo. Vocês podem ter suas preferências entre os profetas e, quando me ouviram dizer que considero Jeremias o maior dos profetas, talvez não tenham concordado, porque gostam mais de Isaías ou de algum outro. Bem, isso não importa.
Jeremias é um profeta para a nação, por meio da nação, e representa a função e o ministério proféticos.
Agora, o que quero que vocês compreendam é isto: não importa nem um pouco quem eram os profetas. Não importa que houvesse profetas com esses nomes — Isaías, Jeremias, Ezequiel, Daniel, Oseias e todos os demais. Vocês podem deixar os nomes de lado e, se quiserem, em certo sentido, deixar os homens de lado enquanto homens.
Mas precisam guardar e apreender isto: esses homens exerciam uma função, uma função divina e celestial, entre o povo de Deus e neste mundo. Vocês precisam compreender a função — isto é, aquilo que Deus estava fazendo por meio deles.
Isso não se limita aos profetas do Antigo Testamento, aos profetas de Israel. Há profetas na igreja do Novo Testamento. A igreja do Novo Testamento assume essa função.
Não nos são dados os nomes de todos os profetas da igreja do Novo Testamento, mas nos é dito que eles estão ali:
E Ele deu uns para apóstolos; e outros, para profetas.
É o Senhor, em Seus dons à igreja. Visto que Ele não identificou todos pelo nome na igreja do Novo Testamento — suponho que Paulo fosse um deles, e alguns dos outros que conhecemos pelo nome exercessem esse ministério específico —, isso não importa. Apenas confirma o que estou dizendo: é a função que importa, não o nome ou a pessoa. É a função.
Essa função vem de muito antes de Isaías, Jeremias e Ezequiel. Abraão era profeta, chamado de “o profeta”. Tudo começou muito antes. E isso segue adiante.
A função — a que ela estava relacionada? A esta única coisa central e fundamental: toda a questão da nossa comunhão com Deus para o cumprimento de uma vocação. Vocês podem levar isso à Bíblia, e a Bíblia comprovará que está certo: comunhão com Deus, um relacionamento real com Deus em unidade de coração, para o cumprimento de uma vocação.
Ora, esse ministério profético e os profetas, em seu ministério, em sua obra, não estavam voltados para si mesmos nessa questão, mas para o povo. Deus pretendia ter a humanidade nessa posição — um povo nesse relacionamento, cumprindo essa vocação. Eles eram os profetas de Israel.
Todo o propósito da vida deles era que Israel, como nação, como povo, estivesse nesse relacionamento com Deus — uma comunhão para o cumprimento de uma vocação mundial. Foi por isso que Deus escolheu Israel e o colocou no centro das nações: para que, nesse relacionamento particular e singular com Ele mesmo, em comunhão, cumprisse uma vocação divina entre as nações e para as nações.
Isto é, para que, em resposta às iniciativas de Deus, todos os homens pudessem entrar nesse relacionamento. O mundo inteiro tinha a possibilidade de entrar nesse relacionamento com Deus.
Não se enganem quanto a isso, queridos amigos. Nossa maneira de falar muitas vezes revela nossa cultura e nossa concepção. Com tanta frequência ouvimos pessoas, em oração e em outras ocasiões, falando dos “redimidos na terra”, orando pelos redimidos; e a mentalidade é que “os redimidos” são sinônimo dos fiéis. Não são. Não são.
Todo filho de Adão foi redimido. Todo filho de Adão foi redimido pela cruz do Senhor Jesus. Não há homem, mulher ou criança nesta terra que não tenha sido redimido.
A grande tragédia — a tragédia dupla — é que tão poucos sabem que foram redimidos, e que tantos dos que foram redimidos não querem aceitar sua redenção. O juízo, vejam vocês, se baseará nisso: na recusa de algo tão custoso, que está à disposição deles por direito. Bem, isso é uma observação à parte.
A função que procede dessa comunhão é fazer as nações saberem o que Deus fez por elas por meio da cruz de Seu Filho e conduzi-las àquele relacionamento com Deus que significa que as nações terão a Ele mesmo. Mas voltemos: é isso que se entende por ministério profético.
Não pensem nos profetas ou no ministério profético como algo restrito a determinado grupo religioso, a certa classe de pessoas. Falamos, em termos do Antigo Testamento, de sacerdotes, profetas e reis. Ah, quanto precisa ser feito em nossa mentalidade a esse respeito!
