Sempre me impressiona como esses encontros passam depressa. No começo, pensamos: “Temos uma semana inteira juntos. Vou conversar com John; vou ter comunhão com fulano”. Então, de repente, a semana inteira passou, e chegamos ao último encontro.
Devo dizer que nunca antes tivemos um tempo tão inglês em nenhuma das conferências — ou tão dinamarquês. Esta manhã, quando me levantei, olhei pela janela e vi toda aquela vegetação pingando, pingando, achei que estava no vale de Richmond, não em Richmond, na Virgínia. Mas, para nós, é claro, tem sido um pouco mais fácil, porque, pela primeira vez, realmente senti um frescor num desses encontros.
Foi uma verdadeira alegria para mim — e sei que também falo por Johannes — estar aqui com vocês e desfrutar da comunhão e da percepção da presença do Senhor entre nós.
Gostaria de ler um ou dois versículos daquele capítulo ao qual voltamos várias vezes ao longo desta semana: Isaías 62.
Isaías 62:1-2
Por amor de Sião não Me calarei,
e por amor de Jerusalém não descansarei,
até que saia a sua justiça como um resplendor,
e a sua salvação como uma lâmpada que arde.
E as nações verão a tua justiça,
e todos os reis, a tua glória;
e chamar-te-ão por um nome novo,
que a boca do Senhor designará.
Isaías 62:6-7
Sobre os teus muros, ó Jerusalém, pus atalaias;
todo o dia e toda a noite jamais se calarão:
vós, os que fazeis lembrar ao Senhor, não descanseis,
e não Lhe deis descanso,
até que estabeleça Jerusalém,
e a ponha por louvor na terra.
Isaías 62:10-12
Passai, passai pelos portões;
preparai o caminho do povo;
aplanai, aplanai a estrada;
tirai as pedras;
arvorai um estandarte para os povos.
Eis que o Senhor proclamou até às extremidades da terra:
Dizei à filha de Sião: Eis que vem a tua salvação;
eis que o Seu galardão está com Ele,
e a Sua recompensa diante dEle.
E chamar-lhes-ão Povo Santo,
Remidos do Senhor;
e tu serás chamada Procurada,
Cidade Não Abandonada.
Vamos, então, nos inclinar juntos em oração.
Senhor, queremos simplesmente agradecer-Te ao chegarmos ao fim desta semana em que estivemos reunidos em Tua presença. Queremos agradecer-Te por toda a Tua graça, por todo o Teu amor e pela maneira, Senhor, como Te encontraste conosco.
Agradecemos-Te por aqueles que vieram a conhecer-Te como Senhor e Salvador. Agradecemos-Te por cada pessoa em cuja vida certas questões foram resolvidas. Agradecemos-Te, Senhor, por qualquer vislumbre de Ti mesmo que nos tenha sido dado, por qualquer percepção, Senhor, de que Te encontraste conosco de maneiras novas e mais profundas. Nós Te damos graças e louvor.
Ao chegarmos a este último encontro, Senhor, oramos juntos: enche-o, Senhor, de Ti mesmo. Ao voltarmos à Tua Palavra, faze com que a Tua Palavra seja viva para nós. Senhor, escreve-a em nosso coração. De algum modo, Senhor, faze com que algo realmente penetre em nós.
Agradecemos-Te pela unção que é nossa no Senhor Jesus. Mais uma vez, Senhor, tanto quem fala como quem ouve, juntos nos colocamos pela fé nessa unção, para que, Senhor, possamos receber de Ti. Que este seja um encontro Contigo. Que seja, de alguma maneira, algo que Tu realizes em nossa vida e em nossa vida conjunta como Teu povo.
Assim, Senhor, voltamo-nos para Ti com ações de graças e louvor, sabendo, Senhor, que Tu ouves a nossa oração. Nós Te agradecemos em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.
Por fim, nesta manhã, quero tomar aquela pequena expressão de Isaías 62:10:
Isaías 62:10
Passai pelos portões.
Quero perguntar a mim mesmo: o que isso realmente significa? O que significa na experiência prática?
Ora, durante toda esta semana, falamos sobre Sião. Falamos sobre o significado de Sião, um pouco sobre a importância de Sião e, por exemplo, sobre a edificação de Sião — a necessidade de cooperarmos com o Espírito Santo e de Lhe obedecermos nessa obra de edificação e conclusão de Sião.
Pensamos um pouco sobre as dores de parto por Sião: a tremenda necessidade de pessoas realmente comprometidas com o Senhor nessa questão, que sejam atalaias colocados por Ele sobre os muros de Jerusalém, que jamais se calem, nem de dia nem de noite.
Assim como Ele disse:
Por amor de Sião não Me calarei,
e por amor de Jerusalém não descansarei.
Esses atalaias sobre os muros também não devem se calar nem descansar até que Ele faça isso.
Falamos sobre a obra de Sião: toda a questão da libertação, da liberdade na qual o Senhor nos introduziu e que devemos proclamar aos outros. Devemos, por assim dizer, em nome do Senhor, realmente soltar as ligaduras da impiedade, desfazer as ataduras do jugo, deixar livres os oprimidos e despedaçar todo jugo.
Isso pode se dar, de maneira geral, em nossas comunidades e em nossa nação; pode se dar na vida de pessoas não salvas que chegam até nós; ou pode se dar em nossa própria vida. Somos instruídos a tirar o jugo do nosso meio. Temos essa obra a realizar, com amor e cuidado por aqueles que Deus nos dá e traz até nós.
É claro que ontem à noite falamos sobre o destino de Sião: aquela glória à qual Sião está destinada, para a qual foi preordenada e eleita — a glória de Deus —, e sobre o caráter de Sião, que é o próprio Cordeiro.
Bem, isso é muita coisa, não é? E deixei de fora uma coisa, que espero que vocês tenham notado. Deixei de falar sobre a batalha de Sião.
É justamente porque Sião precisa ser edificada, porque nos foi confiado um ministério tão tremendo de libertar homens e mulheres em nome do Senhor, e de garantir que nós mesmos permaneçamos como homens e mulheres livres de Deus — tomando posse dessa salvação de Deus e dessa liberdade que é nossa no Senhor Jesus —, e porque estamos destinados à glória, que existe tamanha batalha por Sião.
O inimigo fará absolutamente tudo o que estiver ao alcance de sua capacidade e de seu poder para frustrar o propósito de Deus a respeito de Sião. Ele provocará facções. Provocará divisão. Criará antagonismo. Produzirá rebelião e maldade nas nações. Agirá nas comunidades. Agirá dentro dos crentes e na vida de uma igreja local.
