Leiamos novamente as palavras de Pedro a respeito da transfiguração do Senhor Jesus, em sua segunda carta, no primeiro capítulo.
Porque não seguimos fábulas engenhosamente inventadas quando vos fizemos conhecer o poder e a presença de nosso Senhor Jesus Cristo, mas fomos testemunhas oculares da Sua majestade.
Pois Ele recebeu de Deus Pai honra e glória, quando da glória magnífica Lhe foi dirigida uma voz como esta: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”.
E nós mesmos ouvimos esta voz vinda do céu, quando estávamos com Ele no monte santo.
E temos a palavra da profecia ainda mais confirmada; à qual bem fazeis em atender, como a uma lâmpada que brilha em lugar escuro, até que o dia amanheça e a estrela da alva nasça em vossos corações.
— 2 Pedro 1:16-19
Gostaria de relacionar essas palavras com o que ele diz em sua primeira carta, no primeiro capítulo, a partir do versículo dez.
Acerca desta salvação, os profetas que profetizaram da graça que vos havia de ser concedida inquiriram e investigaram diligentemente;
Investigando a que tempo ou a que espécie de tempo o Espírito de Cristo, que neles estava, apontava, quando de antemão testificava os sofrimentos de Cristo e as glórias que se lhes seguiriam.
A eles foi revelado que não para si mesmos, mas para vós, ministravam estas coisas, que agora vos foram anunciadas por aqueles que vos pregaram o evangelho pelo Espírito Santo enviado do céu; coisas para as quais os anjos desejam atentar.
— 1 Pedro 1:10-12
Creio que há muito pouca necessidade de retomar o caminho que percorremos anteriormente, porque o que ainda temos a dizer abrange, em grande parte, o que já dissemos.
Concluímos nossa meditação anterior considerando o resultado da transfiguração. Vimos aquela palavra que Pedro usa aqui, e que aparece em outros lugares. É uma palavra que relaciona a transfiguração com a segunda vinda do Senhor Jesus.
Ela é muito bem traduzida como “poder e presença” — a presença. Essa palavra, como vocês podem ver, é aplicada à transfiguração: a presença do Senhor Jesus em majestade, em poder, em glória. A mesma palavra é usada, e da mesma maneira, a respeito da Sua segunda vinda.
É chamada de Sua parousia, o Seu estar presente. E sabemos que essa manifestação da Sua presença será, de fato, em poder, majestade e glória.
Se essas coisas acompanham a presença do Senhor Jesus, como claramente vemos repetidas vezes — e indicaremos algumas dessas ocasiões à medida que avançarmos —, então a questão não se limita à transfiguração e ao seu significado, nem à Sua vinda no fim. Certamente, toda ocasião da Sua presença, toda manifestação da presença do Senhor Jesus, traz consigo um impacto sobre a situação, sobre o lugar em que Ele está presente.
Podemos indicar, ainda que desenvolvamos isso mais adiante, que há um impacto aqui, no monte da transfiguração.
Aqueles três que estavam ali em Sua presença caíram com o rosto em terra, tomados de grande temor. O Senhor Jesus teve de Se aproximar, colocar a mão sobre eles e dizer:
Levantai-vos e não temais.
A presença do Senhor Jesus reduz a nada toda a nossa própria força, toda a nossa sabedoria natural, todo o nosso orgulho, toda a nossa impetuosidade.
Pedro, como registra outro evangelista, disse:
Senhor, é bom estarmos aqui. Façamos três tendas.
O evangelista diz:
Não sabendo o que dizia.
Em sua própria impulsividade, ele está mais uma vez se intrometendo naquela situação, tomando a palavra e assumindo o controle, querendo organizar aquilo, perpetuá-lo e fazer alguma coisa daquilo: “Eu farei três tendas” — eu, Pedro —, sem saber o que dizia.
É verdade, talvez com as melhores intenções; mesmo assim, ele teve de ser repreendido e colocado em seu lugar. Aquela foi uma experiência devastadora para o que aqueles homens eram em si mesmos.
De um ponto de vista, é algo glorioso ver a Sua majestade. De outro, isso é sempre algo temível. Ou seja, a carne, a vida natural, não pode entrar nisso e se apropriar disso para fazer alguma coisa que sirva ao nosso prazer e à nossa satisfação.
