Vocês me acompanham na Palavra de Deus, enquanto reunimos alguns trechos dela?
No capítulo que acaba de ser lido, Lucas 1:35:
O poder do Altíssimo te cobrirá com a Sua sombra:
por isso também o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus.
Vamos ao Evangelho de João, em João 1:12-13:
Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes Ele o direito de se tornarem filhos de Deus, aos que creem no Seu nome:
os quais nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
João 3:6:
O que é nascido da carne é carne;
e o que é nascido do Espírito é espírito.
João 16:33:
Estas coisas vos tenho dito, para que em Mim tenhais paz.
No mundo tendes tribulação: mas tende bom ânimo; Eu venci o mundo.
Vamos à primeira carta de João, em 1 João 3:1-2:
Vede que grande amor nos tem concedido o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus; e nós o somos.
Por esta razão o mundo não nos conhece, porque não O conheceu.
Amados, agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser.
Sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele; porque O veremos como Ele é.
1 João 5:4:
Porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo.
O trecho dessa declaração que nos ocupará nesta noite é: aquilo que é nascido de Deus.
Agora quero, desde já, com toda a ênfase necessária, deixar perfeitamente claro que, ao reunir essas passagens das Escrituras — as que falam do Senhor Jesus e as que falam dos crentes —, não estou deixando de distinguir, reconhecer e admitir uma grande diferença. Sempre precisamos resguardar essa questão da Pessoa do Senhor Jesus, e não estou caindo em nenhuma armadilha nesse sentido nesta noite.
Ele era verdadeiramente Deus, verdadeiramente Deus manifestado na carne — Emanuel, Deus conosco. Nisso, Ele é único: singular, sem outro semelhante a Ele.
Seu nascimento foi diferente até mesmo do novo nascimento de cada filho de Deus. Foi diferente em natureza; foi diferente em grau.
Mas, tendo dito isso, há elementos em Seu nascimento — elementos em Seu próprio nascimento — que constituem a natureza do novo nascimento de cada crente. Ressalvada a Sua divindade, que pertence a Ele, ainda assim há algo nessas passagens acerca do novo nascimento do crente que corresponde ao Seu nascimento.
É a algumas dessas características e desses elementos que daremos atenção nesta noite. Espero que vocês não confundam as duas coisas, em nenhum momento, nessa questão — a questão da Sua singularidade. Mas, ao mesmo tempo, espero que sejam capazes de reconhecer, por outro lado, o que João disse em 1 João 2:8:
O que é verdadeiro Nele e em vós.
Isso se aplica em sua própria esfera e segundo sua própria natureza.
Quanto ao nascimento e à nova vida dos filhos de Deus, poderemos compreender melhor se reconhecermos algumas dessas características no nascimento do Senhor Jesus. Pois Seu nascimento, como já disse, contém todos os elementos que constituem um verdadeiro filho de Deus.
A primeira coisa absolutamente certa é que o nascimento do Senhor Jesus foi uma intervenção divina na vida humana. E isso é verdadeiro a respeito do novo nascimento de cada crente. Não é outra coisa, nem menos do que uma intervenção divina na vida humana.
Não se detenham em todos os pormenores do nascimento de Cristo, mas isto é perfeitamente claro: do céu veio uma visitação celestial. O céu se abriu, e alguém saiu de lá para fazer o anúncio. Do mesmo céu, o Espírito Santo entrou na vida humana, interveio e fez algo.
Espero que vejamos, daqui a pouco, o que foi esse algo. O ponto é que aqui temos uma irrupção do céu — uma irrupção do céu na vida humana.
Ora, para a maioria de vocês que estão aqui nesta noite, isso não apresenta dificuldade, e vocês se perguntam por que é preciso insistir nisso e dar-lhe tanta ênfase. Provavelmente vocês compreendem. Mas não é isso que, em grande parte, se entende e se apresenta como o novo nascimento.