Ele fará tudo, absolutamente tudo o que puder, para frustrar esse propósito do Senhor a respeito de Sião.
Por isso, é um tremendo consolo sabermos que o Senhor estabeleceu o Seu Rei em Sião, o monte da Sua santidade. Esse é um fato bendito e maravilhoso.
Tudo o que estou dizendo nesta manhã é isto: essa batalha é tremenda. A chave da batalha nos Estados Unidos da América, assim como no restante do mundo — não se enganem a respeito disso —, é Sião. A questão é a Sião terrena e a Sião espiritual.
Essas são as duas grandes questões da política mundial — e, bem, da política, da economia, de todo o resto, na verdade. Esse é o cerne da questão.
Guardem o que estou dizendo: se os Estados Unidos agirem de maneira errada em relação à Sião terrena, os Estados Unidos cairão. Tão certamente quanto o Império Britânico foi eclipsado e desapareceu por causa de sua atitude para com essa Sião terrena, os Estados Unidos também entrarão em colapso.
É muito, muito difícil. Tenho certeza de que a maioria de vocês é bastante patriota. É muito difícil para americanos patriotas, assim como foi para britânicos patriotas, acreditar que aquele grande domínio sobre o qual o sol nunca se punha acabaria se reduzindo a uma pequena ilha ao largo da costa da Europa. Mas aconteceu.
O mesmo acontecerá aos Estados Unidos, tão certo como estou aqui diante de vocês, porque a questão é tanto a Sião terrena quanto a Sião espiritual.
Este país maravilhoso, no qual Deus fez tanto e que tem sido o baluarte da liberdade no mundo há várias décadas, também chegou à sua encruzilhada — assim como a Grã-Bretanha chegou à encruzilhada em 1946 e 1947 e teve de escolher entre bem-estar material, petróleo, economia, padrão de vida ou moralidade.
E nós escolhemos o petróleo. O resultado foi o eclipse da Grã-Bretanha.
Assim também acontece com os Estados Unidos: vocês chegaram à mesma questão. Muitos crentes não percebem isso e ficam perplexos e confusos diante do fato de que vocês também chegaram a esse ponto.
Naturalmente, vocês podem não concordar, porque estamos tocando em questões políticas. Mas, nos próximos anos, verão que o que eu disse é verdade. Eu realmente creio nisso. Creio que tenho a mente do Senhor nessa questão.
Os queridos Estados Unidos estão numa encruzilhada. É por isso que vocês e eu precisamos orar. Não pensem que a sua liberdade será sempre, automaticamente, uma característica da América só por causa de seus Pais Fundadores. Ela se baseia em obedecer à lei de Deus e honrar a vontade de Deus. Nós aprendemos isso amargamente.
A outra questão que está no centro de tudo é a Sião espiritual, ainda mais do que a Sião terrena. Essa criação de um lar para Deus, essa habitação de Deus, essa preparação da Noiva está no centro de toda a história humana. Está no centro da criação do universo. É o próprio centro de tudo.
Todas as batalhas, todo o abalo e tudo o que está vindo sobre a face da terra têm isso em vista. Todo o antagonismo do inimigo, toda essa iniquidade, todo esse mistério da iniquidade, toda essa desordem que se espalha pelo mundo inteiro têm, no centro de seu antagonismo, esse ódio à Sião de Deus — essa insistência e determinação de, de algum modo, liquidar a Sião de Deus; de vencê-la, dividi-la, desintegrá-la e frustrar o propósito de Deus.
Bendito seja o nome de Deus: Ele já tem o Seu Rei nessa Sião. E o Rei é a garantia de que Sião será completada.
Isso é um tremendo consolo para todos nós, porque estamos agora no começo do grande abalo do fim desta era, do qual se fala em Mateus 24, Lucas 21 e Hebreus 12.
Hebreus 12:26-29
Ainda uma vez farei tremer não só a terra,
mas também o céu.
E esta palavra, Ainda uma vez, significa a remoção das coisas abaladas,
como coisas que foram feitas,
para que permaneçam as coisas que não são abaladas.
Pelo que, recebendo nós um reino que não pode ser abalado,
retenhamos a graça,
pela qual sirvamos a Deus de modo agradável, com reverência e temor;
porque o nosso Deus é fogo consumidor.
Que consolo, que consolo! Deus tem um Rei nessa Sião, e o Rei é a garantia de que o propósito de Deus para essa Sião e para os confins da terra será realizado e cumprido.
Por isso, queridos, prefiro estar com o Rei a estar com qualquer outra coisa ou qualquer outra pessoa. Mesmo que a igreja inteira se torne apóstata, mesmo que o mundo inteiro se levante contra Deus e o Seu Cristo, prefiro estar com Ele, pois alguém com Deus é maioria.
No fim, o Senhor cumprirá e realizará plenamente o Seu propósito. Agora estamos no abalo, e vamos sofrer um pouco por causa dele. Não se enganem a respeito disso. O sol de Deus brilha tanto sobre os justos como sobre os injustos, e as Suas tempestades vêm tanto sobre os justos como sobre os injustos. Até certo ponto, porque estamos no fim desta era, vamos sofrer com esse abalo.
Mas, sabem, temos privilégios e vantagens tremendos.
Sou imensamente grato por estar vivo na última parte desta era. As pessoas sempre me dizem como gostariam de ter vivido quando Moisés atravessou o mar Vermelho em terra seca. Dizem: “Ah, como eu gostaria de ter estado lá e visto aqueles milagres, ou a coluna de nuvem e de fogo no deserto, e o maná a cada dia”.
Dizem que gostariam de ter visto o sol e a lua pararem em Gibeão e no vale de Aijalom. Outras me dizem que gostariam de ter ouvido o Senhor pregar o Sermão do Monte. Gostariam de ter estado presentes quando Ele alimentou os cinco mil com cinco pães e dois peixes, ou de ter visto Lázaro ser ressuscitado dentre os mortos.
Outras ainda me dizem que gostariam de ter estado lá no dia de Pentecostes. Dizem que, então, teriam conhecido; então, teriam recebido a bênção e tido certeza.
Bem, meu querido amigo, na minha humilde opinião, não tenho o menor desejo de ter vivido naqueles dias. É claro que eu não acharia ruim ter participado daquelas coisas e tê-las visto. Mas penso que estar vivo nas últimas gerações desta era é o privilégio mais maravilhoso do mundo inteiro.
Estamos vendo com nossos próprios olhos coisas que todos os profetas profetizaram e desejaram ver. Sinto pelos milhares e milhares e milhares de crentes que viveram durante todo o período entre Pentecostes e o início deste século, porque eles realmente tiveram de andar pela fé. A maioria dessas coisas ainda não havia se cumprido.