Há um impacto nisso. Esse é o ponto. Isso deixa uma marca.
Nós oramos e vamos buscar uma nova visão do Senhor exaltado; vocês precisam estar preparados para ser conduzidos a essa experiência. Todas as suas próprias energias naturais serão reduzidas a nada, e vocês compreenderão que a majestade não exige outra coisa senão que estejamos com o rosto em terra. Esse é um bom lugar para estar, quando estamos diante Dele.
Foi algo tremendo quando Estêvão viu esse Senhor em majestade e glória. Isso o sustentou durante a terrível provação do martírio — sendo quebrantado, despedaçado e morto —, em meio a todo o ódio e toda a malícia que despejavam sobre ele aqueles que rangiam os dentes e avançavam contra ele.
Ver o Senhor na glória, como ele viu, foi uma saída gloriosa para Estêvão. Mas foi algo tremendamente devastador para pelo menos um homem que estava ali.
Mais do que isso, poderíamos dizer que foi devastador para aquela nação; pois, com o que estavam fazendo, apenas colocavam um segundo selo sobre aquilo que haviam feito ao próprio Homem que agora estava na glória.
O que estou tentando dizer não é que tais e tais coisas caracterizam uma visitação ou uma visão. Mas nunca podemos realmente, realmente ver o Senhor e estar na presença do Senhor sem ter consciência disso e sem que algo aconteça. Isso produz um efeito tremendo.
Assim foi com o Senhor glorificado. Ninguém contestará que houve um impacto naquela ocasião. João O viu quando estava em Patmos; viu esse Senhor glorificado e caiu por terra.
É assim. E, quaisquer que sejam as consequências e os efeitos, todos nós diríamos: “Que tenhamos essa experiência”, em vez desse estado impotente, desamparado, fraco e ineficaz em que tantas vezes nos encontramos.
O resultado da transfiguração — isto é, da visão do Senhor glorificado — é sempre algo tremendo em seus efeitos.
Agora, aqui em sua carta, Pedro está afirmando o fato. Está afirmando o fato da transfiguração. Ele o coloca em contraste com aquilo que chama de “fábulas engenhosamente inventadas” — relatos habilmente fabricados —, em contraste com qualquer coisa meramente fictícia, imaginária e assim por diante. Ele diz: “Isso foi um fato. Estávamos com Ele. Vimos. Ouvimos”.
E diz que isso foi abundantemente confirmado:
Temos a palavra da profecia ainda mais confirmada.
Provavelmente, ele está se referindo ao que havia dito em sua primeira carta, que lemos. Todos os profetas apontavam para aquele sofrimento e aquela glória que se encontraram no monte da transfiguração, quando Moisés e Elias falavam com Ele sobre o êxodo, a partida, que estava para se cumprir em Jerusalém.
Ali, o sofrimento e a glória se encontraram naquele monte. Pedro diz que todos os profetas apontavam para eles e inquiriam e investigavam diligentemente para conhecer o tempo, que espécie de tempo seria, quando profetizavam o sofrimento e a glória.
Assim, os profetas investigaram diligentemente, e então ele coroa tudo isso dizendo:
Coisas para as quais os anjos desejam atentar.
Ele disse: “Nós temos isso. Temos tudo isso cumprido. Estávamos ali no monte e, desde então, temos visto seu desenvolvimento”.
Estamos vivendo na luz e no poder dessa combinação de sofrimento e glória, glória e sofrimento. A palavra da profecia é confirmada tanto no acontecimento quanto em nossa história desde aquele acontecimento. Ela se torna ainda mais confirmada.
Provavelmente, Pedro quis dizer mais do que isso, mas quis dizer isso. Essa não é toda a interpretação, mas é uma parte. Aí está.
O que estou tentando ressaltar é este fato: o próprio Pedro está afirmando aqui que aquilo aconteceu. Mas, quando Pedro acrescenta sua palavra sobre estar “ainda mais confirmada”, vocês percebem que ele vai além do acontecimento, daquele acontecimento histórico, daquela ocasião no monte, como algo que se acrescenta a isso — algo que se acrescenta ao que podemos chamar de episódio, um episódio extraordinário.