Mesmo com as melhores intenções, o novo nascimento é tantas vezes colocado do lado do homem — naquilo que o homem faz. O homem tem de fazer alguma coisa: levantar a mão, fazer alguma declaração, assinar algum documento, tomar uma decisão, fazer uma profissão de fé, aceitar certas coisas que estão sendo afirmadas, e muitas outras coisas semelhantes.
Talvez essas coisas tenham a intenção de preparar o caminho, ou abrir o caminho, para Deus. Mas, mesmo admitindo isso, tantas vezes as pessoas ficam com a ideia de que se trata de algo que elas fizeram. Aceitaram a Cristo; aceitaram o cristianismo; fizeram um gesto; fizeram alguma coisa. Tornaram-se cristãs por aquilo que fizeram por si mesmas.
Agora, sendo plenamente generoso — sem crítica alguma —, é muito importante, queridos amigos, reconhecer que não é assim. O novo nascimento nunca, nunca acontece necessariamente por alguma coisa que fazemos.
Ele jamais se realiza verdadeiramente por algum ato da nossa própria vontade, do nosso próprio desejo ou da nossa própria iniciativa.
João 1:13:
Os quais nasceram, não do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus.
Esse homem pode ser o evangelista, talvez, ou qualquer outro que procure produzir esse nascimento — mas não é do homem; é de Deus.
Se Deus não intervier na vida humana e na história humana, irrompendo, por assim dizer, do céu — se o Espírito Santo não nos cobrir com Sua sombra e Ele mesmo não produzir essa nova vida —, isso não é novo nascimento. É algo parecido.
Talvez vocês estejam se perguntando por que estou tratando disso nesta noite. Bem, vou lhes dizer por quê. Há uma preocupação crescente — crescente; e “preocupação” é uma palavra fraca.
Quando se anda pelo mundo, em contato com cristãos e com o cristianismo, uma coisa pesa esmagadoramente sobre o coração, às vezes quase ao ponto do desespero: a necessidade de que aqueles que levam o nome de cristãos conheçam a verdadeira natureza do que significa ser filho de Deus.
Parece haver tantos que adotaram algo exterior por sua própria vontade, escolha e ação; e não têm a menor ideia do que significa realmente nascer do céu.
Em toda a obra de restauração necessária, em cada esfera do propósito divino neste tempo, esta é uma das necessidades: recuperar o verdadeiro significado do que é nascer do alto, ser filho de Deus.
Às vezes me pergunto — e talvez eu esteja errado — se o inimigo não fica muito satisfeito em colocar multidões e multidões, incontáveis multidões de pessoas, numa falsa condição cristã, porque sabe que virá o dia em que o vento as levará embora.
E um cristão abandonar a fé é uma desonra maior para o Senhor, talvez maior do que qualquer outra coisa. Ah, como precisamos de raízes profundas! Como precisamos estar firmados na verdade — na verdade da nossa própria natureza como filhos de Deus.
É por isso que chegamos a esse assunto nesta noite. Virá o dia em que nossa condição de cristãos será profunda e terrivelmente provada: haverá um grande abalo.
O profeta Ezequiel é muito atual, creio eu. Penso, na verdade, que estas palavras terão um cumprimento muito mais amplo num futuro não muito distante do que tiveram quando Ezequiel as pronunciou, em Ezequiel 21:27:
Ao revés, ao revés, ao revés a porei: e ela não será mais, até que venha Aquele a Quem pertence de direito.
Haverá uma grande derrubada daquilo que não é verdadeiro, daquilo que é falso. Esse juízo deve começar pela casa de Deus. Portanto, perdoem-me, se preciso ser perdoado, por essa ênfase nesta noite.
Começamos aqui: assim como aconteceu com Cristo, assim deve acontecer com cada filho de Deus. Desde o início da vida cristã, cada um deve ser o resultado de uma intervenção divina na história humana — em sua própria vida humana.
Esse é o grande fato fundamental. Graças a Deus, há muitos outros aqui nesta noite que compreendem isso. Sei o que isso significa: Deus interveio na minha vida. Deus irrompeu na minha vida. Deus veio, como que do céu, para dentro da minha vida.