Embora participemos desse abalo, e o sintamos e soframos até certo ponto de maneira muito real por causa dele, temos vantagens.
Temos uma graça especial preparada para nós para o fim desta era, um poder especial preparado para nós no fim desta era. Eu não ficaria nada surpreso se experimentássemos algum ministério angelical especial no fim desta era. Não quero que ninguém entenda isso errado, mas haverá uma tremenda atividade celestial para nos manter vivos e nos conservar na vontade de Deus.
Deus está, se posso usar essa expressão, comprometido com esta questão: Sião será levada à plenitude. Ele Se entregou a essas coisas. Ele declarou isso ao longo de todo o Livro.
No fim, apesar de todo o antagonismo do inimigo, de todo esse ódio de nações e povos, dessa resistência contra Ele mesmo e contra o Seu Messias, Ele cumprirá o Seu propósito. A terra se encherá do conhecimento da glória de Deus, como as águas cobrem o mar. Isso vai acontecer. Toda carne verá a glória do Senhor, porque a boca do Senhor o disse.
Portanto, venha o que vier: estamos do lado da vitória nessa questão. É melhor estar com o Rei e na Sua Sião do que em qualquer outro lugar deste mundo, porque Deus está nessa questão.
Venha o anticristo; venha o falso profeta; venham esses grandes sistemas políticos do fim do mundo; venha a guerra de Gogue e Magogue; venham as outras guerras profetizadas nas Escrituras. Que importa?
Algumas pessoas ficam tão preocupadas. Dizem: “Ah, não tenho vontade de ser atingido por uma explosão”. Querido amigo, que importa se você for atingido por uma explosão? Num único instante, estará na presença do Senhor.
Isso realmente importa? Eu preferiria muito mais isso, obrigado, a ficar meses e meses numa cama de enfermo. Afinal, pode ser um momento de dor — um único momento —, mas depois você estará na presença do Senhor. Vamos olhar pelo lado mais luminoso.
Somos do Senhor, e temos em nós Alguém que é eterno. Nenhuma bomba pode destruí-Lo. Nenhuma bomba pode destruir essa união com Ele. Nenhuma perseguição ou sofrimento pode fazê-lo também.
Um irmão me contava nesta manhã sobre Jerônimo de Praga, um daqueles grandes santos e mártires na Sião de Deus. Vocês se lembrarão de que, sob tortura, ele se retratou, confessou todas as suas heresias e renunciou ao Senhor Jesus.
Ele ficou tão infeliz que, depois de algum tempo, voltou a eles e disse: “Quero retirar a minha retratação, porque a vida não vale a pena. Antes, eu tinha alegria, paz e vida; mas agora estou simplesmente vazio, infeliz e afastado do meu Senhor”.
Eles disseram: “Muito bem. Vamos rasgar a sua retratação e queimá-lo na fogueira”. Quando o queimaram na fogueira, ele pôs primeiro nas chamas a mão que havia assinado a retratação e disse: “Maldita mão que negou o meu Senhor”, e morreu em triunfo.
Esse é o tipo de graça que Deus dá às pessoas no fim.
Vejam, todos nós ficamos terrivelmente amedrontados. Uma senhora foi procurar Charles Spurgeon e disse: “Sr. Spurgeon, sou uma cristã tão miserável”. Como era um homem grande, ele olhou de cima para aquela pequena senhora e disse: “E o que há de errado com a senhora?”.
Ela disse: “Sr. Spurgeon, ore por mim”.
“Pelo que devo orar, minha querida irmã?”, perguntou ele.
“Ah”, disse ela, “Sr. Spurgeon, tenho medo de morrer. Tenho tanto medo de morrer. Ore para que eu tenha graça para morrer”.
Os antigos puritanos costumavam falar de graça para morrer. Spurgeon se aprumou em toda a sua altura e disse, como só Spurgeon poderia dizer: “Irmã, a senhora não precisa de graça para morrer. Precisa de graça para viver”.
Então orou por ela: “Senhor, dá à minha irmã graça para viver”. E ela a recebeu.
Depois, ele lhe disse: “Quando chegar a hora de morrer, a senhora receberá a graça para morrer. Deus nunca lhe dá graça para morrer um mês antes de morrer. Ele lhe dá graça para viver. Então, quando chega qualquer provação à sua vida, Deus lhe dá a graça”.
Queridos amigos, essa Sião — essa Sião espiritual — é tão importante para Deus, e os poderes das trevas consideram tão vital para os seus interesses destruí-la, frustrá-la ou liquidá-la. Vocês não acham que nós, crentes, deveríamos despertar? Não acham que vocês e eu deveríamos começar a despertar?
Se isso é tão importante para o meu Senhor, e se é tão importante para o Seu inimigo, então é importante para mim.
É isso que significa essa questão de passar pelo portão. Quero destacar algumas coisas que, a meu ver, representam, na prática, passar pelo portão.
Naturalmente, pensaríamos aqui em passar pelo portão, saindo da cidade, para construir a estrada. Mas realmente não importa de que maneira você olha para isso, porque não pode sair para construir a estrada da qual se fala aqui:
Aplanai, aplanai a estrada;
preparai o caminho do povo.
A menos que, antes de tudo, você esteja comprometido com a vida de Sião e tenha tido a sua própria experiência em Sião.
A primeira coisa que isso significa, certamente, é esta: um conhecimento verdadeiro, crescente e pessoal do Rei.
Passar pelo portão — de que adianta tentar fazer a obra do Senhor se não temos um conhecimento pessoal e crescente do Rei? Cada um de nós precisa ter um relacionamento com o Rei que está em Sião. Precisamos ter experimentado pessoalmente a Sua salvação. Precisamos estar experimentando pessoalmente a grandeza da Sua salvação.
Precisamos conhecer e experimentar alguns dos recursos que são nossos nessa tão grande salvação. Precisamos conhecer a Sua vida. Precisamos conhecê-Lo como vida e conhecê-Lo de maneira progressiva. Precisamos conhecê-Lo como poder.
Ah, um conhecimento pessoal e crescente do Senhor! Passar pelos portões não significa ter alguma doutrina sobre a igreja. Que o Senhor nos preserve de doutrinas sobre a igreja separadas do Senhor. Elas só causam problemas.
Por todo o mundo, há igrejas que seguem o modelo do Novo Testamento e são tão mortas quanto qualquer coisa institucional ou organizada. Em toda parte, as pessoas dizem: “Eu tenho o modelo”. Existem mil e um modelos construídos sobre o livro de Atos ou sobre Timóteo, e cada um está separado de alguém por alguma divisão.