Algo mais: em nosso caso, isso se tornou ainda mais confirmado. O que vocês acham? Bem, exatamente isto. Isto que também é tão verdadeiro nos outros casos: não foi apenas algo diante de Pedro, Tiago e João; foi algo que lhes aconteceu e, depois, passou a fazer parte do seu interior.
É verdade, houve o acontecimento que se deu no tempo, em determinado lugar. Mas, junto com ele, algo aconteceu dentro de Pedro.
Essa carta foi escrita muitos anos depois, e vocês percebem que, no contexto imediato, ele está falando da sua partida:
Sabendo que em breve hei de deixar este meu tabernáculo, assim como o Senhor me mostrou.
Procurarei que, depois da minha partida, tenhais estas coisas.
Ele está no fim da sua vida, no fim do seu ministério. Mas algo aconteceu que o sustentou até ali. Algo permaneceu — não como a lembrança de uma experiência objetiva, mas como algo que havia acontecido dentro dele.
Queridos amigos, isso é mais do que uma doutrina, mais do que uma teoria, mais até do que algo nas Sagradas Escrituras. Ver o Senhor produz algo em nós.
Ah, eu gostaria de dedicar todo o restante do meu tempo a isso. Porque, vocês sabem, podemos obter a verdade sobre tudo e qualquer coisa — toda a verdade disponível sobre o próprio Senhor Jesus: Seu nascimento, Sua vida, Suas obras, Suas palavras, Sua morte, Sua ressurreição —, tudo o que há.
Podemos ter toda a verdade sobre a igreja — a igreja, e quanta coisa há disponível! Ter tudo, saber tudo, não haver nada de novo para conhecer sobre ela. E qualquer outra coisa que vocês queiram mencionar nas Escrituras, podemos conhecer tudo a respeito.
E, ainda assim, pode permanecer o fato de que nada aconteceu dentro de nós como resultado disso.
Eu lhes pergunto: o que todo o seu conhecimento sobre a igreja significou como um acontecimento dentro de vocês? Ele fez algo que os colocou numa nova posição, com uma concepção inteiramente nova, revolucionando toda a sua vida, de modo que toda uma ordem de coisas simplesmente desaparece como vazia, e outra ordem, celestial, entra em seu lugar?
É assim que deveria ser. A verdadeira compreensão espiritual não deveria ser apenas algo diante de nós. Deveria ser algo dentro de nós.
Foi assim com Pedro, e podemos acompanhar isso em sua vida. Indicaremos outras coisas. Considerem novamente seu grande contemporâneo, Paulo.
Aqui está este fato: na estrada de Damasco, Jesus lhe apareceu em glória, com um brilho superior ao brilho do sol. Aquela realidade objetiva tremenda que estava diante dele o atingiu de fora.
Mas, como vocês sabem, anos depois, ao falar disso, ele disse:
Aprouve a Deus revelar Seu Filho em mim.
Não apenas a ele; era algo dentro dele.
E toda a vida e todo o ministério do apóstolo Paulo se basearam nesse acontecimento duplo e dele brotaram: a revelação a ele e nele. A majestade do Senhor Jesus tornou-se uma realidade interior para ele e, por isso, algo tremendamente eficaz.
A resposta aos críticos que dizem que Saulo de Tarso estava em um frenesi e, por isso, foi tomado por uma terrível histeria e começou a ver coisas e a acreditar que eram reais — essa é a explicação psicológica da conversão de Paulo —, a resposta, a resposta é sua vida de perseverança, sofrimento e amor, e sua morte por causa do seu testemunho.
Os homens não seguem um caminho assim, dessa maneira, com base num sonho, numa imaginação, numa histeria. Arrisco-me a dizer que uma parte muito pequena daquilo que Paulo teve de enfrentar durante os trinta anos do seu ministério bastaria para eliminar a histeria da maioria dos homens.
Não. Algo aconteceu por dentro. A visão produziu algo nele, além de ser algo que lhe foi apresentado.
E poderíamos continuar com outras pessoas, como João, que viu o Senhor em Sua glória. Mas isso basta. Aquilo lhes aconteceu, mas também aconteceu dentro deles.