A igreja de Jesus Cristo é chamada ao grande ministério profético por meio da comunhão com Ele. É uma nação profética para as nações. Se vocês fazem parte dela, fazem parte disso. Podem chamar a si mesmos de profetas, se quiserem; é melhor não fazê-lo. Mas isso é verdade, se vocês realmente estão nisso: sua função, sua vocação, vai muito além de vocês mesmos e do que os cerca. De alguma forma, ela alcança os confins da terra.
Mas estou me adiantando. Esse é o significado daquilo que, no Antigo Testamento, é o ministério e a obra dos profetas. É um ministério que não termina neles, não se restringe a eles; é um ministério que continua adiante. E, enquanto houver necessidade dessa função específica, ela continuará até o fim.
Agora vocês veem que, embora isso fosse verdadeiro — e seja tão evidentemente verdadeiro — a respeito daqueles chamados profetas no Antigo Testamento, essa era a verdadeira natureza, a essência, o cerne do discipulado.
Os próprios discípulos do Novo Testamento, os discípulos de Cristo, tornaram-se discípulos sobre esta base:
E constituiu doze, para que estivessem com Ele e para que os enviasse.
Essas duas coisas sempre caminham juntas. O discipulado se apoia nisso. Talvez vocês não estejam dispostos a se chamar por nenhum dos outros nomes, mas tenho certeza de que estariam dispostos a se chamar de discípulos, se pertencem ao Senhor.
Ao menos, esse é o nosso relacionamento com Ele: o de discípulo. Seja qual for o significado disso — um seguidor, alguém que é ensinado, alguém que está sob instrução —, é justamente esse relacionamento básico, inicial, com Ele: o de discípulo.
Mais uma vez, o discipulado — os primeiros fundamentos da vida cristã — se apoia nessa comunhão e nessa vocação.
O apostolado: novamente, traçamos um círculo em torno de determinada classe e os chamamos de apóstolos. Bem, é claro que, em certo sentido, isso está correto, mas, em outro sentido, está errado. Cada um de nós é um enviado. Se vocês não têm essa consciência de que são enviados, então há algo deficiente em sua vida cristã.
Talvez vocês sejam enviados apenas para uma tarefa muito breve, dentro de um limite geográfico muito pequeno, mas estão ali como enviados por Deus. Apóstolo significa simplesmente isso: um enviado. Todo o conteúdo do apostolado é justamente este: comunhão para o cumprimento de uma vocação.
Quando vocês deixam o aspecto individual e passam ao coletivo, lembrem-se, queridos amigos, de que, embora o livro de Atos necessariamente inclua indivíduos — todos os indivíduos de quem ele fala —, o livro de Atos trata da igreja: antes de tudo, da igreja universal, da igreja inteira.
A igreja tem sua própria existência sobre esta única base, exclusiva e abrangente. A igreja é a igreja apostólica — a igreja apostólica nesse sentido. Todo o propósito da igreja, e ela não tem outro, é ter um povo em comunhão com o Senhor para o cumprimento de uma vocação mundial.
Isso é evidente no livro de Atos. Comunhão para o cumprimento de uma vocação: essa é a explicação da igreja.
Quando vocês distribuem a igreja, da maneira correta, em igrejas — igrejas aqui e ali, plantadas pelo céu por toda a Ásia, por toda a Europa, em qualquer lugar —, qual é a ideia divina para um grupo, menor ou maior, em determinada localidade?
É a mesma: comunhão com Deus para o cumprimento de uma vocação mundial. Uma vocação mundial. As igrejas existem para isso. Vocês compreenderam isso?
Os ministérios divinamente concedidos pelo céu estão relacionados a essa única coisa. Trata-se de um ministério de instrução no grupo, voltado para a pessoa? O ministério de instrução tem como objetivo produzir estas duas coisas: uma comunhão com o Senhor que seja correta, clara, verdadeira e plena, para o cumprimento de uma vocação.
Quaisquer outras funções na igreja, ou nas igrejas, têm sempre o mesmo objetivo em vista. A presença e as atividades do Espírito Santo se fundamentam nisso e seguem essa direção. Toda disciplina, toda repreensão, toda correção, toda capacitação — tudo o que o Espírito Santo fizer diretamente ou por meio de instrumentos — tem uma coisa em vista: um relacionamento correto com o Senhor.
Vocês podem contestar isso? Podem questionar isso? Um relacionamento correto com o Senhor, com o objetivo de tornar aqueles que estão assim corretamente relacionados com Ele Seus veículos e instrumentos para um círculo mais amplo, além de si mesmos.
E Ele deu uns para apóstolos; e outros, para profetas; e outros, para evangelistas; e outros, para pastores e mestres;
Para o aperfeiçoamento dos santos, para a obra do ministério.