Existe, sim, a verdade acerca da igreja. A igreja é verdadeira e tremendamente importante, mas devemos vê-la nEle.
Efésios 2:21-22
No Qual cada edifício, bem ajustado,
cresce para templo santo no Senhor;
no Qual também vós sois juntamente edificados
para habitação de Deus no Espírito.
Tudo isso se encontra nEle, por meio dEle, em união com Ele. Então a igreja se torna algo glorioso. Torna-se uma questão de vida nEle, de ordem nEle, de Sua autoridade e de Sua posição como Cabeça, e de relacionamento uns com os outros nEle.
Isso é muito importante. Essa passagem pelo portão é, em primeiro lugar, uma questão de conhecimento pessoal e crescente do Rei.
É maravilhoso quando o coração e a vida de uma pessoa estão cheios do Senhor Jesus. São essas pessoas que ganham outras.
Às vezes, os cristãos podem ser… Bem, é claro que cresci num lar pagão, então conheço isso do outro lado. Sei o que minha família costumava pensar dos cristãos e como falava deles. Tenho de dizer que, em grande parte, tinham muita razão. Os cristãos com quem tivemos contato eram um bando de hipócritas.
Lembro-me de minha mãe e meu pai falando deles e desconfiando deles. Meu pai conhecia pessoas com quem fazia negócios que iam à igreja e enganavam os outros por todos os lados. Pessoas vinham bater à nossa porta pedindo dinheiro, e sabíamos que eram as mais ricas da vizinhança. Poderiam ter suprido toda a necessidade sozinhas, mas procuravam pessoas não salvas, como nós, para pedir dinheiro para construir a torre da igreja, instalar o órgão ou qualquer outra coisa.
Acho que vocês não têm tanto disso deste lado. Não sei. Mas temos muito disso do nosso lado.
Mas que coisa maravilhosa quando um crente conhece o Senhor — realmente conhece o Senhor — e continua a conhecê-Lo. Acontece uma mudança na vida dessa pessoa e, como diz a Bíblia:
A beleza do Senhor nosso Deus está sobre ela.
Então os vizinhos começam a reparar. Os amigos começam a despertar. Os parentes veem algo tão atraente nessa pessoa. Veem uma vida de sacrifício, uma vida de amor, uma vida de cuidado.
Queridos amigos, toda essa questão de Sião não é uma doutrina. Não é um sistema e não é simplesmente triunfalismo. É uma questão de conhecer o Senhor.
Essa Sião é chamada de Noiva de Cristo, e não sei o que uma noiva significa, se não for uma questão de amor. Se, de algum modo, Sião não está apaixonada por seu Senhor, assim como seu Senhor está apaixonado por ela, então algo está errado.
Assim, para mim, a primeira coisa a respeito de passar pelo portão é que aqui estão pessoas que se apaixonaram tanto pelo Senhor que aquele primeiro amor nunca as deixou. Essa é a sua prioridade: nunca abandonar o primeiro amor. É por isso que saem pelo portão para construir a estrada. Estão em união com seu Senhor. Estão identificadas com Ele.
Há uma segunda coisa que gostaria de mencionar: passar pelo portão é uma vida entregue pelo Rei.
Se abrirmos em Marcos 8 — e, a propósito, eu deveria ter dado a vocês uma passagem bíblica para aquele outro ponto —, lemos em Filipenses 3:10:
Filipenses 3:10
Para que eu O conheça,
e o poder da Sua ressurreição,
e a comunhão dos Seus sofrimentos,
sendo conformado à Sua morte.
É isso que significa passar pelo portão: conhecê-Lo, conhecer o poder da Sua ressurreição e a comunhão dos Seus sofrimentos.
Marcos 8:34-35
E, chamando a Si a multidão, com os Seus discípulos,
disse-lhes:
Se alguém quiser vir após Mim,
negue-se a si mesmo,
tome a sua cruz
e siga-Me.
Porque qualquer que quiser salvar a sua vida perdê-la-á;
mas qualquer que perder a sua vida por amor de Mim
e do evangelho salvá-la-á.
Numa de nossas versões modernas, colocaram assim, e é muito bom:
Se alguém quiser seguir-Me,
renuncie a todo direito sobre si mesmo,
tome a sua cruz
e siga-Me.
Sabem, tomar a sua cruz não é o seu reumatismo, a sua artrite, a sua enxaqueca ou alguma outra dor de cabeça ou doença que lhe tenha sobrevindo. Às vezes, as pessoas costumavam falar de carregar a cruz como se fosse algo desse tipo.
Mas o texto diz:
Tome a sua cruz.
É, na verdade, a cruz dEle tornada sua.
Quando uma pessoa tomava a cruz, estava condenada à morte. Carregava a grande viga transversal até o lugar da execução. Não tinha mais uma vida para si. Sua vida não lhe pertencia. Seu tempo não lhe pertencia. Sua saúde não lhe pertencia. Sua vontade não lhe pertencia. Todo direito havia sido abandonado.
É exatamente isso que significa passar pelo portão. Significa que toda essa questão de sermos tão suscetíveis no que diz respeito a nós mesmos foi tratada pela cruz do Senhor Jesus.
O apóstolo Paulo disse, na segunda carta à igreja em Corinto:
2 Coríntios 1:9
Tivemos em nós mesmos a sentença de morte,
para que não confiássemos em nós,
mas em Deus, Que ressuscita os mortos.
Em outras palavras, nossa confiança está no poder da Sua ressurreição, embora levemos em nosso corpo o morrer.
Uma vida entregue — o que realmente significa uma vida entregue? Significa uma vida à Sua disposição. Sem mais discussão. Uma vida à Sua disposição.
Passamos pelo portão. Nossa vida foi entregue pelo Rei e por Seu propósito, e estamos à Sua disposição.
Não há palavras mais maravilhosas do que as da mãe de Jesus, quando disse aos serventes na festa de casamento em Caná:
João 2:5
Fazei tudo quanto Ele vos disser.
Se cada crente adotasse isso como seu lema — “Tudo quanto Ele disser, eu farei” —, seria maravilhoso.
Acho que já contei a vocês que vim ao Senhor por meio da história de vida de C. T. Studd. Uma das coisas mais maravilhosas a respeito de C. T. Studd foi que, depois de entregar toda a sua vida — primeiro na China, depois na Índia e, por fim, no Congo, de onde nunca voltou, agora chamado Zaire —, ele morreu na fé.