Foi um acontecimento, é verdade, mas também foi um processo contínuo ao longo de toda a vida deles. Era isso que estava crescendo. Estava crescendo — essa maravilhosa grandeza do Senhor Jesus.
Eles não compreenderam tudo de uma vez, nem mesmo naqueles acontecimentos maravilhosos. Mas, ao longo da vida deles, isso foi crescendo. Era a única coisa poderosa que estava acontecendo: Jesus, em toda a grandeza da Sua Pessoa e da Sua posição glorificadas, estava dominando todo o horizonte, todo o curso da vida deles.
Agora, isso nos leva ao princípio de tudo isso, que abre um campo muito vasto, no qual poderíamos nos mover por muito tempo. O princípio é o da verdadeira visão espiritual interior.
Não se trata de devaneios visionários, mas de uma visão interior específica, definida. Os devaneios visionários podem ser muito abstratos. Mas o que queremos dizer com visão — visão espiritual — é algo muito concreto. É muito específico.
É uma Pessoa que está em vista. E essa Pessoa não é uma abstração, não é algo irreal ou imaginário: é a poderosa Pessoa, entendem, o Senhor Jesus.
Hesito em simplesmente continuar falando, porque, queridos amigos, afinal de contas, tudo isso pode não passar de palavras.
Vamos ponderar toda essa questão. Vocês e eu, o povo do Senhor, precisamos de algo muito poderoso para nos sustentar até o fim.
Em nossos diferentes lugares, diferentes situações, diferentes experiências, dispersos e pressionados, as coisas estão se tornando muito sombrias, não estão?
Não quero fazer ninguém se sentir mal se vocês não se sentem mal com as coisas, mas a maioria de nós tem consciência de que estamos num conflito espiritual terrível. E a vida cristã não está ficando fácil.
Perdoem-me, às vezes me expresso mal, mas acho que muitos de vocês entendem. Está se tornando extremamente difícil simplesmente continuar firmes e, especialmente, ser vitoriosos.
Era assim quando Pedro escreveu sua carta.
Agora, não queremos uma porção de palavras, uma porção de devaneios visionários, para nos fazer chegar até o fim. Não, queridos amigos, nossa vida cristã deveria estar fundamentada em algo assim: termos visto o Senhor.
Se isso for verdade, seguimos realmente adiante pela operação, pela atividade do Espírito Santo enviado do céu. Precisamos ter uma visão interior do Senhor exaltado.
Para toda perseverança e para todo serviço, isso é essencial. Uma vida que precisa continuar sem isso é apenas um arrastar-se — mera existência, trabalho.
O serviço sem essa visão interior não tem nada que nos eleve, que nos leve adiante. Para tudo, ela é indispensável: vida, trabalho e perseverança.
Precisamos manter essa visão interior do Senhor em majestade e glória sempre nova, sempre clara, constantemente renovada. Com uma visão assim, todos os elementos essenciais para a eficácia são supridos.
Agora, vejam. Antes de tudo, o que precisamos — não apenas os cristãos, mas a igreja como um todo, seja qual for a parte dela a que pertençamos — é de um poderoso senso de propósito que governe a vida. Não é verdade?
Um senso de propósito: há algo pelo qual viver, algo pelo qual trabalhar, algo pelo qual perseverar e seguir adiante. Um verdadeiro propósito dominante em nossa existência e em tudo o que diz respeito a ela.
Mas, se vocês examinarem essa questão, descobrirão que, no Novo Testamento, esses homens e a igreja foram introduzidos nesse propósito dominante.
Estamos tão familiarizados com as próprias palavras que elas perderam sua música:
Segundo o Seu eterno propósito.
Eles eram governados por esse objetivo, por esse alvo, por aquilo para o qual o Senhor os conduzia, os atraía, os constrangia, os impelia. E isso voltava repetidamente quando estavam abatidos, quando parecia que tudo era sem esperança. Revivia dentro deles, reanimava-os e os levantava novamente.
Um senso — não uma mentalidade, não uma teoria, não uma ideia —, mas aquilo que Paulo chama de:
O poder que opera em nós, segundo o poder que opera em nós.