Infelizmente, a pontuação prejudicou essa declaração. Há uma pausa: “o aperfeiçoamento”, ou a completa formação, dos santos; e “para a obra do ministério” — os santos é que devem cumprir o ministério.
É a igreja que é o instrumento ungido do ministério. Vocês entram na igreja; entram naquilo que foi divinamente escolhido desde toda a eternidade — “Antes que Eu te formasse, Eu te conheci” —, escolhido desde a eternidade, chamado no tempo, dotado de recursos pelo céu. Vocês entram nessa igreja e chegam a um lugar em que essas duas coisas estão implícitas do ponto de vista do céu.
Aí está o próprio significado da sua vida cristã e do seu vínculo com a igreja: comunhão com o Senhor. Comunhão com o Senhor. É isso que deve existir em nossa vida cristã individual e em nossa vida em conjunto, como grupos do povo do Senhor: uma comunhão fundamental com o Senhor, mas sem parar aí — para o cumprimento de uma vocação, para o cumprimento de uma vocação. E uma vocação mundial.
Assim, vocês veem o significado desse ministério no que diz respeito aos profetas. Às vezes falavam como um trovão; outras vezes, com o coração quebrantado. Por quê? Porque sabiam. Eles sabiam, queridos amigos, aquilo que estou procurando fazer vocês saberem nesta noite.
Isto é, se esse relacionamento com o Senhor, essa comunhão real com o Senhor, que resulta nessa verdadeira vocação mundial de representá-Lo às nações, se rompesse, o próprio significado da existência deles desapareceria. Não haveria outra coisa a fazer senão Deus colocá-los de lado.
Quando Deus de fato colocou de lado algum instrumento que havia levantado para esse propósito — ainda que fosse a nação inteira, enviando-a ao cativeiro e ao exílio —, foi somente por isto: “Vocês falharam naquilo para o qual foram trazidos à existência”.
“Vocês falharam naquilo para o qual foram trazidos à existência: representar-Me às nações, expressar-Me às nações. Vocês falharam em sua vocação porque perderam sua comunhão.”
Isso resume os profetas, não é? Seu clamor, seu apelo, sua advertência, seus trovões e seu coração quebrantado.
Vocês podem ver imediatamente, se conhecem Jeremias — ele é representativo desse ministério específico —, como isso é verdadeiro. Como ele clama, falando em nome de Deus:
O Meu povo cometeu dois males:
A Mim Me deixaram, o manancial de águas vivas,
E cavaram para si cisternas, cisternas rotas,
Que não retêm as águas.
Artifícios feitos pelo homem no lugar do Deus vivo. Esse era o clamor de Jeremias — um de seus clamores. Tenho receio de trazer detalhes demais desse longo livro, mas poderia abordar uma coisa após outra para mostrar que tudo volta a isto: o povo perdeu o contato com Deus e, portanto, perdeu o contato com as nações no que diz respeito ao testemunho.
Agora, queridos amigos, vamos aplicar isso diretamente a nós mesmos, com honestidade. Quando ouço falar neste lugar, ou em qualquer outro lugar em que vocês estejam com o povo do Senhor, de que o Senhor levantou ou plantou um instrumento, um vaso, em alguma localidade, Ele o faz sobre esta única base.
Por um lado, para conduzi-lo à comunhão mais próxima, mais plena e mais profunda possível com Ele mesmo; e, por outro lado, tendo o mundo em vista — não a si mesmos em vista, não a si mesmos em vista, mas o mundo em vista.
Creiam que um testemunho mundial é sempre o pensamento de Deus em toda escolha e designação que Ele faz.
E ouçam: o essencial à própria vida de um povo assim é um senso e uma consciência predominantes de fazer parte de um ministério mundial. Esqueçam tudo o mais; guardem isso e levem isso adiante por todo o tempo que vier.
Vocês precisam, queridos amigos, individualmente, e precisam, como grupos do povo do Senhor, onde quer que estejam, se sua existência há de corresponder à mente divina, ter esta consciência predominante: de que estão ligados a um grande ministério mundial.
É aí que a batalha se intensificará. Tudo será feito para enfraquecer isso, eliminar isso, estragar isso, desmantelar isso, paralisar isso, pôr fim a isso. Vocês não veem?
Sempre que Deus agiu de maneira profética — quero dizer, segundo esse princípio de recuperar ou estabelecer algo em plenitude, de acordo com Seu pensamento —, sempre que Ele agiu, o movimento teve um horizonte amplo. Teve em vista algo muito além de si mesmo.