Quando estava à beira da morte, disse a Jack Harrison, que havia sido levado ao Senhor por um dos irmãos mais velhos do grupo do qual venho, em Richmond, na Inglaterra: “Tenho uma grande alegria. Fui um homem de muitas falhas e muitas fraquezas, e caí em pecado muitas vezes, das quais o Senhor me livrou e me redimiu. Mas minha alegria é esta: tudo o que o Senhor me disse para fazer desde que fui salvo, eu fiz pela Sua graça”.
Acho que essa é a coisa mais maravilhosa que alguém pode dizer no fim da vida, porque, como disse o apóstolo João:
1 João 2:17
Aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre.
É maravilhoso. Mas, sabem, nosso problema é a vontade de Deus, não é? Muitas vezes, temos medo do que a vontade de Deus pode reservar para nós.
Então surge toda a questão da nossa vida. “Tenho os meus direitos. Tenho os meus direitos. Não me importo de ir à igreja de vez em quando. Vou à conferência — vou aguentar uma semana inteira! Bem, quero dizer, tenho direitos. Tenho direitos.
“E, se você acha que renunciar aos meus direitos significa que tenho de me comprometer com aquele grupo pobre, fraco e cheio de tropeços de crentes da minha localidade — não, não quero ter nada a ver com isso.”
É aqui que aparece a verdadeira questão.
Algumas pessoas me dizem: “O Senhor me manda fazer isto”, e: “O Senhor me manda fazer aquilo”. O interessante é que nunca as vejo sujeitas a nenhuma outra pessoa. Parece que têm uma linha direta com Ele, e simplesmente recebem instruções sobre o que fazer, sem levar em conta nenhum outro crente nem nenhuma autoridade instituída ou ordenada na igreja.
Parece-me haver algo muito, muito errado quando as pessoas são, por assim dizer, sua própria autoridade.
Bem, não é assim, não é? Se realmente temos uma vida entregue, isso significa que, pela primeira vez, podemos nos sujeitar uns aos outros. Às vezes, podemos render ao Senhor o nosso próprio caminho e realmente ter de seguir um caminho sobre o qual não temos tanta certeza.
A vida é como quando éramos crianças. Às vezes, o pai ou a mãe dizia: “Faça tal coisa”, e nós achávamos, com toda certeza, que aquilo não era o melhor. Fazíamos uma grande discussão, mas a mãe dizia: “Faça”. Então discutíamos mais um pouquinho, e ela dizia: “Faça”. Por fim, fazíamos.
Agora já não discutimos a respeito disso. Olhamos para trás e dizemos: “Nossa, como minha mãe era sábia”, ou: “Como meu pai era sábio”. Entendem?
Portanto, é uma vida entregue. Está sob as ordens do Rei.
Há uma terceira coisa que, a meu ver, significa passar pelo portão, e a encontramos em várias passagens: sermos bem ajustados uns aos outros.
Salmos 122:3
Jerusalém, que está edificada
como uma cidade bem unida.
Efésios 2:21
No Qual cada edifício, bem ajustado,
cresce para templo santo no Senhor.
Efésios 4:15-16
Crescendo em tudo nAquele
Que é a Cabeça, Cristo;
do Qual todo o corpo, bem ajustado e unido
pelo auxílio de todas as juntas,
segundo a operação na medida própria de cada parte.
O que significa tudo isso — sermos bem ajustados uns aos outros? O apóstolo Pedro apresenta isso de outra maneira:
1 Pedro 2:5
Vós também, como pedras vivas,
sois edificados casa espiritual.
Em outras palavras, essa questão de passar pelo portão não é apenas uma questão de conhecimento pessoal e crescente do Rei, nem apenas de uma vida entregue pelo Rei, à Sua disposição. É uma questão de estarmos ligados uns aos outros nEle e de termos um relacionamento uns com os outros nEle.
Ser bem ajustados uns aos outros significa exatamente o que diz: bem ajustados uns aos outros. Não devemos viver uma vida separada, uma vida independente, uma vida autossuficiente, como se tudo o que importasse fosse o Senhor e eu, sem consideração pelos outros crentes.
É aqui que surge nosso problema. Se digo: “O Senhor e eu nos damos muito bem”, às vezes posso estar enganado. Isso pode ser uma desculpa, porque meu relacionamento com meus irmãos e irmãs não está certo.
É por isso que nosso Senhor pôs um impedimento até mesmo à nossa oração, quando disse que, se não perdoarmos aos outros as suas ofensas contra nós, nosso Pai no céu também não perdoará as nossas ofensas.
Em outras palavras, você não pode simplesmente dizer:
Pai nosso, Que estás nos céus,
santificado seja o Teu nome.
E continuar sem perdoar outros irmãos e irmãs. Precisamos ter um relacionamento com outros irmãos e irmãs.
O que significa passar pelo portão? Certamente significa encontrar Cristo como o fundamento em nossa própria localidade, sobre o qual podemos encontrar outros crentes.
Na minha localidade, onde moro, certamente deve haver outros crentes nEle. De algum modo, podemos nos encontrar no Senhor. Podemos ser edificados juntos no Senhor e conhecer um pouco do que significa sermos bem ajustados e unidos uns aos outros.
É claro que podemos ter problemas nessa questão, mas penso que esse é um ponto muito, muito importante a destacar.
Como podemos ser bem ajustados uns aos outros se não nos abrirmos uns aos outros? Se não estivermos dispostos a nos abrir uns aos outros e compartilhar nossa vida, não chegaremos a lugar algum.
Todos nós temos uma espécie de reserva interior, uma espécie de inibição nessa questão. Isso envolve toda uma batalha contra a escravidão. Simplesmente sentimos algo: não conseguimos nos abrir. Às vezes, até queremos.
Há várias etapas nessa questão. Primeiro, muitos de nós não queremos nos abrir. Nós, ingleses, temos uma inclinação muito maior para isso. Não gostamos de nos abrir às pessoas. Não gostamos que as pessoas entrem na nossa cozinha.
Num lar inglês, se alguém entrasse na cozinha sem ser convidado, seria o ato mais terrível e horripilante. Recebemos vocês à porta e dizemos: “Sinta-se em casa”. É claro que, se vocês entrassem na cozinha, abrissem a geladeira e pegassem um refrigerante de cola, ficaríamos horrorizados.
Dizemos: “Sinta-se em casa”, mas queremos dizer: “Sinta-se em casa dentro de certos limites”. Queremos dizer: “Sinta-se em casa na sala de estar”.
Se você sair andando, chegar à cozinha e se servir disto e daquilo, ficaremos horrorizados. Do nosso lado, temos problemas reais nessa questão de nos abrirmos uns aos outros, porque temos uma reserva natural como povo. Somos muito inibidos e extremamente educados.