A palavra “opera” ali, como vocês sabem, tem o sentido de energizar: poder que energiza.
O que era isso? Olhem novamente e verão. Tinha a ver com aquele grande, grande fim que Deus havia estabelecido a respeito do Seu Filho, o Senhor Jesus, em majestade, glória e plenitude universais.
Eles haviam visto algo disso Nele. Isso se tornara o grande propósito que unia a vida deles e os impulsionava, com a consciência de que a vida não é vazia, sem sentido. Há um grande fim. Vemos qual é: diz respeito ao Senhor Jesus.
Precisamos ter esse senso de propósito; caso contrário, não iremos muito longe.
Não era apenas um propósito; essa visão espiritual interior também dava estímulo à vida.
Dias e anos de desgaste, de enfraquecimento, de cansaço e de decepção e, em relação a muitas coisas, de desilusão e de profunda tristeza — como é difícil, como é difícil quando se perde o estímulo.
Vale a pena? Tudo isso se justifica? Não estamos gastando nossa força em vão?
Precisamos de estímulo. E, novamente, vejam: era essa compreensão de Cristo como Aquele que havia percorrido esse caminho — cansaço e devastação — e que, triunfantemente, havia sido glorificado e estava ali na glória, que lhes dava estímulo. Isso transmitia à vida um estímulo, uma motivação, um poder.
Além disso, nessa visão há um efeito de coesão. Uma visão tem um grande poder de coesão. Ou seja, ela aproxima as pessoas, mantém as pessoas unidas, faz delas um povo unido que caminha junto. Elas têm uma só visão.
Uma grande ilustração disso é Neemias e o povo do seu tempo: sua única visão. Vejam toda a variedade de pessoas, toda a variedade de dons e qualificações — todo tipo de artesão e profissão mencionado, todas as esferas da vida.
Mas eles eram um só povo, um todo sólido, simplesmente porque tinham uma só visão. Uma única visão — aquele muro e a reconstrução da cidade — dominava o coração e a mente de todos e os reunia numa maravilhosa unidade.
A única maneira de ter unidade — não há outra — é realmente ver o Senhor Jesus e tê-Lo em vista como Aquele que está sobre tudo, acima de tudo, no trono. Isso nos unirá.
E eu disse que o que todos nós precisamos é do poder para perseverar. É justamente nesse contexto, como vimos, que Pedro introduz a transfiguração e fala da prova da fé de vocês, muito mais preciosa do que o ouro que perece — a prova da fé de vocês, as múltiplas provações.
Ele apresenta a visão como o poder para perseverar, para atravessar tudo isso. É-nos dito que Moisés:
Perseverou como quem vê Aquele que é invisível.
Esse é o poder.
Agora vocês podem ver isso do ponto de vista oposto: vejam os efeitos da perda da visão, de se voltar para outras visões.
Assim que o povo do Senhor perde a visão do Senhor, do próprio Senhor, por mais que tenha outras visões, assim que perde a visão do próprio Senhor como Senhor sobre tudo, como Aquele que está no trono, o que acontece?
Perde seu senso de propósito. Perde a consciência do verdadeiro objetivo da sua existência. Isso é verdade? É verdade.
Então precisa de substitutos para aquela visão, a fim de continuar. Faz de outras coisas o seu objetivo. Essas coisas irão decepcionar.
A perda da visão sempre resulta na perda do estímulo — do verdadeiro estímulo para a vida. E isso também é verdade nessa questão da coesão: percam a visão, e o resultado será sempre desintegração, divisão, separação, confusão e perda de força e estabilidade.
É assim, queridos amigos. Não falamos disso como teoria ou técnica. É muito real. Alguns de nós sabemos disso. É por isso que falamos assim e estamos falando assim agora.
Sabemos que, quando um povo — um povo transformado para melhor — é realmente tomado pela visão do trono, da majestade do Senhor Jesus, da autoridade de Cristo, um maravilhoso, maravilhoso senso de propósito toma conta desse povo, juntamente com um maravilhoso estímulo e uma maravilhosa unidade. Eles são um só povo.