Bem, para muitos isso não é tão difícil de compreender, mas precisamos conhecê-lo. Tivemos a experiência; conhecemos a verdade. Mas às vezes é útil vê-la definida. É isto: Deus irrompeu do céu quando você e eu fomos salvos. Nada menos do que isso aconteceu.
O próprio Deus veio do céu para dentro da nossa vida humana e interrompeu o curso da sua história, irrompeu em seu mundo. Depois disso, as coisas jamais podem ser as mesmas.
Isso nos leva à próxima coisa que é perfeitamente clara no caso do Senhor Jesus. Um anjo e o Espírito Santo indicaram essa intervenção vinda do céu. Nada menos do que isso, em princípio e de fato, é verdadeiro a respeito de cada filho de Deus.
Mas a próxima coisa perfeitamente clara no caso do Senhor Jesus é que isso era algo diferente. Não era apenas algo novo, que não havia acontecido antes; era algo diferente.
Não devemos nos deter demais nos pormenores do relato que lemos, mas tudo se resume a isto: esse nascimento é diferente de todos os outros nascimentos.
O anjo deixou esse fato muito claro, e Maria sabia disso. Não era uma simples questão de perplexidade ou confusão. Como ela perguntou em Lucas 1:34:
Como se fará isto?
Como? Eis a pergunta de todas as épocas: como? Isso contém um mistério profundo, que constitui uma diferença profunda e poderosa.
Isso não é algo comum. Não é algo habitual. Não é algo que vocês possam encontrar em qualquer outro lugar. É diferente. E aquilo que cresce a partir dessa intervenção contém, em sua constituição, essa diferença fundamental.
Ah, se todos os que levam o nome de cristãos, que afirmam ser filhos de Deus, tivessem plena consciência disso! Penso que é aí que está a fraqueza de tantos. Não nos fará mal, a nós que estamos aqui nesta noite e conhecemos isso tão bem, sermos lembrados disso novamente.
Portanto, queridos amigos, precisamos manter continuamente em nossa consciência que, pelo novo nascimento, somos fundamentalmente diferentes, em nossa própria constituição, de todos os demais nascimentos e seres. Vocês sabem disso por alguma medida de experiência; mas aí está o fato.
O nascimento do Senhor Jesus foi um nascimento de outra natureza — tão evidentemente assim. Não ocorreu da maneira natural e habitual. A natureza nada teve a ver com isso. A vontade, a escolha e a decisão do homem nada tiveram a ver com isso.
É diferente. Acontece de outra maneira. É de outra natureza e de outra ordem de existência. Como diz Lucas 1:35:
Por isso também o que há de nascer será chamado santo.
Vocês encontram isso em algum lugar na natureza? Aquilo que, em sua própria essência, é santo? Santo — esse é o contraste com toda outra criatura e todo outro nascimento. O salmista clama, em Salmos 51:5:
Eis que em iniquidade fui formado;
e em pecado me concebeu minha mãe.
Isso é verdadeiro a respeito de todos nós. Mas aquilo que é nascido de Deus será santo. É diferente em constituição, em natureza.
Agora, quando digo que esse princípio se aplica a todo novo nascimento, é necessária esta explicação. Sabemos muito bem que estes corpos não nasceram de novo; portanto, não são santos. Sabemos que não são as nossas almas que nascem de novo.
Se nossas almas são a nossa mente, nossa capacidade de raciocínio, nossas emoções e nosso poder de escolha, bem, isso não é diferente. Esse é o problema ao longo de toda a nossa vida cristã: ainda temos conosco muita coisa que não é santa, na mente, no coração e na vontade. Aí estão nossos conflitos, nossas batalhas, nossa tristeza.
Apesar disso, algo aconteceu em algum lugar — algo entrou — que não pertence de modo algum a esse reino. Pertence a outro reino, celestial, e aquilo que é nascido de Deus é santo.
Vocês sabem disso? Sabem disso? Bem, provavelmente sabem na maioria das vezes. Se isso não lhes foi explicado, vocês o conhecem pela experiência. Sabem que há algo dentro de vocês que já protesta contra o pecado e a falta de santidade.