Nos dias de sua vitalidade, de seu frescor inicial, ah, como ele espontaneamente avançava em direção ao mundo e se tornava uma força mundial! Não era necessária nenhuma organização, nenhum sistema humano; nenhum plano, nenhum programa para fazer coisas no mundo. Simplesmente acontecia. Acontecia sem esforço, sem propaganda, sem publicidade. Acontecia, e o mundo era alcançado.
Não podemos percorrer esses movimentos? Sim, podemos mencionar tantos deles. Lá estão eles na história — coisas que Deus fez a partir do céu. O resultado foi uma maravilhosa comunhão com Ele mesmo em vida, uma maravilhosa comunhão com Ele mesmo em vida.
Tenho receio de mencionar algum em particular e acabar prejudicando o quadro. Alguns de vocês sabem: se eu destacasse o maravilhoso movimento por meio dos irmãos morávios, bem, isso é tão claro, tão evidente entre eles. Por um lado, uma comunhão bela e maravilhosa com Deus. “Maravilhosa comunhão com Deus” — seu lema; e tudo falava disso.
Que comunhão com Deus! Por outro lado, como o mundo foi alcançado naquele tempo! Sim, um testemunho mundial, um impacto mundial, inteiramente espontâneo — uma repetição do que temos no livro de Atos.
Poderíamos apontar uma coisa após outra e ver isso. E então, o que aconteceu? Então, esta é a tragédia: voltaram-se para si mesmos. Cada um deles voltou-se para si mesmo, tornou-se algo em si mesmo, traçou um círculo ao redor de si, estabeleceu um sistema rígido de ensino ao qual era preciso se conformar, ou regulamentos que era preciso observar.
Voltaram-se para si mesmos, e então — desintegração, divisão, confusão e uma paralisia crescente. Não é isso que a história mostra?
Vejam o inverso. Porque esse era o estado das coisas, primeiramente em Israel nos dias dos profetas, temos o ministério profético. Porque essa era a situação que estava se desenvolvendo nas igrejas do Novo Testamento, temos as mensagens no início do livro de Apocalipse às sete igrejas da Ásia.
É exatamente isso. Elas são candeeiros. São candeeiros. O próprio Jesus disse:
Ninguém acende uma candeia e a põe debaixo de um alqueire.
Uma candeia é um testemunho, para que todos vejam — a iluminação de todos os que estão ao seu alcance. É algo que não deve viver para si mesmo.
Esse sempre foi o perigo, sempre foi o campo de batalha: manter essa posição dupla — uma comunhão viva, sem nuvens, sem sombras, com o Senhor, e um testemunho ao mundo. Sim, começando, se quiserem, localmente, mas tendo sempre, em todo tempo, aquele horizonte muito mais distante em vista.
Isso pode ser posto à prova. É verdade. E assim funciona.
Se o Senhor precisa repreender, disciplinar e peneirar, ah, essas atividades e esses ministérios, por mais dolorosos que sejam para os envolvidos, ainda têm isto em vista: a restauração da comunhão com Ele mesmo para o cumprimento da vocação essencial.
Agora, então, vocês enfrentaram esse desafio neste exato momento? Perguntem ao próprio coração. Vocês têm, queridos amigos, em sua própria constituição como cristãos, a consciência de que não vivem para si mesmos, e não podem viver para si mesmos, mas de que estão ligados a um grande propósito, um grande propósito divino, que se estende para fora e para adiante, mobilizando sua vida? Têm essa consciência?
Se isso não é verdade, vocês entram nesta categoria:
A que vive para si mesma está morta enquanto vive.
Não é verdade? É verdade. Nossa vida, nossa própria vida, depende disto: de estarmos em união com Deus com um propósito, com uma vocação.
Isso não é pouca coisa. Isso nos leva até os confins. Os confins da terra nos dizem respeito. O Senhor quer que vamos quando estivermos prontos para ir. Mas, quer Ele nos chame aos confins da terra ou não, nosso coração chega até lá com Ele, em favor de todos os Seus interesses.
Não é sentimentalismo. É algo que faz parte do nosso ser, parte do nosso ser. Isso é verdade a respeito de vocês? Ou vocês simplesmente se acomodam confortavelmente, se acomodam em seu ninho, seja qual for esse ninho?
Lembrem-se daquelas palavras sobre o Senhor agitar o ninho e lançar os filhotes para fora. Essa não é uma experiência muito agradável. Terá de acontecer se nos acomodarmos em nosso ninho, se colocarmos um limite onde Deus não coloca limite ao nosso chamado, à nossa vocação.
Bem, talvez eu já tenha dito o suficiente. Ali estavam esses discípulos, em sua comunhão com o Senhor, sendo treinados, disciplinados, instruídos. Não eram apenas palavras. O Mestre e eles estavam envolvidos; eles passaram por momentos difíceis, por experiências dolorosas, que culminaram em toda a dor abrangente da cruz.