É o trono que fez isso, e a compreensão que eles têm desse trono. Mas, quando as coisas tomam o lugar do Senhor — qualquer coisa que vocês queiram mencionar —, então começa a fragmentação. Mais cedo ou mais tarde, instala-se a desintegração: a confusão, a perda do ânimo, do estímulo e do progresso.
Tudo o que estou dizendo é isto, queridos amigos: uma verdadeira visão interior do Senhor Jesus em Sua posição de autoridade e majestade é a resposta para todas as nossas necessidades, pessoal e coletivamente. Foi assim no passado. É assim agora.
Vocês percebem como essa transfiguração foi a confirmação e o complemento de todo o ensino?
Se vocês olharem novamente em Mateus, o relato da transfiguração em Mateus 17 — essas divisões de capítulos nos prejudicam tanto! Suponho que precisamos delas para alguma finalidade, para referência. Mas sugiro que vocês deem muito pouca importância às divisões de capítulos. Os escritores nunca fizeram isso. Simplesmente continuem lendo.
Agora, em Mateus 16, todos conhecem Mateus 16 e o que ele contém. O que temos ali? Bem, temos as quatro grandes realidades da fé cristã e da vida cristã.
Antes de tudo, a Pessoa do Senhor Jesus.
E, chegando Jesus às regiões de Cesareia de Filipe, perguntou aos Seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”
E eles disseram: “Uns dizem João Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas”.
Disse-lhes Ele: “Mas vós, Quem dizeis que Eu sou?”
E Simão Pedro, respondendo, disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”.
E Jesus, respondendo, disse-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas; porque não foi carne e sangue que te revelou isto, mas Meu Pai, Que está nos céus”.
— Mateus 16:13-17
Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.
Acho que, ali, poderíamos dizer que Pedro mais uma vez não sabia o que estava dizendo. Foi uma declaração tremenda:
Tu és o Messias. Tu és o Messias.
Mas Cristo, o Messias, significa o Ungido; e Ele é o Filho do Deus vivo — o fato fundamental do cristianismo: a Pessoa do Senhor Jesus.
Vocês sabem que, para um homem como Pedro — um judeu versado, firmado e saturado no Antigo Testamento e na história judaica —, dizer isso significava muito mais do que percebemos? Há coisas tremendas ligadas àquela palavra, Messias.
Havia três grandes concepções do Messias.
A primeira vocês encontram na primeira parte das profecias de Isaías: o Filho de Davi, a descendência e o Filho de Davi. Vocês se lembram das profecias de Isaías sobre o rebento de Davi. Essa era a primeira concepção do Messias que viria: Aquele que assumiria o trono de Davi, com tudo o que isso significava.
Na segunda metade de Isaías, o Messias é o Servo sofredor do Senhor: Rei, Redentor; Redentor, Rei. Isaías 53 está bem no centro dessa concepção do Messias.
O trono — a redenção. Como isso vai se realizar?
A terceira concepção do Messias que viria, que vocês encontram no livro de Daniel, é muito maravilhosa, se quiserem examiná-la. Daniel 7.
Eu continuei olhando, até que foram postos tronos, e um Ancião de Dias Se assentou: Sua veste era branca como a neve, e os cabelos da Sua cabeça, como lã pura; Seu trono era de chamas de fogo, e as rodas dele, fogo ardente.
Um rio de fogo manava e saía de diante Dele: milhares de milhares O serviam, e dez milhares de dez milhares estavam diante Dele: assentou-se o tribunal, e os livros foram abertos.
— Daniel 7:9-10
Eu estava olhando nas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu Alguém semelhante a um Filho do Homem; e Ele chegou até o Ancião de Dias, e O fizeram aproximar-se Dele.
E foi-Lhe dado domínio, e glória, e um reino, para que todos os povos, nações e línguas O servissem: Seu domínio é um domínio eterno, que não passará, e Seu reino é aquele que não será destruído.
— Daniel 7:13-14
Esse era o Messias que esperavam: Rei, Salvador, Senhor que reina para todo o sempre, com soberania universal.
Quando Pedro disse:
Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo.
Tudo isso estava presente na declaração. Por isso Jesus disse:
Carne e sangue não te revelaram isso.
Meu Pai conhece o significado de ser o Cristo, de ser o Messias, de ser o Filho. É tudo isso.