Vocês sabem que uma das grandes bênçãos da vida é esse poder interior de reação quando as coisas não estão certas, não são boas. À medida que prosseguimos, de fato percebemos isso; tornamo-nos cada vez mais sensíveis ao mal, ao pecado deste mundo.
O perigo, às vezes, pode ser aceitá-lo. Você acaba achando que tem de aceitá-lo porque ele está aí.
Lembro-me de que, alguns anos atrás — há muitos anos, como vocês perceberão —, eu estava viajando para o norte com a senhora Penn-Lewis. Estávamos no vagão-restaurante, e uma querida jovem entrou, sentou-se à mesa ao lado, tirou um cigarro e o acendeu.
Hoje, é claro, isso é aceito. Para a senhora Penn-Lewis, naquela época, era uma novidade. Uma expressão de consternação tomou conta do seu rosto. Seus olhos quase saltaram da cabeça. Ela olhou para mim, e tive a maior dificuldade para impedi-la de ir até aquela querida jovem e implorar que apagasse o cigarro e deixasse de fumar.
Talvez vocês achem que eu estava errado em contê-la. Talvez eu tivesse um pouco mais de experiência de mundo; conhecia esse hábito comum. Mas, para ela, foi um choque profundíssimo.
Ah, com o passar do tempo, talvez muito desse choque tenha desaparecido. Mas, ainda assim, é verdadeiro a respeito de cada filho de Deus que existe esse sentimento — um horror, uma aversão, algo como uma tremenda revolta e reação interior contra o pecado, contra o mal, contra a falta de santidade.
Que proteção isso representa! Que dádiva de Deus é ter isso! Ah, Deus não permita que jamais percamos nossa sensibilidade nessa esfera — a capacidade de perceber a pecaminosidade do pecado e de sermos tocados por ela.
Vocês veem, é diferente com o filho de Deus. Há uma diferença interior. O nascimento Dele foi diferente; o nosso nascimento é diferente. E, por esse novo nascimento, tornamo-nos de outra natureza — uma criatura de outra natureza.
Esta é a principal característica dessa diferença. Antes, este mundo — seu comportamento, sua conduta, seus caminhos, sua maneira de falar — era o nosso mundo. Não sentíamos nenhum choque, exceto talvez diante de algo muito, muito extremo; talvez houvesse em nós alguma sensibilidade mais elevada, mas, ainda assim, aquele era o nosso mundo.
Hoje, porém, diante das mesmas coisas, sentimos dificuldade — no mínimo, dificuldade. Algo aconteceu. Há uma diferença. Aquilo que é nascido de Deus é santo.
Cuidado, jovens, para não embotarem a sensibilidade do seu novo nascimento, acomodando-se às formas e aos caminhos deste mundo, aos seus costumes e ao que ele aceita, tomando tudo isso como inevitável.
Peçam ao Espírito Santo que os mantenha muito sensíveis a Ele, muito sensíveis ao mal. Mantenham vivo aquilo que é seu direito de nascimento, uma parte do seu próprio nascimento: uma diferença.
Bem, é claro que eu poderia falar muito sobre isso, mas estaria apenas lhes dizendo o que vocês já sabem. Se você é um verdadeiro filho de Deus, conhece algo dessa diferença quando sai para o mundo — não apenas na questão do pecado, mas de muitas outras maneiras. Algo acontece com você.
Se isso não aconteceu, é hora de começar a examinar essa questão: se você é um filho de Deus.
Essa diferença precisa, em algum momento, ter se tornado bastante clara para você. Você a conhece não porque alguém lhe disse, não por causa de um ensino, não porque seus pais são cristãos e não gostam que você faça certas coisas, enquanto você tem uma espécie de consciência que, na verdade, é a consciência dos seus pais, não a sua.
Não por causa de nenhuma dessas coisas, mas porque, em seu próprio coração, no seu próprio íntimo, você tem essa consciência de ser diferente — diferente, fundamentalmente diferente daqueles que não pertencem ao Senhor.