Você sempre precisa pedir. Na verdade, para ser realmente educado à mesa, não deve pegar simplesmente qualquer coisa que esteja sobre ela. Quando eu era criança, nunca devia pedir o sal.
Vocês dizem: “Bem, então como você conseguia o sal?”. Eu havia sido ensinado que a maneira de conseguir o sal era perguntar a quem estivesse ao meu lado: “Gostaria do sal?”.
Então a pessoa diria: “Não, mas você gostaria do sal?”. Dessa maneira tão educada, você finalmente conseguia o sal.
Lembro-me de que um irmão meu foi visitar uma senhora com título de nobreza, amiga minha. Estávamos juntos à mesa e, é claro, ela o colocou ao seu lado. No começo da refeição, disse a ele: “Gostaria do sal?”.
Ele disse: “Não, muito obrigado”, e continuou comendo.
Então ela perguntou novamente: “Aceitaria o sal?”.
Ele disse: “Não, obrigado. A comida já tem bastante. Não preciso”.
Pela terceira vez, ela disse: “Aceitaria o sal?”.
Ele respondeu: “Não, mas a senhora gostaria?”.
“Sim, gostaria.”
Vejam, nós, britânicos, nós, ingleses, somos muito reservados nessas questões. Achamos muito difícil nos abrir uns aos outros. Temos ao fundo todas essas ideias sobre o que é apropriado, correto e educado. Somos pessoas normais. Somos pessoas amorosas. Por baixo de tudo isso, somos pessoas calorosas. Mas temos toda essa polidez, etiqueta e assim por diante.
É muito difícil as pessoas se abrirem umas às outras. Sentimos que isso não é muito apropriado. Às vezes, sentimos que alguém deveria nos perguntar.
Mas o problema seguinte é que, quando realmente queremos nos abrir uns aos outros, muitas vezes descobrimos que não conseguimos. É aqui que entra a escravidão, a menos que todos estejamos unidos nessa questão — especialmente os irmãos com maior responsabilidade —, atentos a isso o tempo inteiro e resistindo a esse tipo de escravidão na atmosfera.
Vamos afirmar e declarar que permanecemos firmes na liberdade de Cristo. Percebemos que essa escravidão vai, de certa forma, se infiltrando em tudo.
Mas essa questão de sermos bem ajustados uns aos outros significa que uma pedra viva não pode ser edificada junto de outra pedra viva sem que elas se conheçam. Precisamos nos abrir uns aos outros. Precisamos nos conhecer. Precisamos nos compreender. Precisamos nos tornar sensíveis uns aos outros.
Essa é uma questão muito importante na passagem pelo portão. Precisamos ser bem ajustados uns aos outros. Precisamos encontrar o fundamento, que é Jesus Cristo, e somente Jesus Cristo.
Não Jesus Cristo mais alguma doutrina sobre a mesa do Senhor; não Jesus Cristo mais uma doutrina sobre a segunda vinda; não Jesus Cristo mais alguma experiência do Espírito Santo; não Jesus Cristo mais os dons; não Jesus Cristo mais alguma outra ideia.
Queremos encontrar um fundamento que seja Jesus Cristo, onde todo crente nascido de novo naquela localidade possa simplesmente se reunir e encontrar seus outros irmãos e irmãs.
Quando encontramos esse fundamento, precisamos ser bem ajustados uns aos outros. Precisamos encontrar um relacionamento uns com os outros, e é aqui que começam todos os nossos problemas.
Muitas vezes, achamos muito difícil conhecer algumas pessoas de quem gostamos, e há algumas pessoas de quem não gostamos. Isso é natural. Não adianta nos condenarmos por isso. Há pessoas com quem temos facilidade e outras com quem não temos facilidade alguma. Achamos alguns temperamentos incompatíveis.
É quando encontramos o temperamento incompatível que precisamos da cruz. Se vocês e eu nos damos muitíssimo bem por natureza, onde precisamos da cruz? Mas, se somos incompatíveis, nossa, precisamos da cruz! Sabemos que a única saída é a cruz. A única maneira de perdermos a nós mesmos é a cruz.
O Senhor é muito fiel nessa questão. Em vez de tudo ficar apenas na cabeça, enquanto cantamos sobre a cruz, cantamos sobre a comunhão e cantamos sobre marchar para Sião, de repente descobrimos: “Aqui estou eu com alguns irmãos e irmãs com quem me dou muito bem, outros com quem não me dou nada bem — e alguns no meio-termo”.
De repente, toda essa conversa sobre a cruz e sobre a abrangência de Cristo se torna uma questão concreta, uma realidade. Ou isso entra na minha experiência, ou não adianta.
Os círculos cristãos estão cheios de pessoas — na verdade, todos nós — que cantam coisas, professam coisas e não têm experiência delas. Realmente cremos nessas coisas, mas não temos experiência delas porque não estamos dispostos a ser colocados na situação em que elas precisam se tornar realidade.
Ser bem ajustados uns aos outros não é alguma coisa encantadora, como num conto de fadas, em que o Senhor agita uma varinha sobre nós e, de repente, todos nos reunimos, bem ajustados em bela harmonia, doçura e paz.
Não. Há muitos choques, muita coisa para tratar, muita sujeira, muito corte, muito trabalho de moldar. Ser bem ajustados uns aos outros é uma tarefa que custa caro.
Vocês já observaram um carpinteiro ajustando peças? Não sou carpinteiro, mas, nossa, há uma quantidade enorme de trabalho envolvida nisso. Se a madeira pudesse sentir, tenho certeza de que às vezes gritaria por causa do que fazem com ela e da maneira como é trabalhada.
Pouco a pouco, tenho certeza de que a madeira diria: “Por quê? Por quê?”.
O carpinteiro responde: “Porque estou ajustando você às outras peças. É por isso”.
“Bem, não tenho certeza de que quero isso.”
Mas então vem o comentário: “De que adianta? Você já não é uma árvore. Já não é uma árvore. É uma peça de madeira. O que você vê — uma peça de madeira? Você foi feita para ser ajustada às outras peças”.
Se você é um verdadeiro crente, está entre duas situações, entende? Já não pertence ao mundo, mas, se não prosseguir para ser bem ajustado aos outros, não estará entrando no propósito de Deus — o grande objetivo da sua salvação.
Então fica num estado intermediário, que é o mais miserável de todos. O tempo inteiro, na sua vida cristã, sente que está perdendo alguma coisa. Sente: “É maravilhoso — a bênção aqui e a bênção ali —, mas sinto que está faltando alguma coisa”.