Meus queridos amigos, mencionei e incluí isso anteriormente com o propósito de tentar ampliar essa concepção da grandeza do nosso Senhor Jesus. Tudo isso é para ajudar a alcançar a visão.
Eu gostaria que, ao falarmos disso e lermos a respeito, vocês vissem que o seu Senhor Jesus não é um pequeno Senhor derrotado pelas mãos do grande inimigo. Somente quando tivermos tal confissão, tal concepção, tal compreensão da Sua Pessoa, conseguiremos atravessar a provação.
Essa é a primeira coisa. Mas a segunda é a igreja. A Pessoa sempre conduz à igreja, na sequência divina.
Eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta rocha edificarei a Minha igreja; e as portas do Hades não prevalecerão contra ela.
— Mateus 16:18
Por quê? Bem, exatamente por essa razão. É a Sua igreja — a igreja Daquele a Quem foram dados o reino e o trono, e Que governará todas as nações.
A igreja é a expressão concreta da visão do Senhor exaltado. Isso fará dela uma grande igreja, uma igreja poderosa, se isso for verdade.
Se Aquele da transfiguração, Aquele da visão de Estêvão, da visão de Paulo — se Aquele, pelo Espírito Santo enviado do céu, é expresso na igreja, pela igreja —, que igreja!
É essa a igreja que conhecemos? Compreendemos realmente que é isso que significa o próprio termo igreja: a expressão concreta Dele mesmo como Senhor sobre tudo?
A terceira coisa, é claro, como vocês podem ver no capítulo dezesseis, é a cruz.
Desde então começou Jesus a mostrar aos Seus discípulos que era necessário ir a Jerusalém, sofrer muitas coisas dos anciãos, dos principais sacerdotes e dos escribas, ser morto e ressuscitar ao terceiro dia.
— Mateus 16:21
A cruz: a terceira grande realidade da fé cristã. Sua maravilhosa cruz.
Gosto daquele pensamento, daquela ideia que certo irmão expressou ao falar de reinar e governar por meio da Sua cruz. Sem dúvida, isso está correto.
Olhem do ponto de vista humano: tanta coisa em sentido contrário — derrota e fracasso, perda e desespero, fraqueza e desamparo. E, no entanto, aquilo demonstrou, na história, ser a força mais poderosa deste universo: a cruz do Senhor Jesus.
Saulo, antes de sua conversão, via a cruz como o próprio símbolo da vergonha, algo desprezível. Ele a odiava.
Depois, disse:
Longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo.
Da vergonha à glória.
A transfiguração transfigura a cruz. Em outras palavras, uma visão do Senhor glorificado transfigurará nossos sofrimentos, transformará inteiramente nossa aflição. Vemos o que aquela cruz realmente significava na mente de Deus.
A quarta coisa é a vinda do Senhor. Aqui está ela novamente no capítulo dezesseis.
Porque o Filho do Homem virá na glória de Seu Pai, com os Seus anjos; e então retribuirá a cada um segundo as suas obras.
— Mateus 16:27
O Filho do Homem virá na glória de Seu Pai: essa é a quarta grande realidade da nossa fé, que nos constitui cristãos — a segunda vinda do Senhor.
Agora, meu ponto é este: a transfiguração foi a coroa, a confirmação e o complemento dessas quatro realidades.
Foi a coroa da Pessoa. Pedro havia dito:
Tu és o Cristo.
O monte da transfiguração deu uma clara evidência desse fato: ele O viu transfigurado.
O Senhor lhe havia dito:
Edificarei a Minha igreja.
O monte da transfiguração deu uma sólida esperança para aquela igreja, se Ele — Aquele — iria edificá-la.
O Senhor estava falando sobre a cruz. Agora, a transfiguração estava dando à cruz uma interpretação inteiramente nova e diferente.
Se Ele havia falado da Sua segunda vinda na glória do Pai, o monte da transfiguração explica isso e demonstra isso.
Ver o Senhor dessa maneira, glorificado, é a confirmação de toda a nossa fé, o estabelecimento de toda a nossa posição e a certeza do nosso triunfo final com Ele.
Que o Senhor nos dê uma nova visão de Si mesmo — do Seu poder, da Sua majestade e da Sua presença.