Tudo isso era para preparar o caminho para uma nova comunhão com o Senhor no Espírito Santo, tendo em vista sua vocação mundial: estar com Ele, para que Ele os enviasse.
Acho que talvez seja hora de parar. Muito mais poderia ser dito, muito mais está em meu coração para dizer, mas realmente sinto que esta é a palavra do Senhor. Ela se resume exatamente a esta única coisa.
Vocês e eu, cada um de nós, precisamos ser dominados e governados por um profundo senso de vocação divina em nossa existência. Essa vocação, para seu cumprimento, naturalmente exige uma comunhão com o Senhor que seja próxima, que seja pura, porque essa vocação nunca poderá ser verdadeiramente cumprida se não for assim.
É por isso que o Senhor está nos disciplinando, fazendo-nos passar tão continuamente por essas experiências, tratando conosco de maneira tão firme a respeito de coisas erradas, más, questionáveis; não permitindo que escapemos impunemente, não, mantendo-nos diante da questão e trabalhando de maneira profunda e completa, talvez até drástica. Seu objetivo é a vocação.
Se vocês não gostam da palavra “vocação”, porque parece técnica demais, trata-se de testemunho. Trata-se de ministério espiritual, que não é subir a uma plataforma aqui, ali e em toda parte com uma Bíblia, mas uma vida que conhece o Senhor, uma vida que está em comunhão com Deus.
Vocês podem deixar de lado o aspecto da pregação; podem deixá-lo de lado. Não se preocupem com o aspecto da pregação, ou do ensino bíblico, ou com alguma função específica e peculiar. Não precisam se preocupar com isso.
Jeremias chegou ao ponto de dizer:
Não farei menção Dele, nem falarei mais em Seu nome.
Mas a pregação tomou conta dele; ele não tomou conta da pregação. Ela brotou do fogo que ardia em seus ossos. Tem de ser assim.
Mas esse fogo só arde quando vocês estão em contato real com o Senhor. É aí que o fogo arde.
Bem, eu disse o suficiente? Vocês terão paciência e pedirão graça para receber isso? Lembrem-se, lembrem-se de que a maioria dos nossos inimigos, se não todos eles — e são muitos, muitos —, a maioria dos nossos inimigos tem este único objetivo como alvo: nossa comunhão com o Senhor, que resulta em nosso testemunho ao mundo.
Se o inimigo puder minar, destruir esse fundamento por qualquer meio que seja, ele o fará. Não sei quantos são os meios de que ele dispõe. Que o Senhor nos ajude a receber a palavra, a nos render a ela e a voltar, talvez com esta nova comissão, para onde quer que vocês forem.
De fato, não estou aqui apenas para estar aqui, apenas para viver neste pequeno âmbito. Não estou aqui para mim mesmo, tendo minhas circunstâncias imediatas como horizonte. Estou aqui como parte de algo muito maior.
Sou membro de uma igreja que foi trazida à existência — uma igreja universal trazida à existência — para um testemunho mundial ao Senhor. Eu influencio isso. Eu influencio isso, consciente ou inconscientemente, e, na maior parte das vezes, inconscientemente, eu influencio isso. Eu toco nisso.
Minha vida espiritual significa algo para outras pessoas do Senhor. Vocês não sabem, queridos amigos, quantos dos seus dias sombrios e momentos difíceis se devem ao fato de que algum irmão ou irmã, ou irmãos e irmãs em algum lugar, estão passando por dificuldades, e vocês estão envolvidos nisso.
Ora, esse é o ensino do Novo Testamento:
Se um membro padece, todos os membros padecem com ele.
Quantas vezes nos veio a percepção de que algum irmão ou irmã, alguns dos filhos de Deus, estavam passando por um momento difícil, atravessando um período duro, e tivemos de orar por eles — simplesmente tivemos de orar por eles.
Quando soubemos o que de fato estava acontecendo, era justamente naquele momento que eles precisavam da nossa oração, pedindo ao Senhor uma ajuda especial. Esse encargo nos foi dado. Vejam, neste grande sistema espiritual, o tempo e a geografia não têm lugar. Estamos unidos em nosso Cabeça, Cristo Jesus.
Ora, essa é outra grande questão, mas ela se aplica aqui. Pertencemos, por nosso próprio relacionamento com Cristo, a algo de grande alcance. O fator verdadeiramente vital nessa vocação de amplo alcance da igreja da qual fazemos parte é nosso relacionamento com o Senhor, nossa comunhão com o Senhor.
Que o Senhor mantenha essa comunhão pura e forte.