Vou lhe dizer o que está faltando: você é uma peça de madeira que antes viveu e morreu, foi cortada e se destina a ser bem ajustada no templo do Senhor.
Precisamos deixá-Lo fazer essa obra. Muitas pessoas são borboletas. Provavelmente já disse isso antes: eu as chamo de borboletas espirituais. Esses crentes são muito bonitos, encantadores como borboletas.
Vocês têm algumas borboletas lindas aqui, especialmente na Virgínia. Vi algumas magníficas onde fiquei hospedado, um pouco fora de Richmond — borboletas realmente magníficas. Gostaria que tivéssemos algumas assim na região de onde venho, mas acho que o nosso clima acabaria matando todas.
Mas a questão das borboletas é esta: você pode ser muito bonito, meu querido amigo, mas voa de um lugar para outro. Como poderá ser bem ajustado aos outros?
As pessoas vão a esta reunião e depois à próxima. Ouvem um sermão aqui e depois partem para outro lugar, porque ouviram dizer que há um pouco de bênção ali adiante, entre os metodistas. Então vão para lá. Depois partem para a Igreja de Cristo, e depois para os episcopais. “Ah, maravilhoso.” Depois vão para os batistas. “Maravilhoso.” Então voltam aos metodistas.
Depois estão aqui, depois estão ali, e entram aqui e dizem: “Ah, Sião! Sião! Maravilhoso, maravilhoso. Somos a Sião de Deus”. Então saem voando novamente.
No ano que vem, estarão de volta para uma reunião das sete e dirão: “Foi bom. Foi bom enquanto durou”.
Mas nunca chegam a ser bem ajustadas aos outros.
A coisa agradável de ser uma borboleta espiritual é que você não tem responsabilidade. Pode evitar todos os choques, todos os problemas, todas as dificuldades, toda a batalha, toda a guerra, e simplesmente voar de bênção em bênção.
Mas está enganando a si mesmo. Essa bênção não é uma bênção real. É um artifício do inimigo para impedir você de entrar na verdadeira obra que Deus quer fazer em sua vida. A verdadeira obra é sermos bem ajustados uns aos outros, e isso é um pouco diferente de ser uma borboleta.
Há outra coisa: cada parte funcionando.
Se você vai passar por aqueles portões, entrar na cidade e ser bem ajustado aos outros, chega um ponto em que cada parte precisa funcionar. Construir uma estrada não é apenas ter homens com pás; há muitas outras coisas.
Nunca estudei nem me especializei em engenharia ou ciências, mas sei disto por observação: uma quantidade tremenda de habilidades, capacidades e tipos de equipamento diferentes entra na construção de uma estrada.
Há o trabalho duro e pesado. Na região de onde venho, e especialmente em Israel, esses trabalhos realmente pesados muitas vezes são feitos por quarenta, cinquenta ou sessenta homens com pás, escavando de verdade. Depois vêm as grandes máquinas para começar o trabalho. Fazemos muito mais à mão, à moda antiga.
Mas, depois que eles vêm e vão, entram todas as outras especialidades e, no fim, a estrada inteira toma forma. Há muita habilidade envolvida nisso.
Nessa Sião, não temos todos a mesma função. Não temos todos o mesmo dom. Temos funções diferentes e dons diferentes. É um só Senhor, um só Espírito e um só objetivo: edificar o corpo de Cristo.
Mas há uma tremenda variedade e diversidade de dons e de funções, como diz em 1 Coríntios 12.
Efésios 4:16
Do Qual todo o corpo, bem ajustado e unido
pelo auxílio de todas as juntas,
segundo a operação na medida própria de cada parte.
A New American Standard Bible apresenta isso de maneira mais simples:
Segundo o funcionamento adequado de cada parte individual.
O funcionamento adequado de cada parte. Cada parte precisa funcionar adequadamente.
O que vocês pensariam de uma cidade em que departamentos inteiros não funcionam direito? As ruas nunca são varridas. Quando as luzes se apagam, ninguém aparece para restabelecê-las ou cuidar delas.
Minha família mora numa região muito valorizada de Richmond, na Inglaterra, em Surrey, e, mesmo assim, nos últimos anos, nossas ruas quase nunca são varridas — talvez uma vez a cada seis semanas. Se uma luz se apaga, permanece apagada por um ou dois meses inteiros, até que alguém finalmente venha consertá-la. É o colapso da sociedade urbana.
Quanto aos coletores de lixo — nós os chamamos de dustmen. Acho essa palavra tão bonita. Acho que vocês os chamam de garbage collectors, não é? Acho essa expressão horrível: “coletores de lixo”. É claro que é uma descrição perfeita, mas temos uma palavra tão bonita para isso: dustman. Chamamos a lixeira de dustbin, não de trash can ou garbage can.
Mas um único departamento da cidade — se todos esses coletores entrarem em greve, se recusarem a trabalhar ou fizerem mal o seu serviço —, como a cidade inteira sofre!
A cidade inteira sofre se as ruas não recebem manutenção, se a iluminação não é mantida em ordem, se as ruas não são varridas. Numa cidade, existe uma quantidade tremenda de funções e departamentos diferentes, e todos nós temos a nossa parte a desempenhar.
O problema é que tendemos a pensar que a pregação é o essencial em Sião. Às vezes, pensamos que é a oração. Mas há muitas funções diferentes.
Precisamos do pregador. Precisamos da oração. Precisamos de muitas outras coisas — coisas muito práticas. Às vezes, isso simplesmente se resume a ir cuidar de alguém.
Que coisa maravilhosa quando um irmão está no ministério da Palavra e nem sempre pode dedicar tanto tempo à sua casa, e alguém vem cortar a grama para ele. Isso é maravilhoso porque, aos olhos de Deus, simplesmente significa que aquele irmão se tornou participante desse ministério. Ele liberou o outro para fazer um pouco mais.
Não estou dizendo que todos nós que estamos no ministério devemos deixar de lado todas as responsabilidades de casa. Mas há ocasiões em que simplesmente não conseguimos cumpri-las, porque ficamos fora por bastante tempo.
Que coisa maravilhosa quando outros vêm e fazem algo muito prático. Não é alguma grande coisa espiritual. “De que adianta ir cortar a grama de fulano? Agora, se você me pedisse para passar uma noite em oração, talvez isso fosse alguma coisa. Ou, se me pedisse para dar mil dólares, talvez isso fosse alguma coisa. Mas cortar a grama?”
No entanto, aos olhos de Deus, um pequeno serviço prático como esse pode significar muito para o reino — muito para o Rei.