Se isso não é verdade, sua vida precisa de uma crise decisiva. E isso precisa ser progressivamente verdadeiro — progressivamente verdadeiro, porque não se trata apenas de uma coisa em determinado momento, mais ou menos claramente definida como uma crise, embora alguns experimentem uma irrupção violenta, como no caso de Paulo. Ainda assim, em algum momento, precisa surgir esta percepção: “Sou um filho de Deus. Sou diferente. Algo aconteceu. Uma grande diferença foi produzida em algum lugar, lá no fundo”.
Não sou igual àqueles que não são filhos de Deus. Mas não é só isso, queridos amigos: essa é a própria natureza do crescimento espiritual — que essa diferença se acentue cada vez mais.
É algo que vai tornando este mundo cada vez mais uma terra estrangeira para nós — não o nosso lar, não o nosso lugar. Ou, dizendo de outra maneira, vai tornando nossa terra de origem cada vez mais real para nós, fazendo do céu verdadeiramente o nosso lar.
Agora, onde fica o céu, não posso lhes dizer. Mas sei disto: de algum modo, seja qual for o significado de céu — uma palavra ou uma designação —, pertenço a outro lugar. Eu pertenço — se o céu é esse lugar, é lá que pertenço. E cada vez mais descubro que pertenço lá, e não aqui.
Será assim; precisa ser assim. Falo particularmente aos jovens cristãos, mas essa é a própria natureza do seu novo nascimento. Cada vez mais deve ser assim. E não tenham medo disso. Não se rebelem contra isso. Aceitem.
Isso é uma prova de algo — da maior coisa que Deus está fazendo na história humana: irromper nela para produzir essa tremenda diferença.
Agora, é com base nisso que a maior questão será resolvida. Formamos imagens mentais dos juízos. Bem, não discutiremos o aspecto material disso. Mas sei de uma coisa: esse juízo já começou; está em andamento.
Seu desfecho será que haverá aqueles que pertencem lá e aqueles que pertencem aqui, e não haverá como se enganar. Não haverá dúvida quanto à esfera a que essas pessoas pertencem. Então estará plenamente manifesto; estará completo. A grande separação terá sido feita.
O Senhor está procurando realizar isso agora. Que tragédia é ver muitos cristãos, e muitos jovens cristãos, tentando lançar uma ponte sobre esse abismo, manter essas duas coisas unidas e não permitir que a distância aumente! Eles estão do lado que se afasta cada vez mais do mundo sob juízo.
Uma diferença. Deixemos esse ponto aqui.
A próxima coisa que se revela nessa questão do nascimento de Cristo e do nascimento dos crentes, dos filhos de Deus, é que, por esse nascimento, entra em nós uma força inerente, um poder inerente.
O Senhor Jesus disse, em João 16:33:
Tende bom ânimo; Eu venci o mundo.
E João diz, em 1 João 5:4:
Tudo o que é nascido de Deus vence o mundo.
Aquilo que é nascido de Deus vence o mundo. Em Cristo, no filho de Deus nascido de novo, há um poder e uma força inerentes que hão de vencer — vencer o mundo. Estão presentes na própria natureza disso, na própria constituição da nova vida. Ela há de vencer.
Pode haver fracasso. Pode haver fracasso frequente. Pode haver quedas na batalha, talvez algumas baixas, talvez alguns períodos sombrios e até algum afastamento.
É algo extraordinário, algo que tanto nos arrebata o coração: ver como essa vida persiste. Às vezes tenho de sorrir.
As pessoas me dizem que vão desistir de tudo: “Não consigo continuar”. E eu digo: “Espere até passar algum tempo sem dormir; depois volte”. E isso acontece cem vezes — cem maravilhas.
Ah, quantas pessoas me disseram, bem recentemente: “Estou desistindo de tudo. Acabou para mim. Estou indo embora”. E, no que depende delas mesmas, talvez seja assim. Mas não conseguem fazê-lo. São como mariposas ao redor da lâmpada; não conseguem ficar longe. Voltam. Voltam.
E voltam, sim, caídas e envergonhadas. Sabe, se isso fosse natural, não fariam isso. Eu não faria, só para preservar minha imagem. Não voltaria a mostrar meu rosto ali depois daquilo. De modo algum. Mas há outra coisa — algo mais forte do que a nossa vergonha, mais forte do que a nossa autocensura, mais forte do que o desespero conosco mesmos, mais forte do que as nossas constantes faltas —, algo persistente. Isso nos levanta e nos traz de volta.
Essa é a história da maioria dos filhos de Deus. Como diz 1 João 5:4:
Tudo o que é nascido de Deus vence o mundo.
Isso foi verdadeiro a respeito de Jesus — como Ele venceu? Não pela força física, não por resoluções da vontade, não pelo poder do intelecto, da mente e da argumentação. Ele jamais venceu o mundo e seu príncipe por esses meios.
Pela pura força do caráter divino, pelo tipo de Homem que Ele era, pela natureza divina Nele, Ele venceu. Assim também acontece com cada filho de Deus — talvez em grau muito menor do que no caso Dele; muito mais lentamente em sua expressão e manifestação —, mas, ainda assim, essa força está presente.
Todo verdadeiro filho de Deus sabe disso. Sabe muito bem que, se não fosse por esse domínio interior de algo ou de Alguém que não é ele próprio, não estaria onde está nesta noite, ainda buscando as coisas de Deus.
Não, vencer é inerente àquilo que é nascido de Deus — vencer.
E então a próxima coisa, naturalmente, fica perfeitamente clara: o antagonismo inevitável.
Pouco depois do nascimento do Senhor Jesus, o conflito irrompeu. O reino de Satanás sabia Quem Ele era e o que Ele era, e tinha à mão um instrumento e um meio poderosos em Herodes. O antagonismo irrompeu.
Não nos é contado o que aconteceu durante aqueles trinta anos, da infância à juventude. Isso é deixado de lado. Não seria surpreendente se, mesmo então, houvesse muitas ocasiões em que Ele escapou por pouco. Mas sabemos que, desde o momento em que Ele Se apresentou, sob a unção no Jordão, para assumir essa obra de conduzir outros filhos à glória, todo o inferno estava no Seu encalço.
A atmosfera, como já dissemos antes, ficava carregada de antagonismo sempre que Ele chegava a um lugar. Conhecemos algo daquela atmosfera que nosso Senhor deve ter conhecido — Ele, com Seu espírito tão sensível —, do terrível ódio e da animosidade dos poderes malignos contra Ele, agindo por meio dos homens.
Ah, aquela repetição constante, quase monótona: “Procuravam destruí-Lo. Procuravam destruí-Lo. Planejavam como poderiam destruí-Lo”. Essa era a atmosfera em que Ele vivia.
Por quê? Bem, isso poderia ser atribuído a muitas razões e muitas causas, mas a causa fundamental era esta: Ele pertencia ao céu. E o destino Daquele que é celestial, e daqueles que são celestiais, é possuir este mundo e governá-lo mediante a abolição final de seu príncipe e de todo o seu reino.
E eles sabem. Disseram, como lemos em Marcos 1:24:
Bem sei Quem és: o Santo de Deus.
E não se enganem: eles conhecem todos os que são santos nesse sentido.
Há um antagonismo inevitável na esfera espiritual, tantas vezes impossível de atribuir a qualquer causa física, material ou temporal — ele simplesmente está no ar, está ali. Mas como isso é verdadeiro neste mundo: o antagonismo, o antagonismo de natureza espiritual que o cristão precisa enfrentar sem provocá-lo deliberada ou conscientemente.
Ah, de fato, por uma palavra, por um ato, de um modo ou de outro, essa consciência desperta quando vocês nascem de novo. Você é uma ave de plumagem diferente. É um homem marcado ou uma mulher marcada. Não é verdade? Assim se manifesta o antagonismo.
E, por isso, João diz a respeito desses que são nascidos de Deus, em 1 João 3:1:
Por esta razão o mundo não nos conhece, porque não O conheceu.