Às vezes, essas coisas em Sião se expressam em ações muito simples e práticas: visitar uma pessoa doente; cuidar dos filhos de uma mãe que precisa se ausentar por algum outro motivo; simplesmente cuidar uns dos outros — não de maneira intrometida, mas com amor e atenção.
É assim que Sião é edificada. Muitas vezes, nosso abatimento se deve a todo tipo de pequenas coisas que nos deixaram para baixo. Quando as pessoas chegam e tiram esses pesos, é maravilhoso. É comunhão verdadeira.
Esse tipo de comunhão pode valer mais do que uma longa palavra pesada sobre o livro de Jonas. Fui submetido a palavras muito pesadas, especialmente quando era mais jovem, por parte de diferentes irmãos. Eles diziam: “Irmão, você entende qual é a mensagem de Jonas. É isto, isto e isto, e as consequências são estas. Você deveria fazer tal coisa”.
Mas penso que, às vezes, chegar da outra maneira é uma comunhão muito mais real. Seu coração se abre imediatamente para esse tipo de pessoa, porque ela está realmente ajudando. É amor. Então vocês podem compartilhar as coisas de Deus da maneira mais maravilhosa.
As pessoas me dizem: “Bem, funcionar — como funcionamos?”. Aprendemos pela experiência. Se você acha que só vai funcionar quando for perfeito, nunca funcionará. Nunca funcionará.
Lembro-me de quando comecei a aprender a andar. Nossa, como eu caía! Quebrei tanta coisa. Mas fico muito contente por terem suportado aquilo, porque, do contrário, eu nunca teria aprendido a andar.
Se eu tivesse idade suficiente para ficar constrangido e pudesse dizer: “Talvez eu ande, talvez eu ande — vou esperar até o dia em que, de repente, eu pule do berço e saia andando”, os músculos das minhas pernas teriam atrofiado. Eu nunca teria andado.
Tive de aprender pela experiência — enfiando os dedos nos interruptores, pondo a mão no fogo, tocando no ferro sobre a tábua de passar. Todas essas coisas, sabem, nossos pais nos diziam: “Não toque nisso”. Mas, é claro, nós tocávamos.
Então aprendíamos. Ah, chorávamos quando nossos dedos ficavam presos em algum lugar, mas nunca mais tocávamos no ferro nem em nada parecido. Daquele dia até hoje, tenho um temor muito saudável de ferros quentes.
Estou falando sério. Você precisa aprender pela experiência. Seus irmãos e irmãs, se forem realmente amorosos, vão ajudá-lo. Terão paciência com suas alegrias e virão com tanto encorajamento, mesmo quando você cometer erros.
Se você for honesto, poderá ser corrigido. Mas, se disser: “Porque vocês me corrigem, vou embora”, essa é a atitude errada.
Quando você era criança e cometia erros, seus pais o corrigiam porque o amavam. Estavam tentando ajudá-lo, porque sabiam que, se não fosse ajudado, continuaria cometendo erros.
Alguns de nós gostam demais de se exibir, e alguns são retraídos demais. O Espírito Santo traz isso à tona. Ele nos diz: “Isto, isto, isto”. Aprendemos uns com os outros. Tudo isso faz parte de sermos bem ajustados uns aos outros.
Passar pelos portões é algo muito prático. Você não pode passar pelos portões da cidade sem conhecer os outros, sem ser edificado junto com outros crentes, além dessa questão de conhecer o Rei e entregar a sua vida.
Por fim, precisamos ver a vontade de Deus ser feita na terra como é feita no céu. Passar pelo portão significa que, finalmente, cheguei àquela situação em que preciso me comprometer com o Rei — não apenas com a verdade, mas com o Rei em Sião.
Isso significa que precisamos ver a vontade de Deus ser feita na terra. Temos pensado e conversado sobre aquela oração:
Mateus 6:10
Venha o Teu reino.
Seja feita a Tua vontade,
assim na terra como no céu.
Naquele maravilhoso Salmos 110:2, lemos:
Salmos 110:2
O Senhor enviará de Sião o cetro da Tua força:
domina no meio dos Teus inimigos.
É esse tipo de coisa que queremos conhecer e experimentar, porque Sião é um movimento do Espírito Santo relacionado à libertação.
Por onde começamos? Começamos uns com os outros. Cuidamos para que sejamos libertos. Depois saímos para a nossa localidade. Começamos, em nome do Senhor, a conhecer o que significa ter uma compreensão inteligente do que está acontecendo em nossa localidade, ver o que está acontecendo no campo, ver o que está acontecendo entre nós nas cidades e, em nome do Senhor, conhecer algo da batalha de oração no Espírito e do domínio no meio do inimigo.
Ah, que Deus nos conserve um pouco diferentes, trazendo libertação. Somos o sal da terra. Somos aquela luz que não é escondida debaixo de um alqueire, mas colocada num candeeiro. Somos uma cidade situada sobre um monte, que não pode ser escondida.
Jesus disse a Pedro:
Mateus 16:19
Dar-te-ei as chaves do reino dos céus;
e tudo o que ligares na terra
será ligado nos céus;
e tudo o que desligares na terra
será desligado nos céus.
Essa Sião, e fazer parte dela, é inteiramente uma questão de conhecer verdadeiramente o governo e o reinado do Rei — de como discernir e perceber esse governo espiritual.
Que o Senhor nos ajude nisso.
O Senhor Jesus disse:
Isaías 62:1
Por amor de Sião não Me calarei,
e por amor de Jerusalém não descansarei,
até que saia a sua justiça como um resplendor,
e a sua salvação como uma lâmpada que arde.
Que Deus grave profundamente muitas coisas no coração de vocês e no meu. Já que nascemos de Deus, que o Senhor nos dê graça para, finalmente, passar pelo portão e nos comprometer com o Rei.
Pai, agora simplesmente elevamos juntos o nosso coração a Ti. Tu sabes de tudo, Senhor. Tu vês, Senhor, tudo o que está acontecendo nas nações e nesta nação. Tu sabes, Senhor, que estamos considerando essa questão de Sião e essa questão da oração.
Mas, Senhor, que realmente nos unamos. Ó Senhor, ajuda-nos.
Senhor, ajuda-nos pela Tua graça a não permanecer à margem, a não ser espectadores, a não nos gloriar na verdade sem lhe obedecer, mas, Senhor, a ser ouvintes da Palavra e praticantes da Palavra.
Senhor, ajuda-nos a realmente passar por aqueles portões, seja o que for que isso venha a significar para cada um de nós. Ajuda-nos, Senhor, a deliberadamente, nessa fé e obediência de criança, passar pelos portões e nos comprometer com o Teu Rei em Sião.
Isso pedimos em nome do nosso Senhor Jesus. Amém.