Há um significado mais profundo nessa palavra “conhece” do que simplesmente ter consciência de nós, saber quem somos. Trata-se de conseguir nos situar, conseguir nos explicar, conseguir identificar nossa origem — o que somos e de onde viemos.
O mundo não nos conhece. Somos insondáveis para o mundo. Há algo em nós que é insondável. Isso é muito verdadeiro. E isso gera antagonismo.
Permitam-me apelar novamente aos jovens cristãos nesta noite: não tentem eliminar esse tipo de antagonismo. Tenham cuidado para não causar ofensa desnecessária. Procurem recomendar-se à consciência de cada pessoa diante de Deus. Façam o que é honroso diante de todos. Não lhes deem motivo para acusá-los com razão como cristãos.
Mas, depois de terem feito tudo isso, não pensem que deixarão de encontrar esse antagonismo. Vocês o encontrarão. Se você é um filho de Deus, não pode evitá-lo. Simplesmente não pode evitá-lo. E não tente eliminá-lo.
Reconheçam que isso faz parte do próprio fato de serem filhos de Deus, e é uma evidência — uma evidência maravilhosa — de que estão na companhia de Jesus Cristo. O mundo não O conheceu; por isso não nos conhece. Não nos conhece porque não O conheceu.
Posso dedicar um ou dois minutos à própria Maria? Porque ela é, em alguns aspectos, representativa do vaso em que o novo nascimento ocorre. Aqui há uma correspondência entre o nascimento do Senhor Jesus e o de cada filho de Deus.
É claro que precisamos reconhecer a soberania divina da eleição eterna — escolhidos em Cristo antes da fundação do mundo. Aceito isso e o deixo de lado por enquanto. Vamos entrar no tempo; vamos considerar a operação, a atividade de Deus no tempo.
Em que condições, no tempo, em nossa própria vida, isso nos acontecerá? Há algumas condições? Há algumas ocasiões? Há coisas que sempre determinarão onde Deus intervém dessa maneira? Há, sempre.
Uma das coisas belas em Maria, como alguém representativa de um vaso para o novo nascimento, foi aquilo que o anjo lhe disse, em Lucas 1:28. Mais uma vez, nossa tradução não é muito feliz:
Tu és altamente favorecida.
A nota à margem nos ajuda a chegar mais perto:
Tu és agraciada.
Esse é o começo do novo nascimento: ser agraciado.
Se havia uma pessoa naquele pequeno país, naqueles dias, consciente — e isso aparece tão claramente — da maravilha daquilo, daquela condescendência e da sua própria indignidade, era Maria: “Como pode isso acontecer comigo?”
Ele nunca vem aos orgulhosos e autossuficientes, aos que se julgam importantes. Nunca vem àqueles que não percebem que Sua vinda seria uma expressão de graça infinita. Muitas vezes precisamos ser conduzidos até esse ponto antes que isso possa acontecer — levados ao lugar em que a única palavra que corresponde à situação, em nossa consciência, é graça.
É a graça de Deus. Tudo é pela graça.
Tu és agraciada.
É simples, eu sei, mas esse é o começo de tudo na vida cristã. Há um grande milagre de Deus entre nós e Ele: a graça. Que sejamos profundamente tocados, como ela foi, por um lado, pela ausência de qualquer mérito nosso nessa questão.
Isso jamais poderia nos acontecer se nós mesmos e os nossos interesses fossem tomados como o fator determinante. É Deus, em infinita misericórdia, em infinita graça. Esse é um espírito humilde e contrito, e Deus está com ele.
Isso é simples demais? Bem, é assim, vocês veem, porque o novo nascimento está no começo. Aquilo que é de Deus e do céu precisa crescer e crescer. Cada vez mais Ele precisa aumentar, e tudo acontece sobre a mesma base: o esvaziamento de nós mesmos, o derramamento de tudo o que é do nosso eu, para abrir caminho à graça de Deus.
Essa é uma declaração de fato e de necessidade muito, muito útil, não é? Você se sente assim: “Se alguma coisa houvesse de acontecer comigo, teria de ser pela graça de Deus”. Bem, é exatamente assim que Deus quer que seja. É por isso que você chegou a esse ponto; Ele o levou até lá.
Você é agraciado. Ser filho de Deus é ser alguém altamente favorecido, se preferirem essa expressão — agraciado.
A próxima coisa em Maria é sua simplicidade e sua submissão. Há algo muito belo em sua simplicidade, não é?
Sabem, somos complicados demais a respeito de todas essas coisas. Tornamos a vida cristã algo complicado demais. Ao fazer isso, colocamo-nos no nosso próprio caminho, trazendo à frente nossa própria inteligência, nossos argumentos, nossas controvérsias, nossas exigências de explicações e tantas outras coisas.
Tudo isso está ali; o Senhor não consegue prosseguir. É um monte de entulho no caminho. Ele encontra um coração como o de Maria — e não estou colocando Maria num pedestal para ser adorada —, quero dizer, quando Ele encontra um coração simples, simples nesse aspecto.
Não há aqui nada de argumentativo, queixoso ou difícil de lidar. É disso que estou falando. É um coração simples, um coração aberto — perplexo, é verdade, sem compreender, perguntando-se como aquilo poderia acontecer e expressando essa pergunta —, mas, ainda assim, por sua simplicidade, sinceridade e pureza de coração, diz, em Lucas 1:38:
Faça-se em mim segundo a tua palavra.
Submissão absoluta, aceitação completa, até mesmo do mistério e de tudo o que ele envolveria.
Submissão. Como tantos de nós somos lentos em nossa submissão, em nossa entrega, em ceder, em abrir mão. Insistimos em discutir; exigimos alguma explicação; e assim damos voltas e mais voltas nesse círculo interminável, sem chegar a lugar nenhum, porque não queremos abrir mão. Simplesmente não queremos abrir mão.
Por isso voltamos mil vezes ao ponto de onde partimos. Ela colocou toda a sua vida nessas palavras:
Faça-se em mim segundo a tua palavra.
E o anjo se retirou. Era a isso que ele procurava conduzi-la.
Não os deterei mais com isso. Lembro-lhes que isso envolveu Maria em algo. Envolveu-a imediatamente em sofrimento; e então Simeão, oito dias depois do nascimento, lhe disse, em Lucas 2:35:
Uma espada traspassará também a tua própria alma;
para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.
Gostaria de ter tempo para explicar isso, mas penso que há algo aí tremendamente útil. Vocês veem, quando a cruz está operando numa vida, as pessoas começam a revelar a si mesmas — seus pensamentos. Acusam, fazem imputações e dizem: “Isso é por causa de tal coisa”, e assim por diante, e assim por diante.
Isso vem à tona quando alguém está passando por um período difícil. Todos revelam o que estão pensando e sentindo a respeito dessa pessoa — alguns com solidariedade, outros com antagonismo.
Portanto:
Uma espada traspassará também a tua própria alma;
para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.
Se necessário, os homens deveriam revelar de que lado estavam no dia da cruz, e o sofrimento de Maria fazia parte disso.
Bem, isso pode ser um mistério. Podem deixar esse ponto de lado se ele não ajudar. Mas a questão é que esse tipo de coisa que aconteceu com ela, e que acontece conosco, nos envolve em sofrimento. Envolve-nos no escândalo da cruz. Envolve muita incompreensão e muita rejeição.
O anjo a deixou. Ela sabia o que aquilo significava naquele momento, algo de que não podemos tratar agora. Mas Simeão lhe disse o que viria mais tarde nessa mesma direção. Isso é verdadeiro, muito verdadeiro, em princípio.
Agora, queridos amigos, peçam ao Senhor que destaque, de tudo isso, aquilo que lhes será útil. Mas, depois de termos dito tudo o que podemos dizer, uma coisa é a resposta: isso é algo incomum, algo diferente, algo que é de Deus.
Ser filho de Deus não é algo comum. É o resultado de uma intervenção de Deus vinda do céu.